quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Estou muito Feliz!

Já são 2 e 5 meses no Rio de Janeiro, após 20 anos no Acre. Passo por um ótimo momento, porque estou aprendendo muito, muito, muito.

Lendo muito.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Dia 23 de fevereiro

Aos 50 anos ou meio século, lecionar pela primeira vez Filosofia. No final de 2014, em outubro, entrei em sala para pensar a Filosofia em uma turma do 1º ano do ensino médio.

No dia 23 de fevereiro de 2015, será para assumir uma turma até o fim do ano. Meu plano de aula está pronto e meu calendário de conteúdo também.

Com o calendário em mão, o aluno sabe em março qual conteúdo estudará em junho. 

domingo, fevereiro 01, 2015

Poesia e Filosofia

Versos de Cláudio Manuel da Costa

Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforme o peito amante;
Daqui vem, que minha alma delirante
Se não distingue já do meu cuidado.

Medida. Limite. Nenhum excesso. Sustentando esses versos árcades, existe uma estrutura que organiza o sentimento não só enquanto métrica decassílaba como o conduz de forma contida.

O Amante nesses versos não é senhor da (e)moção, isto é, não se move para fora, para o encontro com a Amada, por isso "Faz a imaginação".

O pensamento árcade sabe que, agindo por si, o Desejo desorganiza. Mas a pergunta é: não é prazeroso se desorganizar na cama à busca do gozo? Não é a falta de métrica ou de medida na cama que nos apraz?

Em minha primeira aula de Filosofia, os versos de Cláudio Manoel da Costa e um fragmento textual de Platão sobre o Amor, com a finalidade de refletir sobre a desmedida, a hýbris.

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Aquilo nunca foi Idade Medieval

O quanto o ensino de história deixou erros e erros. O que me ensinaram não passou de erro.
DA SEÇÂO: COISAS DESNECESSÁRIA AO FACEBOOK
Há entre o senso comum a ideia de que o Iluminismo ocorreu na França. Outros ainda corrigem, dizendo que ocorreu na Inglaterra, por exemplo, com David Hume.
Retirando Platão e Aristóteles, o Iluminismo deu seus primeiros sinais na Idade Média. Iniciou-se na Idade Medieval.
Hume nasceu em 1711 e faleceu em 1776; publicou os dois volumes de "Tratado da Natureza Humana" ao 28 anos, em 1739. Se queremos entender a causa de você ter um carro em sua garagem ou de sua esposa usar a máquina de lavar roupa, é preciso ler Hume.
Após concluir a leitura de "Organum", de Francis Bacon, fui ao encontro de Hume, mas parei nas primeiras páginas do Tratado, porque me faltava algo antes dos empiristas ingleses, uma origem antes deles e depois dos gregos.
Para que emergisse o pensamento empirista no século 17, na Inglaterra, a densidade do pensamento metafísico deveria se tornar cada vez mais delgado.Em que momento essa diminuição se apresenta? Em que momento a teoria do conhecimento, a mesma que fará surgir o carro, a máquina de lavar, apresenta marcas que desaguarão em Hume?
Resposta: IDADE MÉDIA.
Pouco ou nada aprendi dessa época na escola, a não ser "Idade das Trevas", o que é uma mentira, uma ignorância atroz.
Quatrocentos antes de Hume, repito, quatrocentos anos de Hume, houve um Hume da Idade Média; um Hume que começa a tomar formas com Santo Anselmo (1033-1109) e, na trilha do pensamento, chega ao Hume da Idade Média, qual seja, ele: Nicolau de Autrecourt (1298/99-1369).
Muitos ignoram, mas a teoria do conhecimento tem seus fundamentos na relação entre Deus e o mundo. Sem essa relação, não haveria existido Hume, não haveria existido o Iluminismo.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Novo



O atual prefeito de Rio Branco, petista, chegou ao ar-condicionado de seu confortável gabinete por meio de uma campanha eleitoral que propagou o novo.

A sempre verdadeira presidente da República, doutora Dilma, aberta ao diálogo com o Estado Islâmico e com a oposição nacional, conseguiu o segundo mandato por causa também de Governo novo. Ideia nova.

Agora, no governo do estado Acre, a palavra da vez é novo. Falar sempre bem de si mesmo. Sempre. Para agora falar bem de si mesmo, a palavra é novo.

Antes do novo, existe um passado que não pode retornar: velhas práticas, sepultadas. Só identificamos a realidade por causa da palavra; entretanto, ela, a palavra, não é a realidade.

No Rio de Janeiro, favelas recebem nomes, por exemplo, Cidade de Deus e Esperança, onde a injustiça social é inferno e onde sub-habitações há anos estão à espera. A palavra nem sempre corresponde à realidade. Pior: ela é oca. No Acre, novo não passa de um som; o significado é que habita na realidade social.

Novo é vazio de sentido na escola pública acriana, onde há 40 alunos em sala de aula. Novo é vazio de sentido no salário do professor. Novo é vazio de sentido no ensino de língua portuguesa. Novo é vazio de sentido em um ensino que teima em ser ruim. Novo é vazio de sentido em escolas, onde não há hábito de leitura e nem de escrita.

Em nome do novo, a secretaria de educação do Acre, há muito tempo, retirou das escolas o estudo gramatical, porque os intelectuais petistas, profundos conhecedores que são, concluíram que não há relação entre gramática e leitura e que não há relação entre gramática e produção textual.

O novo nas escolas públicas do Acre, até hoje, não qualificou o ensino de língua portuguesa, e o já velho Enem apresenta todo ano essa desqualificação.

Há outros; porém, para melhor entender a importância histórica da gramática, apresento dois livros: O Gramático, de Santo Anselmo de Cantuária; A Filosofia na Idade Medieval, de Étienne Gilson; e A Aventura Semiológica, de Roland Barthes.

Para campanhas politiqueiras do novo, onde não há debates profundos sobre educação, muito menos sobre o ensino de língua portuguesa, esses livros talvez estejam velhos.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

O que é o Verbo?

O que significa "no princípio era o Verbo"?

É possível conhecer a "palavra de Deus" sem passar pelos homens? Se não for por meio da Revelação, a resposta é não. A palavra de Deus chega a nós não pela Revelação - o que é para poucos -, mas por outros homens que falam.

Entre mim e Deus, há homens que falam de Deus. Por ele mesmo, Deus jamais falou a nós. Mas algum homem poderá afirmar: "Eu fui escolhido por Deus para falar a palavra de Deus aos homens."

Suponhamos que sim; no entanto, mesmo assim, o escolhido não deixará de ser homem, isto é, não deixará de ser falho, ou seja, por ser falho, o escolhido não transmite a Verdade. Além disso, para que seja escolhido entre muitos homens, deveremos acreditar na palavra desse homem, na palavra do que é falho.

Então, não estamos diante da palavra de Deus, porque não é Deus que fala de si mesmo; estamos diante de um intermediário ou da palavra intermediada, não havendo, portanto, relação direta com a palavra de Deus, mas relação entre homens.

A palavra de Deus é, primeiro, uma relação entre homens.

O que significa "no princípio era o Verbo"?

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Sindicalista, mal desnecessário


Querida colega de trabalho, um dos males da educação pública acriana batizou-se de sindicalista, tipo de mentalidade que usa a massa (não italiana) de professores para projetar sua própria imagem e a imagem do partido nas eleições para vereador, para deputado.

Por isso, quando o sindicalista sugere "greve" - conceito errado para a educação -, acredite, trata-se de autopromoção, mas que ele chama de Luta, e os professores, que passaram por faculdade, leram muitos livros, acreditam, defendem os "ideais" do sindicalista .

Sindicalista é um político entre professores em nome de uma falsa educação por que ele luta às custas desses mesmos professores para não receber todo mês o salário de professor. O sindicalista luta para não lecionar em sala, para nem ir à escola, porque o que ele deseja é um Tribunal de Contas, uma secretaria, uma assessoria parlamentar.

Sindicalista, entenda, é um estranho entre professores, porém ele se disfarça de professor, por isso sindicalista não sabe pensar a educação. Esse tipo de ralé é obreiro de partido político e não um cérebro certeiro que saiba propor qualidade de ensino.

Sindicalista é um mal desnecessário... à educação pública.



terça-feira, janeiro 13, 2015

Um longo tempo...

Hume publica os dois primeiros volumes do"Tratado da Natureza Humana" em 1739. Essa obra definitivamente retira do objeto do conhecimento a metafísica.

Mas isso não ocorre de uma dia para outro, é um processo longo que atravessa séculos.

Antes de Hume, Francis Bacon publicou "Novum Organum", obra se opõe a uma teoria do conhecimento que antes não fora útil. Bacon, antes de Hume, precisa ser lido.

E antes de Bacon? Ockham. Ante, Duns Scot. E antes? Por esse caminho, chegaremos aos romanos, a Roma, lugar onde se origina a queda da metafísica, lugar onde se inicia a transformação de substância em objeto, com os empiristas ingleses.

domingo, janeiro 04, 2015

Corpos




Pulsa nesta imagem uma dignidade muito acima
do amor declarado pelos jovens. Amar, 
sabemos, não é palavra para iniciantes.

Nesta imagem, vejo a decadência... 


da verdade de um sobre a verdade do outro,

porque, entre rugas e lassidão, 
não há espaço,

na carne idosa,

para a verdade de um que deseja dominar 
a verdade do outro;

Nesta imagem, dois corpos, envelhecidos, 
aprenderam o que jovens não sabem:

que a verdade é frágil como a vida.

Por que escola?

Neste ano, o Carnaval pulará entre 14 e 17 de fevereiro.

Desta vez, por que escola a primeira-dama desfilará?


Primeira-dama do Acre

sexta-feira, janeiro 02, 2015

O PT e a Educação

O novo ministro da Educação, Cid Gomes, afirmou nesta sexta-feira (2) que prevê a implantação de um novo currículo para a educação básica "num prazo de dois anos".


Ele defendeu a criação de um currículo básico único para as etapas do ensino fundamental e médio. Mas, no último caso, características regionais poderiam motivar variações do conteúdo ensinado em sala de aula. Cid ainda defendeu que os alunos dessa etapa do ensino possam aprofundar os estudos em áreas em que apresentem maior afinidade ou vocação.


"Estamos falando de duas coisas diferentes que têm relação: uma coisa é a unificação de uma base, de um currículo para o Brasil, para o ensino fundamental e o ensino médio. E a outra coisa é diversificar e trazer variações no currículo específico do ensino médio, mas com tudo que há de conteúdo previamente definido", afirmou a jornalistas após evento de transmissão de cargo.


Ele assumiu a função em substituição a Henrique Paim, que deixa o posto após 11 anos de atuação no MEC.


O novo ministro ponderou que esse processo "demandará muito diálogo", diante da autonomia de Estados e municípios para aplicar o conteúdo em sala de aula, e disse esperar um debate com professores, diretores e acadêmicos sobre o assunto.
"Esse é um processo que não se fará do dia para a noite. Imagino que começando agora a gente possa pensar num prazo de dois anos para sua implantação", afirmou.

AVALIAÇÃO DE PROFESSORES


Ao destacar a importância de valorizar os professores, citado em seu primeiro discurso como ministro, Cid Gomes afirmou que a melhoria da remuneração é um dos "principais caminhos" para isso, mas também indicou outras medidas.

Ele defendeu a "realização de exames" de avaliação dos professores para "assegurar a eles uma possível melhoria de sua carreira". "É um debate que pretendo colocar em pauta", concluiu.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Erro



Para os ignorantes - e isso inclui alguns professores de Língua Portuguesa -, EXCLUIR a gramática da produção textual e da leitura é erro.







segunda-feira, dezembro 01, 2014

12 homens e uma sentença. A verdade



A relação entre o filme “Doze homens e uma sentença” e
o pensamento “para lutarmos contra a palavra mentirosa,
só possuímos uma arma:a palavra verdadeira”, de Platão.

Filme de 1957 e dirigido por Sidney Lumet, “Doze homens e uma sentença” inicia-se com escadas e com pilastras gregas. O câmera man focaliza em primeiro plano a arquitetura da justiça, conduzindo nosso olhar lentamente ao alto. A justiça surge superior, imponente, grandiosa, acima de quem a vê.

Em outro momento, à direita do juiz, doze homens ouvem o magistrado e, entre o que foi dito, destaco estas palavras: “Agora é dever de vocês tentar separar os fatos da versão”. A partir disso, destaco, entre os personagens, dois que no começo se opõem: o proprietário de uma firma, aquele que se irrita com advogados prolixos, que quase dormiu no julgamento, que, em casos óbvios, advogados falam sem parar, por isso ele pouparia tempo e dinheiro; o outro, único que votou contra a condenação, levanta a dúvida de “não saber”.

O primeiro prende-se aos fatos, defende a condenação do jovem pelo que foi apresentado a ele, isto é, esse personagem recebe o já dado, o que foi falado no julgamento. Dessa forma, contra fatos, não existe argumentação, mas o argumento não pertence a ele porque, antes, no tribunal, a palavra foi dada a ele. Além disso, como esse personagem afirmou anteriormente, “quase dormiu”. Assim, ao dialogar com quem votou contra a condenação, ele cita os fatos: a localidade da vítima e a hora do assassinato, a precisão dos legistas. Enfim, para ele, fato é fato, ou seja, sua fala é tautológica. Esse personagem, portanto, jamais se pergunta, nunca reflete sobre o que está estabelecido enquanto fato.
Diferente dele, o outro personagem, aquele que fica à janela, que olha para lá fora de forma pensativa, separa, de sua versão, o fato apresentado no tribunal, porque o fato, para ele, motiva dúvidas. Sua linguagem, por reflexiva, busca a verdade, isto é, busca a adequação “justa” ou ajustada entre palavra e objeto.

O primeiro reproduz o fato apresentado no tribunal, não havendo a sua versão e, quando digo versão, digo verso, digo o outro lado, quer dizer, o que não é frontal, o que já é dado. Por sua vez, a palavra ocultada pelo verso da folha ou pelo verso do fato, ele não a lê, porque, incapaz de refletir sobre, a folha não é “dobrada”, não é flexionada sobre ela mesma, por isso o fato é fato. No entanto, ao dizer isso, esse personagem não (des)cobre o fato, visto que se limita aos contornos da aparência. Aqui, portanto, diferente de Platão, a aparência é a verdade.

Como combater essa palavra? Ora, se o fato é modelo, não podemos nos afastar dele, por isso que cada parte do todo será re-visto pela decomposição de uma versão. Esse personagem reflexivo colocará uma linguagem que copiará o modelo, por isso usa uma planta do local onde houve o assassinato. Se a cópia é representar, e se representar é ordenar a fim de que a cópia se aproxime do modelo, a linguagem reflexiva, aquela que se dobra sobre ela mesma, copiará com precisão cada detalhe do modelo. É a versão que se ajusta ao fato, porque ela sabe que o que havia antes não passava de aparência do fato. Entretanto, ajustar palavra e o fato não é dizer que a palavra é o fato, porque, entre os 12 homens e o modelo, há uma mulher-testemunha que assistiu a tudo, ou seja, ela quem fala do modelo, ela quem “viu”, sendo os 12, portanto, o simulacro. Como esse personagem reflexivo afirma, “o preconceito sempre obscurece a verdade”. O pré-conceito obscurece. Contudo, ainda que os doze assistissem ao fato, o fato em si é verdade? Eis, portanto, a palavra verdadeira da filosofia, a arma de que fala Platão: duvidar.

sábado, novembro 22, 2014

A lírica em Tempos Modernos

            
A intenção de trazer a palestra Lírica e Sociedade, do livro Notas de Literatura I, de Theodor W. Adorno (1903-1969), busca a finalidade de apresentar alguns conceitos da linguagem lírica e, para que esses conceitos não permaneçam somente na abstração, incluí as imagens da fábrica de Tempos Modernos, filme de 1936. Assim, este trabalho divide-se da seguinte forma: 1. Lírica; e 2. Em uma fábrica, a linguagem lírica.



1.      Lírica

            Existe a ideia de que, por ser a voz lírica individual, ela se opõe à sociedade; porém, segundo Adorno, a exigência da palavra virginal é em si mesma social. Virginal porque a linguagem lírica não expressa as impurezas da linguagem ordinária e, por causa disso, o lírico se desfaz do peso da objetividade, permitindo soar a imagem de uma vida livre da coerção da prática dominante, da utilidade, da pressão da autoconservação obtusa. Se o indivíduo experimenta a ordem social como hostil, alheia, opressiva, a linguagem lírica, como sua própria ordem, com sua própria lei, expressa a força do verso contra a prepotência da parte frontal das coisas, isto é, contra a superfície delas. Por isso o outro lado, o lado oculto das coisas; por isso virar a página a fim de ler o que se encontra atrás da parte frontal. Por isso o verso. Contra a densidade do coletivo, contra o opaco da objetividade, o lírico propaga seu canto subjetivo em uma sociedade onde a existência tornou-se alheia ao sujeito. O mundo objetivo, o externo, emudece a alma dos homens, mas a linguagem lírica não só fala o verso como também (pro)voca o homem.

            O lírico não é a voz ou o canto do poeta ou de um indivíduo, mas a expressividade de um eu com marca universal; não se trata, porém, de deduzir esse eu-lírico da sociedade, mesmo porque o seu conteúdo social é o que não se segue das relações já vigentes em dado momento. Nesse sentido, quando Adorno cita Hegel, é para afirmar que o individual é mediado pelo universal e vice-versa, ou seja, uma linguagem estética contra a pressão social não é nada de individual. O conteúdo lírico como conteúdo objetivo ocorre em virtude da subjetividade do lírico, que possui a natureza de se afastar da superfície social. É na linguagem estética do lírico que subjetividade vira objetividade, mas sem que as emoções subjetivas amadurecidas diluam-se a ponto de elas perderem a referência irrenunciável ao universal e à sociedade. “As mais altas formações líricas são, por isso, aquelas em que o sujeito, sem resíduo de mera matéria, soa na linguagem, até que a própria linguagem ganha voz”. Uma vez nessa linguagem lírica, que se afasta da superfície social, acontece o autoesquecimento do sujeito, que se põe ao dispor da linguagem como de algo objetivo, assim como o que há de imediato e involuntário em sua expressão. A linguagem lírica se mostra, portanto, mais profundamente garantida socialmente ali onde não fala segundo o paladar da sociedade, onde nada comunica.

2.     
Em uma fábrica, o lirismo


            A primeira imagem de Tempos Modernos, filme de 1936, é o grande relógio com seus números romanos marcando segundos que restam para as 6 horas da manhã; na produção industrial, o tempo materializa-se para ser visto pela massa uniforme de trabalhadores e, uma vez visto, imprime movimento e regula os corpos dos operários a ponto de serem domesticados como porcos. Movimento do relógio. Movimento dos animais. Movimento dos trabalhadores. Quando o operário Carlitos surge pela primeira vez na fábrica, ele aparece ajustando peças na linha de montagem, mas o movimento regular de seu corpo logo é alterado quando sua mão coça rapidamente a axila. Inicia-se a sucessão de desajustes.



        Submetido a trabalhar mais rápido porque o patrão gradativamente ordena aumentar a velocidade das máquinas, Carlitos, que não consegue acompanhar o movimento da linha de montagem, acaba sendo levado como peça pela esteira para dentro da engrenagem. Quando retorna ao ambiente de trabalho, Carlitos agora brinca, baila, transforma suas ferramentas de trabalho em dois exagerados brincos. Metáfora, sua linguagem agora é poética. Se Carlitos é aquele que se afasta da superfície automatizada da fábrica, afasta-se porque ele encarna a expressão lírica – linguagem, segundo Adorno, não alheia ao sujeito.

            Uma vez possuído pelo eu-lírico, o sujeito instaura, entre máquinas e homens autômatos, a estranheza do improvável e do excesso, estranheza que nega o mero funcionar objetivo das coisas. Mas entendamos que a subjetividade lírica, como pensa Adorno em sua palestra, capta o universal no mergulho em si mesmo ou, mesmo, desenvolve-se como sujeito autônomo, mestre da livre expressão de si mesmo. Nesse sentido, Carlitos é mais do que sujeito. O outro, o coletivo dócil, foi rebaixado à condição de objeto. Mas não sejamos tão maniqueístas: a linguagem do eu-lírico, vivenciada por Carlitos, representa a irrupção do que a superfície da fábrica comprime do coletivo para baixo.

            A produção não pode parar. Para tanto, o excesso e o improvável, conceitos que pertencem à natureza lírica, necessitam ser curados. Carlitos precisa retornar à superfície social a fim de seja conduzido à linha de montagem. O palhaço então é lavado ao hospital.

domingo, novembro 16, 2014

Minha poesia e Marina Lima



A poesia é "Ainda existe uma abertura".

Uma só janela
me separa da rotina da cidade

Um só gesto
joga meus olhos para fora de casa

Todo dia
sob o teto da monotonia

a janela de pedra é aberta
ao lado de uma calha

por onde escorre
não só a chuva cinzenta

mas as águas frias
e tristes de minhas lágrimas tão lentas

Entre mim e a paisagem
a mesma sempre janela se abre

Sei que é minha rotina
Sei que é minha única liberdade

A janela de pedra que se abre
Ainda assim é a minha janela

Mas a minha alma
a única sensível e mais ampla

abre tanto na pedra dura
abre tanto

até que...

recrio
e fujo.


sábado, novembro 15, 2014

Um belo filme. Brinquemos.



Filme Doutores da alegria,
direção e roteiro de Mara Mourão.

Nesta segunda avaliação da disciplina Estética, este trabalho propõe a pensar o ato estético no belíssimo filme Doutores da Alegria, de 2006. Muito premiado no Brasil e no exterior, essa película, com duração de 1h37m49s, tem Mara Mourão como diretora e roteirista. O trabalho está secionado da seguinte forma: 1. Uma síntese; 2. O hospital e o palhaço; e 3. Nem Aristóteles e nem Descartes.

1.      Uma síntese

À medida que os créditos aparecem, um mosaico de palhaços conduz nosso olhar a um bobo que nos convida para o espetáculo. Inicia-se o filme. Uma menina está sentada no corredor do hospital. Em seguida, o movimento da câmera permite que o olhar nosso se desloque de cima do suporte de soro até a metade do objeto, e, na outra cena, o movimento continua no traço preto do lápis sobre o olho esquerdo do palhaço, permanecendo o movimento agora na trança de outra menina que surge andando depois em direção ao fundo do corredor. Um monitor cardíaco, em primeiro plano, emite seu repetitivo som; ao lado da máquina, uma criança em decúbito ventral, sozinha. Os objetos estão lá. Assim como eles, o som hospitalar também está como coisa. As crianças... estão só.             

Em outro espaço hospitalar, atores, ao som de violão, de flauta, de pandeiro, transformam-se em palhaços. Uma vez vestidos de fantasia, espalham-se: dois caminham entre desenhos infantis pintados nas paredes do corredor; outros dois descem escadas e, quando dobram à direita, a câmera lentamente detém nosso olhar a quatro telas que fazem lembrar o expressionismo do holandês Van Gogh. Com as pinturas, ouve-se o sorriso largo de uma criança - é como se as cores e o movimento intensos da arte estivessem agora encarnados na imagem dos palhaços. Enfermo no leito hospitalar, o menino Caio está feliz.              

            2. O hospital e o palhaço

O espaço do hospital é a extensão natural da ciência médica, isto é, ele é a higiene, por isso que suas linhas retas e seu monocromatismo, por exemplo, representam a limpeza do excesso. A fim de que esse espaço se mantenha sem erro, isto é, limpo, o tempo é função e objetividade, rigidez das horas que modela corpos. Se comparada a uma escola de arte, a pintura do hospital enquadra-se à pureza da matemática árcade, onde a relação entre significante e significado não é só equilibrada como bem ajustada. Além disso, por ser o espaço hospitalar a geometria da dor, o significante se contrai.

Antes, os loucos eram confinados em hospitais; no filme Doutores da Alegria, contudo, o por louco se libertou do hospital a fim de retornar a ele para tratar, com doses de estética, doentes e sadios. Quando digo tratar, restrinjo-me a um dos conceitos da estética, qual seja, o significante. Nas cenas iniciais da película, os atores, aos poucos, vestem-se de palhaço não porque eles colocam a blusa, a saia, a calça - o que seria comum, óbvio -, mas porque seus corpos acolhem cores, linhas, traços, em síntese, acolhem não só significantes como o desequilíbrio entre o significante e o significado.

O palhaço é o mensageiro desse desajuste, dessa assimetria. Por causa dessa inconformidade, dessa estranheza entre significantes e significados, os signos linguísticos do hospital, até então estáveis, retraídos, ajustados e, por isso, bem comportados, veem seus significados migrarem de significantes para outros significantes, por isso a criança ri quando seringa é flauta. Portanto, a estética, amálgama entre significante e significado ou entre forma e conteúdo, desmancha o objeto, retirando da seringa sua função fixa para transformá-la em sentido estranho ou incomum a ela mesma. Dessa maneira, crianças são afetadas pelas paixões alegres por causa da natureza do palhaço, que é retirar dos signos do hospital a condição de objetos estáveis.                    

            3. Nem Aristóteles e nem Descartes

Por não ser prisioneira da lógica aristotélica e nem da cartesiana, a criança enferma deleita-se diante dos palhaços, porque são eles os únicos no hospital que encarnam paradoxos que alegram inocentes almas com o improvável: A não é igual e A e A é igual a B.


Mestra em psicologia e coordenadora do Centro de Estudo dos Doutores da Alegria, Morgana Masetti afirma no filme que os bobos não pertencem à lógica cartesiana: “
A realidade do hospital é transformada pelo olhar do palhaço porque não é cartesiano, onde as coisas estão mais divididas”.

O professor-doutor Yassuhiko Okay, vice-presidente da Faculdade de Medicina da USP, diz no final do filme que “
a medicina enxerga por fora e os doutores da alegria enxergam por dentro, por isso a medicina nunca será completa se não juntar o lado de fora com o lado de dentro e, portanto, ter uma visão integral do ser humano. A experiência com os doutores da alegria me mostrou o seguinte: que eles lidam exatamente com o lado invisível da realidade”.

Por causa da geometria rígida do espaço hospitalar e por ser esse espaço o lugar do sofrimento, esse
invisível de que fala o professor-doutor Yassuhiko encontra-se mais ainda retraído, e o médico não deixa de ser o anunciador da dor; porém, com ele, também surge o vazio. O palhaço, ato estético, também anuncia no filme o triste, contudo, diferente daquele que cura por meio do saber científico, não traz o vazio mas a vida.          

Embora sejam formados conforme os preceitos da ciência, psicóloga e médico concebem outra relação humana no hospital por causa do ato estético dos palhaços. Se a filosofia tradicional ou acadêmica se atém à pergunta e não à resposta, a filosofia do palhaço, que também não é apta a trabalhar com a resposta, “
se contenta em brincar com as perguntas”, como observa a atriz Beatriz Sayad, a palhaça Dra. Valentina. Aproximar essas palavras ao encantador Estética da criação verbal, obra de Mikhail Bakhtin: 

“O ato estético engendra a existência num novo plano de valores do mundo; nasce um novo homem e um nosso contexto de valores – um novo plano do pensamento do homem sobre o mundo”.



sexta-feira, novembro 14, 2014

Sobre democracia


O meu texto abaixo, além de sintetizar uma pequena ideia de Mannheim, lançou outras breves observações sobre escola e sobre Lula.  


Escola. Na educação democrática, a excelência do professor consiste em relacionar-se com os alunos ao nível destes, ou seja, entre professor e alunos prevalece a adequação de relacionamento. Entendamos como adequação o professor se adaptar ou se ajustar aos alunos, neutralizando a distância entre ambos. Sem essa distância, o conteúdo de Filosofia, por exemplo, é conforme os alunos, e a consequência disso, a vulgarização ou a facilitação. O conteúdo, dessa maneira, é tangível.

Outra questão educacional diz respeito à corrosão do simbólico, por exemplo, no espaço escolar, onde o exemplo é não haver exemplo. Como consequência, a escola pública não passa de um lugar estranho ao sagrado, não havendo, por exemplo, a separação entre o comportamento impessoal da rua e a postura educada no ambiente escolar – e isso significa saber ser também desobediente.

No entanto, oposta à educação democrática, a educação pré-democrática impõe aos alunos obediência, por exemplo, a um conteúdo filosófico inatingível. Os alunos, portanto, devem se elevar para tocar no saber, bem diferente de o professor ter de declinar a filosofia ao alcance dos alunos. A democracia, portanto, recusa-se a ser seletiva, visto que só aceita o que pode ser verificado por todos na experiência comum.

Arte. Embora a centralização pré-democrática seja substituída pela disseminação do múltiplo, lançando o conhecimento em direção oposta ao eixo de rotação, o espírito da democracia restringe, a especialistas e a conhecedores, o conhecimento, por exemplo, da arte, fazendo-o circular só entre pessoas desse grupo. Segundo Mannheim, as teorias estéticas não podem ser objetivadas de modo que qualquer indivíduo possa reproduzi-las em sua própria mente. Assim sendo, na cultura democrática, o conhecimento especializado da arte se mantém fechado para cada indivíduo que reproduz a linguagem comum.

No campo político, o segredo ou o mistério não se preserva porque todos são expostos a analisar o que é comum à cidade, ou seja, a política. Tamanha exposição impõe uma dinâmica social que deseja (des)cobrir o que há por trás das aparências ou faz com que a imagem das aparências seja desmontada ou decomposta pela exposição das análises, revelando, portanto, o que funciona e como funciona sob o tecido social. Se não há o que preservar da imagem do governante ou da classe dirigente, é porque a distância entre o público e a autoridade foi rompida pela exposição das análises. Segundo Mannheim, a Maquiavel é o representante maior dessa exposição no Renascimento.

Entretanto, estilhaços da distância vertical (aristocrática) não foram varridos como um todo no chão da democracia. “O distanciamento não desaparece na democracia, apenas assume outra forma”, afirma Mannheim em seu livro. Se na aristocracia a autoridade recai no nome da família, na democracia o mito ou o intocável recai sobre o processo eleitoral, por exemplo.

No caso do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva adquire a condição de mito não por causa de uma herança simbólico-familiar; mas ele, por ter saído da pobreza nordestina com “seus próprios esforços”, é imagem exemplar ou modelo perfeito para aqueles que, na mesma condição social de onde emergiu Lula, veem-se representados no ídolo neoaristocrático.

Digo neoaristocrático porque ainda permanece a ideia do melhor; porém, diferente do poder dos melhores conforme a aristocracia, Lula abraça e é abraçado, beija e é beijado, emociona e emocionado, ou seja, rompe-se a distância entre o poder e os comuns, entre o escolhido e os representados; sem perder, no entanto, o devido distanciamento, porque, afinal, diferente da massa operária, da massa nordestina ou dos pobres, Lula foi o único que “chegou ao Paraíso”.