sexta-feira, fevereiro 12, 2010

A TV Aldeia desconhece rei Momo



Imagem de Nêmesis, deusa da Vingança, irmã de Momo.











O Estado

Antes de deixar a prefeitura do Rio de Janeiro, César Maia (DEM ou ex-PFL, ou ex-PDS) propôs à escola de samba São Clemente uma verba pública para desfilar na Marquês de Sapucaí. Mas, para justificar tamanha generosidade, o prefeito impôs esta condição – a escola de Botafogo deveria se apresentar como as outras escolas de samba.

Entrave para o poder público carioca, a São Clemente sempre exibiu na avenida o “avesso” do Rio de Janeiro e do Brasil, o que Portela, Salgueiro, Mangueira, por exemplo, não exibem. A proposta de César Maia tentou colocar na ordem uma escola que representava a autenticidade da festa de Momo. A escola de Botafogo recusou a proposta.

Em Rio Branco, como o reino momesco não é organizado pela irreverência ou pela desobediência popular, o governo do Estado fala por rei Momo. Não apenas diz onde Momo deve estar; mas propaga, segundo seus interesses, quem ele é.

Aqui, o Carnaval, submetido à ordem do Estado, que define seu espaço público e sua simbologia, não manifesta uma de suas características históricas: o “avesso”.

A TV Aldeia


O Carnaval é muito sério para ser deixado para a TV Aldeia. As suas verborréias carnavalescas emitem uma ignorância bem comportada contra o significado original do reinado de Momo. Nesse aspecto, a TV Aldeia não se diferencia das outras emissoras.

Igual às outras, ela cumpre a função social de deformar essa festa porque deconhece, por exemplo, sua rede semântica. A TV Aldeia não sabe dizer quem é Momo.

Meu dedo desliga a TV, meus olhos leem Georges Minois. “Filho da noite, censor dos costumes divinos, Momo termina por tornar-se tão insuportável que é expulso do Olimpo e refugia-se perto de Baco. Ele zomba, caçoa, escarnece, faz graça, mas não é desprovido de aspectos inquietantes: ele tem na mão um bastão, símbolo da loucura, e sua máscara. O que quer dizer isso?”, pergunta o autor de História do riso e do escárnio, editora Unesp.

O que quer dizer isso?, eu pergunto à TV Aldeia.

O português do www.ac24horas.com



"Os poucos minutos de chuva que caiu (...)."

Defendo a ideia tradicional de que o verbo "caiu" deve concordar com o núcleo do sujeito, no caso, "poucos minutos".

Alguém poderia dizer que é a "chuva" que caiu, não "poucos minutos". No entanto, os termos "poucos minutos" prendem-se ao termo "chuva" por meio da preposição "de".

Não está errado, portanto, escrever "os poucos minutos de chuva que caíram".

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

A TV Aldeia não sabe o que é Carnaval


Nesses anos de TV Aldeia, nunca assisti a uma programação que soubesse falar do Carnaval porque sua direção ignora a história de Momo e a representação simbólica dessa festa. A TV Aldeia contribui para o vazio semântico do Carnaval. Isso é admissível para uma TV comercial, mas não para uma TV educativa, que deveria promover a cultura original dessa festa popular.

Nesses anos de política da Frente Popular, a TV Aldeia nunca se corrigiu e, por causa disso, neste ano, mais uma vez, não tenho esperança de assistir a algo inteligente ou de ouvir palavras que revelem o sentido autêntico dessa folia (loucura).

No Acre, o poder público, em tudo, organiza o espaço do Carnaval; porém, por meio da TV, esse poder não organiza o sentido histórico do reino de Momo.

Diante da TV, a sala de aula pode muito pouco ou quase nada; entretanto, mesmo assim, apresentei a meus alunos uma rede (simbólica) de palavras relacionadas ao Carnaval, partindo de rei Momo, que é gordo, que recebe a chave do prefeito.

O que significa a palavra "Momo"? O que representa sua condição de "gordo"? Qual o sentido de receber uma "chave" de um "prefeito"? A isso, a TV Aldeia não responde e, se não responde, não pode saber o que é Carnaval.

Não sabe.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Quando a TV Aldeia deseduca


Escrevi em jornais acrianos muitos textos sobre o Carnaval, breves ensaios sobre Momo, o rei da festa. Escrevi para registrar (em vão) o sentido original do Carnaval diante da deformação imposta por evangélicos.

Não só fiéis, mas até o governo da Frente Popular, por meio da TV Aldeia, propaga uma ideia deformada de Momo. Na condição de TV que se diz "cultura", ela presta um péssimo serviço quando repórteres e âncoras abrem suas bocas para falar dessa festa popular.

A TV Aldeia deveria saber falar do Carnaval, da sua importância simbólica, da sua história, do seu sentido mais original. Mas, neste ano, mais uma vez, não será diferente. Aníbal, um dos responsáveis pela TV Aldeia, contribui para desfigurar essa festa.

Sugiro a leitura do livro História do Riso e do Escárnio para compreendermos o sentido do Carnaval.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

O português da imprensa oficial

Lembra aquelas placas com erros de português? Escritas por pessoas humildes, brasileiros com baixa escolaridade, elas sempre são motivos de galhofa. E quando pessoas ilustradas não escrevem bem? E quando um representante da imprensa oficial erra?

O texto entre aspas, retirado do blogue de Altino Machado, foi escrito pelo secretário Aníbal Diniz. Só quero me referir ao "junto à".

Na condição de homem da imprensa oficial, o erro é um péssimo exemplo. "Junto à" é o mesmo de "perto da", o que não tem sentido no texto. Comprou-se o helicóptero em algum lugar (na Helibrás) e não "perto da" Heliobrás.

Há outros probleminhas, mas esse basta como exemplo a meus alunos.

"A compra de um helicóptero Esquilo AS 350 feita pelo governo do Acre junto à Helibras se deu como resultado de uma licitação em que concorreram as empresas TAM e Helibras, que venceu pelo critério de menor preço e cumpriu o contrato de entrega do aparelho, além de um pacote de treinamento de pilotos e mecânico, assistência técnica e seguro. Todas as informações e documentos alusivos à licitação foram disponibilizados para o Ministério Público Federal. O contrato para a aquisição do helicóptero ocorreu de forma lícita e transparente. Entendemos que o MPF tem todo o direito de investigá-lo para que a União não venha a ser responsabilizada por atos abusivos de autoridades que a representam. O ex-governador Jorge Viana, que responde pela presidência do conselho administrativo da Helibras, e não pelo seu departamento de vendas, não teve participação no processo que resultou na compra do helicóptero."

Aníbal Diniz
Secretário de Comunicação do governo do Acre
Por e-mail

sábado, fevereiro 06, 2010

PMDB é um exemplo

Flaviano Melo, campeão de gastos com verba indenizatória
De Freud Antunes

Em pleno recesso parlamentar, em janeiro, os deputados continuaram realizando gastos por conta do dinheiro público, utilizando a antiga verba indenizatória que atualmente é chamada de Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap).

De acordo com o levantamento realizado no prório site do Congresso Nacional, Flaviano Melo (PMDB) foi o campeão do disperdício, chegando a R$ 26.206,13. A maior parte, ou seja, R$ 12 mil foi usada para financiar viagens entre Rio Branco, Santa Rosa, Tarauacá e Feijó.

A manutenção do escritório que deve ficar aberto mesmo quando não há sessões consumiu R$ 6.657,97, custo que incluiu o pagamento de quatro assessores, cerca de R$ 400 em Sky (tv via satélite), gasto com energia elétrica e telefonia.

O segundo colocado foi Ilderlei Cordeiro (PPS) que utilizou R$ 25.330,38 do dinheiro público, apresentando também R$ 12 mil em viagens com escalas em Cruzeiro do Sul, Feijó e Jordão.

O Ceap financiou ainda o aluguel de carros em uma empresa chamada Center Comércio e Consultoria LTDA que cobrou do parlamentar de oposição R$ 6 mil.

O terceiro colocado foi Gladson Cameli (PP) que usou R$ 19.608,10, sendo R$ 9,4 mil apenas com passagens de avião para Cruzeiro do Sul, Foz do Breu, Marechal Thaumaturgo e Porto Valter. A locação de veículos também chegou a R$ 5,4 mil.

O deputado que menos gastou em janeiro foi Nilson Mourão (PT) que utilizou R$ 296,67 da antiga verba indenizatória.

O segundo menor gasto ficou com Sérgio Petecão (PMN) que utilizou R$ 618,26 do Ceap depois de ter registrado em novembro e dezembro os maiores gastos do dinheiro público.

Todos os parlamentares acrianos utilizaram em janeiro R$ 82.438,17, um valor que poderia ser aproveitado para suatentar quase 162 assalariados, levando por base o novo mínimo que é de R$ 510.

O Ceap foi criado em 2001 com o nome de verba indenizatória para financiar as atividades parlamentares. Para ter acesso ao benefício, o deputado precisa apenas apresentar as notas fiscais, informando o que foi gasto.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Avaliar e ser avaliado

Ainda defendo a ideia de que bons alunos devem avaliar professores nas escolas públicas acrianas. Em 2004, alunos começaram a me avaliar na escola Heloísa Mourão Marques. Só não me avaliaram em 2009 porque o questinário precisava ser outro.

Com outro questionário, meus alunos me avaliarão no primeiro e no segundo semestres de 2010. Não me exponho a esse procedimento para eu me punir, mas para buscar saídas segundo as críticas de bons estudantes.

Eu tinha dito "alunos", não serão todos. Os que se dedicam mais aos estudos me avaliarão, os mais interessados. Serão escolhidos dez jovens em cada turma, ou seja, 40. Assim como eu os avalio, eles também dirão se estou ou não reprovado como professor.

Se for reprovado, "farei recuperação".

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Mais! escola pública

No Acre, quando estamos em período de eleições, o debate entre homens públicos sobre educação pública é sofrível, e isso quando debatem. Na última campanha, até mãe de candidato tentou dar audiência a políticos chulos, pacóvios.

Longe disso, o caderno Mais!, do jornal A Folha de São Paulo, publicou textos sobre a escola pública. Um pouco a teus olhos.

Governo irá aperfeiçoar gestão, diz secretária
DA SUCURSAL DO RIO

A secretária estadual de Educação do Rio, Tereza Porto, diz que um de seus maiores desafios é melhorar a gestão das escolas estaduais, dando aos diretores e professores mais ferramentas para agilizar processos e tomar decisões.

Ela aposta que o investimento em tecnologia facilitará o trabalho, embora reconheça que ainda há muito a ser feito.

Uma das mudanças esperadas já para este ano é a diminuição do tempo em que alunos ficam sem aulas por causa de pedidos de licença médica.

"Quando assumimos [há dois anos], esse processo era ainda mais demorado. Mas, com o novo sistema funcionando plenamente, o aviso de que há uma vaga a ser preenchida será feito automaticamente pelo diretor, que visualizará on-line quais são os professores disponíveis."

Esse controle maior é essencial, em sua avaliação, não apenas para agilizar a reposição das aulas, mas também para evitar gastos desnecessários com professores temporários em escolas onde há profissionais com tempo vago para lecionar na disciplina em falta.

Tereza Porto diz, entretanto, que existem alguns entraves que dependem de mudanças na legislação, como a autonomia do diretor para montar sua própria equipe. É o próprio professor, com base em sua pontuação, que escolhe onde trabalhará.

Dentro do que é possível legalmente, ela diz que, no Rio, a secretaria tenta alocar o professor numa escola perto de sua residência e, de preferência, com dedicação exclusiva.

Sobre a valorização do magistério, a secretária reconhece que ainda há uma séria defasagem salarial a ser corrigida, mas diz que o esforço do governo tem sido "gigantesco".

"O salário na rede estadual ainda é baixo, mas evoluímos bastante. Em 2008, o aumento [de 8%] foi superior à inflação e, no ano passado, fizemos um esforço absurdo para incorporar ao salário de todos, inclusive aposentados, gratificações que eram pagas somente a alguns. Isso teve um impacto de R$ 7 bilhões na nossa folha de pagamento. Não é pouca coisa, e temos uma lei de responsabilidade fiscal para cumprir."

Outro investimento que ela espera trazer resultados é a implementação, neste ano, de um novo sistema de acompanhamento da frequência dos alunos, totalmente informatizado, em todas as 1.437 escolas.

Todo estudante terá um cartão eletrônico, que irá garantir a passagem gratuita em transportes públicos e que também irá controlar sua utilização da merenda e a presença.

Cada uma das salas terá um computador, onde o professor abre uma pauta eletrônica e pode fazer anotações sobre os alunos para serem compartilhadas com outros docentes.

No Centro Interescolar Estadual Miécimo da Silva, o sistema já funciona desde o ano passado. (AG)

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Como Deus, o salário é eterno

O que escrever na primeira postagem de 2010? Poderia falar das férias. Coisa ridícula é essa de promoção pessoal. Poderia falar da reunião de professores da escola pública. Não somos notícias. Uma observação gramatical? Creio que não, porque, em época de eleições, uma crase ou uma colocação pronominal não são mais importantes do que o salário eterno dos que foram governadores acrianos.

Segundo Altino Machado, um ex-governador recebe R$ 23 mil por mês.

Lembro-me quando a inquieta Naluh Gouveia, com útero e dentes, manifestou-se contra esse privilégio de casta política. Hoje, querendo ou não, Naluh pertence à casta. Do berreiro indignado no passado, o silêncio privilegiado no presente. Os extremos se tocam. Não só ela, o PT silencia-se.

Como Deus, o salário de ex-governadores é eterno. O movimento parado sindical é indiferente. A sociedade civil organizada permite. Após quatro anos ou oito anos no Poder Executivo, ex-governadores receberão por toda a vida um salário de governador.

Fora da ordem, Romildo. Nabor. Cameli. Flaviano. Yolanda. Jorge. Deus os abençoou, e o povo diz amém. Só os imortais merecem tamanha graça.

O ano começou neste blogue. Voltei.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Acabou

As férias chegaram ao final. Chegarei ao Acre no domingo, dia 31 de janeiro, se Deus assim permitir. Afirmo Deus por não ser eu o senhor de meu próprio destino. No primeiro dia de fevereiro, as postagens neste blogue voltarão ao normal.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Os voos do senador Geraldinho


A verba indenizatória, regulamentada em ato secreto de 2003 e republicado no ano passado, segundo o texto, é destinada “ao pagamento de despesas mensais realizadas pelo Senador com aluguel de imóvel, de veículos ou de equipamentos, com material de expediente para escritório, com locomoção e com outras despesas diretas e exclusivamente relacionadas ao exercício da função parlamentar.”

No Senado, polemizaram quando o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) usou parte de sua cota de passagens áreas para fretar jatinhos. Outros 13 senadores têm destinado verba indenizatória dos gabinetes para voar pelo país em aviões particulares.

Depois de Arthur Virgílio (PSDB-AM), que gastou R$ 76.300, e de João Pedro (PT-AM), R$ 51.400, Geraldo Mesquita (PMDB-AC) aparece na terceira colocação, R$ 17.150.

Como disse o saudoso Bezerra da Silva, morto há cinco anos, "este país só vai melhorar quando morcego doar sangue e saci cruzar as pernas".

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Hai(de)ti!!!


Um livro retorna

Eu soube que “O Reino deste Mundo”, do cubano Alejo Carpentier, foi relançado. Antes de retornar ao Acre, comprarei suas palavras para compreender melhor meu continente.

O livro foi lançado em 1948, no México; mas, antes de sua publicação, Carpentier conheceu o Haiti em um jipe, em 1943. Fatos históricos e imaginados entrelaçam-se após os conflitos da independência haitiana, entre 1794 e 1808.

A narrativa situa o leitor nos anos de 1811 a 1820, época da monarquia de Henri Cristophe. O negro Ti Nöel, protagonista, luta contra as formas de poder.

Por falar em poder...

da França
Até início do século 19, a França metia a mão grande em 25% da agricultura haitiana, onde a terra não é tão fértil como na República Dominicana. Em 1804, derrotados por uma rebelião negra, os franceses foram embora do Haiti.

A França exigiu e recebeu reparação pela colônia perdida, deixando a economia da nova república debilitada por muitos anos.

Dos Estados Unidos
De 1957 a 1986, o Haiti viveu conforme as regras do governo de François Duvalier, o Papa Doc, apoiado pelos Estados Unidos da América.

Antes de Duvalier, a Estátua da Liberdade ocupou esse lugarejo de 1915 a 1934. Tio Sam tomou conta das finanças do Haiti até 1941, realizando obras de infraestrutura e pondo ordem na economia. Ordem.

Com Papa Doc e com seu filho, Baby Doc Duvalier, os Estados Unidos realizaram grandes negócios com a ordem econômica dos ditadores. Ordem.

Hoje, após a presença de norte-americanos, cerca de 55% da população vive com menos 1 dólar ou menos R$ 1,75 por dia. Ao lado, na República Dominicana, a renda diária de um dominicano está em média 7,4 dólares. Por mês, um haitiano recebe em média R$ 2.275, e um dominicano, R$ 12.950.

Hoje, após a presença dos norte-americanos, a população mais rica (?) fica com mais de 70% da renda. Os 20% mais pobres, com 1,4%.

Essa distribuição injusta de renda é uma das piores do planeta, semelhante à do Brasil nos anos de 1990.

Na época da ditadura militar, estudantes brasileiros escreveram esta frase muito criativa: “EE.UU sei quem me U.S.A.”. Durante décadas, a Estátua da Liberdade usou o Haiti.

A Águia

Segundo texto de Sérgio Dávila, os Estados Unidos enviaram vários navios da Guarda Costeira com helicópteros, o porta-aviões Carl Vinson, com 19 helicópteros, 51 leitos hospitalares, três centros cirúrgicos e capacidade de tornar potáveis centenas de milhares de litros de água por dia.

Nos próximos dias, chegarão mais dois navios com helicópteros e uma força-anfíbia com 2.200 fuzileiros e um navio-hospital. Além disso. isto: os Estados Unidos doaram 100 milhões de dólares.

A Águia ajuda o Haiti.

Fontes: Eduardo Fellipe, Elio Gaspari, Veríssimo e Cony

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Entre dois Rios: Branco e de Janeiro

Não temos shopping

Certa vez, lecionando na faculdade, um aluno disse-me não entender o motivo de eu estar no Acre. Perguntei-lhe o porquê de não entender. Sua resposta causou-me espanto. “No Acre, professor, não há shopping.”

Mais tarde, na escola, outro jovem acriano respondeu da mesma forma.

Sair do Rio de Janeiro, onde há shopping, para morar no Acre, onde não há shopping, significa para esses jovens um atraso. Sem esse templo do consumo, o Acre, segundo eles, é tão inferior que esses jovens não entendem o motivo de eu morar entre açudes, árvores, rios, igarapés; não entendem o motivo de eu morar em uma cidade que cresce na floresta.

Aqui há shopping

Férias no Rio de Janeiro e, aqui, entre o Corcovado e a igreja da Penha, não há um só shopping, mas muitos, tantos. Estou aqui para consumir marcas de calça, de camisa, de sapato, não é verdade?

Não é verdade.

Quando plantarem um shopping na floresta acriana, um aluno ou parte da elite dirão que somos agora iguais aos grandes centros.

Se a elite acriana entrar no templo do consumo só para comprar marcas ou só para assistir a Avatar ou a 2012, nosso atraso mental será cinematográfico.

Acredito que no shopping verde, caso tenha quatro salas de cinema, predominará a cultura de massa. Por que Hanani - cerejeiras em flor? Nossa culta elite prefere Avatar.

Associa-se a ideia de progresso a viaduto, a shopping, O governo do PT, nesses anos, jamais associou progresso e desenvolvimento a filmes autorais, a teatro, à cultura.

Por meio de sua propaganda oficial, o governo deseduca meus alunos. "Professor, aqui é atrasado porque não tem shopping."

terça-feira, dezembro 08, 2009

Até quando eu retornar


A partir de hoje - a não ser em caso extraordinário -, não atualizarei este blogue até 30 de janeiro de 2010. As férias só permitem descanso, curtição, deixar rolar, preguiça, mãe, pai, amigos, primos, primas, mar, montanha. Mony.

Assim sendo, nesta última atualização deste ano, dedico meu texto a meus alunos, a esse pessoal que me suportou, que não teve preguiça em sala de aula, que teve preguiça, que se dedicou até o último momento, que não se dedicou ao último instante.

Estudar, sabemos, é árduo, porém também transformamos os estudos em uma brincadeira de gincana do conhecimento.

Muitos aceitaram o desafio de eu ser um (risível) obstáculo. Esses não desistem. Quanto mais dificuldades, mais se superaram. Outros, acarinhados pela preguiça, pelo desinteresse, pela falta de vontade, entregaram-se ao descaso, à derrota, esperando de minha parte o relaxamento, a facilitação ou um tipo de corrupção silenciosa que permitisse a aprovação de todos.

Enganaram-se. Há 20 anos, eu leciono e, até hoje, sou um tarado pela sala de aula. Podem falar tudo de mim, tudo, menos que eu não tenho a paixão indomável de lecionar. Já disse: leciono para não morrer. A sala, você viram, foi o espaço onde eu encenei a ordem e a desordem, a lucidez e a loucura, o sério e o cômico; foi o lugar onde sou mais humano, onde rio de mim, de ti, de nós. Mais tarde, após anos lecionando, eu descobri: a sala é o lugar sagrado e profano onde sou quem aprende primeiro.

Assistimos a "Jeca Tatu" para depois anotar três cenas e interpretá-las. Apreciamos "Tapete Vermelho". Refizemos textos. Lemos, mais e mais, interpretamos "O Navio Negreiro". Debruçamos nossos olhos sobre os versos de Cruz e Sousa. Entendemos a letra do Rappa e, no segundo momento, nós relacionamos à poesia de Castro Alves. A gramática só surgiu por causa da produção textual. Lemos "Auto da Compadecida".

Antes, lemos "Auto de São Sebastião" e, entendida a peça de José Anchieta, soubemos que no século 16 o poder da Igreja deformaca a cultura indígena. Lemos poesias. Aprendemos o poder da metáfora por meio do sensível filme "O carteiro e o poeta".

Busquei mostrar a vocês a beleza da cultura popular por meio do caipira, nossa identidade nacional. Lemos sobre o riso em um fragmento de texto do romance "O Nome da Rosa".

Faltei pouco. Falei muito. Repeti mais ainda: anote, anote, anote.

E quantos ótimos alunos o destino apresentou a meus olhos. Jovens humildes, problemas em suas casas, discriminados, mas com um espírito à altura da superação. Diante deles, preciso melhorar sempre. Sempre. São nomes que desejam mais saber. Alunos que sabem contestar. Inquietos.

Se eu pudesse ofertar a cada um de vocês um livro, ofertaria "Fernão Capelo Gaivota", de Richard Bach. Que o voo seja alto para que, quando você mergulhar, busque o peixe no fundo do mar, o melhor. Não se limite a comer o peixe que o pescador lança à superfície das águas. Não comam o que o bando come, porque a beleza da vida não está na superfície e muito menos no que os vulgares fazem. O melhor alimento habita no fundo, lugar onde poucos tocam.

Mas saiba que voar mais alto para chegar ao fundo exige esforço, erros, tentativas, porém é isso que nos eleva à condição de humanos. Supere-se! Seja melhor que seus pais e permita que seus filhos sejam melhores que você.

Navegamos melhores em mares revoltos. Em lagos, onde a água é calma, nada é exigido de nós, a não ser acomodação. Leia narradores que inquietam teus olhos, que perturbem a tua estabilidade. Proust. Lispector. Virgínia. Leminski. Raduan Nassar.

Leia bons livros. Releia-os. Assista a ótimos filmes. Ame as boas amizades, as que exigem de você o melhor de ti. Deixem a TV também no canal Cultura. Namorem para que possam ser melhores do que são. Amem!!! Aprendam que a Paixão não é algo passageiro - há 20 anos, sou apaixonado pelo ato inquietante de lecionar.

Leia Fernando Pessoa. Drummond. Mário Sá-Carneiro. Seja um leitor assíduo da vida. Afaste-se das palavras doentes das ruas. Leia o que eu não li. Obedeçam na hora certa. Desobedeçam na hora incerta. "A desobediência também tem seus direitos", grita André, protagonista de "Lavoura Arcaica".

Um beijo em seus destinos. Um abraço fraterno em suas vidas.

Sou apaixonado por vocês!!!

Os referenciais da Secretaria de Educação

No dia 7, participei do encontro entre professores de Literatura (Língua Portuguesa) e não assinei o documento que aprova os referenciais porque eles não foram dicutidos no encontro. Há uma questão sobre historicismo, apresentada pelos professores da escola Glória Perez, que não entrou em questão.

Em uma próxima reunião, se houver esse debate, se houver certas considerações, o documento poderá ser assinado.

Semestralidade

No Acre, alguns jornalistas e o senso comum acreditam que o poder concentra-se em assmbleias legislativas ou em câmaras de vereadores, ou seja, acredita-se que o poder é físico, é matéria; manifesta-se em prédios ou encarna-se em deputados ou em vereadores.

Ainda pensamos o poder como se fosse a imagem visível de O Príncipe, de Maquiavel, pensamento de 1513. Longe dessa concepção de poder, a escola surge em Vigiar e Punir, de Michel Foucault, pensador que nos fala de outro poder que nos modela.

Hoje, conversando colegas de profissão, afirmei que a escola pública se põe acima de interesses corporativistas. Opondo-se à minha fala, uma professora afirmou com tom irônico que busco tanto o melhor para o aluno que defendi a semestralidade. Não entendi a relação; porém, ainda assim, esforçar-me-ei para explicar.

Semestralidade
Hoje, leciono em duas turmas na escola Heloísa Mourão Marques. Em uma, há 33 alunos; na outra, 30. No diário, há, entretanto, 50 nomes. Ao todo, corrijo 63 redações em sala por meio da refacção ou da reconstrução textual. Caso opte por duplas, são 31 redações.

Como eu reconstruo os textos de meus alunos (com eles) em sala de aula, melhor essa cansativa refacção com 31 redações. No entanto, sem semestralidade, seriam quatro turmas, isto é, 126 redações.

Sem semestralidade ou com semestralidade, a carga de Literatura (Língua Portuguesa) limita-se a 160 horas-aulas e, desde que saibamos colocá-la na semestralidade, a quantidade de aula é a mesma se fosse anual, se não houvesse semestralidade.

Defender a semestralidade é, portanto, qualificar o ensino-aprendizagem de produção textual para quem reconstrói texto em sala de aula com os alunos. Em 2010, com o fim da semestralidade, lecionarei para 126 alunos, não mais para 63. Uma solução, talvez, seja criar duplas para que produzam e reconstruam seus textos.

Sinceramente, professora, não entendi a sua colocação de tentar, talvez, me constranger diante de colegas de profissão. Penso que o caminho para melhorar o ensino público não seja jogar palavras inconsequentes e direcionadas a uma pessoa em momento inadequado.

Defenda ideias, professora, com raiva, com choro, com gestos intensos, gritando, socando a mesa, não importa a aparência, a forma, a maneira de defendê-las, mas defenda ideias. Defenda-as!!! para qualificarmos o ensino público e não para prolongarmos o feriado.

Tenho defendido ideias, eis algumas:

1. Conselho de disciplina;
2. Conselho de turma;
3. Atividades lúdicas na escola (gincana do conhecimento);
4. Alunos exemplares avaliarem os professores;
5. Coordenador assistir às aulas de professor;
6. Não é o professor que deve escolher a turma para lecionar, mas o aluno é quem deve escolher o professor com quem deseja estudar;
7. Se o professor lecionou para o primeiro ano do ensino médio, ele deve acompanhar essa turma até o terceiro ano;
8. Por mérito profissional reconhecido, as coordenações deveriam ter um professor de Língua Portuguesa e um de Matemática.

De forma clara, em uma reunião de professores, diante de todos, defenda ideias.

Professora, o que a senhora defende?

domingo, dezembro 06, 2009

Feijoada modernista














Em "Macunaíma", Mário de Andrade
pintou a iguaria como síntese das identidades nacionais

CARLOS ALBERTO DÓRIA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Feijoada acaba com a gente. Por isso o dia é sábado, quando se pode jiboiar. Mas, dizem, foi inventada por escravos. O paradoxo: escravos trabalhavam de sol a sol, como criariam coisa indigesta por vontade própria?

Comiam mesmo o pão que o diabo amassou; não podiam contribuir para a dieta nacional. "Contribuição" supõe liberdade; sem ela não há criação literária ou culinária.

A feijoada deriva do "feijão gordo" enriquecido ao extremo, a ponto de se tornar prato único. Ela só é compreendida dentro do seu ritual: feijão preto e pertences, a caipirinha de cachaça (moeda líquida do tráfico negreiro) e a evocação histórica da nacionalidade. A minifeijoada de boteco na quarta-feira retroage, volta a ser feijão gordo.

No final do século 18 carioca, a alimentação dos escravos estava lastreada em feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas; além das carnes secas ou toucinhos que os próprios negros podiam comprar com o produto da venda das suas hortaliças. A origem deve ter sido essa.

Mas, um século depois, ela ainda não era um "prato completo", segundo o folclorista Câmara Cascudo [1898-1986], que sugere que ela se difundiu como tal em hotéis e pensões.

Foram os modernistas que projetaram a feijoada como prato nacional. Eles tinham necessidade enorme de novos signos para a brasilidade.

A questão estética e política era "acharmos a nossa expressão" em vários planos, e nada melhor do que o popular feijão, a evocação do cozido português, dos embutidos e pedaços de porco, além da couve.

Mário de Andrade, em "Macunaíma" (1928), desenhou uma cena imorredoura: a feijoada na casa do fazendeiro Venceslau Pietro Pietra. Uma alegoria da cozinha nacional e daqueles seres étnicos que o Brasil colocou em contato.

O festim é presidido por Venceslau (peruano, italiano, Piaimã), um demônio devorador de gente ou "comedor de identidades", conforme interpreta a crítica literária.

O tema da antropofagia, da deglutição cultural, esteve presente em toda a produção modernista, e a feijoada é um caso particular seu.

Esse festim de "Macunaíma" foi magnificamente carnavalizado no filme homônimo (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

E a graça da evocação continuou com Vinicius de Moraes ("Feijoada à Minha Moda"), que ensinou, em versos engordurados, como fazer uma feijoada sabática.

Ingredientes
O feijão é coisa quase universal. Mas, enquanto o preto e o rajado "igualam" as classes sociais, o fradinho e o jalo diferenciam preferências de ricos e pobres. Feijão preto é dominante somente no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O tempero relevante da feijoada é a propriedade metonímica de reter o passado de escravidão na cor do feijão, subvertendo o seu sentido.

Dentro e no entorno, a feijoada congraça índios, negros e brancos, esquecendo que se comiam: uns foram dizimados, outros feitos escravos; outros, sempre colonizadores cruéis.

A feijoada, como alegoria, é o substrato alimentar da irmandade mística dos contrários -a nação mestiça-, desejada e vista como original do Brasil desde "Casa-Grande e Senzala" (1933), de Gilberto Freyre.

Coisa de intelectuais, estamos entendidos.

E nada mais "cabeça" do que a "Dialética da Feijoada" (1986), de Renato Pompeu, com o prato feito metáfora das relações de classe e da dependência diante do imperialismo.

Como ele escreveu, "consagrada pela intelectualidade influenciada pela industrialização, [ela] tem de enfrentar outros pratos simbólicos, e a sua afirmação como prato nacional-popular tem de ser considerada ainda um processo em andamento".

Joãosinho Trinta, o carnavalesco, poderia reformular sua frase célebre: "Quem gosta de pobreza, e da riqueza da feijoada, é intelectual".

Porque pobre celebra mesmo com churrasco de boi, a carne dos ricos, e cerveja. Assim, as classes sociais se devoram, de modo cruzado, à mesa. Da deglutição restam, incólumes, só os ossos do ofício e os do rabo do porco.

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CARLOS ALBERTO DÓRIA é sociólogo,
autor de "A Formação da Culinária Brasileira" (Publifolha), entre outros livros.

sábado, dezembro 05, 2009

A política de um âncora

Nada contra sua pessoa. Nada. Incomoda-me por ser uma questão pública. Vereador de Rio Branco, Astério Moreira desde 21 de setembro aparece como âncora do programa "Boa Tarde Rio Branco, da TV Rio Branco, transmitindo um misto de cenas policiais com encenações políticas.

Um âncora-vereador que surge todo dia nas casas de milhares de tele-eleitores. Trata-se de uma sutilíssima campanha politica. Nesse caso, o que importa é projetar a imagem diária, massificá-la, porque, depois, nas eleições, a imagem ressurge como candidata a deputado estadual. Urnas e audiência confundem-se.

Contra a lei? Não assisto a isso como sendo ético. Meu Brasil...

Mony, uma Viagem

Mony, 22 anos, uma jovem que o senhor Destino colocou em minha pele. Belíssimo ser humano que tem ofertado à minha idade a paz.

Quase cinco unidos e, entre nós, uma amizade amorosa que permite a mim viver. Sem ela, não haveria férias, tudo seria cansaço.

Começamos a preparar as malas. Viajar, mal sabe ela que a viagem é ela.

Mais uma vez, nossos corpos pousarão no Rio de Janeiro, cidade das balas perdidas, da favelização, das praias poluídas (menos Barra, Recreio e Grumari), a minha Cidade Maravilhosa.

Mas ficaremos do outro lado, Niterói, praias limpas (menos as que ficam na Baía da Guanabara), por exemplo, praia de Itacoatiara. Para ser mais exato, ficaremos em Maricá, perto de Saquarema. Neste ano, conduzirei minha amada a outros ares, Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Búzios; em outro momento, Parati e Petrópolis.

Viajar com quem amamos... bem-estar, hummmm!!! Mas o Rio de Janeiro não se reduz a montanhas ou a praias. Mony assistirá a ótimos filmes e a peças de teatro,

e eu assistirei à Mony.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Mala para a Viagem














Começo a preparar as malas. Nela, levarei Cinzas do Norte, de Milton Hatoum; Caim, de Saramago; e um ensaio que ainda não escolhi. Também colocarei roupas.

Abraçarei minhas férias como se abraça um amigo.