sábado, julho 10, 2010

Gramática

Neste sábado, às 8h15, comecei a lecionar Redação para alunos do terceiro ano B.

Abri a aula com o DVD da banda Capital Inicial, a música foi Primeiros Erros. Escolhi essa letra por causa do termo "onde".

A maioria dos alunos não sabe empregar "onde", por isso Primeiros Erros.

Foram 35 questões. Aqui, deixo estes exemplos:

1. Esta é a sala onde estamos.
Se estamos, estamos "em algum lugar" (onde).

2. Este é o estádio aonde fui ontem.
Se fui, fui "a algum lugar" (aonde).

3. Não concordo com a ideia em que a teoria se baseia.
Se a teria se baseia, ela se baseia "na ideia"; mas, como "ideia" não é "lugar", não se usa "onde" mas "em que" ou "na qual".

sexta-feira, julho 09, 2010

O Milagre da Carne

Em um mundo onde ser vulgar é a regra até em igrejas, a poesia salva a palavra Corpo. Há dias, engravidei-me de poesia e, horas suadas depois, meus dedos pariram palavras que abençoam minha Carne e minha Alma. Ei-las:

Milagre

Em igrejas à espera de milagres,

eu, à margem do corpo de Cristo,
entre o fim da tarde e a chuva fina,

ajoelho-me e, por teu nome, rezo a finco.

Que teu corpo nu - sem espinho, sem prego e cruz -
traga, como novo messias, à minha esperançosa carne,
o milagre de tua luz:

chama, despido corpo, me chama, e eu, safado santo,
subo ao sagrado altar, tua cama, para ser pecador feliz.

Sinto pena das igrejas, sinto tanto.

Para teus fiéis, me eternizo surdo, e tua língua nem falo.
Mas, em tua boca litúrgica, batizo-me com tua saliva.

Teu gozo, abençoada prece. Teu corpo, como não amá-lo?

E, sem crer no pão e no vinho, molho minha semente em tua fissura para germinar vida.
Entre tuas pernas, minha reza, meu clímax: Deus, eis a oferta!!!

Olhe no meu olho, Amada, olhe, veja-nos e sinta!!!

domingo, julho 04, 2010

O filme "Educação"













Pouco mais de quatro meses depois, Educação, da dinamarquesa Lone Scherfig, encontra-se na locadora Tenny Vídeo, em Rio Branco. Sem apresentar uma narrativa surpreendente, o filme é morno; porém, mesmo assim, não se trata de uma película ruim.

Mais do que a relação entre uma adolescente culta de 16 anos e um homem sedutor de 40, o filme é um conflito entre a liberdade e a tradição escolar. Ponte para a estudante Janny chegar a Oxford, a escola é inútil diante da cultura que David oferece à jovem; entretanto, ainda sim, no final, prevalece a tradição da escola inglesa.

Após uma decepção, Janny se salva não por causa da liberdade, mas por causa da tradição que impõe o saber clássico. A ordem garante à estudante Janny a verdadeira liberdade.

sábado, julho 03, 2010

Ouvir e dançar na escola

"Por favor não exclua do repertório Nando Reis, Cássia Eller, Vange Leonel, Edson Cordeiro, Zélia Duncan, Ney Matogrosso e Zeca Baleiro. Gostei de sua idéia, aliás gosto de tudo que você expressa no seu sítio, custa crer que você é real e está acessível, mora bem aqui, no Acre! Incentive-os principalmente a serem tolerantes com tudo e todos sem rotular ninguém dentro de um gênero musical ou comportamental. Abraços."

Nielsen O. M. Braga, obrigado por sua palavras. Não sei se uma festa com boa música em uma escola pública dará certo, porém tentarei com meus alunos. Por que realizar isso?

Não sei se você conhece a escola José Ribamar Batista, localizada no bairro Aeroporto Velho; mas, se conhece, você sabe que não pulsa vida cultural ao redor da escola. Perto do Ginásio Coberto, existe um pálido lugar de lazer. Fora isso, bairros como o Aeroporto Velho, não passam de dormitórios, isto é, casa-trabalho-casa.

Além de igrejas e de bares, cultua-se televisão. Não há teatro, não há cinema. À Usina de Arte João Donato, quem não tem carro não vai. Diante disso, a escola, à noite, é vazia, é um espaço público inutilizado, a não ser quando um pastor ocupa-o para pregar uma enfadonha fé.

O governo petista, nestes 12 anos, nunca cogitou transformar a escola em espaço cultural, ou seja, um espaço para o cinema e para a boa música. Quando construiu auditórios nas escolas, a Secretaria Estadual de Educação teve a inteligência de não construir um lugar também para alunos assistirem a bons filmes.

A escola poderia ser um confortável lugar para projetar a cultura do cinema para os alunos.

Como eu não espero o messias para me salvar e nem o PT para fazer revolução educacional, eu e meus alunos ouviremos músicas de 1960, de 1970, de 1980 e de 1990, como Roling Stones, AC&DC, Capital Inicial, O Rappa, Marisa Monte, Cássia Eller e tantos outros, para a escola ter outra função social.

Em bairros distantes do cinema, do teatro, por exemplo, a escola deveria promover cultura. Não sei se dará certo, mas eu e os alunos tentaremos nos dar o que a inteligência petista de governar não pensa.

O futebol de um anão












Sempre achei Dunga do tamanho de anão. Como jogador, se comparado a outros de sua posição, sua bola foi pequena. Dunga representa a negação do futebol-arte, uma imagem de futebol que o mestre Telê Santana soube projetar em seus jogadores de 1982.

Telê não ganhou o título de campeão do mundo, mas seu futebol gingado e individualizado renasceu em 2002 com Felipão. Dunga só foi técnico para ser esquecido tal como Lazaroni em 1990.

Alemães agora fazem adversários sambarem, que ironia!

quinta-feira, julho 01, 2010

Vamos fazer festa

Não gosto da engrenagem escolar. Os seus hábitos me incomodam. O ato de entrar e de sair como se fosse uma procissão desacralizada me perturba.

Alunos sentem que não sou mecânico em sala, previsível, monótono. Quando o cansaço não me domina, teatralizo a aula. Mais do que professor, ator. Meu plano de curso, uma peça.

A escola anula o afeto. O filme O Sorriso de Mona Lisa expõe muito esse afeto por meio da professora. Outra película, Sociedade dos Poetas Mortos. Nesses, o afeto é visível.

Pensando nisso, eu e meus alunos criaremos uma festa com boa música das décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990. Realizar uma boa festa na escola HMM. Se conseguirem algo muito organizado, uma festa sem problema, receberão ponto extra e ainda criaremos outra no final de ano.

Não serei o mesmo professor, melhor, nem serei professor porque estarei em uma festa com músicas que irão dos Beatles a Skank. Quero O Rappa no lugar da gramática. A escola deveria promover encontros musicais.

A escola deveria ser referência para outras relações humanas. No HMM, por exemplo, a direção promove cicleata, festa junina, projetos sociais. Agora, uma festa com boas músicas.

segunda-feira, junho 28, 2010

Festival Chico Pop













Nos dias 26 e 27, meus olhos e ouvidos se encontraram com o Festival Chico Pop, realizado em Rio Branco, na concha acústica. Se o governo abre a boca para dizer que patrocina Chico Pop, alguns vocalistas deveriam fechá-la para que seus ruídos não incomodassem o bom gosto.

Só o bondoso incondicional dinheiro público para dar ouvidos a quem não tem talento.

Não é o caso, por exemplo, de Los Porongas. Além do som, os caras criam letras que emitem inteligência poética. No Acre, eu poderia falar de muitas imagens agradáveis, mas agora só desejo me referir a uma, ei-la: Los Porongas. Dinheiro público bem investido.

Só lamento que o tamanho da plateia tenha sido inadequado à grandeza dessa acriana banda. Pouca gente. Muito pouca. Sua origem pode ser acriana, mas Los Porongas não canta para os amiguinhos ou para a família ouvir; a banda canta para o Brasil.

Queria muito que a poesia musicalizada de Los Porongas incomodasse igrejas. Fico triste quando vejo muito mais gente na marcha para Jesus. Queria ver essa banda espalhada por bairros periféricos da capital e não estacionada na concha acústica, centro de Rio Branco, onde poucos não chegaram por meio de ônibus.

Chico Pop não pode se limitar a poucos e muito menos dinheiro público deve patrocinar alguns desqualificados. Chico Pop deve ir ao encontro do povão.

domingo, junho 27, 2010

Capital Inicial



Primeiros Erros
Capital Inicial
Composição: Kiko Zambianchi

Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde estou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão.

Se você não entende, não vê
Se não me vê, não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende.

Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas, só chove e chove
Chove e chove.

Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros.

O meu corpo viraria sol
Minha mente viraria
Mas, só chove e chove
Chove e chove.

sábado, junho 26, 2010

Vida

Quando alunos escrevem em sala, consultam o dicionário para encontrar o significado adequado. Mas, como buscam somente no dicionário, erram porque nesse lugar a palavra é despossuída de vida.

Quem já consultou o dicionário para encontrar o substantivo "vida"?

Não vamos a ele porque "vida" - o seu sentido - não se encontra no dicionário, mas encarnada em nós.

Para escrever, imagine a palavra na vida e para a vida. O dicionário é só cemitério.

terça-feira, junho 22, 2010

Somos campões!!!

Podemos até ser cinco vezes campeões de futebol, mas leia no texto abaixo quem nos dribla.

Por Kátia Ferraz

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) , do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontaram que o Brasil tem o grande desafio de combater o chamado analfabetismo funcional, que atinge 25% da população com mais de 15 anos, entre outras agravantes, constitui um problema silencioso e perverso que afeta o dia a dia nas empresas.

Neste universo não estamos incluindo pessoas que nunca foram à escola, mas sim aquelas que sabem ler, escrever e contar; chegam a ocupar cargos administrativos, porém não conseguem compreender a palavra escrita. Computadores provocam calafrios e manuais de procedimentos são ignorados; mesmo aqueles que ensinam uma nova tarefa ou a operar uma máquina. No entanto, este perfil de profissionais prefere ouvir explicações da boca de colegas.

Calcula-se que, no Brasil, os analfabetos funcionais somem 70% da população economicamente ativa. O resultado não é surpreendente, uma vez que apenas 20% da população brasileira possui escolaridade mínima obrigatória (ensino fundamental e ensino médio). Para 80% dos brasileiros, o ensino fundamental completo garante somente um nível básico de leitura e de escrita.

No mundo todo há entre 800 e 900 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, uma camada de pessoas com menos de quatro anos de escolarização; mas pode-se encontrar também neste meio, pessoas com formação universitária e exercendo funções-chave em empresas e instituições, tanto privadas quanto públicas. Entre suas características, não têm as habilidades de leitura compreensiva, escrita e cálculos para fazer frente às necessidades de profissionalização e tampouco, da vida sociocultural às necessidades de profissionalização e tampouco, da vida sociocultural.

Muito se tem que fazer para reverter esse quadro, mas algumas iniciativas como a criação de bibliotecas comunitárias pelo país tem tido resultados significativos e atraído um público cada vez maior para o mundo da leitura.

sábado, junho 19, 2010

Saramago sempre esteve morto na escola










A morte física de José Saramago não se assemelha à morte de um Airton Senna, porque as páginas abertas de um livro exigem um esforço que o controle remoto de uma tevê não exige.

Pelo simples fato de nunca ter nascido como livro para muitos, Saramago nem morreu.

A multidão televisiva encontra exemplo de vida em Fórmula 1 ou em futebol, não em estantes ou em bibliotecas. A burrice é uma generalidade pelo único motivo de ser bem mais barata, vulgar.

Em qual escola os alunos leram "Caim"?

Em nossas escolas públicas, ler um livro em sala de aula se equivale a encontrar um homem culto na Câmara de Vereadores de Rio Branco, ou seja, não se lê livro em salas desconfortáveis.

Na escola, em época de Copa do Mundo, professores e alunos se enfeitam, torcem. A diretora aparece na tevê. Se não existe sala de leitura na rede pública de ensino, onde se encontrar com José Saramago? A escola só soube do nome porque a tevê noticiou sua morte.

Em uma sociedade onde neopentecostais se alastram como capim, o livro "Caim" seria perseguido pela verdade absoluta dos incultos. Nessa obra, o irmão de Abel é a imagem do marginalizado que questiona as leis de Deus.

Na página 101, leio que "Caim mal podia acreditar no que os seus olhos viam. Não bastavam sodoma e gomorra arrasadas pelo fogo, aqui, no sopé do monte sinai, ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, a quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito."

Se existissem menos neopentecostais e mais ateus como Saramago, o Brasil seria melhor.

sexta-feira, junho 18, 2010

A fartura












Em Rio Branco, Acre, quem passa pela rua dos Engenheiros encontrará um barraco entregue à fé de se alegrar com o sexto título de campeão do mundo.

Neste "berço esplêndido", são 29,9 milhões de brasileiros que torcem, na pobreza, para a seleção brasileira.

Se em casa falta tudo, eles se fartam com títulos.


quinta-feira, junho 17, 2010

O Deus do povo judeu é intolerante

JERUSALÉM, 17 Jun 2010 (AFP) -Milhares de judeus ultraortodoxos furiosos realizaram manifestações nesta quinta-feira à tarde em Jerusalém e perto de Tel Aviv, em protesto contra uma decisão da Suprema Corte que proíbe a segregação entre crianças asquenazis e sefaraditas em uma escola de colonos.

"Há 30.000 manifestantes em Jerusalém e 20.000 em Bnei Brak", uma cidade de população judaica ortodoxa perto de Tel Aviv, declarou à AFP o porta-voz da polícia, Micky Rosenfeld.

As manifestações foram transmitidas diretamente pela emissora israelense e ofuscaram por completo o anúncio do governo sobre uma flexibilização do bloqueio à Faixa de Gaza.

"É a Torá que decreta!", "Não encostem nos redentores de Israel", eram algumas das frases escritas nos cartazes levantados pelos manifestantes.

A polícia israelense foi colocada em "estado de alerta avançado". Cerca 10.000 agentes foram mobilizados, principalmente em Jerusalém, em Bnei Brak e em Beit Shemesh, base ultraortodoxa localizada no meio do caminho entre as duas localidades.

Também foram mobilizadas unidades da guarda fronteiriça, apoiadas pela polícia montada e por helicópteros.

O presidente israelense, Shimon Peres, reuniu-se com o vice-ministro da Educação, o rabino Meir Porush, uma figura da comunidade ortodoxa asquenazi, numa última tentativa de conciliação destinada a acalmar os ânimos.

Dois partidos ortodoxos que têm 16 deputados (de um total de 120 no Knesset, o parlamento unicameral israelense) pertencem à coalizão do primeiro-ministro Benajamin Netanyahu.

Na quarta-feira, o chefe do governo pediu "moderação, respeito à lei" e que fosse encontrada uma fórmula de compromisso satisfatória para todos.

A efervescência dos homens vestidos de preto - de acordo com a vestimenta uultraortodoxa - em Israel foi desencadeada por uma decisão da Suprema Corte que obriga dezenas de judeus ortodoxos asquenazis (originários da Alemanha, Polônia, Rússia, do antigo Império Austro-Húngaro e da Europa central e oriental) da colônia Immanuel (Cisjordânia) a receber em sua escola religiosa crianças sefaraditas (em Israel, originárias da África do Norte e da Ásia, apesar de o termo designar as comunidades judaicas que viveram na Espanha e em Portugal até 1492).

Colonos asquenazis pertencentes ao grupo hassídico Slonim, de origem russa, que retiraram suas filhas da escola há um ano, afirmaram que preferiam ser presos a partir desta quinta-feira durante duas semanas, a obedecer à decisão da Suprema Corte.

Os pais acusados de discriminação racial - 86 pessoas - devem apresentar-se, segundo a emissora de rádio estatal, às 14h00 GMT (11h00 de Brasília) a uma prisão em Jerusalém ocidental a partir da qual deverão ser transferidos para prisões no centro do país.

Os intocáveis

Na história do riso, o poder sempre se protegeu. No Congresso, deputados querem evitar os "constrangimentos" expostos pelo CQC. Não podemos rir deles.

Leia o texto abaixo.

O presidente interino da Câmara, Marco Maia (PT-RS), recomendou à assessoria jurídica da Casa que defina normas para evitar o constrangimento de parlamentares por parte de jornalistas.

Maia manifestou solidariedade ao deputado Nelson Trad (PMDB-MS), que agrediu uma equipe do humorístico "CQC", da Band.

Ao ser abordado por equipe do programa, na semana passada, Trad se exaltou após saber que subscrevera um abaixo-assinado para incluir um litro de cachaça no Bolsa Família.

Uma contratada do "CQC" coletou assinaturas de apoio a uma proposta fictícia de emenda à Constituição.

Na confusão, um cinegrafista teve parte do equipamento danificado. A repórter Monica Iozzi chegou a ser empurrada. As imagens foram ao ar na segunda-feira.

"Ao não querer falar, o deputado é constrangido pelos veículos de comunicação. Há excesso por parte de alguns jornalistas. Temos de tomar algumas medidas institucionais", disse o presidente interino da Câmara.

Segundo Marco Maia, as ações devem preservar a liberdade de imprensa, mas assegurar o direito dos deputados de não autorizarem o uso de imagens pelos programas de humor.

A assessoria de imprensa da Câmara afirmou que sempre liberou a entrada de programas como "CQC", "Pânico na TV" (RedeTV) e "Legendários" (Record), mas que é necessário "mais diálogo" com essas equipes sobre as formas de abordagem dos deputados.

Em discurso no plenário, Nelson Trad reclamou da conduta do "CQC". "Não tem necessidade de eu pedir desculpas aos meus companheiros, porque eu reagi legitimamente em defesa da minha dignidade. Não defendo só a mim, mas a própria instituição a que pertenço há mais de 30 anos", afirmou.

Ele recebeu o apoio do colega José Genoino (PT-SP). "Também tenho passado por essas situações. Conto até 10 para não falar. E passo reto. A coisa está chegando a um ataque individual", disse.

Em suas páginas no Twitter, apresentadores do programa criticaram a decisão de Maia. "A Câmara quer proibir o CQC de 'constranger' os deputados. Pelo jeito, não querem concorrência", disse Rafinha Bastos. Para Marcelo Tas, o "CQC mostrou como ninguém lê o que assina no Congresso".

quinta-feira, junho 10, 2010

A bola rola e nos enrola

Grite gol!!!
Quando os deuses da futilidade derem o pontapé inicial entre Brasil e Coreia do Norte, os problemas sociais dos brasileiros serão jogados para escanteio. Somos cinco vezes campões do mundo; Estados Unidos, Finlândia, Espanha não são.

Até hoje, eu não sei para que cinco títulos de futebol servem, eu não sei. Recentemente, para marcar uma consulta em um hospital público, eu disse "sou cinco vezes campeão do mundo".

Na mão direita, eu segurava uma bandeirinha do Brasil e usava a camisa 10, o mesmo número com que Rivaldo se consagrou na Copa do Mundo de 2002.

Mas, mesmo assim, mesmo cantando "eu sou brasileiro/com muito orgulho/com muito amor", a servidora pública, sem adereço patriótico, falou que não havia cardiologista para me atender, e isso já faz três meses. Com meus cinco títulos, saí derrotado da saúde pública mais uma vez. Tantas vezes torcedor, tive de sair do hospital torcido pela injustiça.

Agora, na Copa do Mundo da África do Sul, após oito anos, o Brasil enfrentará a Coreia do Norte no dia 15 de junho. De lá para cá, tive cinco derrames. Nesse tempo, os homens públicos, que jogam um "bolão", me driblaram muitas vezes para deixar a Pátria sempre em impedimento.

Vejo carro com bandeiras do Brasil. Ruas enfeitadas. Um novo circo repetido nos alegra. Um patriotismo fútil nos envolve com uma bola que rola e nos enrola. Nesta festa, como todas as festas, a realidade social permanece suspensa, é hora de se esquecer do Brasil.

Estamos felizes com o pouco que temos, um gol. Gritemos!!! porque nossas bocas nunca souberam protestar contra a nossa miséria. Estamos felizes com o pouco que temos, o gol. Gritemos!!! porque, calados, engolimos sapos.

O que farei com seis títulos de campeão do mundo?

domingo, junho 06, 2010

Onde está a inteligência acriana?















De Aldo Nascimento

Se colocarmos um microscópio nas câmaras de vereadores e na Assembleia Legislativa, correremos o risco de não encontrar uma inteligência que saiba falar, por exemplo, de educação pública.

Ainda assim, a imprensa acriana, quando publica suas superficialidades sobre o ensino dos pobres, só ouve os políticos. Nos programas de entrevista, onde entrevistador e entrevistado cometem o milagre do monólogo, a presença desses homens públicos predomina como se a inteligência acriana estivesse encarnada neles.

Onde se encontra então nossa inteligência?

Evidente que os jornais Página 20, A Tribuna, O Rio Branco e A Gazeta pautam-se pela inteligência, por isso, por meio deles, tomamos ciência de que as datas mudam. A maior função social de nossos jornais é registrar datas.

Onde se encontra a inteligência acriana?

Se o tema de uma revista é educação pública, a inteligência pulsa nas universidades, nas escolas. Na Universidade Federal do Acre, a inteligência habita nos livros de uma Olinda Batista Assmar, de uma Maria de Nazaré Cavalcante, de um João Carlos de Carvalho, de um Carlos Alberto Alves de Sousa e de tantos outros.

Mas não só eles. É preciso registrar falas de nomes que vivem à margem do poder, do conhecimento institucional; pessoas que recebem salário mínimo e reinventam a vida em bairros esquecidos, em lugarejos isolados do conforto institucional. A inteligência acriana encontra-se em quem sofre.

Visões...

O governo edita uma felicidade coletiva que não existe na casa de Eunice Maria. O jornal, semelhante a papagaio de pirata, repete o que o dono manda. O entrevistador e o entrevistado monologam na TV. O político, o oráculo da imprensa, acredita pensar o Acre. Há anos, sinto o fedor de uma paralisia mental.

Acima de interesses partidários, de interesses pessoais, acima de verbas públicas, muito acima de políticos que falam bem de escola pública, mas matriculam seus filhos em escolas particulares, precisamos (pro)vocar a felicidade coletiva, precisamos despenar o papagaio sem voz própria, precisamos promover o diálogo entre entrevistador e entrevistado, precisamos questionar o oráculo da imprensa, porque eu acredito, como outros acreditam, que nesta cegueira que nos confunde exista clareza de “Visões Amazônicas”.

Como aprecio a desobediência de um Altino Machado. Como entendo as contradições de um Antonio Stélio. Como me encanto com as palavras selvagens de Leila Jalul. Como aprecio o humanismo de um Guilherme da Silva Cunha. Como leio as inquietudes de um Cláudio Porfiro. Como a simplicidade de uma Toinho Alves questiona.

Por causa deles e de outros, justifica-se a circulação de uma revista que reflita de maneira irônica, sarcástica, profunda, desobediente, lúcida. Existe um Acre que não é burro e muito menos adulador.

... Amazônicas

O professor-doutor Carlos Alberto chamou-me para pensar uma revista. “Visões Amazônicas”, Carlos deu o nome. O que penso sobre ela?

1. 52 páginas. Seu tamanho e sua imagem devem atrair o leitor. Diagramação deve ser absurdamente criativa e audaz. O texto deve estar a serviço da imagem. Tamanho de Caras e papel de CUT. Quero ver o texto dos doutores Carlos Alberto e de Olinda Batista em um salão de beleza, entre pédicure e manucure; em uma clínica de estética, entre limpeza de pele e drenagem linfática; em uma biblioteca pública ou no terminal urbano;

2. Fotos simétricas e assimétricas. Misturar regularidade com irregularidade. Harmonia de cores. Brincar com imagens;

3. Textos acadêmicos (populares) convergem com textos jornalísticos. Dados, números, gráficos. Matérias trabalhadas, pesquisadas. Textos objetivos com traços subjetivos. Textos com jornalismo literário, quem souber escrever. Ensaios. Artigos. Misturar gêneros textuais em um único texto. Entrevistas que não sejam monólogos. Resenhas. Poesia.;

4. Sem ser situação ou oposição, entrevistar homens públicos para provocá-los com inteligência, com ética, nada de insultá-los. PC do B e DEM, o mesmo peso. Tratá-los com respeito, provocá-los com respeito. (Des)cobrir vereadores, deputados. (Des)cobrir as câmaras e a Assembleia. Os homens públicos não importam, o que importa são suas ideias, se existirem;

5. Ouvir os que vivem à margem do poder. Ouvir os nativos. Ouvir os marginais. Ouvir os homens rurais, a vida acriana legítima das matas. Ouvir o interior do Acre. Ramais dizem mais que viadutos;

6. Refazer matérias de jornais, expondo precariedade, superficialidade. Matérias com breves artigos. Ouvir os que pensam nas universidades e nas escolas. Ouvir o poder para questioná-lo sempre. Sempre;

7. Uma revista autocrítica e, depois, crítica. Uma revista insatisfeita com o rebanho. Uma revista que não pasta. Inquieta como a insolência. Solene, só o inconformismo. Nada nos conforta, a não ser desobedecer ao conformismo de ideias prontas.

Passos iniciais foram dados. A temática, educação pública. Quando virá a revista? Antes de o messias chegar e antes de o governo da Frente Popular transformar o Acre no melhor lugar para você e eu morarmos, porque esperar muito cansa.

sábado, maio 29, 2010

De amantes a casados

Só os amantes sabem aproveitar o tempo, só eles sabem o valor ímpar de um breve instante.

E se, nesse breve momento, alegram-se, é porque o tempo dos amantes é "às vezes".

É esse "nem sempre" que extrai deles o cansaço das horas contínuas, a monotonia do previsível.

"Quando?"
"Não sei, talvez amanhã, quem sabe".

Entre eles, sempre a lacuna, sempre o espaço sem as horas contínuas. Assim, sem saberem quando será o próximo encontro, o próximo instante, eles sentem a presença intensa da ausência do outro.

Na falta, sente-se no peito a dor, a saudade, é como se a morte espreitasse os amantes. Nessa ausência, momento de solidão, (des)cobre-se então que o breve tempo vivido com o ser amado não pode ser desperdiçado, por exemplo, com brigas.

Só os casados perdem tempo com discussões, com desencontros, não os amantes. De tanto viverem a monotonia dos dias, de tanto o tempo ser saturado pela rotina, os casados não mais se surpreendem nas horas. No casamento, a saudade não pulsa.

É preciso que um morra para que o outro sinta falta. É preciso que um vá embora para que o outro sinta falta. Mas aí pode ser tarde demais.

quinta-feira, maio 27, 2010

O Estúpido

Nesta semana, entre restos de alienação e migalhas de destino, conversei com um cara estranho. Seu nome, Estúpido de Nascimento. Sua miséria mental não me comoveu.

Disse-me que a paralisação dos professores da rede estadual foi um sucesso. Sugeri a ele procurar um psiquiatra, porque sua mente confunde realidade com fantasia, mas Estúpido, sempre alegre com sua ideologia sindical, não entendeu.

Contente como um inocente inútil, disse-me que votará para eleger o novo presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre, o Sinteac. Por falar nisso, o atual presidente poderá deixar o cargo sem antes submeter sua direção a uma auditoria fiscal.

Estúpido não entende isso, não assimila a ideia de que dinheiro alheio deve ser administrado com clareza, com imparcialidade, com ética, por isso nada mais justo do que uma auditoria fiscal.

Estúpido riu e virou as costas.

sábado, maio 22, 2010

Um pouquinho de Macunaíma

Na foto, ator Grande Otelo representa o personagem Macunaíma. A locadora Tenny Vídeo tem o filme.



De Aldo Nascimento

No Acre, depois que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B) ocuparam o Executivo e o Legislativo, entronizou-se a imagem de Plácido de Castro como herói do povo acriano.

Entretanto, quando percebemos a realidade sociocultural desta terra, não vemos uma gente pisando o chão com os ideais militarizados desse mito, ou seja, entre o herói forjado por burocratas do Estado e o imaginário popular, desalinha-se o laço.

A cultura popular, sabemos, não se encontra em quartel, não usa farda, não tem patente, isto é, a força da imaginação popular não é obediente à hierarquia inventada pela classe dominante. Da marginalidade do negro, a ginga do samba germina para se opor à elite nacional, que dança minueto com indumentária à francesa em 1920.

Por meio do marginal Macunaíma, o homossexual Mário de Andrade materializou a força invisível de nossa brasilidade. Se Plácido de Castro é sério, Macunaíma quer rir; se o herói do Estado é “revolucionário”, Macunaíma quer brincar, desorganizar, carnavalizar.

O estrangeiro

Mas de quem Macunaíma ri? Ora, como encarnação da cultura popular, nosso anti-herói ri do colonizador, representado pelo gigante Venceslau Pietro-Pietra, industrial estrangeiro que explora a terra brasileira.

O gigante tem espírito prático, segundo Jorge de Lima. Começou como mascate, regatão nas águas amazônicas, e termina ricaço, com palacete na rua Maranhão e com influência política. Casado com uma Caapora nacional, esse estrangeiro tem duas filhas brasileiras.

Por isso, quando o mandavam trabalhar, Macunaíma, índio da tribo tapanhuma, que significa negro, exclamava: - “Ah! que preguiça!”. Negro-índio, cafuzo, Macunaíma, porque não se submete ao capital estrangeiro, desmascara, por meio de seu riso sarcástico, quem domina.

Por isso, esse herói do avesso quer de volta a muiraquitã, pedra roubada pelo gigante Venceslau. Uma vez com esse objeto sagrado, ela tem o poder de tornar respeitado quem a traz consigo.

São Paulo

Na narrativa de Mário de Andrade, Macunaíma, para chegar a São Paulo, cidade de padre José de Anchieta, do racionalismo cristão, transforma-se em homem branco com olhos azuis.

Assim, se as caravelas europeias aportaram em terras primitivas, agora o primitivo chega à civilização quatro séculos depois. Na cidade, longe da natureza, o negro-índio fica enfermo. A civilização adoece. Modelada pela esperança messiânica e pelo aparelhamento colonial político-religioso, a cidade de Anchieta é doente.

Macunaíma é personagem-mito contra a cristandade, “contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema”, porque esse anti-herói sabe que, “antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”, escreveu Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropofágico.

domingo, maio 16, 2010

Os Amantes. Diamantes













Em sua insana consciência, o Amante jamais pensa como beijará o ser Amado porque o que é vital no beijo é o não pensar. Uma vez nele, uma vez entre lábios e língua, entre a saliva e o céu da boca, já não queremos ver mais nada, por isso fechamos os olhos.

Desejamos tão somente sentir o movimento incerto da carne para partir... e, fechados os olhos, a Alma se sente cair no abismo de uma breve viagem. Deixar ir.

Nada no beijo é exato, preciso ou calculado. Quanto mais errado, quanto mais a língua escapa, foge, escorre, quanto mais os lábios se jogam, a boca só deseja se perder, mais ainda, na boca Amada.

Mas quem disse que o beijo são só os movimentos da carne? Antes de eu ter minha boca de volta, antes de eu ir embora, pouco antes de minha partida, deixei na tua não só o pecado molhado da saliva, mas meu sopro...

meu sopro de vida.