segunda-feira, janeiro 22, 2007

A esquerda em seu labirinto

Texto do caderno MAIS!, da Folha de São Paulo
Presidente do Equador decreta fim do sistema neoliberal, Chávez promove o socialismo do século 21 e Morales diz que vai refundar seu país; o que propõem os novos líderes da esquerda da América Latina?

RAUL JUSTE LORES
Fotos de Jesus Cristo, Che Guevara, Simón Bolívar e Hugo Chávez estão na página "Fontes de Inspiração" da apresentação em PowerPoint que o vice-chanceler venezuelano, William Izarra, usa para explicar "O Socialismo do Século 21".

Há três anos o Centro de Formação Ideológica da Venezuela divulga o "socialismo bolivariano", anunciado como a principal meta do terceiro mandato do presidente venezuelano Hugo Chávez.
Mas o que têm em comum o ícone cristão, o guerrilheiro ateu, o aristocrata liberal que comandou a independência na América hispânica e o populista presidente venezuelano?O socialismo do século 21 tem alta elasticidade ideológica.
Chávez e seus discípulos, os presidentes da Bolívia, Evo Morales, do Equador, Rafael Correa, e da Nicarágua, Daniel Ortega, receberam com admiração e afeto o ultraconservador presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad -aquele que defende que o Holocausto jamais aconteceu.

Os quatro países que querem adotar o socialismo do século 21 têm em comum décadas de partidos corruptos, instabilidade e relações próximas com os EUA.
Desde que anunciou a nova versão do socialismo, Chávez não parou em Caracas e, entre viagem e viagem, não pôde dar mais detalhes sobre o que é a nova ideologia.Mas, além do antiamericanismo que une os cinco, e da vontade de combinar um aumento no preço do petróleo, que aproxima o venezuelano do iraniano, há comportamentos que podem explicar o que será essa nova esquerda. Há oito anos no poder, Chávez é o presidente mais longevo no cargo depois do cubano Fidel Castro.
Virou inimigo número um de George W. Bush nas Américas e ameaçou desapropriar terras e expulsar investidores estrangeiros.Mas, discretamente, até dezembro último, era um ótimo pagador e seguidor das metas do FMI e fornecia comportadamente todo o petróleo que os EUA queriam importar, responsável por 80% da balança comercial venezuelana.
"Comparado ao marxismo do século 20, Chávez era uma versão bem light, muito mais parecida ao velho populismo latino-americano, que faz negócios com grandes empresas e daí sustenta seu poder", descreve o professor de ciência política do Amherst College Javier Corrales, que estudou o governo chavista com uma bolsa da Fundação Fulbright.
As novidades do recém-iniciado terceiro mandato de Chávez são muitas. Ele anunciou que estatizará a maior telefônica do país e a maior empresa de energia elétrica. Vai cassar a concessão da rede de televisão privada mais antiga do país, que lhe faz oposição.
Governará por decreto nos próximos 18 meses, sem precisar passar leis pelo Congresso (onde 100% dos deputados são chavistas). Poderá assinar leis que mudem áreas como economia, transportes, energia, segurança jurídica, defesa e funcionalismo público. Aprovará a reeleição sem limite.E pretende, no futuro, substituir governos municipais por conselhos comunais, assembléias de bairro que receberão recursos do governo.
Com uma renda de US$ 55 bilhões em exportações de petróleo só em 2006 e um mandato até 2013, Chávez tem condições para exportar seu socialismo.Com (muito) menos dinheiro em caixa e um país em crise permanente, Evo Morales já tentou seguir algumas das receitas.
Convocou uma Assembléia Constituinte para criar uma nova Carta Magna e aprovar sua maioria parlamentar. E colocou seus movimentos sociais mais fiéis na rua para exigir a renúncia de governadores opositores que clamam por mais autonomia.Há sete dias no cargo, Rafael Correa, do Equador, já anunciou que quer uma nova Constituição, renegociar a dívida externa e contratos externos.
Neoliberalismo em baixa
Os quatro países que querem adotar o socialismo do século 21 têm em comum décadas de partidos corruptos no poder, instabilidade política ou econômica e, por muito tempo, relações muito próximas com os EUA que não renderam muitos dividendos.Os quatro também adotaram, nos anos 90, reformas de abertura econômica, que não levaram melhora significativa à maioria de suas populações.
"O neoliberalismo é reprovado por 80% dos latino-americanos", calcula o deputado chavista Juan Carlos Dugarte, idealizador do projeto que cria os conselhos comunais. "A Argentina esteve à beira da ruína, depois de uma privatização desenfreada, e só se salvou pelo nacionalismo do presidente Kirchner. "Mas vários dos países que elegeram a esquerda nos últimos anos não vivem as transformações radicais do socialismo bolivariano.
"Apesar dos ataques às privatizações e ao neoliberalismo, os governos de esquerda do Brasil, da Argentina e do Uruguai mantêm vários dos princípios da década do Consenso de Washington. No Chile, de governo de centro-esquerda, o liberalismo é até consenso", diz o venezuelano Moisés Naím, editor da revista "Foreign Policy", de Washington.No caso argentino, Kirchner é bem mais prudente com as contas públicas que o campeão do neoliberalismo dos anos 90, Carlos Menem, um gastador convicto.
"Para se eleger, você não pode defender privatizações ou abertura. Esses conceitos ficaram gastos porque foram usados por conservadores que jamais pensaram no povo", diz a economista chilena Marta Lagos, diretora da Fundação Latinobarómetro, que pesquisa opinião pública na região.
"Mas os latino-americanos, que realmente estão cansados de esperar por melhores condições de vida, também não querem mudanças radicais. Só países com muitos problemas optaram por radicalismos e por políticos "outsiders".
"Socialismo de papelBandeiras históricas da esquerda não têm recebido muita atenção nas medidas do socialismo bolivariano.Não houve uma reforma tributária progressiva, que taxasse os mais ricos e as grandes empresas, a fim de financiar serviços públicos de qualidade e melhorar a distribuição de renda - como na Europa.
Apesar de anunciada em 2003, a reforma agrária pouco avançou, com a desapropriação de só algumas fazendas grandes. Também a pauta de direitos civis não preocupa Chávez. Aborto, casamento homossexual ou descriminalização do consumo da maconha estão fora da agenda bolivariana.
O sandinista Daniel Ortega apoiou no ano passado a proibição do aborto, até em casos de estupro ou risco de morte da mãe, aprovada na Nicarágua.A presidente chilena Michelle Bachelet, agnóstica e mãe solteira, está em sintonia maior com a esquerda européia, apesar do liberalismo econômico.
"A negação de Bachelet ao luto oficial pela morte do ex-ditador Augusto Pinochet (não houve bandeira a meio-pau nas repartições públicas), suas medidas pela paridade entre os gêneros no governo e a prioridade para programas de educação e previdência a colocam como a presidente mais à esquerda da redemocratização chilena", diz o cientista político José Miguel Izquierdo, da Universidade Diego Portales, de Santiago.
Enquanto isso, Caracas ainda resume bem os resultados modestos dos oito anos do governo de Chávez. A capital venezuelana tem o mais alto índice de homicídios entre todas as capitais americanas e 70% da população mora em favelas ou construções irregulares. "A situação dos mais pobres pouco mudou. Ele não tem equipe. Chávez está desacreditando a esquerda. Muita foto, muito discurso, mas é um socialismo de papel", diz Marta Lagos.
Sem ainda ter revolucionado a Venezuela, Chávez parece mais interessado em "exportar" sua revolução. Ele comprou US$ 3,1 bilhões em títulos da dívida argentina, colabora com US$ 3 bilhões em petróleo para Cuba por ano e vendeu a preços vantajosos petróleo a prefeituras sandinistas, governadas pelo partido de Daniel Ortega, na Nicarágua.Pacotes generosos de cooperação espalham dinheiro venezuelano pela Bolívia e, a partir de agora, pelo Equador.
Acúmulo de poderQuanto às reformas que lhe dão superpoderes, Chávez segue uma trilha comum na região, onde direita e esquerda se confundem. Tanto Carlos Menem, na Argentina, quanto Alberto Fujimori, no Peru, também quiseram ter o máximo de instrumentos à mão para "transformar" seus países.Ambos não economizaram esforços (e verbas) para mudar leis, controlar poderes Legislativo e Judiciário, sindicatos e movimentos sociais.
"Em nenhum dos casos houve um projeto para se reforçar as instituições e a independência dos poderes", diz Corrales.Se o neoliberal Menem nomeou seu irmão para presidir o Senado e seu ex-sócio para a Corte Suprema, Chávez faz algo parecido: seu irmão mais velho é o novo ministro da Educação e o ex-presidente do Conselho Eleitoral até dezembro foi nomeado vice-presidente.
Se direita e esquerda compartilham velhos vícios, a boa notícia é que tem havido alternância no poder na América Latina. "Mas a democratização aumentou as demandas. Se a esquerda não oferecer progressos, também será substituída", diz Marta Lagos.
Se o socialismo do século 21 ainda precisa mostrar resultados, a ascensão da esquerda já teve efeitos imediatos na política regional. Até políticos conservadores, como os presidentes da Colômbia, Álvaro Uribe, e do México, Felipe Calderón (e mesmo seu antecessor, Vicente Fox), investem pesado em programas sociais, apesar de manter a "prudência fiscal".
Em tempos de ausência e indiferença dos EUA com a região, depois de décadas de intervencionismo americano justamente contra governos "socialistas", esquerda e direita estão à procura de fórmulas que terminem com a pobreza na região mais desigual do planeta.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Nani, do Jornal do Brasil (RJ)

Literatura e Cinema



A Literatura precisa ser lida em sala de aula. Professor de Literatura deve ler em sala um romance e negar os estilos de época.
Como extensão, os alunos precisam conceituar as imagens; dar a elas um sentido por meio de conceitos. Não podemos negar o cinema na escola.
Assistir aos filmes em lugar apropriado para a recepção dos sentidos.
Sobre conceitos, três autores são fundamentais: Nietzsche, Mikhail Bakhtin e Roland Barthes.

Literatura & Cinema



Quando lecionei no Souza Marques, uma escola batista em Madureira, Rio de Janeiro, havia a leitura de um romance e, depois, esse romance reaparecia na tela. Era 1990.
Hoje, após 16 anos, Literatura e Cinema permanecem em minhas aulas.
Meus alunos do ensino médio leram em sala Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e assistiram a filmes com conceitos românticos, valores opostos ao romance de Huxley. Os filmes foram Tristão e Isolda, Triunfo do Amor e O Sorriso de Mona Lisa.
Para 2007, leremos em sala de aula A Arte de Amar, de Erich Fromm. Trata-se de um texto dissertativo e, com ele, assistiremos aos filmes relacionados ao amor-paixão e à sua ausência.
Ler. ReLer. ReleR. lEr. leR. rElEr. Livros. LiVroS. PaLaVras. lIvrOs. pAlAvrAs.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Alunos, os meus



Houve uma época em que eu lecionei para 11 turmas. Em uma, havia mais de 40 alunos.
Hoje, por causa da política educacional da Frente Popular, leciono para duas turmas.
A turma da foto pertence ao ensino médio, é o pessoal da B, manhã. Nela, há 14 alunos. E aí eu pergunto: por que certos professores não qualificam o ensino público?
Com 14 alunos, há professores que não lecionam Redação como deveria ser, porque, como já ouvi, "cansa muito".
Esses alunos chegaram ao segundo ano do ensino médio com suas redações fartas de problemas, e é ilusão pensar que tais problemas seriam eliminados em um semestre. Lutamos, eu e eles, contra a preguiça, o descaso, a indiferença. Uns desistiram. Esses continuaram.
Muitas vezes reconstruíram seus textos em sala, muitas vezes. "Refaça, porque seu desenvolvimento não tem relação com a introdução", disse muitas vezes. "Refaça, porque sua idéia está genérica, por favor, especifique-a."
De setembro até hoje, comparei seus textos e percebo mudanças, mas estou insatisfeito, poderia ter feito mais e melhor. A vida sempre exige mais e mais.
A vocês, digo neste blog o que disse tantas vezes em sala de aula: sejam melhores que seus pais; construam seus destinos por meio dos livros, porque, sem conhecimento, sem cultura, vocês não ultrapassarão os limites de suas condições sociais. Que a vida os recompense com vitórias.
Sejam felizes no amor!!! Sejam felizes em suas profissões!!!
Um beijo em suas almas e um abraço em seus destinos.

terça-feira, janeiro 16, 2007

- Chico está de férias ou em férias? -


Para Eduardo Martins, do jornal O Estadão, tanto faz, mas ele opta por "em férias".
O Chico, que nem está aí para a gramática e nem se encontra em Rio Branco,, curte as praias de Crato, no Ceará.
Muito cansado de trabalhar, suas férias representam o mérito de um homem que não mede esforços para transformar o Brasil em barranco.

- à você -

"Amanhã é dia de cantar o tradicional parabéns à você para minha amiga"
    1. - à você - Como pode um jornalista escrever assim? Não há acento grave, indicador do fenômeno da crase.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

- mal tempo -



"Mal tempo fecha aeroporto e vôos são cancelados"
  1. - Mal tempo - Um jornal local publicou "mal tempo". Não é "bem tempo". O correto é "bom tempo" e, se é "bom tempo", podemos substituir por "mau tempo"; e
  2. - e vôos cancelados - Como se trata de sujeitos diferentes, prefiro colocar uma vírgula antes do "e".

"Mau tempo fecha aeroporto, e vôos são cancelados"

sábado, janeiro 13, 2007

Literatura & Língua Portuguesa


Tenho a certeza de que somos melhores professores na escola pública, porque ela oferta a nós esta liberdade - a de sermos responsáveis pela vida de nossos alunos.
A gestora da escola Heloísa Mourão Marques, professora Lúcia, aceitou a idéia dos Conselhos de Disciplina desde 2006 e, hoje, mais uma vez, os professores se reuniram para construir a "imagem" de Literatura e de Língua Portuguesa para a escola.
O processo é lento, mas não há outro caminho quando pulsa a relação humana. Brigamos, discutimos, criticamos, mas não somos desleais, canalhas ou indiferentes à vida, à educação, à escola pública.
No segundo semestre de 2006, o professor Tadeu - sentado ao lado da gestora Lúcia - organizou as reuniões do Conselho de Literatura e de Língua Portuguesa, e um item importante foi registrado e assinado pelos professores, qual seja: em sala, não haverá mais os estilos de época, mas tão-somente textos literários lidos, estudados, analisados, interpretados.
Os estilos de época serão cobrados em trabalhos escritos.
Da escola, saem os juízes, os médicos. Tudo começa por ela, a educação.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Qual o ProblemA desTa Construção?

"Sozinha, mãe deu gêmeas à luz."
Está corretíssima.

Falta & Falta


Certa vez, na escola Heloísa Mourão Marques, alunos seriam reprovados por falta, mas algumas pessoas - e não seria ético dizer nomes - levaram os estudantes ao Conselho Escolar e, contrariando a LDB, passaram uma borracha em suas faltas.
"Eles sempre assistiram às aulas."
Por causa da professora Lúcia, gestora da escola, alguns alunos se desesperaram no ano letivo de 2006 , visto que estão sendo reprovados por falta.
Sentado e de costa, esse jovem disse que sairá do Heloísa, porque não dá mais para "zoar".
Lúcia, assim como o professor Walmir, colocou ordem na escola, mas precisamos melhorar mais. O bem público deve estar muito acima de interesses particulares. Por isso, a unidade do corpo docente para votar em um único candidato é vital para construir uma escola pública séria. A professora Lúcia, se quiser, é um nome.

Outra Boa Entrevista de Josafá Batista

Quando conheci Josafá Batista, eu estava no Página 20, e alguns repórteres chamavam Josafá de "maluco", de "doido", pois era um cara que voava nas suas matérias.
Alguns jornalistas acreanos são até hoje "focas", porque, quando o poder dá sardinha enlatada a eles, nossos repórteres batem palminhas e gritam alegres. Josafá nunca foi "animalzinho adestrado".
Ele sempre foi acreano, rio-branquense. Josafá Batista é jornalista que possibilita uma entrevista que não assiste à minissérie Amazônia: de Galvez a Chico Mendes, da Globo.

A Amazônia real

Historiador diz que Galvez e Plácido eram mercenários
e que o Acre não foi “conquistado”: foi roubado da Bolívia

Se a narrativa da história do Acre contar com a versão boliviana, muito bem ocultada por mais de um século de “ladainhas sobre bravos heróis da floresta”, muita coisa terá que ser reescrita.
Para começar, o Acre foi sim “doado” ao Brasil em troca de um cavalo. E mais: o puro-sangue, um mimo estratégico do governo brasileiro ao ditador da Bolívia, Mariano Melgarejo, foi acompanhado de duas medalhas... de latão.

Os detalhes desse e de outros trechos nada gloriosos da famosa e misteriosa “Questão do Acre” são expostos com farta documentação por um historiador boliviano. Aos 84 anos, Hernán Messutti Rivera, professor de História da Universidad Mayor de San Andréas, em La Paz (Bolívia), é pioneiro na pesquisa e na documentação do conflito que gerou o Estado, onde, hoje, vivem todos os acreanos.

Autor do livro El Desmembramiento de La Bolivia, ainda sem tradução no Brasil, Rivera apresenta uma nova e polêmica versão: a de que Luís Galvez e Plácido de Castro eram mercenários, isto é, homens pagos pelo governo do Amazonas com um único objetivo: enfraquecer a Bolívia, recém-saída de uma derrota em uma guerra contra o Chile. Para o historiador, a ambição brasileira, justificada pela explosão do mercado da borracha, era só uma: la plata.

Confira os detalhes da entrevista exclusiva.

É verdade que o senhor é o primeiro, do lado boliviano, a estudar a famosa “Questão do Acre”?
Eu era pioneiro quando comecei há mais ou menos 30 anos. Escolhi esse tema porque aqui ainda não havia consenso sobre a guerra, apenas alguns relatos muito antigos dos eventos. Mas foram escritos pouco depois da revolução, são mais documentos da época do que propriamente livros. Mas os historiadores não estudavam esse tema, por isso o escolhi.

O senhor também consultou fontes brasileiras?
Sim, viajei em busca de documentos a Rio Branco, ao Rio de Janeiro, a Manaus e a Brasília. Fui inclusive até o Itamaraty em busca de documentos para pesquisar os detalhes sobre a guerra.

O senhor usa sempre a expressão “guerra” em vez de “revolução”, por quê?
Porque o exame cuidadoso dos fatos mostra que foi uma guerra. Quando o senhor fala em revolução, o senhor fala do povo lutando contra o seu próprio governo. Fala do povo não muito contente pela maneira como é conduzido o governo. Por isso, revolução é sempre contra o seu próprio governo e não contra um governo estrangeiro. Um ato belicoso contra um governo de outro país chama-se guerra. Está tudo no dicionário.

Alguns historiadores brasileiros refutam esse argumento, dizendo que era uma revolução devido à posse da Bolívia na região. Não faz sentido? Não foi a revolução de pessoas que viviam dentro do território boliviano contra o governo boliviano?
Não, porque não foi feita por bolivianos, mas por brasileiros. Isso faz toda a diferença. O território era boliviano, sim, mas a guerra foi feita por brasileiros.

Como essa guerra começou na sua opinião?
O Tratado de São Ildefonso, de 1777, estabelecia o limite oeste do Brasil no sul de onde hoje fica o Estado do Amazonas. Daí para baixo, era tudo da Bolívia. Em 1867, o ditador boliviano Mariano Melgarejo, que era analfabeto e que não tinha legitimidade para representar o nosso país, deu um brinde de 540 mil quilômetros quadrados para o governo brasileiro.

Por quê?
Porque o governo brasileiro havia lhe dado um lindo cavalo e também duas medalhas de latão. Era uma estratégia, na verdade, porque o governo brasileiro não queria que o Brasil apoiasse o Paraguai em outra guerra em que se metera, por isso ofereceu o presente. E teve sucesso.

Mas 540 mil quilômetros quadrados, doados assim, é muita coisa, não?
Essas terras para os bolivianos não tinham significado algum. Eles preferiam morar lá no alto, a oeste, nos altiplanos andinos. Essas terras baixas, quentes, com bichos e doenças não eram do agrado dos bolivianos.

Então é correto dizer que o Acre foi trocado por um cavalo?
Sim, os cavalos foram um brinde do Brasil ao tirano Melgarejo. Um cavalo e duas medalhas. E ele retribuiu com as terras, assinando o famoso Tratado de Ayacucho.

E por que o senhor acha que o Brasil teria interesse nessa área, sendo que a Bolívia não tinha?
O Brasil era bem maior, tinha uma economia mais desenvolvida e percebeu que o preço da borracha vinha crescendo. Houve uma explosão do preço do látex, na verdade. Ela atingiu um preço altíssimo. Um quilo de borracha custava o equivalente a cinco dólares de hoje, preço tão tentador que vinham aqui aventureiros de todo o mundo.

Quem eram eles?
Eles integravam companhias estrangeiras, mas usavam nomes brasileiros e andavam com brasileiros. Veja, tanta ambição despertada se devia a um único fato: o Acre era o único lugar no mundo onde se produzia o látex. E também no sul do Amazonas, mas em escala desprezivelmente menor.

No Acre, está sendo exibida uma minissérie sobre a guerra.
Sim, eu fui entrevistado por uma equipe da televisão brasileira sobre essa produção. Parte da novela é baseada no famoso Luíz Galvez, esse aventureiro espanhol que criou a República do Acre. No entanto, algumas pessoas não sabem, outras não querem saber, mas o Galvez era pago pelo governador do Amazonas, Ramalho Júnior. Por isso, ele queria fazer um país independente.

Um herói pago?
Não, um aventureiro mesmo. Os documentos da época mostram de tudo um pouco. Era escroque, mulherengo, ladrão, enfim, fazia várias bobagens, mas ele tinha carisma e conquistava as pessoas. Fazia com que elas aderissem à sua causa, sabia conquistá-las. Mas era pago, e muito bem pago, por isso.

E Plácido de Castro?
Plácido era militar. Ele começou a carreira e ascendeu muito, mas, quando chegou à certa patente, percebeu que sua vocação não era aquela, porque ele queria ganhar dinheiro. Então veio para a Amazônia. Em Manaus, foi contratado para fazer incursões, limitando o tamanho dos seringais, mas contraiu malária e voltou a Manaus. Foi então que o governador José Néri, sucessor do Ramalho Júnior, contratou-o para fazer uma demonstração de força do Brasil para a Bolívia. A idéia era fazer os bolivianos desistirem de defender essa região. Por isso, ele foi enviado e também foi pago muito bem.

A sua versão de Plácido de Castro bate de frente com a versão dos acreanos. Lá, ele é um herói, com monumentos em sua homenagem.
Para os brasileiros, Plácido pode ser um herói, mas, para os bolivianos, ele foi um mercenário. Um herói é alguém que dá sua valentia, sua vontade, seu suor por amor à pátria sem compensações. Mas uma pessoa que faz um trabalho de guerra, sendo paga para isso, chama-se mercenário, isso desde a Idade Média. Ele condicionava o seu proceder ao dinheiro que recebia. Um mercenário.

E o Bolivian Syndicate? Até onde é verdadeira a história de arrendamento do Acre para o capital internacional? Foi isso que precipitou os fatos que levaram à guerra na versão brasileira.
Aconteceu o seguinte. A Bolívia não tinha dinheiro para desenvolver seu território, porque perdeu o mar e enfrentava diversos conflitos. Então, o governo planejou participar de uma sociedade anônima para a exploração dos recursos naturais, que, estes, sim, eram vastos. Foi algo parecido com a Lei de Exploração de Florestas recentemente aprovada no Brasil, mas com a diferença de ações para venda. Pelas regras, a Bolívia ficava com 50% da exploração e o restante era vendido a quem quisesse comprar.

Mas isso não foi um atentado à soberania boliviana?
Não, porque o que se negociava era apenas o direito de explorar economicamente as terras, e não de possuí-las. E, como eu disse, o governo boliviano tinha 50% das ações, o que, em tese, impediria qualquer tentativa tresloucada de invadir o território para assaltá-lo. Era uma idéia boa para os bolivianos e para os empresários da época, que inclusive se interessaram.

Quem se interessou?
Quem não se interessou foi o Brasil, que foi convidado, mas não quis. O governo taxou a idéia de maluca. Então, a Bolívia ofereceu à Europa e aos Estados Unidos, onde os industriais mais ricos compraram as ações.

Quais industriais?
Os mais ricos. Deixe-me lembrar. Rockefeller, Kennedy, Ford, Vanderbilt e outros. Todos compraram ações. A família do presidente Roosevelt também comprou ações, havia muitos interessados exatamente devido à borracha. O problema é que, quando o chanceler do Brasil, que nessa época ainda não era o Barão do Rio Branco, era José Paranhos da Silva, viu que a idéia daria certo, resolveu espalhar boatos e assustar os investidores.

Estratégia de mercado?
Isso mesmo. Assustando os investidores, aproveitando-se da sua proximidade na região para espalhar boatos inverídicos sobre desgraças naturais, índios carniceiros, doenças incuráveis e outras coisas, o Brasil conseguiu não apenas a desistência de muitos investidores, mas também comprar as ações a um preço baixíssimo.

Quanto?
Menos de quarta parte do valor original. O governo brasileiro agiu assim até comprar os 50% destinados ao mercado. As ações valiam cerca de um milhão de libras esterlinas. O Brasil comprou todas por 50 mil libras esterlinas.

Então, o Brasil comprou o Bolivian Syndicate?
Isso mesmo.

Mas, convenhamos, o senhor não acha que parte dessa estratégia se devia à preocupação com brasileiros que já viviam na região?
Se assim fosse, se a preocupação fosse essa, o Brasil teria aceitado a primeira oferta e comprado ações para empregar o seu povo. Não havia problema algum. O que a Bolívia queria era investir esse dinheiro em uma indústria poderosa da borracha na própria Bolívia. Quando se trata de mercado, é fácil negociar essas coisas, especialmente porque os bolivianos não moravam nessa região, como eu já citei. A Bolívia precisaria e contrataria mão-de-obra brasileira, pacificamente, mas o Brasil infelizmente queria guerra. O governo de vocês queria a posse das terras.

Mas, se na versão brasileira o argumento mais forte da revolução ou guerra foi exatamente o Bolivian Syndicate, então por que Plácido de Castro usou esse argumento?
Ele mentiu, é claro. E isso confirma a narrativa histórica dele. Quando Plácido dizia que estava lutando pelo Acre para impedir a intromissão dos grandes capitalistas norte-americanos, isso era falso, porque nessa época o Brasil já havia comprado todas as 50% das ações do Bolivian Syndicate.

Mas, se o Brasil havia comprado, por que fazer guerra?
Porque o seu país comprou o direito de trabalhar dentro, apenas. Não tinha a posse da terra. O Bolivian Syndicate nunca negociou a soberania boliviana.

Por que os parceiros comerciais não ajudaram a Bolívia?
Porque eles compravam borracha dentro do Brasil, diretamente. Havia toda uma cadeia de exportação da borracha, burlando-se impostos ao governo federal brasileiro e outras irregularidades. Se fosse pela Bolívia, os compradores teriam que pagar todos os impostos, mas isso não acontecia no Brasil. Então, eles estavam envolvidos demais economicamente para qualquer tomada de posição pró-Bolívia.

Então houve uma certa omissão internacional nesse conflito, é isso?
Houve, porque a borracha era vendida às grandes indústrias de pneus. A indústria do automóvel na época crescia enormemente e precisava de borracha para os pneus. E o único lugar do mundo onde se produzia borracha era aqui, no Acre. E, nessa época, já havia muitos brasileiros na região.

Então, o senhor está dizendo que houve toda uma conjugação de interesses econômicos e que, para mantê-los, o Brasil invadiu um território de outro País e o tomou, usando mercenários pagos. É isso?
Esse é o resumo de tudo. Veja, o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, ganhava desse território com a produção e importação de borracha cerca de um bilhão de contos de réis por ano. Se ele perdia esse território, devolvendo-o à Bolívia, ele perderia tudo. E Ramalho precisava, porque gastava muito, inclusive, com malversação de recursos públicos. Ele simplesmente não podia perder essa mina, inclusive, para manter sua influência e poder.

Por que a Bolívia não denunciou tudo à comunidade internacional?
Denunciar para quem? Não existia ONU nem Liga das Nações nessa época. Pior: a Bolívia não podia fazer muito esforço econômico, porque acabávamos de sair da guerra com o Chile. Nessa guerra, nós perdemos 50 mil soldados. A economia boliviana estava quebrada e, logo em seguida, veio esse problema. Não tínhamos recursos para fazer nada e, quando resolvemos fazer, recebemos um ultimato do governo brasileiro.

Como assim?
Quando a Bolívia venceu um conflito com as tropas de Plácido de Castro, em Puerto Alonso, o governo brasileiro colocou em cena o Barão do Rio Branco. Ele enviou uma carta ao governo boliviano com negociações, mas, quando o governo boliviano respondeu que não aceitava, ele mandou essa resposta: “Isso não é uma negociação. É uma ordem!”. E também avisou que 50 mil brasileiros, das Forças Armadas do Brasil, estavam prontos para invadir La Paz e tomar a Bolívia. E estavam mesmo.

Isso está documentado?
Está. Tudo o que estou lhe falando está documentado, com fontes brasileiras e bolivianas. Na segunda edição do meu livro, vou publicar a carta completa do Barão do Rio Branco com o ultimato à Bolívia. Todos poderão conferir como se deu esse assalto, porque foi disso o que se tratou - um assalto.

Mas o governo brasileiro não pagou dois milhões de libras esterlinas pela posse do Acre?
O Brasil nunca pagou essa dívida. Aliás, pagou sim, mas com uma estrada de ferro que nunca foi concluída e dentro do território brasileiro, com gente brasileira e que sequer chegava à Bolívia nem mesmo no projeto. É como se eu tivesse uma dívida com o senhor, comprasse um aparelho de som no mesmo valor da dívida e lhe dissesse: “Eu paguei aquela dívida com um aparelho de som. Está lá em casa. Quando quiser ouvir som, passe por lá”.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Ele (1902-1987)



Memória





Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

A Polícia Federal e a Linguagem

Liminar obriga fiscalização de "estrangeirismos" no comércio e na publicidade

Uma liminar, expedida pelo juiz federal substituto da 1ª Vara de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, determinou que a União Federal fiscalize a utilização da língua portuguesa no comércio de produtos e de serviços, inclusive, nas ofertas publicitárias em vitrines, prateleiras, balcões ou anúncios.

Segundo a determinação, os anúncios que utilizarem termos como "sale", "off", "summer", entre outros, deverão ser acompanhados de tradução, no mesmo destaque.

Expressões em língua estrangeira deverão ser traduzidas com texto correspondente na língua portuguesa. Além disso, os anúncios deverão ter clareza e precisão ao se referirem às características, qualidades, quantidade, composição, preço (também condições de pagamento e descontos), garantia, prazos de validade, origem, riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.

Na opinião de Antônio Mascarenhas de Souza, o artigo 31 do Código de Defesa do Consumidor é claro: "oferta e apresentação de produtos ou serviços devem exteriorizar-se por meio de informações em português".

"Qualquer fornecedor que se utilize dos termos 'sale' ou 'off' objetiva propor ao consumidor a aquisição de seus produtos ou serviços, tornando-os mais atrativos, relacionando tal informação diretamente à diminuição do preço, ao seu barateamento."

Para o juiz, somente a publicidade que não tiver algum tipo de oferta é que poderá usar indiscriminadamente qualquer símbolo, palavra ou gesto, "desde que esteja dentro das regras dos artigos 36 a 38 do CDC, que proíbem a mensagem enganosa ou abusiva."

Souza esclarece que a oferta, publicitária ou não, é meio de interlocução com o consumidor para convencê-lo e atraí-lo, mediante realce de elementos contratuais do negócio.

"Em conseqüência, nesse aspecto, suprir-lhe a comunicação na própria língua significa negar os objetivos expressos no Estatuto de Defesa do Consumidor e dificultar o acesso de compreensão para boa parte [senão a maioria] da população brasileira."

Quem não respeitar as regras, segundo decisão do juiz, deverá ser penalizado de acordo com o artigo 56 do Código de Defesa do Consumidor, com multa, apreensão do produto, cassação do registro, entre outras penas.

Palhaçada


Márcio é diagramador da TRIBUNA e, em outros momentos, perde o juízo e desmoraliza a família, dando, dando, dando uma de bobo da corte.
Gente boa!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Tonivan & Tonivan & Tonivan

Há quase 10 anos, tenho a amizade e os bons serviços de Tonivan, responsável pela filmoteca, pelos filmes que passam pela escola pública.
Após a leitura de um romance em sala de aula, passo para meus alunos a imagem-palavra do que foi lido. São filmes relacionados à temática da narrativa romanesca.
Neste ano, após a leitura de Admirável Mundo Novo, assistimos aos filmes Tristão e Isolda, Triunfo do Amor e O Sorriso de Mona Lisa.
Falei sobre os conceitos relacionados ao Romantismo "expostos" pela imagem a fim de compará-lo como valores opostos ao livro Admirável Mundo Novo.
Se não existissem funcionários como Tonivan, seria impossível.
Muto obrigado! Sempre precisamos do Outro.

Itaan & a Imprensa

Hoje, o governador Arnóbio Marques escolheu Itaan Arruda como assessor de imprensa do Estado.
Quando começou a escrever no jornal A Gazeta, publiquei um artigo não para elogiar suas linhas, mas para reconhecer sua inteligência. Formado em jornalismo, Itaan possui um valor que a faculdade não ensina: caráter.
Leitor de bons livros - algo incomum entre nosso jornalistas -, esse rapaz tem a chance de transformar a relação entre imprensa e governo. Escrevi certa vez que atual relação não está à altura de um governo de esquerda.
A imprensa não pode servir como um meio do poder propagar sua imagem narcísica. Para um governo de esquerda, exige-se mais, bem mais do que "eu sou belo". O exercício da autocrítica não deve ser esquecido pelo PT.
A Itaan, desejo que o poder jamais retire dele a simplicidade.
Vida longa, garoto!!!