11/27/2009

O 14º salário e o planejamento

O processo é gradual, lento, consequência de uma mistura entre críticas e resitências. A Secretaria de Educação, administrada pela Frente Popular, vem alterando aos poucos o cotidiano escolar. Escrevi neste blogue que a secretaria comete erros há anos, porém eu prefiro esses erros àqueles antes de a Frente Popular chegar ao poder.

Voltemos. Uma alteração recente diz respeito ao planejamento pedagógico do corpo docente, não de indivíduos isolados. Se um membro não se mexe, não faz o que tem de fazer, o corpo fica comprometido. Até 30 de novembro, o corpo docente deveria apresentar ao coordenador pedagógico um parecer. O único dia para reunir os professores, 28 de novembro, dia do pagamento. Não houve reunião.

Há reunião para alongar feriado, entretanto não há reunião para planejamento. Como o corpo docente ausentou-se, como o todo não planejou, o meu 14º salário não cairá em minha conta. Dependo de outros para receber mais um pouco. Meu trabalho depende de outros, da boa vontade de outros.

A secretaria, nesse ponto, está correta.

11/26/2009

Paixão

Os clássicos são sábios quando pensam sobre a paixão. Em A República, de Platão, sinônimo de paixão é cólera, isto é, doença. E, dessa forma, como toda doença, a razão não domina o que o corpo sente. O corpo sofre por ter sido afetado, eis o afeto por alguém.

Já não somos senhores, mas objetos e, como tais, manipulados pelo capricho do tempo, pela ausência absoluta de autodomínio. Por causa disso, em versos árcades, os amantes, curados da doença, não se apaixonam. O arcadismo é frio porque a emoção foi exilada por ordem da razão.

Cessada a chama, sobram as cinzas, a quietude. Inicia-se o Amor.

11/25/2009

Boa música com boa letra

Ponty

Há pensadores que me seduzem. Um deles é Nietzsche, um dos maiores escritores do século 19. Em Assim falou Zaratustra, sua filosofia lírica empobrece o Evangelho de Cristo. Não é o conteúdo do pensar que me seduz, mas a forma como o conteúdo se apresenta.

Em 2003, quem me seduziu foi Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção. Semelhante a Nietzsche, Ponty é poético, lírico. Sob teus olhos, eis alguma palavras desse fascinante escritor.

Na parte sobre O Corpo...

"Aquilo que procuramos possuir não é portanto um corpo, mas um corpo animado por uma consciência e, como o diz Alain, não se ama uma louca, exceto se já a amássemos antes de sua loucura."

11/24/2009

O Mal

"O princípio do mal não é moral; é um princípio de desequilíbrio e de vertigem, princípio de complexidade e de estranheza, de sedução, de incompatibilidade."

De A Transparência do Mal, Jean Baudrillard

11/23/2009

Quantidade X Qualidade

Projeto de lei quer limitar número de alunos por sala
Especialistas afirmam que a medida pode melhorar o aprendizado, principalmente para alunos que têm dificuldades

De Danilo Venticinque

Qual é o número ideal de alunos em uma sala de aula? Durante muito tempo, a pergunta foi motivo de discussão entre educadores. Agora, os senadores também entrarão no debate. Um projeto de lei que tramita no Congresso pretende estabelecer limites para o número de alunos por professor nas diferentes faixas etárias do ensino público. Em setembro, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta. No Senado, ela aguarda o parecer do relator Flávio Arns (PSDB-PR) antes de ser votada na Comissão de Educação.

ATENÇÃO
Além de ser mais silenciosas, salas menores permitem que o professor conheça melhor as dificuldades de cada aluno Se for aprovado, o projeto tornará obrigatórias as recomendações do Ministério da Educação (MEC), definidas em 1999 nos Parâmetros Nacionais de Qualidade da Educação Infantil. “Apesar de estabelecer os parâmetros, o MEC não tem poder constitucional para forçar os Estados e municípios a reduzir as turmas”, afirma Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do MEC.

Embora as médias nacionais estejam próximas dos parâmetros do MEC, alguns Estados têm médias superiores às recomendadas. Em Alagoas, por exemplo, turmas da 6ª à 9ª série têm quase 37 alunos – sete a mais do que o recomendado para a faixa etária. No Amazonas, a diferença é ainda maior: as salas de aula da 1ª à 5ª série do ensino fundamental têm em média 34,7 alunos, enquanto o MEC recomenda apenas 25.

Limitar o número de alunos por sala de aula pode ser uma maneira eficiente de melhorar o aprendizado e diminuir as diferenças de conhecimento dentro da mesma turma. Em outubro, a Universidade de Chicago fez uma pesquisa com 11 mil alunos do jardim da infância à 3ª série nos Estados Unidos. Os resultados comprovaram que classes com 13 a 17 alunos têm desempenho melhor do que turmas maiores em todas as disciplinas, com destaque para ciências e literatura.

Segundo os pesquisadores, os mais beneficiados foram os estudantes que tinham dificuldades de aprendizado nessas duas áreas. Nas salas menores, todos os alunos se saíram melhor, mas a diferença entre as maiores e as menores notas diminuiu muito. A longo prazo, a distância entre os melhores e os piores alunos tende a ser ainda menor.

Especialistas brasileiros ouvidos por ÉPOCA dizem que os resultados da pesquisa se aplicam ao sistema de ensino do Brasil. “Em salas muito grandes, o aluno carrega a dificuldade ao longo do ano. Às vezes o professor até percebe, mas não tem condições de ajudar”, afirma a professora Ângela Soligo, coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp. As especialistas afirmam que as salas de aula com menos alunos são mais silenciosas, o que ajuda na concentração dos alunos. As tarefas fora da sala de aula também são beneficiadas com as turmas menores. “Com menos alunos por sala, há momentos de atenção mais individualizada”, diz a pesquisadora da Letícia Nascimento, da Universidade de São Paulo. Os professores têm mais tempo para se dedicar à correção de cada trabalho ou prova, podendo conhecer melhor as deficiências de cada estudante.

Confira abaixo os limites previstos pelo MEC para os diferentes níveis da educação básica:

Jardim da infância (de 3 a 4 anos)
Até 15 alunos por sala

Pré-escola (de 4 a 5 anos)
Até 20 alunos por sala

Ensino fundamental (1ª à 5ª série)
Até 25 alunos por sala

Ensino fundamental (6ª à 9ª série)
Até 30 alunos por sala

Ensino médio
Até 35 alunos por sala

11/22/2009

A escola pública do PSDB e do PT

Para os veículos de comunicação de massa do Acre, a escola pública nunca entra em pauta, a não ser quando existe ocorrência de violência ou de droga. Diferente daqui, a revista VEJA publicou uma entrevista interessante sobre educação pública.

No Acre, nenhuma notinha nos jornais sobre a entrevista que o secretário de Educação de São Paulo, sr. Paulo Renato (PSDB), concedeu à revista no dia 28 de outubro. Entretanto, após quase um mês, não quis deixar em branco meus comentários sobre a escola pública segundo essa entrevista.


"Contra o corporativismo" é o título da entrevista e, nas primeiras linhas, o ex-ministro da Educação declara que, "sem meritocracia, não haverá avanços em sala de aula". Leciono há 12 anos na rede pública do Estado do Acre e, até hoje, não senti o aroma do mérito. Nas escolas públicas acrianas, se o professor lecionar melhor, seu salário permanece o mesmo. A Secretaria de Educação não reconhece o mérito.


Os cursos
Serei específico. Nos últimos anos, a Secretaria de Educação do Acre promove cursos para professores do ensino médio, lembro-me de um deles: letramento. Eu não assisti a todas aulas e, por causa disso, não recebi da secretaria um certificado que comprova o tempo devido dedicado ao curso.

Sem esse certificado, o meu décimo quarto salário ficou comprometido. Todavia, quem recebeu o certificado do curso de letramento e submeteu-se ainda a outras exigências da Secretaria da Educação receberá seu décimo quatro salário.

Letramento
Pergunto: receber certificado do curso de letramento representa qualidade de ensino na sala de aula? Se o professor aprendeu algo no curso, quem constata esse aprendizado em sala de aula? Conheço colegas de profissão - eu disse colegas - que receberam o certificado de letramento, mas não o aplicam em sala de aula.

Ora, se não aplica, se o aprendizado não retorna à sala de aula, se a secretaria não tem formas para conferir se o professor emprega o letramento em sala de aula, isso significa dinheiro público desperdiçado.

A Secretaria de Educação emite certificados, mas ignora o que ocorre em sala de aula, porque não possui meios para examinar o que acontece entre professor e alunos. Ora, para examinar, a secretaria depende também de quem administra a escola. E aí Paulo Renato diz:

"As boas escolas são comandadas por diretores com uma visão moderna de gestão, coisa raríssima no país. Não existe no Brasil nada como um bom curso voltado para treinar esses profissionais a liderar equipes ou cobrar resultados, o básico para qualquer um que se pretende gestor."

Em São Paulo, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no lugar de oferecer cursos, criou a Escola do Magistério, ideia que o PT acriano deveria copiar.

Contra a isonomia
Antes, o governo do PT propagava que o professor acriano recebia o maior salário do Brasil. Depois que salários dos estados e do Distrito Federal foram publicados - este blogue divulgou, houve o silêncio. Em São Paulo, onde o custo de vida é menor, o salário do professor chega a R$ 3 mil, com um só contrato.

Outra diferença. Enquanto o PT acriano põe fé na isonomia salarial, o PSDB de São Paulo prefere a diferença.

"Nós limitamos o número de promoção por ano: não mais do que 20% dos profissionais poderão subir de nível. É um teto razoável: evita um rombo no orçamento e, ao mesmo tempo, promove uma bem-vinda competição. Demandará mais empenho e estudo dos professores - o que não lhes fará mal."

Segundo Paulo Renato, é consenso entre especialistas do mundo que aumentos concedidos a uma categoria inteira, desprezando as diferenças de desempenho entre profissionais, não têm impacto relevante no ensino. O PSDB defende a ideia de que o que faz a diferença é conseguir premiar os que se saem melhor em sala de aula. "A isonomia é uma bandeira velha", critica o secretário de Educação de São Paulo.

Não voto no PSDB. Só aprecio boas ideias.

11/20/2009

Blogue Aberto a Edvaldo Sousa

No Acre, não há um articulista que saiba com equilíbrio tecer críticas a certos programas da tevê acriana. Nossa programação local age livre e impune. Neste blogue, critiquei o programa Gazeta Alerta, não foi um texto profundo, admito, mas a crítica houve. Soube que Edvaldo Sousa, o âncora do programa, não gostou.

Hoje, feriado, quando trocava o canal de televisão, ouvi a voz de Edvaldo Sousa no jornal Gazeta em Manchete, o que estranhei, porque seu horário é outro. Parei para ouvi-lo. Era uma matéria sobre a miséria de um idoso de 94 anos que mora em um barco.

Não era mais o Edvaldo Sousa do programa Gazeta Alerta. Sua fala de jornalista emocionou-me por não ter aqueles clichês de seu programa. Com essa matéria, ele revelou a função grandiosa de ser repórter.

Depois, a âncora Mara Rocha disse que o poder público retirou o idoso do local para dar condições dignas a ele. A matéria de Edvaldo Sousa mudou a vida desse humilhado homem.

Penso que o Gazeta Alerta deveria ser outra forma de programa para transmitir um Edvaldo Sousa com outra função social, com outra capacidade de abordar a violência. Hoje, o Gazeta Alerta, por causa de sua forma, é muito pouco para Edvaldo Sousa.

Parabéns, cara!