sexta-feira, dezembro 21, 2018

A QUESTÃO NÃO É SE PAPAI NOEL EXISTE OU NÃO

Quando o Natal bate à porta de sua casa, Jorge Antônio acolhe o nascimento de Jesus Cristo como Papai Noel. Sala de visita ambientada com árvore fecunda de presentes. Luz direcionada à cadeira de Noel quando ele chegar. Sobre almofadas distribuídas na sala, crianças e pais emocionados à espera do Bom Velhinho.

Transfigurado pela imagem de Papai Noel, Jorge solta seu “ho ho ho”, e a porta da casa se abre para a irrealidade entrar na forma de um homem idoso; ele se faz presente não só para entregar presentes às crianças, mas para deixar uma mensagem a cada uma delas.

A questão aqui não é se Papai Noel existe ou não, e sim que a fantasia tem algo profundo a dizer às crianças; ela faz falar o que a realidade social dos adultos enfraquece, diminui, inferioriza, deforma. Ao acolher a inocência infantil, a fantasia a protege com a fortaleza da ternura, com os muros delicados do bem-querer; e, assim sendo, Papai Noel abre uma possibilidade de encontro que Jorge Antônio, por si mesmo, não abriria por lhe faltar a força afetiva de um sensível que se excede.

Jorge conhece os netos. Por essa razão, seu amor por eles pode, com carinho, chamar a atenção de cada um, dizendo a David, por exemplo, que ele não pode desrespeitar a sua mãe. “Você já imaginou, David, viver sem sua mãe?”, pergunta Noel. “Eu não ia parar de sentir dor”. “E você gosta de sentir dor?”. “Não, Papai Noel!”. “Então você não acha que sua bondosa mamãe merece desculpas e merece ouvir de ti que você a ama?”. “Acho, Papai Noel, mas como o senhor sabe que xinguei ela?”. David não sabe que Noel é o pai de sua mãe, ou seja, a fantasia oculta o avô Jorge (ou o real) para deixar o mistério: “Como o senhor sabe que xinguei ela?”.

O senso comum crê que a fantasia distancia a criança da realidade; porém, por meio do avô Jorge, a fantasia é uma forma afetiva de questionar a realidade de David. A fantasia zela pelo respeito, pela gratidão; não afasta a criança da realidade, mas oferta a ela uma “sensação excedente” na realidade. A fantasia fala do que nos falta ou do que a realidade nos arrancou; ela não nos distancia da realidade, mas nos aproxima dela para incomodá-la, no sentido de que a realidade se encontra desajustada, por exemplo, um filho xingar a mãe ou a mãe xingar o filho.

O Papai Noel, realizado pela família, tem o tempo precioso para contar “estórias”, sendo o Bom Velhinho, portanto, aquele que encarna a imagem expressiva do narrador, que escolhe uma narrativa para acolher a mensagem natalina destinada a suas crianças, crianças que não sabem que Papai Noel é o vovô Jorge. Mistério. Assim, por causa de sua natureza misteriosa, o Papai Noel da família é experiência mítica que possibilita a inocência escapar de uma vida dominada de modo realista.

“Seu grande amigo Jorge Antônio faleceu”, disse-me o destino. Papai Noel da família agora é o filho mais velho, o que é bem diferente de o Bom Velhinho estar em shopping, pois, nesse ambiente antinatalino, todo Noel não passa de um estranho disfarçado dentro de uma máquina comercial, com a pretensa boa intenção de encantar o consumo infantil. Se Papai Noel de shopping tem algum amor à criança, esse amor não resiste à falta de salário. O “ho ho ho” de shopping center é risada de um empregado idoso a cumprir jornada de trabalho, não havendo, portanto, nenhuma gratuidade em seu sorriso. O Noel de shopping não quer saber se um dos netos de Jorge xingou a mãe, mesmo porque David não passa da 81ª criança que se senta hoje no colo do Bom Velhinho, onde não há tempo de David escutar algum conselho sobre respeitar os pais. E, mesmo se houvesse, inútil seria, pois esse Papai Noel desconhece as 100 crianças/dia (meta do funcionário) que se sentaram em seu colo. Uma selfie com esse tipo de Noel é o máximo que a inocência consegue de uma produção em série.

Papai Noel de shopping não é fantasia, mas objeto alienado pelo capital e a serviço do comércio para aquecer as vendas, ditas natalinas. Lugar sedutor de hiperconsumo, onde as palavras são usadas para identificar objetos, o shopping submete a fala de Noel à condição imediata de uso em um lugar onde a palavra não foge à utilidade.

Poucos avós levam aos lares mensagens aos netos por meio da força simbólico-afetiva do Bom Velhinho. No meu amigo Jorge Antônio, havia certo grau de desobediência civil quando se transfigurava de Papai Noel. Muitos levam netos ao shopping; nesse espaço, porém, um estranho se disfarça de Bom Velhinho, desconhece a vida de cada criança e obedece ao uso utilitário do capital.

quarta-feira, outubro 03, 2018


O Deus que o STF escolheu para a escola pública
Aldo Tavares
Texto publicado pelo Jornal do Brasil
Em 27 de setembro, fez um ano que o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou improcedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4439, onde a Procuradoria-Geral da República (PGR) questionava o modelo de ensino religioso nas escolas da rede pública. Por maioria dos votos (6 x 5), os ministros entenderam que o ensino religioso nas escolas públicas pode ter natureza confessional, ou seja, vinculado às diversas religiões.
O STF votou a favor de um ensino religioso subjetivo e dogmático, o que significa separar fé e razão, devendo a escola ser atravessada por vários dogmas de fé, pois “quem ensina os dogmas religiosos são aqueles que acreditam na própria fé”, justificou o ministro Alexandre de Moraes. Por essa razão, a teologia dogmática deve estar em sala de aula.
Assim, a disciplina de filosofia não pode cumprir função do ensino religioso ou o ensino religioso não pode chegar aos alunos por meio da filosofia, pois não seria ensino religioso porquanto o aluno perderia “o núcleo básico do ensino religioso, que é a fé”, concluiu o ministro Alexandre. Se coubesse à filosofia o ensino religioso, “confundir-se-ia”, segundo o ministro, “ensino religioso com filosofia”.
Para legitimar essa cisão, Alexandre de Moraes cita o filósofo Hegel, afirmando que a filosofia tem como base a razão, isto é, a filosofia se afasta da fé; separa-se do subjetivo e do dogma, não se caracterizando, portanto, como disciplina de ensino religioso. Entretanto, fé e razão em Hegel comungam-se, mesmo porque sua filosofia reconcilia os contrários. Hegel tem duas fases: 1ª) a religião harmoniza a reflexão e o amor, unindo-os no pensamento; 2ª) subordina a religião à filosofia. Além disso, o filósofo vê a religião não como assunto privado, e sim como valor educativo em seu livro Religião popular e cristianismo. Ao ter aprovado o ensino religioso confessional pelo princípio único da fé, o STF escolheu um Deus que não pode ser pensado em uma instituição criada pelos seres humanos justamente para eles pensarem: a escola.
Lugar destinado ao pensamento, a escola pública deveria ser o espaço legítimo para Deus ser pensado a partir, por exemplo, de Êxodo (3:14), onde o Criador diz a Moisés: “Eu sou o que sou”. Se o próprio Deus afirma que “Eu sou o que sou”, Deus é Aquele que é. Pensar Deus é, portanto, pensar o Ser, e o estudo que pensa Deus é o estudo filosófico, visto que só cabe à filosofia o estudo do “Ser”. Sem filosofia, não se pensa Deus, e o STF negou ao aluno estudar filósofos que pensaram Deus.
Se o STF tivesse permitido à escola pensar Aquele que “é”, Deus deixaria de ser em sala de aula a subjetividade de cada religião e deixaria de ser o dogma de fé de cada homem enquadrado por sua religião, pois as subjetividades religiosas cederiam por meio da filosofia ao princípio Universal e o dogma de fé se apresentaria como aporia natural aos limites da linguagem filosófica.
O ministro Alexandre de Moraes partiu do princípio da fé (subjetividade e dogma) para justificar o ensino religioso confessional, mas o aluno não se encontra em sala de aula para aceitar por aceitar a palavra dada pela profissão de fé, e sim para entender por meio da filosofia que a linguagem, por ser limite nela mesma, não pode pensar mais do pensa, chegando, portanto, ao silêncio. Nesse momento, a fé se faz “presente”, porque, não podendo Deus ser mais pensado por causa do limite da própria linguagem, a palavra silencia-se para somente crer. Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, por exemplo, construíram por meio da linguagem filosófica um caminho racional que os levou ao limite da palavra pensada para afirmar, só depois, a beleza da fé em Deus. O limite de Deus pensado é o limite da linguagem; porém, só depois de um longo trajeto racional, a linguagem se depara com sua linha de demarcação e afirma o dogma de fé. Alunos deveriam ter tido acesso a esse caminho da linguagem filosófica, mas ele foi obstruído pelo STF há um ano: seis ministros votaram no ensino religioso subjetivo e dogmático.
Em 1167, surge a Universidade de Oxford, onde o conhecimento de filosofia da natureza possibilitou ao sacerdote Roberto Grosseteste (1168-1253) influenciar, séculos depois, Isaac Newton (1643-1727) no estudo de óptica. Grosseteste foi filósofo de uma época em que a filosofia entrelaçou fé e razão, o mesmo Hegel fez entre os séculos 18 e 19. Sem filosofia como ensino religioso, o STF condenou o aluno a não entender no cristianismo a relação entre fé e ciência.
ZIRALDO, A CRIANÇA QUE AINDA BRINCA
De Aldo Tavares
Publicado pelo Jornal do Brasil

            Faz 16 anos que levei minha filha ao Ziembinski para assistir a uma peça escrita por Ziraldo, “Bonequinha de pano”, cuja protagonista encontra-se esquecida no sótão de uma casa, até que uma menina a encontra. Trago este livro aqui para lembrar que a inteligência sensível de Ziraldo é aquela que sempre escreveu a palavra criança em seu devido lugar de criança; e, quando digo devido lugar, digo conceitos que pertencem à natureza de criança. Um desses conceitos, este: brincar.

            Neste ano, a Boitatá, selo da Boitempo, publicou “O capital para crianças”, onde conceitos inerentes ao mundo infantil ausentaram-se, posto que a proposta de suas páginas é registrar a infância no materialismo histórico, por isso a criança diz ao vovô Marx: “Conte uma história pra gente, por favor! mas nada de cavaleiros e princesas, nem de reis e dragões, nem cinderela, nem chapeuzinho. queremos uma história de verdade”. O marxismo infantil escreve a palavra criança sobre linhas retas e sérias.

            Também escrevendo sobre linhas retas e sérias, o mercado editorial neopentecostal publica literatura infantil para que a criança aprenda a se conduzir com retidão por meio de narrativas bíblicas. Tal qual o marxismo para criança, a inocência na literatura infantil neopentecostal deve ouvir a verdade não do vovô Marx, mas a verdade da vovó Igreja.

            Exposto isso, podemos afirmar que marxismo e religião se abraçam ou igualam-se, visto que as duas literaturas infantis “limpam” a criança das narrativas falsas com a linguagem asséptica da verdade, a mesma verdade com que Platão disciplina a criança em A República e em As Leis, qual seja, verdade que, separando-se das diferenças, fixa valores absolutos. Essa verdade jamais se distancia da ideia de real, por isso que as literaturas infantis marxista e religiosa têm cunho realista.

            Evidente que, por causa de princípios democráticos, essas literaturas devem e precisam existir, mesmo porque, se não existissem, não seriam criticadas aqui; e a crítica, sem os apelos de ideologias e de emoções religiosas, é o exercício de uma razão que busca com equilíbrio qualificar ideias, nesse caso, a ideia de criança, que é a ideia de brincar. Em “O capital para criança”, porém, a inocência não brinca, o que não ocorre em “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, “onde tudo que é bom é brincadeira”.

            A criança não busca a verdade.  Ela busca brincar. Se a verdade se separa das diferenças a fim de fixar valores absolutos, a fim de se dizer pura, a criança brinca, pois brincar, que mistura, alegra: o Menino Maluquinho “deitava/ e rolava/ pintava e bordava/ e se empanturrava/ de bolo e cocada/ E ria/ com a boca cheia/ e dormia/ cansado no colo da vovó/ suspirando de alegria”.

            Mas a criança que pede ao vovô Marx contar a verdade é criança que não sabe brincar; o marxismo para criança, que não reconhece o ato de brincar como natural à infância, também não pode reconhecer um conceito inerente ao brincar, a saber, ele: que proporciona à inocência alegria, qual seja, o falso. Brincar é experimentar o falso; e, ao experimentá-lo, a criança é afetada pelo excesso. Pais que assistiram com seus filhos à peça “Bonequinha de pano” possibilitaram às crianças o acesso ao brincar, desde que admitamos a relação estreita entre o brincar e o irreal ou entre o brincar e o falso.      

            Uma criança que se fantasia, por exemplo, de boneca Emília brinca de Emília e, ao mesmo tempo, falseia os limites do real. Por causa da ficção do falso, da fantasia, a criança se alegra, visto que o falso oferta ao infante um certo grau de expansão. Na literatura de Ziraldo, a inocência se alegra. “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original! Se aprendemos a nos alegrar melhor, melhor desaprendemos de causar dor nos outros e planejar dores”, escreveu Nietzsche em Assim falou Zaratustra. 



            As literaturas infantis marxista e religiosa, assim como a fábula nobre de Platão, são ficções verdadeiras que representam a moral reta a que a criança deve ser submetida, bem diferente do brincar desobediente e alegre do Menino Maluquinho, cujo comportamento escolar recebe dos professores ZERO.


            Quando eu soube que Ziraldo encontrava-se no hospital por causa de um AVC, perdi por alguns segundos a respiração em um mundo que tinha acabado de ficar ainda mais desencantado. A verdade tinha me asfixiado. Eu quis, porém, acreditar que a criança de 85 anos, na verdade, brincou de partir para sempre. Melhor assim: brincar, fingir, falsear.

sábado, novembro 25, 2017

Política. Estrutura. Escola. Gramática


De Aldo Tavares
            
            Lecionei no Acre durante 20 anos e percebi, nesse tempo, a escola pública antes e depois do Partido dos Trabalhadores no governo. Não voto no PT. Defendo nenhum partido. Defendo ideias. Então, se escrevo para afirmar que a educação acriana melhorou com o PT, é porque eu estava com meus alunos em sala de aula desde o governo de Jorge Viana.
            Em grego, cidade é “pólis”, a mesma raiz de (polí)tica, que significa “muitos, diversos, múltiplos”, ou seja, “pólis” tem a marca das diferenças, a marca de valores não semelhantes. Já a raiz grega “-tica” nos remete “ao que é comum, ao que deve ser igual a todos”. “Política”, portanto, é palavra com dois significados que se contradizem, quais sejam, unidade e multiplicidade. Buscar encontrar a unidade na multiplicidade, esse é o sentido original da palavra política.
            Embora seja um dos lugares em que as diferenças se manifestam por meio de comportamentos, por meio de ideias, a escola tem de buscar sua unidade, o que não significa excluir a multiplicidade da própria vida. Nesse sentido, a escola é política. Mas por que meio se manifesta a unidade-multiplicidade escolar entre a direção e o corpo docente? Antes dessa pergunta, deveria haver esta: por qual meio coloca-se o professor ou a professora na direção escolar?
            Faço essa pergunta porque, antes da relação entre direção e corpo docente, o diretor foi escolhido pela democracia escolar. Passei por várias escolhas democráticas e vi de perto o que é a democracia escolar na rede estadual acriana de ensino. E aí retorno à minha pergunta: por qual meio coloca-se o professor ou a professora na direção escolar? O menos atento responderá que é a democracia, ignorando que a democracia é estrutura. É por meio da estrutura que se escolhe um professor para estar diretor escolar.
            Por causa do limite de linhas, evidente que este artigo não é o espaço mais apropriado para pensar o conceito de “estrutura”, mas podemos afirmar que ele não tem nenhuma relação com formalistas russos, com superestrutura e infraestrutura do marxismo, com a obra “As estruturas elementares do parentesco”, de Claude Lévi-Strauss, ou relação com o belo livro “A reprodução”, de Pierre Bourdieu. O conceito de estrutura a que me refiro se enlaça com a segunda fase de Bourdieu, com o segundo Wittgenstein, com as páginas de “O aberto”, de Giorgio Agamben, quer dizer, sem nenhum vínculo com o mecanicismo, estrutura é o que a filosofia pensa sobre “movimento”, ou seja, é e não é, enfim: estrutura é abertura.
            A atual estrutura que organiza e movimenta as relações humanas no processo democrático escolar assemelha-se à democracia que vota em vereadores, deputados, isto é, a estrutura democrática escolar no Acre não permite qualificar o ensino público, porque ela é feita para não escolher o melhor professor para estar diretor. Como eu disse antes que a estrutura é aberta, pode ocorrer que em alguma escola ou em algumas escolas o voto escolha o melhor candidato à direção; isso não tem predominado, no entanto. A regra tem sido brigas, tumultos, xingamentos, interesses de grupo contra outros interesses de grupo, porque a estrutura, subjacente às falas e às relações humanas, permite que o tumulto e o superficial se manifeste, impedindo a presença de diálogos muito qualificados a fim de que problemas e soluções sejam pensados com elegância e profundidade.
            Pergunta-se: é regra na escola pública acreana haver diálogo entre candidatos a diretor sobre o aluno escrever bem? é regra entre candidatos nessa democracia escolar haver diálogo sobre prática de leitura em sala? é regra debate sobre sala de leitura? Pergunto porque pertence à natureza da escola ensinar muito bem o aluno a escrever e a ler. A democracia escolar hoje escolhe o melhor candidato para que o aluno escreva e leia bem?
            A mais absoluta ausência dessas perguntas na atual estrutura democrática teve como resultado, por parte da Secretaria de Educação do Acre, a retirada do estudo de gramática e, em seu lugar, gêneros textuais. Leciono Língua Portuguesa há anos, mas é a Filosofia que aprofunda a ideia de quanto a gramática é importante para escrever e ler bem. Se debates na escola não aprofundam problemas e soluções de escrita e de leitura, a secretaria retira da escola a gramática, o que é uma insanidade. Digo insanidade porque retirar a gramática da Língua Portuguesa assemelha-se a retirar os números da matemática, porque, assim com a matemática, gramática é estrutura. Em seu livro “Antropologia estrutural dois”, Claude Lévi-Strauss afirma na página 133: “a estrutura é o próprio conteúdo”. Ora, se ele escreve isso, é porque a base do antropólogo Lévi-Strauss é filosófica. Em “Mito e significado”, ele registra na página 23: “falar de regras e falar de significado é falar da mesma coisa”. Por si mesma, a Língua Portuguesa não tem como entender essa relação entre estrutura e conteúdo, ela precisa dialogar com a Filosofia.
            É o filósofo Jacques Derrida quem pensa o conceito de “desconstrução” e, uma vez pensado pela filosofia, ele é transferido para outras disciplinas, por exemplo, para a Língua Portuguesa. Eu disse “transferido”, e não “pensado” pela Língua Portuguesa. A ideia de o aluno não estudar gramática na escola é consequência da filosofia derridiana, só que o conceito de desconstrução na filosofia é deformado quando cai de paraquedas na Língua Portuguesa.
            Derrida pensa a desconstrução porque a gramática é extensão do “logocentrismo” e, como o pensamento derridiano busca o fluxo da escritura, ele pensa a desconstrução da gramática, ou seja, pensa a desconstrução do lógos. Isso, porém, não tem nada a ver com a exclusão da gramática. Desconstruir não é excluir a estrutura. E mais: a gramática só pode ser pensada por meio da metafísica, ou seja, sem a metafísica, não se entende a origem da gramática, que é, por meio de conceitos inerentes à metafísica, origem estrutural. Seu complexo livro “Gramatologia” pensa isso e mais bem mais.
            Não tenho dúvida de que o PT melhorou a escola pública. Em 2018, completam-se 22 anos de Partido dos Trabalhadores na administração estadual, quer dizer, nesse longo tempo, o PT qualificou o ensino público, mas 22 anos é tempo demais para qualificar pouco. O aluno na escola pública acriana ainda conclui o ensino médio sem ler e sem escrever bem. Já são 22 anos, e uma maioria de alunos termina sai da escola sem dominar, por exemplo, o uso da vírgula, conhecimento importantíssimo para organizar e desorganizar estruturas sintáticas. Já são 22 anos, e uma maioria de alunos do ensino médio se forma sem ter lido sequer um clássico de Filosofia, de Sociologia, de História, mesmo porque não existe a prática de leitura na escola pública. Já são 22 anos, e as escolas públicas acrianas não têm salas de leitura. Já são quase 22 anos.

sábado, setembro 09, 2017

Palocci, Lula e Platão


De Aldo Tavares

Com o depoimento de Antônio Palocci a Sérgio Moro em 6 de setembro deste ano, Lula conheceu o que é capaz de fazer um “amigo”. Palocci já abriu a boca contra Lula e Dilma e, bem mais do que falar, o Italiano tem provas e mais provas, farta documentação de quem foi o centro do poder durante o governo de Lula.

Para os luletes e as luletes, Palocci foi pressionado por Sérgio Moro e pelos procuradores para mentir. Para os fãs, só Lula é a luz, a verdade e o caminho, não passando Palocci de um réu que só quer diminuir seus dias na cadeia e, para tanto, o Italiano mente, mente e mente.

Um dia após a delação, Dilma Rousseff disse em nota que “Palocci mente e ágio pago pela Odebrecht prova sua ficção”. Lula declarou que “Palocci é meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do Brasil. Ele tá trancafiado, mas não tenho nenhuma preocupação com delação dele”.

Quem mente? A palavra “mentir” significa “esconder”. Dessa vez, Palocci assumiu que é o Italiano, ou seja, ele não se esconde mais, colocando-se como corrupto. Palocci assumiu a sua corrupção. Nesse sentido, ele não mente, porque não se esconde mais, quer dizer, ele não mente. Quanto a trair Lula para diminuir seu tempo de prisão, é bom lembrar que a delação não se limita à fala, são necessários os devidos documentos. Palocci já afirmou que os tem. O Italiano, enfim, não só abriu a boca contra Lula e Dilma como também abriu a boca contra ele mesmo. Palocci traiu os governos do PT e, mais do que isso, ele traiu a ele mesmo. 

O que dizer de uma pessoa que se diz corrupta? Podemos dizer que ela fala a verdade, porque ela não só coloca Lula como se coloca como corrupta. Quem dirá que Palocci não diz a verdade quando ele tem provas contra ele mesmo? No entanto, luletes e dilmetes dizem que só os seus mitos falam a verdade. Mas o que é a verdade? A verdade é o que é visto, é o que se apresenta aos olhos, ou seja, a verdade é o real. Só Lula e Dilma são reais, eles não traíram a esquerda e nem o Brasil. Eles falam a verdade.


Mas o que é o real? Ora, segundo Platão, o real é aparência, quer dizer, não podemos confiar nela porque não podemos confiar nos sentidos, sempre enganosos; porém não há outro meio de acesso ao real senão pelos sentidos. Assim, os sentidos, que são enganosos, sempre escondem algo do real, por isso que em A República Platão afirma que o real é mentira, mas mentira nobre, em outras palavras, por ser nobre, a mentira diz ser verdadeira. 

O traidor encontra-se na instância da mentira nobre, não podendo ser (des)coberto no espaço público à luz do dia, podendo ser (des)coberto somente no espaço do íntimo - como no filme Coração Valente – ou ele, a público, dizendo e provando ser traidor, como o caso de Palocci.

Enquanto Lula não afirmar publicamente que é traidor da esquerda e da Nação, luletes o defenderão. Entretanto, caso Lula assuma sua culpa, seus fãs ainda pedirão provas e, caso ele as apresente, ainda dirão que Lula as forjou. O real é patológico.

terça-feira, junho 21, 2016

3º ANO: de Lógos ao Princípio Ético

PARTE I

I) As três ciências de Aristóteles (384-383
- 323 a. C).

1. Ciências Práticas:
elas se referem às ações que têm seu início e seu tempo no próprio sujeito que age: são as ações morais; o saber relaciona-se à atividade prática: a moral (ética e política); 

2. Ciências Poiéticas ou Produtivas:
elas se referem às ações que têm seu princípio no sujeito, mas são dirigidas a produzir algo fora do próprio sujeito (arte, incluindo medicina); e

3. Ciências Teoréticas:
física, matemática e metafísica (teologia natural ou filosofia)

II) Metafísica, o saber em si.

1.
A “filosofia primeira” refere-se às realidades que são separadas e imóveis, mas é conhecimento da substância primeira e mais elevada e, sendo primeira, é suprema, ou seja, é a causa de todas as coisas, é universal, qual seja, substância primeira;

II) Lógos é o que Aristóteles chama de substância (ousia).

1.
Substância é “sub-stare”, ou seja, significa “por baixo de todo estar”, compreendendo que o verbo “estar” relaciona-se a movimento, à inconstância, à variação, quer dizer, ao que está sendo;

2. Por ser “sub-stare”, a substância nunca aparece em uma experiência sensível, porque essa experiência nos mostra não o que é, mas o que está sendo. A substância sustenta o mundo sensível, permitindo que ele seja conhecível e pensável, isso quer dizer que a substância determina o que uma coisa é e a substância permanece em tudo que muda. Por causa disso, a substância, princípio de organização do mundo sensível, é imaterial, incorpórea, inteligível;

3.
Inteligível vem de “inte-legere”, que significa “ler dentro”, ler o interior, ler o profundo a fim de fundamentar, sabendo que a essência reside abaixo da superfície;

4.
A substância é o imóvel que é causa absoluta do móvel, ou seja, a substância sustenta o mundo sensível e determina o que uma coisa é, porque ela permanece em tudo o que muda;

5.
A parte imaterial da substância é a forma, o mesmo que essência; e a parte material é a potência, isto é, o que está sempre se devindo;

6.
Se, para Platão, o sensível não passava de mera aparência destituída de ser, o sensível, para Aristóteles, tem ser, mas é um ser em potência, ou seja, a Essência não está no mundo Ideal, mas encontra-se no mundo material.

7.
A substância composta é essência e acidentes. A essência vem acompanhada da ideia de necessidade, por exemplo: a essência de Platão é ser homem.

III) A Substância determina a ideia de Ética.

1.
A Ética nasce na Grécia entre os séculos V e IV antes de Cristo, adotando uma nova forma de linguagem, a do logos demonstrativo ou da linguagem epistêmica, que é a da ciência. A Ética tem como estrutura fundamental a lógica;

2.
A ciência nasceu como ciência da natureza (phisis) na Jônia do século VI, onde se formularam as primeiras regras do discurso científico ou as regras da necessidade lógica, ligando o antecedente e o consequente;

3. Ética é a ciência do ethos. Mas o que é ethos? Esse termo deriva de éthos, que significa “caráter habitual”, sendo equivalente ao termo latino moral, que é a “ciência dos costumes” ou “conjunto de costumes normativos da vida de um grupo social”. O grego arcaico, no entanto, não distinguia éthos de êthos, sendo que êthos significa “hábito” no sentido de “constância do comportamento do indivíduo cuja vida é regida pelo ethos-costume”. Aristóteles faz Ética derivar de êthos, cuja etimologia original é “morada, covil ou abrigo dos animais”.

domingo, junho 19, 2016

LÓGICA ARISTOTÉLICA (2º ANO)

DO LÓGOS AO PRINCÍPIO DA LÓGICA
Professor de Filosofia
Aldo Tavares

Conforme o Currículo Mínimo o Estado do Rio de Janeiro

Instrumentos do Pensar Filosófico:
- Apropriar-se de princípios e de alguns dos instrumentos da lógica para o pensar filosófico; e
- Desenvolver o raciocínio lógico e a argumentação.

A LÓGICA
OU A ANALÍTICA DE ARISTÓTELES (384-383 - 323 a. C)

I) SILOGISMO CONFORME A SUBSTÂNCIA

a) Silogismo 1

1ª premissa: A liberdade do ser humano é fazer o que ele quer.
2ª premissa: Judas quis trair Jesus.
3º conclusão: Logo, Judas é um ser humano livre.

b) Silogismo 2

1ª premissa (maior): Todos os animais (termo médio) são mortais.
2ª premissa (menor): Todos os homens são animais (termo médio).
3ª premissa (conclusão): Logo, todos os homens são mortais.

OBS. 1ª) “
Animais” desempenha a função de “termo médio” do silogismo e, por isso, ele é a “substância” ou alusão à “substância”. Por causa disso, existe a conclusão. Nesse caso, o silogismo é uma dedução necessária, ou silogismo demonstrativo, ou silogismo científico, ou silogismo do universal;

OBS. 2ª)
A lógica aristotélica (lógica clássica ou formal) é, fundamentalmente, um processo discursivo que tende a determinar o porquê ou a causa;

OBS. 3ª)
O lógica do silogismo demonstrativo deve fazer uso de axiomas, ou seja, proposições verdadeiras.

II) Órganon (instrumento ou meio)

1.
Raiz “stru, struō”: subjacente à prática, essa raiz dispõe uma ordem que fixa, que mobiliza e que promove relações; essa raiz que tem como 1º) significado levantar, sustentar; 2º) significado retirar; e 3º) confortar,  juntar, ligar, preparar, compor, tecer, tramar, formar, causar, cobrir; e também tem o sentido de o que produz, o que causa;

2. Alexandre de Afrodisia (198
- 209 d. C) “introduz o conceito de órganon para designar lógica em seu conjunto (e que, a partir do século VI d.C, foi utilizado como título do conjunto de todos os escritos aristotélicos relativos à lógica) define o conceito e a finalidade da lógica aristotélica, que forneceria os instrumentos mentais necessários para enfrentar qualquer tipo de investigação” (REALE, p. 151-52);
3. “Aristóteles
, que nasceu em Estagira (384-383 - 323 a. C), hoje Tessalônica, preferiu usar a palavra “”analítica”, e Analíticos é o título dos escritos fundamentais do Órganon” (Ibid, p. 152); como disciplina intelectual, foi criada no século IV a. C);

4.
“Além de Analíticos, Aristóteles usa a expressão Escritos sobre o silogismo para referir-se a esses textos” (Ibid, NOTAS, p. 174);

5. O conceito analítico
significa “separação, resolução, dissolução”. “A analítica (...) explica o método pelo qual, partindo de determinada conclusão, podemos decompô-lo nos elementos dos quais ela deriva, isto é, nas premissas de onde brota; assim, é possível fundamentá-la e justificá-la” (Ibid, p. 152);

6. Analítica
ou Órganon divide-se em seis tratados: 1º) Categorias, 2º) Da Interpretação, 3º) Analíticos Anteriores, 4º) Analíticos Posteriores, 5º) Tópicos e 6º) Refutações Sofísticas. Como os tratados 3º) Analíticos Anteriores e 4º) Analíticos Posteriores são os fundamentais, as aulas se fixaram neles porque ambos referem-se ao que Aristóteles chamava de Escritos sobre o silogismo;

7.
Analíticos Primeiros trata da estrutura do silogismo, termo vem do grego “syllogismós, cuja etimologia indica um conjunto ou uma reunião (de proposições), um raciocínio, sem determinar sua forma precisa. (...). Mas existe um emprego propriamente aristotélico desse termo, que designa, então, um raciocínio dedutivo de forma particular. A definição geral que Aristóteles dá é: ‘o silogismo é um discurso pelo qual, estabelecidas certas coisas, uma outra coisa resulta necessariamente devido a esses dados apenas’” (Primeiros analíticos I, 1, 24b18 apud PELLEGRIN, p. 57);

8. Analíticos Primeiros: 1º)
trata da estrutura do silogismo, de suas diversas figuras e de seus diferentes modos, considerando seu aspecto formal; 2º) esse aspecto prescinde de seu valor de verdade e examina apenas a coerência forma de raciocínio; e 3º) parte-se de determinadas premissas para deduzir as consequências que elas impõem (REALE, p. 153);

9. Analíticos Segundos: 1º)
além de correto formalmente, trata do silogismo verdadeiro das premissas (e das consequências), ou seja, pensa o silogismo científico ou demonstrativo (REALE, p. 153 e p. 164); 2º) a demonstração científica está quase inteiramente ligada à concepção metafísica de substância (ou essência, ou forma, ou eidos) (REALE, p. 165).

10. Silogismo: 1º) raciocínio
: passamos a raciocinar quando proposições têm determinados nexos entre si e que sejam, de certo modo, causas umas das outras, umas antecedentes, outras consequentes. Não há reflexão sem nexo, sem esse caráter de consequência; 2º) o silogismo se constrói com três proposições: dois antecedentes (ou duas premissas) e a terceira proposição é o consequente ou conclusão que deriva das duas premissas.

domingo, junho 12, 2016

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO


Quando abrimos as primeiras páginas do apóstolo João, lemos que “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Princípio. Verbo. O que é o princípio? O que é verbo? Antes de qualquer coisa, saibamos que esses dois termos são as traduções latinas dos gregos arkhé (ἀρχή), “princípio”, e lógos (λόγος), “verbo”. Embora tenhamos em são João o termo arkhé, este texto seguirá só com lógos.                                                                 .          

Antes de buscarmos o significado de verbo em português, a origem desse termo é grega, ou seja, “verbo” passou pelo filtro da cultura romana. Por causa dessa passagem da língua grega para a língua latina, perdeu-se o sentido original, pois se perdeu a vida da palavra.
                                                                                                   .
Segundo a obra De Magistro, de Agostinho, verbo afirma “tudo o que é proferido por uma voz (vox) articulada com uma significação percute (verberare) no ouvido para ser percebido e é confiado à memória para ser conhecido (nosci)”. Nesse aspecto, verbo é palavra; mas entendamos “palavra” enquanto sentido original de “palavra interior”, porque, na obra De Trinitate, ainda de Agostinho, “verbum não abandona a alma daquele que fala”. Palavra é, portanto, o que vem do íntimo para o outro que me escuta, sabendo que, entre quem fala e quem ouve, só há encontro por pertencer à natureza da palavra a ordem.                                              .

“Lógos” também foi traduzido para o latim como “ratio” ou “razão”. Mas qual a origem de “ratio”? Razão designava “a conta que o escravo mantinha com seu dono em um livro-razão”. Então, “ratio” pertence à ordem dos números, ou seja, por “ratio” derivar do verbo latino “reor”, a conjugação é “eu conto, eu cálculo”. Infelizmente, nós herdamos da cultura romana a ideia de razão, tendo sido sepultada a ideia de razão segundo os gregos.                                                                                                             .
Em grego, “lógos” não tem sua origem em livro-razão, objeto do comércio, do negócio, onde o número é precisão ou coisa em si mesma. Em grego, “lógos”, originado e pensado por Heráclito de Éfeso (544?-474? a.C), possui beleza metafísica que, embora tamanha beleza tenha sido muito alterada ao longo de séculos, chegou a nós pelo pensamento católico
                                                                                                         .
Primeiro a pensar no cristianismo a relação entre o divino e o humano foi Orígenes (185-253 d.C), discípulo de Clemente de Alexandria (150-215 d.C). Ainda que Heráclito tenha sido o primeiro a pensar “lógos”, Orígenes foi influenciado pela noção estoica, que é a ordem racional do mundo, ou seja, “lógos” é força de unidade na dispersão, princípio divino que vive nos homens, divinizando-os. Jesus é o “Lógos”, ou seja, sua natureza é dupla, divina e mortal, infinita e finita, imanente e transcendente, visto que “Lógos” é fonte das duas naturezas de Jesus Cristo. A beleza e a profundidade do pensamento de Orígenes, podemos encontrar em “Tratado sobre os Princípios”, páginas originárias dos pensamentos de Hegel (1770-1831) e de Feuerbach (1804-1872) a respeito da natureza dupla de Jesus.

Aldo Bourdieu
(língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.

 

sábado, maio 28, 2016

Mais de 30 instrumentos de guerra violam uma só vagina


No mundo em que tudo é excesso, em que tudo é desmedida, em que tudo é abuso, um estupro por dia não é o bastante para circular pelas redes ou para ser propagado no exterior. Para a máquina olhar a desgraça humana e para depois falar dela, a máquina exige o incomum a fim de que a palavra “barbárie” seja usada quando, por exemplo, mais de 30 homens violam uma adolescente de 16 anos.

Um estupro por dia não é notícia. A máquina precisa mais de droga para “seu êxtase” noticiário, sem antes racionalizar para saber a medida justa de sua audiência. Governador fala. Ministro da Justiça fala. Secretário de Justiça fala. Presidente fala. Feministas falam. Comoção nacional.



Um estupro por dia não emociona mais a audiência. Por dia, um só estupro não mancha mais a civilização. Um estupro por dia não é barbárie. A máquina precisa ser lubrificada, e, para tanto, o melhor lubrificante é o exagero, é o incomum, ou seja, são mais de 30 homens. Agora o que comove é estupro coletivo; porém, “nas favelas cariocas, quem estupra morre”, afirma a voz de um bandido que circula nas redes sociais. Nenhum estuprador morreu por um chefe do tráfico. Se nenhum morreu, terá sido cultura do estupro ou cultura da orgia sexual?



E se for verdade que essa adolescente tenha participado por vontade própria e por dinheiro de uma orgia sexual à moda Marquês de Sade? Caso seja comprovado que ela quis experimentar o domínio de mais de 30 animais machos, o que está em questão, enfim, é o sexo entre adolescentes. Talvez a adolescente não tenha sido vítima da cultura do estupro, mas voluntária da cultura da pornografia. Uma dúvida: não será a cultura do estupro a outra face da cultura da pornografia? Pergunto porque a cultura da pornografia é violência, força que submete o corpo à condição de coisa. A pornografia, sabemos, não perde seu tempo com ternura, com sentimentos, com amor.



Ainda que tenha sido ato voluntário da adolescente para participar de uma orgia, houve crime; entretanto, por causa da escolha dela, não podemos falar de cultura do estupro, e sim de cultura da pornografia. Dito isso, o problema não é o clichê “machismo”, tão bem encarnado na imagem concreta de mais de 30 homens, mas sim o domínio masculino invisível como estrutura social. A polícia encontra os suspeitos de estupro. Entretanto, a polícia não encontra palavras. A polícia prende os estupradores. Entretanto, a polícia não prende palavras. A polícia busca as provas. Entretanto, a polícia não busca palavras. A justiça julga estupradores. No entanto, a justiça não julga palavras. A justiça condena estupradores. No entanto, a justiça não condena palavras.



Enquanto instituições podem apresentar à sociedade o mal encarnado em homens que violaram o corpo de uma adolescente, as relações abstratas entre palavras disseminam na mente de jovens juízos falsos, enraízam na mente de jovens enganos de liberdade, deformam na mente de jovens a sexualidade. Pior: uma vez na mente, jovens falam palavras que eles nem percebem que estão doentes de sentido profundo. A polícia só age porque seu mundo é objetivo. A justiça só age porque seu mundo é objetivo. As palavras não são objetivas, e, bem antes de a polícia e de a justiça agirem, as palavras já adoeceram mentes que nem sabem que estão doentes de ideias, de juízos, de raciocínios.

quinta-feira, maio 12, 2016

OS SIMBÓLICOS 13 ANOS DO PT



Dilma está fora. Eu queria que ela ficasse dentro até o final para não emergir o maniqueísmo do golpe, que alimenta, por exemplo, o marxismo vulgar, chulo, burro das lutas sindicais.

Não só isso: assisti a quase todos os debates das comissões e, confesso, ainda que eu seja burro, não ouvi justificativas para seu impedimento.

Digo: justificavas na natureza escrita das acusações, não nas falas subjetivas e passionais da oposição.

Seu governo deveria sangrar l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Seu governo deveria se banhar no próprio sangue, sangue jorrado também pela estocada nas costas de um Delcídio do Amaral, um petista, um amigo, um escolhido pelo governo, um mentiroso segundo a Dilma.



Como autoritária, gesto próprio de uma revolucionária (?) desde os 16 anos (o quê!?!?!?), ela, agora, diz que não receberá as falas dos repórteres, pois fará um pronunciamento, ou seja, ela sai do governo sem o diálogo com os jornalistas.

Assim são os revolucionários (?), não sabem dialogar com o tempo histórico e nem com a democracia. No caso dela, não sabe mais ainda dialogar com o tempo quando se diz revolucionária aos 16 anos.

Ninguém é revolucionário aos 16 anos. Ninguém. É, no mínimo, um tolo ou um analfabeto revolucionário, ou seja, não é revolucionário, porque, para sê-lo, é preciso muita maturidade para não pegar em armas e defender a ditadura do proletariado, mesmo porque quem defende a democracia sabe que a luta é educacional.

Pior: um tipo ultrapassado de PT não aprenderá com o impedimento de Dilma, porque esse tipo nunca erra, porque seus líderes, só eles, sabem conduzir "o povo", essa abstração generalizada que não existe de fato na realidade.

Se o esse PT não quisesse isso, fosse então o "partido da ética" (lembram-se?). Esse tipo de PT assistiu a bons nomes indo embora do partido (Marina, Cristóvão, Hélio Bicudo, Chico Alencar) e, para isso, nem precisou da Globo e da Veja.

Esse PT errou por si mesmo, e Dilma só confessou seu erro depois das eleições, já era tarde, pois esse PT jamais foi revolucionário.

Foi, isso sim, mentiroso durante 13 anos, o mesmo número de legenda é o mesmo número do fim. Ironia.

Termino: o PT é muito importante para a democracia, mas não esse tipinho de PT.


sexta-feira, maio 06, 2016

Filosofia: 2º ano do Ensino Médio


Conforme o Currículo Mínimo: Instrumentos do Pensar Filosófico
- Apropriar-se de princípios e de alguns dos instrumentos da lógica para o pensar filosófico; e
- Desenvolver o raciocínio lógico e a argumentação.

DO LÓGOS AOS PRINCÍPIOS DA LÓGICA

I. Razão e Fé na Idade Média: Patrística (do século II ao século VIII)

1
. Precursor da Patrística:
a. Fílon de Alexandria ou Fílon Judeu (23 a.C-41 d.C): 1) toma da Estoá o conceito de Lógos e toma de Platão a estrutura do mundo suprassensível e o mundo das Ideias.

2. Patrística Apostólica:                                                                                                                .
a
. Clemente de Roma, discípulo de Pedro, ele não tem preocupação com a filosofia e seu olhar é para dentro;

3
. Filosofia Patrística Apologista ou Apologeta Helênica ou Filosofia Helênico-Patrística:
a
. Os textos dos apologetas eram conforme as letras jurídicas, ou seja, suas obras defendiam os imperadores romanos o reconhecimento do direito legal dos cristãos à existência em um império oficialmente pagão;

b
. São Justino (100-165), o mais destacado, filósofo e mártir: 1) segundo ele, a filosofia “era o que nos conduz a Deus e a ele nos une”; 2) ele une filosofia e fé; 3) se admitirmos que Deus revelou a verdade aos homens apenas por meio de Cristo, então os que nasceram antes de Cristo não foram culpados de tê-la ignorado; 4) Justino vai a são João, que diz “todo gênero humano participa do Verbo”; 5) então, existe uma revelação universal do Verbo divino antes do Verbo se fazer carne; 6) Justino vai aos estoicos para afirmar que existe uma “razão seminal” (Lógos);

c. Taciano
(120-180), discípulo de Justino, é contra a filosofia;

d
. Escola de Alexandria: Clemente de Alexandria (150-215), de origem grega, ele representa o que há de mais original na literatura patrística e foi discípulo de Panteno de Sicília (falecido em 200): 1) a filosofia não é obra do mal, mas é um bem de Deus, pois a filosofia aprofunda o sentido da fé; 2) o Verbo assume as funções de um pedagogo para estabelecer limites; e

e. Orígenes (185-253), discípulo de Clemente de Alexandria: 1) influenciado pela noção estoica de Lógos, que é a ordem racional do mundo, ou seja, o Lógos é força de unidade na dispersão (grego); 2) no entanto, para Orígenes, o Lógos também não é grego, ao dizer que é princípio ativo que dirige o mundo, mas o mundo judaico-cristão; 3) o Lógos se faz o princípio divino que vive nos homens, divinizando-os; 4) Jesus é o Lógos, ou seja, é tempo imanente e transcendência, eis a fonte das duas naturezas de Jesus.  

LÓGOS: lei, assim como ler, vem de legĕre, de raiz leg, também sob a forma lig-, cujo particípio é lectus, de radical lec.t-, transformadas em português em l(e)-, lh(e)-, le.ç- ou lei.t. Da mesma origem, lei e ler, portanto, encontram-se em colheita. Contudo, antes de separar o grão ruim do grão que é bom, o ato de selecionar está submetido a tudo que envolve o ciclo da terra, a natureza (physis, movimento).

1. “Heráclito, fragmentos contextualizado”, tradução, estudo e comentários de Alexandre Costa: 1) “Ouvindo não a mim, mas ao logos, é sábio concordar ser tudo-um” ou aparente-inaparente; 2) se ouve o  “eu”, dá ouvidos ao mundo enganoso de suas falsas impressões e ao bulício da idiossincrasia; 3) ouvir o logos é concordar com ele, obedecer, acatar o que ele diz e mostra é ser sábio para perceber que o Lógos é ser tudo-um; 4) a escuta determina a fala, que diz a mútua necessidade entre divergência e concordância, o que Heráclito designa como harmonia; 5) o Lógos mantém a unidade, a multiplicidade e a tensão entre elas, fazendo concordar o que discorda;

2. “Estoicismo, Ceticismo e Ecletismo”
, de Giovanni Reale: 1) o Lógos é princípio da verdade (com suas leis do pensar, do conhecer e do falar) na lógica, é princípio criador (como princípio ontológico) do cosmo na física, é princípio normativo na ética ou princípio que determina o sentido das coisas, ou seja, o fim e o dever-ser do homem, que é objeto da ética; 2) a essência do Lógos não se esgota no conhecer e no falar; 3) princípio espiritual que dá forma a todo universo e a todo homem; 4) a lógica é método, é o esqueleto, é a casca do ovo; 5) o Deus dos estoicos, que é Physis (faz tudo nascer, crescer e ser), é também Lógos, vale dizer, princípio de inteligência, de racionalidade e de espiritualidade; 6) O Deus estoico, à medida que se identifica com a natureza, não pode ser pessoal; mas, depois, isso se transforma; e

3.
“Os assassinos do sol”, de Marcio Tavares d’Amaral: 1) Paulo, judeu-helenístico, é responsável pela helenização do cristianismo: penetração dos logos de Jesus no mundo greco-romano e sua difusão através da língua grega; 2) “Logos nós traduzimos depois apenas por pensamento, razão – e não é pouco, mas é menos. O dizer da palavra logos tinha ainda, em Heráclito, uma grande potência de instauração, contenção em limites, de dis-posição, recolha de “tudo o que é”.


quinta-feira, maio 05, 2016

Filosofia: 1º ano do Ensino Médio (aula 1)


Conforme o Currículo Mínimo do Estado do Rio de Janeiro:

Mito e Filosofia

-  Identificar o discurso mítico;
-  Identificar o discurso filosófico;
- Articular as relações entre mito e filosofia; e
- Situar o surgimento da Filosofia e suas contribuições na Grécia Antiga.

I. A Palavra Mítica

1. Mínios
. 1) A vida social organizava-se ao redor e por causa de um centro, qual seja, o palácio, cujo papel é ao mesmo tempo religioso, político, militar, administrativo e econômico. Atraindo tudo para seu centro como se fosse uma força centrípeta, o palácio simboliza o lugar do rei, o representante do sobrenatural no mundo. Sua palavra, portanto, é divina. Amálgama entre a figura do governante e o poder, eis a identidade da lei existente nos impérios antigos; 2) “A vontade do governante, a sua vontade privada, a sua vontade pessoal, a sua vontade arbitrária, caprichosa, o que lhe desse na telha era ali, e era ela o critério para guerra, para paz, para vida, para morte, para justiça e para injustiça”, expressa Marilena Chauí no vídeo “O drama burguês”; 3) O germe desse poder encarna-se nos mínios, entre 2000 e 1900 a.C., quando invadem a Grécia continental e, com eles, surgem grandiosos palácios-cidades em Cnosso, Mália e Festo, na ilha de Creta. Dois séculos depois, o poder absoluto dos mínios se afirma, e, assim, em 1700 a. C., os palácios ampliam-se, é o período neopalaciano (1700-1450 a.C.).

2. Hititas
. Outra invasão paralela, a dos hititas, manifesta-se e se expande pelo platô Anatólio. Em 1900 a. C., eles edificam a Troia VI, com características palacianas semelhantes às dos mínios da Grécia.

3. Aqueus
ou micênicos. 1) Contemporâneo a esses povos, os aqueus ou micênicos se estabeleceram em Peloponeso e, posteriormente, entraram em contato com a Civilização Minoica de Creta; 2) Com uma cultura muito centralizadora, os micênicos têm uma hierarquia social sentenciada pelo soberano absoluto, uma classe rica e, unido a essa classe, um comandante militar;e 3) Por mais que tenhamos diferenças entre poder e política, uma me chama atenção por ser aquela que tece a realidade social, qual seja: a palavra. Na sociedade despótica, a palavra não passa de um instrumento objetivo para, conforme os escribas do rei divino, registrar todos os setores da vida econômica a fim de controlá-los e de regulamentá-los. A palavra, submetida ao poder palaciano, mantém-se nos grupos estritamente fechados, onde a palavra também se fecha nela mesma, pertencendo, portanto, ao espaço privado. Por isso faz sentido o termo déspota, porque, como ele significa “senhor da casa”, a palavra se limita a esse espaço “doméstico”, ao espaço de “oikos”.

II.
A Palavra Filosófica

1. Dóricos
. 1) Com a invasão dos dóricos em 1500 a.C., a palavra palaciana se desmancha para ressurgir, após o fim do domínio dórico, a palavra como política nas cidades-estados; 2) No lugar da força centrípeta do rei divino, a história conhece o espaço de “ágora” (praça pública), lugar onde a palavra chega a todos ou parte de todos. Não mais pertence ao poder sobrenatural, mas a palavra pertence à democracia. Ela é democrática, ou seja, a palavra é conflito, discussão no espaço público.

2. A Palavra em Ágora
. No entanto, essa palavra em estado de conflito na democracia grega não significa desunião. Vernant afirma que “a exaltação dos valores de luta, de concorrência, de rivalidade associa-se ao sentimento de dependência para com uma só e mesma comunidade, para com uma exigência de unidade e de unificação sociais”. Conflito e união, Eris-Phlilia.

3. A Palavra em Ágora
. Pulsa este estado de tensão, onde se discorda e reconhece a diferença na face do outro, o oponente. Bem antagônico ao mundo palaciano, onde não se reconhecia a diferença do outro, “o verdadeiro interesse pelos outros nasceu com os gregos”, escreve Cornelius Castoriadis em “A polis grega e a criação da democracia”, do livro “As encruzilhadas do labirinto – os domínios do homem, volume 2”.