terça-feira, julho 03, 2007

Mais uma Vez, Ela: a EscolA PúblicA











Escola pública não é notícia. Não circula em jornais seus problemas, suas dores. Embora tenhamos deputados que foram e que jamais serão professores um dia, a Assembléia Legislativa do Acre não debate idéias sobre gestão escolar.

Sobrou este blog para escrever sobre o cotidiano em uma escola pública, a minha.

Hoje, a coordenadora de ensino, escolhida pela diretora à margem da Lei 1.513, expôs, mais uma vez, sobre este problema: alunos no corredor. Há dois anos como gestora, o problema continua.

Pelo que ouvi, a coordenadora de ensino quer que o professor pegue o aluno no corredor e levo-o para a sala. Ora, a direção escolar não consegue fazer com que as inspetoras trabalhem?

Dei uma proposta. Quando o tempo de sua aula acabar, o professor só sairá de sala quando o outro colega de profissão chegar. Eu faço isso com cinco professoras e dá certo.

Por que a coordenadora não adota essa prática? Por que a coordenadora não é mais objetiva?

Sem ser objetiva, a coordenadora realiza uma reunião genérica, referindo-se a todos os professores. Ora, se sabe qual o professor, fale com ele; imponha limites a ele. Há professores que não dominam seus alunos; não conseguem educá-los.

É ótimo haver ordem em uma escola pública, mas, quando exigimos dos outros, devemos ser os primeiros a dar o exemplo. Coordenação de ensino, por exemplo, deve chegar antes dos professores à escola; coordenação de ensino deve andar pelos corredores da escola; coordenação de ensino deve assistir às aulas dos professores; coordenação de ensino deve ter metas para a escola; coordenação de ensino deve, com muita clareza, expor suas propostas para qualificar o ensino de uma escola, a pública.

Quem não dá exemplo não pode ter bons imitadores.

Nesta atual gestão, não avançamos para qualificar o ensino de Redação, e o Enem está aí. A atual gestão ouviu falar de uma proposta sobre Conselhos de Disciplina, mas não sabe organizá-los para que possamos construir uma proposta pedagógica da escola.

Minha nossa, um ensino público sem proposta pedagógica. Uma escola (uma!?) sem proposta pedagógica.

Enquanto isso, os deputados estaduais, achando que tudo vai muito bem na educação pública, ignoram um ótimo debate sobre gestão escolar. Eles sabem criar leis para a educação pública?

Blogueiro mandou essa


"Também creio que o Rio não só se resume a balas perdidas. Nossa, é fanstástico o Corcovado, o Pão de açúcar. A lagoa Rodrigo de Freitas e tantos outros locais. Centro intelectual. Lugar de teatro, música, arquitetura. Quanto à violência, é um caso à parte diante de tanta beleza!!! O Rio tem que ser respeitado e preservado, afinal, como dizia o poeta, Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil. Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil..."

segunda-feira, julho 02, 2007

José



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?





Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Caderno MAIS!, da Folha de São Paulo


Clientes especiais

Rapazes que espancaram doméstica, no Rio,
são obedientes às leis ditadas por uma sociedade
que endeusa a falta de limites

MARIA RITA KEHL
ESPECIAL PARA A FOLHA

Antes de mais nada, como já se notou, existe o viés social.De um lado existem "jovens" que ocasionalmente cometem atos delinqüentes. É o caso de Júlio, Leonardo e seus colegas, espancadores da Barra /. Inspiram-nos cuidado semelhante ao que dispensamos aos nossos filhos. Tentamos compreender: o que aconteceu? (Psicólogos são chamados a justificar.) E existem os outros, os que já são bandidos antes de chegar (quando chegam) diante do juiz.


A execução sumária confirma, a posteriori, o veredito que a imprensa divulga sem questionar: "A polícia matou 18 "suspeitos" em confrontos com supostos "bandidos'"... Ninguém persegue o resultado das investigações sobre as tantas chacinas que caem no esquecimento.

O que distingue uns dos outros é o número do CEP: na Barra, nos Jardins /, no Plano Piloto / vivem os jovens.

Os outros, adultos anônimos desde os 14, vêm de bairros que não figuram no mapa: "Periferia é periferia em qualquer lugar". Qualquer delegado de bom senso percebe na hora a diferença. Se a cor da pele confirmar o veredito, melhor. A sociedade, representada pelo dr. Ludovico Ramalho, pai de Rubens Arruda, se tranqüiliza: as travessuras dos "jovens", adultos infantilizados das classes A e B, não ameaçam a segurança da gente de bem. Espancaram uma doméstica, mas pensavam que fosse prostituta.

Ah, bom.

Nos bairros onde vivem os jovens não há solidariedade com os chacinados das favelas, com os executados a esmo em Queimados /, com os meninos abatidos na praça do Jaraguá, em SP /.

Os movimentos "pela paz" nunca se manifestam por eles.

Ninguém de foraMas, quanto mais o Brasil maltrata seus pobres, quanto mais a polícia sai impune dos excessos cometidos contra os anônimos cujas famílias não protestam por temor de represálias, quanto mais o país confia na lógica do "nós cá, eles lá", mais o gozo da violência se dissemina entre todas as classes sociais.

Para pacificar o país, seria preciso redesenhar o mapa do respeito e da civilidade de modo a não deixar ninguém de fora. Uma sociedade que assiste sem se chocar, ou sem se mobilizar, ao extermínio dos pobres -bandidos ou não- está autorizando o uso da violência como modo de resolução de conflitos, à margem da lei.

Tomemos o ato de delinqüência cometido pelos meninos "de família" da Barra, no Rio. Que a culpa seja dos pais, vá lá. As declarações do pai de Rubens Arruda são reveladoras. Não que ele não transmita valores a seu filho.

Mas serão valores relacionados à vida pública? Não terá o dr. Ludovico educado seu filho para "levar vantagem em tudo"? Esse pai não admite que o filho seja punido pelo crime que cometeu. Há aqueles que não admitem que a escola reprove o jovem que tirou notas baixas, os que ameaçam o síndico do condomínio que mandou baixar o som depois das 22h etc.

Olham o mundo pela ótica dos direitos do consumidor: se eu pago, eu compro. Entendem seus direitos (mas nunca seus deveres) pela lógica da vida privada, como fizeram as elites portuguesas desde a colonização.

Quem disse que os jovens não lhes obedecem? Obedecem direitinho. Param em fila dupla, jogam lixo nas ruas, humilham os empregados -igualzinho a seus pais.

Vez por outra, quando os pais precisam impor alguma interdição, já não se sentem capazes.

O que nos coloca a pergunta: que valores, que representações, no imaginário social, sustentam o exercício necessário da autoridade paterna? Em nome de que um pai ou uma mãe, hoje, se sentem autorizados a coibir ou mesmo punir seus filhos?

A autoridade não é um atributo individual das figuras paternas. A autoridade dos pais -e da escola, que também anda em apuros (quem viu "Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim?) -deriva de uma lei simbólica que interdita os excessos de gozo.

Uma lei que deve valer para todos. O pai que "tem moral" com seus filhos é aquele que também se submete à mesma lei, traduzida em regras de civilidade, de respeito e da chamada boa educação.

Cliente especial

Mas em nome de que, no imaginário social, a lei simbólica se transmite? Já não falamos em "Deus, pátria e família", significantes desmoralizados em nome dos quais muitos abusos foram cometidos, sobretudo no período de 1964 a 1980. No lugar deles, no entanto, que outros valores ligados à vida pública foram inventados pela sociedade brasileira? Em nome de que um pai que diz "não pode" responde à inevitável pergunta: "Não posso por quê"?

Ocorre que a palavra de ordem que organiza nossa sociedade dita de consumo (onde todos são chamados, mas poucos os escolhidos) é: você pode. Você merece. Não há limites pra você, cliente especial.

Que o apelo ao narcisismo mais infantil vise a mobilizar apenas a vontade de comprar objetos não impede que narcisismo e infantilidade governem a atitude de cada um diante de seus semelhantes -principalmente quando o tal semelhante faz obstáculo ao imperativo do gozo.

O que queriam os rapazes que espancaram Sirlei Dias de Carvalho Pinto? Um celular usado? Um trocado para comprar mais um papel? Descontar a insegurança sexual?

"No limits", diz um anúncio de tênis. Ou de cigarro, tanto faz. E os meninos obedecem. No fundo, são rapazes muito obedientes. Se a ordem é passar dos limites, pode contar com eles.

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MARIA RITA KEHL é psicanalista, autora de "Ressentimento" (Casa do Psicólogo).
Colaborou Paulo Fernando Pereira de Souza.

Cocô em Rosas





Uns dias desses, um profissional da educação disse-me:

"O governo quer que a gente transforme cocô em rosas."

Fiquei na minha.

Referia-se a alunos pobres de uma escola pública acreana.

sábado, junho 30, 2007

Ele só nada e nada


Em nota do jornal A TRIBUNA


"Mal assumiu o Sinteac, Manoel Lima já fala que é candidato a vereador. O presidente começa muito mal."

Na foto, Manoel Lima nada na maré baixa. Manoel só nada, nada, nada, nada nas águas turvas do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre, o Sintec.


JustiÇa










Sei que não viverei para isso. O tempo respira contra mim. Um dia, no entanto, o povo cairá de boca na Justiça.

Vou Tomar Conta de Minhas Aulas

Leciono em uma escola pública há uns bons anos e, desde muito tempo, proponho a criação dos conselhos de disciplina.

Finalmente, foram criados, mas o que pensei tem me cansado por falta de objetividade.

Na foto, hoje, pela manhã, a área de Literatura e de Língua Portuguesa se reuniu sem objetivos. Fiquei indiferente, porque certas imposturas me cansam. Fiquei em meu canto e, pela primeira vez, calado.

Tanto para se fazer em uma escola pública e alguns colegas não sabem ou não desejam qualificar o ensino. Na condição de funcionários públicos, não seremos demitidos por incompetência ou por não haver bons resultados. Não somos exigidos para haver qualificação.

Na reunão de hoje, não havia coordenador de área e não havia ata para apresentar o que já fizemos e o que faremos. Falatório. Falatório. Falatório. Blablablá.

Pela primeira vez, saí antes do tempo e sairei toda vez que o Conselho de Literatura e de Língua Portuguesa não for organizado e não traçar metas. Estou cansado de reuniões infecundas. Se não houver comprometimento com o patrimônio público, no caso, a escola, darei uma sólida indiferença como resposta.

Vou tomar conta de minhas aulas, de meus alunos. Aproveitar o tempo para ler e reler mais.

sexta-feira, junho 29, 2007

Saudade


O Rio de Janeiro não se reduz a balas perdidas. Saquarema é um belo lugar para se alimentar e para se banhar.

Quando você for ao Rio de Janeiro, visite este município.

Na foto, a igreja no alto do morro, diante do mar. Saquarema fica 1 hora e meia de Niterói e 50 minutos de Maricá.

Ronda Gramatical

"ineficázeis"

1. Repórter escreveu "ineficázeis".

Ronda Gramatical







“Todos os dias, transportamos usuários do TFD, além de atender o sul-cruzeirense que sofre com a falta de produtos, e, que, por isso, acaba levando várias mercadorias como bagagem”, detalhou."

1. Há dez anos, reviso texto de jornalistas e, até hoje, não encontrei um repórter que dominasse o uso correto da vírgula. Por favor, "produtos e que, por isso, acaba".

quinta-feira, junho 28, 2007

Um curso fora de curso


Foto de Alberto Nunes

Alunos de jornalismo da Ufac realizam protesto
De Tatyane Lima

Na manhã de ontem, os alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) realizaram um protesto em frente à reitoria, pedindo melhores condições de ensino e providências com relação ao reconhecimento do curso pelo Ministério da Educação (MEC).

Vestidos com roupas pretas, usando nariz de palhaço e apitos, cerca de 30 estudantes discutiram a falta de equipamentos e laboratórios, a falta de professores, o reconhecimento do curso pelo MEC e a implantação do curso de Jornalismo em Cruzeiro do Sul.

Os alunos não concordam com a universidade investir em um novo curso, sendo que o da capital ainda precisa de muitas melhorias.

“Em recente entrevista, o reitor Jonas Filho disse que o curso de Jornalismo do Juruá seria no nível da UnB (Universidade de Brasília). Isso é uma afronta para nós que cursamos o curso aqui em Rio Branco e não temos sequer o reconhecimento do curso pelo MEC,” declarou o estudante do 8º período Jaílson de Macedo.

Em junho do ano passado, o Mec visitou as instalações do curso de Jornalismo da Ufac e fez uma série de exigências quanto à compra de novos equipamentos e reformas do bloco onde atualmente estudam quatro turmas.

Um ano após a visita, nada foi feito. O coordenador do curso, Maurício Bittencourt, explica que a universidade tem muitas dificuldades para conseguir trazer os recursos de Brasília para a Ufac.

“A verdade é que vivemos um momento em que o governo federal não está preocupado com as universidades públicas. E ainda temos de enfrentar uma série de problemas, como falta de recursos financeiros e as greves,” comentou.

Segundo ele, a reitoria liberou a compra dos novos equipamentos, mas as licitações não puderam ser abertas devido à greve dos servidores.

Os universitários prometem continuar as mobilizações caso a reitoria não apresente até o final da semana uma solução prática para os problemas.

A Matemática quer Brincar



Tem professor que só serve para entrar e sair de sala com aulinhas escritas na lousa e copiadas por alunos.

Outros... fazem os cálculos e desejam brincar para alegrar a escola. Esses outros são os professores de Matemática da escola Heloísa Mourão Marques.

Em julho, uma gincana cultural irá rolar na escola. Na foto, a explicação foi ótima para o bem de todos.

A área de Matemática merece os parabéns.

Enem Assim
















Foto de uma introdução dissertativa de um aluno de ensino médio. Sem a mínima noção de pontuação, esse texto tem sido a regra.

O presidente do Sinteac lutará por qualidade de ensino? Duvido.

Se lutar, deverá começar por Literatura, Língua Portuguesa e Matemática.

Há uma realidade entre quatro paredes que propagandas de governos não conseguem ocultar e que a incompetência sindical não alcança.

Li tarde demais

"Professor amanhã aqui na UFAC, mais especificamente na reitoria, os acadêmicos do Curso de Jornalismo irão fazem um manifesto contra a liberação de verba e implantação do referido curso no vale do Juruá. Será um ótimo momento para o JORNAL A TRIBUNA fazer a cobertura. Será amanhã pela manhã, das 9:00 da manhã ( 28/ 6/2007). Pedimos que A TRIBUNA envie um m reporter."

1. Li a mensagem em 28 de junho, às 16h25min.

quarta-feira, junho 27, 2007

A escrita de meus alunos

Podem criar suas propagandas, mas, sem elas, eu vivo a realidade escolar há anos. Há anos. No que se refere a textos dos alunos, conheço bem o que a escola pública impossibilita.

Em 23 de março deste ano, meus alunos, de forma livre, escreveram suas introduções. Leia esta:

Introdução do aluno em 23 de março.

"As familias, estão se acabando com pai matando filho e vice-versa. Por isso enquanto não a ver compartilhamento entre pai e filho vai continua violência na sua casa frequentimente todos os dias".

Esse texto foi escrito por uma aluno do segundo ano do ensino médio, ou seja, dois anos antes de ingressar em uma universidade. O sistem não funciona, porque 100% dos alunos - eu disse 100% - não sabem usar as vírgulas.

Podem pedir que "açeçores de comunicassão" adulem o poder, mas o cotidiano escolar, da forma como se organiza, impede qualificar o ensino, por exemplo, de redação.

Com essa introdução acima, precisamos priorizar os erros. No meu caso, por questão de organização interna do texto, priorizo o uso da vírgulas. Passo aos alunos exercícios relacionados à Ordem Sintática Direta, uma prática que elimina mais de 80% dos erros.

Em aulas de gramática, duas por semana, massifico exercícios com vírgulas segundo a Ordem Sintática Direta. Em um texto bom de jornal ou de revista, realizamos leitura e eu mostro a eles o uso da vírgula.

Com duas aulas de redação na semana, reconstruímos as introduções. Aula, profundamente, cansativa, porque os alunos erram muito e repetem os mesmos erros.

Frequentimente - Quando há erro ortográfico, marco no texto e o aluno consulta o dicionário para escrever corretamente.

Repare como ficou a introdução do aluno após 11 reconstruções.
Introdução do aluno reconstruída em 15 de junho.

"Após dez reconstruções, a introdução ficou assim em 15 de junho de 2007. A destruição das famílias acontece porque, em alguns lugares do país, os filhos não ouvem os conselhos de seus pais. Com isso, eles trazem a violência para dentro de suas próprias residências. termina destruindo a suas famílias."

Ficou melhor, mas precisa melhorar mais ainda. Na sexta-feira, dia 29, apresentarei quatro introduções reconstruídas para que observem, mais uma vez, o que deve ser evitado.

terça-feira, junho 26, 2007

Eu Não a Vi Hoje (2)

Eu não a vi. Não vi. Ela, eu não a vi. Não vi. Não. Ela, eu não a vi. Não vi. Não a vi. Eu não a vi.

Eu-lírico (5)


Na foto, Max Horkheimer. Ele e Adorno escreveram um ótimo livro sobre a Razão, Conceito de iluminismo. Quando o professor bobinho de Literatura tagarela em sala sobre eu-lírico, não relaciona a voz poética como inquietação estética oposta à cultura de massa, ou seja, a Literatura desse professor ignora a linguagem poética no mundo hodierno.

Suas aulas são rotinas que reproduzem livros didáticos.

No caso de Conceito de iluminismo, quando o lemos, nós perdemos a inocência tola sobre a função política da razão científica ou instrumental, a mesma que gerou a sociedade industrial.

Os românticos e os simbolistas, por exemplo, opõem-se à mecanização da vida, porque "o industrialismo reificou as almas", isto é, coisificou-as.

Mas o que é "coisificar"? Horkheimer e Adorno respondem.

"Por meio das inúmeras agências de produção e de cultura de massa, os modos de comportamentos sujeitos a normas são inculcados no indivíduo como os únicos naturais, decentes e racionais. Ele só se determina ainda como coisa, como elemento estatístico, (...). Sua medida é a autoconservação, a adaptação à objetividade bem ou mal sucedida das suas funções, e o modo imposto para esta adaptação
."

Gostei de "a adaptação à objetividade bem ou mal sucedida das suas funções".

segunda-feira, junho 25, 2007

Manuel Lima & o Sinteac

















Escolheram Manuel Lima para representar o Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre.

Um vez por ano, o Sinteac, por meio do "imposto sindical", mete a mão em meu bolso para administrar mal o dinheiro.

Por isso, sou forçado tecer uma crítica a um sindicato que perdeu o mouse da história.

Não sei se ele tem filhos, mas Manuel pode ser um ótimo pai. Pode ser um ótimo filho, um ótimo esposo, um ótimo cristão, mas não acredito que ele seja um ótimo administrador.

Pelo que leio nos jornais, as falas de Manuel nunca salivaram o novo. Pelo que diz à imprensa, Manuel deixou de ser professor há muito tempo para se reduzir aos chichês sindicais. Em outras palavras, Manuel não inovará o Sinteac, porque duvido de sua inteligência para isso. Manuel é senso comum.

O sindicato dos professores só serviu até hoje para sustentar um corporativismo anacrônico com o dinheiro dos outros e, dessa forma, projetar nomes. Infelizmente, Manuel Lima representa o continuísmo de um partidarismo parasita de um dinheiro arrecadado à custa de uma estrutura sindical envelhecida.

1. Manuel, como outros, falará para a categoria com clichês sindicais. Manuel não falará para a sociedade;

2. Manuel não promoverá um congresso para debater sobre um novo sindicato. Não trará intelectuais de outros estados para problematizar a questão;

3. Manuel manterá uma luta limitada a interesses econômicos. Ele não possibilitará um sindicato que fale muito bem sobre qualidade de ensino;

4. Manuel não fará auditoria no final de sua gestão;

5. Manuel não modernizará o Sinteac, pois o sindicato ainda servirá aos interesses de grupos partidários;

6. Manuel não criará uma imprensa autônoma no Sinteac que pense, por exemplo, sobre educação;

7. Manuel não possibilitará uma nova estrutura sindical;

8. Manuel não colocará em seu discurso a importância da cultura.

Três Livros

Palavras sem sentido

De linhagens distintas, três novas obras reiteram
a inquietação quanto à legitimidade da poesia na atualidade

MARCOS SISCAR
ESPECIAL PARA A FOLHA
CADERNO MAIS!

Apesar de distintas visões sobre a natureza de seu ofício, três novos livros de poesia reiteram uma mesma inquietação quanto à legitimidade da prática poética: para que poesia? A pergunta, em aparência contraditória, é um dos eixos do discurso poético moderno e se tornou mais aguda depois do "fim das vanguardas", adormecido o etos transformador que a atenuou ao longo de quase todo o século 20.

O desconforto aparece na justificativa editorial da poesia reunida (incluindo vários inéditos) de Alberto Pucheu, no destaque dado à existência de um "projeto", reforçado pela presença de entrevistas do autor, como se a poesia devesse ininterruptamente explicar a que veio.

A obra permite acompanhar as transformações -não apenas o programa- de uma escrita que busca a "fronteira desguarnecida" entre poesia e filosofia, passando das elipses metonímicas a uma expansão reflexiva.

A profusão textual ("falatório"), organizada pelo princípio da montagem ("arranjo"), é seu modo de acolher o "silêncio", no "espanto" do acontecimento.

Abandonando a trava poundiana da síntese carregada de significados, o poeta encontra no parentesco com o pensamento um modo de merecer a vida ("Passo a vida imerecidamente"), mas também de atribuir sentido à manifestação poética. É significativo que essa transformação tenha início na comoção pelos livros esquecidos nas bibliotecas, o que legitima o poético como espaço de transgressão ("O mais novo interdito: não há lugar para o livro./ Transgressão em exercício: o livro como lugar").

O novo livro de Paulo Henriques Britto dá continuidade a uma voz poética mais conhecida dos leitores de poesia. Seu gesto demolidor contraria o de Pucheu, dirigindo-se contra o pensamento abstrato e contra a experiência sentimental.Em Pucheu, a vida "espreita a cada esquina"; em Britto, ela se limita ao mínimo suspiro.

Há certa violência crítica em Britto contra a profundidade do assunto, a favor da superfície, ou seja, da comunicação que se aproxima do simples contato ("e se a linguagem for apenas fática?"). Nota-se a proximidade dessa poética não apenas com a lucidez mas também com a obsessão da forma típica de João Cabral, acolhedora e claustrofóbica. Seu espaço é estreito, sem saída ("beco"), como a medida fixa, tendo em vista a tênue razão de não ser "pior do que outro qualquer".

Dissimetria

Apesar disso, um breve suspiro de vida se manifesta: pragmático, ácido, sem concessões. É o lado talvez drummondiano da poesia de Britto que, à bem cabralina "inapetência para os sentimentos", acrescenta o patos da recusa da "piedade".

É nesses momentos de dissimetria, entre a aridez de superfície e o envolvimento subjetivo com algo que tem que "seguir em frente", que a poesia de Britto respira mais livre, para além da reconhecida coerência de sua poética.

Com "Andaimes", Milton Torres, que é também historiador e diplomata, prossegue um projeto recente (outro livro de poemas saiu pela Ateliê, em 2005), mas de fôlego amplo, que o prefaciador define como busca dos "fundamentos intelectuais da cultura eurocêntrica". O leitor não deve deixar-se enganar pela modéstia do título: Torres se apresenta como um cosmopolita erudito, com manuseio maduro da tradição poética.

Pelo domínio de referências culturais heterogêneas, de modo fragmentário e citacional, seus poemas evocam uma espécie de "pós-modernismo crítico" no qual, entretanto, a questão cultural dificilmente ganha corpo, em sua abrangência, uma vez que tende a diluir-se na exuberante profusão de línguas (basicamente português e inglês, com incursões freqüentes pelo espanhol, francês e italiano), de citações, de exercícios de estilo. Embora organizado tematicamente, o ecletismo do livro é algo desconcertante.

Se, para Britto, o real é um "excremento de palavras" e a razão de escrever oscila entre o desencanto individual e uma exigente visão da vida literária, para Torres é a poesia que está na "lixeira" do real, pois, à falta de "mercado", vive de "propina".

A conclusão, neste caso, sugere que o poeta supostamente corrompido está ausente do poema realizado: o impasse se resolve pela presunção de inocência -ingênua ou cínica- que apenas reforça os motivos da suspeita.

A despeito disso, o cuidado em oferecer uma justificação pública ou pessoal para a prática poética encontra sintonia com os "faits divers" da poesia. O modo inquieto, sistemático e contraditório com que essa justificação tem sido feita mostra que alguma coisa respira na poesia contemporânea, ainda que renovando as razões de sua perplexidade.

MARCOS SISCAR é professor de literatura na Universidade Estadual Paulista.
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A FRONTEIRA DESGUARNECIDA
Autor: Alberto Pucheu
Editora: Azougue (tel. 0/xx/21/ 2240-8812)
Quanto: R$ 32 (288 págs.)

TARDE
Autor: Paulo Henriques Britto
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 33 (96 págs.)

ANDAIMES
Autor: Milton Torres
Editora: Ateliê (tel. 0/xx/11/ 4612-9666)
Quanto: R$ 45 (200 págs.)