De Aldo Nascimento
A
um dono de uma locadora, perguntei certa vez quais gêneros mantêm pagos os impostos
e os encargos sociais de sua empresa. Entre os filmes de ação (mais correto
dizer violência) e os de terror, ele respondeu que o poder público arrecada
mais com ela, a pornografia.
Assim,
se Alexandre Frota é muito mais consumido do que os diretores Luís Fernando
Carvalho (“Lavoura Arcaica”) e Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”), podemos
afirmar, com a devida ironia, que a cultura pornográfica gera “riqueza”.
Mas
saibamos com Nelson Rodrigues - e não com Alexandre Frota – que a pornografia,
bem mais do que imagem, é ideia. Em Álbum
de Família, não há uma cena explícita de sexo; a pornografia, no entanto,
pulsa nessa peça trágica de Nelson Rodrigues como ideia oposta ao sagrado.
Sobre
o móvel da sala, a aparência da família rica em um álbum. Jonas, 45 anos, o patriarca,
é candidato ao Senado. Situada na década de 20 do século passado, a imagem da família
é preservada pela fala da compostura, speaker,
mas o teatro, artifício dionisíaco, nos liberta da aparência quando D.
Senhorinha conta ao marido quem foi seu amante, o jornalista Teotônio. Jonas o mata.
D. Senhorinha, entretanto, mentiu para ocultar a verdade. Seu amante, o verdadeiro
e único, um garoto de 13 anos, ele, Nonô: seu filho.
Por
causa desse incesto, a cria de D. Senhoria cai em desgraça, passando o resto da
vida nu ao redor da casa. Entregue a esse movimento rotatório, Nonô gira como
se fosse um ciclo, mas, nesse espaço circundante, Nonô, criança despida, jamais
nascerá, porque, sem perpetuar a espécie, sozinho, louco, ele representa a
morte que ronda a família.
Tudo nesse texto de Nelson exala morte,
próprio da tragédia. D. Senhorinha mata o esposo para viver com Nonô. Tamanha
loucura não deixa de ser sepultamento. Edmundo, seu outro filho, a deseja, mas,
quando descobre o incesto pela boca do pai, mata-se diante da mãe. Guilherme,
filho mais velho, tem desejo carnal por Glória, caçula e lésbica. Mas, como a irmã
deseja o pai, Guilherme a mata e se mata.
Dessacralizado
pela pornografia, o corpo familiar se reduz a objeto. Impera, aqui, a matéria.
Jonas submete meninas pobres à sua devassidão animalesca. “São umas porcas e eu
também”, delira diante da esposa. Onde a carne é senhora absoluta, onde o
naturalismo se alastra, comparando o humano a animal, a vida se coisifica. Sem poesia, sem existência
espiritualizada, sem transcendência, a violência é inevitável. Tudo se
brutaliza. “Mas o pai tem o direito. O pai até se quiser pode estrangular,
apertar assim o pescoço da filha!”, diz Jonas à esposa.
Sem
mais espaço nesta coluna, digo apenas que, embora tenha escrito essa peça em
1945, Nelson é atualíssimo, porque nunca a indústria do sexo gerou tanta “riqueza”.
Ora, leitor, filmes como “Lavoura Arcaica” não empregam funcionários de
locadora.
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