segunda-feira, maio 12, 2008

Uma entrevista à moda Umberto Eco

O professor aloprado

Autor do best-seller "O Nome da Rosa", Umberto Eco ataca o papa Bento 16 e Silvio Berlusconi e alerta que o excesso de informações está matando a memória.

"Alguém que é feliz a vida toda é um cretino; por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto."




O crítico, lingüista e romancista italiano Umberto Eco, que se aposentou da Universidade de Bolonha no ano passado

JUAN CRUZ
Umberto Eco é um homem quase feliz. Um professor que desfruta a companhia de seus alunos e que agora, aos 76 anos, aposentado de suas múltiplas ocupações acadêmicas [desde 2007, na Universidade de Bolonha], continua a trabalhar "ainda mais do que antes", dando aulas doutorais, escrevendo livros ("nem meia palavra sobre o livro que estou escrevendo agora!", exclamou, colocando o dedo sobre os lábios), participando de congressos, lendo histórias em quadrinhos ("hoje são intelectuais demais") e rindo como um garoto.

Quando o fotógrafo lhe pediu que posasse com um "borsalino", o tipo de chapéu que tornou mundialmente conhecida sua cidade natal, Alexandria, Eco se divertiu como se tivesse voltado ao quintal da casa de sua família, ao lugar que está cada vez mais próximo de sua memória, como se a idade o fizesse recuperar os sabores perdidos da adolescência.

Vive numa casa belíssima, repleta de livros e exemplares antigos, muitos dos quais consegue numa livraria perto dali, na via Rovello, em Milão. Todas as tardes, quando está na cidade e não viajando, esse homem, que já se queixa de que tiram o sal de sua comida e afugenta os doces como se fossem uma tentação maldita, vai até essa livraria e sebo para vasculhar catálogos e procedências, antes de ir tomar seu aperitivo num café onde é conhecido como "il professore".

Perto da livraria fica a barbearia de Antonio, que colocou um retrato de Eco com seu borsalino na porta de vidro; assim, Eco se vê retratado enquanto Antonio lhe faz a barba. Barba que já tem os fios brancos de um homem que se diz velho, mas que conserva o ritmo de vida que o tornou legendário entre os acadêmicos de todo o mundo, por sua atividade e a diversidade de gostos. Umberto Eco continua sendo esse homem feliz ("quase feliz -quem se diz totalmente feliz é um cretino!") que canta, recita, conhece citações inteiras de memória, que se interessou antes dos outros pelas novas tecnologias, que as utilizou em seus trabalhos - o mais recente é "Quase a Mesma Coisa", sobre tradução-, embora mantenha o celular quase sempre desligado. No entanto usa o e-mail obsessivamente, como se fosse um prolongamento natural das conversas. Quando bate papo, ainda é aquele homem tímido que teme cometer alguma gafe -"se falo demais, é para preencher os momentos de silêncio"-, mas, quando surge um assunto que o diverte, sua gargalhada enche o cenário.

Escreveu "O Nome da Rosa", sucesso mundial absoluto, e abriu as portas da fama como ensaísta com "Apocalípticos e Integrados", mas continua a acreditar que a comunicação só é digerida se aquele que a emite é capaz de colocar-se na altura daquele que o ouve.

Por isso, tanto ao conversar quanto em seus livros sempre entremeia suas reflexões ou apologias com piadas. Eco continua a estudar; quando o deixamos, ele ia para sua casa, talvez para ocupar-se de Carlos Magno ("Diga Carlos Magno, assim vão pensar que escreverei sobre ele em meu próximo livro, e começará o boca-a-boca"). Sempre divertido e sempre quase feliz.

FOLHA - Há uma cena em sua vida, quando toca trompete para os "partigiani" [movimento antifascista], aos 13 anos, na praça de Alexandria, que transmite felicidade... O sr. sempre parece estar tão feliz!
UMBERTO ECO - Aqui há duas coisas: aquele garoto e a felicidade. São diferentes, não podem coincidir. Não acredito na felicidade -estou lhe dizendo a verdade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo -sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho -naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto. Aquele menino é o que irá aparecer em "O Pêndulo de Foucault", e aquele foi um momento feliz, sem dúvida, mas não estou certo se o foi realmente naquele momento ou no momento em que o estava narrando. Existem momentos de felicidade quando você consegue expressar alguma coisa que o deixa contente. Além disso, enquanto contava sobre aquele menino, eu estava feliz porque -sei bem que é uma afirmação muito reacionária- acredito que a vida serve apenas para recordar nossa própria infância.

PERGUNTA - Aí entra a literatura.
ECO - É o que dizem. Cada momento em que consigo me recordar bem de um instante de minha infância é um momento de felicidade, mas isso não quer dizer que os momentos de minha infância tenham sido momentos de felicidade. A infância e a adolescência são períodos muito tristes. As crianças são seres muito infelizes. Talvez eu, enquanto tocava trompete, com medo de que fosse a última vez em que tocaria aquele instrumento, tenha sido um menino infeliz. Sinto-me feliz agora, ao lembrar disso, e talvez seja essa a razão pela qual escrevo, para encontrar esses momentos muito breves de felicidade que consistem em relembrar momentos da própria infância. Sim, é por isso que escrevo.

PERGUNTA - E é para isso que se envelhece...
ECO - Algo de muito bonito que ocorre ao envelhecermos é que nos recordamos de uma multidão de coisas da infância que tinham sido esquecidas.Noutro dia me veio à mente o nome de meu dentista de quando eu tinha oito ou nove anos. Não apenas me lembrei do dentista, mas também do técnico que o ajudava. Eram o doutor Correggia e o senhor Romagnoli. Não sei, mas estava contentíssimo em voltar a pensar em meu dentista, de quem tinha me esquecido completamente. Por isso, vou ao encontro de minha velhice com muito otimismo, porque, quanto mais envelheço, mais recordações tenho de minha infância.
Foi minha avó materna que me iniciou na literatura; era uma mulher sem cultura, mas tinha paixão pela leitura

PERGUNTA - E a cada dia o sr. chega mais perto de Alexandria, daquela sua família?
ECO - Meu pai era o mais velho de 13 irmãos. Era uma família enorme. Houve um primo que morreu aos 20 anos e que não conheci. Faça o cálculo: se cada irmão teve dois filhos, eram 26 primos, de modo que era difícil ter uma relação com todos. Minha relação mais estreita foi com minha avó materna, que foi quem me iniciou na literatura. Era uma mulher sem cultura nenhuma -acho que fez apenas os cinco anos da escola primária-, mas tinha paixão pela leitura. Ela era cadastrada numa biblioteca, de modo que trazia um montão de livros para casa. Lia de forma desordenada. Um dia podia ler Balzac e, logo depois, um romance de quatro vinténs, e gostava dos dois. E assim fez comigo: ela me dava, aos 12 anos de idade, um romance de Balzac e uma história de amor de qualidade ínfima. Mas me transmitiu o gosto pela leitura.

PERGUNTA - Além de sua avó, quem foram seus outros mestres?
ECO - O professor da escola primária aparece em meu romance "A Misteriosa Chama da Rainha Loana". Era um fascista que batia em seus alunos mais pobres. E, embora sempre tenha se comportado bem comigo, não era uma boa pessoa. Em contrapartida, tive uma educadora fabulosa, embora por apenas um ano. Era a senhorita Bellini, que ainda vive. Tem 91 anos, e, cada vez que sai um livro meu, envio um exemplar a ela. Era uma grande educadora, nos estimulava a escrever, a contar, a sermos espontâneos, e foi uma das pessoas que mais exerceram influência sobre minha vida.

PERGUNTA - Raramente se fala do sr. como professor. O que aprendeu para ensinar?
ECO - Antes de mais nada, continuo a aprender. O primeiro curso que dei como professor foi sobre a poética de James Joyce, que aparece em "Obra Aberta". Eu conhecia o argumento, mas, ao começar a dar aula, me dei conta de que não sabia nada sobre o tema. Aprendi e continuo aprendendo. Quando se escreve um livro, pode-se dar a impressão de saber muito, mas em sala de aula é diferente. O que fiz desde aquela primeira experiência foi falar a partir dos livros que iria escrever, não dos que já havia escrito. Quero dizer que minha relação com os alunos sempre foi uma relação de aprendizagem, porque, ensinando, eu também aprendia.

PERGUNTA - Uma relação de ida e volta.
ECO - Uma relação erótica, porque a relação de um professor com um aluno é como a relação de um ator com seu público: quando você aparece em cena, é como se o estivesse fazendo pela primeira vez, e você tem a sensação de que, se não tiver conquistado o público nos primeiros cinco minutos, o terá perdido. É isso o que eu chamo de uma relação erótica, no sentido platônico do termo. Além disso, há uma relação canibal: você come as carnes jovens deles, e eles comem sua experiência. Há pessoas infelizes que passam os primeiros anos de sua vida com pessoas mais jovens, para poder dominá-las, e, quando envelhecem, estão com pessoas mais velhas. Comigo aconteceu o contrário: quando eu era jovem, estava com pessoas mais velhas que eu, para aprender, e agora, tendo alunos, estou com jovens, o que é uma maneira de manter-se jovem. É uma relação de canibalismo; comemos um ao outro. Por isso não deixei de ter relação com a universidade, apesar de ter me aposentado.

PERGUNTA - E o sr. mordeu quem?
ECO - A pessoa que orientou minha tese, Luigi Paris, também Norberto Bobbio... Tenho uma boa lembrança de meus professores. Meu professor de filosofia no instituto era um daqueles que podiam interromper a aula para fazer você ouvir Wagner ou, se você perguntava sobre Freud, deixava de falar de Platão e lhe falava de Freud. Era realmente um grande professor. Tudo isso está em meus romances, onde sempre há uma relação entre um jovem e um mestre mais velho.

PERGUNTA - Tantos alunos... Quem sabe, ao recordá-los, o sr. encontre uma história da evolução da juventude no último meio século.
ECO - Não se pode dar uma resposta porque o diálogo com os estudantes muda ao longo dos anos. A diferença ideal de idade entre professor e alunos é de 15 anos. Você tem trinta e poucos anos, e o aluno, 20. Foi precisamente nesse período que tive uma relação mais intensa com meus alunos. Porque, se os alunos são mais jovens que isso, não existe relação, e, se a diferença for maior, já não poderemos ser amigos. Com os alunos dos anos 1960, saíamos para jantar, dançar. Com os de agora, isso não seria possível. Sentiriam vergonha de sair com você. Em 1968 foi interessante: eu não podia ser como eles, mas não me viam como inimigo. Por isso, havia uma relação às vezes polêmica, às vezes amistosa e contínua.

PERGUNTA - Como está a Itália?
ECO - Está vivendo um dos piores momentos de sua história, com uma classe política velha e que não se renova. Houve um equilíbrio estranho entre a Democracia Cristã e os partidos de esquerda, que durou 50 anos. Agora ele se quebrou. Cinqüenta por cento dos italianos votam em Silvio Berlusconi [líder da coalizão que venceu as eleições parlamentares do mês passado], o que é indicativo de uma profunda imaturidade política. É um momento extremamente triste, em que os elementos de esperança e entusiasmo são muito poucos. Cada vez mais vem à tona a maldição eterna dos italianos.

PERGUNTA - Qual é essa maldição?
ECO - Uma vez eu estava num táxi em Nova York, e o chofer, que era paquistanês ou indiano, me perguntou de onde eu era. Respondi que era da Itália, e ele quis saber onde ficava esse país. Eu me dei conta de que ele tinha idéias muito vagas, como se eu estivesse falando de Suriname a um italiano, e continuou a perguntar: "Que idioma o sr. fala?" "O italiano", eu disse, e ele me perguntou: "E qual é seu inimigo?". Perguntei o que queria dizer, e ele me respondeu que cada país tem um inimigo contra o qual luta há séculos. Respondi que não tínhamos. E ele me olhou com cara feia, porque um povo sem inimigo é pouco viril. Mas, então, refleti: nosso inimigo é interno. Ao longo de toda nossa história, nos massacramos uns aos outros, e é também essa a nossa maneira de entender a política. Nossa fragmentação é em 200 mil partidos diferentes, o governo de Romano Prodi [que, sem o apoio do Senado, entregou o cargo de primeiro-ministro em janeiro] caiu pela mão de seus próprios aliados, não pela ação da oposição. Nunca a Itália caiu tanto em sua inimizade interna quanto hoje.

PERGUNTA - E de onde vem isso?
ECO - A Itália se tornou um Estado unitário há 150 anos -antes, não o era. Já a Espanha o é pelo menos desde 1300 -desde El Cid Campeador!-, e França e Inglaterra têm sido unitárias. A Itália, antes da chegada dos romanos, era uma pluralidade de tribos que falavam línguas diferentes. A Espanha tem os bascos, os catalães e os galegos, mas nós éramos 400. A cada cinco quilômetros havia uma diferença como a que existe entre a Catalunha e a Galícia. O Império Romano unificou, mas não o suficiente. Além disso, se não tivesse existido a igreja, talvez as cidades italianos tivessem encontrado uma forma de Estado unitário pela qual se regerem. O único Estado que restou foi a igreja, e o resto foi uma fragmentação de cidades, o que fez com que a Itália não existisse, no sentido de um Estado. Por isso existe a corrupção: porque as pessoas não pagam impostos, porque não existe o sentido de Estado.

PERGUNTA - E por que Berlusconi ganhou?
ECO - Porque ele diz que não será preciso pagar impostos! Ele fomenta a falta de sentido de Estado, porque ele próprio não o possui.

PERGUNTA - O sr. falou de um taxista. Menciono outro, o que me trouxe do aeroporto. Ele disse: "Como se pode eleger para presidente um homem que tem tantos processos pendentes contra ele?".
ECO - Ele dá por efeito aquilo que é a causa. Berlusconi conseguiu instaurar um tipo de poder fundamentado na desconfiança da magistratura e da Justiça, razão pela qual pode governar, apesar de ter processos pendentes. Berlusconi não é o efeito nesse caso, e sim a causa. Criou algumas leis precisamente para permitir que pessoas que tenham pendências com a Justiça possam chegar ao Parlamento e ataca a magistratura continuamente. Berlusconi conseguiu chegar ao governo atacando as forças da ordem, estimulando os instintos mais baixos do italiano médio.
A relação de um professor com os alunos é canibal: você come as carnes jovens deles, e eles comem sua experiência

PERGUNTA - Quer dizer que o futuro italiano...
ECO - Vai depender de que morram algumas dezenas de pessoas que já são muito velhas. É um dado biológico. E, então, teria que surgir uma nova classe política. Somos o país cuja classe política é a mais velha do mundo.

PERGUNTA - E Veltroni [Walter Veltroni, 52, líder de centro-esquerda]?
ECO - Sim, Veltroni é jovem. Tem 50 anos, mas os demais são muito velhos. Berlusconi tem mais de 70 anos. Na Itália, mesmo que alguém perca as eleições, volta a se candidatar. É como se Al Gore voltasse a ser candidato [à Presidência dos EUA] ou se Lionel Jospin se candidatasse novamente à Presidência da França. Na Itália, contudo, sempre volta aquele de antes. É o sintoma de uma classe política que não quer renunciar ao poder. Talvez isso contribua para que as pessoas sempre critiquem a política, para que os jovens a vejam como algo que lhes é alheio. Os jovens de todas as épocas e de todos os países sempre se entusiasmaram com as grandes idéias de transformação, eram revolucionários, mas se mantinham dentro do famoso esquema "todos nascemos incendiários e morremos bombeiros". Agora, com a globalização e o fim das ideologias, já não se apresentam tantas possibilidades de transformação, pois esta é planetária, e é preciso esperar as grandes tragédias ecológicas, a morte da Terra. O grande erro das Brigadas Vermelhas [grupo terrorista de extrema esquerda, que assassinou Aldo Moro, então ex-premiê italiano] foi terem a idéia justa -embora muitos pensassem que fosse delirante- de atacar as multinacionais de todo o mundo. Outra idéia equivocada foi a de que era preciso fazer terrorismo para criar uma revolução na Itália. Se existe o governo das multinacionais, você não vai mudar isso fazendo a revolução na Itália. O projeto comunista estava condenado ao fracasso. Já havia globalização naquela época, embora não tão intensa quanto hoje. Agora já não existe possibilidade de transformação planejável, a não ser que ocorra como na época da queda do Império Romano, com o nascimento das ordens monásticas: você se encerrava na montanha, num convento, e tentava salvar o pouco de espiritualidade e de conhecimento enquanto o mundo desmoronava. Hoje, pode haver jovens que vão ao deserto colocar em prática uma vida ecológica. É o máximo que se pode fazer: não mudar o mundo, mas retirar-se do mundo. Por isso ocorre o desinteresse pela política.

PERGUNTA - O terrorismo acabou na Itália, na Alemanha e na Irlanda, mas permanece na Espanha, além de surgirem outros. Qual é sua opinião sobre os terrorismos que surgiram nos anos 1990?
ECO - O desejo de "revolução", entre aspas, permanece sempre. Inclusive ali onde não se pode fazê-la, tenta-se... Em países onde existem grupos étnicos e há território suficiente para que se produzam insurreições. Na Itália, esses enfrentamentos se converteram em embates futebolísticos. E em outros territórios acontecem violência, fanatismo, superstição. Quando isso é levado ao terreno da política, já se sabe como vai terminar.

PERGUNTA - O terrorismo da Al Qaeda é a celebração do mal?
ECO - É preciso diferenciar os terrorismos. O fato de que se utilizem métodos semelhantes não os torna iguais. Os terrorismos internos não empregam formas suicidas.O terrorismo da Al Qaeda é um fenômeno bélico. Trata-se de um grupo fundamentalista que se sente em guerra contra o mundo ocidental e que, por não poder usar os instrumentos da guerra tradicional -não haveria exércitos suficientes-, emprega o terrorismo suicida.Isso não quer dizer que haja um enfrentamento entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, mas existe sem dúvida uma parte do mundo islâmico que se sente em situação de inferioridade e está em guerra.
A memória é nossa identidade, nossa alma; se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal

PERGUNTA - O 11 de Setembro mudou o estado de ânimo do mundo. Somos menos felizes hoje.
ECO - O 11 de Setembro criou um estado de medo, mas antes já houve atentados, entraram e saíram assassinos, tivemos guerras civis. No caso dos EUA, porém, foi a primeira vez que o país sentiu um ataque assim em sua própria carne. Os americanos não digeriram o que aconteceu e por isso vêm tendo reações irracionais, como a Guerra do Iraque, que gerou mais terrorismo do que havia. É exatamente a reação de alguém que não estava acostumado à guerra em seu próprio território.

PERGUNTA - Existe alguma saída para esse mal-estar universal?
ECO - No momento, não. E, se eu tivesse a receita, a venderia ao presidente dos EUA por alguns bilhões de dólares!

PERGUNTA - Com certeza. E quem será ele?
ECO - E que sei eu? Os escritores não somos Nostradamus.

PERGUNTA - O que é certo é que alguns anos atrás o sr. disse que viveríamos de modo rapidíssimo, e agora vivemos em velocidades supersônicas.
ECO - E tudo o que existe agora será obsoleto dentro de pouco tempo. Até o e-mail será obsoleto, porque tudo será feito com o celular. Talvez as novas gerações se acostumem a isso, mas existe uma velocidade do processo que é de tal calibre que a psicologia humana talvez não consiga adaptar-se. Estamos em velocidade tão grande que não existe nenhuma bibliografia científica americana que cite livros de mais de cinco anos atrás. O que foi escrito antes já não conta, e isso é uma perda também quanto à relação com o passado.

PERGUNTA - A fé cega na internet, por outro lado, cria monstros.
ECO - Sim, parece que tudo é certo, que você dispõe de toda a informação, mas não sabe qual é confiável e qual é equivocada. Essa velocidade vai provocar a perda de memória. E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.

PERGUNTA - A memória é o esquecimento, como diria [o escritor uruguaio] Mario Benedetti.
ECO - É a história de "Funes, o Memorioso", de Borges: aquele que tem toda a memória é um estúpido.

PERGUNTA - Tanta informação faz com que os jornais pareçam irrelevantes.
ECO - Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal. Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.

PERGUNTA - Qual seria hoje o papel da informação?
ECO - Creio que perdemos muito tempo nos formulando essas perguntas, enquanto as gerações mais jovens simplesmente deixaram de ler jornais e se comunicam por meio de mensagens de texto. Eu não posso me desligar dos jornais. Para mim, sua leitura é a oração matinal do homem moderno. Não posso tomar o café da manhã se não tiver pelo menos dois jornais para ler. Mas talvez sejamos os resquícios de uma civilização, porque os jornais têm muitas páginas, mas não muita informação. Sobre o mesmo tema há quatro artigos que talvez digam a mesma coisa... Existe abundância de informação, mas também abundância da mesma informação. Não sei se você se lembra de minha teoria sobre o "Fiji Journal". Eu estava em Fiji coletando informações sobre os corais para meu livro "A Ilha do Dia Anterior" [ed. Record], e em meu hotel chegava todas as manhãs o "Fiji Journal", que tinha oito páginas -seis de anúncios, uma de notícias locais e outra de notícias internacionais. No mês que passei ali, a primeira Guerra do Golfo estava prestes a estourar, e, na Itália, o primeiro governo de Berlusconi tinha caído. Inteirei-me de tudo porque em uma única página de notícias internacionais, em três ou quatro linhas, davam-me as notícias mais importantes.

PERGUNTA - Como a internet.
ECO - Vamos à internet para tomar conhecimento das notícias mais importantes. A informação dos jornais será cada vez mais irrelevante, mais diversão que informação. Já não nos dizem o que decidiu o governo francês, mas nos dão quatro páginas de fofocas sobre Carla Bruni e Sarkozy [atual presidente da França]. Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista.

PERGUNTA - Voltemos ao princípio, professor. O que o faz feliz?
ECO - Não sei. Eu já disse que não acredito nisso, mas, enfim, fico feliz quando encontro um livro que estava procurando havia muito tempo. Quando o compro e o tenho, olho para ele e me sinto feliz. Mas a sensação acaba ali. Enquanto a infelicidade é o que me provoca o fato de não ter este ou aquele livro. A verdadeira felicidade é a inquietude. É sair à caça, não matar o pássaro.

PERGUNTA - É raro: um espanhol e um italiano, uma hora e meia de conversa, e a palavra "igreja" só foi pronunciada três vezes.
ECO - Está ocorrendo um retrocesso ao século 19, quando havia um confronto entre o Estado liberal e a igreja. De quem é a responsabilidade por isso? Não é por acaso que esse confronto tenha se acirrado com a chegada de Ratzinger [o papa Bento 16]; portanto, talvez se deva à política clerical do novo pontífice. Sua luta contra a cultura moderna, o chamado relativismo, voltou aos grandes temas da igreja do século 19, que falava contra a revolução e contra a ciência moderna. Hoje, emergem muitas posições anticlericais, e muitas pessoas se declaram atéias. Ninguém estava pensando nisso antes. Subiu ao trono um papa que pensa como um papa do século 19.

PERGUNTA - O sr. escreveu que Napoleão viveu apenas a Revolução Francesa...
ECO - ... E eu vivi a Segunda Guerra Mundial, a queda do fascismo, a guerra "partigiana", a bomba em Hiroshima, a queda da União Soviética e a Guerra Civil Espanhola. Há uma maldição chinesa que diz: "Espero que vivas numa época interessante". Há gerações jovens que viveram apenas épocas tranqüilas, como a da Guerra Fria. O que eu disse sobre Napoleão com certeza está errado, porque ele não apenas viveu a Revolução Francesa como também a história de Napoleão. Rarará!
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A íntegra desta entrevista saiu no "El País". Tradução de Clara Allain .

sábado, maio 10, 2008

Feministas já foram Mães

No dia das mães, as feministas acreanas, mais uma vez, se calam. Ignoram que na Europa uma modelo de movimento feminista se organizou para que o Estado remunerasse o mais digno de todos os trabalhos - o de ser mãe.

Quando o dia 8 de março chegar, elas ocuparão espaços para exaltar as mulheres no mercado de trabalho, repetindo um discurso ultrapassado. Hoje, as feministas estão repensando o lar, a família, menos elas.

Por causa disso, escrevi um texto que critica essas feministas acreanas. Além de outros livros, consultei História das Mulheres, século 20, de Georges Duby e Michelle Perrot. Espero que goste.

__________________De Aldo Nascimento

Com os anos 60, século passado, os ventos trouxeram o festival de rock de Monterey (1967), quando surgiram Jimmy Hendrix e Janis Joplin; o de Woodstock (1969); o de Altamont (1969); e finamente o da Ilha de Wight.

Jovens dessa época questionavam o status quo; manifestavam-se contra a cultura oficial. A imprensa norte-americana denominou esse período de “contracultura”.

Nessa época, o movimento feminista, com suas formas definitivas, desorganiza a família patriarcal. A mulher mistificada, livro de Betty Friedan, inaugura um novo ciclo nos anos 60, concebendo o lar como tédio, espaço sem identidade.

Rasgaram Inocência
Mesmo com as críticas que esse livro possa propelir contra o patriarcalismo, admitamos que esse patriarcalismo de alguma forma protegia o feminino e exigia do masculino honra. Podemos ler essa mulher e esse homem na literatura, por exemplo, em Inocência, de Visconde de Taunay. Nessa narrativa romântica, Inocência e Cirino, casal apaixonado, lutam contra a lei patriarcal, mas saibamos que tal luta só existe porque essa lei impunha obstáculos.

Oposto a esse romantismo, Álbum de família, de Nelson Rodrigues, e Desengano, de Carlos Nascimento Silva, evidenciam a mulher desprotegida, incapaz de ser feliz com o outro. Assim, sem lar, ela não constitui laços afetivos, e o homem, sem encontrar resistência, obstáculo, impõe seu jogo, sua violência.

Pois bem, um modelo de feminismo, por exemplo, o acreano, rasgou Inocência para ter sua “liberdade” no mercado de trabalho e, para tanto, saiu de casa a fim de ser subjugado pelo capital e pelo patrão. Se não obedece mais ao marido, se não cuida dos filhos, da casa, ela agora acata as ordens do patrão e zela pela empresa.

Mulher-Salário
Fora de casa, a mulher de classe média paga a uma mulher da classe D, a empregada doméstica, para cuidar dos seus próprios filhos, sem pai. Trabalhadoras são mães? Os filhos só sentem seus carinhos após o expediente – nos grandes centros, elas saem de casa às 7 horas e retornam às 20 horas.

A casa deixou de ser um lar para ser dormitório. Com seus filhos agora são “educados” por domésticas, as feministas calam-se no dia das mães. Admiram a motorista de ônibus, classes C e D, porque ela transpira igual a homem, e permanecem indiferentes ao aroma dócil de quem tem tempo, classe A e B, para educar e para velar por seus filhos no lar.

Essas feministas herdaram das norte-americanas o discurso que exalta a mulher-capital, a mulher-empresa, a mulher-salário.

Bem diferente desse radicalismo agressivo norte-americano, o modelo europeu rearranja a tradição entre homem e mulher, reabilitando um diálogo entre passado (a tradição) e presente. As formas antigas entre homens e mulheres são recicladas, por exemplo, na França.

Feminismo Maternal
Quando as francesas buscam combinar a tradição e o presente, isso faz lembrar o feminismo maternal na Europa, ocorrido entre o final do século 19 e o início do século 20, história tão bem ignorada pelas feministas acreanas.

Na Grã-Bretanha, a feminista Alys Russel exigia uma remuneração maternal desde 1896. Em 1905, outra feminista, a Käte Schirmacher, critica suas colegas na Liga das Associações Femininas Progressistas por ignorarem a função social da mãe.

Não existe trabalho mais produtivo do que o da mãe, que, sozinha, cria o valor de todos os valores, que se chama ser humano”, ela proferiu na liga.

Somente em 1915, as americanas conheceram essas idéias por meio de Katherine Anthony. As feministas acreanas, classe média, até hoje desconhecem a importância da mãe e da família na sociedade, por isso, no segundo domingo de maio, calam-se. Ignoram a história das mulheres.

sexta-feira, maio 09, 2008

Matéria do poder público

Não comentarei sobre vacilos textuais e gramaticais, mas sobre tal proposta. Para isso, retirarei de cada parágrafo a idéia principal para depois comentar.
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Educação quer promover mudanças na prática pedagógica

O objetivo é elevar o desempenho escolar dos estudantes

As aulas de Português e Matemática dos alunos de 5ª a 8ª série do ensino fundamental, da rede estadual, vão ficar mais atraentes e dinâmicas. A iniciativa é da Secretaria de Estado de Educação (SEE), que vai capacitar professores de 18 municípios acreanos, através do Programa Gestão da Aprendizagem Escolar - Gestar.

O primeiro passo para consolidar a ação foi dado na última quarta-feira, 7, com a entrega dos materiais pedagógicos, cadernos de teoria e prática, aos docentes de Rio Branco. Nos outros municípios já houve a distribuição.

Durante um ano, período do curso, os docentes terão seis encontros presenciais para receberem orientação pedagógica e vivenciarem com os tutores, as experiências da sala de aula. O primeiro encontro presencial acontecerá no mês de junho.

Nas oficinas presenciais, coordenadas por um formador da SEE, os professores vão trabalhar interativamente o conteúdo dos cadernos. Os encontros envolvem dinâmicas, que motivam os participantes a relacionar os aspectos teóricos às suas praticas cotidianas em sala de aula, além de avaliações por meio de atividades didático-práticas entre outros exercícios. No final do programa, os estudantes envolvidos realizarão provas diagnósticas, as quais proporcionarão uma visão da mudança da prática pedagógica do professor.

Na disciplina de Matemática, serão trabalhados os seguintes temas: Matemática na alimentação; nos esportes e seguros; nas formas geométricas e na ecologia, enquanto que em Português, as oficinas se concentram em temas sobre Linguagem e cultura; Análise lingüística e tipos textuais.

O Gestar é um programa orientado para a formação continuada de professores do ensino fundamental. Envolvem avaliação diagnóstica, reforço nas dificuldades específicas dos estudantes e mudanças na prática docente, que reflitam a superação da idéia do professor centrado na mera transmissão de conteúdos, informações e técnicas.

As ações visam elevar o desempenho escolar desta modalidade, assim como ocorreu nas séries iniciais do ensino básico, onde a ação contribuiu com a qualidade e melhoria do ensino, comprovado no exame Prova Brasil, em que o Acre obteve resultados significativos. O programa é baseado nos Parâmetros Curriculares Nacionais e acontece com momentos presenciais voltados para o acompanhamento da prática e o apoio à aprendizagem dos professores cursistas .

Para a professora da escola Maria Chalub Leite, Fátima Santos, o curso possibilita aos docentes conhecerem novas práticas de ensino.

"A educação está diferente e a maneira de ensinar continua a mesma. O Gestar serve para situar o professor na realidade atual do aluno", comentou Fátima.

Partilhando da mesma opinião, Rejane Maia, da escola Paulo Freire, ressaltou que, além do programa trabalhar os conteúdos e as metodologias, também revê a relação aluno-professor. "O importante é mudar nossos hábitos. E quando a gente faz isso, há melhorias nas avaliações", concluiu a professora.

A técnica da SEE, Iracema Alvarez, espera que, por meio da capacitação dos profissionais, os alunos consigam desenvolver competências como ler, escrever e ter um raciocínio lógico, e isto só ocorre, de acordo com a técnica, quando se muda a prática pedagógica por meio de novas estratégias. "O Gestar não se preocupa com o conteúdo, pois este item o professor já domina, mas com a prática pedagógica", concluiu a técnica.
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Comentário

Há tempo, escrevo neste blog sobre Língua Portuguesa. Nessa matéria, o texto governamental, mais uma vez, reduz a qualidade de ensino a uma nova prática do professor, como se qualidade se centralizasse no corpo docente. A matéria tem o peso da superficialidade.

Depois que a Frente Popular chegou ao poder, ocorreu uma transformação importantíssima na escola pública, a semestralidade. Essa transformação, estrutural. Antes, um professor lecionava para 9 ou 10 turmas. Hoje, com um contrato, leciona para duas ou para três turmas.

Eu, por exemplo, em 1998, lecionei para 11 turmas no Cerb. Isso significa mais de 300 alunos. Atualmente, na escola Heloísa Mourão Marques, leciono para duas turmas, menos de 80 alunos. Isso é significativo, porque, quando se altera a estrutura, as relações humanas, segundo Bourdieu, transformam-se.

Depois disso, dessa semestralidade, a Frente Popular não promoveu uma reorganização do espaço escolar. Precisamos redefinir, por exemplo, o papel pedagógico das coordenações de ensino. Precisamos criar nas escolas os conselhos de disciplina e de turma.

Sem isso, ainda leremos matérias superficiais sobre educação neste Estado.

quinta-feira, maio 08, 2008

Ronda Gramatical

De Dílson Catarino

"Algumas fotografias não foram inseridas..."

Algumas fotografias de candidatos a prefeito não foram inseridas na urna eletrônica.

Mais uma inadequação gramatical retirada de um grande jornal brasileiro. É muito fácil realizar esta coluna no UOL Vestibular, caro internauta. Basta-me ler alguns jornais semanalmente que tenho assunto para o mês todo. Vamos ao assunto de hoje: qual a inadequação cometida pelo jornalista? É o uso da palavra "inseridas".

Ocorre que existem alguns verbos na Língua Portuguesa denominados de abundantes. São verbos que possuem dois particípios: um, mais longo, terminado em -ado ou em -ido, chamado de particípio regular, que somente deverá ser usado na voz ativa, ou seja, quando o sujeito praticar a ação verbal; outro, mais curto, com várias terminações, chamado de particípio irregular, que somente deverá ser usado na voz passiva ou como adjetivo.

Um exemplo fácil de verbo abundante é o verbo "entregar", já estudado por nós em uma coluna anterior. Na voz passiva, deveremos usar "entregue", e na voz ativa "entregado". Diremos, então, "ele tem entregado as encomendas" e "as encomendas são entregues por ele".

Outros verbos abundantes importantes são quitar, anexar e incluir, que terão como particípios para a voz ativa "quitado, anexado e incluído", e para a voz passiva, "quite, anexo e incluso". Teremos, portanto, frases assim: "Ele tem quitado suas dívidas" e "as dívidas foram quites por ele"; "Ele tem anexado as fotografias ao processo" e "as fotografias foram anexas ao processo"; "Ele tem incluído os nomes dos amigos" e "os nomes dos amigos foram inclusos por ele".

Mais exemplos? Então veja: imprimir: imprimido e impresso. "Ele tem imprimido muitos cartões"; "os cartões foram impressos por ele". Eleger: elegido e eleito. "Nós temos elegido muitos corruptos"; "os corruptos foram eleitos por nós".

O verbo da frase inicial - inserir - é abundante, portanto possui dois particípios: inserido e inserto: "Ele tem inserido os nomes dos amigos"; "os nomes dos amigos foram insertos por ele". A frase apresentada deve, então, ser assim reescrita:

Algumas fotografias de candidatos a prefeito não foram insertas na urna eletrônica.

quarta-feira, maio 07, 2008

Gramática de blog

"Nunca na história deste país um presidente da República adquiriu o direito de falar as besteiras que quizer e de seus auxiliares cometerem os desatinos que quiserem, até os de ordem ética e moral e nada, negativamente, voltar-se contra si, quanto o presidente Lula."

Retirado do blog de Altino Machado, o intelectual Narciso Mendes escreve às quartas-feiras nesse blog. O texto acima pertence a ele.

Antes de criticar as besteiras do presidente Lula, Narciso deveria olhar para suas besteiras gramaticais. Erra demais, por exemplo, "quizer".

Além disso, não tem a menor noção de vírgula. Quando acerta, acredite, é obra do acaso.

terça-feira, maio 06, 2008

Redação escolar













"Atualmente a TV faz parte de uma família. Aprendemos muito com ela, as vezes coisas boas e coisas ruins. Ela exibe vários programas basta você se adequar a um deles, tem jornais, desenhos animados, novelas, jogos de futebol."

Não iniciamos na escola pública acreana uma sistematização do ensino de Língua Portuguesa, no caso, Redação. Trabalha-se segundo a vontade de Deus. Quando não se acredita muito no Senhor, o professor nem leciona Redação em sala.

A introdução acima foi escrita por um aluno do primeiro ano do ensino médio. Pela manhã, o professor aborda de uma maneira. À tarde, leciona-se de outra forma. Se o aluno pedir transferência, ele perceberá que manhã e tarde não se combinam.

O que fazer com o texto do aluno? Como encontrar uma unidade de trabalho na escola pública?Quando havia só a gramática, os professores lecionavam de forma unitária: o conteúdo da tarde era igual ao conteúdo da manhã.

E agora? Há quase 12 anos no poder, a política educacional da Frente Popular não encontra uma resposta para esse cotidiano escolar, uma resposta a questões bem específicas de Língua Portuguesa para a qualidade de ensino.

Na sala desse aluno do ensino médio, entre 22 estudantes, 17 nunca estudaram Redação nas séries anteriores.

segunda-feira, maio 05, 2008

TV Aldeia



A TV deve dar exemplo quando escreve.

Acento grave, indicador do fenômeno da crase, antes de "serviço", é desserviço.

sexta-feira, maio 02, 2008

Assim morrem os pobres

Foto de Selmo Melo

Matéria de Gilberto Lobo






O fato ocorreu no bairro Plácido de Castro, final do bairro Sobral, capital. O pobre faleceu às 8 horas e, ao meio-dia, o corpo permanecia no barraco à espera da boa vontade do poder público.

Sugeri ao repórter saber como e quanto será o sepultamento desse corpo pobre. A família gastará quanto?

Família acusa Samu de negligência

Francisco Chaga da Silva, de 49 anos, morador no bairro Plácido de Castro, faleceu na manhã de ontem, dia 2, porque, segundo familiares, a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi negligente.

Segundo Carlos César, vizinho que atendeu o paciente, Francisco Chagas começou a gritar no final da noite com fortes dores, mas não conseguia falar para explicar onde doía. “Teve uma hora que ele não conseguia nem gritar, a voz não saía”, acrescentou.

Por volta de uma hora da manhã, o atendimento do Samu foi solicitado. Conforme explicação de César, os médicos fizeram os exames no paciente sem removê-lo do local e disseram que ele apenas estava com frio devido à brusca queda de temperatura. Colocaram um cobertor sobre ele e saíram. Às 8 horas, Chagas faleceu.

“Ele não tinha nenhuma doença, era saudável, apenas gostava de beber muito e nunca tinha tido problema de saúde, essa foi a primeira vez, e o pessoal do Samu nem ligou, disseram que era só frio”, detalhou, Carlos.

Até às 11h30, o corpo permanecia sobre o sofá da sala à espera dos funcionários do Instituto Médico Legal (IML) para tomar as devidas precauções.

A coordenadora interina do Samu, enfermeira Necila Fernandes, informou que o Samu recebeu o pedido por volta de uma hora da manhã. Os familiares informaram que o paciente estava embriagado e que talvez o problema fosse esse.

No local, a equipe realizou os procedimentos padrões e constataram que o paciente estava bem, a pressão arterial estava nos padrões normais e o próprio Francisco havia dito que não sentia dor. “Estou bem”, disse, contrariando as explicações de Carlos César. Por causa disso, Francisco não foi levado ao hospital.
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Uma dúvida: como Francisco falou que estava bem se ele sentia muitas dores?

quarta-feira, abril 30, 2008

terça-feira, abril 29, 2008

Não me esqueço











No domingo, o dinheiro público pesseou de carro por Rio Branco. Não me esqueço da placa.

Sem brincadeira

Foto de Selmo Melo.









"Moço, eu posso ficar com esse carrinho?", pergunta a criança ao tratorista.

Danificados, segundo o Inmetro, os brinquedos foram destruídos pelo trator.

segunda-feira, abril 28, 2008

Conselho de Turma












Antes dos problemas baterem à porta da coordenação de ensino, deveria haver conselhos de turma para solucionar problemas, inclusive, pedagógicos.

Na foto, professores reuniram-se para solucionar questões de uma turma. Na terça, esses educadores irão à sala de aula para comunicar à turma o que foi decidido sobre alguns alunos.

Por exemplo, em todas as aulas, os que bagunçam se sentarão na frente. Trata-se de uma ação conjunta do corpo docente e não uma ação isolada de um professor.

sábado, abril 26, 2008

Homofobia. E a homoprofanação?

De Aldo Nascimento

Em 2006, em Jerusalém, a parada gay desejou passar por onde Jesus Cristo suportou a cruz. O Estado de Israel castrou esse desejo. Ainda em 2006, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma exposição artística de homossexuais apresentou um crucifixo na forma de um pênis. A Igreja pronunciou-se contra. Neste ano, em Brasília, atores homossexuais se masturbaram sobre uma Bíblia aberta no palco. Cristãos indignaram-se.

Esses exemplos evidenciam que está em curso uma intolerância homossexual contra o sagrado. Se eles falam de homofobia, riem quando maculam o que não pode ser violado; troçam quando o excesso de seus gestos profana os limites do que é sacro. Nesse sentido, homossexuais também são violentos, porque, uma vez entregues ao excesso dos trejeitos, do corpo, da palavra, exibem a homoprofanação em espaços públicos.

Em Êxodo (3:5), diz o Senhor a Moisés: “Não te aproximes daqui, tira as sandálias de teus pés, porque o lugar onde te encontras é uma terra santa.” Sagrada. A origem da palavra vem do verbo separar, por isso Moisés deve deixar suas sandálias lá fora, elas estão impregnadas da sujeira do mundo exterior, não podem se misturar com a terra do Pai. Dessa forma, o sagrado fundamenta, por meio de um significado-lugar bem definido, um ponto fixo que orienta os mortais. Não há rumo quando impera a confusão. O sagrado se opõe, portanto, ao caos.

Em sua etimologia, a palavra profano significa “que está em frente ao templo sagrado”. Colocando outras palavras, profano é proferir fora o que o sagrado não diz dentro. Se além dos limites das quatro paredes de um templo, isto é, fora, a voz profana não se inibe, não se censura, dentro de um templo sagrado, entre suas quatro paredes, a voz sacerdotal fundamenta uma só direção. Fora do sagrado, como não há limites, valores relativizam-se; dentro do sagrado, fundamenta-se a ordem, a organização

Assim, por ruas de Jerusalém, no lugar da procissão, da dor, gays desejam se exibir, desfilar seus excessos. Em um centro cultural carioca, um pênis-crucifixo se ergue. Em uma peça de teatro em Brasília, masturbam-se sobre Abraão, Moisés, sobre os apóstolos. O que homossexuais desejam, afinal, profanar? Com esses exemplos, desejam profanar o corpo; sujá-lo com as impurezas da desmedida, da hýbris.

Ora, à medida que a pornografia sai das ruelas escuras, das esquinas sombrias, a dessacralização do corpo é gerenciada por quem cultua uma nova Sodoma e uma nova Gomorra. Nessas duas cidades bíblicas, como sabemos, reina o ato fisiológico do sexo, não sua transcendência.
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Ronda Gramatical

Homo, macro, mega, micro, mini, moto, para, retro, socio, tele. O correto é “megassena”. O correto é “socioeconômico”. O correto é “telerrepórter”. O correto é “microcrédito”.

sexta-feira, abril 25, 2008

Assessoria de Comunicação do Governo

Neste blog, reconheço a política educacional do Estado, porque não sou estúpido para ignorar a nova realidade da educação acreana. Não desejo retrocesso e, por causa disso, a Frente Popular tem meu voto.

Há um trabalho sério na Secretaria de Educação, por isso as matérias jornalísticas do governo, por meio de sua assessoria de imprensa, devem estar à altura. Não estarão, entretanto, quando a assessoria de imprensa ignora a realidade educacional para escrever mentira sobre educação.

Eu soube que leram matéria em uma revista para reproduzir o que não existe no bolso de professor. Na época do militares, diziam: "não compre jornal, minta você mesmo".

Pois bem, a assessoria do governo escreveu que professor estadual recebe R$ 2.268 por mês, lecionando 30 horas. Segundo a matéria, esse salário é para início de carreira.

O governo não precisa de inverdades de assessores. Com quase dez anos no Estado e com especialização, um professor, lecionando 30 horas, recebe R$ 1,6 mil, líquido. Para início de carreira e sem especialização, líquido, o salário não chega a R$ 1,4 mil.

Só mais uma coisa: esqueceram-se do custo de vida. Um salário de mil reais no Rio de Janeiro não tem o mesmo poder de compra em Cruzeiro do Sul ou em Rio Branco.

Conselhos de Classe

Conheço algumas escolas estaduais acreanas e sei que elas assemelham-se em um ponto: as coordenações de ensino mais parecem uma delegacia que registra boletins de ocorrência. Se elas executam qualidade de ensino, não podem, porque as ocorrências impedem.

Além de eu defender um processo que qualifique a escolha de coordenadores, não podendo tal escolha se submeter à arbitrariedade desqualificada de diretores, as coordenações precisam criar os conselhos de turma a fim de que professores deliberem soluções a partir de problemas específicos às turmas.

É preciso solucionar na sala antes que problemas cheguem às coordenações.

Só que espero que a professora Carmem, da tarde, não use a escrita deste blog para tecer fofocas na escola sobre minha pessoa, nem um pouco simpática à falsidade.

Copeve

Não quero escrever muito sobre isso, porque meu sarcasmo elegante pesa. Só desejo registrar aqui, neste blog, que a Copeve, até o momento, não publicou a lista dos 10 livros do vestibular.

quarta-feira, abril 23, 2008

Não toco mais no assunto





Há alguns dias, um aluno leu em um jornal acreano “os povos Kaxinawá” e me perguntou se estava correto. “Se por acaso cair na redação do vestibular uma questão sobre indígenas, como devo escrever?”.

Bem, assim como jornalista não pode reproduzir a convenção gráfica da antropologia, um estudante não pode ir contra as regras gramaticais.

1. Nosso idioma obedece à Lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971. Nela, as letras “k”, “w” e “y” deverão ser usadas em casos especiais. Nomes indígenas não são casos especiais. Por isso, não escrevemos “guarany”, “tupy”;

2. Não escrevemos “os povos Brasileiro”, mas “povo brasileiro”. Assim como “brasileiro”, “caxinauá” é adjetivo pátrio, concordando em grau, número e gênero como o substantivo “povos”; e

3. Coloca-se “caxinauá” em caixa-baixa, porque não é nome próprio.

Não falo mais no assunto.

sábado, abril 19, 2008

O Altino Machado irá criticar?

Amanhã, não sairá na TRIBUNA "povos Yawanawa", e o Altino Machado, mais vez, poderá criticar o revisor, mas criticará sem apresentar provas gramaticais.

O fato é que Altino Machado e Romerito Aquino, por exemplo, escrevem errado há anos as etnias indígenas, porque, baseando-me em provas gramaticais, não se registra "povos Yawanawa".

É a velha escola jornalística que não sabe o porquê de escrever assim, mas escreve, porque viu escrito não sabe onde. Copiam-se grafias pela ignorância de copiar.

O correto é "povo iauanaua".

Se eu fosse um padre





Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte
-um belo poema sempre leva a Deus!

De Mário Quintana