quinta-feira, dezembro 04, 2008

Como referência...

No Acre, certos jornalistas têm como referência jornais do sul do país. Se escrevem assim, copiaremos. Leia esta resposta de Pasquale. Depois, leia sua resposta sobre o estrangeirismo.

Como anda o português no jornalismo?
Pasquale — É complicado discutir isso porque não se pode traçar um perfil. Depende do jornal, do ritmo. Imagina um jornal como a Folha de S. Paulo, que tem duas edições, pelo menos. A nacional tem de fechar às 8h e às cinco para as 8h está acontecendo o diabo e a matéria tem que ser escrita em cinco minutos. Então o que acontece? Besteira, é óbvio. Então não tem como exigir a perfeição nesse tipo de situação. E nós temos na Folha um trabalho que já vai longe. Eu estou lá desde 89. A Folha tem hoje duas professoras de português que ficam lá todo santo dia prestando assessoria e, mesmo assim, passa o diabo. De um modo geral, eu vejo a imprensa preocupada com a língua, o que é muito bom. O texto jornalístico brasileiro, na grande imprensa, tem um determinado padrão de correção. É um texto que pode ser chamado de semiformal. É um texto que serve com experiência para as pessoas que querem algo que ultrapasse as fronteiras do coloquial.

O que você acha do projeto do deputado Aldo Rebelo para proibir o uso de expressões estrangeiras na língua portuguesa?
Pasquale — Eu já disse isso a ele pessoalmente quando foi entrevistado por mim no programa “Nossa Língua Portuguesa”, falei que não acredito no projeto e ele disse que se fosse professor de português talvez não acreditaria também. Eu reconheço que existe um abuso, devido muito mais a tolice do que a qualquer outra coisa. Eu só posso justificar pela tolice alguém colocar uma propaganda e, na hora de anunciar o telefone 0800, que é gratuito, escrever “toll free” (taxa grátis). Isso é bobo, porque ele é tão deslumbrado com o estrangeirismo e acha que todo mundo vai entender aquilo. Uma parte significativa desse abuso do estrangeirismo se deve à tolice, ao deslumbramento, a essa coisa subdesenvolvida, atrasada, terceiromundista. A outra parte se deve ao poder, nós somos nada, o português é uma língua periférica então é natural que haja essa invasão. O que a gente deve fazer é mastigar, engolir o que serve e cuspir o que não serve. Há um monte de estrangeirismos que não servem para nada, não vêm para enriquecer a língua, vêm só para encher a paciência. Agora, lei resolve isso? De jeito nenhum Quem vai definir o que pode e o que não pode? Vai haver uma comissão e um cara com carimbo marcando essa pode, essa não pode?

Um comentário:

Josafá Batista disse...

É justamente isso o que eu penso. Não creio que nessa matéria dá pra estabelecer "isso pode" e "isso não pode". Ficaria antipático. Claro, tem muito abuso por aí, não só entre os jornalistas, mas no meio jurídico, nas propagandas, em traduções mal-feitas... mas isso não significa que o correto é tomar uma medida restritiva estabelecendo regras fixas para normatizar a escrita. Hoje temos uma série de vocábulos que foram importados e que se tornaram parte do nosso idioma, como batom (francês), bunda (africano), alface (árabe) e várias outras, muitas delas com a escrita idêntica à do idioma originário. Sem contar que a própria língua portuguesa é um produto histórico, ou seja, poderíamos considerar todo o idioma um enorme estrangeirismo se tivéssemos como referência o latim! O mesmo se poderia dizer do próprio latim se tivéssemos como referência o grego e o etrusco, dos quais ele se formou, e assim sucessivamente até os primórdios da humanidade...
Pra mim, defender o purismo lingüístico, regulamentando-o, é tão bobo quanto a imitação simplória do receituário imperialista. São duas faces da mesma moeda, a mesma sanha normativa, de querer impor regras e mandamentos para os outros seguirem. É o que penso, meu amigo. Aguardo seu comentário!