- Marcos, vamos debater a ideia. O Face é ótimo espaço para isso. Não é de seu feitio permanecer indiferente a um anônimo como eu.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Aldo Nascimento... Você está fora do Acre há certo tempo... Compreendo sua preocupação... Mas repito o que já te escrevi: nós, na Biblioteca da Floresta estamos fazendo MUITO mais do que você está propondo... Você nem tem ideia... Abraços!...
- Aldo Tavares Marcos, meu amigo, estou fora há 6 meses e morei no Acre durante 20 anos e 6 meses. Estive na linha de frente da educação durante 20 anos de minha vida e, como professor EM SALA, não há relação entre escolas e bibliotecas no que diz respeito à LEITURA e à ESCRITA.
- Aldo Tavares Eu não falo de MUITO MAIS DO QUE VC ESTÁ PROPONDO. Quero me prender à natureza da biblioteca, que é LEITURA e ESCRITA.
- Aldo Tavares Essa é a sua natureza. E, quando digo leitura, diigo no sentido clássico, ou seja, livro. Não falo do MUITO MAIS, falo do que é próprio da biblioteca, que é DISSEMINAR A LEITURA E A ESCRITA na rede pública.
- Aldo Tavares O conforto de ler não pode se reduzir à biblioteca pública, mas tbm às escolas públicas. Ora, sendo amigo do governador, vc, na condição de diretor de uma biblioteca, deveria lutar para que nas escolas públicas alunos de uma certa classe social tenham salas de leitura. E, se há salas de leitura, elas devem ser confortáveis. Isso deveria ser uma luta TAMBÉM sua.
- Aldo Tavares Acho que fui muito claro. O conceito de biblioteca mudou muito. O conceito de bibliotecário tbm mudou. Proponho a leitura de alguns livros, mas começo com este pequeno: "O direito de ler e de escrever", da venezuelana Silvia Castrillón.
- Aldo Tavares Perguntar-lhe-ei o óbvio: já reparou que governos propagam na televisão estradas e viadutos e não propagam leituras? Se o teu governo propagasse leitura, seria o germe de uma transformação. Digo germe porque é preciso transformar a concepção anacrônica de biblioteca.
- Aldo Tavares Marcos, obrigado por ter ofertado a palavra. Vc não ficou congelado em seu lugar. Mostra-se aberto a críticas. Assim como tantos outros, vc é um desses acrianos que deixam boas memórias em mim. Eu o admiro com o seu jeito franciscano de falar.
- Aldo Tavares DESCANSAR? Companheiro, a luta não continua? Ainda pulsa muita injustiça, muita coisa errada com o dinheiro público. DESCANSAR?! Marcos, só a morte me descansa. Enquanto houver palavra, busco lutar para além do meu conforto.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Aldo... Até os grandes guerreiros precisam descansar... Quando eu morrer, meus átomos descansarão desta minha atual composição... Enquanto isso, eu, você, vamos fazendo o que é possível, factível e realizável... É nesse sentido, entende?... Por v...Veja mais
- Arthur Ramos Para mim, parece um contrasenso ouvir o combativo e incansável Marcos Afonso aconselhando o descanso. Parece irônico. Mais irônico ainda é o governo impor quilos de mateiral impresso para as escolas (para o "nivelamento" das habilidades de leitura, segundo eles), sendo que ainda falta muito para tornar as escolas lugares adequados à leitura prazerosa.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Arthur Ramos... Bem, é uma metáfora!... Descansar é refletir, filosofar sobre os feitos e não feitos etc... Entendeu? Agora, te confesso: me deixe três dias sem dormir que eu adoeço...risos... Grande abraço!...
sábado, março 16, 2013
Rede social não é para isso. Aprenda
Rede social não é para isso. Aprenda
- Marcos, vamos debater a ideia. O Face é ótimo espaço para isso. Não é de seu feitio permanecer indiferente a um anônimo como eu.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Aldo Nascimento... Você está fora do Acre há certo tempo... Compreendo sua preocupação... Mas repito o que já te escrevi: nós, na Biblioteca da Floresta estamos fazendo MUITO mais do que você está propondo... Você nem tem ideia... Abraços!...
- Aldo Tavares Marcos, meu amigo, estou fora há 6 meses e morei no Acre durante 20 anos e 6 meses. Estive na linha de frente da educação durante 20 anos de minha vida e, como professor EM SALA, não há relação entre escolas e bibliotecas no que diz respeito à LEITURA e à ESCRITA.
- Aldo Tavares Eu não falo de MUITO MAIS DO QUE VC ESTÁ PROPONDO. Quero me prender à natureza da biblioteca, que é LEITURA e ESCRITA.
- Aldo Tavares Essa é a sua natureza. E, quando digo leitura, diigo no sentido clássico, ou seja, livro. Não falo do MUITO MAIS, falo do que é próprio da biblioteca, que é DISSEMINAR A LEITURA E A ESCRITA na rede pública.
- Aldo Tavares O conforto de ler não pode se reduzir à biblioteca pública, mas tbm às escolas públicas. Ora, sendo amigo do governador, vc, na condição de diretor de uma biblioteca, deveria lutar para que nas escolas públicas alunos de uma certa classe social tenham salas de leitura. E, se há salas de leitura, elas devem ser confortáveis. Isso deveria ser uma luta TAMBÉM sua.
- Aldo Tavares Acho que fui muito claro. O conceito de biblioteca mudou muito. O conceito de bibliotecário tbm mudou. Proponho a leitura de alguns livros, mas começo com este pequeno: "O direito de ler e de escrever", da venezuelana Silvia Castrillón.
- Aldo Tavares Perguntar-lhe-ei o óbvio: já reparou que governos propagam na televisão estradas e viadutos e não propagam leituras? Se o teu governo propagasse leitura, seria o germe de uma transformação. Digo germe porque é preciso transformar a concepção anacrônica de biblioteca.
- Aldo Tavares Marcos, obrigado por ter ofertado a palavra. Vc não ficou congelado em seu lugar. Mostra-se aberto a críticas. Assim como tantos outros, vc é um desses acrianos que deixam boas memórias em mim. Eu o admiro com o seu jeito franciscano de falar.
- Aldo Tavares DESCANSAR? Companheiro, a luta não continua? Ainda pulsa muita injustiça, muita coisa errada com o dinheiro público. DESCANSAR?! Marcos, só a morte me descansa. Enquanto houver palavra, busco lutar para além do meu conforto.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Aldo... Até os grandes guerreiros precisam descansar... Quando eu morrer, meus átomos descansarão desta minha atual composição... Enquanto isso, eu, você, vamos fazendo o que é possível, factível e realizável... É nesse sentido, entende?... Por v...Veja mais
- Arthur Ramos Para mim, parece um contrasenso ouvir o combativo e incansável Marcos Afonso aconselhando o descanso. Parece irônico. Mais irônico ainda é o governo impor quilos de mateiral impresso para as escolas (para o "nivelamento" das habilidades de leitura, segundo eles), sendo que ainda falta muito para tornar as escolas lugares adequados à leitura prazerosa.
- Marcos Afonso · 20 amigos em comumAmigo Arthur Ramos... Bem, é uma metáfora!... Descansar é refletir, filosofar sobre os feitos e não feitos etc... Entendeu? Agora, te confesso: me deixe três dias sem dormir que eu adoeço...risos... Grande abraço!...
A palavra na Grécia Antiga
Estava de bobeira olhando as páginas de "As origens do pensamento grego", de Vermont, e revolvi deixar a seus olhos um resumo subjetivo a respeito.
Não acredito em cultura erudita em blogues ou em redes sociais, mas faço isso porque me acostumei a ser inútil.
Boa leitura!
Oposta à palavra do rei divino – refiro-me ao período da civilização palaciana ou da sociedade despótica -, a palavra na polis, sem o propósito de ser absoluta, possui a marca do discordante, da instabilidade, da irregularidade, ou seja, ela se encontra agora na arena do debate contraditório, em ágora. Na pólis, porque se apresenta dessacralizada a serviço da arte oratória, a palavra é discussão diante do público.
Todas as questões de interesse público deverão ser solucionadas pelos discursos entre oponentes, sendo o logos, na forma de retórica, que regula essas argumentações.
Assim, na sociedade jurídico-política ou na sociedade democrática, não há mais espaço para a palavra privada, segredada conforme o sagrado, mas tão somente para o espaço público. Isso significa que, por ser emitida aos olhos de todos, perdendo, portanto, sua função sagrada, a palavra, agora no espaço aberto, no espaço de ágora, perde sua hierarquia para se tornar comum ou democrática.
No lugar do verbo do sacerdote ou do monarca, a autoridade da lei determina que a palavra deverá ser igual para todos, da mesma maneira, sem distinção. Acima de todos, a universalidade comum da Lei, devendo, por todos, ser aceita e reconhecida.
Vindo o termo “sagrado” do verbo “separar”, a palavra na sociedade democrática, uma vez dessacralizada, não se põe à parte do que é comum a todos, não mais permanecendo preservada, guardada ou afastada do que é comum ao “poder do povo” (democracia). Assim, rompida a distância entre o sagrado e o ordinário, entre o divino e os mortais, entre o sacerdote e os fiéis e entre o rei e os súditos, o diálogo entre iguais nega a hierarquia da sociedade despótica. A fala instável dos homens em ágora, também fala enganosa, nega a fala estável do sacerdote no templo e a do monarca no palácio. A palavra torna-se isto: política, ou seja: ela deve ser comum a todos na cidade. Por ser pública, por ser política, ela, a palavra, é doxa.
Isso, entretanto, não significa a sua existência absoluta. Única. Quero afirmar que a palavra do longo período da civilização palaciana não chegou a seu fim. Ela não morreu. “O processo de divulgação faz-se por etapas”, afirma Vernant. Mesmo no plano político, o poder trilha caminhos misteriosos, secretos, sobrenaturais. Embora a Grécia encontre-se no período clássico, relações sociais na polis ainda mantêm o hábito de separar o privado do público. Por causa das necessidades humanas, o sagrado resiste, porque o público, por sua natureza universal, geral, aberta, instável, irregular, promove o distante das vicissitudes da arché ou das origens humanas. O íntimo não só pertence aos homens, mas ele é o humano.
Com efeito, paralelo ao espaço de ágora, seitas, cultos, confrarias, mistérios, enfim, grupos hierarquizados guardam a palavra que doxa não pode sequer ver ou ouvir. Mantido o secreto, escreve Vernant que “uma minoria de eleitos se beneficiará com privilégios inacessíveis ao comum”.
Para esses iniciados, a transformação só pode ser “espiritual”, não podendo caber a ela a dimensão política, porque os eleitos, os epoptas, são puros, santos: “sagrados” – estão “separados” do que é comum à cidade. Todavia, sem restrição de nascimento, sem restrição de classe, a todos que desejam conhecer a iniciação, o mistério oferece aos membros de uma seita a promessa da imortalidade bem aventurada, que era na origem concebido somente ao rei. A palavra sacralizada é publicidade entre eles, aos que pertencem a uma seita, e não mais a uma família. Sua democracia não chega ao espaço aberto de ágora, permanecendo a palavra, portanto, ao círculo da seita, da confraria.
Em ágora, como foi escrito, a palavra é irregularidade. Ora, por não ser reta, por não ser linear, a palavra em ágora é curvilínea, sinuosa, tortuosa, confusa; ela mistura pontos que não estão em uma única ou fixa direção. Posso afirmar com isso que ela está em “desordem”. Entregue, portanto, à mistura, a palavra em ágora tem a marca da impureza. Na condição de instável, a palavra é acessível a todos em ágora, mas o Sábio, quando transmite a verdade à polis, não pode reduzir a palavra somente ao ordinário, ao (des)cobrir o que se encontra sob a aparência. A palavra do Sábio não pode ser “desordem”. Dessa forma, em ágora, ele “entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte”, observa Jean-Pierre Vernant. Para que a palavra seja a revelação da verdade, para que a palavra seja reta, pura, estável, o Sábio buscará “um conjunto de práticas e de disciplinas caracterizadas pela austeridade e pelo autocontrole do corpo e do espírito, que acompanham e que fortalecem a especulação teórica em busca da verdade”. Ele seguirá o caminho de ascese, o caminho da “pureza”. Se ele “leva o mistério para a praça pública; faz dele o objeto de um exame, de um estudo, sem deixar entretanto de ser mistério”, como escreve Vernant na página 63, o Sábio é o contradito; e a filosofia, a ambiguidade.
Tínhamos escrito que peithó (força da persuasão), que não havia na sociedade micênica, palaciana ou despótica, manifesta-se em ágora (espaço público), porque a palavra sacralizada do sacerdote ou do rei divino cederá aos poucos - não por completo - à palavra dessacralizada, à opinião (doxa), que se manifesta na sociedade jurídico-política ou democrática. Como sabemos, no espaço público, todos igualam-se por causa de a palavra ser doxa e, dessa forma, ela é instável, irregular, sinuosa, impura, falha, desordem. Entre o público e o privado, entre a exposição e o segredo, o Sábio é a contradição. No entanto, para que a ideia de iguais (isois) prevaleça na Grécia, os séculos VII e VI serão determinantes, ou seja, aproximadamente cem anos antes da sociedade jurídico-política (século V), germina-se o valor de isonomia não pela força da persuasão (peithó), mas pela força do medo (phóbos).
Lacônico no lugar de diálogo. De Lacedemônia, também dita Lacônia, vem o adjetivo “lacônico” (breve, conciso, sucinto), isto é, oposto ao que busca persuadir, ao que busca a doxa, lacônico é aquele que fala pouco. É possível alguém falar muito diante do medo? No máximo, “o que é isso!?!?”. Depois, o silêncio, ou melhor, o silêncio da obediência.
Em Lacônia, nascem os lacedemônios ou os espartanos. Por meio deles, a noção de iguais forja-se naqueles que estão armados, os hoplitas, só que de forma diferente da aristocracia dos hippeis. Destes, surgiu o herói, o indivíduo separado do todo, porque o que contava era somente a sua façanha, o seu ato em si. Sua superioridade pertencia a ele, à unidade sem o conjunto; e daqueles, o indivíduo obediente a uma disciplina comum por causa de uma forma nova de lutar – a forma de falange. Nessa formação, os guerreiros não possuem lugar fixo, havendo, então, o deslocamento constante de posição. Não há hierarquia, mas a inconstância ou o movimento de ocupar várias posições na falange diante do inimigo. Todos, pois, igualam-se. O conjunto da falange, embora cada unidade não seja fixa, cada guerreiro, para manter o conjunto da ação, não pode ultrapassar seu limite. O conjunto depende da obediência de cada um para que a inconstância das posições seja assegurada. Nessa forma de guerrear, não importa o valor individual, prevalecendo assim a lei do grupo, do todo, do conjunto, da falange. Cada parte é igual à outra, havendo, dessa forma, equilíbrio. Cada homem da falange limita-se a essa lei, e esse temor impõe que todo soldado-cidadão curve-se à obediência.
Do livro
“As Origens do Pensamento Grego”, de
Jean-Pierre Vernant
Capítulo
IV: O Universo Espiritual da Polis
Resumo
subjetivo de Aldo Antônio Tavares do Nascimento
Entre
os séculos VIII e VII, emerge na Grécia uma invenção que tomará nova forma: a palavra.
Segundo Jean-Pierre Vernant, “torna-se instrumento político por excelência”. Por
meio dela, domina-se; exerce-se comando sobre o outro pela força da persuasão (peithó). As relações entre os indivíduos, as relações sociais, não serão,
portanto, as mesmas quando nos séculos V e IV essa invenção chega a seu auge.
Oposta à palavra do rei divino – refiro-me ao período da civilização palaciana ou da sociedade despótica -, a palavra na polis, sem o propósito de ser absoluta, possui a marca do discordante, da instabilidade, da irregularidade, ou seja, ela se encontra agora na arena do debate contraditório, em ágora. Na pólis, porque se apresenta dessacralizada a serviço da arte oratória, a palavra é discussão diante do público.
Todas as questões de interesse público deverão ser solucionadas pelos discursos entre oponentes, sendo o logos, na forma de retórica, que regula essas argumentações.
Assim, na sociedade jurídico-política ou na sociedade democrática, não há mais espaço para a palavra privada, segredada conforme o sagrado, mas tão somente para o espaço público. Isso significa que, por ser emitida aos olhos de todos, perdendo, portanto, sua função sagrada, a palavra, agora no espaço aberto, no espaço de ágora, perde sua hierarquia para se tornar comum ou democrática.
No lugar do verbo do sacerdote ou do monarca, a autoridade da lei determina que a palavra deverá ser igual para todos, da mesma maneira, sem distinção. Acima de todos, a universalidade comum da Lei, devendo, por todos, ser aceita e reconhecida.
Vindo o termo “sagrado” do verbo “separar”, a palavra na sociedade democrática, uma vez dessacralizada, não se põe à parte do que é comum a todos, não mais permanecendo preservada, guardada ou afastada do que é comum ao “poder do povo” (democracia). Assim, rompida a distância entre o sagrado e o ordinário, entre o divino e os mortais, entre o sacerdote e os fiéis e entre o rei e os súditos, o diálogo entre iguais nega a hierarquia da sociedade despótica. A fala instável dos homens em ágora, também fala enganosa, nega a fala estável do sacerdote no templo e a do monarca no palácio. A palavra torna-se isto: política, ou seja: ela deve ser comum a todos na cidade. Por ser pública, por ser política, ela, a palavra, é doxa.
Isso, entretanto, não significa a sua existência absoluta. Única. Quero afirmar que a palavra do longo período da civilização palaciana não chegou a seu fim. Ela não morreu. “O processo de divulgação faz-se por etapas”, afirma Vernant. Mesmo no plano político, o poder trilha caminhos misteriosos, secretos, sobrenaturais. Embora a Grécia encontre-se no período clássico, relações sociais na polis ainda mantêm o hábito de separar o privado do público. Por causa das necessidades humanas, o sagrado resiste, porque o público, por sua natureza universal, geral, aberta, instável, irregular, promove o distante das vicissitudes da arché ou das origens humanas. O íntimo não só pertence aos homens, mas ele é o humano.
Com efeito, paralelo ao espaço de ágora, seitas, cultos, confrarias, mistérios, enfim, grupos hierarquizados guardam a palavra que doxa não pode sequer ver ou ouvir. Mantido o secreto, escreve Vernant que “uma minoria de eleitos se beneficiará com privilégios inacessíveis ao comum”.
Para esses iniciados, a transformação só pode ser “espiritual”, não podendo caber a ela a dimensão política, porque os eleitos, os epoptas, são puros, santos: “sagrados” – estão “separados” do que é comum à cidade. Todavia, sem restrição de nascimento, sem restrição de classe, a todos que desejam conhecer a iniciação, o mistério oferece aos membros de uma seita a promessa da imortalidade bem aventurada, que era na origem concebido somente ao rei. A palavra sacralizada é publicidade entre eles, aos que pertencem a uma seita, e não mais a uma família. Sua democracia não chega ao espaço aberto de ágora, permanecendo a palavra, portanto, ao círculo da seita, da confraria.
Em ágora, como foi escrito, a palavra é irregularidade. Ora, por não ser reta, por não ser linear, a palavra em ágora é curvilínea, sinuosa, tortuosa, confusa; ela mistura pontos que não estão em uma única ou fixa direção. Posso afirmar com isso que ela está em “desordem”. Entregue, portanto, à mistura, a palavra em ágora tem a marca da impureza. Na condição de instável, a palavra é acessível a todos em ágora, mas o Sábio, quando transmite a verdade à polis, não pode reduzir a palavra somente ao ordinário, ao (des)cobrir o que se encontra sob a aparência. A palavra do Sábio não pode ser “desordem”. Dessa forma, em ágora, ele “entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte”, observa Jean-Pierre Vernant. Para que a palavra seja a revelação da verdade, para que a palavra seja reta, pura, estável, o Sábio buscará “um conjunto de práticas e de disciplinas caracterizadas pela austeridade e pelo autocontrole do corpo e do espírito, que acompanham e que fortalecem a especulação teórica em busca da verdade”. Ele seguirá o caminho de ascese, o caminho da “pureza”. Se ele “leva o mistério para a praça pública; faz dele o objeto de um exame, de um estudo, sem deixar entretanto de ser mistério”, como escreve Vernant na página 63, o Sábio é o contradito; e a filosofia, a ambiguidade.
Tínhamos escrito que peithó (força da persuasão), que não havia na sociedade micênica, palaciana ou despótica, manifesta-se em ágora (espaço público), porque a palavra sacralizada do sacerdote ou do rei divino cederá aos poucos - não por completo - à palavra dessacralizada, à opinião (doxa), que se manifesta na sociedade jurídico-política ou democrática. Como sabemos, no espaço público, todos igualam-se por causa de a palavra ser doxa e, dessa forma, ela é instável, irregular, sinuosa, impura, falha, desordem. Entre o público e o privado, entre a exposição e o segredo, o Sábio é a contradição. No entanto, para que a ideia de iguais (isois) prevaleça na Grécia, os séculos VII e VI serão determinantes, ou seja, aproximadamente cem anos antes da sociedade jurídico-política (século V), germina-se o valor de isonomia não pela força da persuasão (peithó), mas pela força do medo (phóbos).
Lacônico no lugar de diálogo. De Lacedemônia, também dita Lacônia, vem o adjetivo “lacônico” (breve, conciso, sucinto), isto é, oposto ao que busca persuadir, ao que busca a doxa, lacônico é aquele que fala pouco. É possível alguém falar muito diante do medo? No máximo, “o que é isso!?!?”. Depois, o silêncio, ou melhor, o silêncio da obediência.
Em Lacônia, nascem os lacedemônios ou os espartanos. Por meio deles, a noção de iguais forja-se naqueles que estão armados, os hoplitas, só que de forma diferente da aristocracia dos hippeis. Destes, surgiu o herói, o indivíduo separado do todo, porque o que contava era somente a sua façanha, o seu ato em si. Sua superioridade pertencia a ele, à unidade sem o conjunto; e daqueles, o indivíduo obediente a uma disciplina comum por causa de uma forma nova de lutar – a forma de falange. Nessa formação, os guerreiros não possuem lugar fixo, havendo, então, o deslocamento constante de posição. Não há hierarquia, mas a inconstância ou o movimento de ocupar várias posições na falange diante do inimigo. Todos, pois, igualam-se. O conjunto da falange, embora cada unidade não seja fixa, cada guerreiro, para manter o conjunto da ação, não pode ultrapassar seu limite. O conjunto depende da obediência de cada um para que a inconstância das posições seja assegurada. Nessa forma de guerrear, não importa o valor individual, prevalecendo assim a lei do grupo, do todo, do conjunto, da falange. Cada parte é igual à outra, havendo, dessa forma, equilíbrio. Cada homem da falange limita-se a essa lei, e esse temor impõe que todo soldado-cidadão curve-se à obediência.
Por
causa dessa forma de lutar, a palavra, segundo aqueles nascidos em Esparta, não
tem a necessidade de ser argumentação, discussão, diálogo, enganosa, política,
contraditória, errante, mas sentenciosa, definitiva e lacônica. Escreve Vernant
na página 72: “É na prática dos combates mais que nas controvérsias de ágora que os hómoioi se exercitam.”
quarta-feira, março 13, 2013
Refaça sua redação
Um ex-aluno pediu para eu analisar sua redação. Vejamo-la.
As conseqüências do aquecimento global
O aquecimento global é um dos grandes problemas do mundo que vem prejudicando a humanidade, pois vem se agravando a cada ano, tornando o clima muito mais abafado e quente, suas causas são sempre devido a queimadas, poluições, desmatamentos e diversos outros fatores que vem contribuindo para o seu aumento.
1.Não há sequer um ponto contínuo, e, nesse caso, o texto ficou confuso;
2. Muito comum colocar o verbo "ser" na primeira frase. O aluno precisa usar dicionário em sala de aula para encontrar, com ajuda do professor, o verbo mais adequado;
3. Como exercícios, substitua o verbo "ser" e coloque um ou mais ponto contínuo.
3. Como exercícios, substitua o verbo "ser" e coloque um ou mais ponto contínuo.
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