A relação entre o filme “Doze homens e uma sentença” e
o pensamento “para lutarmos contra a palavra mentirosa,
só possuímos uma arma:a palavra verdadeira”, de Platão.
Filme
de 1957 e dirigido por Sidney Lumet, “Doze
homens e uma sentença” inicia-se com escadas e com pilastras gregas. O
câmera man focaliza em primeiro plano a arquitetura da justiça, conduzindo nosso
olhar lentamente ao alto. A justiça surge superior, imponente, grandiosa, acima
de quem a vê.
Em
outro momento, à direita do juiz, doze homens ouvem o magistrado e, entre o que
foi dito, destaco estas palavras: “Agora
é dever de vocês tentar separar os fatos da versão”. A partir disso, destaco,
entre os personagens, dois que no começo se opõem: o proprietário de uma firma,
aquele que se irrita com advogados prolixos, que quase dormiu no julgamento,
que, em casos óbvios, advogados falam sem parar, por isso ele pouparia tempo e
dinheiro; o outro, único que votou contra a condenação, levanta a dúvida de
“não saber”.
O
primeiro prende-se aos fatos, defende a condenação do jovem pelo que foi
apresentado a ele, isto é, esse personagem recebe o já dado, o que foi falado
no julgamento. Dessa forma, contra fatos, não existe argumentação, mas o
argumento não pertence a ele porque, antes, no tribunal, a palavra foi dada a
ele. Além disso, como esse personagem afirmou anteriormente, “quase dormiu”.
Assim, ao dialogar com quem votou contra a condenação, ele cita os fatos: a
localidade da vítima e a hora do assassinato, a precisão dos legistas. Enfim,
para ele, fato é fato, ou seja, sua fala é tautológica. Esse personagem,
portanto, jamais se pergunta, nunca reflete sobre o que está estabelecido
enquanto fato.
Diferente
dele, o outro personagem, aquele que fica à janela, que olha para lá fora de
forma pensativa, separa, de sua versão, o fato apresentado no tribunal, porque
o fato, para ele, motiva dúvidas. Sua linguagem, por reflexiva, busca a verdade,
isto é, busca a adequação “justa” ou ajustada entre palavra e objeto.
O
primeiro reproduz o fato apresentado no tribunal, não havendo a sua versão e,
quando digo versão, digo verso, digo o outro lado, quer dizer, o que não é frontal, o que já é dado. Por sua vez, a palavra
ocultada pelo verso da folha ou pelo verso do fato, ele não a lê, porque, incapaz
de refletir sobre, a folha não é “dobrada”, não é flexionada sobre ela mesma,
por isso o fato é fato. No entanto, ao dizer isso, esse personagem não
(des)cobre o fato, visto que se limita aos contornos da aparência. Aqui,
portanto, diferente de Platão, a aparência é a verdade.
Como
combater essa palavra? Ora, se o fato é modelo, não podemos nos afastar dele,
por isso que cada parte do todo será re-visto pela decomposição de uma versão.
Esse personagem reflexivo colocará uma linguagem que copiará o modelo, por isso
usa uma planta do local onde houve o assassinato. Se a cópia é representar, e
se representar é ordenar a fim de que a cópia se aproxime do modelo, a
linguagem reflexiva, aquela que se dobra sobre ela mesma, copiará com precisão
cada detalhe do modelo. É a versão que
se ajusta ao fato, porque ela sabe que o que havia antes não passava de
aparência do fato. Entretanto, ajustar palavra e o fato não é dizer que a
palavra é o fato, porque, entre os 12 homens e o modelo, há uma mulher-testemunha
que assistiu a tudo, ou seja, ela quem fala do modelo, ela quem “viu”, sendo os
12, portanto, o simulacro. Como esse personagem reflexivo afirma, “o preconceito sempre obscurece a verdade”.
O pré-conceito obscurece. Contudo, ainda que os doze assistissem ao fato, o
fato em si é verdade? Eis, portanto, a palavra verdadeira da filosofia, a arma
de que fala Platão: duvidar.