terça-feira, outubro 07, 2014

O tempo da teledemocracia

1º bloco, 30 minutos com temas livres: 1. corrupção na Petrobras, 2. corrupção nos Correios, 3. mensalão, 4. educação, 5. bolsa-família, 6. homofobia e 7. Homofobia.

3º bloco, 30 minutos com temas livres: 1. privatização, 2. habitação popular. 3. segurança, 4. promessas de Dilma não cumpridas, 5. corrupção na Petrobras, 6. Inflação e crescimento econômica e 7. violência na penitenciária.


2º bloco, 30 minutos com temas determinados: 1. corrupção é estrutural, 2.política de privatização, 3. Banco Central, 4.Previdência, 5. custo Brasil, 6. Droga e 7. segurança.


4º bloco, 30 minutos com temas determinados: 1. saneamento, 2. mudança climática, 3. situação carcerária, 4. capital privado, 5.direito trabalhista, 6. impostos e 7. taxar milionários.

No final, cada candidato teve 1 minuto e 40 segundos.   
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O debate conforme o tempo da TV
    
Dividido em quatro blocos - cada bloco com 30 minutos e 30 minutos divididos em sete sub-blocos -, o programa iniciou-se às 22h50 e chegou ao fim à 01:17, e, como observamos acima, os temas, submetidos ao tempo do jornalismo da TV, ficaram fragmentados. Esse tempo condicionou a teledemocracia ao retalho temático e, como consequência, à superficialidade.

Assim, sem aprofundamento por causa do tempo televisivo, a palavra-imagem assemelhou-se à estética de vídeo, quer dizer, ela chegou ao telespectador-eleitor de forma cortada, instantânea.

É esse tempo televisivo que estrutura o espaço do debate, organiza-o, e, diante da TV, o telespectador-eleitor consome o engano de “escolher o melhor candidato por causa do que é dito”, sem saber que o que é dito nada mais é do que a delimitação do tempo da TV, fazendo falar o que é possível falar conforme esse tempo.

P
ara que a palavra fosse dita, algo já estava estruturado para ela, no caso, isto: a composição do estúdio, espaço-tempo que impediu a palavra livre, a improvisação, que impediu a palavra de se arriscar. Toda rigidez do estúdio foi adequada então ao enfrentamento, isto é, aos afetos, por isso a homofobia de Levy Fidelix, segundo a opinião pública, foi o momento mais tenso e o mais comentado.


No dia seguinte, jornais publicaram a vitória de Aécio Neves, do PSDB. No entanto, penso que sua vitória ocorreu não pelo conteúdo reflexivo ou profundo de sua palavra, mas por sua roupa, por sua postura física, por suas feições de rosto ou pelo conjunto de sua aparência – e nisso incluo seu discurso - ter se submetido ao espaço-tempo da composição do estúdio. Sua palavra, por exemplo, foi precisa, rápida, fluente, ou seja, ela soube, bem mais que os outros, enquadrar-se à composição do estúdio, até sua ironia foi bem medida pelo grau da formalidade do espaço-tempo. 

segunda-feira, outubro 06, 2014

Será que ele retornará?

Após Marina Silva ter ficado fora do segundo turno, será que seu esposo retornará aos braços acolhedores do governo petista do Acre?

Se retornar, é coisa da "velha política". 


segunda-feira, setembro 29, 2014

O PT da Dilma

Houve um tempo recente em que o PT propagou a ética a partir de uma identidade marcada por uma definição de partido de esquerda e, depois, de centro-esquerda.
Uma definição que não permitia o PT se confundir com certos partidos. Erundina, quem se lembra, foi expulsa do PT por ter apoiado o governo de Itamar, governo de transição. Repito: de transição.
Época em que o grupo majoritário petista defendia a crença na pureza. O tempo passou, e o poder veio. Não demorou para a pureza se transformar em orgia pseudoideológica ou para a pureza dos santos se ajoelharem no terreiro profano da sacanagem política.

O Leviatã petista tem muitas faces, muitas éticas. Na campanha do Rio de Janeiro, o PT tem a ética de Marcelo Crivella (PRB). Na campanha do Rio de Janeiro, o PT tem a ética de Anthony Garotinho (PR). Na campanha do Rio de Janeiro, o PT tem a ética de Lindberg Farias (PT).
Na campanha de Alagoas, o PT tem a ética de Fernando Collor (PTB). Na campanha de São Paulo, o PT tem a ética de Paulo Maluf (PP).
Nas campanhas espalhadas pelo Brasil, o PT tem a ética de todos, e nenhuma.
Onde está a tão falada reforma política da Dilma após aquelas manifestações? Ora, a palavra de um partido com muitas faces se desfaz da própria palavra, porque não existe verdade para ser defendida. A palavra é significante vazio.
Na campanha do Rio de Janeiro, a inconsistência petista diluiu os ideais da história. No Rio, Dilma é uma grande geleia vermelha provada por Lindberg, provada por Garotinho, provada por Crivella.
Na época, Erundina foi uma impura; mas, comparada ao PT de hoje, foi muito mais digna.

domingo, setembro 14, 2014

Ainda sobre um filme que é o Mal


Um filme que se destina a expressar a crença em Deus deve ser sempre altivo, belo, como é o filme “Jesus de Nazaré”, do cineasta Franco Zeffirelli, de 1977. O mesmo, entretanto, não ocorre com “Deus não está morto”, do diretor norte-americano Harold Cronk, porque, longe de ser uma película autoral, reflexiva, profunda, “Deus não está morto” não só constrange como encolhe a inteligência e a sensibilidade humana.

Assim, por não ser altivo e belo, por ser mercantilesco, por ser panfletário e por ser raso, o filme de Harold Cronk compactua com o Mal e... com o mau gosto.

Para quem submete a crença em Deus a um filme com tão baixa qualidade, rebaixar a Filosofia a ponto de deformá-la é bem mais fácil. Se o diretor de “Deus não está morto” intencionou um duelo entre Filosofia e Deus, precisam avisar a ele que a Filosofia faltou ao encontro em seu filme. Como falar do duelo entre Filosofia e Deus se não existe Filosofia em “Deus não está morto”? O professor de Filosofia Radisson (Kevin Sorbo) não é professor de Filosofia. Aquilo nunca foi Filosofia.

O duelo elegante entre Filosofia e Teologia está acolhido na Patrística Helênica (por exemplo, Orígenes), na Patrística Latina (por exemplo, Santo Agostinho, Boécio), na Primeira Escolástica (por exemplo, Pedro Abelardo), na Alta Escolástica (por exemplo, Santo Tomás de Aquino, João Duns Escoto) e na Escolástica Tardia (por exemplo, Guilherme Ockham).

Entre esses nomes – e poderia ter citado outros -, destaco a bela escrita no livro “Tratado sobre os princípios”, de Orígenes, e as belas palavras na obra “A consolação da filosofia”, de Boécio. Nesses dois títulos, pulsa o diálogo inteligente entre a Filosofia e a Teologia.

No caso de Orígenes (185-253 d. C.), ele se situa em uma época onde havia a supervalorização gnóstica do Novo Testamento, e Clemente de Alexandria (150-215/17), a fim de se contrapor a essa supervalorização, estabelece uma diferença e uma complementaridade entre os dois Testamentos. E Orígenes? Ao afirmar a necessidade de uma leitura paralela, aperfeiçoa a relação entre o Antigo Testamento e o Novo. Para ele, o Antigo é a figura do Novo. Mais: o Novo Testamento é espírito, conteúdo; o Antigo, literalidade, expressão retórica. Por ter sentido figural, o Novo é a promessa de coisas futuras. Por causa disso, com Orígenes, nasce o “discurso teologal”, não sendo mais discurso sobre Deus, mas sobre sua Escritura.

Com ele, fala-se em sentidos literal (corporal), moral (psíquico) e místico (pneumatológico) e daí o literal, o tropológico e o alegórico. Depois, lentamente, essa tríade transformar-se-á na teoria dos quatro sentidos das Escrituras: literal, alegórico,
moral e anagógico
.

Mas qual leitura correta? Segundo Umberto Eco, a leitura correta dos dois Testamentos legitima a Igreja como guardiã da tradição interpretativa e é a tradição interpretativa que legitima a leitura correta. As leituras que não legitimam a Igreja também não a legitimam como autoridade capaz de legitimar as leituras.

Qual leitura então legitima? Embora com nomes distintos, um tipo de leitura que já foi definida como tipológica foi privilegiada pela hermenêutica de Orígenes e dos padres em geral. Por causa de suas ações e de suas características, os personagens e os eventos do Antigo Testamento são lidos pelo sentido tipológico como tipos, como antecipações, como prefigurações dos personagens do novo. Essa leitura ou essa interpretação prevê que aquilo que é figurado (tipo, símbolo ou alegoria) é uma alegoria que não concerne ao modo no qual a linguagem representa os fatos, mas sim aos próprios fatos. Segundo Umberto Eco, trata-se da diferença entre allegoria in verbis e allegoria in factis. Enquanto palavra de Moisés, ela não deve ser lida como dotada de suprassentido, embora se deva fazer quando se reconhece que a palavra é metafórica. O que predomina é a allegoria in factis, porque são os próprios eventos do Antigo Testamento que foram predispostos por Deus - como se a história fosse escrita pela mão divina – para agir como figuras da nova lei.    Anos depois, Santo Agostinho (354-430) enfrenta de forma definitiva esse problema de alegorismo Escritural.

Para quem lê a palavra de Deus ou para quem busca o sentido da palavra nas Escrituras, as concepções comuns e a evidência do que se vê não bastam. A fim de demonstrar isso, de que tais concepções e tal evidência são insuficientes, tomam-se testemunhos do Antigo e do Novo Testamento e, por meio deles, confirma-se a fé pela razão. Mas, antes de considerar as Escrituras como divinas, Orígenes apresenta o legislador dos hebreus, Moisés, e o autor das doutrinas salvadoras do cristianismo, Jesus Cristo.

Assim como Moisés, houve também muitos legisladores entre gregos e bárbaros e, assim como Jesus, também houve mestres que pregavam a verdade. Entretanto, somente Moisés e Jesus fizeram nascer em outras nações o desejo de receber suas palavras.

Apesar do sacrifício, apesar da morte de alguns, aqueles que se entregaram à Lei de Moisés e aqueles que aceitaram Jesus pregaram a palavra em toda terra. Gregos, bárbaros, sábios, ignorantes, enfim, nações e homens diferentes partilharam e disseminaram a mesma religião anunciada por Jesus. Isso se encontra acima da força humana, e Orígenes, ao exemplificar com a própria Escrituras (Mateus 10:18 e 7:22-23), comprova, com a profecia de Jesus, a força divina acima dos homens.

Podemos dizer então que somente a Palavra do Antigo Testamento e do Novo Testamento foi recebida por outras nações e por pessoas tão diferentes, porque, embora alguns tenham morrido por causa dessa Palavra, sua propagação por homens uniu nações, sábios e ignorantes à religião anunciada por Jesus por causa de uma força acima desses homens, qual seja, o próprio Jesus Cristo.

Nesses números, Orígenes, ao fundamentar por meio das Escrituras a relação entre Antigo Testamento e Novo Testamento, apresenta o que Umberto Eco escreveu em seu livro, que o Antigo é a figura do Novo Testamento, ou seja, no Antigo Testamento, encontra-se a imagem do Novo. Segundo Orígenes, o Profeta está anunciado, por exemplo, em Gênesis, em Isaías, em Salmos, em Deuteronômio, formando uma linha textual ou um tecido em que cada ponto se interliga a outro. No final da parte 5, ele retoma a ideia de força divina sobre os homens, ao concluir que a audácia daqueles que levaram a Palavra do Evangelho foi um ato sobre-humano porque Deus os dirigia, porque um poder divino os protegia.

Orígenes retoma a divindade de Jesus, afirmando que ela encontra-se no Antigo Testamento; que, antes da vinda de Cristo, a inspiração divina das antigas Escrituras não era fácil de demonstrar com evidência. Aqui, mais uma vez, há no Antigo Testamento a imagem do Novo.

Pela primeira vez, Orígenes fala dos não instruídos, dos que não leem o caráter sobre-humano de cada passagem bíblica. Não há surpresa nisso, pois, no tocante às obras da Providência de Deus, algumas são claras; outras, escondidas. As realidades terrenas, operadas por Deus providente, não são claras como o sol e também não são claras quanto aos acontecimentos humanos. A maneira como o Deus providente opera é claro quanto às almas e aos corpos dos animais, porque nesses a causa e a finalidade são encontrados por aqueles que se interessam pelos instintos, pelas imaginações e pelas naturezas animais e pela constituição dos corpos. Mas a Providência de Deus, que não é clara nas realidades terrestres e nos acontecimentos humanos, não se enfraquece por causa da ignorância humana, pelo menos para aqueles que creem nela. O mesmo ocorre com a divindade das Escrituras, ou seja, elas também não são claras, mas não se enfraquece por causa da ignorância dos leitores, embora essa ignorância (fraqueza) não seja capaz de ressaltar em cada uma de suas expressões o esplendor escondido das doutrinas que está conservado numa redação vulgar e pouco atraente. Aí, de forma brilhante, Orígenes cita 2Cor 4:7, mostrando que, nos vasos de barro (isto é, na fraqueza humana a que ele se referiu), nós temos tesouros para que ele brilhe como é extraordinário o poder de Deus. A Palavra tem poder pela manifestação do espírito e do poder, não pela persuasão das expressões sábias.

Qual o caminho para ler e compreender as Escrituras? Os judeus (os da circuncisão), por causa da dureza do coração e da pouca inteligência, não acreditam em Jesus Cristo como o Salvador e não acreditam porque seguem à letra as profecias que se referem a eles, ou seja, como a letra não possui sentido figurado, ela não é alegoria para eles. Como o sentido literal não se materializou a ponto de o lobo pastar com a ovelha; de a pantera não descansar ao lado do cabrito; de o bezerro, de o touro e de o leão não pastarem juntos e de não serem conduzidos por um menino; de o boi e de o urso não pastarem juntos e de suas crias serem criadas umas com as outras; e de o leão não comer a palha com o boi, os leitores judeus, presos ao realismo da letra, não percebem na palavra seu sentido mais profundo, o espiritual.

Nos Provérbios de Salomão (Pr 22:20-21), Orígenes encontra o caminho para o sentido, para a compreensão das Escrituras. Com os Provérbios, que diz inscrever três vezes na própria alma os pensamentos das Escrituras santas, ele divide o homem em simples (corpo), em alma (psíquico) e em espírito, e assim também são as Escrituras. A fim de exemplificar essa divisão, Orígenes cita a passagem do livro Pastor (Visão II, 4,3), onde Hermes escreverá dois livros, sendo que um será dado a Clemente, que o enviará às cidades de fora; e outro, a Grapté, que advertirá as viúvas e os órfãos. Estes são almas da letra simples; e aqueles das cidades de fora, almas fora das realidades corporais e dos pensamentos deste mundo. Entretanto, algumas Escrituras não têm sentido corporal, fazendo com que só se procure o seu espírito.

Sem a interpretação espiritual, as realidades celestes ou superiores permanecem como símbolos e como sombras. Orígenes especifica ainda mais essa interpretação com exemplos (1Cor 2:7, 1Cor 10:11, 1Cor 10:4, Hb 8:5, Cl 2:16, Hb 8:5) que tecem uma relação entre termos (sabedoria escondida, figuras, modelo, alegorias, sombra) velados sempre por aqueles que são semelhantes a Grapté, alma da letra simples destinada ao sentido corporal das Escrituras. Observa Orígenes: não é inútil o sentido corporal porque ele é capaz de melhorar a maior parte dos homens na medida de suas capacidades.              

Na última parte do livro, seu autor destaca várias passagens bíblicas a fim de mostrar que existe um sentido mais profundo do que está escrito. Um desses exemplos, Ex 16:28: “Cada um de vós estará sentado na sua casa e que ninguém se mova de seu lugar no sétimo dia”. Caso se conduza essa leitura ao seu sentido literal, ao sentido corporal, isto é, a um sentido que reduz a Palavra à superfície, fato histórico e realidade mística não se harmonizam e, com efeito, não se revela o sentido mais profundo do acontecimento. Ora, se lermos de forma literal, o que está escrito em Ex 16:28 não pode ocorrer corporalmente, e Orígenes deixa isso bem claro. O sentido corporal pode diminuir a grandeza do sagrado, porque não se compreende o que a letra apresenta, pois às vezes o que é tomado à letra não é verdade. Precisa-se saber onde ele é verídico e onde não verídico o sentido literal, corporal. Para tanto, Orígenes exemplifica: “Investigai as Escrituras” (Jo 5:39). Uma vez investigadas, entende-se alegoricamente o que não aconteceu segundo a letra, porque, como afirma o autor na página 305, “nossa disposição é aceitar que ela tem sempre um sentido espiritual, mas que não tem sempre um sentido corporal, pois já se demonstrou muitas vezes que o sentido corporal é impossível”.


   

sábado, setembro 06, 2014

Centro Cultural Banco do Brasil

Ontem, com a minha amada Mony e com minha amada tia Gracinha, fui assistir à peça "Trágicas.3" no Centro Cultural Banco do Brasil.

Um vento frio de inverno tocava na pele.

Representada por duas atrizes globais (Letícia Sabatella e Denise Del Vecchio) e por Miwa Yabagizawa, "Trágicas.3" expressa o destino de três mulheres paideia grega: Antígona, Electra e Medeia.

Como sou correntista do BB, paguei 5 reais para contemplar uma peça ruim. Enfadonha.

A adaptação desses clássicos retirou dos textos seu vigor trágico.

Para quem deseja compreender melhor a tragédia, sugiro a leitura de "Mito e Tragédia na Grécia Antiga", de Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet.


 

  




terça-feira, setembro 02, 2014

Um dos maiores filósofos do Brasil

                        
            Quando o filósofo pesa a palavra
            Se me encontro no mesmo nível em que o outro se encontra em um espaço plano, o mundo externo ergue-se igual perante nossos olhos. Por ser vista de um nível comum, por ser vista da superfície, a realidade é a mesma para mim e para o outro. E se o outro for Henrique C. de Lima Vaz? Ora, por se tratar de um filósofo, Lima Vaz (1921-2002) pensaria o lugar em que ele está – e, por pensá-lo, isso construiria toda diferença em relação a mim.
Em latim, a palavra que originou pensar é a mesma que originou peso, ou seja, quando pensamos, a palavra é pesada. No livro “Escritos de Filosofia IV”, o filósofo Henrique C. de Lima Vaz pensa a palavra ética, colocando nela o devido peso e, assim, ao pesá-la, o filósofo aprofunda-a. A força exercida do seu pensamento na palavra altera a linha reta da superfície, atraindo para o fundo o significado de ética. Se não houvesse o peso colocado na palavra pelo pensar do filósofo, a superfície não seria aprofundada. É preciso pressionar a linha que nivela por cima a fim de alterar sua continuidade superficial. “Ver a fundo” é ver o que o não-pesar não vê, que é a raiz das coisas, o que está no fundo, o que é profundo. Ler “Escritos de Filosofia IV” é sentir o peso da palavra ética.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Matemática pura

Hoje, no Jornal Nacional, a imprensa colocou Arthur Ávila, ganhador da Medalha Fields, como exemplo para alunos de matemática das escolas públicas.

Passa-se a imagem de que, uma vez estudando, uma vez dedicando-se, o sonho de receber medalha igual à de Arthur Ávila é possível com os próprios esforços.

Trata-se da mesma e da velha ideia de que uma camelô dedicado pode chegar a ser um Sílvio Santos, só vendendo caneta.

Esse tipo de modelinho racional fez com que Lévi-Strauss, por causa da filosofia de Sarte, estudasse antropologia e, com isso, o antropólogo disse que não se pode falar do homem sem falar das estruturas.

Claro que Arthur Ávila tem seus méritos, mas a estrutura que o manteve pertence às melhores escolas do Brasil, quais sejam, Colégios São Bento e Santo Agostinho.

Quem acompanha há anos os resultados do Enem sabe que, até hoje, escola pública sempre perdeu para escola particular.

quarta-feira, agosto 13, 2014

Ando cansado de São Paulo

Um desgraçado corrupto não morreu. 

Para além da dobradinha PSDB e PT ou de São Paulo, o PSB ou a bela Pernambuco de Eduardo Campos seria a fala que incomodaria os 20 anos de São Paulo em Brasília ou incomodaria os 20 anos de PSDB e de PT no poder.

Sua voz retiraria nossos ouvidos dessa bipolaridade enfadonha. Ando cansado de São Paulo, queria votar em Pernambuco para presidente da República.

Ando cansado de ex-metalúrgico e de ex-guerrilheira no poder e ando cansado de sociólogo e de Minas Gerais no poder.

Queria ter visto o poder bailar ao som do frevo, queria ter visto o Recife contendo o mar da corrupção.        

     

terça-feira, agosto 12, 2014

Não assistiu ainda?




Se aceitamos ficar presos em nós mesmos, com nossas opiniões, com nossa forma de ver o mundo a partir de nós, jamais percebemos o todo. A arte do cinema possibilita a visão do todo, a relação entre as partes.

Quando assisti ao belíssimo filme "Sociedade dos poetas mortos", meus olhos se depararam com um mundo bem mais amplo do que eu. Esse filme expressa a palavra do mundo clássico, do mundo romântico, além das palavras paixão, traição, leitura.



Robin Williams encarna a paixão de um professor de literatura, encarna a aula que seduz, porque a literatura em sala é feliz, repleta de vida, de intensidade e também de prudência.

Até hoje, assisto a este filme, um clássico. Vou ao cinema para contemplar palavras; saber melhor como elas existem fora de mim, fora do meu mundinho; vou para revê-las de forma ampla, condutoras de relações e mais relações.

Hoje, a Rede Globo passará "Sociedade dos poetas mortos". O Romantismo não é isso que sua palavra não pensa.


sábado, agosto 02, 2014

Recordo-me...

Hoje, ao acordarmos, brindamos a vida com nossas canecas de café e, desse forma, como há nove anos, iniciamo a rotina sagrada de nos olharmos todo dia com olhos ainda adormecidos, com cabelos sem salão de beleza, com abençoada preguiça dos finais de semana.

O tempo sussurra à nossa pele e diz que um certo amor aprendido com o peso e com a leveza das está exposto neste início de mais um dia. 

Tudo aparente gestos repetidos, mas nós não somos os mesmos. Já não fazemos sexo quase todo dia, já não excitamos com a nudez de nossos corpos, porém uma prazer grandioso de cotidiano nos dá a segurança de que, amanhã, depois de amanhã, o café e as mesmas canecas nos esperam.

Isso acontece hoje, mas sinto, não sei como, saudade de horas que jamais se repetirão.

Mony, eu te amo.  

   

quarta-feira, julho 23, 2014

Acre, até quando...

Infelizmente, após 22 anos, inicio o processo de separação definitiva entre mim e a educação acriana.

Não queria, mas não tenho outra saída, porque tenho de ficar no Rio de Janeiro para cuidar de meus pais e de meu irmão.

Um dia, quem sabe, retornarei com minha esposa.

terça-feira, junho 24, 2014

Uma resenha sobre um livro de Umberto Eco

As pinceladas da fé nos quadros da arte medieval

Resenhado por Aldo Antônio Tavares do Nascimento

ECO, Umberto.  Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Record, 2010.

            Observe este mural na igreja de São Clemente, Quatro apóstolos, do século XII; repare os corpos estáticos, suas expressões invariáveis, volumes e dimensões uniformes, figuras chapadas que anulam toda ilusão de movimento. Com suas imagens que desconsideram tamanho, forma, proporções, volume, cor, nossos olhos contemplam a arte mais típica da cultura medieval, a românica, que prevaleceu por toda a Alta Idade Média (476-1000).
            Movimento. Ele virá pelo norte europeu, assim como o espaço, a luz, a cor, enfim, a composição extensiva da cultura popular e da natureza. No sul, permanecia a influência da arte bizantina, presa ainda às formas fixas, com o seu hieratismo (invariável), a frontalidade, tricromatismo (normalmente o azul, o dourado e o ocre), isocefalia, isodactilia e hierarquia dos espaços (figuras mais sagradas para as menos sagradas). Mais do que arte, a pintura bizantina é dogma.
            Romper com o imóvel. O nome que pincelou profundas rupturas foi Giotto di Bondone (1266-1337), sendo seu maior trabalho na Capella degli Scrovegni, onde retrata cenas da Virgem Maria e da Paixão de Cristo, entre 1303 e 1310. Até conceber a impressão do movimento em sua pintura, um longo período de agonia conceitual atravessou décadas da Idade Média, podendo ser lido tamanho enfrentamento na obra que motiva este artigo, Arte e beleza na estética medieval, publicada em 1987. Entretanto, para que suas páginas fossem lidas no Brasil, elas só foram ancoradas em nossa língua em 2010, após 23 anos.
            Nascido em Alexandria, em 1932, Umberto Eco escreveu esse livro como quem caminha por trilhas conceituais, isto é, por serem estreitas as trilhas, os detalhes de seus passos ampliam nossa visão do que seja a estética do pensamento cristão medieval, por exemplo, não podemos separar a moral da arte porque nesse período a natureza refletia a transcendência de Deus. A consciência da beleza, portanto, é dado metafísico.
            Entretanto, para além dos conceitos pensados por sacerdotes, havia o gosto do homem comum, do artista e do amante das coisas de arte, voltados, vigorosamente, para aspectos sensíveis. Por isso, os sistemas doutrinais da Igreja justificavam e dirigiam esse gosto a fim de que o sensível não ultrapassasse o espiritual. Ao cruzar dois conceitos (metafísico e sensível), a filosofia cristã admite um saber-deleite com a finalidade de melhor amar a Deus, podendo o cristão, portanto, ajoelhar-se diante do amor ornamental. Nessa interseção conceitual, que é reação ao mundano (sensível) e a tensão para o sobrenatural (metafísico) para que os olhos serenos contemplem as coisas do mundo, repousa-se, nesse contraste, nesse ponto de encontro, ela: a paz dos sentidos.
            Duas correntes místicas (a Ordem de Cister, os cistercienses, e a Ordem dos Cartuxos), sobretudo no século XII, opõem-se ao luxo e às figuras na decoração das igrejas: seda, ouro, prata, vitrais coloridos, esculturas, pinturas, tapetes. São Bernardo de Claraval (1090-1153), monge cisterciense, lança-se contra esses supérfluos ou percepções porque eles desviam os fiéis da piedade e da concentração da prece. Patrono da Ordem dos Templários, São Bernardo escreveu as regras dos cavaleiros; pensou a cristandade como força militar, mesma rigidez conceitual concebida na arte.
            Embora houvesse o rigorismo místico de São Bernardo, havia também uma mística que se voltava para o mundo sensível, a do agostiniano Hugo de São Vítor (1096-1141), teólogo mais famoso antes de Santo Tomás de Aquino. Por meio de seu pensamento, o deleite estético provém, efetivamente, do fato de que o ânimo, a alma, reconhece na matéria a harmonia de sua própria estrutura. (ECO, pág. 31). Mas até chegar ao subjetivo de um gosto estético foi um longo percurso. Antes dessa consciência, entretanto, o belo, para o homem medieval, deveria coincidir com o bom. Suger (1081-1151), abade de Saint Denis, concebe a casa de Deus como espaço acolhedor da beleza, encontrando em Salomão e em Pseudo-Dionisio sua justificativa. Suger quem permite a arte gótica no cristianismo. Segundo Erwin Panofsky (1892-1968), o abade concebia a arte como obra teológica, ou seja, o belo associava-se ao que é útil, porque, transmitida pela antiguidade e passada de Cícero a Agostinho e de Agostinho a toda Escolástica, essa ideia afirma que aquilo que é belo é belo em função de algo. No sínodo de Arras, em 1025, havia iniciada uma campanha para permitir aquilo que os simples não pudessem entender por meio da escritura deveria ser aprendido pelas figuras. A pintura deve, pois, embelezar a casa de Deus, revocar a vida dos santos e o deleite dos incultos; um dos problemas da estética escolástica, todavia, foi precisamente o da integração da metafísica do belo com os valores, por exemplo, da unidade, da verdade, da bondade. (ECO, pág. 42).
            Manifestado na visão estética do cosmo, o belo pertence à ordem e, por isso, é propriedade estável e não sentimento poético de admiração. Sistematizado pela filosofia Escolástica conforme a tríade sapiencial (numerus, pondus e mensura; ou modus, forma e ordo; ou substantia, species e virtus; ou ainda constat, congruit e discernit), a Escolástica pensará o belo como noção de propriedades transcendentais, quais sejam, unidade, verdade e bondade, todas retiradas do pensamento grego. Podendo ser pensado como um transcendental, o belo cristão, nos séculos XII e XIII, revive a kalokagathia grega ou a unidade kalos kai agathos (belo e bom), possibilitando a harmônica conjunção de beleza física e virtude.
            Além da arte gótica (segundo parágrafo), que permitiu uma ruptura com a arte bizantina, a espiritualidade franciscana, envolvida com grupos populares, com a realidade material do mundo, com a contemplação da natureza, com o otimismo da vida e com a beleza dos elementos, também influenciou para que fosse percebida na arte a presença do sensível. Não por outro motivo que Giotto expressa o naturalismo da sensibilidade franciscana, podendo ser apreciado na obra A morte de São Francisco.  A presença do sensível, conforme a Ordem Franciscana, veio à luz em 1245, na forma de Summa theologica, obra dos frades Jean de la Rochelle, Frater Considerans e Alexandre de Hales, mas dita Summa fratris Alexandri. Nela, belo refere-se à causa formal, entendendo como forma o princípio substancial de vida, sendo, portanto, ideia aristotélica. “Chamo forma a essência de cada coisa e a substância primeira”, afirma o pensador em sua Metafísica. Assim sendo, a beleza é a disposição da forma em relação ao exterior. Na Summa, bem e belo fundam-se na forma concreta das coisas. Mas, por prudência dos franciscanos, o belo ainda não pertence à série dos transcendentais. Somente após cinco anos, em 1250, São Boaventura escreve em um opúsculo as quatro condições do ser: uno, que concerne à causa eficiente; verdadeiro, à formal; bom, à final; e belo, que abraça todas as causas e é comum a elas. Sendo o belo uno, verdadeiro e bom, o belo atravessa todos os transcendentais.

            Alberto Magno influencia Tomás de Aquino
            Mestre de Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno (1193/1206-1280) retoma dos franciscanos “o belo fundado na forma de uma coisa” por meio de um comentário que, sob o título de De pulchro et bono, figurou por longo tempo entre os Opuscula de Santo Tomás. Para Alberto Magno, “a essência universal do belo consiste no esplendor da forma sobre as partes proporcionais da matéria ou sobre as diversas forças ou ações”. Com isso, permite-se que o belo passe a pertencer verdadeiramente a todo ente a título metafísico. Ao dizer forma e partes proporcionais da matéria, vê-se uma Idade Média inspirada no hilemorfismo aristotélico, isto é, a forma (morfe) compõe-se com a matéria (hyle) para dar vida à substância concreta e individual (ECO, pág. 60). Segundo Alberto, há no hilemorfismo várias tríades de origem sapiencial ou intelectual, quais sejam, modus, species e ordo; numerus, pondus e mensura. Essa “matemática do belo”, todavia, não considera a referência ao ato humano conhecedor como constitutivo do belo em sua própria ratio, sendo, portanto, uma estética marcada por um rigoroso objetivismo. A percepção do outro ainda não existe. Há outro objetivismo: o de que o belo, embora seja propriedade transcendental do ser, revela-se em uma relação em que o homem focaliza o objeto, e esse é pensado por ele - Santo Tomás de Aquino.
            Para chegar à matemática, à lei dos números, Umberto Eco conduz o leitor ao capítulo 3. Depois, amplia essa concepção de estrutura, cuja gênese é Pitágoras. Na condição de causa, princípio, ninguém pode compreender o belo sem antes atravessar o caminho reto dos geômetras, qualquer semelhança com Platão em Timeu, obra onde as formas matemáticas estruturam a Ordem (Cosmo), não é mera coincidência. 
            A arte sensível de um santo
            No capítulo 7 (parte 7.4), Eco escreve que, ao retomar as noções estéticas propostas por Alberto Magno, Tomás de Aquino ocupa-se da visão subjetiva do belo, o que seu professor desconsiderou. Para confirmar essa divisão entre mestre e discípulo, Umberto Eco retira um exemplo da Suma Teológica I, onde bem e belo amalgamam-se na forma, na substância, no que sustenta, isto é, na estrutura. O subjetivo emerge em Tomás porque belas são chamadas as coisas que despertam prazer quando vistas e, se despertam, é porque nossos sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas. Em Tratados das Enéadas, Plotino (205 d. C.-270 d.C.) concebe o belo como simetria das partes para haver a harmonia do conjunto. Tanto proporção quanto simetria são conceitos que alinham o belo à matemática, ou matematismo e belo formam um só cálculo. Os sentidos então são uma espécie de proporção, uma espécie de simetria.
            Foi dito antes que bem e belo fundam-se na forma, sendo que o bem faz com que a forma seja objeto de apetite porque todo ente deseja o bem; o belo, ao contrário, coloca a forma em relação com o puro conhecimento, por ser ele, o belo, aquilo cujo conhecimento causa prazer. Sendo assim, olhar é conhecer, e o deleite estético não passa de uma consequência desse conhecimento, visto que esse ato de adesão deleitosa é determinado pelo belo ou pelas formas matemáticas. A ideia de Tomás traz o subjetivo; ele, porém, é determinado pelo belo ou por conceitos matemáticos, cujo propósito implica apaziguar os sentidos, os apetites. Diferente de Tomás de Aquino, o ato de adesão deleitosa pode ser muito bem um livre ato de efusão concedida à coisa e não determinada por ela, e quem pensa assim é João Duns Escoto (1265-1308), para quem a visão estética é uma faculdade livre, pois seus atos sujeitam-se ao império da vontade. Longe de ser coincidência, essa faculdade livre - subentendam-se as experiências -, Escoto pertence à ordem franciscana, a mesma ordem de Roger Bacon (1214-1294) e de Robert Grosseteste (1168-1253). Todos estudaram na Universidade de Oxford e, entre eles, existe esta linha mestra de conhecimento, qual seja, a experimentação ou a vontade do sujeito.
            Penso ter ofertado uma ideia do que seja este significativo livro de Umberto Ecos. No capítulo 8, Santo Tomás e a Estética do Organismo, o autor detalha mais ainda o que esse pensador conceitua o belo; porém, como início, apresentei uma linha de raciocínio em que pontos importantes foram relacionados.           
             
                 

segunda-feira, junho 23, 2014

Antes do jogo Brasil e Camarão


Hoje, em muitas escolas, não se estuda gramática - erro que deixará um débito enorme para o futuro.

Estou estudando Immanuel Kant, mas pararei a leitura pouco antes do jogo entre Brasil e Camarões, depois retornarei.

Suas orações e seus períodos são longos, um tipo de estrutura sintática que não facilita a compreensão. Sem compreensão de gramática, torna-se mais difícil.

Por exemplo, repare nessas relações entre orações:

Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim nelas enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos  apenas a título de tentativa.

Sem gramática, porque ela estuda estruturas, não se entende Kant. Depois de saber a estrutura, estudam-se os conceitos kantianos e a relação entre eles, mas sabendo que a relação entre eles depende da estrutura, porque a estrutura já é relação.   
  



Por falar em jogo...
 

domingo, junho 08, 2014

A Culpa é das Estrelas


Hoje, fui ter com a Mony um dos prazeres de nosso encontro de 9 anos: assistir a mais um filme. Amo sair com ela para ficar diante da película ou diante de um palco de teatro.

Já foram tantos os filmes e muitas as peças que sinto saudade de tudo e, estranho, saudade do que virá. 

As imagens dessa vez vieram de "A Culpa das Estrelas". Ótimo filme!




sábado, junho 07, 2014

A Pessoa em Santo Tomás de Aquino

A fé e a razão de Santo Tomás de Aquino leram textos ficcionais da Grécia Antiga. No livro “Por trás das palavras - manual de etimologia do português”, de Mário Eduardo Viaro, o sentido original de ficção é “formação”. Do teatro grego, que nos remete à personagem, Tomás retirou o sentido de pessoa (persona), que significava “máscara”. Assim, por ser máscara, a pessoa é a guardiã de algo e, dessa forma, por trás da máscara, guarda-se o mistério da pessoa. Os estudos de Tomás o desvelam.
  
Seguindo os passos de Aristóteles, Tomás de Aquino afirma que pertence à natureza do homem ser ajudado por outros homens, porque não é possível um homem só abarcar todo conhecimento pela razão, por isso ser necessário viver em multidão a fim de que “a mão lave a outra mão”. Para o autor da “Suma Teológica”, é natural, portanto, que o homem viva em sociedade. Dito isso, emerge, entre tantos homens, isto é, a multidão, a definição de pessoa. Sabemos que todos os seres possuem a totalidade em si, mas também possuem a individuação própria que os distingue dos demais seres. O ser humano é definido como pessoa, segundo Tomás, não apenas pela alma, mas pela alma e pelo corpo. Ora, é por meio destes compostos que a pessoa subsiste. O homem não é uma pessoa simplesmente porque tem uma alma, mas é uma pessoa pela alma e pelo corpo, já que é por meio de ambos que subsiste. Entendida como substância primeira ou hipóstase, eis a pessoa.

Entretanto, a natureza humana não corresponde à pessoa tomasiana, porque, como a singularidade humana subsiste em corpo e em alma, isto é, subsiste na pessoa, o humano singular é mais do que a natureza humana porque em si a singularidade possui elementos e características que não se encontram na natureza humana. O que faz com que Santo Tomás de Aquino seja Santo Tomás de Aquino não se encontra em todos os homens, mas tão somente em Santo Tomás de Aquino, sendo, pois, o singular de sua existência à sua pessoa. O existir tomasiano é constitutivo da pessoa, isto é, a pessoa é que tem a existência ou, se quiser, o indivíduo tem a sua existência por intermédio da pessoa. É a pessoa que existe e não a natureza humana individualizada. Mas, quando se fala em existir, não se fala de um existir qualquer, mas de um existir racional, de um existir que busca conhecer e se conhecido, que busca pensar e ser pensado, por isso, entre outras substâncias, Santo Tomás de Aquino diz que os indivíduos de natureza racional têm o nome especial de pessoa, que aqui se define conforme Boécio: “uma substância individual de natureza racional”. E livre. Entendamos aqui como racional que a pessoa não está fadada a agir somente por causalidade natural, mas podendo desencadear uma causalidade própria.

 Se por um lado podemos interpretar que a pessoa existe sob a máscara, também podemos por outro admitir que a própria máscara é a pessoa. Assim sendo, nas comédias e nas tragédias gregas, representavam-se personagens célebres, e o termo pessoa veio a designar aqueles que estavam constituídos em dignidade. Personalidades são aqueles, portanto, que detêm alguma dignidade, ou seja, aqueles que detêm o merecer.

Pelo que já foi escrito até aqui, é correto então afirmar que o tema da pessoa em São Tomás une sua filosofia à teologia? Penso que a teoria da pessoa é um ponto de interseção entre filosofia e teologia no pensamento escolástico de Santo Tomás de Aquino. Sendo a pessoa amálgama entre corpo e alma, isto é, entre o sensível e o suprassensível, Santo Tomás, oposto ao platonismo, concebe o corpo não como túmulo, mas como meio inevitável para se chegar a uma dignidade para além do próprio corpo. Ao pensar a experiência do corpo por meio da filosofia de Aristóteles, que inclui o sensível, Tomás, por meio da teologia, oferta ao sensível a sua transfiguração, pois a pessoa também é alma, conceito que permite ao humano a transcendência.

sábado, maio 24, 2014

Paralisação dos professores

Em um ano, os professores do Rio de Janeiro pararam suas atividades - isso não é igual ao conceito de greve - quatro vezes, mas esse número não indica soma ou multiplicação do clichê "luta sindical", e sim uma subtração.

Ou seja, o sindicato só tem perdido com seu modelito cafona ou brega de luta sindical.

Hoje, tempo frio e chuvoso de outono, acordei cedo como sempre para comprar meus jornais. Em O Dia, a manchete "Professor grevista vai fazer 'rolezinho' em shoppings".

Além da falta de qualidade de ensino, também existe a falta de qualidade da luta sindical.

Os caras perderam a noção do ridículo.



       

terça-feira, maio 13, 2014

Estamos com inveja do governador acriano


Claudio Ezequiel Passamani, meu amigo, vc afirma que a entrevista do governador causou inveja. A entrevista causou inveja!?!? 

Quer dizer que um homem de estado causa inveja a quem critica. A critica é consequência de inveja, ou seja, quem critica queria ser governador ou queria ter sido entrevistado no Roda Viva.

A crítica, por exemplo, ao governador por ele ter dito "asfaltar todas as ruas do Acre" existe por causa da inveja.

Então, a minha proposta é seguinte: que anônimos - e não invejosos - criem um Face para mostrar "todas as ruas asfaltadas" no final de mandato de Tião Viana.

Inveja. Quer dizer que ao DETALHARMOS a relação entre perguntas dos jornalistas e respostas do governador no Roda Viva para tecer críticas é INVEJA. Eu, por exemplo, tenho inveja do governador por criticá-lo.

Ora, não se critica por causa de "inveja"; critica-se porque a palavra significa "julgar", ou seja, ao criticar, separa-se, seleciona-se, por exemplo, eu separei "todas as ruas asfaltadas" da realidade urbana de Rio Branco. Crítica não possui outro significado, é como 2 + 2 = 4.

Dito isso, a questão é a seguinte: "todas as ruas serão asfaltadas"? A estrutura frasal é esta, e a resposta não pode se desviar dessa estrutura.

Inveja. Sim, eu tenho inveja, muita inveja dos homens cultos, dos políticos inteligentes, por exemplo, quando o senador Cristovam Buarque pensa a educação pública. Ele pensa a palavra educação, o que não ocorre com o governador do Acre quando fala de educação. E, por isso, eu tenho inveja.

Quando Buarque fala da "federalização do ensino fundamental", ele, que é leitor de Anísio Teixeira, refere-se à questão "estrutural". Quem fala de do conceito de "estrutura educacional" no governo do Acre?

Ora, a crítica não é consequência de inveja, mas consequência de quem seleciona conteúdo de um discurso para comparar com. Esse é o ÚNICO sentido da crítica, único porque esse é o seu sentido etimológico.

Depois de ouvir Tião Viana

Não busco falar mal do PT por falar, mas, se falo bem, é porque existe uma história que você vê em Rio Branco, por exemplo.

O Acre melhorou muito com a administração do Partido dos Trabalhadores. Melhorou muito.

Discordo do governador do Acre, Tião Viana, ao dizer que o Acre é pobre. Pobre são os seus políticos, tão pobre é a sua elite econômica.

Em sua entrevista no Roda Viva, disse que seu governo está asfaltando "todas as ruas". 

Todas as ruas. Não é preciso dizer mais nada sobre essa entrevista. Todas as ruas. 

O sabonete é um produto que escorrega