segunda-feira, junho 11, 2007

Acesso à pornografia


Na escola pública, alguns defendem a distribuição de camisinha para que adolescentes das classes mais simples se protejam.

Como na escola a palavra encontra-se enferma, restou a ela o objeto, porque, uma vez doente a palavra, a camisinha cumpre sua função orgânica. Segundo essa função, sexo não pertence à alma, mas tão-somente à carne.

A Literatura na escola poderia ser outra. Ela poderia refletir sobre o Amor com outras disciplinas, porque o Amor precisa ser protegido contra o câncer da vulgaridade. A Literatura - e não a camisinha - cumpriria seu destino ético e estético contra esse mal.

Na escola Helóisa Mourão Marques, distribuí a 55 alunos um questionário sobre pornografia. O resultado me espantou. Repare.

35 meninas de 15 a 17 anos

19 têm acesso à pornografia: 17 assistem a filmes pornôs por meio de DVD.

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20 meninos de 14 a 17 anos

17 têm acesso à pornografia: 16 assistem a filmes pornôs por meio de DVD.

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55 alunos ao todo

36 têm acesso à pornografia.


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A escola pública não realiza pesquisa. Se realizasse, conteúdos de disciplinas poderiam ser destinados a essa demanda. Um exemplo.

O professor de Literatura do ensino médio ainda concebe o Realismo e o Naturalismo segundo esqueminhas de livros didáticos. No entanto, em uma pequena amostragem com 55 alunos, 36 assistem a filmes pornográficos e, por meio deles, deformam as relações humanas.

Enquanto isso, na escola, a Literatura permanece indiferente a uma concepção de corpo segundo o Naturalismo. Não há crítica por meio de conceitos muito bem fundamentados.

Como saída, ou melhor, como não há saída, a camisinha reforça o ideal naturalista na escola. Os professores precisam perder sua inocência sobre a Literatura. Encará-la como texto que se opõe à cultura de massa torna-se essencial.

A Pedra do Reino

Obra clássica de Ariano Suassuna,
"A Pedra do Reino" ganha versão para a TV, que estréia na terça-feira

ESTHER HAMBURGER
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A minissérie "A Pedra do Reino", adaptada do romance homônimo de Ariano Suassuna, com direção de Luiz Fernando Carvalho, que estréia na terça, é um épico que se desdobra em vários níveis.

Com traços autobiográficos, o texto conta a história de d. Pedro Dinis Quaderna, protagonista e narrador tragicômico da história de um reino mítico, alegoria de um certo Brasil, com sede no grandioso sertão do Cariri.

O narrador é obcecado pela retomada da coroa de seus ancestrais, disputada em lutas de sangue. Mas almeja também a glória da academia, capaz de elevar um autor genial à condição imortal.

A árdua tarefa de condensar o romance colossal, pleno de referências à história do Brasil mas também ao universo mítico das narrativas medievais, ganhou vida por meio de uma produção, filmada com uma câmera só, em super 16 mm, que reúne a Globo e a independente Academia de Cinema.

O espírito épico do romance foi transposto para a própria produção, feita em locação no sertão da Paraíba. Cerca de cem pessoas, entre atores, artistas e artesãos nordestinos e uma reduzida equipe de profissionais do Rio de Janeiro e de São Paulo, conviveram durante três meses na pacata Taperoá.

O resultado dessa intensa vivência é um híbrido, em tom operístico, composto de cinema, televisão, circo e teatro.Interlocução múltiplaA textura do trabalho resulta da troca de repertórios entre artistas e artesãos locais e profissionais da cidade grande.

Essa interlocução múltipla, sob o calor ardente do sertão nordestino, transpira e dá força ao produto final.A complexa interação provocou uma profusão de emoções fortes que se transferem à tela.

O paraense Cacá Carvalho faz um magnífico juiz corregedor, que domina a cena a partir do terceiro capítulo. Luís Carlos Vasconcelos encarna um terrível Arésio, o revoltado filho do padrinho de Quaderna. Ambos montaram seus espetáculos teatrais em Taperoá durante a preparação das filmagens.

Irandhir Santos, em sua estréia, brilha na pele do protagonista desengonçado, misto de doido e palhaço, como velho errante contador de histórias e como jovem cativo em busca de um reino encantado.Adornos hiperbólicos enfeitaram as fachadas, as roupas, os cenários.

A interpretação carregada dos atores ajuda a adensar ambientes já sobrecarregados de detalhes, produzindo atmosferas plásticas saturadas de significado.Sem didatismoOs figurinos vestem os personagens com detalhes de artesanato personalizado.

Os cavalos-bonecos se inspiram em cada personagem (o do herói Sinésio é branco). A narrativa não-linear flui com graça e ironia por meio das aventuras de nossos sertanejos em uma caçada na direção da monumental Pedra do Reino.

A paisagem seca do sertão recebe bem bichos de lata. Não há concessões ao didatismo ou ao melodrama. Por vezes temos dificuldades de identificar os personagens. Nem sempre as sutilezas são perceptíveis em uma primeira olhada.

A trilha sonora de Marco Antônio Guimarães, compositor do grupo Uakti, ajuda a conferir um tom cigano e mambembe que combina com o mistério enevoado da série."A Pedra do Reino" é o primeiro trabalho do projeto "Quadrante", que pretende viajar pelo Brasil a realizar adaptações literárias ambientadas em diferentes paisagens, sempre com a participação de artistas locais.

O projeto, a um só tempo de formação e de criação, como o circo-teatro que o inspira, busca agitar as regiões por onde passa. Promete ainda empolgar profissionais cansados da rotina pouco estimulante das produções ordinárias.

Suassuna criou um novo final para a minissérie, que valoriza o teor reflexivo das artimanhas de nosso personagem. PontodeFuga

O colunista Jorge Coli está em férias

sábado, junho 09, 2007

Conforto














Em Rio Branco, onde nós temos uma das melhores frotas de ônibus do Brasil, os empresários, preocupados com o conforto dos passageiros, do trocador e do motorista, colocará na capital do Acre o ônibus-corno.

Haverá ar-condicionado e os bancos serão reclináveis. A passagem será mais barata: R$ 1,1.

Outra novidade, a campainha. Quando o passageiro puxar a corda, ouvirá o mugido de um boi.

Ronda Gramatical

"Papôco morre silenciosamente"
1. Papôco - O Página 20 publicou "Papôco". Paroxítona terminda em "o" não é acentuada. O repórter deveria saber que 1 + 1= 2.

Ronda Gramatical

"Meu comentário: talvez Jorge Viana não seja capaz de tamanha trairagem em aceitar o convite, embora tanto ele quanto Lula discordem da conduta de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente."

1. trairagem - Esse termo inexiste nos dicionários Houaiss e Aurélio.

2. , embora - Quando a oração subordinada encontra-se na ordem sintática direta, ou seja, surge após a oração principal, não há vírgula. Nesse casso, segundo a organização sintática, não há vírgula antes de embora.

sexta-feira, junho 08, 2007

Ronda Gramatical

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades que um sistema pode contar."

1. Pode contar (com)

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades com que um sistema pode contar."

Domínio público

O governo federal está com um ótimo site. Chama-se www.dominiopublico.gov.br. Acesse!!!

Mario Quintana (1906-1994)











Podem falar da violência de minha cidade - e há muita -, mas o Rio não se reduz a isso. Cultura. O Rio de Janeiro transborda cultura, por exemplo, na rua, ela: poesia.

Até o final de julho, os meios de transporte de Santa Teresa vão circular com um adereço especial: a poesia de Mário Quintana.

"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."

Cerca de 40 textos do escritor gaúcho foram selecionados para o projeto Leitura em Trânsito. Os ônibus, os táxis do bairro e os tradicionais bondinhos vão ganhar 700 cartões impressos com a obra do poeta.
A idéia do projeto é valorizar ainda mais o passeio pelas ruas bucólicas do bairro, oferecendo aos moradores e visitantes acesso à literatura brasileira.

A escolha de Mário Quintana para abertura do Leitura em Trânsito é uma homenagem ao centenário do escritor, comemorado no ano passado.
A cada três meses, os cartões serão substituídos por outros com textos de autores diferentes.

O evento está sendo organizado pelo Centro Educacional Anísio Teixeira, o CEAT, instituição instalada em Santa Teresa há mais de trinta anos.

quarta-feira, junho 06, 2007

O SagradO & O ProfanO


Na igreja, orações; no clube, gemidos.

Aviso ao senador Geraldinho (PMDB-AC)


O senhor trocou seu amigos políticos. Eu até compreendo. Eu só não compreendo o porquê de o senhor não trocar seu "açeçor de comunicassão", porque, minha nossa!!!, seus textos não estão à altura de um Nabor Junior.

Senador, tudo começa pela palavra bem escrita.

TudO pelA coiSa púBliCa


Hoje, pela manhã, a professora-diretora Lúcia reuniu os professores para votar a favor ou não de um feriado prolongado. A maioria dos professores da escola Heloísa Mourão Marques votou a favor de não lecionar na sexta-feira.


Como a democracia é eficiente, soberana, não é verdade?, quando o assunto toma a forma de descanso no espaço público. Como servidores, votamos a favor do que não queremos, no caso, trabalhar, porque essa democracia sabe o que é melhor para nós. Um dia não faz diferença.

Até hoje, essa democracia não votou a favor de uma qualificação radical no ensino, por exemplo, de Língua Portuguesa. Nós preparamos mal nossos alunos, mas, para transformar a realidade do aluno, não há votação; há uma sutil e simpática indiferença. Não exigimos de nós para haver trabalho, não exigimos de nós o resultado melhor de nosso ato de lecionar.

Votar no professor que deseja
Em reuniões, tenho ofertado idéias para buscar qualificação. Defendo, por exemplo, a idéia de que, no segundo ano do ensino médio, o aluno deve votar no professor que ele deseja para estudar no terceiro ano, porque o último ano do ensino médio possui uma natureza própria de ensino, qual seja, colocar o aluno na faculdade pelo vestibular ou pelo Enem.

Não que os outros anos não tenham esse propósito, mas no terceiro ano isso deve se intensificar.

Questionário
Outra questão refere-se ao aluno responder a um questionário sobre o desempenho do professor. Falei sobre isso com a diretora Lúcia, e ela disse que adotaria a idéia. Até hoje...

Conselhos
Sobre os Conselhos de Disciplina e de Turma, não avançamos. Existem reuniões e Reuniões. Sobre Conselho de Turma, aprovamos no Conselho Escolar, mas não existe vontade político-educacional da diretora para que isso seja um hábito na escola.

Atividades lúdicas na escola deveriam partir dos Conselhos de Turma, mas, ainda que aprovados, inexistem, porque não passaram de idéia no papel.

Democracia

Para isso, votamos. Para aquilo, não votamos.


Metas
Quais nossas metas enquanto escola pública? Nós, até hoje, não temos um Plano Político Pedagógico. Eu já entreguei a Deus.

Corpus Christi
Os professores ressuscitarão na escola pública somente na segunda-feira.





terça-feira, junho 05, 2007

Assassinato em escola pública

Meu blog não é lido por muitas pessoas, e a educação não é notícia no Acre como é notícia o assalto em páginas policiais.

Ontem, às 22 horas, um carro desgovernado bateu contra um poste quando um cãozinho fazia xixi.

João mata mulher com 69 facadas.

Polícia apreende 69 quilos de maconha.

Todo dia a mesma notícia sem importância. Nomes mudam. Os fatos, os mesmos. Diante disso, a educação ainda consegue ser menor.

Restou-me este inexpressivo blog, bolha à deriva do tumulto, à deriva dos jornais, à deriva dos enfadonhos fatos policiais.

Aqui, neste espaço, a educação é fato. Eis a matéria.
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Morte em escola estadual

Na terça-feira, 29 de maio, jornais acreanos não noticiaram a morte no corredor da escola estadual, porque assassinato na educação importa muito menos do que um carro bater em poste.

Por volta das 8 horas, o corpo levou vários tiros. O professor-diretor Lulu não chegou a tempo para prender os assassinos, mas a PM realizou o cerco e os três meliantes foram presos.

João da Silva, de 15 anos; Silva da Silva João, de 16 anos; e João da Silva João, de 17 anos, mataram Aula, de 78 anos, com "requintes de crueldade" - frase feita horrível - para perturbar a ordem escolar.

Depois que esfaquearam a idosa na cabeça, saíram de sala de aula para causar tumulto no corredor, impedindo que o professor Bakunin lecionasse sobre anarquismo. Uma inspetora, muito religiosa, abriu a Bíblia para pedir a Deus paciência. Outra inspetora fazia tricô. Uma outra não se moveu por causa de sua condição de pedra.

Como o fato ocorreu pela manhã, o diretor ainda escova os dentes e passava batom. A escola pública pode esperar.

"Esse problema se arrasta há anos com uma perna só", reclama a professora. "Os alunos não viajam para a Europa neste período do ano e resolvem ser turistas na escola".

Sem solução, o professor, entregue à indiferença dos que deveriam colocar ordem, retirou o revólver da cintura e suicidou-se em sala de aula. Os alunos pularam de alegria. "Ele morreu, viva".




segunda-feira, junho 04, 2007

Ronda Gramatical

"A possibilidade de o governo do Amazonas aposentar a proposta federal de recuperar e asfaltar a BR-319, que liga Manaus à Porto Velho (...)."

1. à Porto Velho - Altino Machado & Flamínio Araripe erraram feio, feio como Altino. No blog do feio, há muitos erros, mas, como não tenho tempo para comentar sobre todos, escolhi um: à Porto Velho;

2. Esse tipo de erro assemelha-se a 1 + 1= 3. Erro bobinho. Ingênuo;

3. Nós não escrevemos "a Porto Velho é bonita", porque o artigo "a" inexiste antes de Porto Velho. Ora, se não há artigo "a", não pode haver o acento grave, indicador do fenômeno da crase (união entre artigo "a" + preposição "a"). Permanece, portanto, somente a preposição "a", não havendo a união (crase).

Ronda Gramatical

"Segundo ele, as supostas conversas atribuídas a ele e os dirigentes dos partidos que fazem oposição à Frente Popular do Acre (FPA), à qual seu partido faz parte, na realidade nunca existiram."

1. a ele e os - Coloca-se a preposição "a" antes de "ele" e não coloca antes de "dirigentes". É um erro. "Atribuídas a ele e aos dirigentes";

2. à qual - Seu partido não faz "parte a". Seu partido faz "parte de". O correto é "de que seu partido faz parte"; e

3. que fazem oposição - Usa-se o verbo "fazer" como muleta, porque existem jornalistas que coxeiam quando usam a língua portuguesa. Melhor escrever "dirigentes dos partidos que se opõem à Frente Popular do Acre (FPA), de que seu partido faz parte, na realidade, nunca existiram".

Texto do Mais!


Sempre indico aos alunos do Ideal a leitura do caderno Mais!, da Folha de São Paulo. O texto de hoje veio de lá.

Em uma redação, não é só a forma e a gramática, mas, também, o que se pensa, mesmo que isso não seja levado em consideração pela Copeve ou pelas universidades particulares.

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Do ladrão ao barão


Tesoureiro-mor de d. João 6o, Francisco Targini é um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública


LUSTOSA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Durante o reinado carioca de D. João 6ø, tornou-se popular uma quadrinha que dizia: "Quem furta pouco é ladrão,/ quem furta muito é barão,/ quem mais furta e mais esconde/ passa de barão a visconde". Seu alvo era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço.

Nascido em 1756, em Lisboa, Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros. Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará.

Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799, segundo Oliveira Lima, malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Targini veio para o Rio com a corte em 1807.

Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses.

Depois de nomeado tesoureiro-mor, ele foi agraciado com o título de barão de São Lourenço, em 1811, e elevado a visconde, em 1819. Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: "Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário".

Um dos boatos que se contavam dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peça ao meio, revendendo-as depois ao governo pelo dobro do preço original.

Targini também passou à história por ter feito nomear diretor da Academia de Artes, em 1820, após a morte de Lebreton, um medíocre pintor português, Henrique José da Silva, e, como secretário, o padre Luís Rafael Soyé - que, segundo Taunay, era um "velho eclesiástico espanhol, de origem francesa, sem honorabilidade nem compostura, poeta de água doce e parasita do ministro Targini, que se oferecera para trabalhar pela metade do preço".

Também foi nas águas de Targini que se criou um outro parasita, João Rocha Pinto, valido e amigo do peito de d. Pedro 1ø.

Homem rico, erário pobreNas cartas ao cunhado e ministro, o conde de Linhares, Palmela, homem da ilustração portuguesa, apontava Targini como o homem mais corrupto da corte de d. João e recomendava sua demissão.

José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", diz que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego".Hipólito da Costa, no "Correio Braziliense", admirava-se de que Targini, sem outros bens mais que o seu minguado salário, tivesse se tornado um homem riquíssimo, enquanto o erário se achava pobre. E completava:

"Se a habilidade de um indivíduo em aumentar suas riquezas fosse por si só bastante para qualificar alguém a ser administrador das finanças de um reino, sem dúvida Targini, barão do que quer que é que não nos lembra, devia reputar-se um excelente financista".

A edição da "Arte de Furtar" que consta da coleção do Instituto Histórico do Ceará é dedicada a um ex-funcionário da Fazenda no Ceará. Trata-se possivelmente da que foi publicada em Londres, em 1821, por Hipólito da Costa, que, ironicamente, a dedicava ao Visconde S. Lourenço.

A imagem de Targini aparece na página de rosto emoldurada por uma corda, como se fosse uma forca.Nas agitações que antecederam a partida do rei, em 1821, Targini chegara a ser preso na Ilha das Cobras. Mas, segundo se disse, isso fora apenas para poupá-lo de agressões, tal era a sua impopularidade. Logo foi solto e embarcou rumo a Lisboa.

No "Correio", Hipólito criticaria o fato de o conde dos Arcos, principal ministro do regente, d. Pedro, ter dado por justas e liquidadas as contas do tesoureiro-mor e concedido passaporte para aquele se pôr ao fresco.

Segundo Oliveira Lima, o inquérito contra Targini, conduzido pelo conde dos Arcos, "estabeleceu a integridade do funcionário, a quem foi concedida uma pensão".Talvez Lima não conhecesse um manuscrito de 17 páginas datado de 1807 e intitulado "Ode ao Conde dos Arcos", que consta do acervo da Biblioteca Nacional e assinado por Francisco Bento Maria Targini.Segundo Antonio Paim, Targini foi o responsável pela tradução para o português do tratado publicado por Charles Villers, em 1801, "A Filosofia de Kant ou Princípios Fundamentais da Filosofia Transcendental".

Uma das coisas que Oliveira Lima alega em defesa de Targini é o fato de ser homem culto que traduziu o "Ensaio sobre o Homem", de Pope, e "O Paraíso Perdido", de Milton. Esta última foi publicada em Paris, em 1823, com reflexões e notas do tradutor, numa edição muito luxuosa.

De fato, Targini, quando chegou a Lisboa, em 1821, foi impedido de desembarcar, retirando-se para Paris. Ali viveu até morrer em 1827, certamente com tempo e dinheiro para gastar em suas obras de erudição.Creio que, apesar da defesa de Oliveira Lima, vale o refrão espanhol que Hipólito da Costa usou para ilustrar a situação de Targini:

"Quem cabras não tem e cabritos vende, é porque de algum lugar lhe vêm".

Seu enriquecimento no cargo de tesoureiro-mor de um reino tão empobrecido devia ser indício suficiente para condená-lo. Sua vasta erudição não é atenuante, e sim, agravante. Os pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido e a marquesa de Santos, roubavam no varejo, da despensa do rei e do bolsinho do imperador.

Targini roubava à grande, ostentando seus ganhos e correspondendo fielmente a uma outra versão da quadrinha popular citada no início dessa matéria e que terminava dizendo: "Quem mais rouba e não esconde/ passa de barão a visconde".

ISABEL LUSTOSA é historiadora da Casa de Rui Barbosa (RJ) e autora de "Insultos Impressos" (Companhia das Letras), entre outros livros.

quinta-feira, maio 31, 2007

GAZETA não está ALERTA

Hoje, li no rodapé do programa GAZETA ALERTA isto:

"Polícia encaminhou este ano para o presídio 870 acusados de crimes."

Encaminhou algo ou alguém, nesse caso, escaminhou "este ano" e encaminhou "870 acusados de crimes".

A polícia, no entanto, não encaminhou "este ano"; encaminhou, isso sim, somente os "879 acusados de crimes".

O correto é "polícia encaminhou neste ano para o presídio 870 acusados de crimes".

É preciso ficar alerta, GAZETA!

Letra não é Número















Os alunos do Colégio Acreano estão de parabéns, mas, enquanto os alunos acertam, a diretoria erra para todo mundo ler e reler.

Não há hífen depois de "bi".

Em 2008, o governo federal criará a Olimpíada de Língua Portuguesa.

Outra: II Olimpíada de Matemática não é o mesmo que .

quarta-feira, maio 30, 2007

O Erotismo, de George Bataille



Época em que locadora escreve erotismo quando deveria ser pornografia, o livro de Bataille retira de nós a gosma de ignorância sobre o deus Eros.

Para quem deseja salvar a sua alma a fim de ficar perto do Pai, não pode ir com a mala cheia de vulgaridade, porque o Céu é exigente.

Amanhã, na aula sobre Barroco, tocarei no conceito erotismo, porque, por meio da Literatura, precisamos refletir sobre conceitos e não apenas reduzir a aula a características de época.

Em Literatura, a palavra clama para ser pensada.

Palavras dele, Bataille.

"O erotismo é abordado como uma experiência ligada à vida, não como objeto de uma ciência, mas da paixão, mais profundamente, de uma contemplação poética."

Ainda que seja uma aula de pré-vestibular, não posso admitir a pobreza da Literatura com seu reducionismo apostilado. Alguns professores de departamentos de letras são responsáveis por isso quando selecionam, por exemplo, dez livros.

Bem, um dia, quem sabe, escreverei sobre isso.

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Vidas Secas, Graciliano Ramos


Frei Beto equipara a ideologia às lentes dos óculos. Não percebo, é invisível, mas a ideologia está lá.

Não vejo a realidade com meus olhos, porque, antes, as lentes filtram-na. Meu olhar, portanto, alienado, não sou eu. Meu olhar, as lentes.
A situação piora quando elas pertencem a uma câmera de TV. São minhas pupilas.
Ora, entre mim e as vidas de Fabiano e de Sinhá Vitória - personagens de Vidas Secas -, a presença dele conduz meu olhar: narrador.
O que leio depende dele. O modo-palavra como narra é o modo-palavra como olho.

"Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. (...)".

O romance, em suas primeiras linhas, apresenta um narrador que visualiza, antes, a terra ("na planície avermelhada"). O espaço. Faz sentido. Esse narrador olha para Fabiano e Vitória como extensões do meio, vidas humanas geradas por um solo seco e, uma vez submetidas ao espaço árido, suas falas também são secas.
Se seca é a palavra de Fabiano, sua reação à morte do filho mais velho não emociona o olhar do leitor, porque o narrador, em terceira pessoa, neutraliza o sentimento paterno para ele, o narrador, mostrar a morte de forma impessoal.

"(...). Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. (...)." É o narrador que afirma, não o pai.
Como escreve Sarte, onde existe o narrador realista ou naturalista, a vida não germina. Isso se opõe ao texto A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna.
Eu, na condição de leitor do mundo, não olho a vida por meio de narradores realistas ou naturalistas. Eles esmagam o espírito humano, isto é, ela: a inquietação.