terça-feira, janeiro 08, 2008
segunda-feira, janeiro 07, 2008
terça-feira, janeiro 01, 2008
sexta-feira, dezembro 21, 2007
A Beleza do Povo
Trata-se de um outro Brasil, nação que NÃO consome boas roupas, que não tem condições de malhar o corpo em academias. Antes, nos malham com a miséria.
Ainda somos muito pobres, mas, ainda sim, permanecemos erguidos no terminal urbano da capital acreana.
Vergonha do que somos? Mas o que somos?
Somos?!
sábado, dezembro 15, 2007
Férias 5
Beijar pais tão idosos. Rever primos. Abraçar tios. Conversar com velhos amigos. Dizer ao irmaõ que o amo.
A partir de hoje, não atualizarei este blog com freqüência. Com freqüência mesmo, só depois de 25 de fevereiro.
Ao chegar em Maricá, primeiro, beijar meus pais e meu amado irmão. Depois, descansar alguns dias, resolver problemas familiares, ir ao teatro, ao cinema, visitar parentes.
A partir de hoje, não atualizarei este blog com freqüência. Com freqüência mesmo, só depois de 25 de fevereiro.
Ao chegar em Maricá, primeiro, beijar meus pais e meu amado irmão. Depois, descansar alguns dias, resolver problemas familiares, ir ao teatro, ao cinema, visitar parentes.
E, claro, uns três livros para eu ler nas férias.
Um abraço fraterno no destino de meus semelhantes e, aos teus olhos, oferto esta bela poesia de Fernando Pessoa .
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Um abraço fraterno no destino de meus semelhantes e, aos teus olhos, oferto esta bela poesia de Fernando Pessoa .
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Férias 1
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Meus alunos (1)
Ergue-se uma família na desordem?
Neste ano, por causa de uma direção sem direção, a escola não manteve a sua devida ordem. A maioria dos alunos, no entanto, encarou o desafio de freqüentar minhas aulas.
Se fui exigente, acreditem, a vida será muito mais.
Um abraço fraterno em seus destinos, turma D, no caso, uma minoria na foto.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Redação na escola HMM
Em 2008, a escola Heloísa Mourão Marques começará a ser outra. Conversando com a futura gestora, professora Osmarina, ficarei responsável pela redação do 3o ano.
Minha meta: elevar o índice da escola no Enem. Além disso, trabalhar muito para que alunos consigam ótimas notas na redação da Universidade Federal do Acre.
Toda aula de gramática gravitará em torno da produção textual. Nas redações, os alunos ignoram o uso correto da vírgula. Trata-se de uma realidade. Dessa forma, o professor de gramática, com a área de Escrita e de Leitura, criará exercícios relacionados à vírgula.
Só mudaremos de conteúdo quando uma porcentagem de alunos - a ser definida - responder corretamente aos exercícios.
Outra questão: leitura. Definiremos quais conteúdos serão lidos, sendo que as marcações textuais surgirão conforme os problemas redacionais do corpo discente. Uma dessas marcações: verbos.
As aulas de redação serão iniciadas com leitura. Os alunos usarão um livro de redação.
As reuniões da área deverão ser sistemáticas para que o corpo docente reflita de forma madura sobre sua prática na escola.
Como é saboroso transformar a vida de nosso semelhante para melhor, mas, para tanto, três palavras são vitais: Ordem, Disciplina e Paixão.
Minha meta: elevar o índice da escola no Enem. Além disso, trabalhar muito para que alunos consigam ótimas notas na redação da Universidade Federal do Acre.
Toda aula de gramática gravitará em torno da produção textual. Nas redações, os alunos ignoram o uso correto da vírgula. Trata-se de uma realidade. Dessa forma, o professor de gramática, com a área de Escrita e de Leitura, criará exercícios relacionados à vírgula.
Só mudaremos de conteúdo quando uma porcentagem de alunos - a ser definida - responder corretamente aos exercícios.
Outra questão: leitura. Definiremos quais conteúdos serão lidos, sendo que as marcações textuais surgirão conforme os problemas redacionais do corpo discente. Uma dessas marcações: verbos.
As aulas de redação serão iniciadas com leitura. Os alunos usarão um livro de redação.
As reuniões da área deverão ser sistemáticas para que o corpo docente reflita de forma madura sobre sua prática na escola.
Como é saboroso transformar a vida de nosso semelhante para melhor, mas, para tanto, três palavras são vitais: Ordem, Disciplina e Paixão.
O gabarito da Copeve
A Copeve, responsável pelas provas da Universidade Federal do Acre, tem uma capacidade incrível de evocar o sobrenatural. Ontem, ela publicou o gabarito do vestibular.
Até aí, tudo bem. O problema é que os vestibulando precisarão consultar os búzios para saber que questões eles marcaram, porque a Copeve não permitiu que os alunos levassem as provas para casa.
Você se lembra da questão de...
Até aí, tudo bem. O problema é que os vestibulando precisarão consultar os búzios para saber que questões eles marcaram, porque a Copeve não permitiu que os alunos levassem as provas para casa.
Você se lembra da questão de...
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Admirável Rato Novo

Cientistas da Universidade de Tóquio criaram um tipo de rato geneticamnete modificado que não tem medo de gato.
Os pesquisadores retiraram do cérebro do animal receptores que permitem que ele sinta o cheiro do predador.Agora, ao chegar perto do felino, o rato não corre nem se finge de morto. Ao contrário, ele começa a cheirar o "inimigo" e ameaça até a brincar com o gato.
Segundo o cientista Ko Kobayakawa, os ratos têm medo dos gatos porque são naturalmente condicionados a reagir com medo ao sentir o cheiro do predador.
Kobayakawa afirmou que o princípio pode ser aplicado a outros mamíferos, fazendo com que eles deixem de ter medo de seus inimigos naturais.
Propaganda
Na semana passada, gravei um programa do governo da Frente Popular, reconhecendo os números favoráveis no ensino médio segundo o Enem. Fui criticado por alguns.
"Você critica o governo e faz propaganda?", perguntou uma inteligência. Eu respondi: "Olha, eu amo a minha mãe, mas eu a critico quando ela comete erros."
A crítica no estádio das idéias é muito positiva, porque contribui para o processo democrático. Não sou a favor da adulação, visto que anula o discernimento entre o que é e o que pode ser melhor. Prefiro um governo de esquerda a um (des)governo de um PFL (ou DEM), por exemplo.
A Frente Popular alterou a educação para melhor, não se trata de uma revolução, mas a transformou. Há erros, mas não erros de canalhas, de hienas; são erros de pessoas que apresentam limites.
Espero que a Frente Popular continue por muito tempo no poder, com as minhas críticas lúcidas e sinceras.
"Você critica o governo e faz propaganda?", perguntou uma inteligência. Eu respondi: "Olha, eu amo a minha mãe, mas eu a critico quando ela comete erros."
A crítica no estádio das idéias é muito positiva, porque contribui para o processo democrático. Não sou a favor da adulação, visto que anula o discernimento entre o que é e o que pode ser melhor. Prefiro um governo de esquerda a um (des)governo de um PFL (ou DEM), por exemplo.
A Frente Popular alterou a educação para melhor, não se trata de uma revolução, mas a transformou. Há erros, mas não erros de canalhas, de hienas; são erros de pessoas que apresentam limites.
Espero que a Frente Popular continue por muito tempo no poder, com as minhas críticas lúcidas e sinceras.
terça-feira, dezembro 11, 2007
Focas
A TRIBUNA abriu as portas para os focas. Hoje, cinco se apresentaram e cada um escreveu uma matéria com 20 linhas. De um modo geral, os textos são ruins. Alguns passaram e outros estudam ainda na faculdade de jornalismo.
Abaixo, um fragmento de texto de um foca e, com ele, meus breves comentários.
Abaixo, um fragmento de texto de um foca e, com ele, meus breves comentários.
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Na madrugada do ultimo sábado dia 8, Maria do Carmo de Souza foi brutamente espancada por seu companheiro Geilson de Souza.
Na madrugada do ultimo sábado dia 8, Maria do Carmo de Souza foi brutamente espancada por seu companheiro Geilson de Souza.
Primeiro parágrafo
1. De cara, não domina o uso correto da vírgula;
2. Claro, se foi espancada, só pode ser de forma bruta. Não alguém que espanca de maneira suave, delicada; e
3. Deveria usar a voz ativa: Geilson de Souza espancou sua esposa Maria do Carmo de Souza.
Reconstrução
Na madrugada do dia 8 de dezembro, sábado, Geilson de Souza espancou sua esposa Maria do Carmo de Souza.
Maria do Carmo era moradora do município de Acrelandia localizado a 180 km de Rio Branco, onde mora com duas filhas, uma de 6 e 8 anos, e seu companheiro Geilson há mais de 10 anos.
Ocorreu que na noite de sexta-feira ela e algumas amigas resolveram dá uma passada na casa de uma prima, já era quase 1 da manhã quando saíram dessa residência.
Segundo parágrafo
4. Criou o segundo parágrafo sem necessidade, porque informações do segundo poderiam estar no primeiro:
Na madrugada do dia 8 de dezembro, sábado, Geilson de Souza espancou sua esposa Maria do Carmo de Souza, mãe de uma criança de 6 anos e outra de 8. Os dois são casados há mais de 10 anos. Essa violência doméstica ocorreu em Acrelândia, 180 km de Rio Branco; e
5. Poderia ter criado o segundo parágrafo quando escreveu "ocorreu que na noite de sexta-feira".
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As faculdades de jornalismo têm a obrigação de ensinar o aluno a escrever bem. Sair de uma faculdade sem saber usar, por exemplo, as vírgulas implica encontrar dificuldades na hora de escrever um texto para ser foca de uma redação de jornal.
As faculdades de jornalismo têm a obrigação de ensinar o aluno a escrever bem. Sair de uma faculdade sem saber usar, por exemplo, as vírgulas implica encontrar dificuldades na hora de escrever um texto para ser foca de uma redação de jornal.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
sábado, dezembro 08, 2007
Clarice Lispector
Por que lemos narrativas ficcionais? Lá fora, a realidade não transfigura os objetos. A superfície da realidade encontra-se aprisionada em si mesma. A essa superfície, fixa-se a linguagem ordinária.

Em Signos, Maurice Merleau-Ponty escreve:
"É preciso que ela seja poesia, isto é, que desperte e reconvoque por inteiro o nosso puro poder de expressar, para além das coisas já ditas ou já vistas."
Clarice é senhora de uma narrativa em que pulsa as inquietações do eu-lírico a fim de que a superfície seja transfigurada, por exemplo, em A Hora da Estrela.
A realidade por meio de sua narrativa passa por uma "deformação coerente", diria Ponty. Tamanha deformação expulsa a superfície dos objetos e da realidade.
Profunda, Clarice não pode ser entendida por leitores superficiais.
Hoje, sem que muitos saibam, ela faleceu há 30 anos, em 9 de dezembro de 1977.

Em Signos, Maurice Merleau-Ponty escreve:
"É preciso que ela seja poesia, isto é, que desperte e reconvoque por inteiro o nosso puro poder de expressar, para além das coisas já ditas ou já vistas."
Clarice é senhora de uma narrativa em que pulsa as inquietações do eu-lírico a fim de que a superfície seja transfigurada, por exemplo, em A Hora da Estrela.
A realidade por meio de sua narrativa passa por uma "deformação coerente", diria Ponty. Tamanha deformação expulsa a superfície dos objetos e da realidade.
Profunda, Clarice não pode ser entendida por leitores superficiais.
Hoje, sem que muitos saibam, ela faleceu há 30 anos, em 9 de dezembro de 1977.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Da revista CUT

Gilles Lipovetsky, 63, é um dos mais conhecidos pensadores atuais. Professor da Universidade de Grenoble, seu pensamento tem tido certa fecundidade não apenas no mundo acadêmico ou nos círculos filosóficos, mas também em outros universos, como o das artes, da educação, da psicologia, da política...e...do luxo.
O interesse pelo mundo do luxo e da moda tem sido a prova de que inúmeros e inusitados elementos da experiência humana fornecem a Gilles Lipovetsky ocasião para aprofundar o sentido dessa experiência. Nesse trabalho de aprofundamento, não há desprezo pelo cotidiano nem pelo que parece fútil ou frívolo.
Ao contrário, procurando redefinir o individualismo, Gilles Lipovetsky acrescenta novas misturas à palheta utilizada pelas filosofias atuais para pintar o indivíduo, como se pode perceber pela entrevista bem humorada que ele gentil e muito simpaticamente concedeu por telefone à CULT.
CULT - Como o senhor chegou ao universo do luxo como domínio de pesquisa filosófica? Poderia nos contar um pouco do trajeto de sua formação?
GILLES LIPOVETSKY - Tenho uma formação de filósofo; estudei filosofia na Sorbonne e depois ensinei muitos anos a filosofia mais tradicional, quer dizer, a história da filosofia. Autores como Platão, Kant, Hegel etc. Meus interesses voltavam-se, sobretudo, para a compreensão da história e da vida social, ligados, provavelmente, à minha formação marxista. Meus interesses se fixavam na observação do mundo e suas transformações. Distanciei-me, porém, do marxismo, sobretudo no que dizia respeito à noção de alienação, pois toda cultura de massas era vista como algo alienado. Interessei-me, então, pelas questões que geralmente são desprezadas pelos filósofos. Platão, por exemplo, não gosta da caverna. Para ele, é necessário sair para contemplar a beleza das idéias eternas, inteligíveis. Ao contrário, eu me interesso mais pela caverna; pretendo iluminá-la, sem precisar sair dela. Foi assim que me interessei pelos objetos mais desprezíveis para a maioria dos filósofos, como a publicidade, o lazer, o consumo, a moda, a maquiagem. O luxo, então, foi uma continuidade de tudo isso. Mas não falo apenas segundo um interesse pessoal, porque a moda ou o luxo não me interessam senão ao espírito; parece-me que tudo isso exprime muitas coisas de nossa época, da cultura, da psicologia e da natureza de nossa sociedade.
CULT - Mas, ao mesmo tempo, o senhor não ficou desgostoso com esse universo...
G.L. - Bem... Desgostoso não...
CULT - É que o senhor vinha de uma formação marxista, e muitos marxistas são radicais com respeito à condenação desse gênero de interesse...
G.L. - Eles têm um reflexo moral inteiramente justo, porque é verdade que há algo de escandaloso no luxo. Eu li, por exemplo, recentemente, que está retornando, na moda masculina, a utilização da pele de crocodilo. Em algumas marcas, uma jaqueta masculina chega a custar 80 mil dólares. Quando vemos algo assim, é difícil - como você diz - não ficar desgostoso. Porém, o que me interessa mais é o luxo acessível, não um luxo Rolls-Royce...Quis, de início, saber por que a indústria do luxo, no momento da globalização, mudou seus rumos. Hoje, mais da metade dos europeus compra ao menos uma marca de luxo por ano; tem-se tornado um fenômeno democrático. E não se trata de luxo que escandaliza. Comprar um vidro de perfume, um batom, uma bolsa de mil ou 2 mil dólares não é algo escandaloso. Talvez seja ridículo, mas não escandaloso. Esse é o luxo que me interessa, assim como também tenho interesse pelas técnicas de marketing, os novos modelos de lojas, pois isso toca a todos nós; trata-se de um fenômeno estético de nosso mundo. Se vemos as boutiques, nas cidades, não podemos negar que são belas. Isso é diferente de uma Daslu, por exemplo. Daslu é algo mais escandaloso...Pode-se chegar lá de helicóptero...Há favelas em volta...É chocante. Daslu é quase uma provocação. Mas, nas cidades, quando as marcas de luxo constroem grandes prédios, fazem belas lojas etc., as pessoas entram, vão ver, pois os espaços são abertos a todo mundo. Trata-se de um luxo acessível, relativamente democrático. O outro luxo, voltado para milionários, não me interessa. Esse é um universo que eu não conheço. Numa palavra, o que me interessa é o fenômeno da democratização do luxo.
CULT - Mas seria desejável tornar o luxo mais democrático? O que o luxo diz sobre a natureza humana?
G.L. - Já Shakespeare notava que, se acabarmos com os objetos de luxo, não teremos nada além de animalidade. O que o luxo diz é que o homem não se contenta apenas com a satisfação de suas necessidades naturais. Há, acima de tudo, uma busca de excesso, de ultrapassamento da simples naturalidade. Além disso, o luxo não é simplesmente uma demonstração de riqueza. Pode o ser, mas esse não parece o seu sentido. Há uma busca de beleza no luxo; uma busca de sensualidade. Há um gosto por tudo o que é refinado. Isso exprime, ao mesmo tempo, a competição entre os homens - é por isso que se trata de algo universal, pois os homens, desde sempre, rivalizaram por riquezas. Haveria, ainda, uma questão muito delicada: a arte faz parte do luxo ou não? Penso que sim. Costumamos deixar isso de lado, porque a arte tem uma dimensão espiritual, com referências ao sagrado, à Beleza, mas, se consideramos o preço de uma obra de arte, vemos que estamos muito próximos de um objeto de luxo. Essa é a razão pela qual as pessoas mais ricas, hoje, estão se tornando colecionadoras de arte contemporânea. Creio que o luxo testemunha o fato de o homem, como dizia Bataille, ser negatividade: ele não se satisfaz com o que tem, mas quer sempre mais.
CULT - Mas um objeto de luxo é necessariamente belo? Um artista não pode desejar o feio?
G.L. - Se adotarmos um olhar antropológico sobre o luxo, veremos que ele não esteve sempre associado a coisas belas. Em algumas sociedades, alguns animais tinham valor especial, como os cães para os esquimós. Isso aparece como luxo, mas não se trata necessariamente de beleza. É verdade que, a partir de um certo momento, o luxo e a beleza foram ligados, mas hoje ainda há produtos de luxo que não são necessariamente belos. Por exemplo, quando viajamos em primeira classe de avião: a decoração é a mesma que a da segunda classe ou da classe econômica. O que faz, então, o produto de luxo não é necessariamente a beleza, mas o bem-estar. Para dar uma palavrinha sobre a Beleza, eu diria que, atualmente, ela se "democratizou": a maior parte das pessoas vê mais coisas belas hoje em dia (na televisão, nas revistas, na publicidade etc.); nós consumimos beleza non stop. Vemos a beleza por todos os lados; certos produtos são acessíveis quase a todo mundo, como, por exemplo, os cosméticos. Talvez não as grandes marcas, mas já faz quase um século que os cosméticos se tornaram acessíveis a praticamente todas as pessoas das sociedades desenvolvidas. Nesse contexto, há novos mercados de luxo à procura de algo que está além da simples beleza. Isso remete muito mais à sensação do que à beleza...
O interesse pelo mundo do luxo e da moda tem sido a prova de que inúmeros e inusitados elementos da experiência humana fornecem a Gilles Lipovetsky ocasião para aprofundar o sentido dessa experiência. Nesse trabalho de aprofundamento, não há desprezo pelo cotidiano nem pelo que parece fútil ou frívolo.
Ao contrário, procurando redefinir o individualismo, Gilles Lipovetsky acrescenta novas misturas à palheta utilizada pelas filosofias atuais para pintar o indivíduo, como se pode perceber pela entrevista bem humorada que ele gentil e muito simpaticamente concedeu por telefone à CULT.
CULT - Como o senhor chegou ao universo do luxo como domínio de pesquisa filosófica? Poderia nos contar um pouco do trajeto de sua formação?
GILLES LIPOVETSKY - Tenho uma formação de filósofo; estudei filosofia na Sorbonne e depois ensinei muitos anos a filosofia mais tradicional, quer dizer, a história da filosofia. Autores como Platão, Kant, Hegel etc. Meus interesses voltavam-se, sobretudo, para a compreensão da história e da vida social, ligados, provavelmente, à minha formação marxista. Meus interesses se fixavam na observação do mundo e suas transformações. Distanciei-me, porém, do marxismo, sobretudo no que dizia respeito à noção de alienação, pois toda cultura de massas era vista como algo alienado. Interessei-me, então, pelas questões que geralmente são desprezadas pelos filósofos. Platão, por exemplo, não gosta da caverna. Para ele, é necessário sair para contemplar a beleza das idéias eternas, inteligíveis. Ao contrário, eu me interesso mais pela caverna; pretendo iluminá-la, sem precisar sair dela. Foi assim que me interessei pelos objetos mais desprezíveis para a maioria dos filósofos, como a publicidade, o lazer, o consumo, a moda, a maquiagem. O luxo, então, foi uma continuidade de tudo isso. Mas não falo apenas segundo um interesse pessoal, porque a moda ou o luxo não me interessam senão ao espírito; parece-me que tudo isso exprime muitas coisas de nossa época, da cultura, da psicologia e da natureza de nossa sociedade.
CULT - Mas, ao mesmo tempo, o senhor não ficou desgostoso com esse universo...
G.L. - Bem... Desgostoso não...
CULT - É que o senhor vinha de uma formação marxista, e muitos marxistas são radicais com respeito à condenação desse gênero de interesse...
G.L. - Eles têm um reflexo moral inteiramente justo, porque é verdade que há algo de escandaloso no luxo. Eu li, por exemplo, recentemente, que está retornando, na moda masculina, a utilização da pele de crocodilo. Em algumas marcas, uma jaqueta masculina chega a custar 80 mil dólares. Quando vemos algo assim, é difícil - como você diz - não ficar desgostoso. Porém, o que me interessa mais é o luxo acessível, não um luxo Rolls-Royce...Quis, de início, saber por que a indústria do luxo, no momento da globalização, mudou seus rumos. Hoje, mais da metade dos europeus compra ao menos uma marca de luxo por ano; tem-se tornado um fenômeno democrático. E não se trata de luxo que escandaliza. Comprar um vidro de perfume, um batom, uma bolsa de mil ou 2 mil dólares não é algo escandaloso. Talvez seja ridículo, mas não escandaloso. Esse é o luxo que me interessa, assim como também tenho interesse pelas técnicas de marketing, os novos modelos de lojas, pois isso toca a todos nós; trata-se de um fenômeno estético de nosso mundo. Se vemos as boutiques, nas cidades, não podemos negar que são belas. Isso é diferente de uma Daslu, por exemplo. Daslu é algo mais escandaloso...Pode-se chegar lá de helicóptero...Há favelas em volta...É chocante. Daslu é quase uma provocação. Mas, nas cidades, quando as marcas de luxo constroem grandes prédios, fazem belas lojas etc., as pessoas entram, vão ver, pois os espaços são abertos a todo mundo. Trata-se de um luxo acessível, relativamente democrático. O outro luxo, voltado para milionários, não me interessa. Esse é um universo que eu não conheço. Numa palavra, o que me interessa é o fenômeno da democratização do luxo.
CULT - Mas seria desejável tornar o luxo mais democrático? O que o luxo diz sobre a natureza humana?
G.L. - Já Shakespeare notava que, se acabarmos com os objetos de luxo, não teremos nada além de animalidade. O que o luxo diz é que o homem não se contenta apenas com a satisfação de suas necessidades naturais. Há, acima de tudo, uma busca de excesso, de ultrapassamento da simples naturalidade. Além disso, o luxo não é simplesmente uma demonstração de riqueza. Pode o ser, mas esse não parece o seu sentido. Há uma busca de beleza no luxo; uma busca de sensualidade. Há um gosto por tudo o que é refinado. Isso exprime, ao mesmo tempo, a competição entre os homens - é por isso que se trata de algo universal, pois os homens, desde sempre, rivalizaram por riquezas. Haveria, ainda, uma questão muito delicada: a arte faz parte do luxo ou não? Penso que sim. Costumamos deixar isso de lado, porque a arte tem uma dimensão espiritual, com referências ao sagrado, à Beleza, mas, se consideramos o preço de uma obra de arte, vemos que estamos muito próximos de um objeto de luxo. Essa é a razão pela qual as pessoas mais ricas, hoje, estão se tornando colecionadoras de arte contemporânea. Creio que o luxo testemunha o fato de o homem, como dizia Bataille, ser negatividade: ele não se satisfaz com o que tem, mas quer sempre mais.
CULT - Mas um objeto de luxo é necessariamente belo? Um artista não pode desejar o feio?
G.L. - Se adotarmos um olhar antropológico sobre o luxo, veremos que ele não esteve sempre associado a coisas belas. Em algumas sociedades, alguns animais tinham valor especial, como os cães para os esquimós. Isso aparece como luxo, mas não se trata necessariamente de beleza. É verdade que, a partir de um certo momento, o luxo e a beleza foram ligados, mas hoje ainda há produtos de luxo que não são necessariamente belos. Por exemplo, quando viajamos em primeira classe de avião: a decoração é a mesma que a da segunda classe ou da classe econômica. O que faz, então, o produto de luxo não é necessariamente a beleza, mas o bem-estar. Para dar uma palavrinha sobre a Beleza, eu diria que, atualmente, ela se "democratizou": a maior parte das pessoas vê mais coisas belas hoje em dia (na televisão, nas revistas, na publicidade etc.); nós consumimos beleza non stop. Vemos a beleza por todos os lados; certos produtos são acessíveis quase a todo mundo, como, por exemplo, os cosméticos. Talvez não as grandes marcas, mas já faz quase um século que os cosméticos se tornaram acessíveis a praticamente todas as pessoas das sociedades desenvolvidas. Nesse contexto, há novos mercados de luxo à procura de algo que está além da simples beleza. Isso remete muito mais à sensação do que à beleza...
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