sábado, setembro 30, 2017

O DEUS DAS IGREJAS AGORA É O DEUS DAS ESCOLAS
De Aldo Tavares, graduado em Letras,
pós-graduado em Pedagogia e em Sociologia e mestre em Filosofia
            
            Quem assistiu no dia 27 de setembro deste ano ao encontro dos ministros do Supremo Tribunal Federal apreciou o exercício profundo sobre o Ensino Religioso na escola pública. Até à belíssima argumentação do ministro Celso de Mello, a favor do Ensino Religioso não Confessional, a votação era 5 a 5.


            Com 6 votos contra 5, o STF aprovou esse ensino como confessional. A ministra Cármen Lúcia quem bateu o martelo, possibilitando que pastor, padre, monge e pai-de-santo, por exemplo, propaguem a sua fé em sala de aula. Com esse resultado, prevalece a fé na escola, e não o saber sobre o sentido da transcendência, o que caberia à Filosofia; e não as relações entre as religiões no tempo, o que caberia à História; e não
uma leitura atual de religiões na sociedade, o que caberia à Sociologia.


            O voto de Cármen Lúcia, por ter ignorado tais ciências, transformou alunos em fiéis e professores em religiosos que professam a fé. Isso não é estado laico; seria estado laico se a ciência pensasse conceitos religiosos, pensasse a religião e pensasse, inclusive, o ateísmo, porque entendo que pensar o religioso passa também por aqueles que o negam.


            Diante disso, pergunta-se: um aluno católico desejará assistir à profissão de fé de um protestante? Uma aluna de igreja evangélica ouvirá as palavras de um pai-de-santo? A escola não é o lugar da fé, por exemplo, católica e protestante, visto que isso cabe às igrejas. A sala de aula é o lugar onde alunos deveriam pensar conceitos religiosos, onde deveriam pensar a história da religião e onde deveriam pensar o fenômeno religioso hoje. A escola é lugar da ciência. Mais: a religião é ciência, e podemos constatar isso na Idade Medieval, quando sacerdotes cristãos eram também cientistas. Vejamos.


            Neste ano, a Universidade de Oxford, do Reino Unido, foi escolhida como a 6ª melhor do mundo. O germe dessa instituição data de 1096, ou seja, século 11, quando ainda era Escola de Oxford. O nome Universidade ocorre em 1167, século 12, por causa do rei Henrique II da Inglaterra.


            O seu alicerce de ensino é franciscano, quer dizer, a base da Universidade de Oxford é cristã, sendo seus estudos empírico e prático, portanto, uma extensão da Igreja. O primeiro grande nome de Oxford chama-se Roberto Grosseteste (1168-1253), fundador da escola Franciscana de Oxford e quem influenciou Issac Newton no tocante ao estudo de óptica. Rogério Bacon (1210/1215-1294) o chama “homem de ciência”, o que significa afirmar que o cristianismo realiza ciência, mesmo porque ela é herdeira dos pensamentos platônico e aristotélico. Bacon também foi franciscano e fez ciência, melhor, fez “epistéme”, sendo precursor do método científico.


            Muitos são os sacerdotes que se dedicaram à ciência. Nicolau Copérnico (1473-1543) foi cônego da Igreja Católica. Robert Boyle (1627-1691) é considerado o fundador da Química Moderna.  Issac Newton (1642-1727) foi cristão. O pastor inglês Stephen Hales (1677-1761) foi o primeiro a levar os métodos da Física para a Biologia. O pastor inglês John Mitchell (1724-1793) é considerado "O pai da Sismologia", primeiro a considerar a existência de buracos negros, isso cerca de 200 anos antes destes serem descobertos. Gregor Mendel (1822-1884) dedicou sua vida à ciência, fundamentando princípios da teoria da evolução. Descobridor da genética, Mendel foi monge agostiniano. No Rio de Janeiro, o monge beneditino Dom Anselmo Nemoyane Ribeiro é mestre em Sociologia, sendo um profundo conhecedor da obra de Bruno Latour, filósofo do século 21 que pensa a ciência. “O pensamento cristão sempre se dedicou à ciência porque a metafísica é ciência; porém, depois, principalmente na Escolástica, a ciência tomou forma experimental por causa de que a Igreja começou a ler, principalmente por causa de Tomás de Aquino, os textos de Aristóteles”, afirma Anselmo.


            Essa relação entre ciência e pensamento religioso nem chegou a ser esboçada pela ministra Cármen Lúcia, reduzindo a disciplina Ensino Religioso à fé, quer dizer, em uma instituição escolar, lugar do saber, a fé, que não se propõe a refletir sobre a palavra, mas de só aceitá-la, pois a fé não questiona, o aluno permanecerá mudo para só ouvir a palavra de quem professa na sala de aula a fé católica, a fé protestante, a fé kardecista. A ministra subordinou a escola à igreja, ao terreiro, à sinagoga. Os segmentos fanáticos, que estarão nas salas de aula, estão louvando a Deus até agora.


            Por causa do voto (INFELIZ) da ministra Cármen Lúcia, o Deus nas igrejas será o mesmo nas escolas públicas, qual seja, os alunos ouviram religiosos professarem a fé. Ora, a natureza da fé não é pensar a palavra, e sim aceitá-la como dada, porque a fé não duvida. Quando uma mãe afirma ao filho que o ama, ele não põe em dúvida a palavra dela. Em silêncio, o filho acolhe a palavra materna. Ele não analisa a mãe, ele não pergunta o porquê de ela o amar. O filho só confia. Um Ensino Religioso confessional, pela natureza do que é confessional, é a presença da palavra não pensada na escola, isto é, no lugar onde deveria se pensar Deus por meio da ciência.


            Segundo o pensamento árido e profundo de Immanuel Kant, Deus não pode ser conhecido, mas pode ser pensado pela metafísica, compreendendo que a metafísica é ciência, ou seja, é "epistéme". Penso que o livro mais apropriado para entender que Deus pode ser pensado pela metafísica seja "Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura", de Kant, editora 70. Pensar Deus só pode ocorrer na escola, lugar do pensamento se pensar, mas até isso o voto do Supremo retirou da escola, impondo à sala de aula ser uma extensão da fé.


            Caberia à Filosofia o papel de pensar os conceitos inerentes ao Ensino Religioso, caberia à História pensar o passado entre as religiões e caberia à Sociologia ler as religiões hoje, porém a ministra retirou essas ciências da escola, espaço natural delas, a fim de colocar no lugar o que não é natural à escola: a profissão de fé. Caberia...


            Sem Filosofia, sem História e sem Sociologia que pensem conceitos e religiões, a fé manifestará não só a palavra não pensada como também um certo grau de ignorância sobre o pensamento religioso. Assim sendo, o aluno não saberá a relação entre o religioso e o teatro, entre o religioso e a ciência, entre o religioso e o materialismo histórico, entre o religioso e a estrutura judicial, entre o direito divino ou natural e o direito positivo, entre o religioso e Hegel, entre o religioso e Nietzsche, entre o religioso e o romantismo, entre o religioso e a luta política, entre o religioso e a arte.


            No momento em que o marxismo rever o conceito de sagrado por meio dos filósofos Slavoj Žižek e de Giorgio Agamben, Cármen Lúcia retira da escola o saber sobre o religioso. A escola pública ficou mais pobre de ideias, porque o aluno deixará de conhecer a importância do conceito de espírito no marxismo, como pensa Žižek, que afirma ser um “teólogo materialista”.


            Gilles Deleuze diz que “não se pode pensar sem antes passar por Deus”. Por causa de Cármen Lúcia, o aluno passará pelo Ensino Religioso sem pensar Deus.            

sábado, setembro 09, 2017

Palocci, Lula e Platão


De Aldo Tavares

Com o depoimento de Antônio Palocci a Sérgio Moro em 6 de setembro deste ano, Lula conheceu o que é capaz de fazer um “amigo”. Palocci já abriu a boca contra Lula e Dilma e, bem mais do que falar, o Italiano tem provas e mais provas, farta documentação de quem foi o centro do poder durante o governo de Lula.

Para os luletes e as luletes, Palocci foi pressionado por Sérgio Moro e pelos procuradores para mentir. Para os fãs, só Lula é a luz, a verdade e o caminho, não passando Palocci de um réu que só quer diminuir seus dias na cadeia e, para tanto, o Italiano mente, mente e mente.

Um dia após a delação, Dilma Rousseff disse em nota que “Palocci mente e ágio pago pela Odebrecht prova sua ficção”. Lula declarou que “Palocci é meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do Brasil. Ele tá trancafiado, mas não tenho nenhuma preocupação com delação dele”.

Quem mente? A palavra “mentir” significa “esconder”. Dessa vez, Palocci assumiu que é o Italiano, ou seja, ele não se esconde mais, colocando-se como corrupto. Palocci assumiu a sua corrupção. Nesse sentido, ele não mente, porque não se esconde mais, quer dizer, ele não mente. Quanto a trair Lula para diminuir seu tempo de prisão, é bom lembrar que a delação não se limita à fala, são necessários os devidos documentos. Palocci já afirmou que os tem. O Italiano, enfim, não só abriu a boca contra Lula e Dilma como também abriu a boca contra ele mesmo. Palocci traiu os governos do PT e, mais do que isso, ele traiu a ele mesmo. 

O que dizer de uma pessoa que se diz corrupta? Podemos dizer que ela fala a verdade, porque ela não só coloca Lula como se coloca como corrupta. Quem dirá que Palocci não diz a verdade quando ele tem provas contra ele mesmo? No entanto, luletes e dilmetes dizem que só os seus mitos falam a verdade. Mas o que é a verdade? A verdade é o que é visto, é o que se apresenta aos olhos, ou seja, a verdade é o real. Só Lula e Dilma são reais, eles não traíram a esquerda e nem o Brasil. Eles falam a verdade.


Mas o que é o real? Ora, segundo Platão, o real é aparência, quer dizer, não podemos confiar nela porque não podemos confiar nos sentidos, sempre enganosos; porém não há outro meio de acesso ao real senão pelos sentidos. Assim, os sentidos, que são enganosos, sempre escondem algo do real, por isso que em A República Platão afirma que o real é mentira, mas mentira nobre, em outras palavras, por ser nobre, a mentira diz ser verdadeira. 

O traidor encontra-se na instância da mentira nobre, não podendo ser (des)coberto no espaço público à luz do dia, podendo ser (des)coberto somente no espaço do íntimo - como no filme Coração Valente – ou ele, a público, dizendo e provando ser traidor, como o caso de Palocci.

Enquanto Lula não afirmar publicamente que é traidor da esquerda e da Nação, luletes o defenderão. Entretanto, caso Lula assuma sua culpa, seus fãs ainda pedirão provas e, caso ele as apresente, ainda dirão que Lula as forjou. O real é patológico.

terça-feira, junho 21, 2016

3º ANO: de Lógos ao Princípio Ético

PARTE I

I) As três ciências de Aristóteles (384-383
- 323 a. C).

1. Ciências Práticas:
elas se referem às ações que têm seu início e seu tempo no próprio sujeito que age: são as ações morais; o saber relaciona-se à atividade prática: a moral (ética e política); 

2. Ciências Poiéticas ou Produtivas:
elas se referem às ações que têm seu princípio no sujeito, mas são dirigidas a produzir algo fora do próprio sujeito (arte, incluindo medicina); e

3. Ciências Teoréticas:
física, matemática e metafísica (teologia natural ou filosofia)

II) Metafísica, o saber em si.

1.
Afilosofia primeira” refere-se às realidades que são separadas e imóveis, mas é conhecimento da substância primeira e mais elevada e, sendo primeira, é suprema, ou seja, é a causa de todas as coisas, é universal, qual seja, substância primeira;

II) Lógos é o que Aristóteles chama de substância (ousia).

1.
Substância é “sub-stare”, ou seja, significa “por baixo de todo estar”, compreendendo que o verbo “estar” relaciona-se a movimento, à inconstância, à variação, quer dizer, ao que está sendo;

2. Por ser “sub-stare”, a substância nunca aparece em uma experiência sensível, porque essa experiência nos mostra não o que é, mas o que está sendo. A substância sustenta o mundo sensível, permitindo que ele seja conhecível e pensável, isso quer dizer que a substância determina o que uma coisa é e a substância permanece em tudo que muda. Por causa disso, a substância, princípio de organização do mundo sensível, é imaterial, incorpórea, inteligível;

3.
Inteligível vem de “inte-legere”, que significa “ler dentro”, ler o interior, ler o profundo a fim de fundamentar, sabendo que a essência reside abaixo da superfície;

4.
A substância é o imóvel que é causa absoluta do móvel, ou seja, a substância sustenta o mundo sensível e determina o que uma coisa é, porque ela permanece em tudo o que muda;

5.
A parte imaterial da substância é a forma, o mesmo que essência; e a parte material é a potência, isto é, o que está sempre se devindo;

6.
Se, para Platão, o sensível não passava de mera aparência destituída de ser, o sensível, para Aristóteles, tem ser, mas é um ser em potência, ou seja, a Essência não está no mundo Ideal, mas encontra-se no mundo material.

7.
A substância composta é essência e acidentes. A essência vem acompanhada da ideia de necessidade, por exemplo: a essência de Platão é ser homem.

III) A Substância determina a ideia de Ética.

1.
A Ética nasce na Grécia entre os séculos V e IV antes de Cristo, adotando uma nova forma de linguagem, a do logos demonstrativo ou da linguagem epistêmica, que é a da ciência. A Ética tem como estrutura fundamental a lógica;

2.
A ciência nasceu como ciência da natureza (phisis) na Jônia do século VI, onde se formularam as primeiras regras do discurso científico ou as regras da necessidade lógica, ligando o antecedente e o consequente;

3. Ética é a ciência do ethos. Mas o que é ethos? Esse termo deriva de éthos, que significa “caráter habitual”, sendo equivalente ao termo latino moral, que é a “ciência dos costumes” ou “conjunto de costumes normativos da vida de um grupo social”. O grego arcaico, no entanto, não distinguia éthos de êthos, sendo que êthos significa “hábito” no sentido de “constância do comportamento do indivíduo cuja vida é regida pelo ethos-costume”. Aristóteles faz Ética derivar de êthos, cuja etimologia original é “morada, covil ou abrigo dos animais”.

domingo, junho 19, 2016

LÓGICA ARISTOTÉLICA (2º ANO)

DO LÓGOS AO PRINCÍPIO DA LÓGICA
Professor de Filosofia
Aldo Tavares

Conforme o Currículo Mínimo o Estado do Rio de Janeiro

Instrumentos do Pensar Filosófico:
- Apropriar-se de princípios e de alguns dos instrumentos da lógica para o pensar filosófico; e
- Desenvolver o raciocínio lógico e a argumentação.

A LÓGICA
OU A ANALÍTICA DE ARISTÓTELES (384-383 - 323 a. C)

I) SILOGISMO CONFORME A SUBSTÂNCIA

a) Silogismo 1

1ª premissa: A liberdade do ser humano é fazer o que ele quer.
2ª premissa: Judas quis trair Jesus.
3º conclusão: Logo, Judas é um ser humano livre.

b) Silogismo 2

1ª premissa (maior): Todos os animais (termo médio) são mortais.
2ª premissa (menor): Todos os homens são animais (termo médio).
3ª premissa (conclusão): Logo, todos os homens são mortais.

OBS. 1ª) “
Animais” desempenha a função de “termo médio” do silogismo e, por isso, ele é a “substância” ou alusão à “substância”. Por causa disso, existe a conclusão. Nesse caso, o silogismo é uma dedução necessária, ou silogismo demonstrativo, ou silogismo científico, ou silogismo do universal;

OBS. 2ª)
A lógica aristotélica (lógica clássica ou formal) é, fundamentalmente, um processo discursivo que tende a determinar o porquê ou a causa;

OBS. 3ª)
O lógica do silogismo demonstrativo deve fazer uso de axiomas, ou seja, proposições verdadeiras.

II) Órganon (instrumento ou meio)

1.
Raiz “stru, struō”: subjacente à prática, essa raiz dispõe uma ordem que fixa, que mobiliza e que promove relações; essa raiz que tem como 1º) significado levantar, sustentar; 2º) significado retirar; e 3º) confortar,  juntar, ligar, preparar, compor, tecer, tramar, formar, causar, cobrir; e também tem o sentido de o que produz, o que causa;

2. Alexandre de Afrodisia (198
- 209 d. C) “introduz o conceito de órganon para designar lógica em seu conjunto (e que, a partir do século VI d.C, foi utilizado como título do conjunto de todos os escritos aristotélicos relativos à lógica) define o conceito e a finalidade da lógica aristotélica, que forneceria os instrumentos mentais necessários para enfrentar qualquer tipo de investigação” (REALE, p. 151-52);
3. “Aristóteles
, que nasceu em Estagira (384-383 - 323 a. C), hoje Tessalônica, preferiu usar a palavra “”analítica”, e Analíticos é o título dos escritos fundamentais do Órganon” (Ibid, p. 152); como disciplina intelectual, foi criada no século IV a. C);

4.
Além de Analíticos, Aristóteles usa a expressão Escritos sobre o silogismo para referir-se a esses textos” (Ibid, NOTAS, p. 174);

5. O conceito analítico
significa “separação, resolução, dissolução”. “A analítica (...) explica o método pelo qual, partindo de determinada conclusão, podemos decompô-lo nos elementos dos quais ela deriva, isto é, nas premissas de onde brota; assim, é possível fundamentá-la e justificá-la” (Ibid, p. 152);

6. Analítica
ou Órganon divide-se em seis tratados: 1º) Categorias, 2º) Da Interpretação, 3º) Analíticos Anteriores, 4º) Analíticos Posteriores, 5º) Tópicos e 6º) Refutações Sofísticas. Como os tratados 3º) Analíticos Anteriores e 4º) Analíticos Posteriores são os fundamentais, as aulas se fixaram neles porque ambos referem-se ao que Aristóteles chamava de Escritos sobre o silogismo;

7.
Analíticos Primeiros trata da estrutura do silogismo, termo vem do grego “syllogismós, cuja etimologia indica um conjunto ou uma reunião (de proposições), um raciocínio, sem determinar sua forma precisa. (...). Mas existe um emprego propriamente aristotélico desse termo, que designa, então, um raciocínio dedutivo de forma particular. A definição geral que Aristóteles dá é: ‘o silogismo é um discurso pelo qual, estabelecidas certas coisas, uma outra coisa resulta necessariamente devido a esses dados apenas’” (Primeiros analíticos I, 1, 24b18 apud PELLEGRIN, p. 57);

8. Analíticos Primeiros: 1º)
trata da estrutura do silogismo, de suas diversas figuras e de seus diferentes modos, considerando seu aspecto formal; 2º) esse aspecto prescinde de seu valor de verdade e examina apenas a coerência forma de raciocínio; e 3º) parte-se de determinadas premissas para deduzir as consequências que elas impõem (REALE, p. 153);

9. Analíticos Segundos: 1º)
além de correto formalmente, trata do silogismo verdadeiro das premissas (e das consequências), ou seja, pensa o silogismo científico ou demonstrativo (REALE, p. 153 e p. 164); 2º) a demonstração científica está quase inteiramente ligada à concepção metafísica de substância (ou essência, ou forma, ou eidos) (REALE, p. 165).

10. Silogismo: 1º) raciocínio
: passamos a raciocinar quando proposições têm determinados nexos entre si e que sejam, de certo modo, causas umas das outras, umas antecedentes, outras consequentes. Não há reflexão sem nexo, sem esse caráter de consequência; 2º) o silogismo se constrói com três proposições: dois antecedentes (ou duas premissas) e a terceira proposição é o consequente ou conclusão que deriva das duas premissas.

domingo, junho 12, 2016

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO


Quando abrimos as primeiras páginas do apóstolo João, lemos que “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Princípio. Verbo. O que é o princípio? O que é verbo? Antes de qualquer coisa, saibamos que esses dois termos são as traduções latinas dos gregos arkhé (ἀρχή), “princípio”, e lógos (λόγος), “verbo”. Embora tenhamos em são João o termo arkhé, este texto seguirá só com lógos.                                                                 .          

Antes de buscarmos o significado de verbo em português, a origem desse termo é grega, ou seja, “verbo” passou pelo filtro da cultura romana. Por causa dessa passagem da língua grega para a língua latina, perdeu-se o sentido original, pois se perdeu a vida da palavra.
                                                                                                   .
Segundo a obra De Magistro, de Agostinho, verbo afirma “tudo o que é proferido por uma voz (vox) articulada com uma significação percute (verberare) no ouvido para ser percebido e é confiado à memória para ser conhecido (nosci)”. Nesse aspecto, verbo é palavra; mas entendamos “palavra” enquanto sentido original de “palavra interior”, porque, na obra De Trinitate, ainda de Agostinho, “verbum não abandona a alma daquele que fala”. Palavra é, portanto, o que vem do íntimo para o outro que me escuta, sabendo que, entre quem fala e quem ouve, só há encontro por pertencer à natureza da palavra a ordem.                                              .

“Lógos também foi traduzido para o latim como “ratio” ou “razão”. Mas qual a origem de “ratio”? Razão designava “a conta que o escravo mantinha com seu dono em um livro-razão”. Então, “ratio” pertence à ordem dos números, ou seja, por “ratio” derivar do verbo latino “reor”, a conjugação é “eu conto, eu cálculo”. Infelizmente, nós herdamos da cultura romana a ideia de razão, tendo sido sepultada a ideia de razão segundo os gregos.                                                                                                             .
Em grego, “lógos” não tem sua origem em livro-razão, objeto do comércio, do negócio, onde o número é precisão ou coisa em si mesma. Em grego, “lógos”, originado e pensado por Heráclito de Éfeso (544?-474? a.C), possui beleza metafísica que, embora tamanha beleza tenha sido muito alterada ao longo de séculos, chegou a nós pelo pensamento católico
                                                                                                         .
Primeiro a pensar no cristianismo a relação entre o divino e o humano foi Orígenes (185-253 d.C), discípulo de Clemente de Alexandria (150-215 d.C). Ainda que Heráclito tenha sido o primeiro a pensar “lógos”, Orígenes foi influenciado pela noção estoica, que é a ordem racional do mundo, ou seja, “lógos” é força de unidade na dispersão, princípio divino que vive nos homens, divinizando-os. Jesus é o “Lógos”, ou seja, sua natureza é dupla, divina e mortal, infinita e finita, imanente e transcendente, visto que “Lógos” é fonte das duas naturezas de Jesus Cristo. A beleza e a profundidade do pensamento de Orígenes, podemos encontrar em “Tratado sobre os Princípios”, páginas originárias dos pensamentos de Hegel (1770-1831) e de Feuerbach (1804-1872) a respeito da natureza dupla de Jesus.

Aldo Bourdieu
(língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.