quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Sinplac

Reclamamos do governo, mas não nos olhamos no espelho. O Sinplac, Sindicato dos Professores Licenciados do Acre, está condenado a ser o mesmo, não se importando com o passar do tempo.

Acreditei que a atual direção fosse criar um jornal independente, um jornal ético, imparcial, algo destinado à educação, revelando a real situação dos professores e as contradições do governo. O Sinplac é obreiro.

Eu e minhas ilusões.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Quando chegarmos...

à Região dos Lagos.

Em Maricá, Rio de Janeiro, as ondas e as areias - menos em Ponta Negra - exibem imagem selvagem.

Em certos trechos, sentimos o cheiro da solidão. Gosto de suas praias por ficar diante do deserto do mar e no deserto da praia.

Igual a uma igreja, o silêncio de Maricá é sagrado. Limpa-me.

Muitas vezes, nessas praias, juramos Amor Eterno, mas nem o mar é eterno. Nada se eterniza no que é humano. Se você me disser que Abelardo e Heloísa, que Romeu e Julieta e que Tristão e Isolda são eternos, digo-lhe apenas que esses casais nunca viveram juntos o peso das horas.

O movimento romântico do século 19 os idealizou porque a morte os separou antes do convívio, antes de surgirem os erros, as decepções. Eles podem até atravessar a moldura do tempo, mas isso ainda não é eterno, até o Deus do Novo Testamento não é igual ao Velho.

Eu te decepcionei, mas você também me decepcionou. Somos mortais. Nesses anos, des-cobrimos nossas falhas, e o eterno tornou-se menor. Talvez agora, quem sabe, o Amor dê sinais de vida nesse espaço menor, tamanho dos erros humanos.

Será que seremos capazes? Será que pulsa em nós tamanha força? Me responda quando as ondas de Maricá molharem nosso cansaço.
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No dia 30 de janeiro, retornarei a este blogue. Que em 31 de dezembro, à meia-noite, você erga um brinde à vida recomeçada.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Tenho de ir!

Última postagem deste ano. Quando retornarei, ainda não sei. A única verdade é que tenho de me ausentar por um longo tempo. Silêncio.

Mas, antes, deixo a teus olhos os versos de um poeta que me fascina pelo vigor desobediente de sua inquieta juventude. A poesia chama-se "Minha boêmia".

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito ideal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
- Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Usa Maior.
- Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Aprecio esses versos por causa de sua vertiginosa liberdade ("Albergo-me à Ursa Maior"). Sob estrelas, hospeda-se. Esse é o maior bem de um ser humano, a liberdade. Mas quem pensa que ela significa fazer o que bem entende... engana-se.

Somos livres para haver o encontro, porque, se muitas vezes não sabemos explicar, pelo menos sentimos na pele que o outro nos liberta. Penso que a liberdade só possui esse sentido. Quando estamos sozinhos, estamos presos a nós mesmos, angustiados por grades que não vemos.

É o outro que nos oferta o gozo. Rimos porque estamos com alguém. Rir sozinho é loucura. Ausência de liberdade implica o que o Espírito não pode realizar, e uma das maiores realizações é se comover no momento de um encontro. Ser afetado. Afetar alguém.

Mas, depois, no final de tudo, estaremos sozinhos. A velhice virá. A dor brotará em nós. Não se negocia com a morte. No final, sempre perdemos nas esquinas solitárias, nas multidões que não nos enxergam.

No leito de um hospital, sempre perdemos os amigos. Em nossa própria casa, perderemos nossa mãe. No final, já disse, sozinhos ficaremos diante da tevê ou da tarde chuvosa.

Mas que o fim não nos desanime. Se a liberdade nos deu os encontros que agora pulsam em nós como boas lembranças, deixemos nos lábios a doçura do sorriso porque tudo, tudo mesmo, foi liberdade.

Para conhecer melhor o autor dos versos de "Minha boêmia", assista ao filme "Eclipse de uma paixão". Arthur Rimbaud fascina.

Agora, tenho de ir para o silêncio de minhas lembranças.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Muita calma nesta hora

"Professor, queremos informar ao senhor que em seu pagamento deste mês haverá uma quantia menor", telefonou uma funcionária da Secretaria de Educação.

"Quanto?"

"Não sabemos."

Na sexta, vi meu contracheque. A secretaria depositou menos R$ 670.

Feliz Natal!

quinta-feira, dezembro 16, 2010

O Deus que ofertei aos olhos teus

Havia teus seios erguidos. Havia tua bunda sorrindo. Havia tua vulva escondida. Havia tuas coxas indo...

Mas a felicidade de um encontro mais íntimo não habita em tuas partes "sem-vergonhas". Eu desejava tão somente me erguer acima de teus montes firmes, de teu ventre suado, de tua relva úmida.

Eu desejava tão somente contemplar a paisagem de teu rosto. Era teu rosto que eu desejava, porque nele, naquele momento de transe, eu fixei a verdade de meus olhos nos teus para dizer...

abençoada seja a vida, meus Deus, nesta hora em que meu gozo me salva da vulgaridade do mundo.

E, quando minha carne se alargou mais ainda sobre a tua, no momento-luz de meu libertário gemido, arregalei minha visão para, em meu êxtase, evocar o nome do meus Deus na cama.

Deve haver algo de Espírito Santo no orgasmo de quem se ama.

Aprendi contigo que o que menos importa na cama é o corpo. Era teu rosto que eu desejava para ofertar o meu Deus aos olhos teus.







quarta-feira, dezembro 15, 2010

"O Pequeno Príncipe"

Ficou tão fácil transar. As ofertas, muitas. Tantos corpos no mercado. A demanda, imensa. Nesses tempos de vulgaridade alegre, falta aquele ser humano único.

Ficou tão fácil transar. Difícil ficou “entrelaçar”. Ficou difícil “criar laços”.

Porque sempre estão à sua caça, ela foge dos humanos. Mas fugir aqui significa mais do que não ser apanhada; representa não ser tocada. Assim, para fugir, a caça despista os caçadores, engana-os. Mente para viver. Sua liberdade, portanto, é não se expor ao outro.

Até que...

"O Pequeno Príncipe" surge para ela. Inicia-se um dos mais belos diálogos para crianças, jovens e adultos.

- Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Como ser único? de que forma ser para o outro o incomum? como não ser igual a cem mil outros?

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E isso me incomoda um pouco", e a raposa dá a resposta definitiva. "Mas, se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como fossem música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A única resposta dada pela raposa: cativar. Transar ficou tão fácil. Difícil é "criar laços", isto é, cativar, ser cativante.

Dessa forma, o Pequeno Príncipe, o ser que cativou, será, por causa de seu cabelo dourado, recordado quando a raposa olhar o campo de trigo.

Última...

Ontem, por meio da fotógrafa Talita, conheci as palavras do blogue "Confraria dos Últimos Românticos". Gostei. É uma juventude que sabe pensar. Em tempos de crise do romantismo, esse blogue escreve sua própria fragilidade.

Recomendo aos que não são vulgares.

terça-feira, dezembro 07, 2010

De volta ao futuro [da escola]

Ontem, ao colocar os pés na escola, alunos colocaram em mim seus afetos. Escola. Há 20 anos, dedico minhas palavras a ela como um sacerdote prega a palavra em uma igreja, só que eu sou uma comunhão entre o sagrado e o profano, a obediência e a desordem.

Hoje, após tantos anos, aprendi a contragosto que a igreja ensina mais [e pior] do que a escola. Se no templo o preconceito contra homossexuais é questão de fé, a escola não sabe educar para que o homossexualismo seja humanizado. Escola pública é lugar onde não se aprende.

Aprende-se na igreja. O fanatismo nos educa. A Bíblia é nosso único livro. Na escola, não se lê; só os pastores [ sem muita ilustração] leem e seduzem a massa de fiéis à ignorância.

A vida, que é absurdo, não passa de inutilidade. Somos como Sísifo: estamos condenados a carregar a pedra ao topo do monte para deixar a pedra rolar, para levá-la outra vez ao topo do monte.

A vida, tamanho de pedra, não tem sentido; Albert Camus, no entanto, nos ensina que, embora seja pedra, devemos dar a ela sentido. Quando levamos a pedra, nesse momento, devemos dar sentido ao nosso ato.

Por isso, recebo o afeto de meus alunos porque, nesses 20 anos, ainda consigo dar sentido à palavra que pulsa na sala de aula. Confesso, contudo, que minhas palavras andam cansadas de mim.

Elas querem ir embora de minha alma. Confesso que restam poucas forças para mantê-las em mim. Algumas partiram em uma noite fria, chovia. Outras se mataram com o punhal da descrença nos homens. Sinto que não posso salvá-las.

Sinto que, sem elas, morro aos poucos. Mas ainda tenho afetos de meus alunos. Afetos, palavra que ainda permanece viva, não foi embora.

Professor Josenir Calixto

Ontem, na Secretaria de Educação, eu soube que o atual diretor do ensino médio, professor Josenir Calixto, poderá lecionar em 2011 na escola Heloísa Mourão. Mais: poderá se candidatar a gestor da escola.

O que penso sobre isso?

Bem, se eu não cometer suicídio antes, se eu não pedir licença-prêmio antes, se eu não pedir afastamento sem ônus antes ou se eu não ir embora do Acre antes, o professor Josenir Calixto terá meu irrestrito apoio, e olha que eu consigo alguns votos.

Espero que ele venha.

domingo, novembro 28, 2010

O Rio que passa pelo Acre


O governo da Frente Popular importa umas boas merdas do Rio de Janeiro. A última bosta que boiará no rio Acre chama-se Latino; ele infectará o solo acriano com alienação.

De quem partiu a ideia de gastar dinheiro público com o excremento "Festa no Apê?"

Por que não contrataram O Rappa? Por que não contrataram Gabriel, o Pensador? Por que não contrataram o AfroRegge? Por que não contrataram Negra Ly? Por que não contrataram Túlio Dek? Por que não contrataram Marcelo D2? Por que não contrataram Fernandinha Abreu?

Será que nesta merda tem o dedo do Dudê?

Seja quem for do governo, eu penso que deveria morar no Rio de Janeiro durante uns meses para conhecer a autêntica música popular. Um pessoal alienado que está no governo deveria, primeiro, deixar de ser alienado para, depois, importar a boa cultura musical do Rio de Janeiro.

É uma gente deslumbrada com a Cidade Maravilhosa e que não entende porra nenhuma de cultura popular. Se gostam tanto de Latino, ouçam seus ruídos em suas casas. O povo do Acre merece algo melhor.

Uma dúvida: se o Acre exportou as belas e inteligentes letras do grupo Los Porongas, por que importar do Rio de Janeiro as fezes de Latino?

quinta-feira, novembro 25, 2010

Orai e vigiai... armado!

Nesses últimos dias, Jesus Cristo desarmado no Rio de Janeiro é inútil.

Só a fé não remove favelas e só as armas removem traficantes.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Sobre tua face



De todas as montanhas,
De todas as planícies,
De todos os mares,

aqui, eu, nu sobre teu corpo,
instantes antes de meu gozo,
contemplo a mais bela paisagem:

teu rosto.

domingo, novembro 21, 2010

Jormais retalhados

1)
Entre todos os estados, o Acre fica na terceira posição como o mais dependente do Fundo de Participação dos Estados, o FPE.

O primeiro é Amapá (60,9%). O segundo, Roraima (57,9%). O Acre fica com 52,6% de dependência, ou seja, de cada R$ 100 das receitas do estado, R$ 52,6 são do FPE.

Hoje, 85% do fundo destinam-se às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A Constituição de 1988 determina que 21,5% da receita do IR e IPI sejam repassados aos estados.

O governo da Frente Popular estima que os cortes do FPE atingiram R$ 400 milhões nos últimos quatro anos, sendo R$ 200 milhões só em 20010.

2)
Hoje, Ferreira Gullar, poeta, escreveu em "O Globo" que não aceita na arte o vale-tudo. Literatura é arte, isto é, nem todos são escritores. No final, ele afirma: "As pessoas são iguais em direito, mas não em qualidades."

3)
Temos uma noção errada de elite. Pois bem, essa elite ameaça o futuro do governo de Dilma Rousseff com greve. Alega-se baixo salário. O salário dessa elite gira em torno de R$ 12,7 mil.

Boa parte desse pessoal está entre os 5% mais ricos do país. O nome dessa elite? Servidores da Justiça.

4)
Em São Paulo, sindicalistas desviam dinheiro de contratos de planos de saúde da categoria. No Acre, Sinplac e Sinteac não realizam auditorias em suas contas. Não sei o que fazem com o meu dinheiro.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Deuses negros


Ao dia da Consciência Negra, ofereço minhas palavras.

Bendita seja a cor negra de deuses que dançam, cantam e riem. Se no passado o deus dos brancos chicoteava a carne negra na senzala com a verdade bíblica, bendita seja hoje a cor de teus antepassados que não leram a Tábua de Moisés.

Os terreiros são mais alegres que as igrejas.

Se não havia o corpo de Cristo como hóstia, havia o tronco. Se não havia o sangue de Cristo como vinho, havia o suor da escravidão.

Se não havia sermão, havia gemido. Se não havia castiçal, havia grilhões. Se não havia missa, havia macumba. Se não havia Jesus, havia orixás.

Se não havia o perdão, havia o negro a cantar e a bailar.

Os terreiros são mais alegres que as igrejas.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Uma [re]vista do que somos

O professor-doutor Carlos Alberto (foto), diretor das Faculdades Euclides da Cunha, idealizou a revista "Visões Amazônicas". Mas não existe só a idealização. "Visões Amazônicas" tem capital para sua independência.

A maioria de suas páginas, porém, carece ainda de palavras porque as pessoas não escrevem. Há mais de três meses, eu enviei a um professor universitário quatro questões e, até o momento, não li as respostas.

Temos independência e verba, mas não temos autores para escreverem seus artigos, suas matérias, suas monografias.

Colocar em páginas palavras questionadoras e inquietantes sobre o Acre, longe do lugar comum dos políticos e da padronização jornalística local, por isso uma [re]vista do que somos nesta parte da maior floresta do mundo, por isso "Visões Amazônicas".

Quantas monografias de recém-formados, quantas dissertações de mestres e quantas teses de doutores permanecem sepultadas em bibliotecas nunca visitadas pela maioria da população? Quantos saberes sobre o Acre conservam-se em páginas jamais lidas por uma gente simples?

As Faculdades Euclides da Cunha acreditam que monografias, dissertações e teses possam se transformar - sem que percam a qualidade - em textos simples para que sejam lidos por mais pessoas em vários locais da cidade, porque esse saber não pode ser demarcado somente pelas paredes de bibliotecas. Esse saber precisa estar também em consultórios médicos e dentários, em salões de beleza, em grades de supermercados, em clínicas de estética, em comércios da periferia.

Além de uma produção acadêmica adequada a uma revista popular, "Visões Amazônicas" edita textos jornalísticos desobedientes a padrões anacrônicos, por exemplo, página policial e entrevista. A página policial não tem o direito de marginalizar indivíduos conforme o boletim de ocorrência da delegacia. O repórter de "Visões" precisa transcender os fatos a ponto de inverter, por meio de investigação, a relação de valores entre marginal e autoridade. No caso da entrevista, o entrevistador da revista não pode manter um monólogo com o entrevistado. Um jornalismo comprometido, portanto, não com a verdade do senso comum, mas capaz de revelar a mentira que há por trás dessa verdade.

No Acre, precisamos de ideias, de outras falas. Precisamos de visões.

Resposta a Josafá

Meu amigo, se você estivesse no Rio de Janeiro durante um mês lendo jornal, teus olhinhos, que não são azuis, ficariam arregalados com as informações. Hoje, houve tiroteio na avenida Rio Branco, detalhe, em plena luz do dia. O PM morreu no local. Um pedestre foi mantido como escudo. O marginal foi executado por outros PM.

A Cidade Maravilhosa não é lugar para trabalhar, tudo aqui cheira a engarrafamento. Outra: quando comparam a violência em Rio Branco à do Rio de Janeiro, eu rio, eu rio, eu rio.

Claro que o Acre tem seu lado ruim, por exemplo, ausência de um bom cinema com filmes autorais, teatro fora do circuito nacional e pagamento em 20 vezes nas Casas Bahia; mas, para trabalhar, eu gosto muito, porque não há engarrafamento, meu deslocamento ainda é rápido.

Também não espero que as coisas melhorem mais ainda no Acre, faço minhas críticas neste blogue sem esperança de ver uma Frente Popular menos burra, de ver um PT menos viciado pelo poder. Na vida, Josafá, não existe esperança, só existe a morte, o fim de todas as esperanças.

A minha vida no meu Acre é tranquila, calma. O Rio, há muito tempo, deixou de ter paz. O Cristo Redentor, meu amigo, se não for cínico, é indiferente. Além disso, mesmo com o custo de vida mais caro no Acre, professor na terra de Galvez recebe melhor.

Agora você me dá licença, porque uma bala perdida atingiu minha fé nos homens.





domingo, novembro 14, 2010

O tempo, as compras, Mony e as notícias

Região dos Lagos, Rio de Janeiro. Chove em Maricá. Pela manhã, comprei os jornais "O Globo" e "Folha de São Paulo", tudo por R$ 8.

No Acre, não há "O Globo", e "Folha de São Paulo" custa aos domingos R$ 7. Tudo é mais caro.

Ontem, comprei verduras e fruta para a minha amorosa mãe. Pela "Folha de São Paulo", adicionei à minha biblioteca "O Livro Vermelho", de Mao Tsé-Tung.

No dia 24, meu pai irá ao médico para saber o grau da vista direita.

Hoje, mais uma vez, almoçamos em paz. Meu irmão, à esquerda; e minha amada esposa, Mony, à direita. Na cabeceira, meu pai; diante de mim, Dilma, o espírito da casa. Depois das conversas, eu e Mony fomos dormir.

Às 17 horas, fomos assistir na sala ao belíssimo filme "O escafandro e a borboleta", do diretor Julian Schnabel, premiado em Cannes, em 2007. Filmes devem provocar a inteligência e sensibilizar, por isso essa película de Julian.

Amar também significa (com-par)tilhar momentos agradáveis à alma, por exemplo, filmes. Mony é este amor eterno com quem divido meu destino. Aprendemos o sabor de viver quando assistimos a filmes que educam.

Nesses quase seis anos de amor-paixão-amizade, muitos são os filmes.

Também dividimos as leituras de jornais. Destaco algumas:

A Frente Popular deveria aprender com o PMDB

1) No Rio de Janeiro, capital, a Unidade de Polícia Pacificadora não se compara ao que o PT acriano pensa sobre segurança pública. Na terra do Cristo Redentor, segurança não se limita a policiais.

Uma união entre governo, empresários e população tem transformado a realidade social das favelas. No jornal "O Dia" de hoje, uma foto destaca um PM tocando violão com jovens, isso quer dizer que policiais militares promovem encontros culturais.

Trata-se do projeto "Vozes & Acordes", com aulas gratuitas sob a batuta do soldado Fausto Oliveira da Cunha. No Acre, o PT, com uma concepção de segurança pública pífia, até hoje, após 12 anos, ignora a relação entre cultura e quartel.

O PT acriano é atrasado porque ainda pensa que segurança é caso de polícia.

Doze anos de pobreza

2) Leio na "Folha de São Paulo" que o Acre é um dos estados da Região Norte que mais precisam de dinheiro para acabar com a miséria. Ocupa a segunda posição. Por cada acriano, são R$ 9,55 por mês para a terra de Galvez e R$ 9,63 para o Amapá.

Será que as pensões dos ex-governadores ajudariam?

No Norte, temos 1,4 milhão de indigentes (renda familiar per capita de R$ 70) e 2,3 milhões de pobres (renda familiar per capita de R$ 140).

sexta-feira, novembro 12, 2010

Uma troca literária entre dois professores

Gleyson Moura, professor da escola estadual Leôncio Carvalho, realiza um projeto literário nesse espaço escolar, em Rio Branco, Acre. Ele pediu para eu comentar sobre o projeto depois de ler a matéria no sítio ac24horas. Li e questionei o projeto.

Depois, meu colega de profissão enviou algumas apreciações. Vamos a elas com meus comentários.

Há tanto por dizer que nem sei se caberá nesse espaço. Vamos, então, ao bom e velho sistema de enumeração.

1. Sempre gostei de um bom debate sobre literatura. Respeito as suas idéias e inteligência, por isso as provocações;

Gosto muito de uma boa provocação para que, neste caso, a realidade literária na escola seja repensada.

2. Concordo que o grau de teorização sobre literatura em nossas escolas é muito baixo, existem degraus pelos quais é preciso ascender. Mas, para isso, é necessário pensar estratégias que desenvolvam nos alunos o gosto pelo texto literário. Trazer para a sala de aula pessoas apaixonadas por literatura para compartilhar conosco dessa paixão, falar sobre seus textos (consagrados ou não), suas relações com nosso espaço vivido e sobre o processo de composição, pareceu-me uma boa estratégia. É um começo.

A leitura na escola acriana inexiste, professor não lê para seus alunos. Há anos, desde quando lecionava no Rio de Janeiro, de 1990 a 1992, eu lia bons romances para meus alunos. Após 20 anos de sala de aula, aprimorei minha forma de lecionar literatura. Hoje, realizo uma comunhão entre ótimos filmes e ótimos textos literários. E para isso, Gleyson, não basta só a paixão, é fundamental uma sólida e flexível base teórica.

Toinho Alves e outros que se acham escritores podem ser apaixonados, mas isso não basta, é pouco. Sem leitura de autores básicos, como Roland Barthes, Blanchot, Iser, Deleuze, Antônio Cândido, Anazildo Vasconcelos, Luís Costa Lima e outros, a paixão é vazia.

Imagine Toinho falar sobre medicina ou direito, imaginou? Se ele não está credenciado para falar sobre direito, por que estaria para literatura?

Outra questão. Para aluno apreciar a leitura, alguém deve ler para ele, é preciso haver uma referência. Para muitas classes sociais, a única referência como leitor é o pastor da igreja. Além de o professor ler em sala, em uma lugar adequado, ele deve partir de alguma escolas ou escolas literárias para manter sua interpretação.

Na escola Heloísa Mourão Marques, eu leio no auditório, onde existe o conforto do silêncio. Se desejamos despertar nos alunos paixão por leitura, por exemplo, ficcional, a escola deve exercitar a leitura em sala, e não alguns escolhidos de forma não muito criteriosa falarem sem base teórica sobre literatura.

Por que a Secretaria de Educação não realiza seminário entre autores consagrados e alunos? Toinho Alves faz parte do poder, é amigo do poder, ele poderia viabilizar isso, mas... Agora entenda: realizar encontros bienais.

3. Nesse ponto, pergunte aos seus alunos o que eles pensam a esse respeito.

Posso saber o que pensam, mas eu queria que a SEE possibilitasse escritores nacionais na escolas públicas. Construir viadutos custa mais caro.

4. Aliás, se estiver na cidade, gostaria de contar com sua participação, em nosso projeto, como avaliador, entre outros avaliadores que estou convocando (data provável em 06 de dezembro, ainda por definir); Senão, como visitante. Também gostaria de levar dois ou três grupos para apresentar para os seus alunos, como uma forma de treino;

Olha, deveria entrar, na avaliação escolar, apresentação de filmes relacionados à literatura. Depois, debates entre alunos e professores. A escola poderia ser um espaço para o cinema-livro. Quanto à minha participação, não sou o mais indicado. Quanto a meus alunos receberem algum grupo, tudo bem.

5. Obviamente, uma interpretação subjetiva deve ser apoiada por argumentos que a comprovem, e isso não tem deixado de acontecer no projeto que estou ajudando a coordenar;

Você diz mas creio que tais não têm base teórica. Li o que Toinho Alves fala de poesia, e eu só lamento.

6. Não se trata de nivelar ou de banalizar a literatura. Trata-se da fruição do texto literário, independente do autor pertencer ou não à grande literatura. Como disse Octávio Paz, "as redes de pescar palavras são feitas de palavras.";

Só pesca bem quem sabe pescar. Precisamos pescar, primeiro, teóricos literários para depois fisgar as palavras corretas, adequadas, apropriadas.

7. É necessário primeiramente conhecer o texto, para só então poder-se avaliar seu mérito ou desmérito. Seu valor literário independe da maneira como foi publicado;

É preciso haver o reconhecimento nacional para colocar tais autores no currículo escolar. Para eu conhecer o Acre, não preciso de pseudoescritores acrianos; posso entender o Acre por meio de Mário de Andrade, de Ariano Suassuna, de Milton Hatoum.

8. Sobre Gilles Deleuze, ainda estou lendo "A ilha deserta". depois falaremos sobre isso;

Não li "A ilha deserta". Sobre literatura, li alguns livros dele, por exemplo, "Proust e os signos".

9. Por fim, concluo que está na hora de ter o meu próprio blogue e parar de ocupar tanto espaço nos blogue dos outros.

Nada disso. Penso ser muito bom você colocar suas experiências profissionais. Quando ele estiver pronto, me avise para eu colocar no meu blogue.

Depois de minhas críticas, saiba que penso ser positiva a sua ideia. Discordo, mas respeito muito a sua iniciativa. Embora Toinho Alves não seja a pessoa mais indicada para falar de literatura para alunos, ainda sim, é válido.