quinta-feira, junho 14, 2007



Ontem, depois de sair do jornal, cheguei ao meu descanso às 22h45min. Abri a porta. Do outro lado da rua, um homem, à porta de sua bela casa, falava alto para outro homem.

O outro homem procurava em seu lixo. "Não mexa em meu lixo, saia daí". "Eu arrumo, quando eu acabar de catar em seu lixo, eu deixo tudo arrumado." "Não, deixe isso aí".

A porta aberta. Não entrei. "Deixe o homem, é um miserável, não está fazendo mal a ninguém", eu disse.

O lixo foi arrumado. O homem da bela casa entrou. Fechei a porta e fui ao encontro do homem que mexeu e arrumou o lixo.
Qual seu nome?
José Alves.

Sua idade.
26 anos.

Ele não concluiu a 4a série. Muito falador, esse rapaz fedia muito e catava comida no lixo de alguém que não queria que ele mexesse no lixo. Na foto, à direita dele, restos.

Eu poderia ter ignorado sua vida, porque ele não pode dar nada em troca. Pior: ele não existe. José não tem vida.

Por que o senhor está falando comigo?, perguntou o rapaz
Porque você me incomodou. Seu resto de comida, catada no lixo, me incomodou.

Em final de mês, a comida é menor. Na geladeira, pouco. Peguei uma caixa de leite, duas laranjas e pão de forma.

Tome.
Obrigado, que Deus lhe dê sempre mais.

"Deus está morto". Os homens O mataram com suas palavras no Poder Legislativo, nas igrejas. A miséria desses homens é maior que a sua.

Não posso sempre lhe dar comida, mas, quando a necessidade apertar, não vá à Assembléia Legislativa do Acre, porque o povo é uma idéia abstrata, genérica lá. O Cristo na cruz só ornamenta o espaço.

Pode ir a meu quitinete. Eu, tendo, darei um pouco de alimento a ti. Não poderei dar sempre.

Como é fácil ignorar o semelhante. Semelhante!?!?!? Deputados, por exemplo, não se assemelham a José Alves. Igrejas, idem.

Por que não ignorei José? Foram duas laranjas, um pacote de leite, pão de forma. Por que não o ignorei? A indiferença é tão elegante, soberba, inflexível. Deveria ter tomado conta de minha vida.

Blog não sensibiliza.

Respondendo a dois bloguistas

Michelle Stephane

Estou afim de escrever um texto sobre a ruim minissérie Amazônia: de Galvez a Chico Mendes e a ótima minissérie Pedra do Reino.



Marcos Afonso

Grande pessoa humana, meu correio eletrônico é lingua.portuguesa@uol.com.br Mande sua carta. Um abraço em teu destino.

quarta-feira, junho 13, 2007

Ronda Escolar

Escrevi em outro momento que escola não interessa aos jornais acreanos, a não ser quando houver morte, tráfico, estupro.

Neste blog, quando eu for informado, publicarei algo sobre o que ocorre em escolas públicas e privadas. É a Ronda Escolar.

"Carro bate contra o poste" sai em jornal. Neste blog, escola importa mais que carro contra o poste.

Na escola Heloísa Mourão Marques, o professor Gleidson leciona Matemática. Pessoa séria, ética, até hoje não existe algo que o coloque em descrédito.

Em sala de aula, uma aluna, a Jéssica, segundo ano E, manhã, disse-lhe "vai tomar no..., seu filho da...". O que fazer?

O fato ocorreu em 30 de maio e, desde então, ela não entra em sala até que os responsáveis compareçam à escola. O professor não permitiu que ela fizesse prova, porque os pais não compareceram.

Bem, a professora-gestora Lúcia autorizou que ela entrasse em sala para prestar exame. O professor não permitiu.

Quem tem razão?




Drummond


As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

terça-feira, junho 12, 2007

Esta é antiga

Essas regras foram publicadas há muito tempo, mas alguns alunos nunca leram. Em uma escola, ele disse:

Regra 1 - A vida não é fácil. Acostume-se com isso;

Regra 2 - O mundo não está preocupado com sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele antes de sentir-se bem com você mesmo;

Regra 3- Você não ganhará R$ 20 mil por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e com telefone à disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone;

Regra 4 - Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você;

Regra 5 - Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade;

Regra 6 - Se você fracassar, não é culpa de seus pais. Então não lamente seus erros, aprenda com eles.
Regra 7 - Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então, antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio.

Regra 8 - Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas, você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido… RUA!!! Faça certo da primeira vez!

Regra 9 - A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10 - Televisão NÃO é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

Regra 11 - Seja legal com os CDFs (aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas). Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles.



O óbvio

"A proposta de criação da força-tarefa foi aprovada de forma unânime por todos os deputados."

1. Parte de um texto jornalístico. Além disso, repórteres escrevinham "no mês de julho", "no ano de 2007", "no dia 27 de março", "às 17 horas da tarde".

Reunião em Escola Pública

















Mais uma reunião na escola Heloísa Mourão Marques. A liberdade na escola pública nos aprisiona em reuniões que não melhoram o índice da escola no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Quais são as metas para a qualidade de ensino?

Nessa reunião, falamos sobre o que falamos há meses, há anos. Na pauta, "o professor deverá estar atento à troca de horário para minimizar passeios dos alunos nos corredores." Mais uma reunião sobre isso. Mais uma.

A pergunta é: por que a professora-gestora Lúcia, até o momento, não solucionou esse problema? Não entendo o porquê de em sua gestão não ter resolvido problema de alunos no corredor e o problema de horário. A atual gestora encontra-se na escola há mais de dois anos.

Mais uma reunião para se falar sobre horário. Mais uma.

No limite

Nessa reunião, coloquei que a atual gestão precisa estabelecer metas e cumpri-las. O que faremos, por exemplo, sobre a Redação para o Enem e para o vestibular? Quais são as metas da gestão da professora Lúcia?

Diretor não cumpre metas? A Secretaria de Educação não exige metas?

Em todas as reuniões, baterei na mesma tecla: RedaçãoRedaçãoRedaçãoRedaçãoRedação. A escola precisa ter um Projeto Político Pedagógico, também, para a Redação. Quais são as metas?







segunda-feira, junho 11, 2007

Acesso à pornografia


Na escola pública, alguns defendem a distribuição de camisinha para que adolescentes das classes mais simples se protejam.

Como na escola a palavra encontra-se enferma, restou a ela o objeto, porque, uma vez doente a palavra, a camisinha cumpre sua função orgânica. Segundo essa função, sexo não pertence à alma, mas tão-somente à carne.

A Literatura na escola poderia ser outra. Ela poderia refletir sobre o Amor com outras disciplinas, porque o Amor precisa ser protegido contra o câncer da vulgaridade. A Literatura - e não a camisinha - cumpriria seu destino ético e estético contra esse mal.

Na escola Helóisa Mourão Marques, distribuí a 55 alunos um questionário sobre pornografia. O resultado me espantou. Repare.

35 meninas de 15 a 17 anos

19 têm acesso à pornografia: 17 assistem a filmes pornôs por meio de DVD.

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20 meninos de 14 a 17 anos

17 têm acesso à pornografia: 16 assistem a filmes pornôs por meio de DVD.

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55 alunos ao todo

36 têm acesso à pornografia.


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A escola pública não realiza pesquisa. Se realizasse, conteúdos de disciplinas poderiam ser destinados a essa demanda. Um exemplo.

O professor de Literatura do ensino médio ainda concebe o Realismo e o Naturalismo segundo esqueminhas de livros didáticos. No entanto, em uma pequena amostragem com 55 alunos, 36 assistem a filmes pornográficos e, por meio deles, deformam as relações humanas.

Enquanto isso, na escola, a Literatura permanece indiferente a uma concepção de corpo segundo o Naturalismo. Não há crítica por meio de conceitos muito bem fundamentados.

Como saída, ou melhor, como não há saída, a camisinha reforça o ideal naturalista na escola. Os professores precisam perder sua inocência sobre a Literatura. Encará-la como texto que se opõe à cultura de massa torna-se essencial.

A Pedra do Reino

Obra clássica de Ariano Suassuna,
"A Pedra do Reino" ganha versão para a TV, que estréia na terça-feira

ESTHER HAMBURGER
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A minissérie "A Pedra do Reino", adaptada do romance homônimo de Ariano Suassuna, com direção de Luiz Fernando Carvalho, que estréia na terça, é um épico que se desdobra em vários níveis.

Com traços autobiográficos, o texto conta a história de d. Pedro Dinis Quaderna, protagonista e narrador tragicômico da história de um reino mítico, alegoria de um certo Brasil, com sede no grandioso sertão do Cariri.

O narrador é obcecado pela retomada da coroa de seus ancestrais, disputada em lutas de sangue. Mas almeja também a glória da academia, capaz de elevar um autor genial à condição imortal.

A árdua tarefa de condensar o romance colossal, pleno de referências à história do Brasil mas também ao universo mítico das narrativas medievais, ganhou vida por meio de uma produção, filmada com uma câmera só, em super 16 mm, que reúne a Globo e a independente Academia de Cinema.

O espírito épico do romance foi transposto para a própria produção, feita em locação no sertão da Paraíba. Cerca de cem pessoas, entre atores, artistas e artesãos nordestinos e uma reduzida equipe de profissionais do Rio de Janeiro e de São Paulo, conviveram durante três meses na pacata Taperoá.

O resultado dessa intensa vivência é um híbrido, em tom operístico, composto de cinema, televisão, circo e teatro.Interlocução múltiplaA textura do trabalho resulta da troca de repertórios entre artistas e artesãos locais e profissionais da cidade grande.

Essa interlocução múltipla, sob o calor ardente do sertão nordestino, transpira e dá força ao produto final.A complexa interação provocou uma profusão de emoções fortes que se transferem à tela.

O paraense Cacá Carvalho faz um magnífico juiz corregedor, que domina a cena a partir do terceiro capítulo. Luís Carlos Vasconcelos encarna um terrível Arésio, o revoltado filho do padrinho de Quaderna. Ambos montaram seus espetáculos teatrais em Taperoá durante a preparação das filmagens.

Irandhir Santos, em sua estréia, brilha na pele do protagonista desengonçado, misto de doido e palhaço, como velho errante contador de histórias e como jovem cativo em busca de um reino encantado.Adornos hiperbólicos enfeitaram as fachadas, as roupas, os cenários.

A interpretação carregada dos atores ajuda a adensar ambientes já sobrecarregados de detalhes, produzindo atmosferas plásticas saturadas de significado.Sem didatismoOs figurinos vestem os personagens com detalhes de artesanato personalizado.

Os cavalos-bonecos se inspiram em cada personagem (o do herói Sinésio é branco). A narrativa não-linear flui com graça e ironia por meio das aventuras de nossos sertanejos em uma caçada na direção da monumental Pedra do Reino.

A paisagem seca do sertão recebe bem bichos de lata. Não há concessões ao didatismo ou ao melodrama. Por vezes temos dificuldades de identificar os personagens. Nem sempre as sutilezas são perceptíveis em uma primeira olhada.

A trilha sonora de Marco Antônio Guimarães, compositor do grupo Uakti, ajuda a conferir um tom cigano e mambembe que combina com o mistério enevoado da série."A Pedra do Reino" é o primeiro trabalho do projeto "Quadrante", que pretende viajar pelo Brasil a realizar adaptações literárias ambientadas em diferentes paisagens, sempre com a participação de artistas locais.

O projeto, a um só tempo de formação e de criação, como o circo-teatro que o inspira, busca agitar as regiões por onde passa. Promete ainda empolgar profissionais cansados da rotina pouco estimulante das produções ordinárias.

Suassuna criou um novo final para a minissérie, que valoriza o teor reflexivo das artimanhas de nosso personagem. PontodeFuga

O colunista Jorge Coli está em férias

sábado, junho 09, 2007

Conforto














Em Rio Branco, onde nós temos uma das melhores frotas de ônibus do Brasil, os empresários, preocupados com o conforto dos passageiros, do trocador e do motorista, colocará na capital do Acre o ônibus-corno.

Haverá ar-condicionado e os bancos serão reclináveis. A passagem será mais barata: R$ 1,1.

Outra novidade, a campainha. Quando o passageiro puxar a corda, ouvirá o mugido de um boi.

Ronda Gramatical

"Papôco morre silenciosamente"
1. Papôco - O Página 20 publicou "Papôco". Paroxítona terminda em "o" não é acentuada. O repórter deveria saber que 1 + 1= 2.

Ronda Gramatical

"Meu comentário: talvez Jorge Viana não seja capaz de tamanha trairagem em aceitar o convite, embora tanto ele quanto Lula discordem da conduta de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente."

1. trairagem - Esse termo inexiste nos dicionários Houaiss e Aurélio.

2. , embora - Quando a oração subordinada encontra-se na ordem sintática direta, ou seja, surge após a oração principal, não há vírgula. Nesse casso, segundo a organização sintática, não há vírgula antes de embora.

sexta-feira, junho 08, 2007

Ronda Gramatical

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades que um sistema pode contar."

1. Pode contar (com)

"O setor público de saúde do Acre ganhou ontem uma das mais importantes unidades com que um sistema pode contar."

Domínio público

O governo federal está com um ótimo site. Chama-se www.dominiopublico.gov.br. Acesse!!!

Mario Quintana (1906-1994)











Podem falar da violência de minha cidade - e há muita -, mas o Rio não se reduz a isso. Cultura. O Rio de Janeiro transborda cultura, por exemplo, na rua, ela: poesia.

Até o final de julho, os meios de transporte de Santa Teresa vão circular com um adereço especial: a poesia de Mário Quintana.

"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."

Cerca de 40 textos do escritor gaúcho foram selecionados para o projeto Leitura em Trânsito. Os ônibus, os táxis do bairro e os tradicionais bondinhos vão ganhar 700 cartões impressos com a obra do poeta.
A idéia do projeto é valorizar ainda mais o passeio pelas ruas bucólicas do bairro, oferecendo aos moradores e visitantes acesso à literatura brasileira.

A escolha de Mário Quintana para abertura do Leitura em Trânsito é uma homenagem ao centenário do escritor, comemorado no ano passado.
A cada três meses, os cartões serão substituídos por outros com textos de autores diferentes.

O evento está sendo organizado pelo Centro Educacional Anísio Teixeira, o CEAT, instituição instalada em Santa Teresa há mais de trinta anos.

quarta-feira, junho 06, 2007

O SagradO & O ProfanO


Na igreja, orações; no clube, gemidos.

Aviso ao senador Geraldinho (PMDB-AC)


O senhor trocou seu amigos políticos. Eu até compreendo. Eu só não compreendo o porquê de o senhor não trocar seu "açeçor de comunicassão", porque, minha nossa!!!, seus textos não estão à altura de um Nabor Junior.

Senador, tudo começa pela palavra bem escrita.

TudO pelA coiSa púBliCa


Hoje, pela manhã, a professora-diretora Lúcia reuniu os professores para votar a favor ou não de um feriado prolongado. A maioria dos professores da escola Heloísa Mourão Marques votou a favor de não lecionar na sexta-feira.


Como a democracia é eficiente, soberana, não é verdade?, quando o assunto toma a forma de descanso no espaço público. Como servidores, votamos a favor do que não queremos, no caso, trabalhar, porque essa democracia sabe o que é melhor para nós. Um dia não faz diferença.

Até hoje, essa democracia não votou a favor de uma qualificação radical no ensino, por exemplo, de Língua Portuguesa. Nós preparamos mal nossos alunos, mas, para transformar a realidade do aluno, não há votação; há uma sutil e simpática indiferença. Não exigimos de nós para haver trabalho, não exigimos de nós o resultado melhor de nosso ato de lecionar.

Votar no professor que deseja
Em reuniões, tenho ofertado idéias para buscar qualificação. Defendo, por exemplo, a idéia de que, no segundo ano do ensino médio, o aluno deve votar no professor que ele deseja para estudar no terceiro ano, porque o último ano do ensino médio possui uma natureza própria de ensino, qual seja, colocar o aluno na faculdade pelo vestibular ou pelo Enem.

Não que os outros anos não tenham esse propósito, mas no terceiro ano isso deve se intensificar.

Questionário
Outra questão refere-se ao aluno responder a um questionário sobre o desempenho do professor. Falei sobre isso com a diretora Lúcia, e ela disse que adotaria a idéia. Até hoje...

Conselhos
Sobre os Conselhos de Disciplina e de Turma, não avançamos. Existem reuniões e Reuniões. Sobre Conselho de Turma, aprovamos no Conselho Escolar, mas não existe vontade político-educacional da diretora para que isso seja um hábito na escola.

Atividades lúdicas na escola deveriam partir dos Conselhos de Turma, mas, ainda que aprovados, inexistem, porque não passaram de idéia no papel.

Democracia

Para isso, votamos. Para aquilo, não votamos.


Metas
Quais nossas metas enquanto escola pública? Nós, até hoje, não temos um Plano Político Pedagógico. Eu já entreguei a Deus.

Corpus Christi
Os professores ressuscitarão na escola pública somente na segunda-feira.





terça-feira, junho 05, 2007

Assassinato em escola pública

Meu blog não é lido por muitas pessoas, e a educação não é notícia no Acre como é notícia o assalto em páginas policiais.

Ontem, às 22 horas, um carro desgovernado bateu contra um poste quando um cãozinho fazia xixi.

João mata mulher com 69 facadas.

Polícia apreende 69 quilos de maconha.

Todo dia a mesma notícia sem importância. Nomes mudam. Os fatos, os mesmos. Diante disso, a educação ainda consegue ser menor.

Restou-me este inexpressivo blog, bolha à deriva do tumulto, à deriva dos jornais, à deriva dos enfadonhos fatos policiais.

Aqui, neste espaço, a educação é fato. Eis a matéria.
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Morte em escola estadual

Na terça-feira, 29 de maio, jornais acreanos não noticiaram a morte no corredor da escola estadual, porque assassinato na educação importa muito menos do que um carro bater em poste.

Por volta das 8 horas, o corpo levou vários tiros. O professor-diretor Lulu não chegou a tempo para prender os assassinos, mas a PM realizou o cerco e os três meliantes foram presos.

João da Silva, de 15 anos; Silva da Silva João, de 16 anos; e João da Silva João, de 17 anos, mataram Aula, de 78 anos, com "requintes de crueldade" - frase feita horrível - para perturbar a ordem escolar.

Depois que esfaquearam a idosa na cabeça, saíram de sala de aula para causar tumulto no corredor, impedindo que o professor Bakunin lecionasse sobre anarquismo. Uma inspetora, muito religiosa, abriu a Bíblia para pedir a Deus paciência. Outra inspetora fazia tricô. Uma outra não se moveu por causa de sua condição de pedra.

Como o fato ocorreu pela manhã, o diretor ainda escova os dentes e passava batom. A escola pública pode esperar.

"Esse problema se arrasta há anos com uma perna só", reclama a professora. "Os alunos não viajam para a Europa neste período do ano e resolvem ser turistas na escola".

Sem solução, o professor, entregue à indiferença dos que deveriam colocar ordem, retirou o revólver da cintura e suicidou-se em sala de aula. Os alunos pularam de alegria. "Ele morreu, viva".




segunda-feira, junho 04, 2007

Ronda Gramatical

"A possibilidade de o governo do Amazonas aposentar a proposta federal de recuperar e asfaltar a BR-319, que liga Manaus à Porto Velho (...)."

1. à Porto Velho - Altino Machado & Flamínio Araripe erraram feio, feio como Altino. No blog do feio, há muitos erros, mas, como não tenho tempo para comentar sobre todos, escolhi um: à Porto Velho;

2. Esse tipo de erro assemelha-se a 1 + 1= 3. Erro bobinho. Ingênuo;

3. Nós não escrevemos "a Porto Velho é bonita", porque o artigo "a" inexiste antes de Porto Velho. Ora, se não há artigo "a", não pode haver o acento grave, indicador do fenômeno da crase (união entre artigo "a" + preposição "a"). Permanece, portanto, somente a preposição "a", não havendo a união (crase).

Ronda Gramatical

"Segundo ele, as supostas conversas atribuídas a ele e os dirigentes dos partidos que fazem oposição à Frente Popular do Acre (FPA), à qual seu partido faz parte, na realidade nunca existiram."

1. a ele e os - Coloca-se a preposição "a" antes de "ele" e não coloca antes de "dirigentes". É um erro. "Atribuídas a ele e aos dirigentes";

2. à qual - Seu partido não faz "parte a". Seu partido faz "parte de". O correto é "de que seu partido faz parte"; e

3. que fazem oposição - Usa-se o verbo "fazer" como muleta, porque existem jornalistas que coxeiam quando usam a língua portuguesa. Melhor escrever "dirigentes dos partidos que se opõem à Frente Popular do Acre (FPA), de que seu partido faz parte, na realidade, nunca existiram".

Texto do Mais!


Sempre indico aos alunos do Ideal a leitura do caderno Mais!, da Folha de São Paulo. O texto de hoje veio de lá.

Em uma redação, não é só a forma e a gramática, mas, também, o que se pensa, mesmo que isso não seja levado em consideração pela Copeve ou pelas universidades particulares.

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Do ladrão ao barão


Tesoureiro-mor de d. João 6o, Francisco Targini é um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública


LUSTOSA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Durante o reinado carioca de D. João 6ø, tornou-se popular uma quadrinha que dizia: "Quem furta pouco é ladrão,/ quem furta muito é barão,/ quem mais furta e mais esconde/ passa de barão a visconde". Seu alvo era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço.

Nascido em 1756, em Lisboa, Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros. Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará.

Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799, segundo Oliveira Lima, malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Targini veio para o Rio com a corte em 1807.

Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses.

Depois de nomeado tesoureiro-mor, ele foi agraciado com o título de barão de São Lourenço, em 1811, e elevado a visconde, em 1819. Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: "Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário".

Um dos boatos que se contavam dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peça ao meio, revendendo-as depois ao governo pelo dobro do preço original.

Targini também passou à história por ter feito nomear diretor da Academia de Artes, em 1820, após a morte de Lebreton, um medíocre pintor português, Henrique José da Silva, e, como secretário, o padre Luís Rafael Soyé - que, segundo Taunay, era um "velho eclesiástico espanhol, de origem francesa, sem honorabilidade nem compostura, poeta de água doce e parasita do ministro Targini, que se oferecera para trabalhar pela metade do preço".

Também foi nas águas de Targini que se criou um outro parasita, João Rocha Pinto, valido e amigo do peito de d. Pedro 1ø.

Homem rico, erário pobreNas cartas ao cunhado e ministro, o conde de Linhares, Palmela, homem da ilustração portuguesa, apontava Targini como o homem mais corrupto da corte de d. João e recomendava sua demissão.

José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", diz que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego".Hipólito da Costa, no "Correio Braziliense", admirava-se de que Targini, sem outros bens mais que o seu minguado salário, tivesse se tornado um homem riquíssimo, enquanto o erário se achava pobre. E completava:

"Se a habilidade de um indivíduo em aumentar suas riquezas fosse por si só bastante para qualificar alguém a ser administrador das finanças de um reino, sem dúvida Targini, barão do que quer que é que não nos lembra, devia reputar-se um excelente financista".

A edição da "Arte de Furtar" que consta da coleção do Instituto Histórico do Ceará é dedicada a um ex-funcionário da Fazenda no Ceará. Trata-se possivelmente da que foi publicada em Londres, em 1821, por Hipólito da Costa, que, ironicamente, a dedicava ao Visconde S. Lourenço.

A imagem de Targini aparece na página de rosto emoldurada por uma corda, como se fosse uma forca.Nas agitações que antecederam a partida do rei, em 1821, Targini chegara a ser preso na Ilha das Cobras. Mas, segundo se disse, isso fora apenas para poupá-lo de agressões, tal era a sua impopularidade. Logo foi solto e embarcou rumo a Lisboa.

No "Correio", Hipólito criticaria o fato de o conde dos Arcos, principal ministro do regente, d. Pedro, ter dado por justas e liquidadas as contas do tesoureiro-mor e concedido passaporte para aquele se pôr ao fresco.

Segundo Oliveira Lima, o inquérito contra Targini, conduzido pelo conde dos Arcos, "estabeleceu a integridade do funcionário, a quem foi concedida uma pensão".Talvez Lima não conhecesse um manuscrito de 17 páginas datado de 1807 e intitulado "Ode ao Conde dos Arcos", que consta do acervo da Biblioteca Nacional e assinado por Francisco Bento Maria Targini.Segundo Antonio Paim, Targini foi o responsável pela tradução para o português do tratado publicado por Charles Villers, em 1801, "A Filosofia de Kant ou Princípios Fundamentais da Filosofia Transcendental".

Uma das coisas que Oliveira Lima alega em defesa de Targini é o fato de ser homem culto que traduziu o "Ensaio sobre o Homem", de Pope, e "O Paraíso Perdido", de Milton. Esta última foi publicada em Paris, em 1823, com reflexões e notas do tradutor, numa edição muito luxuosa.

De fato, Targini, quando chegou a Lisboa, em 1821, foi impedido de desembarcar, retirando-se para Paris. Ali viveu até morrer em 1827, certamente com tempo e dinheiro para gastar em suas obras de erudição.Creio que, apesar da defesa de Oliveira Lima, vale o refrão espanhol que Hipólito da Costa usou para ilustrar a situação de Targini:

"Quem cabras não tem e cabritos vende, é porque de algum lugar lhe vêm".

Seu enriquecimento no cargo de tesoureiro-mor de um reino tão empobrecido devia ser indício suficiente para condená-lo. Sua vasta erudição não é atenuante, e sim, agravante. Os pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido e a marquesa de Santos, roubavam no varejo, da despensa do rei e do bolsinho do imperador.

Targini roubava à grande, ostentando seus ganhos e correspondendo fielmente a uma outra versão da quadrinha popular citada no início dessa matéria e que terminava dizendo: "Quem mais rouba e não esconde/ passa de barão a visconde".

ISABEL LUSTOSA é historiadora da Casa de Rui Barbosa (RJ) e autora de "Insultos Impressos" (Companhia das Letras), entre outros livros.

quinta-feira, maio 31, 2007

GAZETA não está ALERTA

Hoje, li no rodapé do programa GAZETA ALERTA isto:

"Polícia encaminhou este ano para o presídio 870 acusados de crimes."

Encaminhou algo ou alguém, nesse caso, escaminhou "este ano" e encaminhou "870 acusados de crimes".

A polícia, no entanto, não encaminhou "este ano"; encaminhou, isso sim, somente os "879 acusados de crimes".

O correto é "polícia encaminhou neste ano para o presídio 870 acusados de crimes".

É preciso ficar alerta, GAZETA!

Letra não é Número















Os alunos do Colégio Acreano estão de parabéns, mas, enquanto os alunos acertam, a diretoria erra para todo mundo ler e reler.

Não há hífen depois de "bi".

Em 2008, o governo federal criará a Olimpíada de Língua Portuguesa.

Outra: II Olimpíada de Matemática não é o mesmo que .

quarta-feira, maio 30, 2007

O Erotismo, de George Bataille



Época em que locadora escreve erotismo quando deveria ser pornografia, o livro de Bataille retira de nós a gosma de ignorância sobre o deus Eros.

Para quem deseja salvar a sua alma a fim de ficar perto do Pai, não pode ir com a mala cheia de vulgaridade, porque o Céu é exigente.

Amanhã, na aula sobre Barroco, tocarei no conceito erotismo, porque, por meio da Literatura, precisamos refletir sobre conceitos e não apenas reduzir a aula a características de época.

Em Literatura, a palavra clama para ser pensada.

Palavras dele, Bataille.

"O erotismo é abordado como uma experiência ligada à vida, não como objeto de uma ciência, mas da paixão, mais profundamente, de uma contemplação poética."

Ainda que seja uma aula de pré-vestibular, não posso admitir a pobreza da Literatura com seu reducionismo apostilado. Alguns professores de departamentos de letras são responsáveis por isso quando selecionam, por exemplo, dez livros.

Bem, um dia, quem sabe, escreverei sobre isso.

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Vidas Secas, Graciliano Ramos


Frei Beto equipara a ideologia às lentes dos óculos. Não percebo, é invisível, mas a ideologia está lá.

Não vejo a realidade com meus olhos, porque, antes, as lentes filtram-na. Meu olhar, portanto, alienado, não sou eu. Meu olhar, as lentes.
A situação piora quando elas pertencem a uma câmera de TV. São minhas pupilas.
Ora, entre mim e as vidas de Fabiano e de Sinhá Vitória - personagens de Vidas Secas -, a presença dele conduz meu olhar: narrador.
O que leio depende dele. O modo-palavra como narra é o modo-palavra como olho.

"Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. (...)".

O romance, em suas primeiras linhas, apresenta um narrador que visualiza, antes, a terra ("na planície avermelhada"). O espaço. Faz sentido. Esse narrador olha para Fabiano e Vitória como extensões do meio, vidas humanas geradas por um solo seco e, uma vez submetidas ao espaço árido, suas falas também são secas.
Se seca é a palavra de Fabiano, sua reação à morte do filho mais velho não emociona o olhar do leitor, porque o narrador, em terceira pessoa, neutraliza o sentimento paterno para ele, o narrador, mostrar a morte de forma impessoal.

"(...). Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. (...)." É o narrador que afirma, não o pai.
Como escreve Sarte, onde existe o narrador realista ou naturalista, a vida não germina. Isso se opõe ao texto A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna.
Eu, na condição de leitor do mundo, não olho a vida por meio de narradores realistas ou naturalistas. Eles esmagam o espírito humano, isto é, ela: a inquietação.



segunda-feira, maio 28, 2007

Nada que sou me interessa


NADA QUE SOU me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em que me conheço
Qualquer cousa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei de ter.


Fernando Pessoa

sábado, maio 26, 2007

Matéria censurada

Os interesses comerciais estão acima da verdade comprovada, porque tais interesses, e não a verdade, pagam as contas, mantêm todos vivos.

A verdade mais elaborada, repito, comprovada, não nos serve: as compras do mês são caras; a luz é cara, o consórcio do carro é caro. A verdade, no entanto, custa pouco. Nada.

Restou este blog.
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Sinteac: um acerto de contas com a categoria


De Aldo Nascimento

No centro de Rio Branco, na Rua Marechal Deodoro, 747, a sede do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre (Sinteac) é uma casa com vários cômodos, comprada por R$ 115 mil. O dinheiro do imposto sindical pagou.
Ao entrar, do lado esquerdo da recepção, uma porta se abre para um pequeno e estreito corredor que leva aos fundos do sindicato. Lá, bem atrás do imóvel, ao lado de uma dispensa, a última porta: a da tesouraria. Somente duas contadoras possuem a chave.
Para abri-la, a presidente Alcilene Gurgel expediu um documento à contadora Aladir Marlene Ferreira de Souza para este blog examinar alguns papéis, porque, em 8 de maio, o presidente da Comissão Eleitoral, José Rodrigues Arimatéia, entregou um ofício à contadora a fim de que ela não abrisse a porta.
Inútil. À esquerda, pastas organizadas em prateleira ocultam há anos a história financeira do maior sindicato do Acre. Antes de 2006, a contabilidade do Sinteac jamais tinha sido exposta à imprensa, neste caso, a um blog.
Colado à parede da sala, um cartaz ordena que, filiado, mostre que seu sindicato é importante. Atualize-se!. Mas, quando este blog abriu algumas pastas, descobriu que o dinheiro dos filiados é que não tem a menor importância para ser bem administrado.
O Sinteac, há anos, encontra-se desatualizado. Além de ter perdido o mouse da história, os tesoureiros que por ali passaram ignoraram o que fosse contabilidade – números não batem, faltam documentos, notas fiscais inexistem.
Tribunal de Contas
Como não existe Tribunal de Conta de Sindicato, uma licitação, na administração da professora Alcilene Gurgel, foi aberta para auditar e assim comprovar números, documentos, notas fiscais.
Três profissionais se apresentaram. Paulo Ferreira de Sousa, economista e contador, ganhou a licitação por ter apresentado o melhor preço: R$ 5 mil. Em um segundo momento, cobrou mais R$ 2 mil, porque precisou adicionar documentação ao seu trabalho.
Segundo a contadora Aladir Marlene - há 20 anos trabalhando na entidade -, a última auditoria no Sinteac ocorreu quando o professor Edvaldo Magalhães administrou o sindicato. Isso faz uns 15 anos.
Mas o documento dessa auditoria não está no Sinteac, sumiu”, continua Alcilene Gurgel. “Para não sumir o relatório do auditor Paulo Ferreira, resolvi então entregá-lo ao Mistério Público.”
Mas por que a presidente do Sinteac não o entregou antes?
Porque, quando recebi o relatório em maio de 2006, eu o apresentei à diretoria, mas a diretoria decidiu não protocolar no Ministério Público. Acatei, mas, depois, quando percebi que esse documento poderia cair no esquecimento ou desaparecer no sindicato, resolvi, por iniciativa própria, entregá-lo ao Ministério Público na última semana de abril deste ano.”
E, dessa forma, pela primeira vez na história do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre, a forma como se administra o dinheiro dos professores e do pessoal de apoio saiu das pastas verdes, amarelas e vermelhas.
Doação
Segundo uma fonte, não existe entre as normas do Sinteac um artigo que permita doações. Mais: em seu relatório, o auditor Paulo Ferreira registra várias vezes que tais doações não têm o “motivo da finalidade”.
Por exemplo, em 2002 e em 2003, no período de três meses, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) recebeu uma doação de R$ 4.250. Pessoas receberam também, menos João Bosco, professor que leciona Língua Portuguesa no Rodrigues Leite.
Nunca recebi uma doação do Sinteac”, reclama. Agora que sei que o sindicato é casa de caridade, estou precisando de R$ 2 mil para comprar uns livros sobre contabilidade e dar de presente aos ex-diretores do maior sindicato acreano.”
No caso do professor Bosco, ele nunca assinou uma ficha de filiação. Mas em seu contracheque o desconto é mensal para ser doado ou emprestado. Quando procurou o Sinteac para saber sobre sua ficha de filiação, não a encontraram. Bosco nem vota, porque seu nome não consta na lista.
Irei às pequenas causas, pois não sou filiado, descontam em meu contracheque e ainda usam o meu dinheiro de forma irresponsável e amadora”, afirma o professor.
Empréstimos
Sindicato é banco? O Sinteac Bank é. Empresta mil reais, por exemplo, a diretor da entidade, mas falta o comprovante. O blog teve acesso à contabilidade de 2001 a 2005 e constatou o que o auditor Paulo Ferreira anotou em seu relatório – faltam comprovantes.
Em 5 de maio de 2003, o cheque 301.347 da Caixa Econômica foi emitido para pagar um empréstimo de mil reais. Mas não há documento no próprio sindicato que comprove a operação. Somente em maio de 2003, existem 17 cheques sem documentações que comprovem as operações.
Em 1º de outubro de 2003, por meio do cheque 302.069, realiza-se um empréstimo de R$ 3,3 mil. Na pasta do sindicato, não há comprovante. Só nesse mês, há 19 operações financeiras sem a devida comprovação.
Em 3 de fevereiro de 2005, a transferência bancária 19.312 paga R$ 2.184,25 para haver hospedagem em um congresso nacional. Mais uma vez, não há comprovante. Nesse mês, faltam quatro.
A obrigação de juntar alguns comprovantes aos documentos fiscais do sindicato, segundo Elza Lopes, ex-presidente do Sinteac (2003-2005), não é papel do presidente.
A obrigação era dela [a contadora], não era minha tarefa sair atrás de documentos e de papéis”, defende-se Elza.
Para a contadora Marlene, a ex-presidente está equivocada, porque sua função não é essa, a de recolher comprovantes. “Lanço a despesa, mas coloco na contabilidade do sindicato ‘não tem comprovante’”.
Os interesses partidários, muito acima da técnica contábil, gastam dinheiro dos filiados com ineficiência, com incompetência e com indiferença ao que é correto por meio de uma nota fiscal. É fácil, dessa forma, promover “luta sindical” com o dinheiro dos outros.
Muita grana
Há muito dinheiro no Sindicato da Educação. Muito. Com imposto sindical, a arrecadação aumenta consideravelmente, ficando entre R$ 410 e R$ 425 mil. Sem o imposto, a grana oscila entre R$ 142 e R$ 148 mil por mês.
Mas, mesmo assim, segundo a contadora, não sobrava muito dinheiro no passado, algo em torno de mil a R$ 2 mil. Hoje, a cada mês, o Sinteac consegue deixar em caixa uma quantia que varia entre R$ 20 e R$ 25 mil. Hoje, no cofre da entidade, há em torno de R$ 80 mil.
Em minha administração, não há, por exemplo, empréstimo e doação de dinheiro a pessoas, cortei isso”, orgulha-se a professora Alcilene Gurgel. “Saneamos as contas do Sinteac, porque respeitamos o dinheiro do professor e do pessoal de apoio”.
Conselho Fiscal
Há mais de dez anos, o Conselho Fiscal do Sinteac não funcionava. Milhares de reais deixaram de ser fiscalizados, e a última auditoria ocorreu há mais de 15 anos. Em outras palavras, “administrar” dinheiro dos outros não havia mistério.
Após anos, no entanto, em 22 de maio de 2006, é concluída a primeira etapa de uma auditoria e, em agosto do mesmo ano, o relatório do auditor Paulo Ferreira de Sousa chega ao fim.
Pela primeira vez na história do Sinteac, a forma como se administra o dinheiro dos professores e do pessoal de apoio deixa uma fratura exposta. Amadorismo, incompetência e corporativismo são algumas feridas que denunciam um sindicato que descuida de uma arrecadação mensal acima dos R$ 100 mil.
Sentencia o relator sobre as contas de 2001 a 2005.
As prestações de conta (...) mostram um desrespeito com os recursos dos sindicalizados diante da falta de documentos comprobatórios, pagamentos sem atender aos princípios básicos, tais como: princípios da legalidade, princípios da impessoalidade, princípios da publicidade, princípios da eficiência, princípios da licitação, princípios da responsabilidade, princípios da participação, princípios da autonomia.”
No mesmo ano, em 29 de julho de 2006, o 4º Congresso dos Trabalhadores da Educação empossa os membros do Conselho Fiscal do Sinteac. Meses depois, em novembro, o conselho, tendo a professora Maria Célia Lima de Souza como presidente, declara em documento.
Os recursos do Sindicato, naquele período [outubro de 2005 a setembro de 2006], haviam sido gastos com muito critério, zelo e responsabilidade, uma vez que não foi detectada nenhuma irregularidade, mínima que fosse, mesmo diante das mais constantes buscas efetuadas em todas as documentações analisadas pelos membros do Conselho Fiscal”.
Hoje, nas contas do sindicato, não se vê um empréstimo pessoal, não se constata uma doação a qualquer pessoa. Não é só isso. De janeiro a dezembro de 2006, o atual Sinteac gastou R$ 26.742,74 com gasolina e lubrificante - uma média de R$ 2.228,56 por mês – enquanto, de janeiro a abril de 2003, o sindicato tirou do bolso R$ 32.619,69 – uma média mensal de R$ 8.154,92.
Quanto a passagens de avião, Alcilene consumiu R$ 27.142,12 de janeiro a dezembro de 2006 – uma média mensal de R$ 2.261,84. Em 2003, em quatro meses, foram R$ 37.480,07 – uma média de R$ 9.370,17 por mês.
Não resta outra medida deste conselho a não ser elogiar a maneira honrosa, proba e honesta com que a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Educação geriu os recursos financeiros do sindicato especificamente no período de outubro de 2005 a setembro de 2006”, assina a professora-presidente do Conselho Fiscal.
Ainda que suas contas tenham sido reconhecidas como bem administradas, a professora Alcilene Gurgel termina sua gestão sem ter aberto uma licitação para que sua contabilidade fosse auditada. “Não tive tempo”, justifica.

sexta-feira, maio 25, 2007

Dissertação de alunos


Entro em uma sala de escola pública acreana com este propósito: transformar a vida de meus alunos.
Para isso, inquieto-me; insatisfeto, sempre estou. Desejo mais e mais. Dê-mais. Nunca estou pronto, acabado, concluído.

Tenho lido pouco por causa do tempo entregue ao trabalho para depois da escola. Se este país fosse educação, professor entraria no turno da manhã e sairia no turno da tarde. Tempo integral, sem a necessidade de trabalhar em outro lugar.

Mas, se esse tempo não chega, às sextas-feiras, dedico-me à reconstrução textual dos alunos. Cansa. Aula muito cansativa. Estamos na introdução. São duas aulas de Redação por semana.
Em 25 de março deste ano, escreveram que...
"A cada ano que passa, as jovens entre 12 e 18 anos engravidam mais cedo, isso, acontece muito nas periferias, o indice de meninas que engravidam antes dos 18 anos esta muito avançado, muitas vezes os rapazes enganam."
Essa introdução foi reconstruída três vezes. Com as aulas sobre vírgula (Ordem Sintática Direta), realizadas duas vezes por semana como aulas de Gramática, o texto melhorou. Compare.
"A cada ano que passa, o índice de meninas que engravidam antes de completar 18 anos aumenta. Muitas delas não estudam, não possuem renda própria. Normalmente, isso acontece nas periferias".
Apontei erros e, durante o refazer, os alunos buscaram saídas. Quando colocavam uma vírgula em um lugar errado, eu perguntava o motivo de a vírgula estar no local e, só depois da resposta correta, reparando o próprio erro, reescreviam. Se expliquei sobre o uso da vírgula, exijo o uso correto no texto.
A introdução em azul tem cinco linhas no papel, e eu a considerei concluída.
Na próxima sexta-feira, apresentarei cinco introduções refeitas em sala. Observaremos o começo - o que foi eliminado e recriado - e o fim para o aluno perceber as alterações essenciais à organização de raciocínio.
Trabalhoso. Lecionamos, no entanto, para isto: transformar a vida. Para tanto, deve pulsar nas veias a Paixão pelo ato de educar.

quinta-feira, maio 24, 2007

Favelização em sala de aula

















Há professores que abusam, que oferecem aos alunos péssimo exemplo, porque são os primeiros a sujar a escola e as salas.

Como a direção não pune, suja-se mais e mais. Fazem isso em suas casas?

Repare na foto o relaxamento. A parede assemelha-se a lixo. O governo deixou a sala arrumada, mas...

Pré-Vestibular Ideal


Turma nova no Ideal. Em 45 minutos, expressei-me sobre princípios Barrocos. Mentira, antes, algumas observações sobre texto dissertativo.
Quanto ao Barroco, expus dois conceitos: razão e sentidos. Consideramos que razão mantém a ordem e os sentidos promovem uma fusão.
O Barroco, portanto, a razão dos sentidos, porque é uma arte que ordena as misturas entre os opostos.
Na foto, escultura de Bernini, o erotismo e o sagrado comungam-se. Mas o que é erotismo & sagrado?
Na próxima aula, faíscas textuais de Georges Bataille e de outros.

quarta-feira, maio 23, 2007

Cãibra ou câimbra?

Li sobre "câimbra" e "cãibra", mas no texto há erro.
"Em português, a palavra cãibra ter-se-ia formado a partir do francês crampe por metátese, abrandamento da última sílaba e ditongação, na seguinte seqüência: crampe > campra > cambra > caimbra (cãibra)."

"Ter-se-ia" é Futuro do Pretérito, mas, havendo um sujeito ("a palavra cãibra"), o correto é "a palavra cãibra se teria formado", mas essa construção permanece errada.
"A palavra cãibra teria sido formada" é o certo.

Profissão Professora






Professora Ingedore Villaça Koch






A especialista da Unicamp sugere caminhos para os professores reverterem os índices oficiais, que mostram alunos de 4ª e 8ª séries incapazes de interpretar textos.
Texto de Luiz Costa Pereira Junior
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A pequena Inge lia de dar na vista. Tanto que chamou a atenção do diretor da escola Rodrigues Alves, quando fazia o 4º ano na Avenida Paulista, na São Paulo de 1944. Virou bibliotecária aos 10 anos. Pouco importava a obrigação de ficar lá após a aula. O que queria era o luxo de levar livros pra casa. Devorava três por dia. Aos 15 anos, dava aula particular. O dinheiro, curto. A solução, nos sebos.
A paixão de infância pela leitura virou vocação para Ingedore Villaça Koch ("nasci professora, morrerei e reencarnarei professora") e área de pesquisa. Perdeu a conta dos colégios em que ensinou. Mas ao fim do colegial fez Direito, induzida por colegas, para quem advogados ganhavam melhor e também davam aula de português. Formou-se em 1956, na USP. Nunca exerceu. Fez carreira em Letras. Trabalhou 12 anos na PUC-SP, antes de ingressar na Unicamp, em 1987.

Aos 73 anos, é uma das maiores especialistas em lingüística textual. Escreveu 14 livros e até gramática. Alvinha, franzina, determinada, circula o país para ensinar professores. É militante do idioma. Acha que deve dar sua parte para reverter cenários como o da Prova Brasil, do Inep, que em 2006 mostrou que os alunos da 8ª série não entendem a intenção de um autor de HQ nem identificam a tese de textos argumentativos. Enquanto os da 4ª não entendem mais de uma informação por parágrafo nem digerem artigos longos.

Os dados não a assustam. "Já foi pior", diz. Para ela, os professores não podem lavar as mãos ante os problemas estruturais da Educação. Podem fazer a sua parte num país em que só um em cada três alfabetizados lê livros (UFRJ, 2004). A sala de aula, diz ela, pode ajudar a mudar isso. Nesta entrevista, Ingedore mostra como.

Língua Portuguesa - O que um professor pode fazer para reverter o quadro revelado pela Prova Brasil?
Ingedore Koch - Em primeiro lugar, não se deve ensinar a língua só com base na gramática. Segundo, é preciso expor os alunos a muita leitura. A gramática deve ser usada para mostrar como os textos funcionam. Para mostrar quais as pistas que um texto dá para que o leitor seja capaz de construir um sentido. Muito professor diz que baseia seu trabalho no texto, mas se limita a pedir ao aluno que destaque nos enunciados um dado número de substantivos ou de pronomes. Esquecem, por exemplo, que os elementos de coesão, importantíssimos num texto, são todos gramaticais.
O ensino da gramática não ajuda à produção e compreensão de textos?
Ensinar a gramática pela gramática não leva à produção de textos melhores. Se os alunos reconhecerem como os ele­mentos da gramática melhoram a organização textual, o ensino ganha vida.
Um modelo calcado na gramática pela gramática fez o Brasil ter baixos índices de compreensão de texto?
Ajudou. Faz com que o aluno decore listas de adjetivos, aumentativos, verbos, sem ver utilidade nelas. Seria diferente se ele fosse perguntado por que um período se liga a outro, que elemento permitiu isso, que função se estabelece entre um enunciado e outro. E só então informá-lo que se trata de conjunção, locução conjuntiva ou prepositiva, se é substantivo ou expressão nominal que retoma algo já apresentado, mas que abre caminho para informação nova. O texto é como um crochê. Você dá o primeiro ponto, pega a agulha, puxa e dá outro, e assim vai. Quais elementos ajudam a puxar o primeiro ponto? Quais costuram duas partes? Mostrando esse funcionamento, aprende-se gramática no texto.
Tem razão quem diz que não se deve ensinar gramática no ensino médio?
É preciso priorizar a construção do texto, mas deve haver momentos de reflexão sobre os elementos da língua que permitem isso. Não se pode abandonar a gramática, nem haver só o ensino gramaticóide. Ficar só na análise sintática, na classificação abstrata de orações, não leva a nada. É diferente se, nas primeiras séries, ensinamos o aluno a acrescentar, a um pequeno enunciado, uma idéia de tempo ou de condição, de causa. Diante da frase "Os pássaros cantam", quando cantam? "Na primavera", "de manhã cedinho", como resposta, acrescentam idéia de tempo. Com isso, alertamos, sem dar nomes aos bois ainda, que há elementos que estabelecem essa idéia. Então podemos combinar tempo com causa, com lugar, e em diante, construindo enunciados maiores. Na hora da sistematização, no fim do ano, aí sim damos nomes aos bois: isso aqui que você usou era um advérbio, aquelas duas palavras com mesma função eram locução adverbial. Primeiro deve-se dar o uso, a função, o trabalho com a língua. Depois a nomenclatura.
Esta é a razão de o brasileiro considerar chato o português?
Ele precisa aprender a ter gosto pela aula, prazer em ler e escrever textos, ler os dos colegas, discutir em grupo. A criança é muitas vezes mais crítica que o professor, mas termina achando que língua portuguesa é uma disciplina como as outras.
E não é?
Não, é o lugar de interação. Os alunos são acostumados a fazer uma separação total entre a língua que usam e a que aprendem na escola. Mas a disciplina é uma maneira de o aluno aperfeiçoar-se para lidar melhor com as situações do cotidiano.
O jovem de hoje não teria perdido a capacidade de textualizar, de unir informações dispersas?
Se você não consegue tornar a aula interessante, ele busca o interessante fora dela. TV e internet são mais rápidas e não exigem muito esforço. Mas ele pode ter dificuldade em juntar, num texto ou num raciocínio, toda informação que absorveu. Sem hábito de leitura, é muito mais difícil. No meu tempo, havia rádio e livro. Hoje a solicitação é tanta que, se o aluno não achar um motivo razoável para ler, não vir a leitura como passatempo gratificante, procura outra coisa. Com os chats e orkuts nunca se escreveu tanto. A internet resgatou o gosto pela escrita. Mas é preciso mostrar que são linguagens que não se ajustam a toda situação e quem quiser escrever um texto mais complexo terá outro tipo de esforço. É preciso espalhar amor pelo que se faz como professor.
Como o professor, contra tudo e todos, pode fazer isso?
Mudando a concepção de leitura e de escrita que se usa em sala. Não se trata mais de pôr o foco só no autor, no leitor ou no texto, mas em todo o tripé. O autor tem um projeto de dizer que organiza o texto, colocando nele pistas para levar o leitor a determinado sentido. O texto é a materialidade que o leitor tem diante dos olhos e contém essas orientações. Já o leitor não é passivo, como se apenas restasse a ele entender as intenções do autor. O leitor constrói sentido, que pode ser mais ou menos próximo do que o autor tinha em mente. Não há lei­tura "correta" ou "errada", há gradações. Temos leituras que mais se aproximam do projeto de dizer de um autor e as que ficam mais distantes até que se tornam inaceitáveis. Tudo porque a leitura depende dos nossos conhecimentos de mundo.
Contexto é tudo...
Duas pessoas dificilmente farão a mesma leitura de um texto. Não há texto totalmente explícito. Como se chega ao que está implícito? Ligando o que está no texto ao nosso saber de mundo. O leitor com pouco conhecimento fará a leitura superficial. Quanto mais acumulamos de saber, mais a fundo chegaremos.
Por esse raciocínio, é preciso uma nova concepção de escrita, também...
A concepção de escrita é o projeto que sigo para que meu leitor construa um sentido o mais próximo do que desejo. Como eu posso ajudar o leitor a fazer isso? Colocando no texto as pistas que permitem ao leitor chegar lá. Que pistas são essas? Em parte, são as gramaticais, pois mostram as relações, o que está sendo retomado e em que sentido quero que o texto avance, construindo novos objetos de discurso a partir daqueles que já estão presentes num dado texto.
Qual a melhor maneira de estimular a produção de texto?
Primeiro, não colocar um tema no quadro e dizer: "escrevam". Há um texto do Luis Fernando Verissimo, Autóctone, em que uma menina tinha de escrever, num dia lindo de outono, uma redação com a palavra "autóctone". A crítica ali é ao professor que dá temas sobre os quais os alunos nada conhecem. Mesmo que ele saiba organizar frases, conheça a gramática, combine frases, não será capaz de escrever nada sobre o tema.
E como ajudar um aluno a melhorar sua capacidade de interpretação?
Receita de bolo não há, mas é possível tornar a aula de leitura instigante ao debater a diversidade de interpretação. Evitar o que se faz em muitas escolas, em que as perguntas são de "copiação", como diz Luís Antonio Marcuschi, da UFPE. Há perguntas banais feitas na própria ordem em que o texto se apresenta. "Como se chama a menina?" "Que bichinho ela tem?" "Ela gosta do bichinho?" Isso não leva a nada porque você só destaca do texto os trechos que respondem às perguntas. É preciso ler em grupo, perguntar a cada um o que entendeu, confrontar interpretações.
Qual o exercício ideal para ajudar o aluno a identificar o tema de um texto?
Todo texto tem palavras-chaves, e podemos encontrar os termos que constituem sua espinha dorsal. Ver o que é dito a respeito dessas palavras e como outras idéias são desenvolvidas a partir delas.
O brasileiro tem aversão à leitura?
Não sei se aversão, mas sempre teve dificuldade em ler e entender, porque não foi escolarizado ou, quando foi, não foi treinado para isso na escola. Há muito a fazer. O principal é o espírito da coisa, não as técnicas para chegar lá. É mudar a concepção de aula de língua, de leitura e produção de texto. Quando eu era mo­cinha, o aluno lia a lição e tinha de procurar no dicionário as palavras difíceis para substituí-las por sinônimos. A gente buscava o equivalente fácil. Mas, muitas vezes, não servia. O exercício ficava estapafúrdio. Pois há os contextos. É preciso ver a palavra que serve, não o sinônimo imediato. No meu tempo, era dada importância à posição do corpo ao se pegar o livro, o que criava autômatos. Quando o professor queria que o aluno contasse o que leu, ele não sabia, não lera com atenção. Era a aula de leitura da minha época. A questão é que, em muitos cantos, ainda é assim.
Como assim?
Há as fichas do livro que toda a classe lê e tem de responder a perguntas bobas, sobre quem é o personagem, se gostou do texto, etc. Aluno, assim, sempre responde: "gostei porque é interessante". É preciso promover situações reais de leitura. João Wanderlei Geraldi, da Unicamp, já disse: que cada professor crie a biblioteca de sua sala, cada aluno trazendo um livro de que gostou para emprestar aos outros. É boa a idéia de criar um dia de discussão de leitura. Um aluno falar sobre um livro de que gostou estimula a curiosidade dos amigos. E toda a turma pode discutir a obra, assim como jornais, revistas, quadrinhos e gêneros que achou interessantes. É preciso ensinar os gêneros, pois eles estão ligados às praticas sociais.
Como um gênero espelha uma prática social?
Numa petição judicial sobre briga imobilliária, por exemplo, você tem a descrição do imóvel, a narração do ocorrido, a argumentação jurídica, tudo combinado. Há gêneros que fazem combinação de tipos de texto, como esse. Outros elegem um tipo de texto (narração, argumentação, etc.) mais narrativo ou descritivo, por exemplo. É preciso mostrar os tipos textuais nos vários gêneros e os tipos que cada gênero elege. Mas muito professor ainda confunde gênero com tipo.
É possível ser otimista com a leitura no Brasil?
Há uma mudança em processo. Já tivemos muita melhora. Os Parâmetros Curriculares Nacionais têm proposta inspirada na lingüística textual. Indicam que se deve ensinar por meio do texto, o texto com base nos gêneros, a ler e a produzir. Mas os PCNs, mesmo discutidos, não chegaram a todo Brasil. Muitos professores não têm idéia ou, se já viram os PCNs, confundem conceitos. O país é grande demais. É preciso tempo e engajamento dos governos, não só federal. Há o programa de livros didáticos do MEC, há cursos de educação a distância, de explicitação dos PCNs. Mesmo o governo tenta fazer sua parte. Mas falta muito.
O que o Estado deixou de fazer?
Não adianta construir prédios escolares sem material didático e professores preparados. Como exigir isso dos professores? Num curso em Pernambuco, uma professora me disse que não podia fazer o que eu dizia, pois na cidade dela não chegava material escrito. "Trabalho em sala com bula de remédio", disse. Nem todos têm acesso ao ensino a distância ou a cursos de especialização. São pagos, os professores ganham mal, trabalham em todos os períodos e nos fins de semana corrigem trabalhos e provas. Pode haver boa vontade de um governo, mas a estruturação política não ajuda. Um governante não aproveita o que o outro fez e nem precisa ser de partido contrário. Esse modelo é nocivo não só à Educação, mas as questões estruturais são sérias. Não se pode culpar o professor.
Tampouco podemos tirar a responsabilidade deles, não acha?
Nos anos 70, a maioria achava as novas teorias bonitas, mas impraticáveis. Hoje, muitos já as conhecem. Mas há lugares demais em que as novas informações não chegaram ou chegaram distorcidas. Muitos dão a mesma aula há 40 anos. Sabem de cor o que vão dizer e a gramática ultrapassada que usam é só com o que sabem lidar. Quando chega um professor com intenções de mudança, a reação é violenta. Outros querem, mas não têm condições necessárias. O professor luta contra uma realidade adversa. Mas é aí que descobre se honra a profissão que escolheu.

segunda-feira, maio 21, 2007

Professor de Língua Portuguesa 2





Leitura mais do que obrigatória para compreender o porquê do surgimento da gramática.




A vertente grega da gramática normativa
, de Maria Helena de Moura
Neves, é um livro muito interessante.

Leia-o!!!

Professor de Língua Portuguesa 1



De Platão, a obra Crátilo é leitura obrigatória para professor de Língua Portuguesa. Aqui, por meio de suas páginas, habita a origem da gramática.

O pensador grego foi o primeiro a considerar a língua como objeto.
Esse livro, o germe de tudo. Há professores que ainda priorizam a classificação para os alunos. Podemos rever isso por meio de Platão.

Conselho de Disciplina 2


Desde 2003, quando comecei a lecionar na escola Heloísa Mourão Marques, propus os conselhos de disciplina e os conselhos de turma, mas certos diretores e coordenadores de ensino não buscam qualidade na escola pública.
A diretora Lúcia (cabeceira da mesa, à direita) busca qualidade, mas temos que melhorar nossas ações para que haja a sistematização desses conselhos.
No sábado, 19, a área de Literaura e de Língua Portuguesa reuniu-se para definir o conteúdo e a forma no primeiro ano do ensino médio.
Leitura

Definimos que, a partir do segundo semestre deste ano, a leitura será obrigatória em sala de aula.

O aluno ou o professor lerão um romance, um livro de contos, um livro de poesia
e, por meio da leitura, o professor fará marcações gramaticais conforme os problemas
no texto do aluno.

Não definimos outros procedimentos, mas poderemos fazer isso no futuro.

Gramática

A gramática será conforme os problemas apresentados na produção textual dos alunos.

Consideramos para o primeiro ano do ensino médio o seguinte: acentuação, pontuação (vírgula, ponto contínuo e ponto final), transformar substantivo em verbo, por exemplo.

Ainda assim, faltaram outros aspectos gramaticais. Penso que a discussão foi pouca.

Literatura

Não haverá mais periodização literária em sala. Os alunos estudarão só textos literários, por exemplo, poesia.

Deixamos a periodização para os trabalhos. Tais trabalhamos serão escritos à mão, e o aluno só receberá ponto se, antes, passar por um seminário ou por uma prova oral, comprovando, dessa forma, o motivo da pontuação.

Não debatemos sobre o que será estudado nos textos.
Redação
Os professores, a maioria, concordaram com a reconstrução textual em sala de aula, mas isso não ficou muito claro. Precisamos definir melhor.
As aulas

Como são oito aulas por semana, dividiremos as aulas assim: 2 de Gramática, 2 de Literatura, 2 de Leitura e 2 de Redação. Entre elas, deverá haver uma relação.

A reunião foi proveitosa, porque ela foi uma conseqüência de outras reuniões.

Depois que tudo estiver anotado em ata, documentado, a Coordenação de Ensino deverá cobrar, porque terá algo para cobrar.

E não é só. Os pais dos alunos poderão receber no ato da matrícula um informe
bem-feito sobre o perfil do professor e sobre o conteúdo a ser aplicado em sala.

Estamos avançando por meio do Conselho de Disciplina.

sábado, maio 19, 2007

Conselho de Disciplina 1


No dia 19 de maio, sábado, às 8h25, os professores de Literatura e de Língua Portuguesa da escola Heloísa Mourão Marques reuniram-se para definir o que a área deseja com GRAMÁTICA, LITERATURA, LEITURA & PRODUÇÃO TEXTUAL.

As nosas folgas na semana - dia em que deveria haver planejamento escolar - foram jogadas para sábado.

A idéia dos conselhos, eu a proponho desde 2003 na Heloísa, mas só agora, por causa da gestora Lúcia, foi possível colocá-lo em prática.
Sobre essa reunião, escreverei na segunda-feira, à noite.

Ronda Gramatical

- sós sorrisos -

1. Colunista social inventa o plural de "só". Chique? Isso é muito brega.

Reformas na língua portuguesa

Foto: Antônio Houaiss

SÃO PAULO - Pelo menos 300 palavras passarão por mudanças na forma de escrever a partir do ano que vem. Está para entrar em vigor o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que prevê, também, que as letras W, K e Y integrem nosso alfabeto, que passará a contar com 26 letras.
O acordo, proposto em 1990, prevê que os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste - tenham uma única forma de escrever e adotem os mesmos livros didáticos. As mudanças conservam, porém, as pronúncias típicas de cada país.
“A existência de duas ortografias oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no mundo. Por isso a importância da mudança”, afirma Carlos Alberto Xavier, coordenador do projeto no Ministério da Educação (MEC).
Para os brasileiros, muitas das mudanças estão concentradas na acentuação. As paroxítonas terminadas em “o” duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Assim, palavras como “enjôo” e “vôo” terão de ser escritas, respectivamente, “enjoo” e “voo”.
Também não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus decorrentes, ficando correta as grafias “creem”, “deem”, “leem” e “veem”.
O trema desaparece completamente: estará certo escrever “linguiça”, “sequência”, “frequência” e “quinquênio”. A eliminação do acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como no caso de “assembléia” e “jibóia”, também está prevista.

Por outro lado, as novas normas ortográficas farão com que os portugueses troquem, por exemplo, a grafia de “húmido” para escrever “úmido”. Também desaparecem da língua escrita em Portugal o “c” e o 'p' nas palavras onde ele não é pronunciado, como “acção” e “baptismo”.

Ronda Policial

Hoje, um repórter da TRIBUNA, o Antônio Kleber, discordou de mim quando eu escrevo na página policial que "por causa de um cerco, policiais prenderam o bandido".
Para ele, o bandido foi preso por causa de seu crime.
Vamos supor que eu tenha cometido um delito, e o repórter Antônio Kleber me prendeu na Redação do jornal. Posso dizer que fui preso por Antônio Kleber.
Ora, se posso escrever "preso por alguém", também posso escrever "por causa de alguém".
Pergunto: não posso escrever "preso por um cerco de policiais"? Posso. Como posso, escrevo também "preso por causa do cerco de policiais".

Antônio Kleber, onde o raciocínio encontra-se errado?