terça-feira, novembro 10, 2009

Bom apetite!

Notas sobre o casamento
A obra de Nan Goldin revela-nos o caráter sagrado da repetição

Francisco Bosco

















Numa entrada de 18/11/1956, Susan Sontag anuncia em seu diário o projeto de escrever "Notas sobre o Casamento". Não conheço muito de sua obra, tendo lido apenas um punhado de ensaios de sua autoria, logo não sei se ela levou adiante o projeto. Em entradas anteriores e posteriores do primeiro volume de seus Diários - 1947-1963 (Companhia das Letras, 2009), entretanto, há algumas observações que deveriam constar dele.

Com base nelas - faz parte da admiração intelectual herdar o desejo do outro -, tomo para mim, aqui, a tarefa de escrever algumas notas sobre o casamento. É oportuno esclarecer que as observações de Sontag que vou comentar (servindo-me delas apenas como ponto de partida para outras percepções que lhes são independentes) dizem respeito à experiência da autora com Philip Rieff, com quem se casou aos 16 anos (e de quem se separaria seis anos depois), e, o que é mais importante, num momento de confusão e angústia com a própria sexualidade.

Apesar de estar vivendo no Estado mais liberal da Califórnia, esse momento de sua adolescência situa-se nos anos 1950, portanto antes da explosão da revolução sexual, e fica claro que Sontag ainda lutava consigo mesma contra a estigmatização da homossexualidade. Acredito que a unilateralidade de seus julgamentos, cujo pessimismo incorre quase sempre em generalizações e reducionismos, deva-se decisivamente aos tormentos psicossociais que estão no cerne de sua resolução intempestiva de realizar um casamento heterossexual. Resolução assim relatada em seu diário (3/1/1950): "Casei com P. com plena consciência + medo de minha própria vontade apontada para a autodestrutividade".

As observações de Sontag sobre o casamento convergem para dois juízos principais: o de que o casamento se resume a um movimento inercial, preso a uma lógica da repetição, e o de que ele, em vez de aguçar, embota os sentimentos. Esses dois aspectos podem ser conferidos na entrada de 4/9/1956: "Quem inventou o casamento foi um torturador astuto. É uma instituição destinada a embotar os sentimentos. Toda a questão do casamento se resume na repetição. O melhor que ele almeja é a criação de dependências fortes e mútuas". Um pouco adiante, na entrada de 18/11/1956, Sontag prossegue no registro veemente: "Casamento se baseia no princípio da inércia. Proximidade sem amor". Para mim, contudo, Sontag não poderia estar mais equivocada.

Há uma obra da fotógrafa norte-americana Nan Goldin que me ajudará a argumentar em outro sentido. Essa obra, Heartbeat, apresenta-se como cinco séries de fotos que, projetadas sobre uma tela, vão dispondo, cada uma, dezenas de instantâneos, à maneira de um filme drasticamente ralentado. Cada série leva o nome dos membros do casal que a protagoniza e um subtítulo (que é um comentário de Nan Goldin sobre o que ela considera a experiência desse casal: por exemplo, Joanne et Aurelie - French Kiss). As fotos, trazendo o olhar característico de Nan Goldin, mostram cenas banais da intimidade, do cotidiano dos casais. Em composição com elas, e duplicando o fluxo temporal em que elas vão se sucedendo, ouve-se uma magnífica - solene, pungente, pode-se dizer mesmo sacra - canção interpretada por Björk. À medida que as fotos vão passando, ocorre uma verdadeira (aqui lamento o trocadilho) revelação.

A sucessão dos instantâneos não produz uma narrativa para a frente, no tempo, mas sim para baixo, fazendo surgir outra dimensão, de uma profundidade vertiginosa, profundidade que também não se situa no espaço. Mais precisamente, do eixo horizontal da narrativa emana um eixo vertical cuja dimensão, nem temporal nem espacial, é, justamente, aquela da experiência amorosa no casamento. Esse eixo vertical é característico da experiência do casamento porque resulta da repetição unida à intimidade. Assim, a verdadeira consequência da repetição, no casamento, é produzir uma diferença de radicalidade muito maior do que as diferenças que se situam em seu plano horizontal, e que ele, pode-se dizer, até certo ponto barra ou dificulta. A repetição, assim, gera e sustenta um eixo vertical e vertiginoso que é a um tempo o lugar da salvação e do trágico.

Tentemos compreender isso. Toda relação erótica configura uma passagem. O verso do poeta emerge de uma abertura do mundo à sua linguagem (ou, talvez mais exatamente, dentro dela), assim como o desejo sexual é um canal aberto que conduz uma pessoa à outra. Eros se deixa reconhecer (também) por essa passagem. Mas o eixo vertical a que me refiro é outra coisa. Sua existência depende, seguramente, de manter-se aberta uma passagem, mas o que caracteriza seu ser não é o desimpedimento, a liberdade da passagem, e sim seu poder gravitacional, sua força que impele para baixo. Esse "para baixo", é preciso compreendê-lo num sentido ontológico (não importa que ilusório): sua gravidade alivia-nos da leveza insustentável de nossa condição ontológica, de seu absurdo irredimível (é esse também o sentido do romance de Kundera). É, portanto, a meu ver o amor, e não o erotismo, o que nos ilude de nossa descontinuidade fundamental, para usar o conceito de Bataille.

Eros, como disse, é, sim, uma passagem - mas que leva, um a outro, por uma súbita abertura, dois seres descontínuos, sem que sua descontinuidade essencial seja abolida por essa passagem. É somente no eixo vertical da experiência amorosa, nessa sua dimensão específica, que o outro se revela como capaz de doar um sentido, uma espécie de gravidade ontológica, atando o ser, que é solto, a algo que o transcende e justifica. É a isso que creio que Guimarães Rosa se referia ao dizer que o amor "é um descanso na loucura".

E é à luz disso que se deve entender, num sentido não neurótico, a dependência produzida pelo casamento, a que Sontag se refere. A dependência não tem necessariamente caráter neurótico, tampouco reduz-se ao problema da redistribuição libidinal (tópica freudiana do luto). A dependência tem a ver, numa instância superior, com o trágico: perder o ser amado é perder essa gravidade ontológica sem a qual imediatamente nos transformamos em uma espécie de astronautas da terra - flutuando, sem "descanso", no infinito da existência.

Um casamento sem Eros, ou com Eros debilitado, deve, apesar de tudo, ser desfeito. Eros, é claro, não se reduz ao sexo; sua presença verifica-se em tudo que, no outro, pelo outro, nos vitaliza, contribui para o aumento de nossas potências. O contrário de Eros é a neurose, a repetição sem diferença, sem transformação, a manutenção de laços paralisantes, a dependência, em suma, por covardia existencial.

Voltando à obra de Nan Goldin, nela um único verso, insistente, é entoado por Björk: " Lord, Jesus Christ, son of God, have mercy upon me". Ouvimo-lo repetidamente, enquanto vemos as fotos. Seu sentido está ligado ao trágico da experiência amorosa (e a um deleuziano modo de ser atravessado por forças maiores do que se pode aguentar), à possibilidade de perda do outro. A obra de Nan Goldin, em tempos de superficialidade e anestesia afetivas, revela-nos, para dizer de forma quase obscena - e certamente cafona -, o que significa, ou significou, morrer de amor.

Significa, justamente, a perda desse fundamento ontológico que se torna o outro. " Have mercy upon me": a mercê de Cristo é tanto a doação do amor quanto a súplica para que não nos seja retirado. Barthes, ao perder a mãe (com quem, e só com quem, foi, de certo modo, casado), imprecava: "Quem foi o Lúcifer que inventou o amor e a morte ao mesmo tempo?". Mas, talvez, sem a morte não houvesse o amor: os anjos têm amor pelos mortais, não por outros anjos.

14º salário desde que com mérito

Comissão de Educação do Senado aprova 14º salário para professor
Da Redação*
Em São Paulo

A Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado aprovou nesta terça-feira (10) um projeto de lei que institui o 14º salário para profissionais da educação básica da rede pública de ensino. A proposta seguirá para análise da Comissão de Assuntos Econômicos e depois, para a Comissão de Assuntos Sociais.

Se for aprovada nas duas próximas comissões, será enviada para a análise da Câmara dos Deputados.

A medida é de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e teve como relator o senador Marconi Perillo (PSDB-GO), autor do substitutivo que obteve a aprovação.

De acordo com o projeto, para ter direito ao 14º salário em dezembro, os profissionais da educação básica pública precisam elevar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica de sua escola em pelo menos 50%.

O benefício também será pago aos profissionais que alcançarem o Ideb igual ou superior a sete. O projeto ainda estabelece que o pagamento do 14º salário deverá ocorrer até o final do semestre subsequente ao da publicação dos resultados do Ideb.

Na discussão do projeto, Cristovam explicou que a medida não cria competição entre os professores, pois serão beneficiados todos os docentes da escola que cumprir a exigência de elevação do Ideb.

"O que vai ocorrer é uma cobrança de uns professores sobre os outros", disse, citando como exemplo a pressão que deverá ocorrer sobre professores que faltam muito e que, com esse comportamento, poderão prejudicar os demais.

* Com informações da Agência Senado

segunda-feira, novembro 09, 2009

Violência chique. VLG

Hoje, à noite, a loja VGL Sport foi assaltada em Rio Branco. Um segurança morreu. Moro neste Estado há quase 18 anos e nunca soube de tantos assaltos. A riqueza material - prédios, lojas, vitrines, carros, estradas - confunde-se com progresso, desenvolvimento.

Rio Branco deixou de ser calma. Ela, hoje, assusta-me.

"Suíça do Norte", disse um político sobre o Acre. Ele tem razão, a violência é fria, sem os Alpes.

Por que não colocamos nossos filhos em escola pública

Hoje, procurei uma escola particular para a minha filha estudar em 2010. Estou insatisfeito com a atual. Cheguei ao estabelecimento de ensino por volta das 10 horas. "Por favor, a professora irá atendê-lo para falar da escola, da mensalidade", disse-me a simpática atendente.

Após alguns minutos, conduziram-me à sala da professora. Sentei-me à mesa, e ela iniciou sua exposição sobre a escola. "Nosso ensino é tradicional", sentenciou logo de cara. "Aqui, meninas não usam batom, não pintam o rosto, não usam brinco porque nós não aceitamos modismo."

Alunos não usam celular, não há festas para datas comemorativas. Não existem reuniões com pais. Caso haja algum problema, o responsável é chamado para uma conversa particular. Se o aluno não conluir o dever de casa, ficará após o término das aulas para terminá-lo.

Ordem. Paga-se caro para que filhos sejam submetidos à ordem.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Alunos, leiam...


Fernão Capelo Gaivota, esse pássaro-protagonista que representa o ser humano que voa muito além da multidão, do bando. Todo dia, gaivotas se alimentam com os restos de peixes que pescadores jogam ao mar.

Por que comer as sobras que outros nos dão? Por que não comer peixes frescos?

Capelo precisa voar mais alto e, para tanto, precisa voar melhor, porque, se não for assim, ele não pegará os peixes que estão no fundo do mar.

Lemos bons livros para perder a condição de tolos. Alunos, não se acomodem com o que dão aos seus destinos. Superem seus limites, sabendo que, para superá-los, os obstáculos são necessários. Não fortalecemos os músculos com pesos leves como os pesos da acomodação.

Inquietem-se!



quinta-feira, novembro 05, 2009

Tiago vai a Brasília

O pai trabalha como mestre de obra e a mãe, em serviços gerais. Por mês, a renda não ultrapassa os R$ 800. As dificuldades, entretanto, não modelaram o espírito de Tiago Araújo de Sousa, de 17 anos, terceiro ano do ensino médio. Ele foi além. Entre estudantes do Acre, o primeiro.

Está preparando as malas para pousar em Brasília porque foi premiado. Ele representará o Acre por ter elaborado um projeto de lei que torna obrigatória a arborização de vias, de praças e de centros urbanos das grandes cidades do país.

"Irei a Brasília para conhecer o funcionamento do Senado, da Câmara dos Deputados e os representantes de cada Estado", disse o jovem.

Em uma escola onde não havia norma, regras, é uma ironia do destino um aluno da Heloísa Mourão Marques receber um prêmio por causa de um projeto de lei.

Parabéns, rapaz!

quarta-feira, novembro 04, 2009

Condenação Fatal

De Cruz e Sousa [1861-1898]













Ó mundo, que és o exílio dos exílios,
um monturo de fezes putrefato,
onde o ser mais gentil, mais timorato
dos seres vis circula nos concílios;

Onde de almas em pálidos idílios
o lânguido perfume mais ingrato
magoa tudo e é triste, como o tato
de um cego embalde levantando os cílios;

Mundo de peste, de sangrenta fúria
e de flores leprosas da luxúria
de flores negras, infernais, medonhas.

Oh! como são sinistramente feios
teus aspectos de fera, os teus meneios
pantéricos, ó Mundo, que não sonhas!

terça-feira, novembro 03, 2009

Zangado

As pessoas mal-humoradas possuem uma inteligência mais afiada segundo um estudo realizado por um cientista australiano e publicado na última edição da revista científica Australasian Science, informou hoje a rádio ABC.

"A tristeza e o mau humor melhoram a capacidade de julgar os outros e também aumentam a memória", assegura o professor Joseph Forgas, da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney.

O mau humor melhora a atenção e proporciona prudência, segundo o artigo

"Enquanto um estado de ânimo positivo facilita a criatividade, a flexibilidade e a cooperação, o mau humor melhora a atenção e facilita um pensamento mais prudente", explica o artigo.

"Nossa pesquisa sugere que a tristeza melhora as estratégias para processar a informação em situações difíceis", acrescenta.

Forgas ressaltou que as pessoas com um estado de ânimo mais decaído possuem maior capacidade de argumentar suas opiniões por escrito, pelo que concluiu que "não é bom estar sempre de bom humor".

sábado, outubro 31, 2009

A Redação no Conselho de Disciplina (1)


Desde 2006, quando os conselhos de disciplina deram sinais de vida na escola estadual Heloísa Mourão Marques (HMM), o corpo docente de Literatura e de Língua Portuguesa não escreveu na lousa o que pensa sobre produção textual.

Não há metodologia, não há processo de avaliação, não há procedimentos para reconstrução textual, ou seja, não há um plano pedagógico fundamentado, não há documento que dê um norte à produção textual. Existe, isso sim, o lecionar isolado de cada professor e inexiste a produção textual como imagem e semelhança do corpo docente.

Para uma escola que não foi nada bem no último Exame Nacional do Ensino Médio, deixar esse vácuo na produção textual é impor aos alunos o fracasso no Enem. Mas quem impõe? Ora, o desinteresse do corpo docente.

Secretaria, socorro!
Para ratificar o que escrevi antes, posso dizer que duas funcionárias da Secretaria de Educação afirmaram que o plano de curso de Língua Portuguesa da escola HMM é inadequado à proposta do Ministério da Educação.

Na época, por questão de pressa, o corpo docente o escreveu para mera (inútil) formalidade. Trabalho malfeito é trabalho dobrado.

É preciso fazer
Depois que o prof. Luís Carlos entregou a função de presidente do Conselho de Disciplina de Literatura e de Língua Portuguesa no começo deste ano, assumi a responsabilidade não por agradar a todos, mas por ninguém se candidatar.

O que fazer? Na condição de presidente do conselho, busquei retormar ideias esquecidas em 2006, quando o conselho reuniu-se pela primeira vez. Quais ideias? A primeira foi descrever os problemas redacionais de nossos alunos.

Dois deles: gramática tradicional e retomadas de ideias. Pois bem, no dia 26 de setembro de 2009, os professores de Literatura e de Língua Portuguesa concordaram que no dia 21 de outubro deixariam no pendrive e imprimiriam exercícios de gramática tradicional e de retomadas de ideias.

Escrevi a lista e cada professor recebeu sua tarefa para o dia 21 de outubro. Ei-la:

a) Professora Alessandra
1. Marcadores;
2. Pronomes oblíquos; e
3. Retomadas de ideias.

b) Professora Robenilde
1. Regência nominal;
2. Concordância nominal; e
3. Aposto.

c) Professor Luís
1. Subordinadas adverbiais;
2. Ponto contínuo; e
3. Particípio regular e gerúndio.

d) Professora Elivânia
1. Transformar substantivo em verbo;
2. Ampliar o vocabulário do aluno; e
3. Uso adequado de palavras no texto.

e) Professor Aldo
1. Vírgula;
2. Colocar parágrafos na ordem;
3. Concordância verbal; e
4. Regência verbal.

Quase um mês depois, o dia 21 chegou, é hoje. Entretanto, dois colegas faltaram à reunião, um não apresentou sua tarefa e só dois cumpriram o acordo firmado em 26 de setembro. A professora Elivânia entregou sua parte a mim, e eu entreguei a ela a minha.

Se é em nome da Redação, diga ao povo que fico
Depois de hoje, depois de um acordo ignorado, não tenho a menor vontade de presidir esse conselho. No entanto, não desisto de buscar o melhor para a escola pública em que leciono, não abandonarei a luta do diálogo, das críticas e das propostas para ver um currículo de produção textual.

Embora não presida mais o conselho, retomarei sempre no Conselho de Disciplina de Literatura e de Língua Portuguesa o que foi acordado em reuniões anteriores no tocante à produção textual. Assumirei o desejo incansável de "atar" acordos sobre produção textual, de "retomar" ideias sobre produção textual até que elas sejam concluídas e registradas como documento, ou seja, se houve um acordo sobre um plano pedagógico de redação em 26 de outubro, ele deverá ser esgotado e, aí sim, cumprir outra etapa de uma nova pauta sobre produção textual.

Dedicar-me-ei para que nossa escola tenha um plano pedagógico consistente de produção textual. O blogue será um bom espaço para registrar isso.

terça-feira, outubro 27, 2009

Vai um cachorro-quente?


O prazer (sádico) de estudar

A escola acriana é a última instituição pública em tudo. Nela, nem uma rede de computadores existe. Professores e secretaria registram notas escolares em papéis. Sua imagem é a mesma de 50 anos atrás. Nas salas, o calor abafa o conhecimento, não existem ares-condicionados e os ventiladores circulam em vão.

O professor deve lecionar de forma prazerosa. Antes, prazerosa deveria ser a sala de aula.
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Estudantes desmaiam em sala de aula por causa do calor
De Ana Paula Batalha

Quatro alunos desmaiaram em sala de aula por causa do forte calor. Eles foram encaminhados ao pronto-socorro de Rio Branco pelo Serviço Móvel de Urgência (Samu) nesta terça-feira, dia 27. Os estudantes da escola Rodrigues Alves Leite, no Centro da capital, assistiam à aula no momento em que começaram a se sentir mal.

Com isso, vários alunos e professores deixaram as salas de aula e foram protestar em frente à escola. Eles pedem melhores condições na entidade, pois, segundo eles, muitas salas não possuem nem ventiladores.

“Algumas salas possuem ares-condicionados mas eles não prestam. Funciona o primeiro horário e depois não gela mais. Queremos que concertem os aparelhos, pois não temos condições de estudar nesse calor insuportável. A nossa sala fica de frente para o sol, esquenta o dobro. O que adianta ficarmos dentro de sala se não conseguimos prestar atenção nas aulas?”, argumentou a estudante Tabita Lima.

A estudante Tainara Viana também ressaltou sobre a falta de interesse da diretoria da escola com a situação.

“Foi preciso os alunos ligarem para o Samu, pois a diretora não queria. O pessoal do Samu pensou que fosse trote e demoraram para socorrer as meninas”, ressaltou.

No início do ano, os estudantes tinham feito um protesto pelos menos motivos, mas não foram atendidos. A diretora da instituição não foi encontra para comentar o assunto.

segunda-feira, outubro 26, 2009

A democracia da escola pública

Após alguns anos na rede pública de ensino, lecionando Literatura e Língua Portuguesa em salas de aula sem ares-condicionados, afirmo, com toda propriedade, a minha mais sólida desconfiança na democracia escolar.

Na escola Heloísa Mourão Marques, antes de o ano letivo de 2009 ter sido iniciado, direção e corpo docente reuniram-se para definir o calendário escolar do primeiro e do segundo semestres de 2009.

Em julho, segundo semestre, em uma reunião onde todos os professores podiam participar, definiu-se que em um sábado de cada mês haveria encontro pedagógico por meio dos conselhos de disciplina.

Uma vez por semana, o professor da rede pública estadual de ensino deveria se reunir com outros professores para o planejamento pedagógico, porém esse planejamento transformou-se em "folga".

Nada mais justo, portanto, haver encontro pedagógico aos sábados para compensar a "folga". E mais. Como a "folga" dos professores difere-se na semana, o corpo docente concordou em reunião que o encontro pedagógico deve ser aos sábado porque a grande maioria dos professores pode comparecer.

A democracia segundo o interesse do feriado
E assim ficou determinado conforme votação. Em julho, nós sabíamos que em 31 de outubro (sábado) deste ano haveria um encontro pedagógico para estabelecer, por exemplo, os rumos da Literatura e da Língua Portuguesa na escola HMM.

No entanto, alguns professores rompem com o que votaram em julho, e tudo por causa de um feriado prolongado. Como o governo transferiu o feriado de 28 de outubro (quarta-feira) para o dia 30 (sexta-feira), a democracia escolar transfere o encontro pedagógico do dia 31 de outubro (sábado) para o dia 29 de outubro (quinta-feira, à noite).

Na quinta-feira, não poderei ir à reunião do Conselho de Língua Portuguesa. Mas o que importa a minha ausência em um conselho de disciplina se podemos ter um feriado prolongado?

A democracia escolar não se reúne para haver mais sábados com encontros pedagógicos, mas, para prolongar feriado, rompendo com o que tinha sido aprovado em julho, a maioria vota conforme sua comodidade.

A questão não é "eu não tenho culpa de você trabalhar na quinta-feira, à noite". A questão é que houve uma reunião em julho para definir um calendário para todos, mas, por causa de uma feriado prolongado, transfere-se um encontro pedagógico para uma quinta-feira. A democracia escolar vota a favor de seu conforto.

Como indivíduo, o que posso diante dessa democracia?

Pergunto a ela: vamos votar para haver por mês quatro encontros pedagógico em quatro sábados? Vamos transferir a "folga" para os sábados?

Ótimo sítio

Acesse Viviane Mosé

domingo, outubro 25, 2009

Nova blogueira

A nova blogueira é simples como o charme das flores. Seu texto, uma confissão.

Estudiosa, os livros a seduzem como as marés.
Acesse este nome: Mony Brasil

Ganha mais quem leciona melhor

É um bom estímulo ao professor
De Gilberto Dimenstein

A partir de agora, um professor da rede estadual de São Paulo terá condições de, ao final carreira, chegar a um salário superior a R$ 6 mil mensais -isso se aceitar fazer uma série de exames ao longo de sua carreira e não faltar às aulas.

Isso colocaria o professor, segundo os critérios brasileiros, na faixa dos 10% mais ricos. O projeto é limitado (não pode promover todos os professores ao mesmo tempo, por restrição orçamentária) e não resolve a média salarial, ainda baixa, mas sinaliza o valor do mérito e isso é capaz de atrair talentos para a escola pública. Atualmente, o salário de um professor é abaixo do rendimento de um profissional como diploma universitário.

Além dos exames, se valorizam a presença em sala de aula e a baixa rotativa entre as escolas.

É das mais interessantes ações de toda a gestão José Serra. A decisão coloca São Paulo na vanguarda de um sistema de mérito aos professores, que já são beneficiados, todos os anos, com um bônus a partir do desempenho de seus alunos.

Os sindicatos, como sempre, vão chiar, faz parte do jogo. Mas os talentos e esforçados vão ser recompensados.

Sabemos que aumentos salariais indiscriminados não melhoram tanto a educação como premiar o esforço.

O mal que vem da igreja

Igreja Universal fez remessa clandestina, diz relatório

RUBENS VALENTE
da Folha de S.Paulo

O Ministério Público Federal tem em seu poder documentos que indicam o uso de uma casa de câmbio chamada Diskline para fazer remessas de pelo menos R$ 17,9 milhões, em valores atualizados, para uma conta bancária em Nova York cuja beneficiária era a Igreja Universal do Reino de Deus.

As remessas ocorreram, segundo as investigações, por meio de dólar-cabo, um sistema clandestino de transações internacionais que foge do controle do Banco Central. Por esse sistema, combatido pela Polícia Federal desde que foi descoberto, em meados dos anos 90, doleiros do país abastecem contas de brasileiros no exterior sem que o BC tenha conhecimento das operações.

É uma espécie de compensação paralela entre contas bancárias abertas no exterior em nome de empresas "offshore" sediadas em paraísos fiscais. O dinheiro é entregue pelo cliente ao doleiro, no Brasil, em espécie. Simultaneamente, o mesmo valor, excluída a "taxa de administração" cobrada pelo doleiro, é transferido de uma conta aberta fora do Brasil em nome de empresa de fachada controlada pelo doleiro. Operações desse tipo são consideradas, nos EUA, retransmissões ilegais de fundos.

Os documentos que revelam as operações foram produzidos pela Assessoria de Análise e Pesquisa da Procuradoria-Geral da República, em Brasília, tendo como base os achados das ações da PF e da CPI do Banestado. Num disquete apreendido na sede da Diskline e periciado pela PF, foi achada uma tabela que descreve 24 remessas feitas entre agosto de 1995 e fevereiro de 1996 no total de R$ 7,5 milhões, ou R$ 17,9 milhões atualizados pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor).

O dinheiro era entregue por uma pessoa identificada pelo código "Ildinha/Fé" e tinha como destino final a conta nº 365.1.007852 do antigo Chase Manhattan Bank de Nova York (EUA), adquirido no ano 2000 pelo JP Morgan, dando origem ao JPMorgan Chase & Co.

Conforme documentos constantes do CD-Rom, as operações envolvendo o nome de "Ildinha/Fé" são operações em que a diretora do Banco de Crédito Metropolitano e de empresas do grupo da Igreja Universal, sra. Alba Maria Silva da Costa, fazia com a mesa de operação da empresa Diskline de São Paulo, sendo o nome "Ildinha/Fé" uma referência à funcionária da igreja de nome Ilda, que, inicialmente, era encarregada de levar as malas de dinheiro para a empresa Diskline", apontou o relatório.

Alba Maria, referida no relatório, é uma das pessoas denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo, ao lado do líder da Iurd, Edir Macedo, por supostos crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ela foi executiva de empresas controladas pela igreja.

Segundo as investigações, a Diskline teve como sócios Marcelo Birmarcker e Cristiana Marini. "Eles estão na relação de doleiros investigados no caso Banestado, sendo ambos titulares de três contas no Merchants Bank de Nova York, banco em que vários doleiros brasileiros possuíam conta e que teve o sigilo bancário afastado no curso das investigações", prossegue o relatório datado de 22 de março de 2007.

Segundo o documento, as três contas do Merchants controladas por aqueles investigados são a Milano Finance (nº 9005035), a Pelican Holdings Group (nº 9007110) e a Florida Financial Group Ltd. (nº 9010264). Elas movimentaram (soma de entradas e saídas de recursos), entre janeiro de 1998 e janeiro de 2003, aproximadamente US$ 164 milhões.

Trading

Outro relatório federal descreve operações da "offshore" CEC Trading Corporation, aberta em nome do irmão de Edir Macedo, Celso Macedo Bezerra, com a empresa Beacon Hill Service Corporation, fechada em 2003 pelas autoridades dos EUA sob acusação de retransmissão ilegal de fundos.

A Beacon Hill --que no Brasil deu origem à maior operação deflagrada contra doleiros, a Operação Farol da Colina-- transferiu US$ 76 mil para a CEC Trading entre dezembro de 1997 e junho de 1998. Os recursos foram transferidos por meio de uma subconta denominada "Titia", igualmente gerida por doleiros do Brasil.

'Nos contratos de câmbio recebidos do Banco Central do Brasil há a informação de que a Rádio e Televisão Record S.A. remeteu para o exterior a quantia de US$ 1,2 milhão para a CEC Trading Corporation, na mesma conta que recebeu recursos de doleiros da Beacon Hill, qual seja, a conta nº 3871339802, mantida no Barnett Bank da Flórida', diz relatório da Procuradoria-Geral da República de outubro de 2005.

Outro lado

A Igreja Universal do Reino de Deus, procurada pela Folha na semana passada para falar sobre os relatórios em poder do Ministério Público Federal, informou na quinta-feira, por meio de sua assessoria, que não comentaria o assunto por falta de informações suficientes.

Em e-mail enviado às 13h42 da última terça-feira, a Folha detalhou os principais pontos dos relatórios do Ministério Público Federal e fez sete perguntas à Igreja Universal.

Eis a íntegra da nota enviada, em resposta, por sua assessoria: "Os advogados do escritório Moraes Pitombo não conseguiram ter acesso à investigação do Ministério Público e por esse motivo a Igreja Universal do Reino de Deus não irá se pronunciar a respeito desses fatos. As perguntas referentes ao senhor Celso Macedo e à Rede Record devem ser direcionadas a eles, pois a igreja responde somente por ela".

Após a resposta da Igreja Universal, a Folha procurou a Rede Record e também pediu os telefones e contatos de Celso Macedo, citado nos relatórios do Ministério Público.

Em e-mail enviado à Folha, a Record confirmou uma transação comercial com a CEC Trading. "A Rádio e Televisão Record S/A não efetivou conforme o narrado acima [em perguntas enviadas pela Folha]. As transferências de valores que existiram à CEC Trading Corporation foram devidamente registradas através do Banco Central, referente ao pagamento de importação de equipamentos para o exercício de sua atividade", afirmou.
Celso Macedo não foi localizado para comentar o assunto.

Em entrevista à Folha em agosto passado, o advogado dos líderes da Universal que foram denunciados pelo Ministério Público, Arthur Lavigne, negou quaisquer irregularidades.

sábado, outubro 24, 2009

O mal também sabe sorrir

Suspeitos da morte de professor ainda sorriem diante da imprensa
De Gilberto Lobo

Os acusados pela morte do professor de biologia Marcos Afonso Soares foram apresentados à imprensa na manhã de sábado, 24. Durantes as fotos, um dos suspeitos chegou a sorrir quando os jornalistas perguntaram a idade dele. Parte do dinheiro obtido com a venda do carro que pertencia à vítima foi gasto apenas com “farras”, como frisou o secretário de Polícia Civil, Emylson Farias.

Os acusados são Valdemir Soares da Silva (23) - serralheiro que fazia serviços para vítima-, os irmãos Jéferson da Silva Gonçalves (20) e Cláudio Sérgio da Silva Gonçalves (23). Todos são réus primários e fazem parte da mesma família.

Com os suspeitos, foram encontradas uma moto, R$ 1.354, um revólver e dois celulares. O carro de Marcos Afonso valia R$ 40 mil. Foi vendido em Cobija, na Bolívia, por R$ 7 mil.

O crime mostrou a fragilidade da fiscalização na fronteira. Os acusados passaram com o automóvel do professor – um Renault Sandero – pelo posto de fiscalização da Companhia de Trânsito (Ciatran), pelo posto de fiscalização em Senador Guiomard, onde foram registradas imagens do veículo pelas câmeras de vigilância da Polícia Militar, pela fiscalização na ponte Wilson Pinheiro e por fim pela “tranca” que separa Brasil-Bolívia.

Em nenhuma das barreiras de fiscalização, os criminosos foram parados. De acordo com informações dos delegados responsáveis pelas investigações, o crime aconteceu por volta das 18 horas, mas os familiares e as testemunhas só informaram à delegacia aproximadamente às 20 horas.

O carro foi filmado no trevo de Senador Guiomard às 19 horas. Conforme explicou o secretário, quando informaram do crime, imediatamente equipes da polícia saíram para fazer as buscas, e as delegacias do interior foram informadas. Mesmo assim, não foi possível interceptar os apontados como assassinos de Marcos Afonso.

Conforme foi revelado por Emylson, a faca utilizada para matar o professor não foi retirada do local do crime. Os peritos não a encontraram quando fizeram o isolamento da casa do docente, porque ela estava sob peças de roupas.

“Ninguém trabalhava com essa hipótese (do corpo ter sido enterrado na propriedade). A priori, não foi feita nenhuma perícia no local, porque as testemunhas disseram que ele havia sido levado”, disse o delegado.

Dinâmica do crime
A vítima foi rendida pelos três homens armados com um revólver 38 e uma faca. Os vigias da obra foram presos num quarto. Na versão da polícia, Valdemir teria matado o professor porque teve medo de ter sido reconhecido.

Eles o enterram num buraco onde seria plantada uma palheira imperial. Conforme informações ainda não confirmadas, as ferramentas usadas pelos suspeitos ficaram sobre o local onde estava o corpo.

No corpo da vítima, havia marcas de seis golpes de faca. O carro fora encomendado por criminosos bolivianos previamente, o que reforça a tese de um crime premeditado.

“Marcos foi escolhido pelos criminosos porque Valdemir, como já trabalhava para ele, sabia como poderia agir e o crime seria perfeito”, acrescentou Farias.

Medo
Quadrilhas de traficantes bolivianos estão encomendando carros no Brasil. Os veículos são levados para o país vizinho com negociação já fechada. (Gilberto Lobo)

sexta-feira, outubro 23, 2009

Estou...

Poderiam ter roubado só seu carro. Mas não. Inocente, o professor Marcos foi assassinado.

Professor foi enterrado vivo no terreno da própria casa
De Nayanne Santana

O sequestro do professor universitário de biologia Marcos Afonso Soares, de 46 anos, teve um final bárbaro. Os envolvidos no assalto seguido de morte confessaram à polícia que Marcos foi furado com um facão e enterrado ainda vivo no quintal da própria casa, em um buraco onde uma palheira seria plantada.

Segundo a polícia, Marcos foi enterrado vivo no quintal da residência que construía na rua Margarida, bairro Nova Esperança. Peritos do Instituto Médico Legal (IML) foram deslocados para a residência do professor universitário na noite de ontem para remover o corpo de Marcos do local.

Os envolvidos
De acordo com informações preliminares da polícia, entre os envolvidos, um menor de idade.

O mistério sobre o sequestro começou a ser desvendado no início da noite desta sexta-feira, dia 23, quando dois homens foram presos em Xapuri.

Depois das investigações, a polícia chegou aos irmãos Jéferson da Silva Gomes e Cláudio Sérgio da Silva Gomes. Eles seriam comparsas de Valtemir Soares da Silva, que foi contratado para fazer as grades da residência que Marcos estava reformando no bairro Nova Esperança.

A polícia prendeu os três no ramal da Alcoobrás. A prisão foi feita pelos delegados das cidades de Xapuri e de Capixaba e pelos agentes da Polícia Civil de Rio Branco.

De acordo com a polícia, os assaltantes venderam o veículo do professor na cidade de Cobija, na Bolívia. (Nayanne Santana)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Comprador de palavras

Você compra papel higiênico para limpar a bunda. Você compra roupa para esconder tua vergonha. Você compra feijão para não passar fome. Mas você não compra palavras para (des)cobrir a vida.










Há anos, sou um comprador de palavras. Tinha 17 anos quando meus olhos conferiram o valor que elas tinham. Eram estranhas como os estrangeiros, diferentes dos ruídos da rua e das superficialidades das novelas. Eram opostas ao meu pai e à minha mãe. Eu não as entendia. Guardei-as como começo de minha biblioteca.

Comprei o que não entendi. Leva tempo para que o comprador amadureça para perceber que palavra não é coisa, produto ou objeto. O proprietário da livraria, sabemos, é comerciante, porém palavra não é mercadoria. Vida, eis o que ela é.

Eu, um mero comprador de palavras aos 17 anos, tive de amadurecer para compreender o meu primeiro livro, onde as palavras, em estado pleno de silêncio, só emitiram vozes com sentido quando meus olhos souberam ler para muito além da aparência.

Até hoje, debruço meus olhos sobre o parapeito de páginas para abrir as palavras e assim dar sentido às paisagens. Abro livros para (des)cobrir por meio de palavras o que a vulgaridade espessa da rua oculta.

Ler Drummond. Neruda. Ler Pessoa. Leminski. Ouvir Caetano. Cazuza. Ler poesia, porque, atrás da aparência, o verso, o outro lado, o que se esconde, revela. O verso desperta e reconvoca por inteiro o nosso puro poder de expressão para além das coisas já ditas ou já vistas.

Assista a "O Carteiro e o Poeta".


quarta-feira, outubro 21, 2009

Greve

Servidores da Justiça e da Ufac realizam paralisação
De Freud Antunes

Os servidores administrativos da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Tribunal de Justiça (TJ) do Estado realizaram uma paralisação de 24 horas ontem para reivindicar melhorias trabalhistas.

Os técnicos da Universidade até bloquearam a entrada de carros na instituição, exigindo o cumprimento de todos os acordos firmados em 2007.

Os funcionários da Justiça abandonaram as repartições e aglomeraram-se na frente do Fórum Barão do Rio Branco para protestar contra a determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que aumentou em duas horas a jornada de trabalho, passando de 6 horas para 8 horas diárias.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Terceiro Grau (Sintect), José Alberto Lotte, o governo federal tem cumprido parte do acordo acertado que oferece um reajuste progressivo até 2010, mas deixou de realizar concurso público, o reposicionamento funcional, a progressão para o aposentado, a liberação do sindicalista para ficar à disposição da entidade e o vale-alimentação.

“As exigências fizeram parte do acordo, mas, agora, os técnicos do governo federal afirmam que não estão autorizando, porque a arrecadação caiu, o que não admitimos”, afirmou Lotte.
A presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário (Sispjac), Rosane Ferraz, disse que 75% da categoria aderiu ao movimento.

“Eles querem que um servidor trabalhe mais horas sem aumentar o seu salário. Isso não é justo, pois teremos maiores gastos. Um trabalhador contratado para exercer sua função em seis horas não pode ter sua carga horária alterada assim”, protestou a sindicalista.

O representante do Sintest afirmou que os técnicos administrativos estão dispostos a entrar em greve por tempo indeterminado caso não haja um acordo.

As mobilizações seguem determinações das federações que organizaram uma paralisação em 45 universidades e em todas as repartições da Justiça.

sábado, outubro 17, 2009

Alunos, avaliem seus professores

Hoje, se alunos interessados desejarem, eles avaliam seus professores por meio de um blogue. Eu gosto muito dessa clareza para perder ou para ganhar.

Neste ano, disse às turmas que deveriam criar um blogue para criticar minhas aulas com equilíbrio. Eles poderiam filmar, fotografar. Algumas criaram. Mas devo repensar melhor a função do blogue de aluno para as minhas aulas. O blogue deve fazer parte de um processo avaliativo também para o aluno. Preciso pensar melhor isso.

Alunos avaliam de forma positiva seus professores.

1. Aldo (Português) 22 votos (73%)
2. Vanessa (Espanhol) 15 votos (50%)
3. Sezimária (História) 12 votos (40%)
3. Valdir (Física) 12 votos (40%)
4. Deiz (Geografia) 10 votos (33%)
4. Maria Célia (Arte) 10 votos (33%)
5. Gleide (Biologia) 8 votos (26%)
6. Roselva (Filosofia) 6 votos (20%)
7. Edinelson (Edu.Física) 4 votos (13%)
8. Ivo (Matemática) 3 votos (10%)

À professora-gestora Osmarina

Querida Osmarina, sempre defendi na nossa escola a clareza, a retidão, o diálogo, ideias que promovessem um ensino melhor. Uma dessas ideias, a avaliação. Não podemos recriar uma escola pública sem que alunos avaliem seus professores.

Avaliar, por que não?
No primeiro semestre, houve essa avaliação e nós concordamos que houve falha, qual seja: nem todos os alunos podem avaliar. O professor bricalhão, aquele que passa todo mundo, sabemos, obtém boas notas, e muitas notas.

Antes de o aluno avaliar, é preciso haver uma seleção para sabermos quais alunos avaliarão. Alunos responsáveis, jovens dedicados ao estudo, ao respeito; alunos que desejam um escola pública melhor para que suas vidas sejam transformadas.

Eu, por exemplo, quando sei que serei avaliado, procuro ainda mais fazer o melhor para meus alunos. Como servidor do Estado do Acre, devo saber por meio de uma pesquisa estudantil o que sou como professor em uma sala de aula. E mais: tal pesquisa deve se tornar pública por meio do sítio (site) da escola.

Sua gestão está entrando no terceiro ano e penso que deveríamos proporcionar essa avaliação ainda no segundo semestre de 2009.

O lúdico
Outra proposta, Osmarina, atividades lúdicas. Elas deveriam ocorrer duas vezes por mês. A competição entre turmas motiva quem até não gosta de estudar. Pela primeira vez, realizaremos um gincana só de conhecimento na escola, mas, para o próximo ano, poderíamo realizar duas por mês, combinando aulas tradicionais com aulas "desorganizadas" pela brincadeira.

Pense nisso, menina!


sexta-feira, outubro 16, 2009

Salário dos professores

Salário médio dos professores da Educação Básica brasileira
Fonte: MEC

1. Distrito Federal R$ 3.360
2. Rio de Janeiro R$ 2.004
3. São Paulo R$ 1.845
4. Mato Grosso do Sul R$ 1.759
5. Roraima R$ 1.751
6. Rio Grande do Sul R$ 1.658
7. Paraná R$ 1.633
8. Acre R$ 1.623
9. Amapá R$ 1.615
10. Sergipe R$ 1.611
11. Amazonas R$ 1.598
12. Tocantins R$ 1.483
13. Minas Gerais R$ 1.443
14. Mato Grosso R$ 1.422
15. Pará R$ 1.417
16. Espírito Santo R$ 1.401
17. Rondônia R$ 1.371
18. Santa Catarina R$ 1.366
19. Goiás R$ 1.364
20. Maranhão R$ 1.313
21. Alagoas R$ 1.298
22. Rio Grande do Norte R$ 1.232
23. Ceará R$ 1.146
24. Bahia R$ 1.136
25. Piauí R$ 1.105
26. Paraíba R$ 1.057
27. Pernambuco R$ 982

Pré-Conferência Estadual de Comunicação

Infelizmente, não pude comparecer à pré-Conferência Estadual de Comunicação por causa do trabalho. Pela TV, assisti ao final. No palco, Aníbal Diniz, Marcos Afonso, Carlos Alberto e Toinho Alves. O organizador, Jorge Henrique.

Na plateia, duas pessoas ficaram em minha memória. Uma questionou o governo sobre a possibilidade de um jornalista formado trabalhar na imprensa oficial. Em sua resposta, Aníbal, representando a comunicação pública, disse que o governo não pode dar emprego a todos os jornalistas. Concordo. Ele só respondeu sem responder. Fugiu à pergunta.

Ausência de Espírito Republicano

A questão é que o governo só dá emprego a quem quer. É o governo quem escolhe o jornalista que trabalhará na imprensa para reproduzir os clichês oficiais. Nesse aspecto, o governo não tem "espírito republicano", ou seja, não oferece oportunidade igual a todos os jornalistas por meio de concurso público.

Quem trabalha na TV Aldeia? A escolha é pessoal, partidária, e isso se opõe ao espírito republicano. Isso, além de ser desigual, não seleciona os melhores. Repito: Aníbal não respondeu.

Toinho Alves foi muito feliz em suas colocações. Como pessoa pública, só gosto dele quando provoca, polemiza. "Sou a favor de o governo não dar mais dinheiro aos jornais e nem às TVs", ele disse. "A imprensa oficial está matando o talento de jovens que trabalham na imprensa oficial".

O Edinei Muniz tentou fincar na pré-conferência o maniqueísmo oposição x situação, o que é um erro. Deveria haver mais encontros sobre outros temas, sindicatos deveriam promover reflexões para guiar novas práticas sociais.

Faltou à esse breve encontro, entretanto, uma temática definida, reflexões sobre um tema específico. Na verdade, até houve, mas faltou comunicação.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Professor. Ausente.

Hoje, dia do professor. Se realizarmos uma pesquisa em um pré-vestibular, constataremos que poucos, muito poucos, desejam ser professores. Nem precisamos de pesquisa. Na Universidade Federal do Acre, a relação aluno-vaga não é maior nas faculdades que formam professores.

Como consequência, a Ufac coloca tão poucos profissionais na rede pública de ensino que falta professor em certas disciplinas, por exemplo, em física.

Esse não querer ser professor justifica-se por vários motivos, um deles: o salário. Após quatro anos na Faculdade de Letras, esse profissional, se passar no concurso da Secretaria Estadual de Educação, receberá por mês R$ 1.520, lecionando 30 horas. Esse salário é líquido.

Até que apareça um segundo contrato, ele irá esperar anos e anos. Até lá, deverá lecionar na rede privada, isto é, salário menor e mais turmas, umas dez.

Leciono há quase vinte anos, 12 dedicados ao Acre. Hoje, por causa da Frente Popular, ou seja, do PT e do PC do B, as condições do professor melhoram, porque, se compararmos à política educacional dos ex-governadores Romildo Magalhães e Orleir Cameli, o pouco já seria muito.

O fato é: houve melhoras. Repito: melhoras - eu não disse revolução. E existe revolução?

Não creio que exista revolução, pelo menos, no sentido clássico. Deveria haver uma nova ordem escolar, uma ordem que soubesse entrelaçar tradição & modernidade.

domingo, outubro 11, 2009

Perigos da obediência

Livro e filme retratam como a sociedade administrada e a manipulação da linguagem desenvolvem no indivíduo o ódio pelo outro

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" -e haveria outras a lembrar.

Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.

O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".

Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.

Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.

Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.

Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.

Forças destrutivas
À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...

Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".

Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".

Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.

Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.

Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.

Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".

Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.

(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.

Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.

O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).

Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.

O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.

Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.

Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".

Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.

Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.

A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Binho Marques, o governador

Quando um médico negligencia, o problema é visível, concreto, palpável, porque transforma ser humano em cadáver. No Acre, um homem da medicina, segundo informações, aplicou uma dose forte de indiferença em uma criança.

Ela morreu na noite de quinta-feira, na Fundação Hospitalar. Com convulsão, a enfermeira avisou ao médico que a criança encontrava-se na sala de descanso, e ele disse que somente a internaria na sexta pela manhã. Mas não houve manhã para um inocente.

A mãe denunciou o médico no Ministério Público, e o governador o demitiu sumariamente. A equipe do hospital também sofreu sanção disciplinar.

No hospital, a morte evidencia-se. E na escola? Em uma sala de aula, o corpo não morre, mas vaga sem espírito na Nação por causa da negligência de um professor, de outro professor. Por causa de uma escola pública.

Nesse caso, o que um governador pode fazer?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Qualidade de ensino

Quando meus olhos debruçaram-se sobre as redações de meus alunos do segundo ano do ensino médio, percebi com muita clareza que nas séries anteriores seus textos jamais foram refeitos em sala de aula. "Professor, eu nunca estudei dessa maneira redação", compara um aluno.

Neste semestre, apresentei a eles a proposta de redação do Enem de 2005. Não comentei, só entreguei. Não houve uma só redação que usasse os dados da proposta.

Em um segundo momento, retirei com eles as ideias principais e a relação entre essas ideias. Além disso, por estar submersa no texto, coloquei uma informação na superfície. Depois disso, iniciaram-se escrita e reescrita.

A princípio, colocar números, uma região brasileira, o jornal "O Globo" e o IBGE na introdução deveria ter sido tarefa simples mas não foi. Para colocar na ordem, precisei de quase 16 aulas, e alguns não conseguiram.

Rayana Souza conseguiu após ter reescrito várias vezes. Em 4 de setembro, ela escreveu:

"O trabalho infantil hoje em nossa sociedade é cada dia mais comum. Famílias que não tem uma estabilidade financeira acabam colocando as crianças para trabalharem nos sinais vendendo bala, limpando vidros de carros e algumas chegam até à prostituição."

Escreveu e reescreveu. Escreveu e reescreveu. Após as minhas tantas observações, o seu texto ficou assim:

"Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados pelo jornal 'O Globo' em 11 de maio de 2004, 5.438 milhões de crianças e de adolescentes submetem-se ao trabalho escravo nesta 'Pátria amada'. O Nordeste, região mais religiosa do país, possui o maior índice de exploração, 2.296 milhões (42.2%). O poder público, por sua vez, não atua como deveria."

Quando leio um texto desse após muitas tentativas de uma aluna, peço a Deus sabedoria e esforço incansável para transformar a vida (textual) de meus alunos.

Não tenho tempo para reclamar de meus alunos. Professor que reclama de aluno assemelha-se a um médico que reclama de um paciente por estar enfermo.

domingo, outubro 04, 2009

Uma noite com Saramago

No sábado, dia 3, fui ao teatro assistir ao texto "Levantado do Chão", de José Saramago. Quatro turmas do ensino médio foram convidadas, um total de 120 alunos. Uns 20, entretanto, compareceram.

Se fosse Expo-Acre, comprariam até botas e calças para ficar na moda.












Saudável e equilibrada a socieadade que mais teatro tem do que igrejas neopentecostais.












Final do espetáculo. Os responsáveis pelo teatro no Acre precisam retirar o ato estético dos lugares fechados para interromper o espaço urbano. Imagino textos teatrais manfestando-se ao mesmo tempo em várias partes de Rio Branco.

O teatro popular entrando em ônibus, personagens surpreendendo com falas e com gestos a mecânica do urbano.

sexta-feira, outubro 02, 2009

O mundo do revisor

Nesses anos trabalhando como revisor em redações, cometi o grave erro de não registrar momentos que comovem a língua portuguesa, por exemplo, este:

"Policiais evitaram que o cachaceiro Raimundo Silvestre Dias colocasse fim em sua própria vida através do suicídio."

quinta-feira, outubro 01, 2009

"Sopão enche o bucho"

Hildebrando perde patente, e
direitos políticos de Romildo Magalhães são cassados

De Nayanne Santana

O juiz substituto Luís Gustavo Alcade Pinto, responsável pela 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Rio Branco, julgou como procedente uma ação civil pública na qual os réus são ex-deputado federal Hildebrando Pascoal e o ex-governador Romildo Magalhães.

A ação, impetrada pelo Ministério Público Estadual (MPE), pedia a perda da patente de coronel de Hildebrando e punição para ex-governador Romildo, que beneficiou o ex-deputado com a elevação de patente.

“As condenações que envolvem Hildebrando são a nulidade do Decreto 754/94, que promoveu o réu de tenente-coronel para coronel, determinado a perda da patente. A segunda condenação é a nulidade do Decreto 784/94, que o transferiu para reserva remunerada, e a terceira condenação é perda dos valores acrescidos ilegalmente nos valores dele. Ele também fica com os diretos políticos cassados por dez anos”, explicou.

Segundo o documento, o ex-deputado Hildebrando Pascoal deve perder a patente de coronel da Polícia Militar, e Romildo Magalhães deve ser punido, porque promoveu Hildebrando de tenente-coronel para a patente de coronel sem respeitar os requisitos legais. O juiz explica que Hildebrando é réu, porque ele se beneficiou dos decretos, porque houve aumento salarial e, por conseqüência, aumento de bens ao mudar de patente.

“Logo após a promoção ilegal, que foi feita por meio do Decreto 754/94, o ex-governador editou um novo decreto [Decreto 784/94] e transferiu o então coronel Hildebrando para a reserva remunerada, porque ele havia sido eleito em dezembro [de 1994] a deputado estadual, então ele não poderia acumular duas funções”, detalhou o juiz Luís Gustavo.

De acordo com o magistrado, o processo que pede a perda da patente de Hildebrando e a punição ao ex-governador Romildo Magalhães foi pedido pelo MPE em 4 de julho de 2000.

Punições a Romildo

A sentença do juiz Luís Gustavo Alcade poderá causar transtornos ao ex-governador Romildo Magalhães, que tinha pretensões de ser candidato em 2010. Entre as punições aplicadas, consta na sentença que Romildo ficará com os direitos eleitorais cassados por oito anos.

Ele também fica impedido de participar de licitações públicas e, caso exercesse função pública, teria de deixar o cargo. O ex-gestor estadual também poderá fazer parte do pagamento da dívida que Hildebrando adquiriu com o Estado ao ser beneficiado por decretos ilegais de Romildo. O ex-governador poderá efetuar pagamento solidário caso o ex-deputado encontre dificuldades para quitar a dívida.

O juiz substituto Luís Gustavo ressalta que os réus podem recorrer da decisão.

Alcilene, e agora?

A professora Alcilene foi escolhida como presidenta do Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac). Os jornais não deram uma nota. Eleita, espero que agora ela cumpra ideias essenciais ao sindicato.

Novo Jornalismo
Um delas - e tenho falado disso muitas vezes - é o jornalismo sindical. Da forma como se encontra hoje, é ratificar uma asnice. Que os informativos permaneçam, mas um jornal que ultrapasse os limites dos clichês sindicais, caso chegue agora, hoje, já chega atrasado.

Não há no Acre informação séria e profunda sobre educação pública. O governo, sem dúvida, melhorou o ensino, porém criou mitos e, o que é pior, monopoliza uma informação superficial e narcísica sobre essa educação.

O jornalismo sindical, se for reimpresso pelo Sinplac, não deve ser criado para ser opor ao governo, mas para expor matérias bem trabalhadas e imparciais à sociedade acriana. Um jornal não para professores. Um jornal não contra o governo. Um jornal para a sociedade. Um jornal para a educação pública - esse bem muito acima de partidos, de pessoas, de grupos, de ideologias.

O Sinplac, caso a professora Alcilene cumpra, deverá possibilitar um jornalismo sindical independente do próprio sindicato. Livre e absurdamente ético e responsável, criado por profissionais que saibam escrever bem, que sejam inquietos e atrevidos. Gente inteligente.

Alcilene, irei cobrar!!! sempre!!!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Em época de Enem, eis as pérolas

1) "o problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta." (percussão e estalos. Vai ficar animado o negócio)

2) "A amazônia é explorada de forma piedosa." (boa)

3) "Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar planeta."
(tamo junto nessa, companheiro. Mais juntos, impossível)

4) "A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu."
(e na velocidade 5!)

5) "Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta."
(pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

6) "O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação."
(pleonasmo é a lei)

7) "Espero que o desmatamento seja instinto." (selvagem)

8) "A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo." (o verdadeiro milagre da vida)

9) "A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta."
(também fiquei emocionado com essa)

10) "Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis."
(todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro, e realizar uma árvore renovável)

11) "Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas."
(esqueceu que também ficam sem o home theater e os dvd's da coleção do Chaves)

12) "Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna."
(amém)

13) "Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza."
(e as renováveis?)

14) "A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica."
(deve ser culpa da morte ecológica)

15) "A amazônia tem valor ambiental ilastimável."
(ignorem, por favor)

16) "Explorar sem atingir árvores sedentárias."
(peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões)

17) "Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia."
(o quê?)

18) "Paremos e reflitemos."
(beleza)

19) "A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas."
(onde está o Guarda Belo nessas horas?)

20) "Retirada claudestina de árvores."
(caraulio)

21) "Temos que criar leis legais contra isso."
(bacana)

22) "A camada de ozonel."
(Chris O'Zonnell?)

23) "a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor."
(a solução é colocar lá o pessoal da Zorra Total pra cortar árvores)

24) "A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração."
(para fabricar o papel que ele fica escrevendo asneiras)

25) "A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo dsmatamento devastador, intenso e imperdoável."
(campeão da categoria "maior enchedor de lingüiça")

26) "Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação."
(NÃO!)

27) "Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises."
(gênio da matemática)

28) "A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes."
(red bull neles - dizem as árvores)

29) "O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório"
(ótima)

30) "O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando."
(subindo!)

31) "Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc."
(deve ser a globalização)

32) "Convivemos com a merchendagem e a politicagem."
(gzus)

33) "Na cama dos deputados foram votadas muitas leis."
(imaginem as que foram votadas no banheiro deles)

34) "Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia."
(oh god)

35) "O que vamos deixar para nossos antecedentes?"
(dicionários)

terça-feira, setembro 29, 2009

Partidarização, Osmarina e um Prêmio

Nos jornais acrianos, carros batem em postes todo dia, policiais prendem marginais e drogas são apreendidas, porém não sabemos o que ocorre na escola pública. Só sabemos dela quando o governo a propaga por meio dos veículos de comunicação de massa.

Mas a propaganda de governo não emite uma imagem reflexiva sobre educação pública. Por meio dos jornais, da TV e do rádio, o governo da Frente Popular se elogia, confinando a escola à condição de um objeto superficial.

Antes, propagava-se que tínhamos o melhor salário do país. São Paulo, governo do PSDB, paga o melhor salário hoje. Quando os resultados são negativos, os dados do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, não servem. Quando são positivos, servem.

No Acre, a escola pública é objeto da partidarização. Os sindicatos da educação poderiam transformar a rede pública de ensino em discurso reflexivo; suas lideranças, porém, sempre foram incapazes disso.

Partidarização da escola pública

Desde 2003, quando comecei a lecionar na escola Heloísa Mourão Marques, vi a presença cancerígena de partidos políticos com a finalidade única de colocar na gestão escolar pessoas de seus interesses.

Por ser um erro, o atual processo eleitoral permite essa partidarização na escola. Quem padeceu com a presença de partidos de esquerda foi a professora Osmarina. Difamaram-na e, por causa disso, perdeu muitas eleições.

Porque o partido escolheu, submeteram o corpo docente a aceitar depois pessoas incapacitadas para coordenar o ensino. Entretanto, com muito jeito, com muita articulação, a professora Osmarina foi escolhida após tantas derrotas. Colocar o professor Gleidson como coordenador de ensino também não foi fácil.

Os vícios do setor público

Hoje, a escola não deixou antigos problemas. Funcionário, por exemplo, quebra um cabo de DVD, mas acha que não deve pagar. Professor acha que não deve ser cobrado. Mesmo assim, a escola apresenta outra imagem por causa da gestora-professora Osmarina.

Embora trabalhe para melhorar a escola, dois professores a processaram. Quando a antiga gestora (?) deixava a escola por um mês, esses dois professores calaram-se.

Algo simples. Para muitos, sem importância. A escola Heloísa Mourão Marques recebeu um prêmio por causa de um projeto interdisciplinar (foto). Nem todos lutam para que a escola pública seja premiada. Osmarina luta. Gleidson luta.

domingo, setembro 27, 2009

Os comunistas











Soldados chineses formam o desenho da foice e do martelo

Aos domingos, quando há um ótimo texto no caderno Mais!, do jornal a Folha de São Paulo, eu publico neste blogue. Achei pertinente esta publicação porque ontem o Partido Comunista do Brasil, o PC do B acriano, realizou um encontro estadual.

Boa leitura!

RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM

Dos nove homens mais poderosos da China, membros do Politburo do Partido Comunista, oito são engenheiros. Apenas um é advogado. O debate político parece mínimo, mas a execução das obras e o planejamento estão em todo lugar na transformação da China dos últimos anos.

Os dois membros mais jovens do Politburo têm doutorado -eles devem se tornar os próximos presidente e primeiro-ministro. Um deles, o atual vice-presidente, Xi Jinping, 56, deve ser o próximo presidente, ainda que não seja o preferido de quem hoje ocupa o cargo, Hu Jintao, prova da tímida democracia interna que começou a crescer na última década.

"Antes de morrer, Deng Xiaoping escolheu Jiang Zemin e Hu Jintao como seus sucessores e ninguém ousou desrespeitar seus planos, mesmo quando já estava no túmulo", diz o cientista político Victor Shih, chinês de Hong Kong, que fez doutorado em Harvard sobre política chinesa.

"Não há mais Mao Tse-tung ou Deng Xiaoping, que decidiam tudo. Cada geração tem menos poder que a anterior, e as diferentes facções se monitoram entre si", afirma Shih.

Ainda não se fala em democracia ou em múltiplos partidos, mas o Partido Comunista chinês passa por uma discreta transformação. Dos 371 membros do Comitê Central, 92% têm diploma universitário.

A partir de 1978, depois de três décadas de revolucionários que souberam derrotar japoneses e nacionalistas, mas que afundaram a economia chinesa, o partido só quis saber de crescimento econômico e "estabilidade" social.

Hoje, quem promove maiores altas no PIB em suas cidades e Províncias e reprime ou previne protestos sobe mais rapidamente na hierarquia.

Jiang Zemin é considerado responsável pela transformação econômica de Xangai e esteve entre os responsáveis pela repressão aos estudantes na praça da Paz Celestial. Hu Jintao era secretário-geral do partido no Tibete em 1989 e, diz-se, reprimiu protestos de monges budistas de "forma exemplar". De ditadores poderosos, o PCC passou a uma liderança coletiva com prazo de validade. A aposentadoria é compulsória para quem chega aos 65 anos no Comitê Central e 70 anos no Politburo.

Principezinhos
Meritocracia e bons contatos às vezes se misturam ou competem na ascensão no partido, que tem 76 milhões de afiliados. Um dos grupos em alta no PCC é o dos "principezinhos", filhos de lideranças partidárias que subiram rapidamente na hierarquia pelos contatos herdados. Xi Jinping é um principezinho.

Outro é Bo Xilai, 60, secretário-geral do partido para a região metropolitana mais populosa da China, Chongqing. Bo foi prefeito de Dalian, porto importante do norte do país. Transformou a cidade em modelo ambiental, com programas de transporte público, despoluição e reciclagem de lixo elogiados e um crescimento econômico recorde. De lá, virou ministro do Comércio.

"Parece prêmio ao mérito, mas, por ser filho de pai influente, ele conseguiu atrair investimentos de Pequim, mais créditos nos bancos estatais, investimentos estrangeiros foram dirigidos para lá, então o "quem indica" precedeu o mérito", diz o professor Shih.

Dali foi enviado para chefiar o partido em Chongqing, 31 milhões de habitantes e barril de pólvora político -8 milhões de pessoas desalojadas para a construção da hidrelétrica de Três Gargantas foram para lá. Chongqing vive periódicos protestos sociais e inúmeros casos de corrupção.

No mês passado, Bo colocou na prisão 1.500 pessoas acusadas de participar de tríades, a máfia chinesa. O feito, divulgado amplamente pela mídia estatal, já colocou Bo como outro candidato a suceder Hu -e como adversário de Xi Jinping.

As punições no partido obedecem à mesma dualidade entre performance e padrinhos. Casos de corrupção podem ser punidos com prisão perpétua ou até pena de morte por servirem de "exemplo" a outros milhares de corruptos que estejam fazendo o mesmo -ou como revanche de alguma facção que quer exibir seu poder.

Mudança limitada
A corrupção se espalha de empreiteiras e venda de terras até a educação, a saúde e o interior do partido. Nas Províncias, há esquemas de propina para promoções, cargos bem remunerados ou para aqueles em que é mais fácil fazer dinheiro -como administração de terras ou estatais.

Na reunião anual do Comitê Central do PCC, ocorrida há dez dias, uma das prioridades divulgadas pela imprensa estatal foi o combate à corrupção.

"Um burocrata provincial pode ganhar 5.000 yuans por mês (R$ 1.300), enquanto um diretor de banco estatal pode ganhar 20 vezes isso", diz Shih.

Centenas de casos de corrupção nas Províncias e suas punições, que servem de advertência aos demais, são divulgados diariamente pela imprensa oficial. Não é o que acontece quando os escândalos chegam ao topo da hierarquia comunista.

O "New York Times" noticiou um esquema de propinas na África da empresa chinesa Nuctech, que produz scanners e outros equipamentos de inspeção. Hu Haifeng, filho do presidente Hu Jintao, dirigia a empresa, que até participou de concorrência internacional da Receita Federal no Brasil.

O filho do presidente virou secretário-geral do Partido na holding das empresas criadas pela Universidade Tsinghua, onde pai e filho estudaram. Todas as reportagens sobre a Nuctech são bloqueadas na internet chinesa e o assunto é ignorado pela mídia estatal.

"As políticas anticorrupção não estão funcionando e o próprio governo reconhece", diz Shih. "Apesar da modernização do partido, a inexistência de imprensa livre e de Judiciário autônomo limita a mudança."

sexta-feira, setembro 25, 2009

Blogue aberto a Moisés Diniz

Deputado,

Li com muita atenção a matéria sobre seu projeto, publicada neste blogue (abaixo). Trata-se de um atraso, deputado, quando evangélicos submetem o Estado à vontade de dogmas.

Sou professor da rede pública estadual e, em minhas salas, há alunos homossexuais. Na semana passada, no canto de um corredor, deparei-me com um aluno chorando. Estudioso, educado, bom ser humano, sua homossexualidade não se esfrega na vulgaridade.

Parei para ouvi-lo. Disse-me que seu pai bateu nele durante um bom tempo com galho fino de goiabeira e, agora, aos 16 anos, esse mesmo pai disse à esposa que não tolera mais ver o filho ser protegido pela mãe. "Minha casa não é lugar de viado."

"Por causa de mim, meu pai vai sair de casa, ele vai deixar a minha mãe", disse-me.

Sua avô é evangélica e não aceita o neto como ele é. Um dia que você tiver maturidade para amar alguém e ser amado, realize essa união com dignidade, com respeito. Mas, antes desse amor, estude, dedique-se ao saber para conseguir no futuro um bom emprego e assim não depender de pessoas, por exemplo, de sua família.

Disse isso e mais, mas sei que foi pouco. A injustiça das igrejas evangélicas sobrepõe-se ao equilíbrio da educação. Penso que a escola onde leciono deveria criar a temática homossexual de forma interdisciplinar, um saber entre história, literatura, biologia.

Deputado, a questão é seríssima, lamentável seu caráter recuar perante o fanatismo.

E agora, deputado?

Deputado diz que pode rever projeto contra a homofobia
Texto não é meu

O deputado estadual Moisés Diniz (PC do B), líder do governo na Assembleia Legislativa, vem sofrendo uma campanha implacável e desumana liderada por alguns pastores de Rio Branco, pelo fato de ter apresentado projeto de lei contra a homofobia.

Devido a campanha pesada dos pastores, o deputado está disposto a rever o seu projeto contra a homofobia. Diniz tinha apresentado projeto na Aleac, aprovado por 15 votos a 6, que cria o Dia Estadual de Combate a Homofobia.

“A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil. O nosso projeto era contra isso, a favor da vida. Eu não pensava que fosse possível ter ódio onde se prega o amor ao próximo”, desabafou o deputado.

O que mais estranha nesse episódio é que o bombardeio e o ódio contra o projeto do parlamentar comunista esteja partindo de um grupo de pastores que deveria ter na essência de suas pregações a defesa da vida e o amor ao próximo, regra e essência dos ensinamentos de Jesus que esses pastores afirmam defender no palco de seus templos.

Esses pastores chegaram ao absurdo de se reunir com o governador Binho Marques, ontem pela manhã, e pedir a ele que vete o projeto.

O parlamentar disse que ficou surpreso com a repercussão do projeto. Ontem à tarde Diniz telefonou para alguns pastores e informou que está disposto a rever o projeto. Detalhe: um outro grupo desses religiosos já se manifestou contrário a campanha que os colegas vêm pregando contra o deputado.

“Eu estou disposto a pedir ao governador que vete o meu projeto. É triste isso, mas eu não recebi nenhum apoio, apenas oposição”, afirmou o líder. A Tribuna apurou que essa campanha contra o projeto do deputado teve apenas um lado: pastores contra. E que nenhum sindicato ou associação da sociedade civil, por exemplo, se manifestou. O recuo de Diniz é exatamente porque apenas um lado está tomando partido.

Os pastores estão na contramão da sociedade moderna, já que o projeto nasceu para combater uma discriminação que gera morte. O deputado não apresentou nada ligado a religião e não propôs nenhum debate religioso, apenas um dia de combate a homofobia, um dia para a defesa da vida.

O projeto de Diniz, ao qual A Tribuna teve acesso, não defende que o cidadão seja homossexual, mas prega a luta contra a perseguição, contra o preconceito que produz a morte.

O deputado disse que há 25 anos já filiava pastores evangélicos no PCdoB em Tarauacá, demonstrando ser um profundo defensor da liberdade religiosa. Disse ainda que não vai constranger os deputados que votaram a favor e nem o governador.

“Eu continuo acreditando que Deus ama a todos os homens, principalmente os pecadores. Não vou entrar em debate religioso e nem insuflar ânimos. Deus vai julgar o que nós estamos fazendo agora”, concluiu.

De alunos e aos alunos

Em minha casa, guardo com muito carinho processos que pessoas moveram contra mim. Para rir delas - e rio muito -, já fui processado por não lecionar gramática em sala de aula, por lecionar produção textual. Até ler Monteiro Lobato para alunos do ensino fundamental foi motivo de processo.

Na Universidade Federal do Acre, consta em um processo que eu lecionava "A República", de Platão, em Literatura Infanto-Juvenil, e isso, acredite, repito, foi motivo para eu ser processado .

O tempo... é preciso paciência para que o rosto das horas e dos dias revele seus traços serenos de verdade. É preciso esperar. No passado dessas folhas processuais até hoje, coleciono em meu álbum minutos, horas, dias, semanas, meses, anos.

À sombra das folhas mortas de outono, é preciso esperar sem jamais deixar de acolher na memória de minha história nomes que me traíram em páginas desses processos.

Como me esquecer de João de Carvalho? como me esquecer de Milton Chamarelli? esquecer-me de Vicente Serqueira, como? Não me esqueço desses nomes - há mais - como quem não se esquece do Deus, o do Velho Testamento.

Ainda permaneço muito vivo em sala de aula, e meus alunos, os mais dedicados, os mais interessados, os inquietos, os que incomodam a mediocridade, reconhecem a voracidade carinhosa de minhas aulas e a desobediência de minha paixão por lecionar. Deles, recebo o mais sincero respeito e admiração após 10 anos, após 15 anos.

Recentemente, a turma A, segundo ano do ensino médio da escola Heloísa Mourão Marques, criou uma festa para o corpo docente, e eu, em minha condição humana, não pude deixar de me emocionar diante de alunos inteligentes, esforçados, amorosos, inquietos. Mesmo os que não passaram, mesmo eles, creia-me, não deixaram de reconhecer a minha vontade de transformar suas vidas por meio da educação, da cultura, do saber.

Deus sabe o quanto desejo revê-los no futuro como adultos vitoriosos em suas profissões, e isso significa dizer servir suas profissões com paixão aos seus semelhantes, porque a essência do trabalho não se reduz a receber o salário no final do mês, porém transformar, para melhor, a vida do semelhante.

Fui teu professor para que tu nunca te esqueças de mim como obstáculo ultrapassado por seu esforço e por sua inteligência. Quem não me transpos, paciência, ainda não era a tua hora, o teu tempo.

Dois alunos passaram pelo obstáculo e deixaram estas palavras neste blogue.

"Professor, como aluna, posso dizer que suas aulas são excelentes!!!. Outros professores de outras disciplinas até se questionam se o senhor, um homem tão rígido, tem um 'mel' que conquista os alunos! Bom seria se todos os professores utilizassem métodos assim, que, além de descontraírem, estimulam o aprendizado! Abraços!"

"Por isso que eu o admiro como professor, como pessoa. Sinto falta das tuas aulas. Um abraço!"

quinta-feira, setembro 24, 2009

Bagunça Escolar









Aldoro uma bagunça em minha sala de aula. Gosto da ordem, sei o quanto ela é importante por vários motivos. A desordem (outra forma de ordem) me seduz. Os poetas árcades desprezavam a estética barroca por achar que ela pertencia à impureza da desordem.











O barroco, entretanto, representa uma outra ordem que a ordem árcade não quer entender, por exemplo, a ordem lúdica. Brincar em sala. Gritar. Bagunçar. Desordem sob controle.

Hoje, mais uma vez, permiti que meus alunos brincassem, e eu também, claro. Divididos em grupos de três, uma disputa entre rapazes e moças para colocar em ordem parágrafos fora da ordem lógica de raciocínio. Muito bom.

Leciono há quase 20 anos e ainda me oponho a uma sala SOMENTE séria, formal, inflexível. Até hoje, não me deixo ser possuído pelo condicionamento monótono das escolas. Não consigo imaginar o ato de lecionar sem a presença prazerosa do lúdico.

Senhores, brinquemos!

Da Ufac ao Gazeta Alerta

Diante do poder comunicativo da televisão, este blogue não passa de um indigente, um corpo verbal sepultado pelo esquecimento da indiferença. Quem é Aldo Nascimento perante a audiência de um Edvaldo Sousa, do programa Gazeta Alerta?

Mas, por eu não ser senso comum - e nem gostaria -, motivo-me a manter uma crítica sóbria não à pessoa de Edvaldo Sousa, por sinal, homem honrado, idôneo, mas à sua condição de comunicador de massa. Sua imagem pública, portanto, incomoda-me como fenômeno social. Repito: como fenômeno social. Quando a opinião é sobre violência, ele influencia telespectadores de classes sociais.

Sobre isso, o silêncio espesso de professores das faculdades de jornalismo. São intelectuais que lecionam entre quatro paredes teorias da comunicação; porém, além dessas paredes, noticiam mudez na imprensa escrita. Não se lê no jornais locais um artigo sequer sobre comunicação de massa do Acre.

Na tela
Não tenho hábito de assistir ao progrma Gazeta Alerta, gostaria se o tempo estivesse a meu favor. Às vezes, quando está, assito.

Ontem, após a condenação de Hildebrando Pascoal, vi o comunicador em seu programa sem o mesmo tom de voz de outras vezs. Para falar da sentença, do caso Baiano, o âncora foi comedido, prudente, limitando-se ao fato em si, isto é, à sua superfície.

Não ouvi "sua subjetividade" em ação, sua dramaticidade, porque falar da violência dos marginalizados pelo Estado ao londo de décadas não se equipara à violência de uma classe social que transformou o poder institucional em esquadrão da morte.

Neste ano, por falta de tempo, não apresentarei ensaio a um concurso da Prefeitura de Rio Branco, droga. Quando o tempo estiver a meu favor, escreverei um ensaio, quem sabe, sobre Gazeta Alerta.

quarta-feira, setembro 23, 2009

A caneta









Foto de Debora Mangrich,
a gorda

Conforme acordo, a TV Justiça passaria às TVs acrianas as imagens do caso Baiano. O Sindicato dos Jornalistas do Acre assinou.

O chefe de jornalismo da TV Acre, Jefson Dourado, resolveu registrar as imagens por meio de uma caneta-filmadora. Foi detido.