segunda-feira, abril 06, 2009

Prazer

De Aldo Nascimento

Criado para ser encontro, o Corpo sussurra na pele do ser apaixonado a mais profunda carência. Sozinho, o corpo seria triste porque negaria sua própria natureza, que é se sentir, sentindo-se, em outro corpo. O Prazer nos alegra!

E é assim que a desejo e é assim que, aos poucos, me aproximo. Em gestos delicados, condenso agora toda emoção em um toque, mas, antes que eu a tocasse, precipitei-me em suor. As mãos gelaram-se. Meu Corpo, orgulhoso, estremeceu-se. Ao te tocar, perceba: fragilizo-me.

Sim, eu sinto. Mais: por meio de ti, eu me sinto. Se não fosse você, sozinha, eu desconheceria a desmedida de minha felicidade, que é, sob os desvios de tuas carícias, sentir minha carne suavizar-se.

Tua pele... na minha... minha carne, já molhada e febril, confessa: ofereces a mim o prazer de estar onde sempre desejei estar – em teu Corpo, lugar-carne que me acolhe; extrai de mim a certeza de que estou viva, imensa, alegre. Quase infinita.

Perceba. Sou oferenda entregue a essa humana carência de ser desejada por ti. Feliz carícia que desliza. Fragiliza-me. Retira-me da solidão. Por causa de ti, faço-me presente para não mais, a mim, pertencer. Olhe, escute-me, eu o amo!

Imerso em suor e entre gemidos, eu, também, a amo, mais ainda quando meu Corpo está em transe, mais ainda quando minha carne se declara insana. Corpo que se contorce. Agiganta-se. Foge ao controle. Rebela-se. Transpira. Geme. Grita. Exagera.

Já pressinto o gozo, sensação de que irei, por alguns segundos, me desencarnar. Minha carne já pode sentir o sabor suado dessa vertigem. Quando gozamos, tenho a impressão de que somos lançados ao não-lugar, restando a essa breve viagem fechar os olhos e... hummmmmmmm! Deus, Deus, milagre!

Agora, após o êxtase, meu Corpo, cansado e feliz, tomba sobre o teu, e, ao teu ouvido, sussurro que, sem você, eu jamais poderia sentir, sozinho, o que senti em minha carne e em meu espírito. Tu foste o caminho por onde cheguei, mais sensível, a mim mesmo. Por meio de ti, sou devolvido a mim muito mais feliz. Só o Outro, você, essa minha diferença, possibilitou o excesso.

Saboreando tua carne, movimentando-me ao seu bel-prazer, vivi a alegria de não mais a mim pertencer. Fui teu. Saborosamente, teu.

Um comentário:

Gean Cabral disse...

Esse cara, de Caetano, traduz bem o seu novo sentimento.
Olha, não partilho do homosexualismo, mas contnuo sendo seu amigo. Deve ter sido difícil pra vc sentar e escrever esse texto.

Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido

Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele che__ga ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher