Filme Doutores
da alegria,
direção e roteiro de Mara Mourão.
Nesta
segunda avaliação da disciplina Estética, este trabalho propõe a pensar o ato
estético no belíssimo filme Doutores da
Alegria, de 2006. Muito premiado no Brasil e no exterior, essa película, com duração de 1h37m49s, tem Mara
Mourão como diretora e roteirista. O trabalho está secionado da seguinte forma:
1. Uma síntese; 2. O hospital e o palhaço; e 3. Nem Aristóteles e nem
Descartes.
1.
Uma
síntese
À
medida que os créditos aparecem, um mosaico de palhaços conduz nosso olhar a um
bobo que nos convida para o espetáculo. Inicia-se o filme. Uma menina está
sentada no corredor do hospital. Em seguida, o movimento da câmera permite que o
olhar nosso se desloque de cima do suporte de soro até a metade do objeto, e,
na outra cena, o movimento continua no traço preto do lápis sobre o olho
esquerdo do palhaço, permanecendo o movimento agora na trança de outra menina
que surge andando depois em direção ao fundo do corredor. Um monitor cardíaco,
em primeiro plano, emite seu repetitivo som; ao lado da máquina, uma criança em
decúbito ventral, sozinha. Os objetos estão lá. Assim como eles, o som
hospitalar também está como coisa. As crianças... estão só.
Em
outro espaço hospitalar, atores, ao som de violão, de flauta, de pandeiro,
transformam-se em palhaços. Uma vez vestidos de fantasia, espalham-se: dois
caminham entre desenhos infantis pintados nas paredes do corredor; outros dois descem
escadas e, quando dobram à direita, a câmera lentamente detém nosso olhar a
quatro telas que fazem lembrar o expressionismo do holandês Van Gogh. Com as
pinturas, ouve-se o sorriso largo de uma criança - é como se as cores e o
movimento intensos da arte estivessem agora encarnados na imagem dos palhaços.
Enfermo no leito hospitalar, o menino Caio está feliz.
2.
O hospital e o palhaço
O
espaço do hospital é a extensão natural da ciência médica, isto é, ele é a higiene,
por isso que suas linhas retas e seu monocromatismo, por exemplo, representam a
limpeza do excesso. A fim de que esse espaço se mantenha sem erro, isto é,
limpo, o tempo é função e objetividade, rigidez das horas que modela corpos. Se
comparada a uma escola de arte, a pintura do hospital enquadra-se à pureza da
matemática árcade, onde a relação entre significante e significado não é só equilibrada
como bem ajustada. Além disso, por ser o espaço hospitalar a geometria da dor,
o significante se contrai.
Antes,
os loucos eram confinados em hospitais; no filme Doutores da Alegria, contudo, o por louco se libertou do hospital a
fim de retornar a ele para tratar, com doses de estética, doentes e sadios. Quando
digo tratar, restrinjo-me a um dos conceitos da estética, qual seja, o significante. Nas cenas iniciais da
película, os atores, aos poucos, vestem-se de palhaço não porque eles colocam a
blusa, a saia, a calça - o que seria comum, óbvio -, mas porque seus corpos
acolhem cores, linhas, traços, em síntese, acolhem não só significantes como o desequilíbrio entre o significante e o significado.
O palhaço é o mensageiro desse desajuste, dessa assimetria. Por causa dessa
inconformidade, dessa estranheza entre significantes e significados, os signos
linguísticos do hospital, até então estáveis, retraídos, ajustados e, por isso,
bem comportados, veem seus significados migrarem de significantes para outros
significantes, por isso a criança ri quando seringa é flauta. Portanto, a
estética, amálgama entre significante e significado ou entre forma e conteúdo, desmancha
o objeto, retirando da seringa sua função fixa para transformá-la em sentido
estranho ou incomum a ela mesma. Dessa maneira, crianças são afetadas pelas
paixões alegres por causa da natureza do palhaço, que é retirar dos signos do hospital
a condição de objetos estáveis.
3. Nem Aristóteles e nem Descartes
Por
não ser prisioneira da lógica aristotélica e nem da cartesiana, a criança
enferma deleita-se diante dos palhaços, porque são eles os únicos no hospital que
encarnam paradoxos que alegram inocentes almas com o improvável: A não é igual e
A e A é igual a B.
Mestra
em psicologia e coordenadora do Centro de Estudo dos Doutores da Alegria,
Morgana Masetti afirma no filme que os bobos não pertencem à lógica cartesiana:
“A realidade do hospital é transformada
pelo olhar do palhaço porque não é cartesiano, onde as coisas estão mais
divididas”.
O professor-doutor Yassuhiko Okay, vice-presidente da Faculdade
de Medicina da USP, diz no final do filme que “a medicina enxerga por fora e os doutores da alegria enxergam por
dentro, por isso a medicina nunca será completa se não juntar o lado de fora
com o lado de dentro e, portanto, ter uma visão integral do ser humano. A
experiência com os doutores da alegria me mostrou o seguinte: que eles lidam
exatamente com o lado invisível da realidade”.
Por causa da geometria
rígida do espaço hospitalar e por ser esse espaço o lugar do sofrimento, esse invisível de que fala o professor-doutor
Yassuhiko encontra-se mais ainda retraído, e o médico não deixa de ser o
anunciador da dor; porém, com ele, também surge o vazio. O palhaço, ato
estético, também anuncia no filme o triste, contudo, diferente daquele que cura
por meio do saber científico, não traz o vazio mas a vida.
Embora
sejam formados conforme os preceitos da ciência, psicóloga e médico concebem
outra relação humana no hospital por causa do ato estético dos palhaços. Se a
filosofia tradicional ou acadêmica se atém à pergunta e não à resposta, a
filosofia do palhaço, que também não é apta a trabalhar com a resposta, “se contenta em brincar com as perguntas”,
como observa a atriz Beatriz Sayad, a palhaça Dra. Valentina. Aproximar essas
palavras ao encantador Estética da
criação verbal, obra de Mikhail Bakhtin:
“O
ato estético engendra a existência num novo plano de valores do mundo; nasce um
novo homem e um nosso contexto de valores – um novo plano do pensamento do
homem sobre o mundo”.