quinta-feira, junho 11, 2009

12 de junho



No dia de Corpus Christi, não fui à procissão pelas vias públicas. Sei que o papa Urbano IV determinou em 11 de agosto de 1264 que pés caminhassem para honrar o Corpo do Senhor; entretanto, como eu soube que Urbano quis impor sua fé por meio de cruzadas, não honrei o Corpo do Senhor. Não gosto de procissões. Não sou chegado a cruzadas.

Ignorei a determinação de Urbano IV e esperei o Dia dos Namorados para honrar o dia de Corpus Mony com o cuidado de quem toca na finitude da carne, de quem sabe que só a ausência é eterna - morreremos.

Porém, antes que a última gota de teu fim caia sobre mim, antes que tua ausência preencha de angústia minha vida, eu possa beijar, todo cotidiano dia, tua face antes de deixar a cama, antes de pôr os pés em chão firme.

Se procissão é repetir gestos, a minha tem sido declinar a cabeça, dia após dia, para crer que "o amor é grande e cabe/no breve espaço de beijar".

terça-feira, junho 09, 2009

No fundo, não vale a pena ser professor












Li esse parágrafo da matéria do jornalista Freud Antunes.

De acordo com o sítio da entidade (http://ameac.blogspot.com/), a tabela apresentada garantirá ao coronel, que atualmente ganha R$ 8 mil, uma remuneração de R$ 10,29 mil. O soldado só receberia um reajuste ao chegar ao nível 2 da carreira, passando de R$ 1.811,77 para R$ 1.938,84.

Caso a minha filha revele algum desejo de ser professora, direi aos seus ouvidos que esse não é o melhor caminho para adquirir patrimônio & bens. "Não seja professora, filha", é o que falarei. Mesmo no Acre, onde há o melhor salário do país, não vale a pena mesmo a alma não sendo pequena.

Quando sair da faculdade, ela lecionará em uma escola privada - receberá menos e trabalhará mais - até que o Estado abra um concurso. Após anos e anos de espera, se apassar, receberá por mês R$ 1.540, líquido, 30 horas.

Filha, vá ser coronel da PM. No primeiro mês, seu contracheque registrará a alegria eufórica de R$ 10 mil. Se você for professora, após anos no magistério, tua aposentadoria não chegará à metade de R$ 10 mil.

Carreira militar, filha, dará a ti status, poder. O país, na verdade, meu amor, não precisa de professor; ele precisa de direito, de medicina, de coronéis. Para teu bem - e eu quero o teu bem -, não lecione.

Deixe o país inculto, filha!
E direito, e medicina, e coronéis que se virem com ele.

domingo, junho 07, 2009

A leitura não te abraça na escola


A Bienal da Floresta, do Livro e da Leitura, articulada pela Prefeitura de Rio Branco e pelo governo do Estado, administrações do Partido dos Trabalhadores, fechou suas páginas em 7 de junho, sábado.

Não fui a um dia. Queria ter ido à palestra do provocador Márcio Souza, porém o destino não esteve a meu favor.

Uma bienal para a leitura. O governo propagou por meio da televisão e do rádio a importância da leitura, mas, na rede pública de ensino, aluno não é motivado a ler, porque a escola pública não é, pasme-se!, lugar de leitura.

Na escola Heloísa Mourão Marques, onde leciono desde 2003, conheci duas coordenadoras de ensino que achavam inútil ler um bom livro em sala de aula. Nunca mais me equeci de suas inteligências, professoras Nádia e Otacília. "Perda de tempo", diziam. Ignoravam como eu lecionava, nunca assistiram a uma única aula, mas ler em sala, para elas, era desnecessário.

Em 2000, quando lecionei para alunos do ensino fundamental, fui processado pelo diretor da escola Raimundo Gomes - não me lembro dessa outra inteligência - porque, no lugar das aulas de gramática, eu lia Monteiro Lobato para meus alunos.

Lembro-me de minhas leituras no Cerb, em 1998, um colégio estadual de Rio Branco.

Hoje, leio na escola Heloísa Mourão Marques sem problema. Reservo o dia de leitura no auditório da escola por ser muito silencioso, por ser confortável. Nesse espaço, leio, e alguns alunos tecem algumas perguntas. Compreender, interpretar, observações gramaticais, vocabulário.

E pensar que já fui processado por um diretor de escola por ler em sala de aula. Quando eu me lembrar de seu nome, registrá-lo-ei aqui.

sábado, junho 06, 2009

Redação voluntária

Ao todo, 60 alunos assinaram um documento, pedindo que professores lecionassem redação por causa do Enem. Conversaram comigo e com o coordenador de ensino, porf. Gleidson, e, pronto, as aulas foram marcadas para acontecer aos sábados, das 9 horas às 11 horas.

Hoje, segundo dia, 19 alunos compareceram. Na condição de professor voluntário, 41 alunos ausentaram-se, indiferentes ao tempo gratuito que ofertei a eles.













Na foto, Deusenir escreve uma frase-oracional depois de ler a proposta do Enem de 2000. Em sala, reconstruímos uma introdução no computador com a participação dos alunos, observando erros e propondo outra escrita.
Espero que possamos elevar a nota da escola no Enem.

quarta-feira, junho 03, 2009

Eu vou!!!



Márcio Souza
em Sempre Um Papo


Matéria da
Agência de Notícia do Acre








Evento faz parte da programação
da Bienal da Floresta, do Livro e da Leitura

Os livros O Brasileiro Voador e História da Amazônia, do escritor Márcio Souza, estarão no centro do debate de mais uma edição do projeto Sempre Um Papo, desta vez inserido no maior evento literário realizado no Acre, a Bienal da Floresta, do Livro e da Leitura.

O lançamento dos livros, que tem patrocínio do governo do Estado, será às 19 horas, no auditório do Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CEBRB).

O livro História da Amazônia é obra inédita do escritor. Já O Brasileiro Voador é uma reedição que traz ficção e realidade com a narrativa biográfica sobre a trajetória de Santos Dumont. Márcio Souza, além de escritor, é roteirista de cinema, dramaturgo e diretor de teatro e ópera. Dirige o Teatro Experimental do Sesc do Amazonas (Tesc).

A Bienal da Floresta, do Livro e da Leitura reúne escritores de todo o país em Rio Branco até o dia 7 de junho. A aproximação com o público leitor se dá por meio de palestras, mesas-redondas, painéis e debates. O evento, realizado por Fred Perillo Consultoria de Comunicação e AB Comunicação, tem entrada gratuita.

segunda-feira, junho 01, 2009

Professores, acabou a folga!

Hoje, assinei um documento da Secretaria Estadual da Educação que determina a professora Maria de Jesus acompanhar o professor na escola quando for a "folga" do docente. Às sextas-feiras, eu não lecionava, aproveitando o dia para acordar mais tarde, para resolver assuntos particulares, para preparar as aulas.

Mas essa "folga" não foi criada para isso. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre (Sinteac), ela surgiu com a finalidade de o professor planejar suas aulas na escola, porém o próprio sindicato nunca fez questão de esse dia ser um dia de planejamento.

Após anos "folgando", o professor planejará com um ténico da secretaria suas ações. O responsável por isso, professor Josenir Calixto, diretor do ensino médio no Estado do Acre. Ele coloca na ordem o que fora desvirtuado.

A secretaria estadual tem a obricação de saber o que seu funcionário leciona e como leciona em sala de aula. A medida chegou tarde, mas o que importa é que ela chegou. Professor de Redação leciona o quê? como esse professor leciona? A secretaria, finalmente, saberá responder, é o que se espera.

sexta-feira, maio 29, 2009

Ronda Gramatical

Edvaldo Gil
Sousa Gomes












Meu amigo, a bruxa da tua sogra está solta e Branca de Neve foi presa quando aliciava sete menores, os anões. Acabaram-se as fantasias, a coisa é real, está começando Ronda Gramatical.

Ontem, à tarde, a Polícia Ortográfica esteve na Câmara de Vereadores de Rio Branco para colocar atrás das grades o açeçôr de inprênça da parlamentar Ariana Ariane Cadaxo.

Em sua matéria, ele registrou "antiprojeto" quando deveria ter sido "anteprojeto". Segundo capitão da PO, sr. Pasquale, esse crime não ficará impune.

"Quando chegamos, interrompemos a sessão e, na tribuna, metemos porrada no meliante gramatical e, depois, nós o conduzimos ao presídio Celso Cunha. Na cadeia, ele escreverá por dia mil vezes 'não devo nunca mais escrever antiprojeto, o correto é anteprojeto'. Sem liberdade condicional, ele foi condenado a dez anos de prisão."

Agora é hora dos anunciantes. Meu querido presidiário, se você não sair da cadeia tão cedo, as Casas Penitenciárias Bandido Bom é Bandido Morto tem uma boa promoção - compre xampu Carcerário e deixe seus cabelos, pelo menos, soltos.

MEC estabelece as regras do novo Enem

De Simone Chalub

Inscrições para a prova começarão em 15 de junho, e provas estão marcadas para 3 e 4 de outubro.

Os estudantes que participarão do novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) enfrentarão 10 horas de prova nos dias 3 e 4 de outubro.

Serão 180 questões objetivas de múltipla escolha, 45 em cada uma das 4 provas: linguagem e códigos, matemática, ciências humanas e ciências da natureza.

O edital, com os detalhes da prova, foi publicado ontem no Diário Oficial da União. A previsão, anteriormente, era de 200 perguntas, mas foi alterada a pedido de reitores, preocupados que a prova fosse muito longa.

As inscrições começarão no dia 15 de junho e irão se encerrar em 17 de julho. O processo será feito exclusivamente pela internete no sítio do Enem. Pelo menos 35 das 55 universidades federais já decidiram usar o exame em seus processos seletivos.

Além das questões de múltipla escolha, o aluno precisará escrever uma redação.

Segundo o edital, o texto deverá ser estruturado na forma de prosa do tipo dissertativo-argumentativo sobre tema na área social, científica, cultural ou política.

quinta-feira, maio 28, 2009

Açeçôr di Inprênça

O governo do Estado deveria ser o primeiro a ser preocupar com a língua portuguesa, porém a Agência Nacional do Acre importa-se só com a transmissão do conteúdo, a forma não tem importância. O português não passa de detalhe. Deveria, pelos menos, haver uma padronização mínima.

E os açeçôres di inprênça? Ganham muito bem para escrever muito mal. Leia esta:

"A vereadora Ariane Cadaxo (PC do B) esteve reunida na última quarta-feira, com o representante institucional da Eletroacre, Celso Mateus, em busca da parceria da empresa em relação ao antiprojeto sobre coleta seletiva de lixo, que ela defende na Câmara de Rio Branco."

Para o açeçôr não passar vergonha, A TRIBUNA publicou "anteprojeto". Eu não deveria ter retificado, porque, no final da matéria, registra-se "assessoria". O revisorzinho retifica, e o açeçôr ganha a fama.

"Antiprojeto" significa dizer que a vereadora é contra ela mesma. Além disso, o texto está confuso. Melhor ou menos pior seria:

A vereadora Ariane Cadaxo (PC do B) reuniu-se na última quarta-feira com o representante da Eletroacre, sr. Celso Mateus, para buscar uma parceria com a empresa porque o anteprojeto da vereadora defende na câmara de Rio Branco a coleta seletiva do lixo.

O PT de Brasileia

Ainda prefiro os erros do PT aos erros do Dem ou do PMDB. Não queria os erros, mas, entre um e outro, eu voto em minha contradição política.

O jornalista Freud Antunes elaborou uma matéria. Leia.
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TCE abre processos para multar quatro gestores

Os conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE) decidiram em sessão da manhã de ontem processar quatro prefeitos por irregularidades que vão desde a falta de divulgação dos gastos até a suspeita de pagamento extra no salário do próprio gestor.

O caso mais grave foi constatado na prefeitura de Brasileia, onde a relatora Dulcinéia Benício encontrou a gestora Ana Leila Galvão recebendo o salário de professora, além de uma parcela a mais por ser a chefe do Executivo.

Na defesa, a prefeita justificou que por lei poderia optar pelo recebimento do percentual como administradora pública, recebendo também a remuneração de professora, o que não foi acatado pelos membros do TCE, que alegaram que não há legislação que permita o repasse de dois salários.

Mesmo com o problema encontrado, os conselheiros decidiram aprovar com ressalva a prestação de contas de 2007, mas uma equipe de auditoria deverá constatar qual foi o valor pago a mais para a prefeita, que não enviou o demonstrativo de valores.

Nos outros três casos, os prefeitos de Mâncio Lima, Cleidson Rocha; de Senador Guiomard, James Pereira; e o de Santa Rosa do Purus, José Altamir Taumaturgo Sá, não comprovaram a publicação dos relatórios resumidos de execução orçamentária.

Se constatada a irregularidade, os gestores serão obrigados a pagar multas.

quarta-feira, maio 27, 2009

Livros & Autores

1ª BIENAL DO LIVRO NO ACRE
texto de Vagno DiPaula

A partir de amanhã, às 19 horas, na Praça da Revolução, estendendo-se até 7 de junho, um burburinho cultural invade a capital do Acre. É durante este período que acontece a 1º Bienal da Floresta do Livro e da Leitura, o maior evento literário já realizado em nossa cidade. Para os nove dias, estão programadas diversas ações ligadas à literatura, como debates, mesas-redondas, oficinas, conferências e palestras, mostra de cinema e bate-papo com os escritores.

Participam da Bienal importantes nomes, como o renomado escritor Ignácio de Loyola Brandão, o professor Fábio Lucas (apontado como um dos três críticos literários mais expressivos do país - ao lado de Antônio Cândido e Wilson Martins) e Luiz Galdino (escritor paulista de Caçapava/ SP, autor de cerca de 40 títulos e vencedor de quase 30 premiações), além de escritores locais como Jorge Tufic (considerado um dos principais poetas da moderna literatura amazonense) e Márcio Souza (escritor, dramaturgo e diretor do Sesc – Teatro Experimental do Sesc do Amazonas -, grupo teatral que foi pioneiro na luta pela preservação da Amazônia). Viva a cultura!!!

terça-feira, maio 26, 2009

Um bom texto do caderno Mais!

MALANDROS UTÓPICOS

ENTRE A IDEALIZAÇÃO DO ESTRANGEIRO E A GLORIFICAÇÃO DO MODO DE VIDA NACIONAL, BRASILEIRO CIRCULA ENTRE A ESPERANÇA DE MUDANÇA E A REALIDADE DAS MAZELAS POLÍTICAS E SOCIAIS

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

A "aurora da vida", evocada num poema famoso de Casimiro de Abreu, esteve em evidência nos últimos dias, porém deslocada para um pouquinho mais tarde: três notícias se referiam a crianças de nove anos, e, embora ligadas a assuntos bem diversos, todas provocaram alguma celeuma.

A primeira foi a declaração do jogador Ronaldo sobre os motivos pelos quais prefere que seu filho cresça em Madri: "Vejo aqui crianças da idade dele com um palavreado adolescente, palavrões até. [Meu filho de nove anos] é uma criança doce, educada, praticamente um europeu. (...) Prefiro que tenha amiguinhos europeus, sem a malandragem dos amiguinhos brasileiros." "O nível mental das pessoas que assistem à TV no Brasil é por volta dos nove anos", julga o ator e dramaturgo Miguel Falabella. "Um jovem francês lê 200 vezes mais que um brasileiro. Tem piadas e diálogos que as pessoas não entendem, porque não têm a informação." O terceiro fato foi a escolha de um livro em quadrinhos para os alunos da terceira série do ensino fundamental (oito a nove anos) da rede pública paulista, criticada porque algumas histórias contêm palavrões e alusões de natureza sexual.

Fato e opiniões
Por sua vez, vendo nela só moralismo e hipocrisia quanto à realidade vivida pelas crianças dessa idade, alguns reprovaram a retirada do título da lista fornecida aos estudantes... Que pensar de tal coincidência? Em primeiro lugar, que se trata disso mesmo - uma coincidência, ou seja, algo fortuito, que poderia não ter ocorrido dessa forma.

Se a falha quanto ao livro tivesse sido descoberta uma semana antes ou se Falabella tivesse situado o nível intelectual dos telespectadores na faixa dos seis ou dos 11 anos, não se veria vínculo nenhum entre as três coisas. Além disso, a última é um fato, enquanto as duas primeiras são opiniões; fato, aliás, com o qual a Secretaria de Educação de São Paulo lidou de modo adequado, reconhecendo o erro e tomando as providências que se esperariam.

Realmente, a obra não é apropriada para crianças. O autor de uma das histórias, Caco Galhardo [quadrinista da Folha], explicou que pretendia apenas "tirar sarro" de uma mesa-redonda de futebol. "Quem a selecionou não leu o livro", declarou. É difícil não concordar com o cartunista, mas nem por isso se vão proibir os quadrinhos para adultos ou condenar as editoras que os publicam.

O que ocorreu foi negligência por parte de um funcionário do terceiro escalão, rapidamente reparada por seus superiores. Ponto final. A frase de Miguel Falabella se coloca em outro contexto: a péssima educação oferecida pelo Estado aos pequenos brasileiros, cuja consequência óbvia é o baixo nível intelectual da nossa população.

De fato, os jovens europeus leem mais que os do Brasil - embora lá também se ouçam queixas de que a escola pública vem piorando ano a ano. O padrão abominável da televisão nacional tampouco contribui para minorar o problema, mas isso não se deve a um vício de natureza do meio: depende dos responsáveis pela programação escolherem bons roteiros e os produzirem com critério.


Prova de que pode existir vida inteligente na televisão (e não só nos canais ditos culturais) é a qualidade dos diálogos da série "House" assim como o desempenho dos atores e a excelência da pesquisa técnica que subsidia cada episódio - e se poderiam citar outros (raros) exemplos.

"Doce" e "educado"
Restam os comentários de Ronaldo. A idealização que equipara "europeu" a "doce" e "educado" terá algum fundamento? Talvez o tenha na experiência do jogador: não conheço o suficiente da sua biografia para avaliar isso, mas posso imaginar que no Velho Mundo o filho de um atleta pago a peso de ouro circulasse num ambiente bem menos perigoso e violento do que aquele que cercava seu pai na zona norte do Rio.

Os brasileiros
Costumamos nos deslumbrar com algumas características da vida na Europa que contrastam agudamente com nosso cotidiano: civilidade, limpeza das ruas, eficiência nos serviços públicos, organização em geral.

Na mesma entrevista, Ronaldo se refere ao mundo do futebol e cita aspectos em que os europeus nos superam. Sem masoquismos desnecessários, não vejo mal em reconhecer que determinadas condições são melhores lá do que aqui, mas também é verdade que "doce" e "educado" nem sempre rimam com "europeu". Ou alguém ignora que o velho continente foi palco de inúmeras guerras, perseguições religiosas e políticas, discriminações, fogueiras, torturas e crueldades? E os conquistadores que de lá partiram se mostraram tudo, menos doces para com os índios, africanos e asiáticos com os quais as navegações (e depois o colonialismo) os puseram em contato.

Isso dito, convém evitar a idealização inversa, que conduziria a glorificar a brasilidade e fechar os olhos para as mazelas do nosso país. Outro tema em foco nas últimas semanas o comprova: a reação oposta diante dos desmandos dos políticos no Brasil e na Inglaterra.

Enquanto o presidente da Câmara dos Comuns, Michael Martin, se viu forçado a renunciar devido às pilantragens dos seus colegas, temers e sarneys agem de modo a convalidar o que disse o deputado Sergio Moraes (PTB-RS), cuja frase imortal ("estou pouco me lixando para a opinião pública") deveria adornar o estandarte do Congresso, do mesmo modo que "ordem e progresso" figura na bandeira nacional.

Truculência
E não é apenas Sua Excrescência que assim pensa. O Estado brasileiro tem uma tradição de truculência e malandragem na relação com os governados. Com demasiada frequência, seus funcionários consideram natural que o dinheiro dos impostos financie privilégios indecentes para eles, para suas famílias e para seus apadrinhados; a cultura do "todos fazem" e do "deixa disso" impregna muitos setores da sociedade civil, inclusive o das concessionárias de serviços públicos e das empresas em geral.

É o que sabem todos quantos já tentaram falar com os SACs (serviços de afronta ao consumidor), hipocritamente colocados atrás de muralhas telefônicas cujo objetivo evidente é fazer com que o reclamante desista da sua pretensão.

A conclusão é que as afirmações de Ronaldo e Falabella, embora generalizadoras demais, contêm algo de verdadeiro - e quem sabe por isso incomodaram tanto. Não é preciso endossá-las por completo; se servirem como alerta, terão contribuído para nos tornar mais veementes na defesa dos nossos direitos. Afinal, às vezes as aves que lá gorjeiam são mesmo mais afinadas que as de cá.

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

Cardioacre

A iniciativa privada gosta de contar vantagem sobre o setor público. "Somos mais eficientes", compara-se. Não é o caso da Cardioacre, uma clínica particular de Rio Branco. Sua secretária alterou meu batimento cardíaco.

Na primeira vez, ela marcou a consulta para um dia. Quando o dia marcado chegou, só fiquei sabendo que não era mais o dia marcado dentro da clínica, ou seja, a secretária não telefonou para avisar antes de eu gastar dinheiro com passagem de ônibus.

Ela então marcou a consulta em uma terça-feira, uma semana depois. Quando cheguei à clínica, soube que o médico não atende na terça-feira. Ela diz então que telefonará para marcar outro dia. Um mês depois, ela não telefona.

Vou à clínica. Ela marca para 27 de maio. No dia 26 de maio, a secretária telefona: "Olha, foi cancelada a sua vinda amanhã, estou remarcando para 25 de junho, obrigada por sua compreensão."

Desde o dia em que essa secretária cruzou com o meu destino, meu coração não tem sido o mesmo. Acho que colocarei o nome dela numa encruzilhada.

Se fosse no setor público...






segunda-feira, maio 25, 2009

Que o Ventoforte volte um dia...

No dia 23 de maio, sábado, às 20h30, uma caravela aportou na escola estadual Heloísa Mourão Marques para que alunos embarcassem. Partimos às 20h35. Após uns minutos, o casco atracou-se em porto inseguro, mas um Ventoforte, vindo do norte, estufou as velas para lançar os navegantes em mares inquietos da imaginação.

Nossas pupilas, entregues às sombras do teatro, dilataram-se para degustar o texto apaixonante de Ariano Suassuna e de Ilo Krugli.
Ventoforte varreu os entulhos da realidade para, em seu lugar, o da realidade, colocar o surpreendente, o inesperado; para colocar lacunas, vazios que deverão ser preenchidos por nossa interpretação.

Apaixonei-me pelo grupo. Quem dera que o teatro tomasse de assalto espaços urbanos, espaços públicos, ruas de Rio Branco. Quem dera que houvesse menos igreja e mais arte teatral.


A nova política

Crise econômica abre espaço para questionar
legitimidade das instituições políticas

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI
COLUNISTA DA FOLHA

Para entender a crise atual do sistema capitalista de produção convém insistir no seu caráter automático. A crise se aninha na natureza da ação socioeconômica que repõe o capital.

Os agentes operam no mercado imaginando que suas ações sempre serão contrabalançadas por ações alheias, atuam graças à mediação do dinheiro que, por si mesmo, aparece como se tivesse a virtude de transformar mercadoria em preço e preço em comprador.

Dada essa equação, a economia cresceria indefinidamente.

A crise revela a perversidade desse processo e recoloca a questão do Estado nesse movimento de reposição.Mas qual Estado?Se deixarmos de lado esse automatismo, simplesmente iremos procurar agentes responsáveis pela crise, como se todos eles não tivessem culpa no cartório.

O desafio não é encontrar novos mecanismos de mercado, mais sadios e consistentes, mas instituir órgãos reguladores do funcionamento dos vários mercados capazes de legitimar seu funcionamento, isto é, assegurar que funcionem em vista do bem-estar e do bem-ser da população.

Ilusão em xeque
A crise revela o caráter social do capital e indica como ele precisa ser reestruturado de um ponto de vista político.

Mas política radical. Em que sentido? Está posta em xeque a ilusão de que a luta política deva recorrer a um fundamento comum consensual, como se o ser humano fosse naturalmente social e atuasse a partir dessa sociabilidade primeira.Basta um olhar crítico sobre a política internacional contemporânea para que se perceba que os conflitos, por serem tão radicais, podem ser identificados com um confronto de civilizações.

Não é assim que vejo, pois as populações querem participar de uma forma de vida pós-industrial.Assim sendo, o consenso, a legitimidade das decisões, passa a ser construído e resulta do esforço de cada parte em vista de manter a si mesma segundo o que pretende ser, mas reconhecendo a possibilidade de persuadir e de ser persuadida.

Hoje a legitimidade se faz construindo instituições legitimadoras. Neste início de maio se realizou em Grenoble [França] um fórum reunindo mais de cem pesquisadores para discutir a democracia em nível mundial. Foi organizado por Pierre Rosanvallon, que acaba de publicar "La Légitimité Démocratique" [A Legitimidade Democrática], um excelente livro, e conta com a participação importante de Claude Lefort.

Todos sublinhando que a democracia é sistema aberto, sempre se reinventando, mas que, nos dias de hoje, somente se torna legítima na medida em que se associa a instituições capazes de se tornarem imparciais diante de conflitos, refletir sobre seus efeitos e não perder contato com as várias populações interessadas. É preciso ir além do bom funcionamento dos procedimentos eleitorais, reconhecer o caráter global das políticas econômicas e a necessidade de políticas sociais compensatórias.

Crise evidente
Note-se que não são apenas os franceses que estão colocando essas questões -elas se impõem na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA. Enquanto eles discutem os desafios de uma democracia pós-eleitoral, assistimos à perda de legitimidade de nosso processo eleitoral, enfim, do sistema de representação.

Nosso Estado cresce sem que seja nem mesmo posta a questão do caráter democrático de suas decisões. A crise no Legislativo é mais evidente. Quando seus membros se confessam imorais, quando arrombam os cofres públicos, quando propõem novas regulamentações que não passam de máscaras para manter antigos privilégios, estão simplesmente evidenciando e velando a crise sistêmica no processo de representação e de legitimação.

Não é de hoje que saliento a necessidade de pensar a moralidade pública no contexto de inventar novos parâmetros, por conseguinte, de quebrar até mesmo antigas regras morais para que novas se estabeleçam. Nunca imaginei, entretanto, que políticos viessem confessar sem pejo que pouco lhes importa o lado moral de suas ações, visto que, mesmo se mostrando sem caráter, continuam a receber o voto popular.

Há melhor prova da ilegitimidade do sistema? Nessa mistura entre o público e o privado, não é o caráter democrático da instituição que está sendo posto em xeque? O popular nem sempre é democrático, isso já sabemos por experiência própria. Se não há preocupação com a democracia interna, menos ainda se pensa nas dificuldades de estabelecer um sistema democrático controlando os mercados.

Já que nos contentaremos com um Estado grande (ou inchado?), importa-nos apenas o controle externo que permita nosso crescimento. Por aqui o importante é fazer de conta que se é eficaz, seja lá em qual domínio. Onde estão, porém, as transformações das burocracias do Estado que tragam para o mundo essa ideologia da eficácia? Diante das pressões da mídia e da insatisfação popular, o Legislativo requenta propostas de reforma política.

Mas não vejo em nenhuma delas uma preocupação de aprofundar a democracia, de melhorar o sistema representativo a partir dos obstáculos e dos erros do jogo de poder atual. Lista fechada Em tese, a proposta de eleições em lista fechada reforça o sistema partidário.

Mas hoje não equivale a reforçar a corrupta burocracia partidária? Em contrapartida, o simples voto nominal não liquidaria uma possível estruturação dos partidos? Não há espaço para discutir a fundo todas as propostas, mas creio que uma análise superficial mostra que, ao invés de visar o aprofundamento do sistema democrático, tratam sobretudo de mudar no detalhe e no imaginário para que o essencial não seja mudado.

O processo de representação nasce nos municípios. A Constituição de 1988 fez a loucura de transformá-los em órgãos federativos; depois de criados, se mantêm, mesmo quando são organicamente deficitários e inadimplentes. Grande maioria deles está nessa situação. Precisam, então, para subsistir, de ajudas externas, estaduais, principalmente federais. É o primeiro passo do toma lá dá cá. Formam assim a matéria-prima da corrupção política do país. Não é à toa que não se fale disso.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP
e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
Escreve na seção "Autores", do Mais!.

Ventoforte que varre tolos, superficiais

Encontrei este texto na revista virtual Bacantes.

"
Se o mundo fosse bom, o dono morava nele
"
por Juliene Codognotto

Uma visitinha pro Ariano

Música, máscaras, bonecos, gente. Na peça Se o mundo fosse bom o dono morava nele, o Ventoforte pega emprestada uma história de Ariano Suassuna pra brincar de teatro com ela (desnecessário). E brinca mesmo.

Tudo que se vê no palco durante duas horas e meia de peça é uma grande brincadeira usical que tem a cara do grupo e, o mais importante, a cara dos “dias de hoje”. Ao adaptar A pena e a Lei, obra original de Suassuna, Ilo Krugli incluiu - além da música, das máscaras, dos bonecos, e do contato próximo com gente alegre já citados - um prólogo e um epílogo, que aproximam a narrativa nordestina de 1959 de questões que estão hoje em todo lugar.

Há personagens divertidíssimos nas três partes dessa história, e quem reina no universo de Suassuna é Benedito, um negro esperto que se dá bem usando sua inteligência. Não, não é João Grilo, não, é Benedito mesmo.

No entanto, apesar de o rapaz chamar a atenção com sua malandragem (e o intérprete com sua voz e expressão corporal), o Ventoforte está falando mesmo é do dono do “Mamulengo”, o Cheiroso, que administra - por assim dizer - um teatro de bonecos.

Não vou contar aqui as histórias de Suassuna, pois elas são divertidas justamente pelas surpresas que causam com as quebras de repetições - que lembram gags de palhaço. Vou contar uma história de prólogo e epílogo. Um história de visão crítica do mundo por meio da fantasia, que tem início com um cutucãozinho na TV.

Quando a peça começa, está sendo gravada uma minissérie da Rede Globo - O Auto da Compadecida, que também virou filme, lembra? - no fim da rua. Então, Cheiroso explica que na TV não tem ação, eles até gritam “ação!”, mas quando o sujeito age mesmo, mandam cortar.

Daí pra falar da questão financeira é um pulo, afinal, a estrutura e os aparatos técnicos que a Globo tem pra brincar com Suassuna nem se comparam aos do Ventoforte, que já chegou a interromper peça por conta da chuva.

Mas não é preciso detalhar as diferenças, há outros recursos cênicos pra evidenciar isso de forma simples: apagam-se as luzes. “Será que não pagamos a Eletropaulo?”, se pergunta o próprio Ilo Krugli, ainda na batina do padre Antônio, personagem do segundo episódio, mas agora no papel dele mesmo.

E então, sob luzes de emergência, o público é levado para um outro ambiente onde serão aproveitados os refletores que a Globo esqueceu no fim da rua pra suprir a falta de luz do Mamulengo.

No teceiro e último episódio, os personagens de Suassuna fazem o julgamento de Deus (ou de Jesus, ou do Espírito Santo, não tenho muita certeza. Fiz catecismo, mas sempre confundo os três), por sugestão de Benedito, e acabam julgando a vida e a continuidade dela. Eis que entra Ilo Krugli, para um epílogo.

“Essa cena é improvisada mesmo. Pode falar, pode perguntar”, ele diz. Ao fundo, os personagens de Ariano, expostos. À frente, Ilo, prometendo contar-nos o destino deles e revelando que a maior parte migrou pro sudeste e pro sul.

A participação de Ilo é tema à parte, já que, como disse o Fabrício, ele é a própria quebra da quarta parede. Está lá, presente, vivo, ao mesmo tempo que parece um bonequinho de corda. Aquele é o espaço do jogo, da diversão e não há textos ou “escrituras” que o impeçam de improvisar e confundir, de revirar as cenas e fazer com que os próprios atores parem para rir dele.

Há que se dizer que o jogo cênico fica meio embaralhado e as cenas parecem, muitas vezes, uma grande bagunça impossível de entender. Fora da lógica, fora da “arrumação” com que estamos acostumados. Mas tudo isso faz parte da brincadeira e, sobretudo, de uma postura profissional de não se levar a sério. Já na história, a vida continua, o Mamulengo continua, os bonecos se reproduzem… pra quê? Bem, aí já é sério e abstrato demais pra explicar.

sábado, maio 23, 2009

Para o INFELIZ do revisorzinho

Pegue teu olhos, blogueiro(a), e leia, se for capaz, este parágrafo, ele abre uma entrevista em um jornal de Rio Branco. Veja o tamanho deste parágrafo, algo imenso. Texto jornalístico deve apresentar estruturas sintáticas curtas em certos casos, por exemplo, neste.

Pensei que eu corrigisse texto. Em verdade, eu faço milagre para o leitor entender o que outros não escrevem.

"O presidente do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Arquelau de Castro Melo, decretou uma guerra sem trégua durante a sua gestão contra a compra de votos, demoranos julgamentos dos processos relativos ás denúncias de abuso do poder econômico, de uso da máquina estatal e municipal, supostamente ocorridos na última eleição, como forma de dar uma resposta rápida á sociedade sobre cada um desses casos. Na entrevista á TRIBUNA, Arquelau Melo fala sobre a Reforma Política, as listas montadas pelos candidatos, que funcionam como um cadastro da corrupção, as campanhas sobre o voto consciente, e acerca das doações ilegais na campanha, que envolve setenta e quatro políticos, que a medida que a apuração avança se descobre que foram usadas pessoas inocentes, pobres, como “laranjas”, para mascarar essas doações, que atingiram a um nível de um dos maiores escândalos políticos dos últimos anos."

sexta-feira, maio 22, 2009

De Oswald de Andrade (1890-1954)













Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
.

quinta-feira, maio 21, 2009

Um gesto voluntário

O que ganhamos com um gesto voluntário? A Secretaria Estadual de Educação emitirá um documento, reconhecendo o compromisso de seu funcionário público com a educação? Deus dará a mim a sorte de acertar na megassena?

No sábado, dia 23 de maio, das 9 horas às 11 horas, na escola Heloísa Mourão Marques, lecionarei Redação para 59 alunos. À tarde, será a vez do professor Luís.

O que ganho com meu gesto voluntário? Se eu tivesse uma sala bem confortável, bem organizada, poderia cobrar R$ 50 por mês, sendo três horas de Redação por semana. Na conta, seriam R$ 2.950. Leio Drummond.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários
.

Lecionar, já disse, é uma forma de me manter vivo, e isso não tem preço, só tem paixão, amor, vontade voraz de ver no futuro próximo meus alunos em um emprego que possibilite a eles pagar contas, viajar, comprar bons DVDs, adquirir livros interessantes, comprar a casa própria, presentear pais, comprar um buquê caro de flores para a namorada ou para a esposa.

Até sábado!

Alunos, uni-vos!












Amados alunos, unidos, iremos à Usina de Arte João Donato para assistir à peça Se o mundo fosse bom, o dono morava nele!, texto de Ariano Suassuna e direção de Llo Krugli. Como só havia um único horário, o espetáculo começará às 21 horas.

O navio partirá da escola às 20 horas. Navegantes, quando aportamos no teatro, o barco logo afundará por causa de um Ventoforte vindo do Norte. Não nadem. Afoguem-se na imaginação.

Graças à política cultural do atual governo, nossos olhos se abrirão para o que não idiotiza a alma humana, para o que não nos emburrece. Neste dia, desligaremos a TV das pegadinhas sem graça de um Faustão para perceber a mais nobre de todas as mentiras - a mentira do teatro.

"A arte é o mais alto poder do falso, ela magnifica 'o mundo enquanto erro', santifica a mentira, faz da vontade de enganar um ideal superior." Quem disse isso aos meus olhos foi Deleuze.

Até lá!