sexta-feira, julho 01, 2011

Ser lembrado! Obrigado!

Hoje, ao abrir meu correio eletrônico, meus olhos leram palavras de uma ex-aluna. Emoção. Após sete anos, um nome lembra-se do meu. Mirela, uma ótima aluna. Após esses anos, seu destino hoje não passa de uma consequência natural de sua responsabilidade de adolescente.

Obrigado por suas palavras.

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Ao mestre com carinho

Bom-dia, Aldo Nascimento!

Não sei se lembra de mim,sou uma ex-aluna sua, Mirela Gomes Pinheiro-HMM, ano de 2003 e 2004.

Estou formada em Engenharia Florestal, mas não exerço a profissão - me apaixonei pela escrita e hoje curso o último ano de jornalismo na Ufac e escrevo para o Portal Amazonia/Acre.

Descobri esta paixão graças a Lavoura Arcaica, a Cyrano e a Você.

terça-feira, junho 28, 2011

Pastoras lésbicas

Três semanas depois de inaugurar uma igreja inclusiva e voltada para acolher homossexuais no Centro de São Paulo, o casal de pastoras Lanna Holder e Rosania Rocha pretende participar da Parada Gay de São Paulo, em 26 de junho, para "evangelizar" os participantes. Estudantes de assuntos ligados à teologia e a questões sexuais, as mulheres encaram a Parada Gay como um movimento que deixou de lado o propósito de sua origem: o de lutar pelos direitos dos homossexuais.

“A história da Parada Gay é muito bonita, mas perdeu seu motivo original”, diz Lanna Holder. Para a pastora, há no movimento promiscuidade e uso excessivo de drogas. “A maior concepção dos homossexuais que estão fora da igreja é que, se Deus não me aceita, já estou no inferno e vou acabar com minha vida. Então ele cheira, se prostitui, se droga porque já se sente perdido. A gente quer mostrar o contrário, que eles têm algo maravilhoso para fazer da vida deles. Ser gay não é ser promíscuo.”

As duas pastoras vão se juntar a fiéis da igreja e a integrantes de outras instituições religiosas para conversar com os participantes da parada e falar sobre a união da religião e da homossexualidade. Mas Lanna diz que a evangelização só deve ocorrer no início do evento. “Durante [a parada] e no final, por causa das bebidas e drogas, as pessoas não têm condição de serem evangelizadas, então temos o intuito de evangelizar no início para que essas pessoas sejam alcançadas”, diz.

Leandro Rodrigues, de 24 anos, um dos organizadores da Parada Gay, diz que o evento “jamais perdeu o viés político ao longo dos anos”. “O fato de reunir 3 milhões de pessoas já é um ato político por si só. A parada nunca deixou de ser um ato de reivindicação pelos direitos humanos. As conquistas dos últimos anos mostram isso.”

Segundo ele, existem, de fato, alguns excessos. “Mas não é maioria que exagera nas drogas, bebidas. Isso quem faz é uma minoria, assim como acontece em outros grandes eventos. A parada é aberta, e a gente não coíbe nenhuma manifestação individual. Por isso, essas pastoras também não sofrerão nenhum tipo de reação contrária. A única coisa é que o discurso tem que ser respeitoso.”

Negação e aceitação da sexualidade

“Sempre que se fala em homossexualidade na religião, fala-se de inferno. Ou seja, você tem duas opções: ou deixa de ser gay ou deixa de ser gay, porque senão você vai para o inferno. E ninguém quer ir para lá”, diz Lanna.

A pastora afirma que assumir a homossexualidade foi uma descoberta gradual. “Conforme fomos passando por essas curas das quais não víamos resultado, das quais esperávamos e ansiávamos por um resultado, percebemos que isso não é opção, é definitivamente uma orientação. Está intrínseco em nós, faz parte da nossa natureza.”

Igreja Cidade de Refúgio

Segundo as duas mulheres, após a aceitação, surgiu a ideia de fundar uma igreja inclusiva, que aceita as pessoas com histórias semelhantes as delas.

“Nosso objetivo é o de acolher aqueles que durante tanto tempo sofreram preconceito, foram excluídos e colocados à margem da sociedade, sejam homossexuais, transexuais, simpatizantes”, diz Lanna.

Assim, a Comunidade Cidade de Refúgio foi inaugurada no dia 3 de junho na Avenida São João, no Centro de São Paulo. Segundo as pastoras, em menos de 2 semanas o número aumentou de 20 fiéis para quase 50. Mas o casal ressalta que o local não é exclusivo para homossexuais. “Nós recebemos fiéis heterossexuais também, inclusive famílias”, diz Rosania.

Apesar do aumento de fiéis, as duas não deixaram de destacar as retaliações que têm recebido de outras igrejas através de e-mails, telefonemas e programas de rádio e televisão. “A gente não se espanta, pois desde quando eu e a pastora Rosania tivemos o nosso envolvimento inicial, em vez de essa estrutura chamada igreja nos ajudar, foi onde fomos mais apontadas e julgadas. Mas não estamos preocupadas, não. Viemos preparadas para isso”, afirma Lanna.

As duas mulheres, juntas há quase 9 anos, chegaram a participar de sessões de descarrego e de regressão por causa das inclinações sexuais de ambas. “Tudo que a igreja evangélica poderia fazer para mudar a minha orientação sexual foi feito”, afirma Lanna. “E nós tentamos mudar de verdade, mergulhamos na ideia”, diz Rosania. As duas eram casadas na época em que se envolveram pela primeira vez.

sexta-feira, junho 24, 2011

A intolerância dos evangélicos

Gilberto Dimenstein escreve (muito bem) para o jornal "Folha de São Paulo" aos domingos. Ele é um desses bons brasileiros que sabem pensar a educação brasileira.

Hoje, o assunto é gay e evangélico. Leia com muita atenção.

São Paulo é mais gay ou evangélica?

Gilberto Dimenstein

Como considero a diversidade o ponto mais interessante da cidade de São Paulo, gosto da ideia de termos, tão próximas, as paradas gay e evangélica tomando as ruas pacificamente. Tão próximas no tempo e no espaço, elas têm diferenças brutais.

Os gays não querem tirar o direito dos evangélicos (nem de ninguém) de serem respeitados. Já a parada evangélica não respeita os direitos dos gays (o que, vamos reconhecer, é um direito deles). Ou seja, quer uma sociedade com menos direitos e menos diversidade.

Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso, já que, em meio à sua pregação, faz ataques a diversos segmentos da sociedade. Nesse ano, um do seus focos foi o STF.

Por trás da parada gay, não há esquemas políticos nem partidários. Na parada evangélica há uma relação que mistura religião com eleições, basta ver o número de políticos no desfile em posição de liderança. Isso para não falar de muitos personagens que, se não têm contas a acertas com Deus, certamente têm com a Justiça dos mortais, acusados de fraudes financeiras.

Nada contra - muito pelo contrário - o direito dos evangélicos terem seu direito de se manifestarem. Mas prefiro a alegria dos gays que querem que todos sejam alegres. Inclusive os evangélicos.

Civilidade é a diversidade. São Paulo, portanto, é mais gay do que evangélica.

quarta-feira, junho 22, 2011

Contas de uma escola pública


Governo, prefeitura de Rio Branco, Assembleia Legislativa do Acre e Câmara dos Vereadores da capital acriana não são mais transparentes do que a escola Heloísa Mourão Marques.

O PT sempre propagou a ideia do orçamento participativo, mas tudo não passou de cínica propaganda.

Nessa escola, a gestora expõe o dinheiro público, e os governantes [de esquerda?] o ocultam.

Se a gestora não apresenta as contas, é cobrada, punida.

sexta-feira, junho 17, 2011

Deus não é homem!

Montagem da charmosa Thalita. O texto, meu. Dias antes da Parada Gay, postarei meu texto neste blogue e em um jornal de Rio Branco.

Agora, este pedaço:

VII - Êxodo 32:27-29, o Deus que mata

Lembro-me quando cada um cingiu a espada sobre o lado, cada um passou e tornou a passar pelo arraial de porta em porta, e matou cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho. Lembro-me, três mil homens assassinados a mando de um Deus vingativo para que cada um recebesse sua bênção. “Três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes”, pensou o personagem Caim, de José Saramago.

Após séculos sobre séculos, a Israel de Moisés ainda mata crianças palestinas na Faixa de Gaza, um campo de concentração delimitado pelo Deus dos judeus. Quando, entre 16 e 18 de setembro, o exército de Israel invadiu o Líbano em 1982, as armas de Jeová mataram 3,5 mil civis inocentes.

A Corte Suprema de Israel considerou o ministro da Defesa do país, Ariel Sharon, o responsável pelo massacre de Sabra e Chatila.
Sobre carnificinas, sobre assassinatos, sobre inocentes cadáveres, pastores acrianos calam-se; mas, quando o assunto é homossexualidade, pregam a ira do Senhor contra os que não foram, segundo eles, escolhidos por Jeová.

Dar o cu não pode. Um Deus que mata pode.

Alegres e dançantes, os meus alunos!

Penso como meu colega de trabalho, o Fernandes, um ótimo professor de matemática: "A escola deveria parar o seu cotidiano engessado para se transformar em alegria."

Compreendo a professora-gestora Osmarina, nem todos os professores vestem a camisa.

Enquanto isso, o 3º Batalhão da PM e a escola Heloísa Mourão Marques uniram-se para possibilitar momentos de alegria entre mim e a juventude do 2º C e do 2º D.

Trata-se de uma apresentação contra as drogas.

Para tanto, dançaremos Marcelo D2 e Barão Vermelho no auditório da escola. Iniciamos na terça. Quarta, feriado. Retomamos na quinta de forma diferente como os alunos se apresentaram na terça. Ficou melhor.

Ensaiamos na quinta. O melhor ficou na sexta. Sábado, ensaio final, das 8h às 11h.

Penso que uma forma de criticar o uso da droga se faz por meio da música, da dança, da poesia. O prazer das drogas combate-se com o prazer da cultura, com o prazer das relações afetivas.

Meus alunos jamais pensariam que um professor exigente, racional, sério, por exemplo, poderia ceder a uma pessoa que canta e que dança ao som de Marcelo D2 com eles.

O secretário estadual de Educação, Daniel Zen, tem o dever e a obrigação de levar às escolas públicas a mais densa e bela manifestação cultural da música, do teatro, da dança.

Zen, que veio da Secretaria de Cultura, não pode vacilar. Em 2011, sua presença na secretaria tem sido inexpressiva, típica de um burocrata. Faltam três anos. Se, nesse tempo, ele não misturar educação e cultura, receberá uma CRÍTICA à altura dos incompetentes burocratas da Frente Popular.

Espero que ele estabeleça o novo nas escolas. Já disse em outros momentos neste blogue que a escola deve se transformar em o centro de encontro da juventude para assistir a bons filmes, para ouvir música, para dançar, para ver belas peças de teatro.

Além disso, o governo deve propagar na TV e nas rádios esses grandes eventos para a sociedade.

Enquanto isso não vem - se é que virá -, eu danço com meus alunos ao som de "Sangue Bom", de Marcelo D2.

quinta-feira, junho 09, 2011

Milagre

Quando a noite ancorar a beleza do céu em meus olhos, desejarei apenas o manto de tua pele sobre a minha, desejarei apenas a minha vida intensa sobre a tua.

Sentir na carne o teu suor regando minha alegria.

Dos tantos versos que já ofertei a teus olhos, Milagre, se não for o mais intenso, é um dos.

Por isso, Mony, deixo aqui, mais uma vez, a poesia que escrevi para teus olhos, porque teu destino devolveu ao meu o sentido da vida.

Toda noite dos namorados é noite de Milagre.

Em igrejas à espera de milagres,

eu, à margem do corpo de Cristo,
entre o fim da tarde e a chuva fina,

ajoelho-me e, por teu nome, rezo a finco.

Que teu corpo nu, sem espinho, sem prego e cruz,
traga, como novo messias, à minha esperançosa carne,

o milagre de tua luz:

chama, despido corpo, me chama, e eu, safado santo,
subo ao sagrado altar, tua cama, para ser pecador feliz.

Sinto pena das igrejas, sinto tanto.

Para teus fiéis, me eternizo surdo, e tua língua nem falo.
Mas, em tua boca litúrgica, batizo-me com tua saliva.

Teu gozo, abençoada prece. Teu corpo, como não amá-lo?

E, sem crer no pão e no vinho, molho minha semente em tua fissura para germinar vida.
Entre tuas pernas, minha reza, meu clímax: Deus, eis a oferta!!!

Olhe no meu olho, Amada, olhe, veja-nos e sinta!!!



terça-feira, junho 07, 2011

Eles paralisaram as aulas, mas eu lecionei

Hoje, mais um dia de paralisação na rede pública de ensino estadual, e eu lecionando na escola Heloísa Mourão Marques.

O Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac) não aceitou a proposta do governo, 15% em três vezes. O sindicato exige um acordo de 20%, dividido em quatro vezes: julho, janeiro de 2012, abril de 2012 e outubro de 2012.

Na sexta-feira, dia 10, outra paralisação para definir se os professores cruzarão os braços por tempo indeterminado caso o governo não aceite a porcentagem do corpo docente. Fonte do governo afirmou que não abrirá mão dos 15% para todos os servidores. "É isso ou nada", disse um membro de governo.

Até agora, os professores da escola Heloísa Mourão Marques irão repor três dias de aula; eu, dois dias.



sexta-feira, junho 03, 2011

Um outro modelo de sala


Quando desejamos ouvir a palavra, precisamos desta essência: o silêncio. O pequeno príncipe e o piloto dialogam no deserto. Nesses meus quase 15 anos de escola pública acriana, não me lembro de ter ficado no deserto para que a palavra fosse lida, pensada, percebida em uma narrativa, em um drama ou em uma poesia.

As escolas são barulhentas, não há nelas um lugar-leitura, isto é, um deserto onde possamos ouvir a palavra desenhada e pintada pela poesia ou por um belo romance. Uma vez em sala, a palavra literária é corrompida pelo ruído, pelo tumulto de corredores.

Na escola Heloísa Mourão Marques, por exemplo, edificaram as salas perto da rua. Assim, quando um carro passa com a excrescência de um Calcinha Preta, calo-me em sala porque não posso competir com os ruídos da rua, além dos ruídos de corredores, de outras salas.

Ainda sim, de alguma forma, sempre busquei ler ótimos autores ficcionais na escola pública. Sempre. Após tantos anos, finalmente, o aconchegante silêncio na escola Heloísa Mourão Marques. Agora, podemos ler no deserto.

A responsável por isso, soletre: OS-MA-RI-NA, a diretora. Ela possibilitou uma Sala de Leitura, a única do estado para o ensino médio. Mais: a única escola de ensino médio onde obras literárias são lidas.

Com essa sala, com esse deserto, com esse lugar-leitura, poderemos ouvir a palavra literária de um Drummond, de um Dino Buzzati, de um Kafka, de um Castro Alves, de um Raduan Nassar.

Desejo ver meus alunos nessa sala deitados, sentados no chão, só lamento não ser possível colocar belas redes para eles se balançarem. Nela, há dois tapetes - haverá mais -, existem duas mesas para alunos, assentos confortáveis, um chão limpo para os pés ficarem descalços, há dois ventiladores silenciosos embora a sala seja arejada naturalmente.

Trata-se de um lugar-leitura para que possamos nos esquecer daquelas salas que incomodam o conhecimento, o saber. Nesse deserto, a palavra literária encontra-se em paz, silêncio.

quarta-feira, junho 01, 2011

Prazer

De Aldo Nascimento


Criado para ser encontro, o Corpo sussurra na pele do ser apaixonado a mais profunda carência. Sozinho, o corpo seria triste porque negaria sua própria natureza, que é se sentir, sentindo-se, em outro corpo. O Prazer nos alegra!

E é assim que a desejo e é assim que, aos poucos, me aproximo. Em gestos delicados, condenso agora toda emoção em um toque, mas, antes que eu a tocasse, precipitei-me em suor. As mãos gelaram-se. Meu Corpo, orgulhoso, estremeceu-se. Ao te tocar, perceba: fragilizo-me.

Sim, eu sinto. Mais: por meio de ti, eu me sinto. Se não fosse você, sozinha, eu desconheceria a desmedida de minha felicidade, que é, sob os desvios de tuas carícias, sentir minha carne suavizar-se.

Tua pele... na minha... minha carne, já molhada e febril, confessa: ofereces a mim o prazer de estar onde sempre desejei estar – em teu Corpo, lugar-carne que me acolhe; extrai de mim a certeza de que estou viva, imensa, alegre. Quase infinita.

Perceba. Sou oferenda entregue a essa humana carência de ser desejada por ti. Feliz carícia que desliza. Fragiliza-me. Retira-me da solidão. Por causa de ti, faço-me presente para não mais, a mim, pertencer. Olhe, escute-me, eu o amo!

Imerso em suor e entre gemidos, eu, também, a amo, mais ainda quando meu Corpo está em transe, mais ainda quando minha carne se declara insana. Corpo que se contorce. Agiganta-se. Foge ao controle. Rebela-se. Transpira. Geme. Grita. Exagera.

Já pressinto o gozo, sensação de que irei, por alguns segundos, me desencarnar. Minha carne já pode sentir o sabor suado dessa vertigem. Quando gozamos, tenho a impressão de que somos lançados ao não-lugar, restando a essa breve viagem fechar os olhos e... hummmmmmmm! Deus, Deus, milagre!

Agora, após o êxtase, meu Corpo, cansado e feliz, tomba sobre o teu, e, ao teu ouvido, sussurro que, sem você, eu jamais poderia sentir, sozinho, o que senti em minha carne e em meu espírito. Tu foste o caminho por onde cheguei, mais sensível, a mim mesmo. Por meio de ti, sou devolvido a mim muito mais feliz. Só o Outro, você, essa minha diferença, possibilitou o excesso.

Saboreando tua carne, movimentando-me ao seu bel-prazer, vivi a alegria de não mais a mim pertencer. Fui teu. Saborosamente, teu.

terça-feira, maio 31, 2011

A poesia do beijo

Extrair do comum, do natural, o deslumbramento poético. O beijo, sabemos como ele é. Não sabemos, isso sim, ofertar a ele as devidas palavras.

No texto abaixo, meu, já postado neste blogue, minhas palavras foram uma tentativa de renomear esse encontro entre lábios, oferecendo a ele o incomum. Leia-o!

Em sua insana consciência, o Amante jamais pensa como beijará o ser Amado porque o que é vital no beijo é o não pensar. Uma vez nele, uma vez entre lábios e língua, entre a saliva e o céu da boca, já não queremos ver mais nada, por isso fechamos os olhos para somente sentir.

Desejamos tão somente sentir o movimento incerto da carne para partir... e, fechados os olhos, a Alma se sente cair no abismo de uma breve viagem. Deixar ir.

Nada no beijo é exato, preciso ou calculado. Quanto mais errado, quanto mais a língua escapa, foge, escorre, quanto mais os lábios se jogam, a boca só deseja se perder, mais ainda, na boca Amada.

Mas quem disse que o beijo são só os movimentos da carne? Antes de eu ter minha boca de volta, antes de eu ir embora, pouco antes de minha partida, deixei na tua não só o pecado molhado da saliva, mas meu sopro... meu sopro de vida.

quinta-feira, maio 26, 2011

Cative-me!

Para interpretar, meu olhos, antes, observaram a Expo-Acre por três anos.

Certa vez, meus olhos testemunharam uma criança com a família. O pai segurava a câmera, e a mãe ajeitava a pose da menina.

O local era uma baia. Ao lado da inocente, um boi também saiu na foto.

Muitos, em dia de Expo-Acre, saem de suas casas para contemplar bovídeos. Dizem que as crianças adoram, dizem.

Mas, no lugar de bois, imagino o governo da Frente Popular criar um espaço imenso somente para as crianças, um lugar de alegria autêntica, ingênua; no lugar de quadrúpedes, teatro infantil, leitura, parques, contadores de estórias, cinema.

No Acre, quando falamos de (contra)cultura infantil, a terra é árida, principalmente, nas periferias. Não há representações desse mundo nem nas escolas públicas, o que há são caricaturas do mundo infantil, deformações.

CATIVAR

A mãe conta estória para a filha dormir, mas, para mim, a Literatura Infantil deve despertar as crianças, abrir seus olhos para o belo, o sensível, o universal. "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry, pertence a uma literatura que não adormece crianças.

Nessa obra, as palavras transcendem o dicionário porque receberam dramatização. "Cativar", por exemplo, só tem sentido - mais do que significado - porque aprendemos com ela que esse verbo só pode ser conjugado a dois. Cativar é encontro e, onde pulsa o encontro, onde existe o eu, existe o drama. Deixamos de ser indivíduos isolados.

No entanto, quando vejo no filme a raposa no trigal, percebo que "cativar" é também "ficar só". A raposa, uma vez cativada, não pode evitar uma marca do destino [humano], a perda. Um dia, seja pela morte, seja por outra partida, a vida é a perda física de quem nos cativou, nesse caso, o pequeno príncipe.

No trigal, sozinha por causa da ação do verbo cativar, a raposa sabe que "o essencial é invisível aos olhos", isto é, ela não se serve mais da presença física do pequeno príncipe, mas só ela, sozinha, vê os cabelos do menino na forma de trigo. Só ela vê o invisível.

Crianças deveriam ser proibidas de entrar na Expo-Acre.

quarta-feira, maio 11, 2011

Por que Cruz e Sousa?

Não sou homem musculoso, meu corpo não foi modelado por exercícios físicos. Minha academia, outra. Eu sei, no entanto, que, sem esforço, músculos não se avolumam. O peso exige de mim superação.

A poesia "Grande Amor" é pesada demais para os "músculos do cérebro". Para entendê-la, para interpretá-la, é preciso suar muito, é preciso malhar para o cérebro ficar "tanquinho". Ler Cruz e Sousa é atividade aeróbica de alto impacto.

Leram uma vez. Duas. Leram três vezes. Quatro. Não entenderam, ou seja, o entendimento de sua poesia não se encontra na superfície do texto. Nesse lugar, parte externa, o leitor desprevenido se perde e confessa que "tudo está confuso".

Não sempre, mas gosto de, por meio do literário, deixar meu alunos perdidos. Achem-se! Sozinhos, não se acham no texto. Por causa disso, leio, releio, interpreto. Entro com eles no labirinto do "Grande Amor" para encontrar a saída.













segunda-feira, maio 09, 2011

Cruz e Sousa




Hoje, um calor que deputados e vereadores não sentem em seus gabinetes incomodou a leitura e a interpretação de uma belíssima poesia de Cruz e Sousa, "Grande Amor".






Grande amor, grande amor, grande mistério

que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
num abismo de luz profundo e céreo.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
e bálsamo dos bálsamos da graça,
chama secreta que nas almas passa
e deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
junto às águas sonâmbulas de lagos,
sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
que prende as almas num igual destino,
num beijo fecundado num gemido.

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Até a terceira estrofe, colocamos na ordem sintática direta, fomos ao dicionário, criamos imagens para as palavras e interpretamos os versos desse negro de Santa Catarina.


quarta-feira, maio 04, 2011

Todo mês tem leitura

4 de maio, 2011. Uma manhã muito agradável para ler fora da sala de aula. Ficamos atrás do auditório, um local silencioso para a leitura ser ouvida por todos. Aqui, não havia ruídos de outras salas. Não se trata de um espaço perfeito, mas, mesmo assim, bem melhor do que salas quentes.

Ler nas escolas públicas acrianas é desconforto. Conforto mesmo só na Assembleia Legislativa do Acre ou nas escolas particulares dos filhos de deputados.















Estamos lendo "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati. Sinto na faces de alguns alunos que ler é "um saco": significado de palavras, compreender o que está escrito, interpretar, vírgula, pronome oblíquo, aposto. Entretanto, embora contrariados, a leitura segue seu destino.

Por que esse livro? No segundo ano do ensino médio, os professores decidiram que o texto estudado nesse período deve ser descritivo, por isso "O Deserto dos Tártaros". Essa bela obra literária é senhora de um narrador que, ao ver a aparência da realidade, oferece a essa mesma realidade profundidade.

Seu narrador compõe o profundo por meio da superfície.














Fora a superfície, o narrador apresenta Drogo, um personagem que viverá no forte Bastiani. Nesse local, lugar marcado pela solidão, pela rotina, ele ainda espera por algo; mas, enquanto algo não chega, é preciso dar à vida isto: sentido.

Depois, em outro momento da leitura, quando estivermos mais adiante, leremos trechos deste livro de Albert Camus: "O Mito de Sísifo". Se Drogo vive o absurdo, saberemos que, mesmo no absurdo da vida, é preciso encontrar um sentido.

Na igreja mais simples, o pastor lê a Bíblia para seus fiéis, porque na igreja mais simples quatro palavras existem: o conforto do silêncio.

Na escola pública acriana, lugar nocivo às páginas de uma obra literária, predomina o incômodo das salas de aula - elas permanecem as mesmas como há 50, 100 anos.

terça-feira, maio 03, 2011

Ele, o Livro

Fala-se tanto de o aluno ler na escola. Fala-se muito, "os alunos precisam ler". O que nasceu primeiro, o Livro ou o computador? A resposta, óbvio!, ele, "o Livro".

Embora seja muito mais antigo, muito mais velho que a máquina, o Livro, essa entidade espiritual rara entre estudantes, jamais foi destinado a ele uma sala [confortável] de leitura.

Não há sala de leitura nas escolas estaduais do Acre; porém, mesmo surgindo no mundo séculos depois, ao computador, reservaram-se salas e mais salas, todas climatizadas. A tecnologia tem lá suas suas vantagens sobre coisas antigas, velhas, seculares.

Leio para meus alunos há anos, desde 1990, quando comecei na escola Souza Marques, em Madureira, Rio de Janeiro. No Acre, de uma forma ou de outra, o ato da leitura, até hoje, é difícil por causa de uma realidade escolar oposta à leitura em sala.

Hoje, na escola Heloísa Mourão Marques, sem domínio de sala, um profissional da educação permitiu que alunos exercem o "direito" de incomodar minha aula com gritos, com falatórios. Eu lia "O Deserto dos Tártaros".

Sala quente, sem ar-condicionado, ruídos pelo corredor, professor que incomoda outro professor, tudo para o Livro não ser lido na escola. Formas de impedimento.

No planejamento pedagógico, não consigo nem mais marcar um dia para ler no auditório ou na sala de vídeo, porque, como outros planejamentos são marcados antes do meu, professores já deixam agendadas suas aulas nesses locais marcados pelo silêncio.

Eu soube que, em outros anos, professores reclamavam de mim porque eu ocupava a sala de vídeo para leitura. "Sala de vídeo não é lugar de leitura", sentenciavam uns babacas, uns imbecis desqualificados.

Osmarina construirá um espaço para leitura ainda neste ano, longe de professores que não colocam limites em seus alunos.

Enquanto esse lugar não existe ainda, eu continuo, mesmo em local impróprio, em uma sala de aula, a ler.

Tenho inveja dos computadores.

sábado, abril 23, 2011

Saliva



Vida,
eis um bom encontro:

entre o olhar que me come
e o gozo que me consome,

o instante, este momento:
saliva marcada

por teu nome.

quinta-feira, abril 14, 2011

A cada quatro anos, Sulivan é vítima de bullying


Massacre de Columbine:

Eric Harris (apelido ReB), de 18 anos,

e
Dylan Klebold (apelido VoDkA), de 17 anos.















Massacre da Universidade de Virgínia:

Cho Seung-Hui, 23 anos.














Massacre de Realengo:

Wellington Oliveira, de anos 23.


















Massacre da Assembleia Legislativa do Acre, a Aleac:

Professor Sulivan, de 68 anos













quinta-feira, abril 07, 2011

Sepultaram a senhora Gramática

Por meio de um burocrata da Secretaria Estadual de Educação, ouvi que não se estuda mais na escola gramática, conhecimento ultrapassado. No lugar dela, gêneros textuais. Ando sem tempo para escrever neste blogue sobre tamanha sandice.

Como (in)consequência, elaboram-se provas sem a presença da gramática. Ando sem tempo para escrever. Deixo então uma breve crítica de Marildes Marinho, fragmento de seu artigo "A Língua Portuguesa nos Currículos de Final de Século".

Seu pensamento sobre essa questão é resultado de trabalho realizado por uma equipe do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da FaE/UFMG. Foram analisados currículos de 19 estados, com a finalidade de oferecer ao MEC subsídios para a elaboração de parâmetros para o ensino da língua materna no Brasil.

Eis:

"(...). O risco que se corre, quando se toma o gênero ou o tipo de texto como o elemento orientador da prática de produção escrita, é o de privilegiar o produto em detrimento do processo. Ao se focalizarem as característica e/ou estratégias de modelos prototípicos de textos (sem se considerar para quem, o quê, por quê o autor está escrevendo), pode-se estar deslocando o foco da gramática normativa da frase ou a nomenclatura gramatical para uma gramática normativa do texto ou uma nomenclatura textual. (...)."

Seu artigo encontra-se no livro "Os currículos do ensino fundamental para as escolas brasileiras", organizado por Elba Siqueira.

Retirar a gramática da disciplina Língua Portuguesa assemelha-se a retirar o cálculo da Matemática.