sexta-feira, junho 08, 2007

Ronda Gramatical

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades que um sistema pode contar."

1. Pode contar (com)

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades com que um sistema pode contar."

Domínio público

O governo federal está com um ótimo site. Chama-se www.dominiopublico.gov.br. Acesse!!!

Mario Quintana (1906-1994)











Podem falar da violência de minha cidade - e há muita -, mas o Rio não se reduz a isso. Cultura. O Rio de Janeiro transborda cultura, por exemplo, na rua, ela: poesia.

Até o final de julho, os meios de transporte de Santa Teresa vão circular com um adereço especial: a poesia de Mário Quintana.

"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."

Cerca de 40 textos do escritor gaúcho foram selecionados para o projeto Leitura em Trânsito. Os ônibus, os táxis do bairro e os tradicionais bondinhos vão ganhar 700 cartões impressos com a obra do poeta.
A idéia do projeto é valorizar ainda mais o passeio pelas ruas bucólicas do bairro, oferecendo aos moradores e visitantes acesso à literatura brasileira.

A escolha de Mário Quintana para abertura do Leitura em Trânsito é uma homenagem ao centenário do escritor, comemorado no ano passado.
A cada três meses, os cartões serão substituídos por outros com textos de autores diferentes.

O evento está sendo organizado pelo Centro Educacional Anísio Teixeira, o CEAT, instituição instalada em Santa Teresa há mais de trinta anos.

quarta-feira, junho 06, 2007

O SagradO & O ProfanO


Na igreja, orações; no clube, gemidos.

Aviso ao senador Geraldinho (PMDB-AC)


O senhor trocou seu amigos políticos. Eu até compreendo. Eu só não compreendo o porquê de o senhor não trocar seu "açeçor de comunicassão", porque, minha nossa!!!, seus textos não estão à altura de um Nabor Junior.

Senador, tudo começa pela palavra bem escrita.

TudO pelA coiSa púBliCa


Hoje, pela manhã, a professora-diretora Lúcia reuniu os professores para votar a favor ou não de um feriado prolongado. A maioria dos professores da escola Heloísa Mourão Marques votou a favor de não lecionar na sexta-feira.


Como a democracia é eficiente, soberana, não é verdade?, quando o assunto toma a forma de descanso no espaço público. Como servidores, votamos a favor do que não queremos, no caso, trabalhar, porque essa democracia sabe o que é melhor para nós. Um dia não faz diferença.

Até hoje, essa democracia não votou a favor de uma qualificação radical no ensino, por exemplo, de Língua Portuguesa. Nós preparamos mal nossos alunos, mas, para transformar a realidade do aluno, não há votação; há uma sutil e simpática indiferença. Não exigimos de nós para haver trabalho, não exigimos de nós o resultado melhor de nosso ato de lecionar.

Votar no professor que deseja
Em reuniões, tenho ofertado idéias para buscar qualificação. Defendo, por exemplo, a idéia de que, no segundo ano do ensino médio, o aluno deve votar no professor que ele deseja para estudar no terceiro ano, porque o último ano do ensino médio possui uma natureza própria de ensino, qual seja, colocar o aluno na faculdade pelo vestibular ou pelo Enem.

Não que os outros anos não tenham esse propósito, mas no terceiro ano isso deve se intensificar.

Questionário
Outra questão refere-se ao aluno responder a um questionário sobre o desempenho do professor. Falei sobre isso com a diretora Lúcia, e ela disse que adotaria a idéia. Até hoje...

Conselhos
Sobre os Conselhos de Disciplina e de Turma, não avançamos. Existem reuniões e Reuniões. Sobre Conselho de Turma, aprovamos no Conselho Escolar, mas não existe vontade político-educacional da diretora para que isso seja um hábito na escola.

Atividades lúdicas na escola deveriam partir dos Conselhos de Turma, mas, ainda que aprovados, inexistem, porque não passaram de idéia no papel.

Democracia

Para isso, votamos. Para aquilo, não votamos.


Metas
Quais nossas metas enquanto escola pública? Nós, até hoje, não temos um Plano Político Pedagógico. Eu já entreguei a Deus.

Corpus Christi
Os professores ressuscitarão na escola pública somente na segunda-feira.





terça-feira, junho 05, 2007

Assassinato em escola pública

Meu blog não é lido por muitas pessoas, e a educação não é notícia no Acre como é notícia o assalto em páginas policiais.

Ontem, às 22 horas, um carro desgovernado bateu contra um poste quando um cãozinho fazia xixi.

João mata mulher com 69 facadas.

Polícia apreende 69 quilos de maconha.

Todo dia a mesma notícia sem importância. Nomes mudam. Os fatos, os mesmos. Diante disso, a educação ainda consegue ser menor.

Restou-me este inexpressivo blog, bolha à deriva do tumulto, à deriva dos jornais, à deriva dos enfadonhos fatos policiais.

Aqui, neste espaço, a educação é fato. Eis a matéria.
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Morte em escola estadual

Na terça-feira, 29 de maio, jornais acreanos não noticiaram a morte no corredor da escola estadual, porque assassinato na educação importa muito menos do que um carro bater em poste.

Por volta das 8 horas, o corpo levou vários tiros. O professor-diretor Lulu não chegou a tempo para prender os assassinos, mas a PM realizou o cerco e os três meliantes foram presos.

João da Silva, de 15 anos; Silva da Silva João, de 16 anos; e João da Silva João, de 17 anos, mataram Aula, de 78 anos, com "requintes de crueldade" - frase feita horrível - para perturbar a ordem escolar.

Depois que esfaquearam a idosa na cabeça, saíram de sala de aula para causar tumulto no corredor, impedindo que o professor Bakunin lecionasse sobre anarquismo. Uma inspetora, muito religiosa, abriu a Bíblia para pedir a Deus paciência. Outra inspetora fazia tricô. Uma outra não se moveu por causa de sua condição de pedra.

Como o fato ocorreu pela manhã, o diretor ainda escova os dentes e passava batom. A escola pública pode esperar.

"Esse problema se arrasta há anos com uma perna só", reclama a professora. "Os alunos não viajam para a Europa neste período do ano e resolvem ser turistas na escola".

Sem solução, o professor, entregue à indiferença dos que deveriam colocar ordem, retirou o revólver da cintura e suicidou-se em sala de aula. Os alunos pularam de alegria. "Ele morreu, viva".




segunda-feira, junho 04, 2007

Ronda Gramatical

"A possibilidade de o governo do Amazonas aposentar a proposta federal de recuperar e asfaltar a BR-319, que liga Manaus à Porto Velho (...)."

1. à Porto Velho - Altino Machado & Flamínio Araripe erraram feio, feio como Altino. No blog do feio, há muitos erros, mas, como não tenho tempo para comentar sobre todos, escolhi um: à Porto Velho;

2. Esse tipo de erro assemelha-se a 1 + 1= 3. Erro bobinho. Ingênuo;

3. Nós não escrevemos "a Porto Velho é bonita", porque o artigo "a" inexiste antes de Porto Velho. Ora, se não há artigo "a", não pode haver o acento grave, indicador do fenômeno da crase (união entre artigo "a" + preposição "a"). Permanece, portanto, somente a preposição "a", não havendo a união (crase).

Ronda Gramatical

"Segundo ele, as supostas conversas atribuídas a ele e os dirigentes dos partidos que fazem oposição à Frente Popular do Acre (FPA), à qual seu partido faz parte, na realidade nunca existiram."

1. a ele e os - Coloca-se a preposição "a" antes de "ele" e não coloca antes de "dirigentes". É um erro. "Atribuídas a ele e aos dirigentes";

2. à qual - Seu partido não faz "parte a". Seu partido faz "parte de". O correto é "de que seu partido faz parte"; e

3. que fazem oposição - Usa-se o verbo "fazer" como muleta, porque existem jornalistas que coxeiam quando usam a língua portuguesa. Melhor escrever "dirigentes dos partidos que se opõem à Frente Popular do Acre (FPA), de que seu partido faz parte, na realidade, nunca existiram".

Texto do Mais!


Sempre indico aos alunos do Ideal a leitura do caderno Mais!, da Folha de São Paulo. O texto de hoje veio de lá.

Em uma redação, não é só a forma e a gramática, mas, também, o que se pensa, mesmo que isso não seja levado em consideração pela Copeve ou pelas universidades particulares.

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Do ladrão ao barão


Tesoureiro-mor de d. João 6o, Francisco Targini é um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública


LUSTOSA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Durante o reinado carioca de D. João 6ø, tornou-se popular uma quadrinha que dizia: "Quem furta pouco é ladrão,/ quem furta muito é barão,/ quem mais furta e mais esconde/ passa de barão a visconde". Seu alvo era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço.

Nascido em 1756, em Lisboa, Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros. Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará.

Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799, segundo Oliveira Lima, malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Targini veio para o Rio com a corte em 1807.

Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses.

Depois de nomeado tesoureiro-mor, ele foi agraciado com o título de barão de São Lourenço, em 1811, e elevado a visconde, em 1819. Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: "Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário".

Um dos boatos que se contavam dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peça ao meio, revendendo-as depois ao governo pelo dobro do preço original.

Targini também passou à história por ter feito nomear diretor da Academia de Artes, em 1820, após a morte de Lebreton, um medíocre pintor português, Henrique José da Silva, e, como secretário, o padre Luís Rafael Soyé - que, segundo Taunay, era um "velho eclesiástico espanhol, de origem francesa, sem honorabilidade nem compostura, poeta de água doce e parasita do ministro Targini, que se oferecera para trabalhar pela metade do preço".

Também foi nas águas de Targini que se criou um outro parasita, João Rocha Pinto, valido e amigo do peito de d. Pedro 1ø.

Homem rico, erário pobreNas cartas ao cunhado e ministro, o conde de Linhares, Palmela, homem da ilustração portuguesa, apontava Targini como o homem mais corrupto da corte de d. João e recomendava sua demissão.

José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", diz que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego".Hipólito da Costa, no "Correio Braziliense", admirava-se de que Targini, sem outros bens mais que o seu minguado salário, tivesse se tornado um homem riquíssimo, enquanto o erário se achava pobre. E completava:

"Se a habilidade de um indivíduo em aumentar suas riquezas fosse por si só bastante para qualificar alguém a ser administrador das finanças de um reino, sem dúvida Targini, barão do que quer que é que não nos lembra, devia reputar-se um excelente financista".

A edição da "Arte de Furtar" que consta da coleção do Instituto Histórico do Ceará é dedicada a um ex-funcionário da Fazenda no Ceará. Trata-se possivelmente da que foi publicada em Londres, em 1821, por Hipólito da Costa, que, ironicamente, a dedicava ao Visconde S. Lourenço.

A imagem de Targini aparece na página de rosto emoldurada por uma corda, como se fosse uma forca.Nas agitações que antecederam a partida do rei, em 1821, Targini chegara a ser preso na Ilha das Cobras. Mas, segundo se disse, isso fora apenas para poupá-lo de agressões, tal era a sua impopularidade. Logo foi solto e embarcou rumo a Lisboa.

No "Correio", Hipólito criticaria o fato de o conde dos Arcos, principal ministro do regente, d. Pedro, ter dado por justas e liquidadas as contas do tesoureiro-mor e concedido passaporte para aquele se pôr ao fresco.

Segundo Oliveira Lima, o inquérito contra Targini, conduzido pelo conde dos Arcos, "estabeleceu a integridade do funcionário, a quem foi concedida uma pensão".Talvez Lima não conhecesse um manuscrito de 17 páginas datado de 1807 e intitulado "Ode ao Conde dos Arcos", que consta do acervo da Biblioteca Nacional e assinado por Francisco Bento Maria Targini.Segundo Antonio Paim, Targini foi o responsável pela tradução para o português do tratado publicado por Charles Villers, em 1801, "A Filosofia de Kant ou Princípios Fundamentais da Filosofia Transcendental".

Uma das coisas que Oliveira Lima alega em defesa de Targini é o fato de ser homem culto que traduziu o "Ensaio sobre o Homem", de Pope, e "O Paraíso Perdido", de Milton. Esta última foi publicada em Paris, em 1823, com reflexões e notas do tradutor, numa edição muito luxuosa.

De fato, Targini, quando chegou a Lisboa, em 1821, foi impedido de desembarcar, retirando-se para Paris. Ali viveu até morrer em 1827, certamente com tempo e dinheiro para gastar em suas obras de erudição.Creio que, apesar da defesa de Oliveira Lima, vale o refrão espanhol que Hipólito da Costa usou para ilustrar a situação de Targini:

"Quem cabras não tem e cabritos vende, é porque de algum lugar lhe vêm".

Seu enriquecimento no cargo de tesoureiro-mor de um reino tão empobrecido devia ser indício suficiente para condená-lo. Sua vasta erudição não é atenuante, e sim, agravante. Os pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido e a marquesa de Santos, roubavam no varejo, da despensa do rei e do bolsinho do imperador.

Targini roubava à grande, ostentando seus ganhos e correspondendo fielmente a uma outra versão da quadrinha popular citada no início dessa matéria e que terminava dizendo: "Quem mais rouba e não esconde/ passa de barão a visconde".

ISABEL LUSTOSA é historiadora da Casa de Rui Barbosa (RJ) e autora de "Insultos Impressos" (Companhia das Letras), entre outros livros.

quinta-feira, maio 31, 2007

GAZETA não está ALERTA

Hoje, li no rodapé do programa GAZETA ALERTA isto:

"Polícia encaminhou este ano para o presídio 870 acusados de crimes."

Encaminhou algo ou alguém, nesse caso, escaminhou "este ano" e encaminhou "870 acusados de crimes".

A polícia, no entanto, não encaminhou "este ano"; encaminhou, isso sim, somente os "879 acusados de crimes".

O correto é "polícia encaminhou neste ano para o presídio 870 acusados de crimes".

É preciso ficar alerta, GAZETA!

Letra não é Número















Os alunos do Colégio Acreano estão de parabéns, mas, enquanto os alunos acertam, a diretoria erra para todo mundo ler e reler.

Não há hífen depois de "bi".

Em 2008, o governo federal criará a Olimpíada de Língua Portuguesa.

Outra: II Olimpíada de Matemática não é o mesmo que .

quarta-feira, maio 30, 2007

O Erotismo, de George Bataille



Época em que locadora escreve erotismo quando deveria ser pornografia, o livro de Bataille retira de nós a gosma de ignorância sobre o deus Eros.

Para quem deseja salvar a sua alma a fim de ficar perto do Pai, não pode ir com a mala cheia de vulgaridade, porque o Céu é exigente.

Amanhã, na aula sobre Barroco, tocarei no conceito erotismo, porque, por meio da Literatura, precisamos refletir sobre conceitos e não apenas reduzir a aula a características de época.

Em Literatura, a palavra clama para ser pensada.

Palavras dele, Bataille.

"O erotismo é abordado como uma experiência ligada à vida, não como objeto de uma ciência, mas da paixão, mais profundamente, de uma contemplação poética."

Ainda que seja uma aula de pré-vestibular, não posso admitir a pobreza da Literatura com seu reducionismo apostilado. Alguns professores de departamentos de letras são responsáveis por isso quando selecionam, por exemplo, dez livros.

Bem, um dia, quem sabe, escreverei sobre isso.

.

Vidas Secas, Graciliano Ramos


Frei Beto equipara a ideologia às lentes dos óculos. Não percebo, é invisível, mas a ideologia está lá.

Não vejo a realidade com meus olhos, porque, antes, as lentes filtram-na. Meu olhar, portanto, alienado, não sou eu. Meu olhar, as lentes.
A situação piora quando elas pertencem a uma câmera de TV. São minhas pupilas.
Ora, entre mim e as vidas de Fabiano e de Sinhá Vitória - personagens de Vidas Secas -, a presença dele conduz meu olhar: narrador.
O que leio depende dele. O modo-palavra como narra é o modo-palavra como olho.

"Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. (...)".

O romance, em suas primeiras linhas, apresenta um narrador que visualiza, antes, a terra ("na planície avermelhada"). O espaço. Faz sentido. Esse narrador olha para Fabiano e Vitória como extensões do meio, vidas humanas geradas por um solo seco e, uma vez submetidas ao espaço árido, suas falas também são secas.
Se seca é a palavra de Fabiano, sua reação à morte do filho mais velho não emociona o olhar do leitor, porque o narrador, em terceira pessoa, neutraliza o sentimento paterno para ele, o narrador, mostrar a morte de forma impessoal.

"(...). Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. (...)." É o narrador que afirma, não o pai.
Como escreve Sarte, onde existe o narrador realista ou naturalista, a vida não germina. Isso se opõe ao texto A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna.
Eu, na condição de leitor do mundo, não olho a vida por meio de narradores realistas ou naturalistas. Eles esmagam o espírito humano, isto é, ela: a inquietação.



segunda-feira, maio 28, 2007

Nada que sou me interessa


NADA QUE SOU me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em que me conheço
Qualquer cousa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei de ter.


Fernando Pessoa

sábado, maio 26, 2007

Matéria censurada

Os interesses comerciais estão acima da verdade comprovada, porque tais interesses, e não a verdade, pagam as contas, mantêm todos vivos.

A verdade mais elaborada, repito, comprovada, não nos serve: as compras do mês são caras; a luz é cara, o consórcio do carro é caro. A verdade, no entanto, custa pouco. Nada.

Restou este blog.
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Sinteac: um acerto de contas com a categoria


De Aldo Nascimento

No centro de Rio Branco, na Rua Marechal Deodoro, 747, a sede do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre (Sinteac) é uma casa com vários cômodos, comprada por R$ 115 mil. O dinheiro do imposto sindical pagou.
Ao entrar, do lado esquerdo da recepção, uma porta se abre para um pequeno e estreito corredor que leva aos fundos do sindicato. Lá, bem atrás do imóvel, ao lado de uma dispensa, a última porta: a da tesouraria. Somente duas contadoras possuem a chave.
Para abri-la, a presidente Alcilene Gurgel expediu um documento à contadora Aladir Marlene Ferreira de Souza para este blog examinar alguns papéis, porque, em 8 de maio, o presidente da Comissão Eleitoral, José Rodrigues Arimatéia, entregou um ofício à contadora a fim de que ela não abrisse a porta.
Inútil. À esquerda, pastas organizadas em prateleira ocultam há anos a história financeira do maior sindicato do Acre. Antes de 2006, a contabilidade do Sinteac jamais tinha sido exposta à imprensa, neste caso, a um blog.
Colado à parede da sala, um cartaz ordena que, filiado, mostre que seu sindicato é importante. Atualize-se!. Mas, quando este blog abriu algumas pastas, descobriu que o dinheiro dos filiados é que não tem a menor importância para ser bem administrado.
O Sinteac, há anos, encontra-se desatualizado. Além de ter perdido o mouse da história, os tesoureiros que por ali passaram ignoraram o que fosse contabilidade – números não batem, faltam documentos, notas fiscais inexistem.
Tribunal de Contas
Como não existe Tribunal de Conta de Sindicato, uma licitação, na administração da professora Alcilene Gurgel, foi aberta para auditar e assim comprovar números, documentos, notas fiscais.
Três profissionais se apresentaram. Paulo Ferreira de Sousa, economista e contador, ganhou a licitação por ter apresentado o melhor preço: R$ 5 mil. Em um segundo momento, cobrou mais R$ 2 mil, porque precisou adicionar documentação ao seu trabalho.
Segundo a contadora Aladir Marlene - há 20 anos trabalhando na entidade -, a última auditoria no Sinteac ocorreu quando o professor Edvaldo Magalhães administrou o sindicato. Isso faz uns 15 anos.
Mas o documento dessa auditoria não está no Sinteac, sumiu”, continua Alcilene Gurgel. “Para não sumir o relatório do auditor Paulo Ferreira, resolvi então entregá-lo ao Mistério Público.”
Mas por que a presidente do Sinteac não o entregou antes?
Porque, quando recebi o relatório em maio de 2006, eu o apresentei à diretoria, mas a diretoria decidiu não protocolar no Ministério Público. Acatei, mas, depois, quando percebi que esse documento poderia cair no esquecimento ou desaparecer no sindicato, resolvi, por iniciativa própria, entregá-lo ao Ministério Público na última semana de abril deste ano.”
E, dessa forma, pela primeira vez na história do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre, a forma como se administra o dinheiro dos professores e do pessoal de apoio saiu das pastas verdes, amarelas e vermelhas.
Doação
Segundo uma fonte, não existe entre as normas do Sinteac um artigo que permita doações. Mais: em seu relatório, o auditor Paulo Ferreira registra várias vezes que tais doações não têm o “motivo da finalidade”.
Por exemplo, em 2002 e em 2003, no período de três meses, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) recebeu uma doação de R$ 4.250. Pessoas receberam também, menos João Bosco, professor que leciona Língua Portuguesa no Rodrigues Leite.
Nunca recebi uma doação do Sinteac”, reclama. Agora que sei que o sindicato é casa de caridade, estou precisando de R$ 2 mil para comprar uns livros sobre contabilidade e dar de presente aos ex-diretores do maior sindicato acreano.”
No caso do professor Bosco, ele nunca assinou uma ficha de filiação. Mas em seu contracheque o desconto é mensal para ser doado ou emprestado. Quando procurou o Sinteac para saber sobre sua ficha de filiação, não a encontraram. Bosco nem vota, porque seu nome não consta na lista.
Irei às pequenas causas, pois não sou filiado, descontam em meu contracheque e ainda usam o meu dinheiro de forma irresponsável e amadora”, afirma o professor.
Empréstimos
Sindicato é banco? O Sinteac Bank é. Empresta mil reais, por exemplo, a diretor da entidade, mas falta o comprovante. O blog teve acesso à contabilidade de 2001 a 2005 e constatou o que o auditor Paulo Ferreira anotou em seu relatório – faltam comprovantes.
Em 5 de maio de 2003, o cheque 301.347 da Caixa Econômica foi emitido para pagar um empréstimo de mil reais. Mas não há documento no próprio sindicato que comprove a operação. Somente em maio de 2003, existem 17 cheques sem documentações que comprovem as operações.
Em 1º de outubro de 2003, por meio do cheque 302.069, realiza-se um empréstimo de R$ 3,3 mil. Na pasta do sindicato, não há comprovante. Só nesse mês, há 19 operações financeiras sem a devida comprovação.
Em 3 de fevereiro de 2005, a transferência bancária 19.312 paga R$ 2.184,25 para haver hospedagem em um congresso nacional. Mais uma vez, não há comprovante. Nesse mês, faltam quatro.
A obrigação de juntar alguns comprovantes aos documentos fiscais do sindicato, segundo Elza Lopes, ex-presidente do Sinteac (2003-2005), não é papel do presidente.
A obrigação era dela [a contadora], não era minha tarefa sair atrás de documentos e de papéis”, defende-se Elza.
Para a contadora Marlene, a ex-presidente está equivocada, porque sua função não é essa, a de recolher comprovantes. “Lanço a despesa, mas coloco na contabilidade do sindicato ‘não tem comprovante’”.
Os interesses partidários, muito acima da técnica contábil, gastam dinheiro dos filiados com ineficiência, com incompetência e com indiferença ao que é correto por meio de uma nota fiscal. É fácil, dessa forma, promover “luta sindical” com o dinheiro dos outros.
Muita grana
Há muito dinheiro no Sindicato da Educação. Muito. Com imposto sindical, a arrecadação aumenta consideravelmente, ficando entre R$ 410 e R$ 425 mil. Sem o imposto, a grana oscila entre R$ 142 e R$ 148 mil por mês.
Mas, mesmo assim, segundo a contadora, não sobrava muito dinheiro no passado, algo em torno de mil a R$ 2 mil. Hoje, a cada mês, o Sinteac consegue deixar em caixa uma quantia que varia entre R$ 20 e R$ 25 mil. Hoje, no cofre da entidade, há em torno de R$ 80 mil.
Em minha administração, não há, por exemplo, empréstimo e doação de dinheiro a pessoas, cortei isso”, orgulha-se a professora Alcilene Gurgel. “Saneamos as contas do Sinteac, porque respeitamos o dinheiro do professor e do pessoal de apoio”.
Conselho Fiscal
Há mais de dez anos, o Conselho Fiscal do Sinteac não funcionava. Milhares de reais deixaram de ser fiscalizados, e a última auditoria ocorreu há mais de 15 anos. Em outras palavras, “administrar” dinheiro dos outros não havia mistério.
Após anos, no entanto, em 22 de maio de 2006, é concluída a primeira etapa de uma auditoria e, em agosto do mesmo ano, o relatório do auditor Paulo Ferreira de Sousa chega ao fim.
Pela primeira vez na história do Sinteac, a forma como se administra o dinheiro dos professores e do pessoal de apoio deixa uma fratura exposta. Amadorismo, incompetência e corporativismo são algumas feridas que denunciam um sindicato que descuida de uma arrecadação mensal acima dos R$ 100 mil.
Sentencia o relator sobre as contas de 2001 a 2005.
As prestações de conta (...) mostram um desrespeito com os recursos dos sindicalizados diante da falta de documentos comprobatórios, pagamentos sem atender aos princípios básicos, tais como: princípios da legalidade, princípios da impessoalidade, princípios da publicidade, princípios da eficiência, princípios da licitação, princípios da responsabilidade, princípios da participação, princípios da autonomia.”
No mesmo ano, em 29 de julho de 2006, o 4º Congresso dos Trabalhadores da Educação empossa os membros do Conselho Fiscal do Sinteac. Meses depois, em novembro, o conselho, tendo a professora Maria Célia Lima de Souza como presidente, declara em documento.
Os recursos do Sindicato, naquele período [outubro de 2005 a setembro de 2006], haviam sido gastos com muito critério, zelo e responsabilidade, uma vez que não foi detectada nenhuma irregularidade, mínima que fosse, mesmo diante das mais constantes buscas efetuadas em todas as documentações analisadas pelos membros do Conselho Fiscal”.
Hoje, nas contas do sindicato, não se vê um empréstimo pessoal, não se constata uma doação a qualquer pessoa. Não é só isso. De janeiro a dezembro de 2006, o atual Sinteac gastou R$ 26.742,74 com gasolina e lubrificante - uma média de R$ 2.228,56 por mês – enquanto, de janeiro a abril de 2003, o sindicato tirou do bolso R$ 32.619,69 – uma média mensal de R$ 8.154,92.
Quanto a passagens de avião, Alcilene consumiu R$ 27.142,12 de janeiro a dezembro de 2006 – uma média mensal de R$ 2.261,84. Em 2003, em quatro meses, foram R$ 37.480,07 – uma média de R$ 9.370,17 por mês.
Não resta outra medida deste conselho a não ser elogiar a maneira honrosa, proba e honesta com que a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Educação geriu os recursos financeiros do sindicato especificamente no período de outubro de 2005 a setembro de 2006”, assina a professora-presidente do Conselho Fiscal.
Ainda que suas contas tenham sido reconhecidas como bem administradas, a professora Alcilene Gurgel termina sua gestão sem ter aberto uma licitação para que sua contabilidade fosse auditada. “Não tive tempo”, justifica.

sexta-feira, maio 25, 2007

Dissertação de alunos


Entro em uma sala de escola pública acreana com este propósito: transformar a vida de meus alunos.
Para isso, inquieto-me; insatisfeto, sempre estou. Desejo mais e mais. Dê-mais. Nunca estou pronto, acabado, concluído.

Tenho lido pouco por causa do tempo entregue ao trabalho para depois da escola. Se este país fosse educação, professor entraria no turno da manhã e sairia no turno da tarde. Tempo integral, sem a necessidade de trabalhar em outro lugar.

Mas, se esse tempo não chega, às sextas-feiras, dedico-me à reconstrução textual dos alunos. Cansa. Aula muito cansativa. Estamos na introdução. São duas aulas de Redação por semana.
Em 25 de março deste ano, escreveram que...
"A cada ano que passa, as jovens entre 12 e 18 anos engravidam mais cedo, isso, acontece muito nas periferias, o indice de meninas que engravidam antes dos 18 anos esta muito avançado, muitas vezes os rapazes enganam."
Essa introdução foi reconstruída três vezes. Com as aulas sobre vírgula (Ordem Sintática Direta), realizadas duas vezes por semana como aulas de Gramática, o texto melhorou. Compare.
"A cada ano que passa, o índice de meninas que engravidam antes de completar 18 anos aumenta. Muitas delas não estudam, não possuem renda própria. Normalmente, isso acontece nas periferias".
Apontei erros e, durante o refazer, os alunos buscaram saídas. Quando colocavam uma vírgula em um lugar errado, eu perguntava o motivo de a vírgula estar no local e, só depois da resposta correta, reparando o próprio erro, reescreviam. Se expliquei sobre o uso da vírgula, exijo o uso correto no texto.
A introdução em azul tem cinco linhas no papel, e eu a considerei concluída.
Na próxima sexta-feira, apresentarei cinco introduções refeitas em sala. Observaremos o começo - o que foi eliminado e recriado - e o fim para o aluno perceber as alterações essenciais à organização de raciocínio.
Trabalhoso. Lecionamos, no entanto, para isto: transformar a vida. Para tanto, deve pulsar nas veias a Paixão pelo ato de educar.

quinta-feira, maio 24, 2007

Favelização em sala de aula

















Há professores que abusam, que oferecem aos alunos péssimo exemplo, porque são os primeiros a sujar a escola e as salas.

Como a direção não pune, suja-se mais e mais. Fazem isso em suas casas?

Repare na foto o relaxamento. A parede assemelha-se a lixo. O governo deixou a sala arrumada, mas...

Pré-Vestibular Ideal


Turma nova no Ideal. Em 45 minutos, expressei-me sobre princípios Barrocos. Mentira, antes, algumas observações sobre texto dissertativo.
Quanto ao Barroco, expus dois conceitos: razão e sentidos. Consideramos que razão mantém a ordem e os sentidos promovem uma fusão.
O Barroco, portanto, a razão dos sentidos, porque é uma arte que ordena as misturas entre os opostos.
Na foto, escultura de Bernini, o erotismo e o sagrado comungam-se. Mas o que é erotismo & sagrado?
Na próxima aula, faíscas textuais de Georges Bataille e de outros.