Primeiro, ouvi o que o jornalista Antônio Alves expressou quando recebeu o Prêmio Chico Mendes. Depois, com muita atenção, li o texto. Em blog e em jornal, propagou-se a idéia de que Antônio Alves é uma voz crítica dentro do poder, até Altino Machado concordou com isso.Se fosse voz crítica, o bom Toinho Alves não estaria no poder. Como permanecer nele se sua fala se opõe à pensão vitalícia dos governadores? Como permanecer nele se sua fala propaga que não houve revolução na educação acreana? Sobre pensão e pseudo-revolução, silêncio.
Quando digo voz crítica, refiro-me a uma voz que emite rupturas. No poder, com seus amigos, Toinho não promove rupturas, mas se conserva no poder para pagar a conta de luz, as compras do mês, o crediário, para receber prêmios - coisa de que não gosta, disse certa vez.
Quando os senhores falarem de voz crítica, por favor, citem Frei Beto, por exemplo. Ele saiu do poder e revelou em livros o que blogs e jornais não publicam.
Neste pequeno mundo chamado blog, deixo aos teus olhos meu último artigo deste ano. Queria muito, minha mãe, que a senhora o lesse para comentá-lo, porque a senhora é a única que acessa minhas vãs palavras. Meu sonho desde criança, a senhora sabe, era ser um Altino Machado para não ser acessado só pela senhora. Paciência, sou um fracassado.
De Aldo Nascimento
Por sua natureza, o Estado precisa inventar heróis. No Acre, seria diferente? Entre árvores copadas, em plena Floresta Amazônica, surge um herói com farda e patente para militarizar a virtude. Outro herói emerge entre árvores depois que os gringos o projetaram para o mundo. Plácido de Castro, idealizado pela propaganda de Estado, e Chico Mendes, modelado pela comunicação de massa, não só se opõem como também deformam o que Mário de Andrade e Oswald de Andrade pensaram sobre a identidade de um povo, sobre a imagem de uma cultura.
Por meio de seus heróis, o Estado quer convencer, educar, disciplinar, ordenar e, por outro lado, tende a propagar uma ideologia que pode aborrecer ou irritar. A cultura do Estado é forçada, quer adaptar o público à sua cultura. Se tais heróis aborrecem, se eles irritam, é porque não foram germinados no solo fértil da cultura popular.
Zumbi dos Palmares, degolado em 20 de novembro de 1695. O negro jamais colocou seu herói em uma procissão cristã e nunca precisou do Estado ao longo da história para patrocinar sua lembrança. O passado do negro permanece intensamente vivo porque sua cultura, encarnada em seu corpo, dança, musicaliza, canta, veste-se e exporta moda, ou seja, sua cultura cicatrizou-se no modo ser, de existir, de falar.
Qual o herói do seringueiro? O Estado idealizou um. A comunicação de massa modelou outro. Mas onde encontramos a cultura do seringueiro encarnada no corpo social? Qual a dança do seringueiro? Qual a música do seringueiro? Qual o canto do seringueiro? Quais as vestes do seringueiro que exportam moda?
Por meio da Rádio Difusora, o seringueiro manda sua mensagem; hoje, porém, sua fala passa por uma limpeza. Se ele escreve em sua mensagem “Toin”, a rádio o corrige, o certo é “Toinho”. Em Cruzeiro do Sul, o professor-doutor Milton Chamarelli Filho chegou à conclusão em sua pesquisa de que a cultura da fala acreana está deixando de existir, eu acredito que seja por causa dos veículos de comunicação de massa. No caso da Rádio Difusora, que pertence ao Estado, a fala do seringueiro está passando hoje por uma assepsia: “Toin” é uma infecção lingüística. Assim, sem música que nos faça dançar, sem canto que nos faça sonhar, sem vestes que exportem moda, o seringueiro tem sua fala roubada, mas em troca recebe um herói modelado pelos veículos de comunicação de massa e outro idealizado pelo Estado.
Chico Mendes, segundo a cultura de Estado, é herói de um povo, e, por ser herói, um grupo político premia e premia-se; entretanto, na reserva extrativista que leva seu nome, seus ideais foram pro brejo, menos a vaca e o boi. O gado ri de nós, porque, enquanto sublimamos Chico Mendes, suas idéias pastam em sua reserva.
Esse, no entanto, ainda é o mal menor. Mal maior é quando a pecuária nos veste com suas botas, com suas calças justas e cintos largos, com suas blusas, com seus chapéus para o acreano José da Silva, que veio do seringal Redenção, ser chamado de cowboy. Ele ainda ouve música sertaneja e dança. Mal maior não é o gado na reserva, mas a pecuária transfigurada em cultura. Ele veio do seringal, é um jovem seringueiro, mas José da Silva encarna o modo de ser do rodeio.
O Estado pode inventar heróis, idealizá-los para nos convencer, para nos educar, propagando uma ideologia que aborrece e irrita por ser ela forçada e por querer adaptar o público à sua cultura pesada, mas os mitos que criam comportamentos são outros.
Depois que lemos Mitologias, de Roland Barthes, podemos afirmar que o cowboy é um desses mitos que, vindo da pecuária e oposto à cultura enfadonha do Estado, faz tudo para agradar, divertir, recrear. José Silva sai do seringal para ir ao rodeio porque o cowboy o despersonaliza como seringueiro para, em um segundo momento, repersonalizá-lo por meio da bota, da calça justa com cinto, do chapéu, da música sertaneja, da dança. Senhores, o gado na Reserva Extrativista Chico Mendes é mal menor. O mal maior é a pecuária agenciando a fantasia.
Heróis de um povo segundo o Estado. Leiamos Macunaíma, de Mário de Andrade. Leiamos Oswald de Andrade.




