quarta-feira, março 28, 2007

Ainda sobre Pornografia












A imagem pertence ao filme Os contos proibidos de Marques de Sade e, se comparado ao livro A filosofia na alcova, escrito por Sade (1740-1814), é muito inocente.

Eugénie, 15 anos, é a virgem que Saint-Ange apresentará para que seu corpo sirva de objeto. Sob essa condição, a de objeto, a jovem surge descrita por Saint para os olhos de Cavaleiro, outro personagem da peça A filosofia na alcova.

Surpresa, a adolescente fala em decência, mas outro personagem, Dolmancé, diz que "a decência não tem importância nenhuma hoje em dia, e que contraria totalmente a natureza". Dolmancé agarra a jovem e a beija.
"Parai com isso, senhor!... Mais respeito!", ela o censura. Inútil.
Segue-se uma sucessão de cenas "naturalistas". "O destino da mulher é ser como a loba e a cadela", sentencia a personagem Saint.

O corpo, em muitos momentos, surge preso a descrições científicas enquanto, aos poucos, a filosofia racionalista da carne brota das palavras. Na pornografia, mata-se o sensível e despreza-se o semelhante para a violência-prazer esgarçar a carne.

Dolmancé ensina. "Como disse Maquiavel, 'jamais devemos ter cúmplices, ou nos livrar deles tão logo nos tenham servido'. (...). A falsidade nunca é demais. (...)."
Mais? Leia o livro.

terça-feira, março 27, 2007

Pornografia











Certa vez, você me disse que a pornografia é o "excesso de cenas". Em Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, as cenas não existem, não estão expostas, mas a pornografia encontra-se lá.

Excesso que deseja destruir o sagrado, eis a pornografia. Em nenhum século anterior, a pornografia se espalhou como no final do século 20. Não a olhamos mais por meio da fechadura, às escondidas, mas sua exposição depende de um endereço na internete.


Pela webcam, assistimos a casais em posições ao vivo e, se nossa foto agradar, poderemos marcar um encontro de carne e osso para que sejamos filmados, expondo posições, por exemplo, entre casais. Marques de Sade nunca foi tão atual. Sua leitura, obrigatória.
Enquanto escrevo, um vizinho espalha pela rua este excremento auditivo:
Toma gostosa, lapada na rachada! Você pede que eu te dou, Lapada na rachada! E aí? Tá gostoso? Lapada na rachada! Toma! Toma! Toma! (Vamo balançar! Vamo balançar! O balançado mais gostoso do Brasil! Balança, balança, balança neném! - Ô Lene Silva?! Vamos dar uma lapadinha?- Ai Clauber, mas só se for na rachadinha! - Vamos agora! Simbora!) Vi uma menina linda, A danada enlouqueceu, A macharada ficou doida, quando ela apareceu. Sorriso envolvente,jeitinho sensual, Pra acabar de completar, me deu mole no final. Juro não acreditava, no que tava acontecendo, sorria, me olhava, e o clima foi crescendofui direto ao assunto e não pude acreditar, chegou no meu ouvido ecomeçou a falar: Vai! Dá tapinha na bundinha, vai! Que eu sou sua cachorrinha, vai! Fico muito assanhada, se eu pedir você me dá?! Lapada na Rachada!Vai! Dá tapinha na bundinha, vai! vai! Que eu sou sua cachorrinha, vai! Que eu tô muito assanhada, (- Vamos dar uma lapadinha Lene Silva?- Mas só se for de rachadinha!) Toma gostosa, lapada na rachada! Você pede que eu te dou, Lapada na rachada! E aí? Tá gostoso? Lapada na rachada! Toma! Toma! Toma!(2x)(- Dá lapada na rachada vai! - Que forró é esse Lene Silva?- Balança Neném!- Fazendo você gemer!)

A mulher, equiparada a uma "cachorrinha", é instinto, isto é, o prazer não é conseqüência de uma razão, mas uma necessidade física inconsciente. Em Lapada na rachada, o prazer se reduz à vulgaridade do orgânico.
No palco, as mulheres da banda, com seus trajes, assemelham-se a "putas" e o palco, a "cabaré". Um texto de Adorno, O fetichismo na música, afirma que "a música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências".
"Lapada na rachada" expõe a pornografia velada e inocente
e, dessa forma, a lei não censura. Os promotores calam-se. Licenciada, com alvará de funcionamento, essa pornografia cínica permite que crianças dancem, rebolem e usem calcinhas pretas. Dizem que "é a cultura do forró".


"Porno" significa "cheira mal", "estragado". Lapada na rachada fede.

Ele, o sr. Jaleco














Três colegas de profissão. Da esquerda para a direita, professor Afonso (discipina de Matemática), Gleidson (Matemática) e Maria Célia (Literatura e Língua Portuguesa).
Eles estão aqui para mostrar o quanto o jaleco cai bem para um professor. Penso que uma instituição deve apresentar uma imagem uniforme de seus profissionais, na caso, da educação.
Não se trata de uma questão funcional, mas de postura, boa apresentação. Se os alunos usam uniformes, por que os educadores devem se vestir de qualquer forma?
"Qualquer roupa" não veste o advogado quando entra no fórum. O jaleco deixa um ar de elegância.
Se um cristão não entra com qualquer roupa em uma igreja, se um advogado não usa qualquer roupa diante do juiz, o corpo docente, também, não deve lecionar com qualquer roupa diante de seus alunos.

segunda-feira, março 26, 2007

Livro e, depois, Cinema













Após um ano, retornei com a leitura de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, na escola Heloísa Mourão Marques.
Pensei em outra temática, mas mantive a leitura sobre ordem e paixão; família e individualidade; tradição e liberdade. Tais conceitos, muito intensos nessa obra literária, serão compreendidos por meio de uma narrativa complexa e poética.
Como digo à minha símpática colega de trabalho, professora Maria Célia, lemos um belo livro não para saber se é romântico ou realista, mas para que percamos a inocência, como escreveu Sartre.
Por meio de seus personagens, desejo repensar a vida. Não só.

Gramática

No primeiro dia, marcamos alguns aspectos gramaticais: pronome, uso do "onde". Além disso, os alunos abriram o dicionário para encontrar o significado mais adequado ao texto. Quanto a outro termo, vou à sua raiz para que o aluno saiba sua importância etimológica.
A gramática que destaco na leitura relaciona-se aos problemas redacionais, os mais comuns, impossível querer pontuar todos. Por isso, seleciono os que são muito úteis à organização interna do textual, por exemplo, vírgula.
Ler não como um burocrata, mas ler para se emocionar com o que é lido. É preciso teatralizar a leitura e, para tanto, o professor se apaixona quando lê.
Mas a leitura nem sempre é aprazível. Há momentos chatos, porque, para ler bem, se faz necessário pensar e pensar - verbo rejeitado por alguns alunos.
Às terças, em um lugar silencioso e confortável na escola, meus alunos lerão, pelo menos, um livro por ano. Educados, atentos às minhas "loucuras", muitos, mesmo com as dificuldades financeiras dos pais, compraram a fotocópia.
No final, passarei o filme para que percebam a imaginação do diretor na tela, o que Luiz Fernando Carvalho realizou com a sua leitura em forma de cinema.
Antes de concluir a leitura de Lavoura Arcaica, mostrarei um filme realista, porque desejo que percebam a diferença entre o poético e o que não tem beleza.

O feminismo de Elisabeth Badinter






















Texto retirado da revista EntreLivros

Depois do feminismo, a guerra dos sexos. Esse é o receio de Elisabeth Badinter expresso em Rumo equivocado, que está sendo lançado neste mês no Brasil. Feminista conhecida, Badinter surpreende seu público ao fazer ressalvas sobre os caminhos do movimento que outrora apoiou. Sua posição é inequívoca a partir do título do livro.

"O feminismo tomou um rumo que nos leva à regressão", diz. "Em vez de se concentrar na igualdade entre homens e mulheres, o feminismo enveredou por um caminho muito influenciado pelos EUA. Esse rumo aponta a mulher não como igual ao homem, mas como sua vítima."

Badinter falou a EntreLivros em Paris, em seu apartamento defronte ao jardim de Luxemburgo. É uma mulher austera que, sexagenária, guarda a beleza da juventude nos grandes olhos azuis e na ardência da defesa de suas idéias.

Mulher de Robert Badinter - ministro da Justiça no governo socialista de Mitterrand nos anos 80 - e herdeira de uma das maiores agências de publicidade do mundo, a Publicis, Elisabeth é mais conhecida como intelectual.

Não se deve deduzir que as críticas de Badinter a colocariam no campo antifeminista. Ela própria ainda se considera uma seguidora de Simone de Beauvoir.

"Eu me tornei feminista em 1960 no ônibus da linha 82, lendo O segundo sexo. Tinha 16 anos, e foi uma revelação", declarou ao L'Express em 2003, quando seu livro foi lançado na França.

Em O segundo sexo, de 1949, Beauvoir fazia a sustentação do que viria a ser o feminismo francês expandido pelo Ocidente: o alerta sobre a necessidade da participação da mulher na sociedade, revendo seu posicionamento sempre secundário em relação aos homens, sobretudo em termos de política.

Pode-se dizer que o mote da obra de Badinter está centrado no problema da maternidade. Longe de ser avessa a crianças - teve três filhos -, ela questiona a idéia de que o amor das mães seja inato. Essa reflexão já causava polêmica há 20 anos, pois se trata de um tema que desenvolveu em L'amour en plus (1981), editado no Brasil sob o título Um amor conquistado - o mito do amor materno, e esgotado em 1998 na 9ª edição.

Pesquisas sobre a gestação e o aleitamento de crianças nos séculos passados mostraram que a maioria delas era completamente negligenciada, entregue a amasde- leite mercenárias. Muitas morriam antes de completar quatro anos de idade. Apoiada em números estarrecedores e no estudo do comportamento social - ela nota que para as mulheres da alta burguesia era desprestigioso ocupar-se da prole, enquanto que para as operárias, dada a jornada de trabalho, era tarefa impossível -, a autora chega ao questionamento de uma "vocação natural" para a maternidade.

Para Badinter, dois fatores estão ligados à formação do "mito do amor materno": a necessidade de assegurar a sobrevivência dos descendentes e a idealização da figura da mãe, a fim de que certa completude se fizesse sentir entre a mãe e a criança. Não se trataria, segundo ela, de "instinto", pois o afeto se formaria da convivência e seria algo "conquistado", como é o caso da paternidade. A pensadora acredita que não haja tanta distinção assim entre o amor paterno e o materno, movimento ao menos no que tange ao aspecto natural.

O simples fato de levantar dúvida sobre algo aparentemente cristalizado na organização social gerou polêmica e levou a críticas e certas generalizações a respeito de suas posições, ao mesmo tempo que despertou a atenção dos especialistas e colocou sua obra no centro dos estudos de psicologia e na defesa do feminismo contemporâneo.

quinta-feira, março 22, 2007

40 anos




















No Acre, um silêncio absoluto sobre os 40 anos do Tropicalismo.
Amanhã, meu corpo receberá uma cirurgia.
Retorno na segunda-feira ao blog caso o cirurgião não erre.
"Que minissérie ruim", dizem os bares da vida. O Acre merecia algo melhor.

Caso Luziene

Hoje, no Ideal, em uma nova turma, disse aos meus alunos que muitos desejam faculdade de direito por status, prestígio. E assim edifica-se a vaidade acima da justiça social.

Para que me serve um espelho se a luz do sol reflete neste país, neste estado, pobreza, miséria, ignorância, violência, vulgaridade, injustiça?

Quanta perversão contra Ozias Ferreira da Costa, Roni da Silva Chaves e Ernandes da Silva Chaves e, no final, o estado pagará a eles, por causa do erro do próprio estado, míseros R$ 30 mil.

O mal ri de nós. Brinca.

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Obs: esta matéria não veio assinada.

TJ manda Estado indenizar
colonos que não mataram a estudante

A Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Acre condenou o Estado a pagar R$ 30 mil de indenização por danos morais a cada um dos três colonos acusados injustamente de estuprar e de matar a estudante Luziene Queiros de Morais.

A decisão dos desembargadores baseia-se nas provas de torturas física e psicológica, exercidas no quartel da Polícia Militar de Sena Madureira. As vítimas são Ozias Ferreira da Costa, Roni da Silva Chaves e Ernandes da Silva Chaves. Passaram dois anos e quatro meses presos até serem inocentados pelo Tribunal do Júri por falta de provas.

O crime, um dos mais horrendos da história acreana, segundo os registros policiais, ocorreu no dia 21 de maio de 1997. Luziene foi estuprada, teve a garganta cortada à faca e o corpo, abandonado em um terreno baldio no centro da cidade, em frente à paróquia da cidade.

O filho do então deputado estadual Zé Vieira, Tácio Vieira, foi apontado como proprietário da caminhonete usada para transportar o corpo de Luziene.

Na época, Tácio com 16 anos, não foi chamado sequer a depor ao juizado do menor. Até alcançar a maior idade, ele permaneceu em local não revelado em Florianópolis (SC). A responsabilidade dos militares, acusados de tortura, será julgada em processo distinto.

Durante o tempo em que Ozias esteve no presídio, nasceu seu terceiro filho. O pai dele se matou, deixando uma carta destinada ao promotor de justiça da cidade, alegando que não acreditava na culpa do filho, porque, na noite do crime, ele se encontrava no seringal.

A esposa abandonou a colônia para ficar perto dele na cidade e também acreditava na inocência do marido.

Ao ser solto, Ozias não pôde voltar para casa, porque sua colônia já tinha sido ocupada por outra família. Hoje, ele tem problema com alcoolismo, mora em um quarto alugado na invasão do bairro João Eduardo, periferia de Rio Branco, vive de diárias prestadas em fazendas da Transacreana e tenta esconder dos vizinhos o que aconteceu com ele no passado.

Os outros dois acusados, ambos solteiros, continuam morando no mesmo seringal com os país, um dia de viagem de barco de Sena Madureira.

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Seria bom ouvir Ozias, publicar sua fala no blog ou no jornal.


quarta-feira, março 21, 2007

Ainda sobre Arcadismo


Por que o prazer é regulado pela Razão no Arcadismo?


Por meio de Platão, podemos chegar a respostas. Chamada também de escola neoclássica, o Arcadismo possui termos que encontramos em "A República", por exemplo, austero, regular.


No entanto, não destacarei trechos dessa obra grega para explicar. Um outro pensador, eu prefiro: Sêneca. Da editora Nova Alexandria, um pequeno livro, Sobre a Vida Feliz, educa-me à felicidade como se eu estivesse em um mundo árcade.
Na página 35, esse homem, que se matou a mando de Nero, diz que "a virtude é algo de elevado, de incansável; a volúpia é baixa, servil, fraca, insignificante; seu lugar, seu domicílo são os lupanares e as tavernas. Você encontrará virtude no templo, no fórum, na cúria, de pé junto às muralhas, coberta de poeira, corada do sol, com as mãos calosas; a volúpia, geralmente, furtiva e em busca das trevas, nas proximidades dos banhos, das saunas, dos lugares que temem a polícia, mole, abatida, com vinho e perfume a escorrer, pálida, rebocada, embalsamada como um cadáver."
E ele, em outra página, a 37, oferta aos meus olhos... "não pode haver nenhuma consistência naquilo que, por natureza, está em movimento; muito menos pode haver consistência alguma naquilo que vem e passa logo."
A melhor volúpia para Sêneca é a dos sábios, porque ela é moderada, isto é, é regulada pela virtude, pela Razão. No Arcadismo, há essa moderação do prazer. "Na virtude, não se deve temer o excesso, porque nela está a medida", escreveu o filósofo estóico.
Para haver essa "medida", o limite, os amantes no Arcadismo não se expõem à lua, mas ao sol, à luz. Nas poesias românticas, pulsa o desejo da noite.


Ora, a "medida" pertence ao Arcadismo, termo oposto ao Barroco. Um bom filme que apresenta elementos árcades é Triunfo do Amor, de Bernardo Bertolucci. Essa medida encontra-se no pai de André, do romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, que se transformou em filme por meio da sensibilidade elegante de Luiz Fernando Carvalho.
Não desejo estender-me mais a fim de não cansar seus olhos. Digo apenas que não leio um texto para dizer que é árcade ou barroco, mas leio para aprender algo sobre a vida.
Minhas aulas seguem essa trilha, fogem ao historicismo literário, porque meus alunos precisam, no mundo atual, pensar a palavra, pensar palavra-corpo para que se lancem ao prazer de forma digna, altiva, nobre, autêntica, quando o momento certo chegar.

terça-feira, março 20, 2007

A Literatura em Pré-Vestibular

Hoje, no Ideal, a LiteraTura passou pela sala de aula conforme determina a Universidade Federal do Acre. Os anos passam e a receita, a mesma: períodos de época, historicismo e ainda há professor que coloca a biografia do romancista, do poeta.
Por acaso estudamos '"produto cartesiano" com a biografia de René Descartes?
A LiteraTura padece no ensino médio e no pré-vestibular, porque intelectuais de Letras não respiram outras possibilidades. Hoje, uma aluna do Ideal apresentou-me três autores: Mário Quintana, Oswald de Andrade e Érico Veríssimo. Ela, também, estuda para a UnB.
Por falta de criatividade e de inteligência, dez livros, mantidos até hoje para a prova de Literatura, desanimam os jovens à leitura. Melhor reproduzir cópias sobre os livros e lê-las.
Em sala, hoje, lecionei sobre Arcadismo. Há anos, busco sair do clichê "pastores" ou coisa do gênero. Compreendo que precisamos partir dos conceitos, porque são eles que me (re)apresentam a vida, o mundo.
Se o Arcadismo chama-se também Neoclassicismo, apresentei uma ótima tradução da obra "A República", de Platão, um fragmento, ei-lo:
"Mas, para nós, ficaríamos com um poeta e um narrador de histórias mais austero e menos aprazível, tendo em conta a sua utilidade, a fim de que ele imite para nós a fala do homem de bem e se exprima segundo aquele modelo que de início regulamos, quando tentávamos educar os militares."
Aqui, termos relacionados ao Arcadismo. Um, no entanto, não se relaciona, qual seja: aprazível. Por que o Arcadismo controla o aprazível a ponto da arte árcade ser austera e regulada pela Razão?
Por que o Arcadismo evita o prazer? Por que os amantes não se tocam na poesia árcade? Para mim, os jovens precisam repensar o prazer por meio da Literatura.
Árcade, filho de Zeus e de Calisto - leia "Mitologia Grega", de Junito Brandão -, nasceu para civilizar os campos em que o deus Pã (ou Pan) tocava sua flauta. Árcade, portanto, representa a ordem, conseqüência da Razão.
Se formos ao dicionário grego, "arkeo" siginifica "afastar o mal" e "arkos" quer dizer "limite", "cuidar", "medir".
Que mal é esse? Limitar o quê? Ora, o corpo, esse templo dos sentidos, do desejo, do prazer. Como escreveu Platão, o poeta não pode ser aprazível, nesse caso, o árcade.
O que há no prazer para que ele não pulse na linguagem do Arcadismo? Penso que, por meio dessa pergunta, o Arcadismo torna-se interessante para jovens que precisam repensar o prazer no mundo atual.
Amanhã, continuarei sobre isso.

LuLa, MoMenTo FiLoSófiCo

1. "É preciso melhorar a massa encefálica dentro do cérebro para as pessoas compreenderem que as mulheres devem ser respeitadas."
2. "Sexo é uma necessidade orgânica, uma necessidade da espécie humana e da espécie animal. Como não temos controle disso, o que precisamos é educar."

segunda-feira, março 19, 2007

Bolg aberto aos responsáveis pelo ensino médio

A Secretaria de Educação do Estado do Acre, mais uma vez, manifestou seu interesse de haver "prova diagnóstica" no ensino médio.
Elaborei uma prova simples, sozinho. A área de Língua Portuguesa não definiu um propósito comum. Cada um criou como quis.
Assim, na prova de Redação, professor cobrou cinco linhas; outro, nenhuma. Em minha prova, a do segundo ano, escrevi:
"Vamos supor que, neste momento, você dependa desta redação para fazer a sua faculdade na Universidade Federal do Acre. Ela é, portanto, decisiva. Sendo assim, escolha um dos temas abaixo para elaborar seu texto dissertativo."
O resultado não poderia ter sido pior. Dos 141 alunos, 34 não escreveram (21.11%). Foram 45 alunos (31.91%) que escreveram um texto com um só parágrafo. Outros 18 (12.76) tentaram dissertar com dois parágrafos. Com três parágrafos, foram 27 alunos (19.14%). Somente 5 (3.54%) escreveram com quatro parágrafos.
Ora, se estamos habituados a ler bons livros sobre redação escolar, sabemos que quatro parágrafos deveriam ser a norma na escola, mas nem isso, o mais simples, aprende-se.
O Enem pede quinze linhas, a UniNorte pede cinco e a Universidade Federal do Acre, 20 linhas. A escola, diante desses três exemplos, fica perdida. Não deveria se fosse organizada.
Como melhorar a produção textual no ensino médio? Se não houver reunião pedagógica, se não houver um plano político pedagógico por disciplina, não sairemos do lugar. Tudo começa pela organização escolar.
Se os alunos ignoram o processo de paragrafação, o mais simples, só poderia haver isto e muito mais:
1. Muitos jovens só pensam em divertir, más quando se fala em camisinha";
2. Jovens que não querão engravidar;
3. A te de 11 era pra dá camisinha por que os jovens estão tudo em gravidando. Elas tem medo de pegar piula camisinha púriso",
4. Eu acho que a violência tem que acabar porque o mundo está muito violento;
5. Hoje em dia se vê falar muito sobre casos de estrupamentos.
Poderia ofertar aos seus olhos inúmeros casos, mas conto até cinco. Se não houver médicos na cidade, corpos amontoam-se e o mau cheiro alastra-se. A ausência de saúde cria um caos bem visível.
Alunos concluem o ensino médio sem saber escrever, mas, como não há corpos putrefatos na disciplina de Língua Portuguesa, o sistema, sem qualidade, funciona. O odor que a ignorância exala é muito pior.
Sem uma educação que dê altivez à palavra escrita, ao pensamento elaborado em uma folha, o espírito não pulsa. Por isso, sem educação, sem a formação do espírito, mentes grosseiras emanam a fedentina da vulgaridade, da violência, da miséria. Um criança, de um ano e meio, é estuprada e seu corpo, deixado em uma pia-batismal. Outra, arrastada pelas ruas de minha "Cidade Maravilhosa".
Hoje, o jornalista Jairo Barbosa escreveu uma matéria na TRIBUNA que exemplifica. A escola, longe de ser exemplo para alunos, não dita comportamento, postura, mas, no lugar dela, a boate. Menores embriagados nunca poderão escrever bem.
O Enem já mostrou que somos ruins quando pensamos por meio da escrita. O que fazer, então, depois da prova diagnóstica... e da boate?

sábado, março 17, 2007

Mulheres no Sindicato

Os dois sindicatos da educação, Sinteac e APL, administrados por duas mulheres, já disseram que poderá, em abril, haver greve nas escolas públicas do Estado.
Serei direto.
Se mulher ocupa espaço sindical para ser incompetente igual a homem, melhor cuidar do lar e dos filhos. Primeiro, meninas, é que não existe greve na educação, porque, depois, o professor é obrigado a repor aula.
Que greve é essa?
Eu paro de lecionar e, uma vez terminada, tenho que repor o tempo parado. Fala sério, meu, digo, minha!!! Isso não é greve.
Convenhamos, no mínimo, descanso antecipado.
As mulheres no sindicato precisam, com urgência, rever o conceito de greve, prática de luta dos operários criada pelo anarquismo. Martin Luther King e Gandhi usaram muito bem esse conceito há muitos anos.
"O tempo não pára", cantou Cazuza, e o atual modelo de greve, congelado no tempo e ineficiente, porque a história mostra isso, não pode ser o mesmo, principalmente, para a educação.
A desobediência civil deve ser outra.
Quem já leu um pouco sobre isso deveria saber que Luther King e Gandhi causaram um colapso na economia, o que a educação não causa.
Além disso, sabemos que a educação não se reduz a interesse econômico dos professores.
As mulheres no sindicato repetem o que homens já faziam, e faziam errado. Se é para fazer igual, se é para reproduzir o modelo patriarcal de sindicato, vai lavar a louça, porque eu faço muito bem isso em minha casa.

quinta-feira, março 15, 2007

Prova diagnóstica, da Secretaria de Educação do Estado

Amanhã, encerrar-se-á a prova diagnóstica na escola Heloísa Mourão Marques. A iniciativa da secretaria merece elogios, mas penso que um procedimento deve ser alterado, qual seja: a elaboração das provas.
As provas, quando escritas, não apresentam uma consequência da área, por exemplo, de Língua Portuguesa, mas de um indivíduo. Serei específico.
Em Língua Portuguesa, um professor elaborou uma prova que pede a construção de um texto, mas esse texto deve ser escrito, no máximo, em cinco linhas. Ora, não há texto com cinco linhas no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, e nem na Universidade Federal do Acre.
Isso não passou pela área. Trata-se de um erro grave, porque, antes da prova diagnóstica, as áreas não definem o que desejam. Isso tem nome: desordem.
Eu, que não conversei com o meu colega do primeiro ano do ensino médio, devo escrever que prova diagnóstica para os alunos do segundo ano?
Sem que tenhamos conselhos de disciplina nas escolas, fica difícil definir o que é Língua Portuguesa na rede pública. Educação implica ação de um conjunto, o corpo docente, e não ação isolada de professores.

EducAÇÃO

País está entre os "piores do mundo" em educação,
diz Lula, que promete "revolucionar"

Da redação
Em São Paulo

Agência Brasil

Haddad ouve o presidente Lula na apresentação do PDE

Ao apresentar nesta quinta-feira (15) em Brasília, junto com o ministro da Educação Fernando Haddad, as linhas gerais do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação) para educadores de todo o país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu que o acesso à educação cresceu no Brasil, mas que o ensino continua com baixa qualidade."Nós estamos entre os piores do mundo", afirmou o presidente, na cerimônia realizada no Palácio do Planalto.

"A experiência acumulada mostra que o Estado brasileiro, ao longo das últimas décadas, não deu respostas (aos problemas da educação). Houve a universalização do ensino, mas não houve um acompanhamento pela melhoria da qualidade da educação. Então, estamos entre os piores do mundo", declarou o presidente, falando a professores, reitores, pedagogos e ex-secretários de educação.

Entre as medidas que fazem parte do PDE estão a realização de uma olimpíada de língua portuguesa, semelhante à de matemática, já existente; a criação do piso salarial nacional do magistério, que é uma reivindicação antiga da categoria; investimento na formação continuada de professores, fazendo com que todos estejam ligados a uma universidade; universalização dos laboratórios de informática, inclusive na área rural; melhoria do transporte escolar e qualificação da saúde escolar.

O ministro Haddad anunciou também a possibilidade de o aluno aderir a um financiamento estudantil de seu curso superior e pagá-lo depois de formado, com desconto em folha e prestações de cerca de R$ 100.

"Revolução"

De acordo com o presidente Lula, o PDE proporcionará uma "grande revolução" na educação brasileira. "Existe uma dívida de educação nacional e estadual, e isso deve ser sanado", afirmou.

O número de jovens que se encontram em cadeias foi apontado pelo presidente como uma evidência das falhas na educação brasileira. "São todos da década de 80 para cá. São resultados de um milagre brasileiro que não distribuiu renda, de políticas elitistas que não pensavam numa educação de qualidade para todos".

O presidente afirmou que diversas pessoas foram chamadas para colaborar na elaboração do PED, como os ex-ministros Cristovam Buarque (PDT-DF) e Paulo Renato (PSDB-SP). Segundo Lula, o governo quer ouvir quem pode contribuir, independentemente de partido.Buarque, primeiro titular do MEC (Ministério da Educação) sob Lula, foi demitido pelo presidente por telefone, e o enfrentou na eleição presidencial de 2006.

No segundo turno, apoiou o rival de Lula, o tucano Geraldo Alckmin. Já Paulo Renato é um político ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.Avaliação mais freqüenteO presidente Lula defendeu ainda que o Prova Brasil seja aplicado antes da 4ª serie do ensino fundamental, como forma de mapear as condições dessa etapa da educação.

"Não temos como esperar quatro anos para fazer uma prova. Ou medimos essas crianças mensalmente, quinzenalmente, semanalmente, diariamente, ou não tem jeito", criticou.O Prova Brasil, citado por Lula, é desenvolvido e realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao MEC.

Sua primeira edição ocorreu em novembro de 2005, em parceria com as secretarias estaduais e municipais de educação, que mobilizaram mais de 20 mil colaboradores para atuarem na execução dos trabalhos.

O exame foi realizado em 5.398 municípios, avaliando 3,3 milhões de alunos de 4ª e 8ª séries do ensino fundamental (ou seja, com intervalo de quatro anos). Foram aplicadas provas de língua portuguesa (com foco em leitura) e matemática, com questões elaboradas a partir do que está previsto para as séries avaliadas nos currículos de todos os Estados e, ainda, nas recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Com informações da Agência Brasil

quarta-feira, março 14, 2007

pOesiA - a voz do Eu-Lírico


Sobre poesia, a Literatura na escola padece de inocência, beira a uma compreensão bobinha de alguns professores, porque se acomodaram com seus livros didáticos.

Há um texto da Escola de Frankfurt, no entanto, que retira a poesia de sua infantilização em sala, é Lírica e Sociedade, de Adorno.
A voz lírica, para esse pensador, não é a mera expressão de emoções e de experiências individuais; o eu-lírico, a linguagem poética, manifesta-se quando adquire participação no universal. "Da mais irrestrita individuação, a formação lírica tem esperança de extrair o universal", escreveu Adorno.

Com essa compreensão, individuação e universal, o eu-lírico é uma voz que reage à influência de agentes exteriores "contra a prepotência das coisas", é uma forma de reação "à coisificação do mundo".

Coisificação no sentido de que, desde a Revolução Industrial, no século 18, as mercadorias dominam os homens. O amor, por exemplo, adquire a condição de coisa quando se reduz ao "orgânico", à funcionalidade, por meio de músicas que submetem o amor à regressão auditiva.
"Lapada na rachada" nunca foi música, mas ruído que "preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pela docilidade de escravos sem exigências". O eu-lírico se opõe a esse coletivo.
Oposto a essa "lapada", oferto a teus olhos, então, Castro Alves, que hoje faz 160 anos de nascido.
Amar e ser amado

Amar e ser amado! com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz... que pensamento!?





terça-feira, março 13, 2007

Alunos, os meus

























Novos rostos. Mais um ano letivo escreve-se na lousa de uma escola pública.
São quase 20 anos lecionando e ainda entro em sala como se eu pudesse mudar não o mundo, mas a vida de alguns. São poucos, nunca gostei das multidões.
Entro em sala para ofertar aos meus alunos o melhor de mim, e esse melhor é afeto e exigência; disciplina e desobediência; ordem e caos. Entro em sala ainda com paixão e leciono por um único motivo: não desejo morrer.
Sim, se eu não lecionasse, já não estaria mais aqui, porque, entre quatro paredes, vivo o que a realidade me retira: sonhos, outras possibilidades, por exemplo, ele: o amor, e seu gesto pulsa na narrativa que lerei para os meus alunos às segundas-feiras, entregue ao silêncio em um teatro de escola.
Por mim e por eles, um livro lido para que a vida seja outra em nossas particularidades, em nossas intimidades. Assim, nossos olhos irão se debruçar sobre Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para que, por meio da leitura - eu sei, ler cansa -, possamos renomear o amor, a paixão, a noção de ordem - valores que a realidade da rua desconhece.
Buscarei, tal qual um sacerdote, teatralizar o texto sagrado da ficção para que percebam a vida relida, mais vida entendida, sempre vida contada, muita vida acima da vulgaridade e da pobreza que nos cercam.
Quando o ano letivo chegar ao fim, só desejo que esses rostos nunca mais se esqueçam de mim, porque para isso também fomos feitos: ofertar a recordação de um homem apaixonado por sua profissão.

segunda-feira, março 12, 2007

Baudrillard


"Brasil é o império das ilusões"
Em entrevista inédita feita durante a Eco 92, filósofo diz que o país não é hiper-real

Flávio Florido - 25.abr.2002/Folha Imagem
O filósofo francês Jean Baudrillard durante palestra na Bienal Internacional do Livro de 2002

KATIA MACIEL
ESPECIAL PARA A FOLHA

E m 1992, se realizou na cidade do Rio de Janeiro a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92. Jean Baudrillard havia sido convidado para uma conferência, e a enorme mobilização da cidade em torno do evento provocou esta entrevista, que aconteceu no Jardim Botânico. Esta não foi a nossa primeira conversa e nem seria a última.
Durante muitos anos foram muitas conversas, mas só tenho o registro desta, que trata da relação entre a natureza e a alteridade, o ciclo da metamorfose, da vida e da morte. As idéias de hiper-realidade e de simulacro são experimentadas no cenário brasileiro a partir de uma análise que considera os processos comunicacionais como aceleradores do consenso. A forma de confrontação escolhida pelo autor é a da teoria fatal, a teoria no meio das coisas, uma teoria que não considera mais a separação entre sujeito e objeto e que acolhe em seu centro os gestos da indiferença como estratégia. Para o Brasil as palavras são de encantamento.
Baudrillard sempre acreditou neste país confuso e generoso e nunca pensou no Brasil como o país do futuro; ele sempre preferiu o presente.

PERGUNTA - Você acredita que esta conferência terá resultados mesmo sendo um tipo de simulacro?
JEAN BAUDRILLARD - Parece-me que tudo isso faz parte de uma nova ordem mundial. No sentido político, a ecologia faz parte de um novo establishment mundial, fundado sobre uma extensão formal da democracia, dos direitos humanos, fundado sobre um consenso. É mais um pacto simbólico com a natureza. Não é exatamente um contrato natural, não é um contrato em termos racionais. [...]

PERGUNTA - Não há mudança de toda forma.
BAUDRILLARD - Neste momento de consenso, só há mudanças mecânicas ou eletrônicas. A rede funciona, o processo é de rede, de circuito. Estabelecemos o consenso pela circulação acelerada das coisas. Se você está dentro de uma rede, você está em consenso. Não é uma questão de ideologia.

PERGUNTA - A aceleração é produzida pela mídia, por exemplo? O que promove toda a aceleração?
BAUDRILLARD - Na verdade, parece uma espécie de imensa maquinaria em forma de circularidade indefinida. Tudo comunica e tudo se torna comunicação. Nada muda verdadeiramente, não há uma forma de alteridade, de antagonismo, de relação dual. Não. Tudo circula. Tudo se torna comunicação, seja a sexualidade, as imagens ou até mesmo os processos científicos. Temos a impressão de que somos reconhecidos no mercado da pesquisa científica por descobertas e hipóteses que possam comunicar. O universo da comunicação é monofuncional. Existe uma mobilidade e é preciso que tudo seja dito. É preciso que tudo circule. De onde vem esse imperativo? Eu não sei... um mecanismo de dissuasão, de desqualificação. Tudo que é substancial, que tem valor, é perigoso. Então é preciso reduzi-lo, é preciso consensualizar fazendo circular.

PERGUNTA - Você vê a questão da hiper-realidade no Brasil?
BAUDRILLARD - Eu não vejo o Brasil como um país hiper-real. Não é como a Califórnia, a América do Norte. Talvez porque o Brasil ainda não tenha passado pelo princípio de realidade, não pode se tornar hiper-real, porque o hiper-real é mais que o real, um tipo de confusão entre o real e o imaginário. Tem-se a impressão de que não existe um princípio de definição da realidade. É bem uma espécie de país de ficção, mas não de ficção de transparência. Não é o país da semiologia ou da semiótica. Tenho a impressão de que o Brasil está mais próximo do jogo da ilusão, da sedução, dessa relação dual, mas confusa, e que não há essa forma de abstração que é a hiper-realidade... Enfim, essa forma de transmutação no vazio, de perda de substância, de referência. Aqui, é claro, há televisão por todo lado, há imagens, isso tudo. Temos a impressão de que é uma matéria muito mais bruta, imediata, primitiva, é uma matéria da relação coletiva. Não é a mesma definição que podemos ter na Europa entre o meio e a mensagem. Toda a teoria da comunicação não funciona assim porque são as funções de um modelo abstrato, uma realidade abstrata. Justamente por meio das novas imagens há uma espécie de confusão entre o emissor e o receptor. A hiper-realidade é uma espécie de roteiro transparente da modernidade, mesmo na Europa. Aqui eu tenho a impressão de que é uma confusão não primitiva -porque seria uma expressão pejorativa-, mas original. Uma confusão que é ainda uma forma anterior à da discriminação das coisas, da distinção das coisas. A hiper-realidade é quase tardia porque veio depois da divisão das coisas.

PERGUNTA - Mas nos EUA também não houve uma realidade anterior.
BAUDRILLARD - Sim, certamente. Não exatamente um princípio de realidade, na medida em que não houve uma acumulação primitiva de realidade por dois séculos, como na Europa. Não há um histórico de realidade, mas um princípio tecnológico, operacional, pragmático. Isso é um problema de infra-estrutura própria, não é uma infra-estrutura de princípios metafísicos, de princípios do sujeito. Há um princípio de operacionalidade muito forte nos EUA . Aqui eu não tenho a impressão de que ele funcione realmente, e não é ele que governa as formas simbólicas da relação. Portanto, é uma situação original, mas, evidentemente, quando fazemos a análise da hiper-realidade, ela é universal. Todo mundo é submetido a esse regime de potencialização de signos. Mas talvez o Brasil escape do universal. É preciso saber se a cultura brasileira passou pela modernidade, se os elementos de modernização, de abstração, de mediatização se tornaram os mais fortes. Se foi engolida e absolvida por isso, não estou muito certo. Não há julgamento estatístico ou metafísico. Talvez no Brasil haja uma certa tradição, talvez haja muito mais de surrealismo que de hiper-realismo.

PERGUNTA - Então seriam principalmente efeitos do inconsciente ?
BAUDRILLARD - O hiper-realismo é, na verdade, uma zona da desencarnação dos corpos. Não é o caso, aqui os corpos não são de forma alguma desencarnados. Os gestos, o movimento aqui são verdadeiramente sensuais. A hiper-realidade é um tipo de desencarnação, de desilusão, um pragmatismo das coisas. Aqui ainda é o império das ilusões, mas no sentido positivo do termo, ou seja, o jogo de aparências, incluídos no gestual, na dança, na música, no jogo, no culto. Esse tipo de coisa não demonstra absolutamente uma alternativa política, apenas mostra que ainda existe uma forma de ilusão, isto é, de gestão simbólica das coisas.


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KATIA MACIEL é professora de comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

sábado, março 10, 2007

Sentais-vos, vereadores!!!

O empresário de ônibus retira os bancos para dar mais espaço em pé. Isso tem nome: lucro.
Não existe lei no município para proibir isso. Como não usam ônibus, vereadores não criam uma lei para proibir isso.
O mesmo se dá com os ciclistas. Como não usam bicicleta, eles não criam leis para regulamentar o tráfego de duas rodas.

Diretora Lúcia

Gilson Albuquerque denuncia autoritarismo da diretora
Matéria de Jairo Barbosa

A comunidade do bairro Preventório está revoltada com as medidas adotadas pela diretora da escola Heloísa Mourão Marques, professora Lúcia. Segundo os moradores, a administradora da escola proibiu, desde o ano passado, que os estudantes jovens utilizem a quadra de esportes, que antes era liberada nos finais de semana.
Segundo Gílson Albuquerque, presidente da Ummarb e representantes da comunidade, a professora Lúcia simplesmente impediu a entrada dos moradores na área de lazer da escola sem aviso prévio. Albuquerque prepara um documento para entregá-lo à Secretaria de Educação, solicitando que a medida seja cancelada.
“Há mais de dez anos, esse espaço era usado pela comunidade, e a diretora, de forma arbitrária, proibiu os moradores de utilizar um espaço que sempre foi usado e preservado pela comunidade”, denunciou Albuquerque.
A liderança sindical também disse que os alunos da escola reclamam de outra medida adotada pela direção. Segundo Gílson, a diretora mudou o uniforme dos alunos sem consultar o Conselho Escolar.
“A gente quer a escola em sintonia com a comunidade. Estamos dispostos a colaborar com o que for possível, mas não iremos admitir autoritarismo aqui”, avisou Albuquerque.
Apesar das tentativas da reportagem, a professora Lúcia não foi localizada nem na escola nem por meio do seu celular.

quarta-feira, março 07, 2007

No dia das mulheres, eu quero a minha mãe


Texto completo, publicarei no domingo por meio da TRIBUNA

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Mulheres do lar lutam por seus direitos,
de Aldo Nascimento

Mulheres americanas que trabalham em casa reivindicam o que feministas acreanas rejeitam: o serviço familiar. Elas querem que os anos dedicados aos filhos, aos maridos e aos pais idosos sejam contabilizados na hora da aposentadoria. Um pouco atrasadas, isso ocorre há anos na Europa.
O sistema de previdência do governo dos Estados Unidos não reconhece o trabalho de donas-de-casa para fins de aposentadoria. Elas só podem contar com poupanças privadas e com parte dos benefícios de seus maridos.
Mulheres que tenham permanecido casadas por mais de dez anos têm direito à metade da quantia paga pelo sistema de seguridade social a seus ex-maridos. Mas, se não fizerem um acordo na hora da separação, perdem o direito às poupanças e aos planos empresariais.
Muitas, então, acabam tendo de entrar no mercado de trabalho para viver. Mesmo assim, por elas começarem a trabalhar tarde, várias jamais atingem o tempo mínimo necessário para recolher a aposentadoria empresarial.
Confirma-se, assim, uma desigualdade entre homens e mulheres. O Instituto de Pesquisa de Políticas para as Mulheres reconhece isso e uma de suas propostas para diminuir a desigualdade entre maridos e esposas, entre os trabalhadores e as trabalhadoras, é a criação de um “crédito de serviço familiar”, igual ao modelo europeu.
Esse crédito poderá ser oferecido a mulheres que deixam a força de trabalho para tomar conta das crianças, para cuidar dos maridos e para tratar dos parentes idosos.

Cuidar da casa
No Brasil, as donas-de-casa têm direito à aposentadoria desde a Constituição de 1988, porém o benefício ainda é muito pouco usado, menos de 1%. Mas, assim como as americanas, as brasileiras não recebem nenhum crédito extra pelos anos dedicados à criação dos filhos ou a pais idosos.
Essa remuneração às mulheres que se dedicam ao lar na condição de mães e de esposas deu seus primeiros sinais no final do século 19, na Europa. É o chamado “maternalismo feminista” ou “feminismo maternal”.
Esse pensamento, porém, recebeu a indiferença de mulheres que lutavam pelos direitos iguais aos dos homens. As falas da feminista alemã Käthe Schirmacher não ecoaram no Brasil, no Acre. Para essa mulher, o trabalho doméstico representa um trabalho que “cria valores”.
“Não existe trabalho mais ‘produtivo’ do que o da mãe, que, sozinha, cria o valor dos valores, que se chama um ser humano”, disse Käthe em 1905, na Liga das Associações Femininas Progressistas.
Para Gisela Bock, ex-professora no Instituto Universitário Europeu (Florença), Käthe Schirmacher “protestou contra essa exploração da dona-de-casa e da mãe, argumentando que as mulheres, em nome de sua emancipação, não deveriam ter ainda de suportar a exploração acrescida de um emprego mal pago, mas que a sociedade lhes devia o reconhecimento social, político e econômico do seu trabalho doméstico”.
Por ter vivido na França, Käthe encontrou essas idéias na década de 1890. Mas antes, em 1878, em Paris, no Congresso Internacional dos Direitos das Mulheres, foi exigido que os municípios apoiassem as mães pobres durante um período de 18 meses.
“Em 1892, a primeira conferência de mulheres a autodenominar-se ‘feminista’ sublinhou a necessidade da proteção social para todas as mães”, escreveu Gisela Bock em História das Mulheres, volume 5.

Nega-se a família
Nos finais dos anos 20, mulheres, uma minoria, rejeita o feminismo maternal em nome dos direitos iguais entre homens e mulheres. A família passa, com isso, a ter menos importância.
Na segunda metade do século 20, esse feminismo ausentou-se praticamente, porque as mulheres consideraram mais fácil conseguir a emancipação pelo trabalho assalariado e pela redistribuição de responsabilidade no seio do casal.

A identidade materna
N
o início do século 21, estudos e pesquisas, elaborados por feministas, retomam as idéias de Käthe Schirmacher. O feminismo maternal voltou à luz.
Professora emérita da Universidade de Provence, Yvonne Knibiehler publicou Quem cuidará das Crianças? Se Simone de Beauvoir (1908-1986) estivesse viva, jamais leria o livro. A companheira de Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi útil a mulheres que desejavam direitos iguais entre elas e os homens; Yvonne, no entanto, discordou de Beauvoir.
“Em seu livro, O Segundo Sexo, ela definiu a maternidade como obstáculo à vocação humana de transcendência”, e conclui Yvonne. “A minha relação com as crianças que ponho no mundo é feita também de inteligência, e é precisamente isso que abre a possibilidade de uma superação, de uma transcendência.”
Para essa historiadora, o feminismo precisa, antes de mais nada, repensar a maternidade, a família, a importância da mulher no lar. A violência contra mulheres de classes sociais mais pobres deve-se também a uma concepção de feminismo que destruiu a representação simbólica da casa. A mãe é menos que uma trabalhadora. O escritório da secretária, menos importante que o lar.
Assim, ocupando funções que antes pertenciam somente ao sexo masculino, a mulher pensou que tivesse tirando o poder do homem. Para a autora de Quem cuidará das crianças?, sair de casa para trabalhar no escritório nunca foi suprimir a dominação masculina nem mesmo a atenuou. “As feministas apenas obrigaram que a dominação mudasse de lugar”, provoca Yvonne Knibiehler.
A mulher na política não eliminou ou enfraqueceu a dominação masculina, porque tamanha dominação fecunda-se na representação simbólica. Mulheres podem jogar futebol, mas o jogo, criado por homens, mantém-se o mesmo. A estrutura, a mesma. Ela pode ocupar os sindicatos, porém a estrutura sindical permanece patriarcal ou “machista”. A questão, portanto, não é ocupar os espaços dos homens, mas transformar o conceito de estrutura.
Como escreveu Françoise Thébaud no livro História das Mulheres, o século 20, “a mulher necessita de uma evolução da simbólica do poder e bem poderia vir a modificar o modo como este poder se exerce”.

Retorno ao lar
O clichê “as mulheres estão ocupando seus espaços na sociedade”, proferido por feministas acreanas, caducou. Oriana White, psicóloga e pesquisadora do comportamento humano da Universidade de São Paulo (USP), constatou em sua pesquisa que as mulheres estão voltando seus desejos para a vida em família. “Elas querem uma rotina mais simples, com maridos e filhos por perto”, diz Oriana.

Uma breve entrevista

Publicado em 1997 e editado no Brasil três depois, o livro A Terceira Mulher – permanência e revolução do feminino -, de Gilles Lipovetsky, emudece as banalidades de muitas feministas. Essa obra, portanto, leitura obrigatória para que saiamos do óbvio. Pensando nisso, esta breve entrevista com o autor mostrará um pouco de seu pensamento nesse provocante livro.

Em seu livro, constata-se que a mulher ocupou o espaço na sociedade pós-industrial?
A resposta em uma entrevista é insuficiente. Busco responder a isso em 305 páginas e aqui é impossível em poucas linhas. Entretanto, o que posso afirmar é que o homem permanece prioritariamente associado aos papéis públicos e “instrumentais”, a mulher, aos papéis privados, estéticos e afetivos. Quero dizer com isso que, longe de operar uma ruptura absoluta com o passado histórico, a modernidade trabalha em reciclá-lo continuamente.

Quando o sr. diz “reciclar”, isso significa a tradição revista pelo moderno?
Sim, a terceira mulher conseguiu reconciliar a mulher radicalmente outra e a mulher sempre recomeçada.

A mulher não deixou o lar?
Elas continuam mantendo relações privilegiadas com a ordem doméstica, sentimental ou estética, e não é por simples peso social, mas porque essas relações se ordenam de tal sorte que já não entravam o princípio de livre posse de si e funcionam como vetores de identidade, de sentido e de poderes privados.

O que o sr. pensa sobre o feminismo?
O feminismo como movimento social está marcando passo.

Por quê?
Nesse caso, melhor ler o livro.