segunda-feira, junho 17, 2013

Desenvilvimento e educação

ENTREVISTA DA 2ª ALEXANDRE RANDS
Educação explica 100% da desigualdade de renda
Economista diz que país erra ao não priorizar educação e que investimento atual mantém diferenças regionais
ÉRICA FRAGADE SÃO PAULO
"Estamos gastando muito ainda com políticas que não são adequadas, com financiamentos para investimento de empresa, subsidiando crédito, o que não é necessário. Você não tem política para mudança agressiva de desequilíbrios regionais.

"Como gastos em educação têm escala, quando você gasta menos nas regiões mais pobres, tem um impacto menor. Quando termina a escola no Nordeste, o aluno sai com a capacidade não muito superior a 50% da capacidade do estudante do Sudeste. Talvez pior do que isso.

Atrasos educacionais explicam 100% das desigualdades de renda entre diferentes regiões do Brasil.
A conclusão é do economista Alexandre Rands, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, que tem uma vasta produção acadêmica sobre esse tema.

Seu diagnóstico, se correto, significa que o país investe em políticas equivocadas há décadas.
Segundo Rands, foi o caso de incentivos para o desenvolvimento da indústria de regiões mais pobres e continua sendo o caso de subsídios públicos a setores empresariais específicos.

Ele argumenta que no mercado de capital físico o investimento funciona de forma razoavelmente eficiente.

O mesmo não vale para o setor de capital humano. "Famílias em que os pais têm maior capital humano tendem a ter mais recursos para investir na educação dos filhos", afirma.
Por isso, as desigualdades educacionais tendem a se perpetuar se não houver interferência do governo.

Apesar de melhoras, com políticas que tentam compensar a baixa capacidade de investimento das regiões mais pobres, os avanços do Brasil nessa área têm sido insuficientes, diz Rands.
-
Folha - De onde vêm as desigualdades regionais?
Alexandre Rands - Existem teorias diferentes. O meu entendimento hoje, com base nos estudos que tenho visto para alguns países, como os EUA, e nos meus próprios estudos para o Brasil, é que é possível explicar 100% das desigualdades só pelas diferenças em capital humano. Se você corrigir o nível médio de instrução da região Nordeste em relação à região Sudeste, você corrigirá a desigualdade entre essas regiões.
Mas a desigualdade de renda caiu no país, certo?
Você vê uma certa melhora da participação do Nordeste. Nossa estimativa é que hoje o PIB (Produto Interno Bruto) per capita do Nordeste deve estar perto de 50% da média nacional. Há cinco anos, era 45%. Então, melhorou, mas a desigualdade ainda é muito elevada.
A remuneração por mão de obra qualificada continua sendo muito alta no país. Portanto, as regiões em que há gente com menos qualificação continuam com renda per capita muito mais baixa.
Investimentos em educação seriam a solução para reduzir a desigualdade?
Sim, essas são as políticas fundamentais para você eliminar as desigualdades regionais. Você precisa mudar o nível médio de educação --considerando qualidade e quantidade da educação-- nos municípios.
Então o Brasil passou décadas indo na direção errada, investindo, por exemplo, em políticas de industrialização e desenvolvimento regional?
Totalmente errada, porque partimos dos pressupostos equivocados. Colocando de forma bem simples, há na economia quatro fatores de produção: capital físico, capital humano, trabalho e recursos naturais.
Toda a nossa política supôs que os mercados para capital humano, trabalho e recursos naturais funcionavam razoavelmente bem e que o problema estava no mercado para capital físico.
Então, você teria que subsidiar o capital físico nas regiões mais pobres para poder aumentar sua rentabilidade e atrair mais investimentos. Essa é a base da tese de Celso Furtado, na qual se baseou a política regional brasileira.
Se eu estiver certo, essa lógica está equivocada. Os mercados para capital físico, trabalho e recursos naturais funcionam razoavelmente bem. O que não funciona é o capital humano. É aí que precisamos ter investimentos públicos. Se tivéssemos feito isso na década de 60, hoje teríamos um país altamente equilibrado regionalmente.
Continuamos com as políticas erradas atualmente?
Estamos longe ainda. Estamos gastando muito ainda com políticas que não são adequadas, com financiamentos para investimento de empresa, subsidiando crédito, o que não é necessário.
E hoje a nossa principal política para combater a desigualdade é por meio de transferência de renda para os mais pobres, o Bolsa Família. Este é um programa que tem mesmo de existir, mas você não tem uma política para mudança agressiva dos desequilíbrios regionais.
Os gastos com educação nas regiões mais pobres ainda são muito inferiores aos no Sudeste. Ou seja, ainda estamos reproduzindo as desigualdades regionais.
Mas o Brasil está corrigindo as desigualdades?
O que a gente corrige hoje é praticamente nada. Como os gastos em educação têm escala, quando gasta menos nas regiões mais pobres, você tem um impacto menor.
Quando termina a escola no Nordeste, o aluno sai com capacidade não muito superior a 50% da capacidade do estudante do Sudeste. Talvez até pior do que isso.
Como as escolas aqui [no Nordeste] são muito ruins, então a qualidade do aluno que sai é muito ruim.
A existência de desigualdade de renda em um país é necessariamente ruim?
A desigualdade de oportunidades entre indivíduos é problemática. É o caso de indivíduos que, por seus atributos pessoais, teriam condição de prosperar muito e não o fazem por falta de oportunidades.
Aí, há desperdício de potenciais talentos no país.
Agora, a desigualdade de renda que ocorre depois de você ter dado oportunidade igual aos indivíduos não é prejudicial.
Que países são exemplos de cada caso?
Nos EUA, boa parte da população branca tem nível de oportunidade de se aprimorar e de chegar no mercado com potencial de renda alta semelhante ao que ocorre na Suécia, por exemplo.
Só que o mercado de trabalho na Suécia equaliza rendas, tem sistema de impostos e possibilidades de carreira nas empresas que travam muito a geração de desigualdade a partir daí.
Nos EUA, isso não ocorre. A economia americana promove a remuneração por trabalho adicional. É um mercado mais livre. Essa desigualdade americana é favorável a partir desse ponto.
Por que é favorável?
Porque leva a um maior esforço por parte das pessoas. Mas essa característica dos EUA só vale para os brancos. Se você considerar os negros e os latinos, até os 20 anos, você já gerou uma desigualdade brutal, que na Suécia não existe.
Essa desigualdade até os 20 anos é ruim porque desperdiça muito talento potencial, prejudicando o crescimento da economia.
Em qual desses contextos, a desigualdade brasileira se encaixa?
O Brasil tem muita desigualdade, maior do que a americana até os 20 anos, de qualificação. E, depois dos 20 anos, temos uma economia razoavelmente livre, semelhante à americana.
Investimentos em educação tiveram papel crucial na Coreia do Sul, onde a renda per capita deu um salto?
Lá mais do que tudo foi capital humano. Há mais estudantes na Coreia do Sul indo para a universidade do que nos EUA. A Coreia chegou a ter uma situação que não ocorreu nem nos EUA, em que escolas públicas são melhores do que as privadas.

    sábado, junho 15, 2013

    Brasil 0 x Japão 3

    No placar social, o Japão meteu 3 a 0 no Brasil.

    1 x 0
    País todo alfabetizado.

    2 x 0
    Menos corrupto.

    3 x 0
    Educação bem melhor. 

    segunda-feira, junho 10, 2013

    Um texto para a política acriana


    Entre nós, o estrangeiro
                Em 1941, Stefan Zweig publica Brasil, um país do futuro, cinco anos após a publicação de Raízes do Brasil. Se o suíço leu a obra do brasileiro, não posso afirmar por não ter lido nenhuma referência bibliográfica sobre tal encontro. Na parte “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, Zweig adjetiva o brasileiro como “um tipo quieto, sonhador e sentimental”. Somos cordiais a ponto de causar espanto ao estrangeiro, porque, segundo ele, trata-se de uma forma há muito tempo esquecida pelo europeu (2006, p. 130). Na condição de quem vem “de fora”, Stefan Zweig foi afetado por essa cordialidade ao registrar em seu livro que, em todos os meses que passou aqui, jamais viu uma grosseria. Mais: o estrangeiro é um hóspede bem-vindo e quase um amigo. Deve ser observado que o autor escreveu sob o período político do presidente Getúlio Vargas, o pai dos pobres.
                
    A cordialidade

                 Assim, no livro de Stefan Zweig, não há, entre o europeu e o nativo, distância, separação, não existe o estranhamento. O estrangeiro não é o estranho. Porquanto não há esse estranhamento, Stefan Zweig é bem-vindo, quer dizer, familiarizou-se. Como escreveu em Raízes do Brasil, a familiaridade ou a cordialidade foi “a que mais exprimiu com mais força e desenvolvimento em nossa sociedade” (1992, p. 106). Entendamos, entretanto, que ser cordial, segundo Fernando Henrique Cardoso em seu artigo Livros que Inventaram o Brasil, não significa ser “afável”, mas “uma maneira de reter vantagens individuais” (1993, p. 29).

                Antes de Sérgio Buarque ter publicado sua obra em 1936, Gilberto Freyre apresentara Casa-Grande e Senzala três anos antes, em 1933. No sentido de íntimo, a cordialidade já penetrara em suas páginas: patriarca da casa-grande e proprietário da senzala, o senhor-de-engenho despe-se para, entre as coxas negras de sua escrava, procriar bastardos. Ao mesmo tempo em que a negra é mercadoria para ser comprada em espaços impessoais (mercado, praça pública), onde o patriarca branco e cristão sustenta a imagem da polidez, da formalidade, o sexo de sua escrava excita e relaxa hierarquias, deprava o senhor, colocando a ordem social cristã do avesso. Na intimidade, com toda sua polidez (des)coberta, desalinhada, desarrumada, o escravagista perde as boas maneiras da civilidade. Esse mesmo senhor, cujas raízes do engenho são profundas e absolutas, é o mesmo que ocupa os espaços políticos, legislando ou executando leis. No engenho, núcleo de numerosa família de parentes, de agregados e de escravos, o patriarca a tudo senhoreava, a ponto de confundir o privado com o público (VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas, 1997, p. 223). 

                
    Que causa histórica desdobrou-se no conceito de “cordialidade”? Como “toda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos” (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, 1992, p.41), pergunta-se: qual base ainda sustenta essa estrutura? Resposta: as raízes rurais. Por causa da concentração de terra nas mãos de tão poucos, o senhor-de-engenho adquiriu um poder absoluto, e seu engenho bastou-se a si mesmo, chegando haver nele capela onde se rezavam as missas, além de ser provido de todo o necessário. Seu poder amplia-se ainda mais por ser o engenho, esse domínio rural, espaço onde o poder patriarcal é ambíguo por “miscigenar” o corpo privado com o corpo público. Usando um conceito de Oliveira Viana, o engenho é um clã pelas graças cristãs das relações familiares que pulsam nele. Por meio dessa relação, os partidos políticos serão nada além do que consequência natural dos clãs eleitorais, que ocupam os cargos públicos do país e “plantam” nas instituições a mentalidade do mundo rural.

    Getúlio Vargas            

               Em A Construção da Sociedade do Trabalho no Brasil, de Adalberto Cardoso, a mentalidade rural se transfere para “o Estado antissocial”, onde proprietários de terra (oligarquias estaduais que criam leis) olham para suas negras e para seus filhos bastardos como inimigos na República Velha. O poder é ambíguo. Com a República Nova, a nação agora tem um líder político familiar, cordial, carinhosamente chamado de “o pai dos pobres”: Getúlio Vargas. Em 1º de Maio de 1941, no estádio do Vasco da Gama, o presidente discursa em defesa da fixação do homem no campo; sem falar, porém, de uma reforma agrária (ADALBERTO. 2010, p. 212). Como pai, como imagem que protege e emociona multidões com seu discurso acolhedor e protetor, Vargas, esse homem carismático, não busca conflito social em uma nação onde 70% de brasileiros vivem no campo e menos de 3% deles é proprietário de terra. Como escreveu Stefan Zweig, “não está na natureza do brasileiro [...] entrar em confronto” (2006, p. 132).   

    O Partido Família e Lula, o nordestino cordial

                
    Por causa de seu discurso antipático ao imaginário cordial brasileiro, o PT, nas últimas campanhas eleitorais de Lula, alterou sua imagem de antipático, porque, uma vez no poder, acreditava-se que a desordem social e econômica seria o nosso destino. O PT raivoso cede lugar então ao “Lulinha paz e amor” ou, se quiser, ao PT cordial. Mas não tardou a ambiguidade. Prometendo fazer as reformas estruturais necessárias à nação, o PT de hoje, no entanto, nunca mais falou em taxar os ricos. A outra face da cordialidade “paz e amor” comprovou-se no primeiro mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, e frei Betto registra em 14 de agosto de 2003, em Calendário do Poder, seu desalento com o governo. “Não é o que eu esperava ou sonhava” (2007, p. 173). Ao longo do livro, fica claro que Lula não veio para promover transformações estruturais por causa de isso implicar rupturas. Em 18 de agosto de 2003, numa segunda-feira, frei Betto escreve que “sempre que há uma discussão, Lula prefere a conciliação” (2007, p. 174). A reforma agrária não surge. O Fome Zero fracassa. Consequências do “paz e amor” da cordialidade.    
               
               Como se isso ainda não fosse o bastante, o Legislativo, conforme matéria publicada no jornal O Globo, em 9 de junho de 2013, é “Partido da Família S/A – com verba pública do fundo partidário, políticos empregam parentes em legendas”. No texto do jornalista Chico de Gois, aparece o termo “clã”, por exemplo, no PMDB, no PSDB, no Partido Trabalhista Cristão (PTC, que já foi Partido da Juventude), no Partido da Reconstrução Nacional (PRN), no Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), no Partido da Pátria Livre (PPL), no Partido Trabalhista Nacional (PTN), no Partido Republicano Progressista (PRP), no Partido Trabalhista do Brasil (PT do B).
                
                 O clã familiar cria o partido a fim de que parentes ocupem cargos na direção. O contribuinte, por meio do fundo partidário (cerca de R$ 300 milhões ao todo), paga muito bem a tios, a esposas, a primos, a pais, a cônjuges. José Levy Fidélix da Silva, do PRTB, é muito dedicado à família, empregando-a toda à custa do erário. Daniel Tourinho, presidente do PTC, empregou pai, dois filhos e duas irmãs. Tourinho recebe R$ 4.486 como verba de representação, além de mais de R$ 12 mil mensais, a título de “serviço técnico profissional”. Além do fundo, Tourinho, quando candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010, destinou maior quantia para a sua campanha: R$ 427 mil.

               Nas eleições de 2002, Lula falou de uma reforma política que levasse em conta a fidelidade partidária e o fim das legendas de aluguel. Toma posse em 2003. Faz 10 anos. As leituras de Oliveira Viana (clã), de Sérgio Buarque de Holanda (cordial) e de Adalberto Cardoso (antissocial) são atualíssimas.

    Paulo Leminski



    1

    lua limpa
    à beira do abismo
    todas as coisas são simples.

    2

    o que o amanhã não sabe,
    o ontem não soube.
    nada que não seja o hoje
    jamais houve.

    domingo, junho 02, 2013

    Não me acostumo

    Há 8 meses no Rio de Janeiro, após 20 anos no Acre, meu organismo ainda não se habituou ao corpo social desta cidade do Cristo Redontor.


    Sempre desembarco na estação Carioca antes de caminhar para a faculdade. As aulas começam às 12h50, mas chego ao centro do Rio duas horas antes às segundas, quartas e sextas para apreciar livros das livrarias Leonardo Da Vinci e Travessa.

    São lugares semelhantes a igrejas católicas por causa desta palavra: silêncio. Sento-me e leio algumas páginas. 

    Há três meses, por causa de uma dessas leituras, a consequência foi comprar "A Construção da Sociedade do Trabalho no Brasil", de Adalberto Cardoso.

    Para meus olhos, a única diferença entre Rio de Janeiro e Acre é cultural, ou seja, muitas livrarias, muitos cinemas e muitos teatros. E só suporto este tumulto de um grande centro por causa disto: cultura.

    Se no Acre houvesse tantos e tantos bons filmes, tantos e tantos bons teatros, tantas e tantas boas livrarias...

    O Acre me deu tranquilidade, por isso não tenho me acostumado ao Rio depois de 8 meses.

    quinta-feira, maio 30, 2013

    O Acre desconhece a cultura do Riso

    Palhaço russo trata da vida, da morte e da beleza do universo sem dizer nada

    GRACILIANO ROCHA
    DE CRECY-LA-CHAPELLE, FRANÇA

    Ao encontrar o russo Slava Polunin, 62, convém esquecer o palhaço de circo tradicional, aquele cujo número costumava ser apenas um entreato, enquanto o picadeiro era preparado para as atrações principais.

    Quando maquiado, seu personagem, Yellow, já visto em ação por mais de 5 milhões de espectadores em 30 países, também usa o nariz vermelho e busca fazer rir. Mas as semelhanças acabam aí.

    O espetáculo "Slava's SnowShow", que chega ao Brasil para apresentações em Belo Horizonte (29 e 30 de junho), Rio (4 a 7 de julho) e São Paulo (11 a 14 de julho), é inteiramente não verbal. Trata da vida, da morte e da beleza do universo sem dizer uma palavra.

    Slava's Snowshow

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    Silvia Zamboni/Folhapress
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    O espetáculo "Slava's SnowShow" é inteiramente não-verbal
    Usando mímicas e efeitos especiais, Slava faz rir ao reproduzir a saga de um homem atravessando uma grande nevasca. E a plateia termina o show com as roupas e os cabelos impregnados de neve cenográfica, feita de papel picado.

    "O riso comporta muitas possibilidades: não é só uma resposta fisiológica a uma piada mas também uma reação filosófica à própria alegria da vida", diz Slava durante uma conversa em sua casa, em Crécy-la-Chapelle, a 42 quilômetros de Paris.

    "O riso é uma coisa muito democrática porque funciona tanto com uma criança quanto com um professor, independentemente de quem seja ou da condição social que tenha."
    Slava é um leitor voraz de filosofia e literatura, além de um grande estudioso do teatro. Obstinado, viaja sete meses por ano apresentando seu show.

    Nascido em 1950, em Novosil, uma cidadezinha do oeste da Rússia, Slava (diminutivo para Vyacheslav) era filho do administrador de uma estatal agrícola soviética e de uma dona de casa. Charles Chaplin foi sua primeira obsessão, quando ainda era criança.

    "Quando vi 'O Garoto' na TV, decidi que queria fazer alguma coisa como aquilo na vida", conta.
    No auge da Guerra Fria, quando cumpria o serviço militar de dois anos no Exército Vermelho, o então recruta leu metodicamente uma lista de cem obras de autores importantes da literatura russa.

    Dostoiévski (1821-1881), autor de "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamazovi", era o favorito.
    Na juventude, Slava decidiu estudar para ser ator. Mas foi rejeitado pelo Instituto de Teatro de Leningrado (atual São Petersburgo). O argumento: sua voz não era adequada para os palcos.
    Decidiu que estudaria por conta própria, lendo textos teóricos e peças de autores russos.

    O palhaço que veio do frio

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    Mastrangelo Reino
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    Slava Polunin e sua casa em Crécy-la-Chapelle: entre as maluquices estão camas flutuantes e obras dos grafiteiros Os Gêmeos
    Subiu ao palco pela primeira vez aos 18 anos, para representar uma pantomima chamada "Litsedei", a palavra russa que significa "mímico". Se a voz era um problema, a força de vontade era uma solução.
    E, em seu herói da infância, Chaplin, viu um caminho, que acabou por definir sua carreira: "Imagens e movimento são muito mais poderosos do que as palavras porque se conectam diretamente com a intuição humana", prega.

    Mais tarde, ideias de dois teóricos do teatro do século 20, o francês Antonin Artaud (1896-1948) e o polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), que discorriam sobre a espontaneidade dos atores, o inspiraram a levar elementos de sua própria vida ao palco.
    A neve falsa do "SnowShow" ecoa a infância na fria Novosil. "Saíamos para brincar na neve à tarde e, às vezes, só voltávamos depois da meia-noite, com os dedos enrijecidos e o rosto completamente vermelho de tanto frio", lembra.
    Slava deixou São Petersburgo em 1993, após o fim da União Soviética, para trabalhar no Ocidente.
    "Foi um momento muito difícil do meu país e eu tive que pensar em como sobreviver. Decidi ir trabalhar no Cirque du Soleil por alguns anos, porque eles tinham dinheiro e a expertise em arte para fazer boas coisas."
    MERGULHO SURREAL
    Há 15 anos, Slava se mudou para um antigo moinho na beira de um rio, perto de Paris. Visitar sua casa é uma experiência surrealista: um barco em formato de cama flutua na água, outro barquinho (de verdade), com o casco apontado para cima, serve de cobertura para um pequeno teatro.

    No jardim, há um templo budista, um vagão de trem que costumava ser usado por atores mambembes do Leste Europeu e dezenas de obras de arte em três hectares de terreno.
    O local funciona como laboratório criativo de Slava e abriga a Academia dos Tolos, um projeto de intercâmbio entre artistas iniciado por ele, em 1982, ainda na União Soviética.
    Na casa principal, o moinho pintado de amarelo, as paredes externas e as de um dos quartos estão forradas de obras dos brasileiros osgemeos, que Slava conheceu em turnê pelo Brasil.
    "Quando os conheci, em São Paulo, foi como ter encontrado pessoas da minha família. São muito criativos e nós sempre estamos procurando meios para trabalhar juntos."
    + CANAIS

      sábado, maio 25, 2013

      O Reizinho Mandão


      Nas clássicas estórias infantis, o mundo divide-se entre bons e maus, sendo que os bons passam por provações; sofrem para que a ordem (pessoal) seja restabelecida, isto é, para que a personagem ocupe o seu devido lugar na estória.

      Sobre essa literatura infantil, ler Bruno Bettelheim, um dever.


      Em 1978, Ruth Rocha publica “O Reizinho Mandão”, narrativa infantil que apresenta uma estória não de ordem pessoal, mas de ordem social.

      Se, em “Branca de Neve”, o poder da rainha é ser a mais bela do reino (ordem pessoal), não havendo, portanto, a relação entre o governante e os súditos (ordem social), o poder do Reizinho Mandão impede em seu reino que os súditos o critiquem.

      - Cala a boca! Eu é que sou o rei. Eu é que mando!

      No reino do Acre, para que os súditos soubessem o que a Polícia Federal (des)cobriu, o melhor lugar para não saber foi a imprensa escrita rio-branquense, cuja função social tem sido há anos registrar a contagem do tempo conforme o calendário.

      Mas o que o seu rei mandar... não faremos todos.

      Libertadas das redações dos jornais, as palavras no blogue de Altino Machado, nas redes sociais e na revista Veja não se calaram.

      Por meio delas, soubemos que o reino do Acre é desencantado.


      Blogue não é súdito

      No Acre, jornalismo deixou de ser feito em redação de jornal. Jornalismo é ação individual de um nome (o teu, o dele) que libertou a palavra da linha de montagem das redações.


      Blogue, lugar incômodo em que o governante não pode visitar para agradar ao jornalista. Esta, portanto, a natureza do blogue: desobediência aos reis, porque o blogue é um reino à parte.


      quarta-feira, maio 22, 2013

      Uma resenha a teus olhos



      Gilles Lipovetsky não lecionou na Escola de Frankfurt
       
                                                    Aldo Antônio Tavares do Nascimento


      LIPOVETSKY, Gilles.  Metamorfoses da Cultura Liberal: ética, mídia e empresa. In: Deve-se culpar a mídia? Porto Alegre: Sulina, 2004. p. 67-75.
                 
                  Nascido em Millau, ao sul da França, em 24 de setembro de 1944, Gilles Lipovetsky leciona na Universidade de Grenoble, ao sopé dos Alpes. Seu primeiro livro, A Era do Vazio (França, 1987), “viajou” 18 anos para cruzar o Atlântico e desembarcar, em terras brasileiras, suas traduzidas palavras. Cinco anos depois (1992), edita em seu país A Sociedade Pós-Moralista, que aportou no Brasil após 13 anos, em 2005. Citamos esses dois títulos por se relacionarem ao livreto Metamorfoses da Cultura Liberal: ética, mídia e empresa, lançado no Canadá (2002) e no Brasil (2004), sendo a parte IV (Deve-se culpar a mídia?) motivadora desta resenha.

                  Em A Era do Vazio, o leitor depara-se com um individualismo jogado à “deserção social”, cuja característica é o vaguear apático, atribuído à atomização das relações sociais. Lipovetsky refere-se a esse livro na parte I de Metamorfoses. A Sociedade Pós-Moralista encontra-se na parte II, em “As três eras da moral”.

                  Sem trilhar o caminho do rebuscamento sintático para refletir sobre “o tempo presente,/ os homens presentes,/ a vida presente.”, como poetiza Carlos Drummond de Andrade em Mãos Dadas, do livro Sentimento do Mundo, o filósofo Gilles Lipovetsky é simples e, quando elabora conceitos em suas sintaxes, surpreende. Em Deve-se culpar a mídia?, não poderia ser diferente ao declarar que a sociedade liberal trouxe benefícios aos indivíduos. Quais? Surpreende quando afirma que a cultura de massa não aliena e não manipula, mas liberta o indivíduo. De quê?

                  
      Assim, na última parte do livro, o autor diz que a Escola de Frankfurt difamou as indústrias culturais porque ela disseminou o isolamento do indivíduo; destruiu as identidades regionais; uniformizou o pensamento e os gostos; desagregou o espaço público; atomizou o social. A violência se expande. A imoralidade se avoluma. Culpa-se a indústria cultural. Entre as três perguntas de Lipovetsky na página 68, esta: “Em que medida a mídia chegou a degradar o espaço público democrático?”.

                  Para encontrar respostas, o autor visita rapidamente as décadas de 1920, de 1950 e de 1960 para chegar à tese da massificação e, com isso, negar esse mesmo processo de massificação quando ele atesta que a mídia não massifica mais do que a escola. Segundo ele, “a mídia funcionou como agente de dissolução da força das tradições e das barreiras de classe, das morais rigoristas e das grandes ideologias políticas”. A mídia, portanto, emancipou os indivíduos em relação às autoridades institucionalizadas e às coerções identitárias da família, do partido, da igreja. Foi a partir dos anos de 1960 que as instituições coletivas perderam uma considerável parte do seu poder regulador, iniciando assim a desinstitucionalização do indivíduo, ou seja, com o individualismo desregulado, dessincronizado, os lugares tradicionais cedem ao universo privatizado do consumo dos objetos, das imagens e dos sons.

                  Quando temos a certeza de que sua reflexão, finalmente, estabiliza-se, Gilles Lipovetsky, com simplicidade, surpreende por asseverar que a difusão social convive com diversos fanatismos, formando a imagem de uma sociedade contraditória. Não há em seu pensamento uma sociedade padronizada como existe em O Fetichismo na Música e em Lírica e Sociedade, de Theodor W. Adorno - um dos grandes nomes da Escola de Frankfurt -, mas tão somente o trânsito livre dos paradoxos. Entendamos que uma parte dessa contradição, a multiplicação de seitas, não significa resíduos do passado, mas “a própria dinâmica do neoindividualismo e do enfraquecimento das grandes instituições de enquadramento”.

                  Embora leiamos em seu texto que a mídia tenha possibilitado ao indivíduo comparar informações por causa de múltiplas referências, Lipovetsky exemplificará depois que essa mesma mídia está longe de democratizar a cultura: um francês em cada quatro não leu um único livro nos últimos 12 meses. Isso não é culpa da mídia. Trata-se de uma máquina social, ajustada pelo consumismo, pelo individualismo e pelo utilitarismo, que determina para essa direção. A mídia tem seus limites.

                  Como escrevemos antes, o autor de A Era do Vazio e de A Sociedade Pós-Moralista questiona a Escola de Frankfurt nas páginas iniciais de Deve-se culpar a mídia?. Isso nos faz imaginar que Lipovetsky poderia ter interpelado Adorno quando este escreveu na lousa dessa escola que “a indústria cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. No entanto, quando Adorno e Horkheimer empregaram os termos “indústria cultural” pela primeira vez em 1947 na revista Dialética do Iluminismo, Gilles Lipovetsky tinha apenas três anos de idade. Assim, embora não tenha lido o que Adorno escreveu no quadro da Escola de Frankfurt, o autor de Metamorfoses da Cultura Liberal deixa uma “lição” para aqueles que ainda pensam como Theodor Adorno, qual seja: que a indústria cultural não tem todos os poderes.


      Beijar



      Em sua insana consciência, o Amante jamais pensa como beijará o ser Amado, porque o que é vital no beijo é o não pensar.


      Uma vez nele, uma vez entre os lábios e a língua, entre a saliva e o céu da boca, já não vemos mais nada. Fechar os olhos.


      Desejamos tão somente sentir o movimento incerto da carne para partir... e, fechados os olhos, a Alma se sente cair no abismo de uma breve viagem. Deixar ir.

      Nada no beijo é exato, preciso ou calculado. Quanto mais errado, quanto mais a língua escapa, foge, escorre, quanto mais os lábios se jogam, a boca só deseja se perder, mais ainda, na boca Amada.

      Mas quem disse que o beijo são só os movimentos da carne? Antes de eu ter minha boca de volta, antes de eu ir embora, pouco antes de minha partida, deixei na tua não só o pecado molhado da saliva, mas meu sopro...

      meu sopro de vida.

      segunda-feira, maio 20, 2013

      Jorge Viana e Joaquim Barbosa

      Senador Jorge Viana não gostou das afirmações do ministro Joaquim Barbosa. Jorge não perdeu a mania do que deve e do que não deve ser dito, mania de monitorar a liberdade de expressão.


      Barbosa diz que país tem 

      'partidos de 
      mentirinha' e critica Congresso

      Segundo presidente do STF, Legislativo é 'dominado' pelo Executivo.
      Ele defendeu voto distrital, no qual mais votado de cada distrito é eleito.

      Mariana Oliveira
      Do G1, em Brasília
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      Joaquim Barbosa participa de evento na Semana Jurídica do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesp) (Foto: Agência Brasil)Joaquim Barbosa participa de evento na Semana
      Jurídica do Instituto de Educação Superior de
      Brasília (Iesp) (Foto: Agência Brasil)
      O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, criticou nesta segunda-feira (20) a representação partidária no país. Segundo ele, os partidos são de "mentirinha". Ele também afirmou que atualmente o Congresso é "inteiramente dominado" pelo Executivo.
      Barbosa deu as declarações durante palestra na abertura de Semana Jurídica do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).
      1. Ao ser perguntado por aluno sobre críticas de interferência do Judiciário no Legislativo, Barbosa disse que partidos "querem o poder pelo poder".

      Nós não nos identificamos com os partidos que nos representam no Congresso, a não ser em casos excepcionais"
      Joaquim Barbosa
      "Nós temos partidos de mentirinha. Nós não nos identificamos com os partidos que nos representam no Congresso, a não ser em casos excepcionais. Eu diria que o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos. E nem pouco seus partidos e os seus líderes partidários têm interesse em ter consistência programática ou ideológica. Querem o poder pelo poder."
      Para o presidente do STF, a falta de representação partidária faz o Congresso ter "ineficiência pela sua incapacidade de deliberar".
      Ele completou, ainda, que outro problema do Congresso é o fato de ser submetido ao Executivo. "O problema crucial brasileiro, a debilidade mais grave do Congresso brasileiro é que ele é inteiramente dominado pelo Poder Executivo. [...] Temos um órgão de representação que não exerce em sua plenitude o poder que a Constituição lhe atribui, que é o poder de legislar."
      Joaquim Barbosa disse que uma saída para a falta de representatividade no Congresso seria a adoção do voto distrital, sistema no qual o país é dividido em distritos e é eleito o mais votado daquele distrito. Atualmente, a eleição para a Câmara é proporcional e leva em conta os votos recebidos pelo partido.
      "Passados dois anos da eleição ninguém sabe mais em quem votou. Isso vem do sistema proporcional. A solução seria a adoção do voto distrital para a Câmara dos Deputados. [...] Hoje temos um Congresso dividido em interesses setorizados. Há uma bancada evangélica, uma do setor agrário, outra dos bancos. Mas as pessoas não sabem isso, porque essa representatividade não é clara."
      Para o senador José Agripino (DEM-RN), Barbosa cometeu injustiça com algumas siglas, mas diz que alguns partidos da base seguem o que o "mestre mandar".
      “Eu acho que aí o ministro está cometendo uma injustiça com os partidos como o meu, que tem uma formulação muito clara da qual não abre mal", disse.
      “Agora, cá entre nós, os partidos da base do governo tem uma formulação programática, ou seja, tudo que seu mestre mandar”, completou.
      Já o senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que respeita a opinião de Barbosa, mas disse que ela não ajuda nada.
      "Eu respeito a opinião do Joaquim Barbosa, mas eu acho que ela não ajuda em nada. O presidente de um poder tem que trabalhar para o fortalecimento dos poderes, respeitando o outro poder e cuidando do seu."
      "Mas as criticas que o parlamento está enfrentando vem de todo lado, até porque nós mesmos não fizemos o nosso dever de casa"
      PEC 33
      O presidente do Supremo comentou ainda a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 33, que foi aprovada em uma comissão da Câmara, mas teve a tramitação paralisada após críticas. A proposta determina que decisões do Supremo sejam submetidas à análise do Congresso.


      Para ele, a proposta é uma "reação" à decisões do Congresso. "São, sim, reações a decisões do STF. Se levadas adiante essas tentativas, nós teríamos destruído a Constituição brasileira, todo mecanismo de controle de constitucional que o Supremo exerce sobre as leis. Significaria o fim da Constituição de 88."