quinta-feira, junho 14, 2007



Ontem, depois de sair do jornal, cheguei ao meu descanso às 22h45min. Abri a porta. Do outro lado da rua, um homem, à porta de sua bela casa, falava alto para outro homem.

O outro homem procurava em seu lixo. "Não mexa em meu lixo, saia daí". "Eu arrumo, quando eu acabar de catar em seu lixo, eu deixo tudo arrumado." "Não, deixe isso aí".

A porta aberta. Não entrei. "Deixe o homem, é um miserável, não está fazendo mal a ninguém", eu disse.

O lixo foi arrumado. O homem da bela casa entrou. Fechei a porta e fui ao encontro do homem que mexeu e arrumou o lixo.
Qual seu nome?
José Alves.

Sua idade.
26 anos.

Ele não concluiu a 4a série. Muito falador, esse rapaz fedia muito e catava comida no lixo de alguém que não queria que ele mexesse no lixo. Na foto, à direita dele, restos.

Eu poderia ter ignorado sua vida, porque ele não pode dar nada em troca. Pior: ele não existe. José não tem vida.

Por que o senhor está falando comigo?, perguntou o rapaz
Porque você me incomodou. Seu resto de comida, catada no lixo, me incomodou.

Em final de mês, a comida é menor. Na geladeira, pouco. Peguei uma caixa de leite, duas laranjas e pão de forma.

Tome.
Obrigado, que Deus lhe dê sempre mais.

"Deus está morto". Os homens O mataram com suas palavras no Poder Legislativo, nas igrejas. A miséria desses homens é maior que a sua.

Não posso sempre lhe dar comida, mas, quando a necessidade apertar, não vá à Assembléia Legislativa do Acre, porque o povo é uma idéia abstrata, genérica lá. O Cristo na cruz só ornamenta o espaço.

Pode ir a meu quitinete. Eu, tendo, darei um pouco de alimento a ti. Não poderei dar sempre.

Como é fácil ignorar o semelhante. Semelhante!?!?!? Deputados, por exemplo, não se assemelham a José Alves. Igrejas, idem.

Por que não ignorei José? Foram duas laranjas, um pacote de leite, pão de forma. Por que não o ignorei? A indiferença é tão elegante, soberba, inflexível. Deveria ter tomado conta de minha vida.

Blog não sensibiliza.

3 comentários:

crisblog disse...

Ai.ai.ai...

Que maravilha! Parece até paradoxo,mas vc pintou a miséria de uma forma bonita... saiu arrebentando para todos os lados, mas deixou a miséria intacta!

Como ela sempre foi!

Parabéns!


Beijos.

crisblog disse...

Vou linkar vc.

Beijos.

Aldo Nascimento disse...

Obrigado, Cris!!!