sexta-feira, junho 08, 2007
Ronda Gramatical
1. Pode contar (com)
"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades com que um sistema pode contar."
Domínio público
Mario Quintana (1906-1994)


Podem falar da violência de minha cidade - e há muita -, mas o Rio não se reduz a isso. Cultura. O Rio de Janeiro transborda cultura, por exemplo, na rua, ela: poesia.
"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."
Cerca de 40 textos do escritor gaúcho foram selecionados para o projeto Leitura em Trânsito. Os ônibus, os táxis do bairro e os tradicionais bondinhos vão ganhar 700 cartões impressos com a obra do poeta. A idéia do projeto é valorizar ainda mais o passeio pelas ruas bucólicas do bairro, oferecendo aos moradores e visitantes acesso à literatura brasileira.
A escolha de Mário Quintana para abertura do Leitura em Trânsito é uma homenagem ao centenário do escritor, comemorado no ano passado. A cada três meses, os cartões serão substituídos por outros com textos de autores diferentes.
O evento está sendo organizado pelo Centro Educacional Anísio Teixeira, o CEAT, instituição instalada em Santa Teresa há mais de trinta anos.
quarta-feira, junho 06, 2007
Aviso ao senador Geraldinho (PMDB-AC)
TudO pelA coiSa púBliCa

Até hoje, essa democracia não votou a favor de uma qualificação radical no ensino, por exemplo, de Língua Portuguesa. Nós preparamos mal nossos alunos, mas, para transformar a realidade do aluno, não há votação; há uma sutil e simpática indiferença. Não exigimos de nós para haver trabalho, não exigimos de nós o resultado melhor de nosso ato de lecionar.
Em reuniões, tenho ofertado idéias para buscar qualificação. Defendo, por exemplo, a idéia de que, no segundo ano do ensino médio, o aluno deve votar no professor que ele deseja para estudar no terceiro ano, porque o último ano do ensino médio possui uma natureza própria de ensino, qual seja, colocar o aluno na faculdade pelo vestibular ou pelo Enem.
Não que os outros anos não tenham esse propósito, mas no terceiro ano isso deve se intensificar.
Outra questão refere-se ao aluno responder a um questionário sobre o desempenho do professor. Falei sobre isso com a diretora Lúcia, e ela disse que adotaria a idéia. Até hoje...
Conselhos
Sobre os Conselhos de Disciplina e de Turma, não avançamos. Existem reuniões e Reuniões. Sobre Conselho de Turma, aprovamos no Conselho Escolar, mas não existe vontade político-educacional da diretora para que isso seja um hábito na escola.
Atividades lúdicas na escola deveriam partir dos Conselhos de Turma, mas, ainda que aprovados, inexistem, porque não passaram de idéia no papel.
Democracia
Para isso, votamos. Para aquilo, não votamos.
Quais nossas metas enquanto escola pública? Nós, até hoje, não temos um Plano Político Pedagógico. Eu já entreguei a Deus.
Corpus Christi
Os professores ressuscitarão na escola pública somente na segunda-feira.
terça-feira, junho 05, 2007
Assassinato em escola pública
Ontem, às 22 horas, um carro desgovernado bateu contra um poste quando um cãozinho fazia xixi.
João mata mulher com 69 facadas.
Polícia apreende 69 quilos de maconha.
Todo dia a mesma notícia sem importância. Nomes mudam. Os fatos, os mesmos. Diante disso, a educação ainda consegue ser menor.
Restou-me este inexpressivo blog, bolha à deriva do tumulto, à deriva dos jornais, à deriva dos enfadonhos fatos policiais.
Aqui, neste espaço, a educação é fato. Eis a matéria.
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Morte em escola estadual
Na terça-feira, 29 de maio, jornais acreanos não noticiaram a morte no corredor da escola estadual, porque assassinato na educação importa muito menos do que um carro bater em poste.
Por volta das 8 horas, o corpo levou vários tiros. O professor-diretor Lulu não chegou a tempo para prender os assassinos, mas a PM realizou o cerco e os três meliantes foram presos.
João da Silva, de 15 anos; Silva da Silva João, de 16 anos; e João da Silva João, de 17 anos, mataram Aula, de 78 anos, com "requintes de crueldade" - frase feita horrível - para perturbar a ordem escolar.
Depois que esfaquearam a idosa na cabeça, saíram de sala de aula para causar tumulto no corredor, impedindo que o professor Bakunin lecionasse sobre anarquismo. Uma inspetora, muito religiosa, abriu a Bíblia para pedir a Deus paciência. Outra inspetora fazia tricô. Uma outra não se moveu por causa de sua condição de pedra.
Como o fato ocorreu pela manhã, o diretor ainda escova os dentes e passava batom. A escola pública pode esperar.
"Esse problema se arrasta há anos com uma perna só", reclama a professora. "Os alunos não viajam para a Europa neste período do ano e resolvem ser turistas na escola".
Sem solução, o professor, entregue à indiferença dos que deveriam colocar ordem, retirou o revólver da cintura e suicidou-se em sala de aula. Os alunos pularam de alegria. "Ele morreu, viva".
segunda-feira, junho 04, 2007
Ronda Gramatical
1. à Porto Velho - Altino Machado & Flamínio Araripe erraram feio, feio como Altino. No blog do feio, há muitos erros, mas, como não tenho tempo para comentar sobre todos, escolhi um: à Porto Velho;
2. Esse tipo de erro assemelha-se a 1 + 1= 3. Erro bobinho. Ingênuo;
3. Nós não escrevemos "a Porto Velho é bonita", porque o artigo "a" inexiste antes de Porto Velho. Ora, se não há artigo "a", não pode haver o acento grave, indicador do fenômeno da crase (união entre artigo "a" + preposição "a"). Permanece, portanto, somente a preposição "a", não havendo a união (crase).
Ronda Gramatical
1. a ele e os - Coloca-se a preposição "a" antes de "ele" e não coloca antes de "dirigentes". É um erro. "Atribuídas a ele e aos dirigentes";
2. à qual - Seu partido não faz "parte a". Seu partido faz "parte de". O correto é "de que seu partido faz parte"; e
3. que fazem oposição - Usa-se o verbo "fazer" como muleta, porque existem jornalistas que coxeiam quando usam a língua portuguesa. Melhor escrever "dirigentes dos partidos que se opõem à Frente Popular do Acre (FPA), de que seu partido faz parte, na realidade, nunca existiram".
Texto do Mais!

Sempre indico aos alunos do Ideal a leitura do caderno Mais!, da Folha de São Paulo. O texto de hoje veio de lá.
Em uma redação, não é só a forma e a gramática, mas, também, o que se pensa, mesmo que isso não seja levado em consideração pela Copeve ou pelas universidades particulares.
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Do ladrão ao barão
Tesoureiro-mor de d. João 6o, Francisco Targini é um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública
LUSTOSA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Durante o reinado carioca de D. João 6ø, tornou-se popular uma quadrinha que dizia: "Quem furta pouco é ladrão,/ quem furta muito é barão,/ quem mais furta e mais esconde/ passa de barão a visconde". Seu alvo era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço.
Nascido em 1756, em Lisboa, Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros. Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará.
Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799, segundo Oliveira Lima, malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Targini veio para o Rio com a corte em 1807.
Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses.
Depois de nomeado tesoureiro-mor, ele foi agraciado com o título de barão de São Lourenço, em 1811, e elevado a visconde, em 1819. Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: "Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário".
Um dos boatos que se contavam dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peça ao meio, revendendo-as depois ao governo pelo dobro do preço original.
Targini também passou à história por ter feito nomear diretor da Academia de Artes, em 1820, após a morte de Lebreton, um medíocre pintor português, Henrique José da Silva, e, como secretário, o padre Luís Rafael Soyé - que, segundo Taunay, era um "velho eclesiástico espanhol, de origem francesa, sem honorabilidade nem compostura, poeta de água doce e parasita do ministro Targini, que se oferecera para trabalhar pela metade do preço".
Também foi nas águas de Targini que se criou um outro parasita, João Rocha Pinto, valido e amigo do peito de d. Pedro 1ø.
Homem rico, erário pobreNas cartas ao cunhado e ministro, o conde de Linhares, Palmela, homem da ilustração portuguesa, apontava Targini como o homem mais corrupto da corte de d. João e recomendava sua demissão.
José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", diz que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego".Hipólito da Costa, no "Correio Braziliense", admirava-se de que Targini, sem outros bens mais que o seu minguado salário, tivesse se tornado um homem riquíssimo, enquanto o erário se achava pobre. E completava:
"Se a habilidade de um indivíduo em aumentar suas riquezas fosse por si só bastante para qualificar alguém a ser administrador das finanças de um reino, sem dúvida Targini, barão do que quer que é que não nos lembra, devia reputar-se um excelente financista".
A edição da "Arte de Furtar" que consta da coleção do Instituto Histórico do Ceará é dedicada a um ex-funcionário da Fazenda no Ceará. Trata-se possivelmente da que foi publicada em Londres, em 1821, por Hipólito da Costa, que, ironicamente, a dedicava ao Visconde S. Lourenço.
A imagem de Targini aparece na página de rosto emoldurada por uma corda, como se fosse uma forca.Nas agitações que antecederam a partida do rei, em 1821, Targini chegara a ser preso na Ilha das Cobras. Mas, segundo se disse, isso fora apenas para poupá-lo de agressões, tal era a sua impopularidade. Logo foi solto e embarcou rumo a Lisboa.
No "Correio", Hipólito criticaria o fato de o conde dos Arcos, principal ministro do regente, d. Pedro, ter dado por justas e liquidadas as contas do tesoureiro-mor e concedido passaporte para aquele se pôr ao fresco.
Segundo Oliveira Lima, o inquérito contra Targini, conduzido pelo conde dos Arcos, "estabeleceu a integridade do funcionário, a quem foi concedida uma pensão".Talvez Lima não conhecesse um manuscrito de 17 páginas datado de 1807 e intitulado "Ode ao Conde dos Arcos", que consta do acervo da Biblioteca Nacional e assinado por Francisco Bento Maria Targini.Segundo Antonio Paim, Targini foi o responsável pela tradução para o português do tratado publicado por Charles Villers, em 1801, "A Filosofia de Kant ou Princípios Fundamentais da Filosofia Transcendental".
Uma das coisas que Oliveira Lima alega em defesa de Targini é o fato de ser homem culto que traduziu o "Ensaio sobre o Homem", de Pope, e "O Paraíso Perdido", de Milton. Esta última foi publicada em Paris, em 1823, com reflexões e notas do tradutor, numa edição muito luxuosa.
De fato, Targini, quando chegou a Lisboa, em 1821, foi impedido de desembarcar, retirando-se para Paris. Ali viveu até morrer em 1827, certamente com tempo e dinheiro para gastar em suas obras de erudição.Creio que, apesar da defesa de Oliveira Lima, vale o refrão espanhol que Hipólito da Costa usou para ilustrar a situação de Targini:
"Quem cabras não tem e cabritos vende, é porque de algum lugar lhe vêm".
Seu enriquecimento no cargo de tesoureiro-mor de um reino tão empobrecido devia ser indício suficiente para condená-lo. Sua vasta erudição não é atenuante, e sim, agravante. Os pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido e a marquesa de Santos, roubavam no varejo, da despensa do rei e do bolsinho do imperador.
Targini roubava à grande, ostentando seus ganhos e correspondendo fielmente a uma outra versão da quadrinha popular citada no início dessa matéria e que terminava dizendo: "Quem mais rouba e não esconde/ passa de barão a visconde".
ISABEL LUSTOSA é historiadora da Casa de Rui Barbosa (RJ) e autora de "Insultos Impressos" (Companhia das Letras), entre outros livros.
sábado, junho 02, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007
GAZETA não está ALERTA
"Polícia encaminhou este ano para o presídio 870 acusados de crimes."
Encaminhou algo ou alguém, nesse caso, escaminhou "este ano" e encaminhou "870 acusados de crimes".
A polícia, no entanto, não encaminhou "este ano"; encaminhou, isso sim, somente os "879 acusados de crimes".
O correto é "polícia encaminhou neste ano para o presídio 870 acusados de crimes".
É preciso ficar alerta, GAZETA!
Letra não é Número
quarta-feira, maio 30, 2007
O Erotismo, de George Bataille
Época em que locadora escreve erotismo quando deveria ser pornografia, o livro de Bataille retira de nós a gosma de ignorância sobre o deus Eros.
Para quem deseja salvar a sua alma a fim de ficar perto do Pai, não pode ir com a mala cheia de vulgaridade, porque o Céu é exigente.
Amanhã, na aula sobre Barroco, tocarei no conceito erotismo, porque, por meio da Literatura, precisamos refletir sobre conceitos e não apenas reduzir a aula a características de época.
Em Literatura, a palavra clama para ser pensada.
Palavras dele, Bataille.
"O erotismo é abordado como uma experiência ligada à vida, não como objeto de uma ciência, mas da paixão, mais profundamente, de uma contemplação poética."
Ainda que seja uma aula de pré-vestibular, não posso admitir a pobreza da Literatura com seu reducionismo apostilado. Alguns professores de departamentos de letras são responsáveis por isso quando selecionam, por exemplo, dez livros.
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Vidas Secas, Graciliano Ramos

Não vejo a realidade com meus olhos, porque, antes, as lentes filtram-na. Meu olhar, portanto, alienado, não sou eu. Meu olhar, as lentes.
"Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. (...)".
O romance, em suas primeiras linhas, apresenta um narrador que visualiza, antes, a terra ("na planície avermelhada"). O espaço. Faz sentido. Esse narrador olha para Fabiano e Vitória como extensões do meio, vidas humanas geradas por um solo seco e, uma vez submetidas ao espaço árido, suas falas também são secas.
Se seca é a palavra de Fabiano, sua reação à morte do filho mais velho não emociona o olhar do leitor, porque o narrador, em terceira pessoa, neutraliza o sentimento paterno para ele, o narrador, mostrar a morte de forma impessoal.
"(...). Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. (...)." É o narrador que afirma, não o pai. Como escreve Sarte, onde existe o narrador realista ou naturalista, a vida não germina. Isso se opõe ao texto A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Eu, na condição de leitor do mundo, não olho a vida por meio de narradores realistas ou naturalistas. Eles esmagam o espírito humano, isto é, ela: a inquietação.
segunda-feira, maio 28, 2007
Nada que sou me interessa

Se existe em meu coração
Qualquer que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em que me conheço
Qualquer cousa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei de ter.
Fernando Pessoa
sábado, maio 26, 2007
Matéria censurada
A verdade mais elaborada, repito, comprovada, não nos serve: as compras do mês são caras; a luz é cara, o consórcio do carro é caro. A verdade, no entanto, custa pouco. Nada.
Restou este blog.
Sinteac: um acerto de contas com a categoria
De Aldo Nascimento
No centro de Rio Branco, na Rua Marechal Deodoro, 747, a sede do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre (Sinteac) é uma casa com vários cômodos, comprada por R$ 115 mil. O dinheiro do imposto sindical pagou.
sexta-feira, maio 25, 2007
Dissertação de alunos
Tenho lido pouco por causa do tempo entregue ao trabalho para depois da escola. Se este país fosse educação, professor entraria no turno da manhã e sairia no turno da tarde. Tempo integral, sem a necessidade de trabalhar em outro lugar.
quinta-feira, maio 24, 2007
Favelização em sala de aula
Pré-Vestibular Ideal

Quanto ao Barroco, expus dois conceitos: razão e sentidos. Consideramos que razão mantém a ordem e os sentidos promovem uma fusão. O Barroco, portanto, a razão dos sentidos, porque é uma arte que ordena as misturas entre os opostos. Na foto, escultura de Bernini, o erotismo e o sagrado comungam-se. Mas o que é erotismo & sagrado? Na próxima aula, faíscas textuais de Georges Bataille e de outros.


