terça-feira, junho 07, 2011

Eles paralisaram as aulas, mas eu lecionei

Hoje, mais um dia de paralisação na rede pública de ensino estadual, e eu lecionando na escola Heloísa Mourão Marques.

O Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac) não aceitou a proposta do governo, 15% em três vezes. O sindicato exige um acordo de 20%, dividido em quatro vezes: julho, janeiro de 2012, abril de 2012 e outubro de 2012.

Na sexta-feira, dia 10, outra paralisação para definir se os professores cruzarão os braços por tempo indeterminado caso o governo não aceite a porcentagem do corpo docente. Fonte do governo afirmou que não abrirá mão dos 15% para todos os servidores. "É isso ou nada", disse um membro de governo.

Até agora, os professores da escola Heloísa Mourão Marques irão repor três dias de aula; eu, dois dias.



sexta-feira, junho 03, 2011

Um outro modelo de sala


Quando desejamos ouvir a palavra, precisamos desta essência: o silêncio. O pequeno príncipe e o piloto dialogam no deserto. Nesses meus quase 15 anos de escola pública acriana, não me lembro de ter ficado no deserto para que a palavra fosse lida, pensada, percebida em uma narrativa, em um drama ou em uma poesia.

As escolas são barulhentas, não há nelas um lugar-leitura, isto é, um deserto onde possamos ouvir a palavra desenhada e pintada pela poesia ou por um belo romance. Uma vez em sala, a palavra literária é corrompida pelo ruído, pelo tumulto de corredores.

Na escola Heloísa Mourão Marques, por exemplo, edificaram as salas perto da rua. Assim, quando um carro passa com a excrescência de um Calcinha Preta, calo-me em sala porque não posso competir com os ruídos da rua, além dos ruídos de corredores, de outras salas.

Ainda sim, de alguma forma, sempre busquei ler ótimos autores ficcionais na escola pública. Sempre. Após tantos anos, finalmente, o aconchegante silêncio na escola Heloísa Mourão Marques. Agora, podemos ler no deserto.

A responsável por isso, soletre: OS-MA-RI-NA, a diretora. Ela possibilitou uma Sala de Leitura, a única do estado para o ensino médio. Mais: a única escola de ensino médio onde obras literárias são lidas.

Com essa sala, com esse deserto, com esse lugar-leitura, poderemos ouvir a palavra literária de um Drummond, de um Dino Buzzati, de um Kafka, de um Castro Alves, de um Raduan Nassar.

Desejo ver meus alunos nessa sala deitados, sentados no chão, só lamento não ser possível colocar belas redes para eles se balançarem. Nela, há dois tapetes - haverá mais -, existem duas mesas para alunos, assentos confortáveis, um chão limpo para os pés ficarem descalços, há dois ventiladores silenciosos embora a sala seja arejada naturalmente.

Trata-se de um lugar-leitura para que possamos nos esquecer daquelas salas que incomodam o conhecimento, o saber. Nesse deserto, a palavra literária encontra-se em paz, silêncio.

quarta-feira, junho 01, 2011

Prazer

De Aldo Nascimento


Criado para ser encontro, o Corpo sussurra na pele do ser apaixonado a mais profunda carência. Sozinho, o corpo seria triste porque negaria sua própria natureza, que é se sentir, sentindo-se, em outro corpo. O Prazer nos alegra!

E é assim que a desejo e é assim que, aos poucos, me aproximo. Em gestos delicados, condenso agora toda emoção em um toque, mas, antes que eu a tocasse, precipitei-me em suor. As mãos gelaram-se. Meu Corpo, orgulhoso, estremeceu-se. Ao te tocar, perceba: fragilizo-me.

Sim, eu sinto. Mais: por meio de ti, eu me sinto. Se não fosse você, sozinha, eu desconheceria a desmedida de minha felicidade, que é, sob os desvios de tuas carícias, sentir minha carne suavizar-se.

Tua pele... na minha... minha carne, já molhada e febril, confessa: ofereces a mim o prazer de estar onde sempre desejei estar – em teu Corpo, lugar-carne que me acolhe; extrai de mim a certeza de que estou viva, imensa, alegre. Quase infinita.

Perceba. Sou oferenda entregue a essa humana carência de ser desejada por ti. Feliz carícia que desliza. Fragiliza-me. Retira-me da solidão. Por causa de ti, faço-me presente para não mais, a mim, pertencer. Olhe, escute-me, eu o amo!

Imerso em suor e entre gemidos, eu, também, a amo, mais ainda quando meu Corpo está em transe, mais ainda quando minha carne se declara insana. Corpo que se contorce. Agiganta-se. Foge ao controle. Rebela-se. Transpira. Geme. Grita. Exagera.

Já pressinto o gozo, sensação de que irei, por alguns segundos, me desencarnar. Minha carne já pode sentir o sabor suado dessa vertigem. Quando gozamos, tenho a impressão de que somos lançados ao não-lugar, restando a essa breve viagem fechar os olhos e... hummmmmmmm! Deus, Deus, milagre!

Agora, após o êxtase, meu Corpo, cansado e feliz, tomba sobre o teu, e, ao teu ouvido, sussurro que, sem você, eu jamais poderia sentir, sozinho, o que senti em minha carne e em meu espírito. Tu foste o caminho por onde cheguei, mais sensível, a mim mesmo. Por meio de ti, sou devolvido a mim muito mais feliz. Só o Outro, você, essa minha diferença, possibilitou o excesso.

Saboreando tua carne, movimentando-me ao seu bel-prazer, vivi a alegria de não mais a mim pertencer. Fui teu. Saborosamente, teu.

terça-feira, maio 31, 2011

A poesia do beijo

Extrair do comum, do natural, o deslumbramento poético. O beijo, sabemos como ele é. Não sabemos, isso sim, ofertar a ele as devidas palavras.

No texto abaixo, meu, já postado neste blogue, minhas palavras foram uma tentativa de renomear esse encontro entre lábios, oferecendo a ele o incomum. Leia-o!

Em sua insana consciência, o Amante jamais pensa como beijará o ser Amado porque o que é vital no beijo é o não pensar. Uma vez nele, uma vez entre lábios e língua, entre a saliva e o céu da boca, já não queremos ver mais nada, por isso fechamos os olhos para somente sentir.

Desejamos tão somente sentir o movimento incerto da carne para partir... e, fechados os olhos, a Alma se sente cair no abismo de uma breve viagem. Deixar ir.

Nada no beijo é exato, preciso ou calculado. Quanto mais errado, quanto mais a língua escapa, foge, escorre, quanto mais os lábios se jogam, a boca só deseja se perder, mais ainda, na boca Amada.

Mas quem disse que o beijo são só os movimentos da carne? Antes de eu ter minha boca de volta, antes de eu ir embora, pouco antes de minha partida, deixei na tua não só o pecado molhado da saliva, mas meu sopro... meu sopro de vida.

quinta-feira, maio 26, 2011

Cative-me!

Para interpretar, meu olhos, antes, observaram a Expo-Acre por três anos.

Certa vez, meus olhos testemunharam uma criança com a família. O pai segurava a câmera, e a mãe ajeitava a pose da menina.

O local era uma baia. Ao lado da inocente, um boi também saiu na foto.

Muitos, em dia de Expo-Acre, saem de suas casas para contemplar bovídeos. Dizem que as crianças adoram, dizem.

Mas, no lugar de bois, imagino o governo da Frente Popular criar um espaço imenso somente para as crianças, um lugar de alegria autêntica, ingênua; no lugar de quadrúpedes, teatro infantil, leitura, parques, contadores de estórias, cinema.

No Acre, quando falamos de (contra)cultura infantil, a terra é árida, principalmente, nas periferias. Não há representações desse mundo nem nas escolas públicas, o que há são caricaturas do mundo infantil, deformações.

CATIVAR

A mãe conta estória para a filha dormir, mas, para mim, a Literatura Infantil deve despertar as crianças, abrir seus olhos para o belo, o sensível, o universal. "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry, pertence a uma literatura que não adormece crianças.

Nessa obra, as palavras transcendem o dicionário porque receberam dramatização. "Cativar", por exemplo, só tem sentido - mais do que significado - porque aprendemos com ela que esse verbo só pode ser conjugado a dois. Cativar é encontro e, onde pulsa o encontro, onde existe o eu, existe o drama. Deixamos de ser indivíduos isolados.

No entanto, quando vejo no filme a raposa no trigal, percebo que "cativar" é também "ficar só". A raposa, uma vez cativada, não pode evitar uma marca do destino [humano], a perda. Um dia, seja pela morte, seja por outra partida, a vida é a perda física de quem nos cativou, nesse caso, o pequeno príncipe.

No trigal, sozinha por causa da ação do verbo cativar, a raposa sabe que "o essencial é invisível aos olhos", isto é, ela não se serve mais da presença física do pequeno príncipe, mas só ela, sozinha, vê os cabelos do menino na forma de trigo. Só ela vê o invisível.

Crianças deveriam ser proibidas de entrar na Expo-Acre.

quarta-feira, maio 11, 2011

Por que Cruz e Sousa?

Não sou homem musculoso, meu corpo não foi modelado por exercícios físicos. Minha academia, outra. Eu sei, no entanto, que, sem esforço, músculos não se avolumam. O peso exige de mim superação.

A poesia "Grande Amor" é pesada demais para os "músculos do cérebro". Para entendê-la, para interpretá-la, é preciso suar muito, é preciso malhar para o cérebro ficar "tanquinho". Ler Cruz e Sousa é atividade aeróbica de alto impacto.

Leram uma vez. Duas. Leram três vezes. Quatro. Não entenderam, ou seja, o entendimento de sua poesia não se encontra na superfície do texto. Nesse lugar, parte externa, o leitor desprevenido se perde e confessa que "tudo está confuso".

Não sempre, mas gosto de, por meio do literário, deixar meu alunos perdidos. Achem-se! Sozinhos, não se acham no texto. Por causa disso, leio, releio, interpreto. Entro com eles no labirinto do "Grande Amor" para encontrar a saída.













segunda-feira, maio 09, 2011

Cruz e Sousa




Hoje, um calor que deputados e vereadores não sentem em seus gabinetes incomodou a leitura e a interpretação de uma belíssima poesia de Cruz e Sousa, "Grande Amor".






Grande amor, grande amor, grande mistério

que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
num abismo de luz profundo e céreo.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
e bálsamo dos bálsamos da graça,
chama secreta que nas almas passa
e deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
junto às águas sonâmbulas de lagos,
sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
que prende as almas num igual destino,
num beijo fecundado num gemido.

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Até a terceira estrofe, colocamos na ordem sintática direta, fomos ao dicionário, criamos imagens para as palavras e interpretamos os versos desse negro de Santa Catarina.


quarta-feira, maio 04, 2011

Todo mês tem leitura

4 de maio, 2011. Uma manhã muito agradável para ler fora da sala de aula. Ficamos atrás do auditório, um local silencioso para a leitura ser ouvida por todos. Aqui, não havia ruídos de outras salas. Não se trata de um espaço perfeito, mas, mesmo assim, bem melhor do que salas quentes.

Ler nas escolas públicas acrianas é desconforto. Conforto mesmo só na Assembleia Legislativa do Acre ou nas escolas particulares dos filhos de deputados.















Estamos lendo "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati. Sinto na faces de alguns alunos que ler é "um saco": significado de palavras, compreender o que está escrito, interpretar, vírgula, pronome oblíquo, aposto. Entretanto, embora contrariados, a leitura segue seu destino.

Por que esse livro? No segundo ano do ensino médio, os professores decidiram que o texto estudado nesse período deve ser descritivo, por isso "O Deserto dos Tártaros". Essa bela obra literária é senhora de um narrador que, ao ver a aparência da realidade, oferece a essa mesma realidade profundidade.

Seu narrador compõe o profundo por meio da superfície.














Fora a superfície, o narrador apresenta Drogo, um personagem que viverá no forte Bastiani. Nesse local, lugar marcado pela solidão, pela rotina, ele ainda espera por algo; mas, enquanto algo não chega, é preciso dar à vida isto: sentido.

Depois, em outro momento da leitura, quando estivermos mais adiante, leremos trechos deste livro de Albert Camus: "O Mito de Sísifo". Se Drogo vive o absurdo, saberemos que, mesmo no absurdo da vida, é preciso encontrar um sentido.

Na igreja mais simples, o pastor lê a Bíblia para seus fiéis, porque na igreja mais simples quatro palavras existem: o conforto do silêncio.

Na escola pública acriana, lugar nocivo às páginas de uma obra literária, predomina o incômodo das salas de aula - elas permanecem as mesmas como há 50, 100 anos.

terça-feira, maio 03, 2011

Ele, o Livro

Fala-se tanto de o aluno ler na escola. Fala-se muito, "os alunos precisam ler". O que nasceu primeiro, o Livro ou o computador? A resposta, óbvio!, ele, "o Livro".

Embora seja muito mais antigo, muito mais velho que a máquina, o Livro, essa entidade espiritual rara entre estudantes, jamais foi destinado a ele uma sala [confortável] de leitura.

Não há sala de leitura nas escolas estaduais do Acre; porém, mesmo surgindo no mundo séculos depois, ao computador, reservaram-se salas e mais salas, todas climatizadas. A tecnologia tem lá suas suas vantagens sobre coisas antigas, velhas, seculares.

Leio para meus alunos há anos, desde 1990, quando comecei na escola Souza Marques, em Madureira, Rio de Janeiro. No Acre, de uma forma ou de outra, o ato da leitura, até hoje, é difícil por causa de uma realidade escolar oposta à leitura em sala.

Hoje, na escola Heloísa Mourão Marques, sem domínio de sala, um profissional da educação permitiu que alunos exercem o "direito" de incomodar minha aula com gritos, com falatórios. Eu lia "O Deserto dos Tártaros".

Sala quente, sem ar-condicionado, ruídos pelo corredor, professor que incomoda outro professor, tudo para o Livro não ser lido na escola. Formas de impedimento.

No planejamento pedagógico, não consigo nem mais marcar um dia para ler no auditório ou na sala de vídeo, porque, como outros planejamentos são marcados antes do meu, professores já deixam agendadas suas aulas nesses locais marcados pelo silêncio.

Eu soube que, em outros anos, professores reclamavam de mim porque eu ocupava a sala de vídeo para leitura. "Sala de vídeo não é lugar de leitura", sentenciavam uns babacas, uns imbecis desqualificados.

Osmarina construirá um espaço para leitura ainda neste ano, longe de professores que não colocam limites em seus alunos.

Enquanto esse lugar não existe ainda, eu continuo, mesmo em local impróprio, em uma sala de aula, a ler.

Tenho inveja dos computadores.

sábado, abril 23, 2011

Saliva



Vida,
eis um bom encontro:

entre o olhar que me come
e o gozo que me consome,

o instante, este momento:
saliva marcada

por teu nome.

quinta-feira, abril 14, 2011

A cada quatro anos, Sulivan é vítima de bullying


Massacre de Columbine:

Eric Harris (apelido ReB), de 18 anos,

e
Dylan Klebold (apelido VoDkA), de 17 anos.















Massacre da Universidade de Virgínia:

Cho Seung-Hui, 23 anos.














Massacre de Realengo:

Wellington Oliveira, de anos 23.


















Massacre da Assembleia Legislativa do Acre, a Aleac:

Professor Sulivan, de 68 anos













quinta-feira, abril 07, 2011

Sepultaram a senhora Gramática

Por meio de um burocrata da Secretaria Estadual de Educação, ouvi que não se estuda mais na escola gramática, conhecimento ultrapassado. No lugar dela, gêneros textuais. Ando sem tempo para escrever neste blogue sobre tamanha sandice.

Como (in)consequência, elaboram-se provas sem a presença da gramática. Ando sem tempo para escrever. Deixo então uma breve crítica de Marildes Marinho, fragmento de seu artigo "A Língua Portuguesa nos Currículos de Final de Século".

Seu pensamento sobre essa questão é resultado de trabalho realizado por uma equipe do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da FaE/UFMG. Foram analisados currículos de 19 estados, com a finalidade de oferecer ao MEC subsídios para a elaboração de parâmetros para o ensino da língua materna no Brasil.

Eis:

"(...). O risco que se corre, quando se toma o gênero ou o tipo de texto como o elemento orientador da prática de produção escrita, é o de privilegiar o produto em detrimento do processo. Ao se focalizarem as característica e/ou estratégias de modelos prototípicos de textos (sem se considerar para quem, o quê, por quê o autor está escrevendo), pode-se estar deslocando o foco da gramática normativa da frase ou a nomenclatura gramatical para uma gramática normativa do texto ou uma nomenclatura textual. (...)."

Seu artigo encontra-se no livro "Os currículos do ensino fundamental para as escolas brasileiras", organizado por Elba Siqueira.

Retirar a gramática da disciplina Língua Portuguesa assemelha-se a retirar o cálculo da Matemática.

quinta-feira, março 31, 2011

Vou apertar e vou acender agora

Há uma semana, no centro de Rio Branco, um cheiro forte entrou pelas narinas. O relógio nem marcava meio-dia.

Eles, à sombra de uma árvore, puxavam maconha. Tudo numa boa, na paz.

segunda-feira, março 21, 2011

Milagre

Quando o tempo joga a favor, gosto de parar para (re)organizar as palavras. Pensá-las. Senti-las. "Milagre" é uma dessas poesias minhas em que o ritmo das horas permitiu poetizar a vida.

Milagre

Em igrejas à espera de milagres,

eu, à margem do corpo de Cristo,
entre o fim da tarde e a chuva fina,

ajoelho-me e, por teu nome, rezo a finco.

Que teu corpo nu, sem espinho, sem prego e cruz,
traga, como novo messias, à minha esperançosa carne,
o milagre de tua luz:

chama, despido corpo, me chama, e eu, safado santo,
subo ao sagrado altar, tua cama, para ser pecador feliz.

Sinto pena das igrejas, sinto tanto.

Para teus fiéis, me eternizo surdo, e tua língua nem falo.
Mas, em tua boca litúrgica, batizo-me com tua saliva.

Teu gozo, abençoada prece. Teu corpo, como não amá-lo?

E, sem crer no pão e no vinho, molho minha semente em tua fissura para germinar vida.
Entre tuas pernas, minha reza, meu clímax: Deus, eis a oferta!!!

Olhe no meu olho, Amada, olhe, veja-nos e sinta!!!

sábado, março 05, 2011

Marcos Vinícius e seu Carnaval

Há anos na Fundação Garibaldi Brasil, Marcos Vinícius, carioca formado em História que acredita que revolução é conflito bélico entre dois países, também acredita que Carnaval é o que ele diz.

Quando vai à tevê, só fala em organização, porém nunca disse sobre a importância simbólica dessa festa popular.

Marcos organiza a escolha de Momo, entretanto ignora o que seja a história simbólica desse rei. Como presidente da Fundação Garibaldi, sua função deveria ser nobre quando o período carnavalesco chega. Deveria.

Como porta-voz da cultura popular, sua boca não se abre na TV Aldeia para colocar na devida ordem os significados das palavras que pertencem ao reino de Momo. O problema é que a TV Aldeia não sabe, como emissora de cultura, falar do Carnaval, muito menos Marcos.

É como eu digo: em dias de Momo, o presidente da Fundação Cultural Garibaldi Brasil deveria fazer um retiro espiritual ou então fazer isto: calar a boca.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Cansaço

Ando cansado de tudo. Do meu umbigo. E do tumulto. Só não ando cansado da chuva. De algo noturno. Ando à espera de um milagre.

Ando cansado do tempo.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Sinplac

Reclamamos do governo, mas não nos olhamos no espelho. O Sinplac, Sindicato dos Professores Licenciados do Acre, está condenado a ser o mesmo, não se importando com o passar do tempo.

Acreditei que a atual direção fosse criar um jornal independente, um jornal ético, imparcial, algo destinado à educação, revelando a real situação dos professores e as contradições do governo. O Sinplac é obreiro.

Eu e minhas ilusões.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Quando chegarmos...

à Região dos Lagos.

Em Maricá, Rio de Janeiro, as ondas e as areias - menos em Ponta Negra - exibem imagem selvagem.

Em certos trechos, sentimos o cheiro da solidão. Gosto de suas praias por ficar diante do deserto do mar e no deserto da praia.

Igual a uma igreja, o silêncio de Maricá é sagrado. Limpa-me.

Muitas vezes, nessas praias, juramos Amor Eterno, mas nem o mar é eterno. Nada se eterniza no que é humano. Se você me disser que Abelardo e Heloísa, que Romeu e Julieta e que Tristão e Isolda são eternos, digo-lhe apenas que esses casais nunca viveram juntos o peso das horas.

O movimento romântico do século 19 os idealizou porque a morte os separou antes do convívio, antes de surgirem os erros, as decepções. Eles podem até atravessar a moldura do tempo, mas isso ainda não é eterno, até o Deus do Novo Testamento não é igual ao Velho.

Eu te decepcionei, mas você também me decepcionou. Somos mortais. Nesses anos, des-cobrimos nossas falhas, e o eterno tornou-se menor. Talvez agora, quem sabe, o Amor dê sinais de vida nesse espaço menor, tamanho dos erros humanos.

Será que seremos capazes? Será que pulsa em nós tamanha força? Me responda quando as ondas de Maricá molharem nosso cansaço.
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No dia 30 de janeiro, retornarei a este blogue. Que em 31 de dezembro, à meia-noite, você erga um brinde à vida recomeçada.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Tenho de ir!

Última postagem deste ano. Quando retornarei, ainda não sei. A única verdade é que tenho de me ausentar por um longo tempo. Silêncio.

Mas, antes, deixo a teus olhos os versos de um poeta que me fascina pelo vigor desobediente de sua inquieta juventude. A poesia chama-se "Minha boêmia".

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito ideal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
- Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Usa Maior.
- Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Aprecio esses versos por causa de sua vertiginosa liberdade ("Albergo-me à Ursa Maior"). Sob estrelas, hospeda-se. Esse é o maior bem de um ser humano, a liberdade. Mas quem pensa que ela significa fazer o que bem entende... engana-se.

Somos livres para haver o encontro, porque, se muitas vezes não sabemos explicar, pelo menos sentimos na pele que o outro nos liberta. Penso que a liberdade só possui esse sentido. Quando estamos sozinhos, estamos presos a nós mesmos, angustiados por grades que não vemos.

É o outro que nos oferta o gozo. Rimos porque estamos com alguém. Rir sozinho é loucura. Ausência de liberdade implica o que o Espírito não pode realizar, e uma das maiores realizações é se comover no momento de um encontro. Ser afetado. Afetar alguém.

Mas, depois, no final de tudo, estaremos sozinhos. A velhice virá. A dor brotará em nós. Não se negocia com a morte. No final, sempre perdemos nas esquinas solitárias, nas multidões que não nos enxergam.

No leito de um hospital, sempre perdemos os amigos. Em nossa própria casa, perderemos nossa mãe. No final, já disse, sozinhos ficaremos diante da tevê ou da tarde chuvosa.

Mas que o fim não nos desanime. Se a liberdade nos deu os encontros que agora pulsam em nós como boas lembranças, deixemos nos lábios a doçura do sorriso porque tudo, tudo mesmo, foi liberdade.

Para conhecer melhor o autor dos versos de "Minha boêmia", assista ao filme "Eclipse de uma paixão". Arthur Rimbaud fascina.

Agora, tenho de ir para o silêncio de minhas lembranças.