sexta-feira, outubro 19, 2007

A Folha de São Paulo nos pauta mal

Artigo publicado neste sábado na TRIBUNA, dia 20
De Aldo Nascimento

Na matéria Professor de SP ganha 39% menos que do AC, publicada em 14 deste mês pela Folha de São Paulo, a repórter Daniela Tófoli evidenciou em seu texto um conhecimento profundo sobre sua ignorância a respeito do Acre, isto é, ela não sabe quanto custa uma cenoura e um pepino em Cruzeiro do Sul.

Daniela afirmou que a cesta básica na terra da garoa, comparada à da terra de minha filha, custa R$ 194,34 (São Paulo) contra R$ 124,47 (Acre).

Enviei uma carta eletrônica à jornalista, aconselhando-a a passar um ano na terra dos nauas. Por causa dessa cesta básica, ela contabiliza uma diferença de 60% entre professores de José Serra (PSDB) e de Arnóbio Marques (PT). Daniela, em Cruzeiro do Sul, dois litros de Coca-Cola custam R$ 8.

A autora informou ao Brasil todo que o salário do professor é R$ 1.580. Mentira. Bruto, ele chega a R$ 1.560. Repito: bruto. Líquido, o salário acreano fica em R$ 1.408, sendo que o professor leciona para três turmas e sua carga de trabalho limita-se a 30 horas por semana.

Com esse número, façamos as contas:

Aluguel: R$ 400 – professor não paga aluguel?
Compras: R$ 400 – professor se alimenta bem?
Telefone: 100 – professor se comunica?
Internete: 130 – professor pode estar na rede?
Livros: 100 – professor compra seus livros?
Escola: 130 – filho de professor pode estudar em escola particular?
Gasolina: 100 – professor pode passear de carro?
Luz: 160 – professor pode usar ar-condicionado sem “gato”?
Água: não paga – professor toma banho com água de poço?

Total: R$ 1.520 em Rio Branco. Sem considerar outros gastos, ele deve R$ 112 no final mês. Professor poupa mensalmente? Com esse salário, portanto, deputado-professor e vereador-professor, quando deixarem de estar parlamentares, serão outra vez professores, porque o salário é o melhor do país.

Cínico, no mínimo, comparar com o pior. Muito semelhante quando se compara o atual salário ao da época desgraçada do ex-secretário de Educação, Alércio Dias, cujos índices assemelhavam-se a um professor do continente africano.

Evidente que não sou estúpido a ponto de ignorar ações benéficas na educação acreana depois que a Frente Popular chegou a poder. Não há dúvidas de que o salário aumentou muito em relação a políticas antieducacionais de desgovernos anteriores, mas afirmar que se trata de um salário à altura do que a educação representa para uma nação, bem, aí é demais. Gosto de seguir os bons exemplos salariais de professores chilenos e argentinos. São Paulo e Rio de Janeiro não são bons exemplos.

Comparar ao pior, no mínimo, repito, é cinismo.

Nesta semana, em uma sala do pré-vestibular Ideal, diante de 32 alunos, perguntei quem desejava cursar uma faculdade para ser professor. “Eu quero lecionar a disciplina Biologia”, disse-me um solitário aluno. Um.

Quem for a um pré-vestibular do Acre não encontrará muitos jovens que desejam ser professores, porque, dizem, o salário não compensa. O crime, esse sim, compensa, por isso esses jovens desejam ser advogados, promotores e juristas. Eles desejam ser médicos. Na conta bancária, professor vale bem menos do que advogado, bem menos do que médico. Trata-se de uma verdade no mercado de trabalho.

Mas nem tudo está perdido, professor. Se o senhor gosta de estrada, se o senhor gosta de apreciar carros em avenidas, o concurso da Polícia Federal está aberto. Com apenas o ensino médio, o senhor receberá por mês mais de R$ 5 mil. Repito: só com o ensino médio.

Muito mudou, eu sei. Muito ainda mudará. Sem ser professor, Lula possibilitará um piso salarial de R$ 950 para todos os professores do país. Fernando Henrique, um professor, ignorou isso em seu governo.

Só discordo desse ufanismo salarial no Acre. É preciso equilíbrio.

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