quinta-feira, maio 12, 2016

OS SIMBÓLICOS 13 ANOS DO PT



Dilma está fora. Eu queria que ela ficasse dentro até o final para não emergir o maniqueísmo do golpe, que alimenta, por exemplo, o marxismo vulgar, chulo, burro das lutas sindicais.

Não só isso: assisti a quase todos os debates das comissões e, confesso, ainda que eu seja burro, não ouvi justificativas para seu impedimento.

Digo: justificavas na natureza escrita das acusações, não nas falas subjetivas e passionais da oposição.

Seu governo deveria sangrar l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Seu governo deveria se banhar no próprio sangue, sangue jorrado também pela estocada nas costas de um Delcídio do Amaral, um petista, um amigo, um escolhido pelo governo, um mentiroso segundo a Dilma.



Como autoritária, gesto próprio de uma revolucionária (?) desde os 16 anos (o quê!?!?!?), ela, agora, diz que não receberá as falas dos repórteres, pois fará um pronunciamento, ou seja, ela sai do governo sem o diálogo com os jornalistas.

Assim são os revolucionários (?), não sabem dialogar com o tempo histórico e nem com a democracia. No caso dela, não sabe mais ainda dialogar com o tempo quando se diz revolucionária aos 16 anos.

Ninguém é revolucionário aos 16 anos. Ninguém. É, no mínimo, um tolo ou um analfabeto revolucionário, ou seja, não é revolucionário, porque, para sê-lo, é preciso muita maturidade para não pegar em armas e defender a ditadura do proletariado, mesmo porque quem defende a democracia sabe que a luta é educacional.

Pior: um tipo ultrapassado de PT não aprenderá com o impedimento de Dilma, porque esse tipo nunca erra, porque seus líderes, só eles, sabem conduzir "o povo", essa abstração generalizada que não existe de fato na realidade.

Se o esse PT não quisesse isso, fosse então o "partido da ética" (lembram-se?). Esse tipo de PT assistiu a bons nomes indo embora do partido (Marina, Cristóvão, Hélio Bicudo, Chico Alencar) e, para isso, nem precisou da Globo e da Veja.

Esse PT errou por si mesmo, e Dilma só confessou seu erro depois das eleições, já era tarde, pois esse PT jamais foi revolucionário.

Foi, isso sim, mentiroso durante 13 anos, o mesmo número de legenda é o mesmo número do fim. Ironia.

Termino: o PT é muito importante para a democracia, mas não esse tipinho de PT.


sexta-feira, maio 06, 2016

Filosofia: 2º ano do Ensino Médio


Conforme o Currículo Mínimo: Instrumentos do Pensar Filosófico
- Apropriar-se de princípios e de alguns dos instrumentos da lógica para o pensar filosófico; e
- Desenvolver o raciocínio lógico e a argumentação.

DO LÓGOS AOS PRINCÍPIOS DA LÓGICA

I. Razão e Fé na Idade Média: Patrística (do século II ao século VIII)

1
. Precursor da Patrística:
a. Fílon de Alexandria ou Fílon Judeu (23 a.C-41 d.C): 1) toma da Estoá o conceito de Lógos e toma de Platão a estrutura do mundo suprassensível e o mundo das Ideias.

2. Patrística Apostólica:                                                                                                                .
a
. Clemente de Roma, discípulo de Pedro, ele não tem preocupação com a filosofia e seu olhar é para dentro;

3
. Filosofia Patrística Apologista ou Apologeta Helênica ou Filosofia Helênico-Patrística:
a
. Os textos dos apologetas eram conforme as letras jurídicas, ou seja, suas obras defendiam os imperadores romanos o reconhecimento do direito legal dos cristãos à existência em um império oficialmente pagão;

b
. São Justino (100-165), o mais destacado, filósofo e mártir: 1) segundo ele, a filosofia “era o que nos conduz a Deus e a ele nos une”; 2) ele une filosofia e fé; 3) se admitirmos que Deus revelou a verdade aos homens apenas por meio de Cristo, então os que nasceram antes de Cristo não foram culpados de tê-la ignorado; 4) Justino vai a são João, que diz “todo gênero humano participa do Verbo”; 5) então, existe uma revelação universal do Verbo divino antes do Verbo se fazer carne; 6) Justino vai aos estoicos para afirmar que existe uma “razão seminal” (Lógos);

c. Taciano
(120-180), discípulo de Justino, é contra a filosofia;

d
. Escola de Alexandria: Clemente de Alexandria (150-215), de origem grega, ele representa o que há de mais original na literatura patrística e foi discípulo de Panteno de Sicília (falecido em 200): 1) a filosofia não é obra do mal, mas é um bem de Deus, pois a filosofia aprofunda o sentido da fé; 2) o Verbo assume as funções de um pedagogo para estabelecer limites; e

e. Orígenes (185-253), discípulo de Clemente de Alexandria: 1) influenciado pela noção estoica de Lógos, que é a ordem racional do mundo, ou seja, o Lógos é força de unidade na dispersão (grego); 2) no entanto, para Orígenes, o Lógos também não é grego, ao dizer que é princípio ativo que dirige o mundo, mas o mundo judaico-cristão; 3) o Lógos se faz o princípio divino que vive nos homens, divinizando-os; 4) Jesus é o Lógos, ou seja, é tempo imanente e transcendência, eis a fonte das duas naturezas de Jesus.  

LÓGOS: lei, assim como ler, vem de legĕre, de raiz leg, também sob a forma lig-, cujo particípio é lectus, de radical lec.t-, transformadas em português em l(e)-, lh(e)-, le.ç- ou lei.t. Da mesma origem, lei e ler, portanto, encontram-se em colheita. Contudo, antes de separar o grão ruim do grão que é bom, o ato de selecionar está submetido a tudo que envolve o ciclo da terra, a natureza (physis, movimento).

1. “Heráclito, fragmentos contextualizado”, tradução, estudo e comentários de Alexandre Costa: 1) “Ouvindo não a mim, mas ao logos, é sábio concordar ser tudo-um” ou aparente-inaparente; 2) se ouve o  “eu”, dá ouvidos ao mundo enganoso de suas falsas impressões e ao bulício da idiossincrasia; 3) ouvir o logos é concordar com ele, obedecer, acatar o que ele diz e mostra é ser sábio para perceber que o Lógos é ser tudo-um; 4) a escuta determina a fala, que diz a mútua necessidade entre divergência e concordância, o que Heráclito designa como harmonia; 5) o Lógos mantém a unidade, a multiplicidade e a tensão entre elas, fazendo concordar o que discorda;

2. “Estoicismo, Ceticismo e Ecletismo”
, de Giovanni Reale: 1) o Lógos é princípio da verdade (com suas leis do pensar, do conhecer e do falar) na lógica, é princípio criador (como princípio ontológico) do cosmo na física, é princípio normativo na ética ou princípio que determina o sentido das coisas, ou seja, o fim e o dever-ser do homem, que é objeto da ética; 2) a essência do Lógos não se esgota no conhecer e no falar; 3) princípio espiritual que dá forma a todo universo e a todo homem; 4) a lógica é método, é o esqueleto, é a casca do ovo; 5) o Deus dos estoicos, que é Physis (faz tudo nascer, crescer e ser), é também Lógos, vale dizer, princípio de inteligência, de racionalidade e de espiritualidade; 6) O Deus estoico, à medida que se identifica com a natureza, não pode ser pessoal; mas, depois, isso se transforma; e

3.
“Os assassinos do sol”, de Marcio Tavares d’Amaral: 1) Paulo, judeu-helenístico, é responsável pela helenização do cristianismo: penetração dos logos de Jesus no mundo greco-romano e sua difusão através da língua grega; 2) “Logos nós traduzimos depois apenas por pensamento, razão – e não é pouco, mas é menos. O dizer da palavra logos tinha ainda, em Heráclito, uma grande potência de instauração, contenção em limites, de dis-posição, recolha de “tudo o que é”.


quinta-feira, maio 05, 2016

Filosofia: 1º ano do Ensino Médio (aula 1)


Conforme o Currículo Mínimo do Estado do Rio de Janeiro:

Mito e Filosofia

-  Identificar o discurso mítico;
-  Identificar o discurso filosófico;
- Articular as relações entre mito e filosofia; e
- Situar o surgimento da Filosofia e suas contribuições na Grécia Antiga.

I. A Palavra Mítica

1. Mínios
. 1) A vida social organizava-se ao redor e por causa de um centro, qual seja, o palácio, cujo papel é ao mesmo tempo religioso, político, militar, administrativo e econômico. Atraindo tudo para seu centro como se fosse uma força centrípeta, o palácio simboliza o lugar do rei, o representante do sobrenatural no mundo. Sua palavra, portanto, é divina. Amálgama entre a figura do governante e o poder, eis a identidade da lei existente nos impérios antigos; 2) “A vontade do governante, a sua vontade privada, a sua vontade pessoal, a sua vontade arbitrária, caprichosa, o que lhe desse na telha era ali, e era ela o critério para guerra, para paz, para vida, para morte, para justiça e para injustiça”, expressa Marilena Chauí no vídeo “O drama burguês”; 3) O germe desse poder encarna-se nos mínios, entre 2000 e 1900 a.C., quando invadem a Grécia continental e, com eles, surgem grandiosos palácios-cidades em Cnosso, Mália e Festo, na ilha de Creta. Dois séculos depois, o poder absoluto dos mínios se afirma, e, assim, em 1700 a. C., os palácios ampliam-se, é o período neopalaciano (1700-1450 a.C.).

2. Hititas
. Outra invasão paralela, a dos hititas, manifesta-se e se expande pelo platô Anatólio. Em 1900 a. C., eles edificam a Troia VI, com características palacianas semelhantes às dos mínios da Grécia.

3. Aqueus
ou micênicos. 1) Contemporâneo a esses povos, os aqueus ou micênicos se estabeleceram em Peloponeso e, posteriormente, entraram em contato com a Civilização Minoica de Creta; 2) Com uma cultura muito centralizadora, os micênicos têm uma hierarquia social sentenciada pelo soberano absoluto, uma classe rica e, unido a essa classe, um comandante militar;e 3) Por mais que tenhamos diferenças entre poder e política, uma me chama atenção por ser aquela que tece a realidade social, qual seja: a palavra. Na sociedade despótica, a palavra não passa de um instrumento objetivo para, conforme os escribas do rei divino, registrar todos os setores da vida econômica a fim de controlá-los e de regulamentá-los. A palavra, submetida ao poder palaciano, mantém-se nos grupos estritamente fechados, onde a palavra também se fecha nela mesma, pertencendo, portanto, ao espaço privado. Por isso faz sentido o termo déspota, porque, como ele significa “senhor da casa”, a palavra se limita a esse espaço “doméstico”, ao espaço de “oikos”.

II.
A Palavra Filosófica

1. Dóricos
. 1) Com a invasão dos dóricos em 1500 a.C., a palavra palaciana se desmancha para ressurgir, após o fim do domínio dórico, a palavra como política nas cidades-estados; 2) No lugar da força centrípeta do rei divino, a história conhece o espaço de “ágora” (praça pública), lugar onde a palavra chega a todos ou parte de todos. Não mais pertence ao poder sobrenatural, mas a palavra pertence à democracia. Ela é democrática, ou seja, a palavra é conflito, discussão no espaço público.

2. A Palavra em Ágora
. No entanto, essa palavra em estado de conflito na democracia grega não significa desunião. Vernant afirma que “a exaltação dos valores de luta, de concorrência, de rivalidade associa-se ao sentimento de dependência para com uma só e mesma comunidade, para com uma exigência de unidade e de unificação sociais”. Conflito e união, Eris-Phlilia.

3. A Palavra em Ágora
. Pulsa este estado de tensão, onde se discorda e reconhece a diferença na face do outro, o oponente. Bem antagônico ao mundo palaciano, onde não se reconhecia a diferença do outro, “o verdadeiro interesse pelos outros nasceu com os gregos”, escreve Cornelius Castoriadis em “A polis grega e a criação da democracia”, do livro “As encruzilhadas do labirinto – os domínios do homem, volume 2”.

domingo, maio 01, 2016

A luta dos professores do Paraná não é exemplo



            Em 29 de abril deste ano, o confronto entre policias e professores da rede estadual de ensino do Paraná completou um ano. Na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico, em Curitiba, Língua Portuguesa, Filosofia, História, Física, Química, Sociologia, enfim, as disciplinas escolares fecharam seus livros para lutar na rua contra o governo de Beto Richa, do PSDB.
  
            Livros foram lidos na faculdade durante anos para que, uma vez formado, o professor enfrentasse policiais muito bem armados em um campo de batalha. O professor que se formou em Sociologia, por exemplo, paralisou a escola para dizer na rua que “a luta continua”.


  
            Médicos jamais saíram às ruas para gritar palavras de ordem e muito menos para apanhar de policiais militares, mesmo porque o conceito de greve se encaixa perfeito no hospital. Se uma unidade hospitalar para de funcionar, o sofrimento se materializa rapidamente, causando colapso na sociedade. Esse colapso ocorre porque o médico, bem diferente do professor, não vive da palavra, ou seja, não vive da abstração. Sendo assim, o conceito de greve é muito adequado, visto que a natureza do trabalho em hospital materializa-se no corpo, não em ideias. E mais: caso pare sua atividade profissional, o médico não precisará repor suas consultas.

            Uma pergunta: será que o professor pode chamar de “greve da educação” sabendo que suas aulas serão repostas? Não seria mais lógico chamar de “férias antecipadas”? Mais uma pergunta: se o ato de falar em sala de aula se distingue do ato de agir em um consultório médico, pode a palavra de um professor parar a cidade? Ora, quando o médico para de examinar seus pacientes, ele consegue parar a cidade; no entanto, quando o professor para a escola, sua palavra não causa nenhum colapso na cidade. E nós sabemos que a origem do conceito de greve, que é anarquista, tem como finalidade última parar a cidade.


  
            Dois representantes do pensamento anarquista que executaram muito bem o conceito de greve foram Mahatma Gandhi (1869-1948) e Martin Luther King (1929-1968). Com esses dois exemplos históricos, um nos Estados Unidos e outro na Índia, o professor, antes de paralisar suas atividades escolares, deveria abrir livros sobre a história do pensamento anarquista para aprender que paralisar uma escola não é fazer greve. Paralisar uma escola é, antes e acima de tudo, antecipar as férias para depois ainda ter de repor o tempo das férias antecipadas.


  
            No caso dos professores do Paraná, houve ainda um adicional: apanharam feio de policiais. O que houve há um ano com esses profissionais não representa nenhum exemplo de luta pelo motivo de essa luta estar completamente errada como luta da educação. O corpo docente encontra-se muito doente por causa do “parasita sindical”. Esse corpo precisa se curar primeiro dele; precisa recuperar sua força original de pensar a natureza de seu trabalho.  Assim, uma vez curado desse parasita, o corpo docente deve se levantar para que seus movimentos criem formas apaixonantes de intervenções inteligentes e sensíveis no espaço urbano.               
      
Aldo Bourdieu (língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.

sábado, abril 23, 2016

ORGASMO APÓS OS 60 ANOS



Ângela Vieira

Lembro-me ainda de minha avó aos 60 anos. Senhora de idade sem o aroma do erótico, ela era a imagem de quem não sentia mais desejo por nenhum homem - a não ser pelos netos -, mesmo porque não despertava mais nenhum.  Aparentando ter saído de algum conto de fadas de Charles Perroult (1628-1703), a minha Esther representava o modelo clássico da vovó: o da censura, o da moral rígida. Inimaginável ela falar de prazer, de sexo, de gozo. Depois dela, outras vovós vieram para ler contos clássicos de fadas; porém, diferentes de minha avó, elas agora encantam homens mais novos. Essas vovós ainda podem até cuidar dos netos; mas, na intimidade, são os homens os seus bebês. 


Se Esther representou para uma época o final de uma vida, a vovó do século 21 deseja intensamente viver o corpo e a mente por meio de encontros que a potencializem ou, como diria o filósofo Espinosa (1632-1677), deseja “encontros alegres”, porque, embora não possa evitar a morte, ela pode chegar aos 60 anos com uma vida para ser amada para além do quartinho do neto. Vovó quer ser devorada pelo lobo bom, e digo bom porque uma mulher sexagenária, uma vez bem madura, não vê só a boa aparência da “fruta”, mas deseja uma suculenta alma a fim de provar a essência. Uma mulher madura, quando madura mesmo, não quer o corpo pelo corpo, pois ela viveu muito para saber que inteligência, bondade, compreensão, ternura, preliminares, verdade, por exemplo, são ótimos para temperar a carne. Seu paladar é apuradíssimo. O sabor do gozo após os 60 anos assemelha-se ao divino, pois, afinal, ela, a vovó, é divã – deusa que deixa as mortais de 20 aninhos insossas.

Por isso e por muito mais, o orgasmo pós-60 anos jamais é vulgar, visto que o vulgar é fácil como é fácil destruir objetos, e a vovó soube muito bem preservar a idade-corpo e a idade-mente, não se deixando competir com uma adolescente. A vovó se reconhece como não adolescente, não engana sua idade; ela só preserva, na justa medida do tempo, o charme, a elegância, como se fosse brisa que preserva o sutil movimento. Mais: ela seduz porque também pulsa nela, em sua alma, o vigoroso tempo vivido das perdas, das alegrias, das derrotas, dos que se foram antes dela. Por causa disso, ela tem muito a dizer com a calma que o tempo exigiu dela. Nada em sua idade é apressado: chegar ao orgasmo e levar o outro a ele é movimento suave de que quem adquiriu sabedoria, mas também é explosão sexogenária de quem grita pela vida por causa de alegres encontros. Sexagenária era a minha avó. 


Os rígidos sentenciarão que essas vovós são imorais, mas eu pergunto, pergunto e pergunto: a rigidez é valor supremo para a vida? será a vida, a vida em si, rígida? se for rígida como declara a rigidez dos moralistas, por que a vida se renova? o que é rígido ou inflexível renova-se? a beleza da vida não será por causa de ela ser divino movimento, divina inconstância?     


As atrizes Eliane Glardini (64), Ângela Vieira (62) e Bruna Lombardi (62) - só para ofertar três sensuais exemplos -, caso sejam avós, devem contar estórias à noite para seus netos, mas essas vovós, que não são rígidas, vivem mais e mais quando seus “bebês” sorriem ao embalo de sussurros ou de gemidos ao pé do ouvido, à sombra daqueles que secam a vida com rigidez.

Aldo Bourdieu (língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.         


                   

domingo, março 20, 2016

À luz ou à sombra?


A palavra, sabemos, é instável; não é senhora de um só significado, de um só sentido, por isso que ela “é” e “não é”. Por ter a natureza da inconstância. a palavra não pode dizer a verdade, porque, para haver verdade, é preciso existir a constância de A = A.

Para o político, a verdade sempre deve ser dita, pois, como trabalha para o bem dos cidadãos, sua palavra não pode ser ambígua, sua palavra não pode ter duas caras. Mas em que espaço a palavra do político comporta-se como verdade fosse? Pergunto porque a palavra do político precisa de um ambiente que acomode a verdade, que a acolha com segurança. A verdade transmite estabilidade.



Mas que ambiente é esse onde se acomoda a verdade a fim de o político transmitir com segurança a palavra? Ora, esse espaço é o espaço público, mas o entendamos como lugar onde a palavra fica às claras. Diante das câmeras de televisão, perante a multidão sem rosto, o político promete com a face toda exposta à luz do dia ou exposta à luz dos holofotes da TV. Como poderia ser sua palavra mentirosa se o político encontra-se tão exposto? O senso comum acredita que a verdade se manifesta porque, ao estar a palavra às claras, a luz retira da palavra do político toda ambiguidade, ou seja, retira dela toda  inconstância. À luz do dia, a palavra é firme. A verdade, dizem, é luz.

Entretanto, diferente da crença bobinha do senso comum, a verdade jamais poderia se manifestar às claras, porque a verdade não é fácil de ser encontrada, não é valor disponível à luz do dia ou à luz dos holofotes de TV. O que é fácil só é fácil por estar exposto à luz. A verdade, concordemos, não é fácil, como é fácil encontrar objetos à luz do dia. A verdade é difícil na vida, trajetória de uma vida inteira. A verdade, portanto, é busca.

Mas por que buscamos a verdade? É busca porque ela precisa ser encontrada e, para encontrá-la, precisamos saber onde ela está. Ora, se não sabemos onde ela está, e por isso a buscamos, é porque a verdade, que não é fácil encontrar, encontra-se ocultada. Buscamos a verdade para des-cobrir. A verdade não é fácil como são fáceis de ver os objetos à luz do dia. A verdade é segredo à sombra do espaço público, à sombra dos holofotes de TV, à sombra do que o político diz à multidão.

Para o senso comum, a palavra no espaço público é palavra verdadeira, pois ela é dita às claras. Mas é no espaço privado, oculto, à sombra das multidões, onde a palavra não é fácil ser encontrada. À sombra do que é fácil ser encontrado, a verdade é ouvida por poucos, por exemplo, pelo juiz Sérgio Moro. Em latim, “sigilo” significa “marca pequena”, e a “marca pequena” foi quebrada pelo juiz. O que é pequeno, sabemos, não é fácil de ver; porém, uma vez quebrado o sigilo, o que estava oculto, escondido, à sombra da multidão, sai de seu pequeno lugar (conversa pessoal ao telefone) para “assombrar” a luz do dia.

domingo, março 06, 2016

Alétheia

A 24ª fase da Lava Jato é chamada pela Polícia Federal de Operação Alétheia, que na escrita grega é άλήθεια. Os romanos a traduziram como veritas, que se transformou para nós, falantes da língua portuguesa, em verdade. Por causa da tradução,  alétheia perdeu seu sentido original. Isso, entretanto, não exclui a busca de entender um pouco a diferença entre a verdade grega e a verdade latina.


No jornal impresso, no telejornalismo e nas redes sociais, logo se propagou a ideia de que alétheia é “busca da verdade”; porém, se é “busca da verdade”, giramos em círculo ou substituímos seis por meia dúzia, porque o sentido de alétheia se prende ao que nossa cultura entende como verdade. Herdamos dos romanos o entendimento de verdade, entendimento esse que tem como estrutura o direito romano, isto é, a verdade que herdamos do Império Romano vincula-se ao “fato objetivo”, “ao real em si”, “ao que está exposto às claras”. O direito precisa de provas, e as provas são o fato. A verdade do senso comum, que tem como estrutura o mundo jurídico romano, é o fato. Outra compreensão de verdade segundo a língua latina é a qualidade daquele que faz o que diz e que diz o que faz, isto é, a palavra dita só é verdadeira se a palavra se materializa enquanto fato, enquanto realização.


Para os gregos, contudo, verdade não é isso, por isso alétheia, que significa “não esquecimento”. Ora, se alétheia é “não esquecer”, é porque um dia a alma esqueceu e esqueceu porque algo está coberto, velado (lethe). Alétheia é também “des-cobrir, não ocultar”, mas a verdade grega é o momento em que o des-coberto emerge do encoberto. Essa é verdade originária: junção desveladora do encoberto com o seu aparecer, alétheia ou des-cobrimento que irrompe desde o velamento, junção do aparecer com o encoberto. 


Bem diferente da verdade romana, a verdade grega não é o fato, mas a interseção entre o claro e o escuro, quer dizer, para o grego, a verdade não é a luz solar em si e nem a luz lunar em si, mas a junção entre as duas, podendo ser representada pela luz do pôr do sol. Há um belo livro de Guy Van de Beuque que pensa essa questão, Experiência do nada como princípio do mundo.



Até aqui, eu disse que alétheia é a verdade segundo os gregos. Incorreto. O filósofo Gilles Deleuze tem a ideia de “consistência de conceito”, isso significa que o conceito de verdade, por exemplo, depende de cada filósofo. Sendo assim, a verdade pensada por Aristóteles não está na ideia de alétheia. Quem a pensa é Platão na bela obra Fédon.



A Polícia Federal, por meio da Operação Alétheia, trouxe Platão a nós, caindo perfeito para Luís Inácio Lula da Silva e para o PT. E por que perfeito? Porque ambos se esqueceram de suas origens. Mais: eles se esqueceram de que uma das causas de Lula ter sido obrigado a depor na Polícia Federal encontra-se em um dos nomes do próprio partido: Delcídio do Amaral, cuja voz foi gravada pelo filho de Nestor Cerveró em uma reunião onde Delcídio busca comprar o silêncio de Nestor. E quem colocou Delcídio no governo de Dilma Rousseff? Quem ordenou Delcídio comprar Nestor Cerveró? Lula e os militantes do PT se esqueceram, mas Delcídio não se esqueceu. Será que o senador petista leu Platão?







Aldo Bourdieu é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.  

terça-feira, fevereiro 23, 2016

História, Deus e a Filosofia

Por causa da ditadura militar, a Lei 5.692, de 1971, ordenou a retirada da Filosofia das escolas brasileiras. Após 25 anos, ela retorna; porém sem ser obrigatória conforme a Lei 9.394, de 1996. A Lei 11.684, de 2008, determina que o pensar filosófico é obrigatório no ensino médio. Entretanto, como não existe professor de Filosofia formado em número suficiente para lecionar nas escolas, o estado brasileiro encontrou uma saída - o professor de história pode lecionar Filosofia.

Se o professor de história fala Filosofia a jovens do ensino médio, a Filosofia, óbvio, não fala de si mesma, sendo, portanto, um estranho que fala Filosofia. Por ser um estranho que fala, ele deforma a Filosofia, e tamanha desfiguração ocorre quando a história fala a Filosofia na Idade Média, a ponto de dizer que a Filosofia, por estar na Idade Média, não é Filosofia.

Mas Deus deve estar na grade curricular de Filosofia a fim de que seja pensado por meio de filósofos medievais que possibilitaram a riqueza de diálogo entre a fé e a razão. Muito diferente do professor de história que fala Filosofia, pertence à Idade Média uma Filosofia plural, farta de tensões, cuja linguagem exercita a mais autêntica Filosofia que pensa profundamente Deus. 

Para que Deus seja pensado na escola por meio de uma linguagem profundamente reflexiva, que é a linguagem filosófica, o professor de história precisa sair de cena com suas aulas que não compreendem a Filosofia, mesmo porque a história não pensa conceitos e não pensa porque não cabe a ela pensá-los.

O destino da Filosofia, por outro lado, é pensar conceitos ou se pensar na própria linguagem. Se Deus é evocado, se Deus é pronunciado, a vastidão do divino na alma humana, além de ser fé, também é razão que compreende a fé enquanto conceito vital para o ser humano. Não é da natureza da fé se pensar, mas sim é da natureza da razão reflexiva se pensar e pensar a fé na vida humana. Para tanto, o professor de Filosofia precisa estar muito bem formado a fim de reparar o erro ainda cometido pelo professor de história, o de falar o que não sabe.

Existe um deus menor propagado por homens menores, aqueles que se julgam pregadores da “verdade” desse mesmo deus, limitado pela densa ignorância, pela espessa arrogância da intolerância. Por outro lado, pulsa um Deus pensado por cristãos da Idade Média que engrandecessem o pensamento.

Esse Deus precisa ser lido na escola, precisa ser entendido pela razão. O deus falado de qualquer maneira por cristãos em qualquer igrejinha de esquina, erguida ao lado de qualquer boteco como se ela mesma fosse o próprio boteco de deus, tem prevalecido como inconsequência delirante de uma fé insana e autoritária de pastorzinhos e de padrecos. Por falarem muita merda em nome do Senhor,

Deus precisa ser pensado na escola por meio da Filosofia; no entanto, ao ter sido desfigurada pelo professor de história, falta Filosofia até hoje na escola. Porque o pensamento filosófico não fala o pensamento filosófico, visto ser falado pelo professor de história, a Filosofia está ausente no ensino médio desde 1971, ou seja, são 37 anos sem que a palavra seja pensada na escola.

sábado, fevereiro 20, 2016

Mosquito ou carapanã?

            
Por mais de 20 anos, do ensino fundamental ao universitário, lecionei no Acre e, como professor de Língua Portuguesa e de Literatura, conheci de perto a escrita de meus alunos. Conheço seus erros mais comuns, conheço muito bem a estrutura educacional da escola pública acriana para afirmar que os índices muito ruins de Língua Portuguesa, segundo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), não poderiam ser outros. A escola pública do Acre ensina muito mal a Língua Portuguesa.
            
A Academia Acreana de Letras e a Secretaria da Educação do Acre, entretanto, põem a público um plebiscito para que, por exemplo, alunos escolham entre “acreano” e “acriano”. Escrever bem nas escolas se reduz a isso, à escolha de um fonema, ou seja, à escolha de uma unidade mínima não significativa, porque, nessa unidade, segundo alguns, encontra-se a identidade de um povo. Escrever “acriano”, portanto, é perder a identidade do povo “acreano”.

Não quero aqui pensar, segundo a Filosofia, o conceito de identidade e, segundo a gramática clássica, pensar o fenômeno na própria palavra para que seja “acriano”; não quero também entrar na questão justa de, fora da natureza da própria palavra, escrevermos “acreano”. Sou defensor das duas formas, tal como existiam antes da atual reforma ortográfica, visto que a Lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971, permitia escrever “acreano” (forma popular) e “acriano” (forma clássica). No entanto, afirmar que “acreano” mantém a identidade histórica de um povo por causa de um fonema, convenhamos, é afirmar, por analogia, que a população brasileense perde sua identidade por ter de escrever, conforme a lei ortográfica atual, “Brasileia” e não “Brasiléia”. Tanto o fonema quanto o acento são “traços”. A identidade encontra-se, nesse caso, no traço? 

Se um “acreano” ou um “acriano” visitar o Rio de Janeiro, sua identidade regional será identificada por causa do som ou do fonema “e” em “acreano”? Penso que não. Entretanto, se esse mesmo “acriano” ou “acreano” falar “carapanã da dengue” e não “mosquito da dengue”, a sua identidade regional marcará diferença na cultura linguística do Rio de Janeiro? Penso que sim. Igual a “mosquito”, “carapanã” é gênero, devendo a espécie ser “carapanã Aedes Aegypti” no Acre e “mosquito Aedes Aegypti no Rio de Janeiro”. Todavia, a Academia Acreana de Letras e a Secretaria Estadual de Educação do Acre incomodam-se com o “acriano”, permanecendo indiferentes ao “mosquito da dengue”. 

Ora, a memória habita na palavra, não no fonema de “acreano”, não no acento agudo de “Brasiléia”. Nós pensamos a beleza identitária do Acre não por causa de “e” ou de “i”, mas porque “e” e “i” deixam de ser unidades mínimas não significativas NA PALAVRA, quer dizer, por estarem NA PALAVRA, deixam de ser unidades mínimas não significativas porque os fonemas “e” ou “i” se relacionam com outros fonemas NA PALAVRA. É a palavra, portanto, guardiã da memória; pois, nela, NA PALAVRA, as relações fonêmicas possibilitam o fonema ser unidade mínima significativa ou, mais ainda, possibilita NA PALAVRA o sentido de um povo ou perda dele.

Sou pai de uma filha acriana ou acreana, Lara Valentina, e ela chegará ao Rio de Janeiro ainda neste mês para conviver comigo, com a minha esposa acreana ou acriana e com a cultura carioca. Quando pequena, creio uns 9 anos, ela me perguntou o que ela deveria fazer para também ser carioca. Pensei um pouco e disse-lhe “diga sempre pernilongo ou mosquito, jamais carapanã”. Quando ela pisar em solo carioca, a primeira coisa que direi a ela será “minha acriana filha, diga sempre nesta parte do Brasil 'carapanã', porque essa palavra marca a sua identidade regional”.               
           

Aldo Bourdieu é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.

sábado, fevereiro 06, 2016

A ESSÊNCIA segundo MARX e ENGELS

A editora Boitempo publicou em 2007 "A Ideologia Alemã", de Karl Marx e de Friedrich Engels. Em hipótese alguma, trata-se de uma obra filosófica, isso é evidente, porque os autores não pensam os conceitos; eles os jogam nas folhas.



Dois desses conceitos, "ser" e "essência". Nas páginas 46 e 47, escreve-se no rodapé que "a 'essência do peixe é o seu 'ser', a água - (...). A 'essência' do peixe de rio é a água de um rio. Mas esta última deixa de ser a 'essência' do peixe quando deixa de ser um meio de existência adequado ao peixe, tão logo o rio seja usado para servir à indústria, (...)".


Não são pensados no livro os conceitos "ser" e "essência", e o leitor que ignora leituras clássicas sobre o "ser" e a "essência" limita-se aos autores de "A Ideologia Alemã", que não pensam os conceitos, joga-os.



Quando Aristóteles pensou o "ser" e a "essência", ele não excluiu a vida (do peixe no rio), ele não excluiu uma vida melhor (para o peixe no rio).



Porque não visitam o pensamento clássico, porque não pensam conceitos no livro, Engels e Marx mutilam "ser" e "essência". E nem poderiam pensar, porque, segundo eles, "filosofia é lixo".

sábado, janeiro 23, 2016

A MONARQUIA DE MOMO


De Aldo Tavares

Momo, sabemos, é rei, quer dizer, porque governa, ele representa a política de um reino que possui a força da transfiguração, no sentido de que a transfiguração recusa as restrições do que é funcional; nega os limites do que é ocupado pelas horas determinadas do trabalho. Ser súdito de Momo é perder, portanto, função determinada, é não estar ocupado. Uma vez em seu reino, todos se desocupam por causa da transfiguração da fantasia. Mas, para que a névoa da fantasia se disperse, a fechadura da porta ou da passagem entre realidade objetiva e máscara deve ser aberta com a chave. Para isso, com a mãe direita, o prefeito da cidade a entrega à mão esquerda de Momo. Mão direita e mão esquerda: se “a direita” é o lugar onde nasce o Sol (a Leste) e se “a esquerda” é onde ele se põe (a Oeste), o prefeito simboliza o governo diurno que, por meio da lei, cobra retidão e pune desvios; e Momo, o governo noturno que cobra alegria e não pune quem brinca.

Ao dizermos fantasia - palavra da mesma origem de fantasma -, a ideia refere-se à projeção de uma sombra, isto é, a sombra imita o modelo: se o braço direito é erguido, a sombra também o ergue, mas só que ergue o esquerdo, ou seja, aquele que imita é aquele que inverte. Como a palavra momo origina-se de mimesis, de imitação, pergunta-se: quem o rei Momo imita? Ora, se ele recebeu com a mão esquerda a chave do prefeito, se ele governa depois de o Sol se pôr, se Momo é um ser político (“o que deve ser comum a todos”) -, o reinado momesco imita o poder sério, imita o poder oficial, e, porque imita, Momo inverte o que é sério, coloca do avesso o que é oficial. O rei imita o prefeito. Seu reinado imita a política da cidade.

Mas o que é o avesso? Ora, o avesso da folha é “a parte de trás”, a parte ocultada; é também o verso da folha, o que, para ser visto, precisa ser virado, pois está coberto pela superfície visível da parte frontal da folha, o anverso. Não vemos o verso da folha, óbvio, por ela estar coberta, ocultada ou ainda por estar sombreada pela superfície. Sendo assim, por ser Momo, por ser aquele que imita, seu reino não só inverte como também des-cobre o que a superfície do dia oculta, sabendo que oculta pelo fato de o dia, que é ocupação, conter ou inibir o excesso. No entanto, por ser filho da deusa Nix (Noite) ou de uma mãe que possibilita sonhos, fantasias, fantasmas, Momo, um desocupado divino, é demasiadamente gordo, porque seu corpo representa o excesso ofertado pela alegria, pela máscara, pela loucura (folião), pelo brincar, pelo riso. Momo é a fartura do encontro. Momo destrona o que a luz do dia represa.



Opondo-se ao discurso oficial do prefeito ou à linguagem que regula as desigualdades sociais, Momo promove a ascensão do avesso, porque faz emergir a força subversiva da fantasia, que, após ter recebido a chave do prefeito, estimula a circulação do riso, da brincadeira, da paródia, do escárnio, da máscara, do louco, da festa – palavras que foram excluídas pela disciplina do trabalho, pelo poder sério, pelo poder oficial.
Se o trabalho arranca o suor do rosto, se é sacrifício e exploração, a festa de Momo rebaixa quem domina e explora, visto que, por ser festa,  iguala todos por meio do ato estético de brincar, e, por causa do brincar, a diferença entre ricos e pobres cede a uma louca confraternização. “A loucura tem uma força maior do que a razão, porque, muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma chacota”, nos ensina Erasmo de Rotterdam em O Elogio da Loucura. “Que é, afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco. O mesmo ator aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência”.                                                                       .

E quem mais vive nesse reino da transfiguração? Nessa monarquia fantasiosa, sentado à esquerda de Momo, encontra-se a figura do Bobo, palavra que vem
provavelmente do latim balbus (“aquele que pronuncia mal, gagueja”), porque o Bobo sabe que a razão “é erro ou pobreza, porquanto, ante o mistério do mundo, não sabemos senão balbuciar”, escreveu Régis Jolivet em Tratado de Filosofiai, volume 3.

Houve época em que o Bobo sentava-se à esquerda do rei, ao lado de quem rege, de quem governa, organiza; o Bobo sentava-se ao lado do centro, do eixo, da linha reta; sentava-se ao lado esquerdo do cardo. O Bobo, portanto, imposturava no (seu) ponto cardeal, à esquerda do ponto fixo, isto é, ele transbordava o lugar a oeste do rei, onde fica o poente ou onde se declinam as metáforas do Sol. Após um dia de cansaço, dia de trabalho injusto a serviço de quem im-põe, o Sol se declina para que a noite acolha e cubra os corpos de descanso, de sono, de sonho, de fantasia, de sombra. A palavra oeste (à esquerda) significa “noite”.

Já sabemos que estar à esquerda é estar no poente, o que ainda não sabíamos é que esquerda vem do grego aristera, etimologicamente “excelente, ótimo”, uma vez que aristera se prende ao superlativo aristos, “o melhor, o mais nobre, o exímio, o magnífico”. Ora, se o Bobo eleva-se à medida que o Sol se põe, ao cair da luz, justifica-se então o porquê de o bobo ser excelente, pois, à proporção que o dia se retira de cena, o que se encontrava retido em si mesmo por causa da luz, aos poucos, excede-se. Quando dizemos que ele é excelente, reconhecemos que não só se excedeu como se excedeu, no caso do Bobo, com “graça”. Por não estar à direita da ordem fixa do rei, o Bobo é aquele que, não agindo por conveniência, não estando de acordo com a aparência do dia, senta-se à esquerda de quem governa para se exceder e, excedendo-se, ouve aqueles que se excederam à noite em suas fantasias, delírios oníricos em desacordo com a ordem do dia.


                                                                               .

A palavra direita em latim é dextera ou dextra, podendo se aproximar de decet por etimologia popular, que significa “o que é conveniente”. Dextra tem a mesma raiz em grego, deksiá, cuja ideia é “de bom augúrio, favorável”. Enfim, se o bobo não se posiciona à direita, é porque não representa, por não se exceder, a segurança do leste - do grego eós, “aurora, alvor do dia”; e do latim oriens, “o que nasce”. Por isso, ele se encontra à esquerda, porque o Bobo representa, ao se exceder, perigo que se manifesta por vir do ocidente - do latim occidens e do grego disi, “onde morre o Sol”. Mas por que perigo? Sendo rebento da mãe Noite que atravessou a fronteira entre a escuridão e a luz para se sentar à esquerda de quem im-põe, o Bobo é o noturno que se fan-tasiou de Bobo a fim de, ocultando-se, des-cobrir, à luz do dia, o que o Sol oculta. O Bobo, sombra que impostura a fim de que a clarificada “verdade” das coisas diurnas, encobertas pela própria luz do dia, ponha-se do avesso.

Por causa desse perigo, em 389 d. C, Teodósio e Velentiano II eliminam as festas do calendário. Em 395, Arcadius proíbe no feriado nos dias de festas pagãs. Em 425, Teodósio e Velentiano II proscrevem divertimentos, comédia e circo no domingo e nos dias de festas religiosas. O Concílio de Cartago, em 398, excomunga aqueles que deixam a igreja para ir a espetáculos em dias de festa. O Concílio de Tours, em 567, condena as torpezas pagãs que acompanham as festas de fim de ano, que substituíram as saturnais e passaram a ser chamadas de festas dos loucos; o de Toledo, em 633, reitera a condenação. Tantos interditos só denunciam o quanto perigoso foi nesses anos o excesso político da fantasia, não conseguindo a Igreja, mesmo com tais proibições, subtrair a Festa do Bobo. Isso, porém, não indica que o riso tenha recebido licença dos sacerdotes para manifestar sua liberdade. O que ocorreu é que, não podendo conter a Festa do Bobo por meio de interditos, a Igreja, ainda que neoplatônica, acolheu a força híbrida do Bobo a fim de debilitá-lo ao se fundir com a seriedade do sagrado. A alegria do Bobo, entretanto, cruza os séculos por não ter se fundido ao sagrado.

M
as o que é essa alegria? Por se recusar ao que é ajustado, a alegria do reino de Momo é o desajuste do excesso, da fartura, do inexato, da ilusão, do falso, do irreal. Eis, portanto, para ser alegre, ele: o ato desnecessário, sem função, por isso, desinteressado, opondo-se, pois, ao “ocupar posição, matar de cansaço”; e mata-se de cansaço porque existe na ocupação o sentido do “trabalho de assentar”. A alegria do Bobo, que tanto ri do “trabalho de assentar”, é desinteressada por saber que “trabalho” origina-se do latim trĭpālĭs, termo que significa “instrumento de tortura, de torção”. Por isso, para ser alegre, ela: palavra que, expressada pelo Bobo e por Momo, é a ilusão desinteressada, qual seja: im-postura. Por não desejar pôr, o bobo é im-postor; por não desejar (se) ajustar, o rei Momo é im-postor. Eles, que não se matam de cansaço para ocupar posição porque não trabalham para ajustar e muito menos para se ajustarem, não usam o instrumento que torce para ocupar o espaço. Para ser alegrar – esse afeto que nos expande, sentimento que nos alarga por ser encontro -, é preciso estar (des)ocupado. Bobo e Momo são dois desocupados. Nesse sentido, como não ocupa nenhuma posição na sociedade, a fantasia, que é livre, oferta-nos a nobre ilusão de nos sentirmos também desocupados. Fingir é fugir da ocupação. A alegria não quer, não pode e nem deve se ajustar ao instrumento de torcer para assentar, para ajustar, para acomodar, para fixar - por isso a monarquia de Momo é impostora e, para tanto haver a impostura, os súditos brincam... com a livre seriedade da alegria.


quinta-feira, janeiro 07, 2016

O ESTADO FAZ GREVE MELHOR DO QUE SINDICATO


Nunca conheci um sindicalista que abrisse a boca com o bom hálito da inteligência. A única forma de luta que conhece é a greve, mas, no Rio de Janeiro, por exemplo, o estado realiza uma greve na saúde muito "melhor" do que o sindicato.

Quando a saúde entra em greve como agora, visíveis são seus resultados imediatos. Corpos e mais corpos com suas dores são expostos, a greve da saúde é material, corpórea.

Porém, a "greve" da educação se estende por anos e anos porque não é visível; ela não para a cidade, pois, por não ser material a greve da educação, ela não pode ser chamada de greve.



A greve da saúde paralisa a cidade porque o médico e o enfermeiro não vivem da palavra, porque, se vivessem, não parariam a cidade, visto que a palavra é uma abstração, uma ideia, e ideias ou palavras não morrem visivelmente à porta de escolas. Palavra não é corpo material.

Por causa disso, a "greve" da educação, realizada pelo estado, ocorre de forma tão sutil que, mesmo a escola funcionando, a educação encontra-se em "greve".

Entretanto, como sindicalista é animal irracional que rumina capim ideológico, seu cérebro, em estado vegetativo - e digo vegetativo pelo fato de que é o aparelho partidário que o mantém vivo -, não difere a natureza do hospital da natureza da escola, por isso que, para esse cérebro, o trabalhador médico iguala-se ao trabalhador professor.

Para esse morto-vivo de inteligência, zumbi de ideologias, a escola é o seu cemitério, lugar onde se enterrou para ser candidato pelo aparelho partidário.

O estado apresenta greves bem "melhores".


quarta-feira, janeiro 06, 2016

Um belo autor

A PALAVRA

Reli dois livros de Giorgio Agamben ("Profanações" e "O homem sem conteúdo") e comecei a ler "A potência do pensamento".

Heidegger afirma que "filosofar é recomeçar" e, para isso, seu pensamento vai à raiz da palavra. O recomeço mora na palavra - Heidegger dominava, como homem do século XX, o latim e o grego.

Seguidor das trilhas do alemão, Agamben filosofa porque sabe que a palavra é recomeço. Em "O homem sem conteúdo", ele desorganiza um dos  conceitos de Marx, PRÁXIS.

Para isso, Agamben, que domina o grego, visita quem, primeiro, pensou a PRÁXIS, Aristóteles. Pensar relaciona-se à palavra e, se ela está doente, só a filosofia para recomeçar, isto é, só a filosofia para ir à palavra antes de ela ter ficado enferma por ideologia, por ignorância, por vulgaridade.

Em "A potência do pensamento", Agamben costura conceitos para pensar a linguagem, por exemplo, na parte "Língua e história", onde, além de Agostinho, de Benjamin, ele dialoga com Varrão. Eis um trecho (pág. 35):

"Uma vez que o homem só pode receber os nomes, que sempre o precedem, através da transmissão, o acesso a essa esfera fundamental da linguagem é mediada e condicionada pela história. O homem falante não inventa os nomes nem estes emanam dele como uma voz animal: pelo contrário, eles lhe chegam - diz Varrão - descendendo, isto é, através de uma transmissão histórica. Os nomes só podem nos ser dados, traídos."

A origem do nome nos escapa e, sem a origem, sem a fonte, não conhecemos a causa das coisas, o que os gregos chamavam de "arké".

FANÁ-TICO e POLÍ-TICO

Sem in(stru)ção, não existe escolha, a pessoa não sabe que não sabe escolher. Embora tenha in(stru)ção, a pessoa pode até escolher o erro, mas ele, por ter in(stru)ção, sabe o que escolheu.

Fanático tem "tico". Político tem "tico". Em grego, "tico" significa "derreter". Mas qual a relação de "derreter" com (FANÁ)tico e com (POLÍ)tico?

Se ignoramos a origem, não sabemos o que falamos no presente.


sábado, janeiro 02, 2016

Bobos e palhaços, origem religiosa

Quando muitos olham a alegria do bobo e do palhaço, não fazem a ideia de que ambos pertencem à manifestação de cultos religiosos.

Havia, portanto, na cultura religiosa, o brincar. Hoje, moderninhos que somos, perdemos a memória do religioso como jogo.

Ainda hoje. 

O religioso encarna o peso do sério, adquirindo a força da separação, da distância. Voltar às origens do religioso é entender o brincar.