Entre nós, o estrangeiro
Em 1941, Stefan Zweig publica Brasil, um país do futuro, cinco anos
após a publicação de Raízes do Brasil.
Se o suíço leu a obra do brasileiro, não posso afirmar por não ter lido nenhuma
referência bibliográfica sobre tal encontro. Na parte “Um Olhar sobre a Cultura
Brasileira”, Zweig adjetiva o brasileiro como “um tipo quieto, sonhador e
sentimental”. Somos cordiais a ponto
de causar espanto ao estrangeiro, porque, segundo ele, trata-se de uma forma há
muito tempo esquecida pelo europeu (2006, p. 130). Na condição de quem vem “de
fora”, Stefan Zweig foi afetado por essa cordialidade ao registrar em seu livro
que, em todos os meses que passou aqui, jamais viu uma grosseria. Mais: o
estrangeiro é um hóspede bem-vindo e quase um amigo. Deve ser observado que o
autor escreveu sob o período político do presidente Getúlio Vargas, o pai dos
pobres.
A cordialidade
Assim, no livro de Stefan Zweig, não
há, entre o europeu e o nativo, distância, separação, não existe o estranhamento. O estrangeiro não é o estranho.
Porquanto não há esse estranhamento, Stefan Zweig é bem-vindo, quer dizer, familiarizou-se.
Como escreveu em Raízes do Brasil, a
familiaridade ou a cordialidade foi “a que mais exprimiu com mais força e
desenvolvimento em nossa sociedade” (1992, p. 106). Entendamos, entretanto, que
ser cordial, segundo Fernando Henrique Cardoso em seu artigo Livros que Inventaram o Brasil, não significa
ser “afável”, mas “uma maneira de reter vantagens individuais” (1993, p. 29).
Antes
de Sérgio Buarque ter publicado sua obra em 1936, Gilberto Freyre apresentara Casa-Grande e Senzala três anos antes, em
1933. No sentido de íntimo, a cordialidade já penetrara em suas páginas: patriarca
da casa-grande e proprietário da senzala, o senhor-de-engenho despe-se para,
entre as coxas negras de sua escrava, procriar bastardos. Ao mesmo tempo em que
a negra é mercadoria para ser comprada em espaços impessoais (mercado, praça
pública), onde o patriarca branco e cristão sustenta a imagem da polidez, da
formalidade, o sexo de sua escrava excita e relaxa hierarquias, deprava o
senhor, colocando a ordem social cristã do avesso. Na intimidade, com toda sua
polidez (des)coberta, desalinhada, desarrumada, o escravagista perde as boas
maneiras da civilidade. Esse mesmo senhor, cujas raízes do engenho são
profundas e absolutas, é o mesmo que ocupa os espaços políticos, legislando ou
executando leis. No engenho, núcleo de numerosa família de parentes, de
agregados e de escravos, o patriarca a tudo senhoreava, a ponto de confundir o
privado com o público (VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas, 1997, p. 223).
Que causa histórica desdobrou-se no
conceito de “cordialidade”? Como “toda a estrutura de nossa sociedade colonial
teve sua base fora dos meios urbanos” (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do
Brasil, 1992, p.41), pergunta-se: qual base ainda sustenta essa estrutura? Resposta:
as raízes rurais. Por causa da concentração de terra nas mãos de tão poucos, o
senhor-de-engenho adquiriu um poder absoluto, e seu engenho bastou-se a si
mesmo, chegando haver nele capela onde se rezavam as missas, além de ser provido
de todo o necessário. Seu poder amplia-se ainda mais por ser o engenho, esse
domínio rural, espaço onde o poder patriarcal é ambíguo por “miscigenar” o
corpo privado com o corpo público. Usando um conceito de Oliveira Viana, o
engenho é um clã pelas graças cristãs
das relações familiares que pulsam nele. Por meio dessa relação, os partidos
políticos serão nada além do que consequência natural dos clãs eleitorais, que
ocupam os cargos públicos do país e “plantam” nas instituições a mentalidade do
mundo rural.
Getúlio Vargas
Em A Construção da Sociedade do Trabalho no
Brasil, de Adalberto Cardoso, a mentalidade rural se transfere para “o
Estado antissocial”, onde proprietários de terra (oligarquias estaduais que
criam leis) olham para suas negras e para seus filhos bastardos como inimigos
na República Velha. O poder é ambíguo. Com a República Nova, a nação agora tem um
líder político familiar, cordial, carinhosamente chamado de “o pai dos
pobres”: Getúlio Vargas. Em 1º de Maio de 1941, no estádio do Vasco da Gama, o
presidente discursa em defesa da fixação do homem no campo; sem falar, porém,
de uma reforma agrária (ADALBERTO. 2010, p. 212). Como pai, como imagem que protege
e emociona multidões com seu discurso acolhedor e protetor, Vargas, esse homem carismático,
não busca conflito social em uma nação onde 70% de brasileiros vivem no campo e
menos de 3% deles é proprietário de terra. Como escreveu Stefan Zweig, “não
está na natureza do brasileiro [...] entrar em confronto” (2006, p. 132).
O Partido Família e Lula, o nordestino cordial
Por causa de seu discurso antipático
ao imaginário cordial brasileiro, o PT, nas últimas campanhas eleitorais de
Lula, alterou sua imagem de antipático, porque, uma vez no poder, acreditava-se
que a desordem social e econômica seria o nosso destino. O PT raivoso cede
lugar então ao “Lulinha paz e amor” ou, se quiser, ao PT cordial. Mas não
tardou a ambiguidade. Prometendo fazer as reformas estruturais necessárias à
nação, o PT de hoje, no entanto, nunca mais falou em taxar os ricos. A outra
face da cordialidade “paz e amor” comprovou-se no primeiro mandato do presidente
Luís Inácio Lula da Silva, e frei Betto registra em 14 de agosto de 2003, em Calendário do Poder, seu desalento com o
governo. “Não é o que eu esperava ou sonhava” (2007, p. 173). Ao longo do
livro, fica claro que Lula não veio para promover transformações estruturais
por causa de isso implicar rupturas. Em 18 de agosto de 2003, numa
segunda-feira, frei Betto escreve que “sempre que há uma discussão, Lula
prefere a conciliação” (2007, p. 174). A reforma agrária não surge. O Fome Zero
fracassa. Consequências do “paz e amor” da cordialidade.
Como se isso ainda não fosse o
bastante, o Legislativo, conforme matéria publicada no jornal O Globo, em 9 de
junho de 2013, é “Partido da Família S/A – com verba pública do fundo
partidário, políticos empregam parentes em legendas”. No texto do jornalista
Chico de Gois, aparece o termo “clã”, por exemplo, no PMDB, no PSDB, no Partido
Trabalhista Cristão (PTC, que já foi Partido da Juventude), no Partido da
Reconstrução Nacional (PRN), no Partido Renovador Trabalhista Brasileiro
(PRTB), no Partido da Pátria Livre (PPL), no Partido Trabalhista Nacional (PTN),
no Partido Republicano Progressista (PRP), no Partido Trabalhista do Brasil (PT
do B).
O
clã familiar cria o partido a fim de que parentes ocupem cargos na direção. O
contribuinte, por meio do fundo partidário (cerca de R$ 300 milhões ao todo),
paga muito bem a tios, a esposas, a primos, a pais, a cônjuges. José Levy
Fidélix da Silva, do PRTB, é muito dedicado à família, empregando-a toda à
custa do erário. Daniel Tourinho, presidente do PTC, empregou pai, dois filhos
e duas irmãs. Tourinho recebe R$ 4.486 como verba de representação, além de
mais de R$ 12 mil mensais, a título de “serviço técnico profissional”. Além do
fundo, Tourinho, quando candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro em
2010, destinou maior quantia para a sua campanha: R$ 427 mil.
Nas
eleições de 2002, Lula falou de uma reforma política que levasse em conta a
fidelidade partidária e o fim das legendas de aluguel. Toma posse em 2003. Faz
10 anos. As leituras de Oliveira Viana (clã), de Sérgio Buarque de Holanda
(cordial) e de Adalberto Cardoso (antissocial) são atualíssimas.