sábado, fevereiro 25, 2012
Professor, profissão perigo
Quando o PSDB paga mais do que o PT
O jornal "Globo" publicou uma matéria sobre a falta de professor na rede pública do Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o salário inicial de um professor chega ao limite de R$ 1.989,00. No Acre, lecionar para cinco turmas vale menos do que R$ 1.800,00. O custo de vida acriano é maior do que em São Paulo.
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
Governantes não me comovem

Governantes tentam me comover, propagando a imagem de que muitos desabrigados sofrem por causa da alagação. O poder busca extrair de mim solidariedade.
Mais: me faz sentir responsável. Preciso agir. Preciso sair de meu mundo para doar um pouco de meu tempo a outros que precisam mais do que eu. Devo ser cristão.
Mas quem disse que eu preciso dos apelos dos governantes? E quem disse aos governantes - esses políticos - que eles me comovem? Telefono:
"Meu amigo, minha humilde casa está aberta para você".
"Obrigado, Aldo, se a coisa piorar, vou precisar de ti", disse meu amigo.
Eu escolho a quem entregarei minha doação. Uma velha senhora?... Uma avó muito idosa sem marido e com três netos?... Sem foto, sem propaganda, eu escolho.
Meu dinheiro é solidário. Mas e o nosso dinheiro público? O que governantes fazem com ele? Para que serve o dinheiro público? Ora, serve, por exemplo, para REGULAR O ESPAÇO PÚBLICO À MARGEM DO RIO ACRE.
Eu não posso regular espaço público, só os políticos, só eles, nem Deus pode regular o espaço público à margem do rio Acre, porque o Senhor não põe mão em dinheiro.
Eu penso que Deus deveria pôr a mão em verba pública, pois o Senhor é justo, não os políticos. Mas isso é outro assunto.
Por que não construíram em 13 anos casas populares longe das margens, longe das regiões mais alagadas de Rio Branco?
Por que não aparelharam em 13 anos muito bem a Defesa Civil? Por que não colocaram a Defesa Civil em locais críticos e estratégicos muito antes da alagação?
Em âmbito federal, não há lei que regulamente verba destinada à Defesa Civil. Em âmbito estadual, existe lei? Quantos barcos há na Defesa Civil acriana? Quanto remos? Quantos salva-vidas existem na Defesa Civil? Em momento de alagação, pobre usa salva-vida? Alagado recebe par de bota?
Por que as pessoas não são avisadas e retiradas com antecedências de suas casas e colocadas em ABRIGOS CONFORTÁVEIS ou, PELO MENOS, DIGNOS AO QUE É HUMANO?
O Mercado Velho, dizem, agora está novo. O dinheiro público agiu rápido para construir uma imagem bonita da capital. Por que esse mesmo dinheiro não agiu rápido também para áreas alagadiças?
A capital, concordo, deve ficar atraente. Mas radicalizar o uso do dinheiro público para os mais necessitados não é atraente para os governantes?
Eu não posso regular espaço público, só os políticos, só eles, nem Deus pode regular o espaço público à margem do rio Acre, porque o Senhor não põe mão em dinheiro.
Eu penso que Deus deveria pôr a mão em verba pública, pois o Senhor é justo, não os políticos. Mas isso é outro assunto.
Por que não construíram em 13 anos casas populares longe das margens, longe das regiões mais alagadas de Rio Branco?
Por que não aparelharam em 13 anos muito bem a Defesa Civil? Por que não colocaram a Defesa Civil em locais críticos e estratégicos muito antes da alagação?
Em âmbito federal, não há lei que regulamente verba destinada à Defesa Civil. Em âmbito estadual, existe lei? Quantos barcos há na Defesa Civil acriana? Quanto remos? Quantos salva-vidas existem na Defesa Civil? Em momento de alagação, pobre usa salva-vida? Alagado recebe par de bota?
Por que as pessoas não são avisadas e retiradas com antecedências de suas casas e colocadas em ABRIGOS CONFORTÁVEIS ou, PELO MENOS, DIGNOS AO QUE É HUMANO?
O Mercado Velho, dizem, agora está novo. O dinheiro público agiu rápido para construir uma imagem bonita da capital. Por que esse mesmo dinheiro não agiu rápido também para áreas alagadiças?
A capital, concordo, deve ficar atraente. Mas radicalizar o uso do dinheiro público para os mais necessitados não é atraente para os governantes?
Construir estrada cortando o Acre recebe o batismo-clichê de progresso e de desenvolvimento. Regular as margens por meio de leis e por meio de verba pública para evitar pessoas desabrigadas não é progresso e desenvolvimento?
Quanto de dinheiro público grupos políticos gastam para pagar suas propagandas de governo?
O dinheiro público constrói rápido um estádio de futebol. Por que esse dinheiro também não destruiu em 13 anos casebres erguidos em áreas impróprias?
Quanto de dinheiro público grupos políticos gastam para pagar suas propagandas de governo?
O dinheiro público constrói rápido um estádio de futebol. Por que esse dinheiro também não destruiu em 13 anos casebres erguidos em áreas impróprias?
Governantes não precisam dizer a mim o que fazer nesta hora, porque políticos não me dão conta do que gastam, com que gastam, como gastam, para quem gastam.
Quando os pobres dirão a eles o que de justo fazer com o dinheiro público? Ou será que tudo ficará na mão de Deus na próxima alagação, outra vez?
Se eu estivesse com minha família em algum abrigo público, eu não aceitaria solidariedade de político, porque, deles, desses homens públicos que recebem muito bem todo mês, eu exijo esta justiça social - moradias e bairros melhores para todos.
Águas profundas. Matérias superficiais
Lecionado Literatura, perguntei aos alunos a diferença entre realidade e ficção, e os que responderam disseram que a realidade mostra a verdade.
O Carnaval, que é uma festa da ficção, não tem nenhuma relação com a verdade, porque, segundo eles, Carnaval é desordem, ilusão.
Na linha desse raciocínio, o texto jornalístico, só ele e não o texto ficcional, revela a verdade porque o jornalista apresenta a realidade "como ela é".
O Carnaval, que é uma festa da ficção, não tem nenhuma relação com a verdade, porque, segundo eles, Carnaval é desordem, ilusão.
Na linha desse raciocínio, o texto jornalístico, só ele e não o texto ficcional, revela a verdade porque o jornalista apresenta a realidade "como ela é".
Mas como pode a realidade mostrar a verdade se a realidade só é a superfície? A verdade está na e é a superfície? O que se apresenta a meus olhos é a verdade?
Não me alongarei sobre isso. Apenas afirmo que o texto jornalístico limita-se a registrar o que todos veem... todos veem o rio subindo (sim, "rio subindo" não está errado por se tratar de uma figura de linguagem).
Imagens e mais imagens, e o repórter escreve e fala daquilo que todos ouvem e veem, a palavra presa à realidade, à imagem. A palavra é literal, denotativa, isto é, "estado bruto". A palavra é matéria. A palavra é "ob-jetiva".
Nesse sentido, a imprensa escrita acriana, sem fazer uso da conotação, do jornalismo literário, nega o "sub-jetivo". Mas qual o sentido de "sub-jetivo"?
A palavra, em si mesma, em sua história e em sua relação com estéticas específicas (por exemplo, o Barroco, o Romantismo, o Simbolismo) é senhora de um sentido original. "Sub-jetivo" não é "dar a opinião particular". Se ignoramos o sentido primeiro, original, autêntico da palavra, não podemos pensar o pensamento.
Vejamos o seu oposto: "ob-jetivo". Em sua raiz, "aquilo que se põe à nossa frente, impedindo-nos a passagem, é o objeto", nos ensina Mário Eduardo Viaro.
"Ob-" significa "oposição"; e "-jetivo", "lançar". "Objetivo" tem o sentido de "lançamento obstruído, impedido". Mas o que foi "impedido de ser lançado"? O "sub-jetivo" não impede o lançamento, o movimento, o ir ao encontro.
Para responder, a palavra "objetivo" encontra-se na narrativa naturalista, realista; está trancada no quartel militar; marcha na parada do Dia 7 de Setembro; estende-se no texto jornalístico.
"Ob-jetivo" não se encontra no Barroco, no Romantismo, no Simbolismo; não se encontra no Carnaval.
Se "algo" não foi lançado, não se "pro-jetou", não houve movimento, encontro, ou seja, prevalece o "distanciamento" em relação ao que se vê, por isso o jornalista não se envolve com a matéria, com a realidade.
Ele se envolveria se seu texto fosse "sub-jetivo". Por meio da tevê, podemos apreciar a "sub-jetividade" da jornalista Neide Duarte ou do jornalista esportivo Régis Roising , oposto ao texto objetivo de Léo Batista.
Mas o que é "sub-jetivo"? Essa palavra, mais, esse conceito, reside no Romantismo e, mais ainda, no Simbolismo. Vive em "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, narrativa oposta à objetividade de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.
Sim, mas o que é "sub-jetivo"?
Não me alongarei sobre isso. Apenas afirmo que o texto jornalístico limita-se a registrar o que todos veem... todos veem o rio subindo (sim, "rio subindo" não está errado por se tratar de uma figura de linguagem).
Imagens e mais imagens, e o repórter escreve e fala daquilo que todos ouvem e veem, a palavra presa à realidade, à imagem. A palavra é literal, denotativa, isto é, "estado bruto". A palavra é matéria. A palavra é "ob-jetiva".
Nesse sentido, a imprensa escrita acriana, sem fazer uso da conotação, do jornalismo literário, nega o "sub-jetivo". Mas qual o sentido de "sub-jetivo"?
A palavra, em si mesma, em sua história e em sua relação com estéticas específicas (por exemplo, o Barroco, o Romantismo, o Simbolismo) é senhora de um sentido original. "Sub-jetivo" não é "dar a opinião particular". Se ignoramos o sentido primeiro, original, autêntico da palavra, não podemos pensar o pensamento.
Vejamos o seu oposto: "ob-jetivo". Em sua raiz, "aquilo que se põe à nossa frente, impedindo-nos a passagem, é o objeto", nos ensina Mário Eduardo Viaro.
"Ob-" significa "oposição"; e "-jetivo", "lançar". "Objetivo" tem o sentido de "lançamento obstruído, impedido". Mas o que foi "impedido de ser lançado"? O "sub-jetivo" não impede o lançamento, o movimento, o ir ao encontro.
Para responder, a palavra "objetivo" encontra-se na narrativa naturalista, realista; está trancada no quartel militar; marcha na parada do Dia 7 de Setembro; estende-se no texto jornalístico.
"Ob-jetivo" não se encontra no Barroco, no Romantismo, no Simbolismo; não se encontra no Carnaval.
Se "algo" não foi lançado, não se "pro-jetou", não houve movimento, encontro, ou seja, prevalece o "distanciamento" em relação ao que se vê, por isso o jornalista não se envolve com a matéria, com a realidade.
Ele se envolveria se seu texto fosse "sub-jetivo". Por meio da tevê, podemos apreciar a "sub-jetividade" da jornalista Neide Duarte ou do jornalista esportivo Régis Roising , oposto ao texto objetivo de Léo Batista.
Mas o que é "sub-jetivo"? Essa palavra, mais, esse conceito, reside no Romantismo e, mais ainda, no Simbolismo. Vive em "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, narrativa oposta à objetividade de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.
Sim, mas o que é "sub-jetivo"?
"Sub-", para muitos, é "abaixo", mas o que está abaixo não significa "menor", "inferior"; o que está abaixo é "profundo", palavra que se encontra no dicionário latino. Dessa forma, uma vez profundo, nega-se a "superfície" do texto objetivo, a "superfície" da realidade. O "sub-jetivo" (des)cobre o que a realidade oculta, e oculta porque "obstrui" por meio da aparência. O narrador em Clarice é profundo; o de Graciliano, superfície.
No Acre, o jornalista limita-se a acompanhar a aferição do nível do rio. Tudo muito "objetivo". Tudo muito na superfície das águas.
Onde está a verdade dessa alagação?
No Acre, o jornalista limita-se a acompanhar a aferição do nível do rio. Tudo muito "objetivo". Tudo muito na superfície das águas.
Onde está a verdade dessa alagação?
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Momo e o desserviço da TV Aldeia
Há um bom tempo - acredito que lá pelos anos da década de 1990 -, deixei um bom texto no jornal Página 20 sobre o sentido original de Momo, o rei do império carnavalesco.
Infelizmente, em meu computador, esse texto não se encontra. Perdi-o. Se eu quiser revê-lo, deverei ir ao jornal onde o publiquei.
Infelizmente, em meu computador, esse texto não se encontra. Perdi-o. Se eu quiser revê-lo, deverei ir ao jornal onde o publiquei.
No Acre, o Carnaval é uma festa estranha ao espírito de Momo, por isso escrevi sobre o regedor dessa festa popular, com a finalidade de mostrar que o que se fala no Acre de Carnaval não há nenhuma relação com o mito de Momo.
Como em outros lugares, assistimos aqui à morte desse reino porque seus súditos, sem a devida irreverência da criatividade, perambulam sobre o cadáver do rei. O Carnaval acriano assemelha-se mais à procissão dos mortos.
Na capital acriana, não vemos a cidade ornamentada, desenhada, coberta pela fantasia, enfeitada, fato oposto ao que ocorre com o Natal, que acontece no centro da capital. Outra festa manifesta-se no centro, 7 de Setembro.
Nessas festas, as pessoas, segundo ouço, sabem o que significa o sagrado (Natal) e a ordem (Dia da Pátria), porque os significados encontram-se estabilizados nos significantes. Entretanto, o mesmo não ocorre com a festa momesca: qual o sentido da palavra Momo? o que significa a palavra fantasia? o que quer dizer diversão?
Agora, pergunte a um cidadão que assiste à parada militar o que é ordem. O senhor gosta da ordem? Possivelmente, ele dirá "sim". Mas pergunte a ele se ele gosta da "desordem" do Carnaval? Ele dirá que "não" porque a festa de Momo recebeu outra significação dos jornalistas, das igrejas, dos políticos, da tevê.
Agora, pergunte a um cidadão que assiste à parada militar o que é ordem. O senhor gosta da ordem? Possivelmente, ele dirá "sim". Mas pergunte a ele se ele gosta da "desordem" do Carnaval? Ele dirá que "não" porque a festa de Momo recebeu outra significação dos jornalistas, das igrejas, dos políticos, da tevê.
Cercadinho
Quem já leu sobre cultura popular e sobre o Carnaval sabe muito bem que o reino de Momo no Acre pode ser tudo, menos popular. Aqui, as mãos dos governantes oficiais colocam Momo em um cercadinho sob o olhar da polícia, dos bombeiros, dos médicos e do comércio, porque o Carnaval acriano já tem o estigma da violência, porque a desordem, segundo eles, deve estar sob controle.
“É melhor concentrar a festa num único local e garantir a segurança neste espaço. A Polícia Militar não teria condições de manter o policiamento necessário em todos os bairros e nos abrigos ao mesmo tempo, porque, em cada bar, em cada esquina, haveria uma festa. As pessoas sairiam às ruas para brincar de qualquer jeito e seria muito difícil lidar com a situação, mantendo a segurança de toda a população”, explicou o governador Tião Viana.
"Brincar de qualquer jeito". No Carnaval acriano, portanto, a brincadeira é desorganizada. Entretanto, a "brincadeira", segundo o livro "Homo ludens", de Johan Huizinga, tem a sua razão, a sua ordem, sendo oposta à ideia de "qualquer jeito". Mas o Carnaval acriano é isto: "brincar de qualquer jeito", por isso o cercadinho.
Pela Tevê
Todo ano, jornalistas da TV Acre, por exemplo, ecoando a voz das autoridades, entrevistam, entrevistam e entrevista patentes militares. A população precisa se sentir segura. A TV Aldeia, por sua vez (pasmem!), sem cumprir sua missão cultural, reproduz a fala das emissoras comerciais, ou seja, não sabe o que fala do Carnaval, transmitindo um desserviço ao reinado de Momo.
A TV Aldeia, primeiro, deveria saber o real sentido da felicidade do Carnaval, porque, se soubesse, os jornalistas que estão na pista apareceriam fantasiados, digo, muito bem fantasiados. Reafirmo "muito bem" porque o conceito de fantasia pede bom gosto pelo simples motivo de fantasia se opor à matéria, ao objeto, à coisa.
A TV Aldeia, primeiro, deveria saber o real sentido da felicidade do Carnaval, porque, se soubesse, os jornalistas que estão na pista apareceriam fantasiados, digo, muito bem fantasiados. Reafirmo "muito bem" porque o conceito de fantasia pede bom gosto pelo simples motivo de fantasia se opor à matéria, ao objeto, à coisa.
Não só. A TV Aldeia, por emitir, em tese, cultura, deveria apresentar aos telespectadores livros sobre o Carnaval. Faustão em seu programa apresenta livros, Regina Casé em seu programa apresenta livros, Jô Soares apresenta livros, mas a TV Aldeia não apresenta.Pelos Livros
Lemos bons livros para buscar também o sentido original das palavras, sentido que não encontramos na rua, na TV Aldeia, nas reportagens de tevê.
"Elogio da Loucura" é um desses livros. Nele, (des)cobrimos o senhor do Carnaval, Momo, cujo significado que dizer "aquele que imita".
Quem esse rei imita?
Ele segura o cetro, usa a coroa e senta-se no trono. Na condição de rei, portanto, ele tem o poder, mas seu poder não só se opõe ao poder dos governantes oficiais como também o deforma, porque quem "imita" altera a forma copiada.
Momo imita o poder oficial, isto é, por ser mímico, deforma aqueles que exercem o poder, desorganiza-o. Como rege a prudência de o governante oficial ser sério, austero, Momo é o avesso, ou seja, ele é o bobo - "(...), o privilégio que têm os bobos de poder falar com a toda a sinceridade e franqueza", escreveu Erasmo de Rotterdam no século XVI.
O bobo ri de quem governa, mas no Carnaval acriano sempre respeitamos o poder.
Momo é a Loucura de quem fala Erasmo em seu belíssimo livro.
Outros livros sobre o Carnaval fascinam, entre eles, estes: "História da Feiúra", organizado por Umberto Eco; "História do Riso e do Escárnio", de Georges Monois; "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento", de Mikhail Bakhtin; "Homo Ludens", de Johan Huizinga.
Outros livros sobre o Carnaval fascinam, entre eles, estes: "História da Feiúra", organizado por Umberto Eco; "História do Riso e do Escárnio", de Georges Monois; "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento", de Mikhail Bakhtin; "Homo Ludens", de Johan Huizinga.
Poderia escrever mais sobre Momo, mas prefiro me repetir, afirmando que lemos bons livros para buscar também o sentido original das palavras, sentido que não encontramos na rua, na TV Aldeia, nas reportagens de tevê, porque nesses locais Momo não passa de um impostor chulo.
TV Acre desatualizada e o vice
Hoje, por volta das 11h20min, liguei a televisão para saber sobre o nível do rio Acre.
A TV Acre apresentou imagens de sábado, dia 18. Eu querendo saber sobre a situação de hoje, dia 20, e ela me apresenta uma reportagem repetida.
Se for para ser assim, fico sabendo da enchente acriana por meio do UOL.
Em outro momento, aparece o vice-governador, passando a imagem de que tudo está sob controle em Rio Branco. A tevê cede espaço para a autoridade falar. Repito: falar, não para ser questionada.
O vice poderia ter sido questionado se a tevê apresentasse, antes da entrevista, uma reportagem da real situação dos alojados, por exemplo, no Parque de Exposição Castelo Branco.
Confrontar a realidade dos abrigos com as palavras das autoridades, mas isso seria pedir demais.
Se desejam tanto ocupar o poder, se dizem em campanha que farão melhor do que os adversários, eles têm o dever e a obrigação de erguer, com o dinheiro público, o melhor para os desabrigados.
Em outro momento, aparece o vice-governador, passando a imagem de que tudo está sob controle em Rio Branco. A tevê cede espaço para a autoridade falar. Repito: falar, não para ser questionada.
O vice poderia ter sido questionado se a tevê apresentasse, antes da entrevista, uma reportagem da real situação dos alojados, por exemplo, no Parque de Exposição Castelo Branco.
Confrontar a realidade dos abrigos com as palavras das autoridades, mas isso seria pedir demais.
Se desejam tanto ocupar o poder, se dizem em campanha que farão melhor do que os adversários, eles têm o dever e a obrigação de erguer, com o dinheiro público, o melhor para os desabrigados.
domingo, fevereiro 19, 2012
Ronda Gramatical
Senador acriano encontra-se no "chadrez"
Enquanto as águas do rio Acre sobem, o senador Petecão, do PSD, baixou o nível da ortografia ao deixar escrevinhado em seu miniblogue "Chapuri".
A população de Xapuri quis linchá-lo com os dicionários Houaiss e Aurélio, mas Petecão conseguiu fugir, passando a ser caçado pela Polícia Ortográfica como meliante gramatical.
"Não podemos admitir que um senador da República continue a falar e a escrever errado. Petecão tem um currículo extenso de crimes contra a Língua Portuguesa", observou o capitão Evanildo Bechara. "Ele é um péssimo exemplo para o jardim de infância, a creche, para a escola primária, o Poronga e as bibliotecas."
Ontem, em Rio Branco, às 23h55min, quando pulava no bloco "Chapuri, Princezinha do Mar" , ele foi rapidamente identificado. Petecão não resistiu à prisão.
"Mas o senador resiste a falar e a escrever corretamente aqui no presídio", disse o seu único colega de cela, "Xapolim".
A população de Xapuri quis linchá-lo com os dicionários Houaiss e Aurélio, mas Petecão conseguiu fugir, passando a ser caçado pela Polícia Ortográfica como meliante gramatical.
"Não podemos admitir que um senador da República continue a falar e a escrever errado. Petecão tem um currículo extenso de crimes contra a Língua Portuguesa", observou o capitão Evanildo Bechara. "Ele é um péssimo exemplo para o jardim de infância, a creche, para a escola primária, o Poronga e as bibliotecas."
Ontem, em Rio Branco, às 23h55min, quando pulava no bloco "Chapuri, Princezinha do Mar" , ele foi rapidamente identificado. Petecão não resistiu à prisão.
"Mas o senador resiste a falar e a escrever corretamente aqui no presídio", disse o seu único colega de cela, "Xapolim".
Águas profundas. Matérias superficiais
CHEIA DO RIO ACRE DESABRIGA
MAIS DE 600 FAMÍLIAS EM RIO BRANCO
Jorge Viana visita desabrigados
e garante recursos da Defesa Civil para o Acre
Momento de desgraça para muitos serve de interesse político para poucos. Quem lê os jornais acrianos pode observar que a imprensa rio-branquense faz questão de destacar que político "visita", que político "solidariza-se" e, no caso do Página 20 (acima), o político "garante recursos da Defesa Civil".
Não surge uma matéria profunda e sensível. Profunda no sentido de informar a quantia de dinheiro público usada nas enchentes e a quantia, em uma política de prevenção. Sensível no sentido de o repórter dar voz por meio do jornal aos desabrigados.
Mas, para tanto, o repórter deve escrever muito bem a ponto de elaborar um jornalismo literário, algo, por sinal, impossível por aqui. Os jornais de Rio Branco não sensibilizam o leitor. Faz-se o comum, o superficial, o trivial, o padrão - o político "visitou".
Enquanto as águas do rio Acre são profundas, os jornais propagam superficialidades.
Não surge uma matéria profunda e sensível. Profunda no sentido de informar a quantia de dinheiro público usada nas enchentes e a quantia, em uma política de prevenção. Sensível no sentido de o repórter dar voz por meio do jornal aos desabrigados.
Enquanto as águas do rio Acre são profundas, os jornais propagam superficialidades.
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
O rio
As águas do rio Acre
quando chegam a Rio Branco
não são só águas:
são pobrezas boiando
são à deriva muitos prantos
As águas do rio Acre
quando chegam a Rio Branco
não só acurralam restos de criança:
também transmitem de políticos esta cínica doença:
"tenham fé! tenham esperança!"
E o ditado popular não se cansa:
"quem bebe da água do rio Acre não volta"
Mas só nas enchentes de cada ano novo
quando chegam a Rio Branco
não são só águas:
são pobrezas boiando
são à deriva muitos prantos
As águas do rio Acre
quando chegam a Rio Branco
não só acurralam restos de criança:
também transmitem de políticos esta cínica doença:
"tenham fé! tenham esperança!"
E o ditado popular não se cansa:
"quem bebe da água do rio Acre não volta"
Mas só nas enchentes de cada ano novo
os pobres nesta água se banham
Eles nunca voltam. Ficam.
As águas do rio Acre
humilham.Não limpam.
Eles nunca voltam. Ficam.
As águas do rio Acre
humilham.Não limpam.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
Coisa de político acriano
No Acre, político se mete até em língua portuguesa, não no sentido de qualidade de ensino. "Deve ser escrito 'acreano', porque essa forma tradicional tem a ver com a identidade de nosso povo", afirma o político. História para boi pastar.
No entanto, quando se trata de propaganda de governo, o político da língua portuguesa não diz "o carapanã da dengue". Repete-se o que é dito no Rio de Janeiro, em São Paulo - "O mosquito da dengue".
Ora, nobres deputados, isso sim tem a ver com a identidade linguística desta região. Combate-se "acriano", mas se aceita "mosquito", vocabulário estranho à cultura acriana.
"Carapanã" é identidade de uma região, o que nos diferencia do outro. Servir-se de "carapanã" é considerar "o grupo indígena que habita o Noroeste do Amazonas (Área Indígena Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Yauareté I e Yauareté II), junto ao médio rio Solimões (Áreas Indígenas Méria e Miratu) e a República da Colômbia".
E "mosquito"? Diminutivo de "mosca". Não gosto.
Quando visito parentes no Rio de Janeiro, sempre digo "carapanã". Eles riem de mim. Eu rio mais deles.
Quando visito parentes no Rio de Janeiro, sempre digo "carapanã". Eles riem de mim. Eu rio mais deles.
domingo, fevereiro 12, 2012
Quem quer a Ufac?
Voltei à rotina. Compro os jornais de Rio Branco e leio severas críticas de deputados à reitora Olinda Batista Assmar. Não sabia que deputado acriano soubesse pensar qualidade de ensino público.
Então aí vai o meu primeiro texto do ano.
_____________________________________
Após a vitória eleitoral de Fernando Henrique em 1994, o então ministro da Educação, professor Paulo Renato, do PSDB, criou o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) para aferir qualidade de ensino no país do samba e do futebol. A primeira prova ocorreu em 1998.
Então aí vai o meu primeiro texto do ano.
_____________________________________
Após a vitória eleitoral de Fernando Henrique em 1994, o então ministro da Educação, professor Paulo Renato, do PSDB, criou o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) para aferir qualidade de ensino no país do samba e do futebol. A primeira prova ocorreu em 1998.
No final do século 20,
o que ocorria com a educação pública acriana? O de sempre: nada. Até hoje, os
sindicatos não lutam por qualidade de ensino. Até hoje, a Assembleia
Legislativa do Acre desconhece como haver uma melhor gestão escolar. Até hoje, as
câmaras dos vereadores não sabem propor uma escola pública melhor. Até hoje, o
governo faz da educação popular discurso político.
Duvido de que possamos
encontrar debates profundos registrados na assembléia ou na Câmara de
Vereadores de Rio Branco. Duvido de que alguma inteligência tenha pensado
qualidade de ensino. Duvido.
Deputados e vereadores nunca colocaram a educação pública em um debate constante porque, simplesmente, seus filhos estudam em escolas particulares.
Educação deveria ser
pauta semanal dos jornalistas; no entanto, quando a noticiam, os jornais limitam-se
a informar que alunos retornaram às escolas. O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, tem uma página dedicada, uma vez por
semana, à escola. No Acre, os proprietários da informação não têm o menor
interesse no assunto.
Como o tempo não pode
esperar pela boa vontade desses homens públicos e desses sindicalistas, o Enem,
ideia do PSDB, tem (des)coberto o quadro negro da nossa educação popular. Serei
específico. Sempre no início do ano, peço aos alunos textos dissertativos. Em
2012, não foi diferente. Dei a eles a redação do Enem-2011 e, depois de terem
lido a proposta, escreveram. Leia um dos textos.
Viver
em rede no século XXI
Agora
no século XXI ficou melhor pois nós apredemos aconviver com As pessoas negras apredemos a respeitar o racismo no
nosso mundo de hoje.
Hoje
em dia também as tecnológicas Estão muito a vançadas pois agora temos PC temos
internet rápida temos Orkut, fecebok, também temos MSN!! etc...
Hoje
nós podemos olhar para o mundo e dizer que estamos muito bem com as
tecnológicas que uns oferece tantas coisas boas para nós curtimus.
Tempos atras não era bem assim as
televisões era preto e branco não tinhar cor definida era totalmente tudo
estranho. Agora nos assistimos em televisão colorida.
olha
como mudou pra melhor.
Existe
agora no século XXI progeto para a consiencia negra.
Existe
paradas gay.
O texto acima tem seu processo de paragrafação comprometido, e esse problema encontra-se em todos os 28 textos da turma. Além disso, todos estão em desacordo com a competência 1 do Enem: domínio da língua padrão. Alunos escrevem “faiz”; confundem “mas” com “mais”; ignoram o plural do verbo “ter” na terceira pessoa; aboliram os acentos ortográficos; ignoram concordâncias verbais mais simples (“existe casos”).
Até chegarem ao 2º ano do ensino médio, passaram-se nove anos de erros sobre erros. Meus alunos querem a Universidade Federal do Acre, mas os políticos e os sindicalistas acrianos nunca discursaram e nunca lutaram para qualificar a escola pública – seus filhos estudam em escola particular.
Vivo da escola pública, meu sustento sai do meu ato de lecionar. O político, sabemos, não vive da educação: o da situação se aproveita dela para dizer que a educação pública vai bem, e o da oposição não sabe o que diz. Estamos muito mal servidos.
O professor de Língua Portuguesa leciona para dez turmas (quatrocentos alunos). Como manter qualidade com essa quantidade? Não mantém. Como corrigir 400 redações? Não são corrigidas, por isso, quando o aluno chega ao ensino médio, ele escreve como quem estivesse na 5ª série.
Além da quantidade de aluno em sala e a quantidade de turma, há outras questões. Deputados e sindicalistas têm propostas para qualificar o ensino de Língua Portuguesa?
sábado, janeiro 07, 2012
Currículo único
Currículo único
Oito horas tem sido meu limite para acordar. Abre-se a janela do quarto e,
diante dos olhos, a cor da montanha contrasta com a do céu. Depois do café da
manhã com minha família, vou ao jornaleiro para comprar O Globo, O Dia e Folha de São Paulo. Leio o que me
interessa e, até às 11 horas, concluo as leituras.
1º de janeiro. Na página Educação – O
Globo dedica espaço exclusivo à escola -, eu soube que o governo federal
criará o currículo único para as escolas do país. Defende-se a ideia de 70% ao
conteúdo universal e 30%, ao regional.
Em 2009, o Rio de Janeiro implantou currículo único em suas escolas. A
prefeitura sugeriu ao sindicato dos professores testar a proposta por um ano,
e, após esse período, os professores foram convidados a propor mudanças.
Segundo Cláudia Costin, secretária municipal de Educação, o resultado no exame
Prova Brasil foi melhor do que em anos anteriores. “Essa organização do
currículo é a base de toda a transformação na educação do Rio”, constatou.
No Acre
Na mesma escola, se o aluno se transferir para o turno da tarde, ele não
estudará o mesmo conteúdo, por exemplo, o de Literatura. A escola acriana peca
por não haver unidade de conteúdo e
muito menos um conteúdo regional.
Na escola acriana, professor, se quiser, pratica leitura de um romance ou de
poesia em sala de aula. Se quiser. Certa vez, em uma escola, um professor expeliu
esta pérola: “Não vejo sentido do aluno ler poesia, porque na sociedade ele não
vai escrever versos”.
Com a aprovação de um currículo único, o MEC estabelecerá uma quantidade de
livros que os alunos terão de ler por mês em cada série. Mais: se o objetivo
for ensinar análise sintática, o professor receberá a indicação de métodos para
lecionar esse tipo de conteúdo de Língua Portuguesa.
Hoje, no Acre, professor leciona Redação se quiser.
Calendário
JULHO é o prazo final para a redação do currículo por matéria.
ENTRE JULHO E OUTUBRO, discussões
sobre os textos com entidades que representam professores e diretores e com
secretários estaduais e municipais de Educação.
NOVEMBRO, consulta pública das
propostas de currículo por matéria.
DEZEMBRO, apresentação conclusiva da redação com as expectativas de
aprendizagem por série.
Sempre leio os jornais na varanda da casa de meus pais e, nos últimos dias,
desde 19 de dezembro, tenho lido ao som da chuva e perto de meu irmão e dos meus.
Estou feliz!
Estou feliz!
sábado, dezembro 17, 2011
Quando o Natal chegar...
deixe-me permanecer em paz sobre o que o orgasmo deixa em nós:
o descompromisso das horas
a largura das almas
a ausência das faltas
o descompromisso das horas
a largura das almas
a ausência das faltas
a calma das pálpebras
a sonolência heroica
tudo,
tudo após a tua tempestuosa carne
ter varrido de minha pele e de meus olhos
o que é pouco
o que é reles,
deixando apenas em desordem
a rigidez de meus ossos.
Deixe-me permanecer em paz sobre o que o orgasmo deixa em nós:
este silêncio denso de suor
nos corpos.
a sonolência heroica
tudo,
tudo após a tua tempestuosa carne
ter varrido de minha pele e de meus olhos
o que é pouco
o que é reles,
deixando apenas em desordem
a rigidez de meus ossos.
Deixe-me permanecer em paz sobre o que o orgasmo deixa em nós:
este silêncio denso de suor
nos corpos.
Um pedido ao secretário Zen
Secretário, por favor, permita que a semestralidade retorne à Literatura e à Língua Portuguesa.
Eu leciono Língua Portuguesa (gramática e redação) e Literatura(leitura de dois romances e poesia). Na primeira semana, o aluno estuda redação; na segunda, gramática; na terceira, poesia; e, na quarta semana, leitura em sala.
Sem a semestralidade, eu leciono para quatro turmas do 2º ano, ou seja, eu corrijo muitas redações. Se fossem duas turmas - o que a semestralidade permite -, eu lecionaria para duas, o que significa mais tempo dedicado a correções de texto, porque são menos textos corrigidos. Com menos turmas, cansa-se menos e eu me dedico mais a correções textuais.
Secretário, quem trabalha com refacção textual, segundo os parâmetros, desgasta-se demais em sala de aula, o trabalho fica prejudicado. Quando havia a semestralidade, havia mais qualidade de ensino.
Sem a semestralidade, eu leciono para quatro turmas do 2º ano, ou seja, eu corrijo muitas redações. Se fossem duas turmas - o que a semestralidade permite -, eu lecionaria para duas, o que significa mais tempo dedicado a correções de texto, porque são menos textos corrigidos. Com menos turmas, cansa-se menos e eu me dedico mais a correções textuais.
Secretário, quem trabalha com refacção textual, segundo os parâmetros, desgasta-se demais em sala de aula, o trabalho fica prejudicado. Quando havia a semestralidade, havia mais qualidade de ensino.
Quem pede é um profissional que leva a educação muito a sério.
O rosto de Gregório
Ontem, pensei que fosse a última postagem do ano; porém, quando abro meu correio eletrônico, vejo o rosto de Grégorio. Nunca o vi. Jamais sentamos para conversar sobre a vida - Gregório só existe para mim em forma de palavra, e eu também, dessa forma, para ele.
Assim ele deixou uma parte de seu rosto:
"Bom descanso, nobre professor. Que venha 2012, e que possamos melhorar cada vez mais, tanto a nós mesmos quanto a nossa volta. Que a educação seja arejada com novos ares de vida, de cores, de sentidos, de sentimentos, de arte... Não podemos desistir: se não fizermos um bom trabalho nós mesmos pagaremos por isso - como já pagamos pelo descaso que nos foi legado. Desejo boas festas, um bom reencontro com a família e amigos - toda criança adora esse período do ano, não só porque estão livres da escola, mas porque podem conviver mais com os pais, com os parentes e amigos; podem brincar mais, rir mais... É, elas estão certas. Então, muita coisa de criança para todos nós! Muita bagunça, diversão, prazer, preguiça, desfrute, contemplação, e principalmente, muita família. Abraços e até breve."
Gregório, na escola onde leciono, não acredito, como você escreve, em "novos ares de vida"; não creio não por causa dos meus colegas de profissão, mas por causa da didática política de homens públicos.
Como sabemos, filho de político não estuda conforme o dinheiro público escolar. A escola Heloísa Mourão Marques continuará a ser em 2012 um espaço desagradável: sala desconfortável, ruídos correndo por corredores, imagem de um lugar incomunicável com a arte, com a estética tecnológica, com o aprazível e com a ordem afetiva. Não tenho ilusões - na escola, o Ano-Novo nunca chega.
No entanto, após mais de 20 anos lecionando, minha palavra ainda permanece muito viva em sala para meu semelhante. Se há alguma transformação em sala, ela depende de mim, de minha paixão por lecionar.
Colocarei alunos no formato do círculo, essa forma geométrica mais perfeita; também por causa do calor, ficarei menos em sala de aula; duas vezes por semana haverá teste escrito; retornarei com as gincanas; lerei um ótimo romance como os bons pastores leem a Bíblia; selecionarei bons textos relacionados à questão homoafetiva; quando passar um bom filme no shopping, irei com os alunos e colocá-lo-ei na avaliação; irei propor a uma colega de trabalho uma nova atividade no dia dos namorados.
Antes de retornar às aulas, estarei com o calendário de conteúdo pronto, ou seja, trabalharei um pouco "em meu descanso". Lerei um livro nas férias.
Gregório, um abraço fraterno em teu destino.
Assim ele deixou uma parte de seu rosto:
"Bom descanso, nobre professor. Que venha 2012, e que possamos melhorar cada vez mais, tanto a nós mesmos quanto a nossa volta. Que a educação seja arejada com novos ares de vida, de cores, de sentidos, de sentimentos, de arte... Não podemos desistir: se não fizermos um bom trabalho nós mesmos pagaremos por isso - como já pagamos pelo descaso que nos foi legado. Desejo boas festas, um bom reencontro com a família e amigos - toda criança adora esse período do ano, não só porque estão livres da escola, mas porque podem conviver mais com os pais, com os parentes e amigos; podem brincar mais, rir mais... É, elas estão certas. Então, muita coisa de criança para todos nós! Muita bagunça, diversão, prazer, preguiça, desfrute, contemplação, e principalmente, muita família. Abraços e até breve."
Gregório, na escola onde leciono, não acredito, como você escreve, em "novos ares de vida"; não creio não por causa dos meus colegas de profissão, mas por causa da didática política de homens públicos.
Como sabemos, filho de político não estuda conforme o dinheiro público escolar. A escola Heloísa Mourão Marques continuará a ser em 2012 um espaço desagradável: sala desconfortável, ruídos correndo por corredores, imagem de um lugar incomunicável com a arte, com a estética tecnológica, com o aprazível e com a ordem afetiva. Não tenho ilusões - na escola, o Ano-Novo nunca chega.
No entanto, após mais de 20 anos lecionando, minha palavra ainda permanece muito viva em sala para meu semelhante. Se há alguma transformação em sala, ela depende de mim, de minha paixão por lecionar.
Colocarei alunos no formato do círculo, essa forma geométrica mais perfeita; também por causa do calor, ficarei menos em sala de aula; duas vezes por semana haverá teste escrito; retornarei com as gincanas; lerei um ótimo romance como os bons pastores leem a Bíblia; selecionarei bons textos relacionados à questão homoafetiva; quando passar um bom filme no shopping, irei com os alunos e colocá-lo-ei na avaliação; irei propor a uma colega de trabalho uma nova atividade no dia dos namorados.
Antes de retornar às aulas, estarei com o calendário de conteúdo pronto, ou seja, trabalharei um pouco "em meu descanso". Lerei um livro nas férias.
Gregório, um abraço fraterno em teu destino.
sexta-feira, dezembro 16, 2011
Até 30 de janeiro
Neste ano, não tenho mais nada a dizer. Depois de 1º de janeiro, escreverei nem sempre, às vezes.
Foto aqui, outra foto ali; algo que li nos jornais O Globo, Folha de São Paulo, O Dia.
Já vou! Chega de mim! Chega de palavras vãs!
Foto aqui, outra foto ali; algo que li nos jornais O Globo, Folha de São Paulo, O Dia.
Já vou! Chega de mim! Chega de palavras vãs!
quinta-feira, dezembro 15, 2011
Ao colega Gleyson Moura
Gleyson, sei que não dei continuidade ao seu projeto e muito menos preparei a poesia para teus alunos. No entanto, como dei a minha palavra, falarei de literatura em tua escola em 2012. Irei procurá-lo.
Quanto a tua postagem referindo-se ao meu texto sobre o Acre, digo-lhe que o blogue é um espaço menor para pensar algo tão importante.
Agradeço não por causa do teu elogio, mas por causa de teu respeito. Gosto mesmo quando se opõem a mim com elegância, porque a gente aprende.
Nesses meus 20 anos de Acre, confesso a ti, um acriano, que a realidade social local me fascina, provoca-me a refletir sobre o que somos, sobre as mentiras do que somos, sobre as vergonhas do que somos.
Agradeço não por causa do teu elogio, mas por causa de teu respeito. Gosto mesmo quando se opõem a mim com elegância, porque a gente aprende.
Nesses meus 20 anos de Acre, confesso a ti, um acriano, que a realidade social local me fascina, provoca-me a refletir sobre o que somos, sobre as mentiras do que somos, sobre as vergonhas do que somos.
Evidente que não há uma identidade absoluta, unitária; existem identidades. O Acre é um retalho de formas e de cores. Existem muitos Acres dentro do Acre.
De um pensamento, Gleyson, tenho certeza: o acriano de certas classes sociais não sabe falar do Acre porque nasceu no Pará, em Brasília.
De um pensamento, Gleyson, tenho certeza: o acriano de certas classes sociais não sabe falar do Acre porque nasceu no Pará, em Brasília.
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Só há um problema com o cinema do Acre
Se formos falar de sala de cinema, ela chegou ao Acre em 2011, não devendo nada às salas do Rio de Janeiro.
Só há um problema: está prevalecendo o filme comercial.
"O Palhaço", de Selton Mello, estava em cartaz e logo sumiu. Em Rondônia, ele continua.
A belíssima película de Almódovar, "A pele que habito", nem roçou por aqui.
Se prevalecer o filme comercial, filme só como entretenimento, a sala ficará pequena para tanta futilidade visual.
"O Palhaço", de Selton Mello, estava em cartaz e logo sumiu. Em Rondônia, ele continua.
A belíssima película de Almódovar, "A pele que habito", nem roçou por aqui.
Se prevalecer o filme comercial, filme só como entretenimento, a sala ficará pequena para tanta futilidade visual.
O Acre não existe e, se existe, é o fim do mundo
Depois de a jovem afirmar que o Acre não existe e da matéria jocosa do G1 sobre o shopping acriano, deixo aqui meus retalhos.
Resido aqui há quase 21 anos, porque aqui, depois da Frente Popular, a vida ficou melhor. Tenho uma filha rio-branquense, ela queria ser carioca.
Por que ser carioca? "Porque aqui não tem nada, pai", respondeu a inocente. Mas o que significa não ter nada? Na época, ela disse que no Acre não havia nem shopping. Haver esse templo profano de consumo representa para ela retirar o Acre do nada.
Resido aqui há quase 21 anos, porque aqui, depois da Frente Popular, a vida ficou melhor. Tenho uma filha rio-branquense, ela queria ser carioca.
Por que ser carioca? "Porque aqui não tem nada, pai", respondeu a inocente. Mas o que significa não ter nada? Na época, ela disse que no Acre não havia nem shopping. Haver esse templo profano de consumo representa para ela retirar o Acre do nada.
Na escola, certa vez, um aluno me disse que não compreendia como eu, vindo do Rio de Janeiro, permanecia no Acre. Para ele, o Acre não era desenvolvido porque não havia shopping na época. Hoje, com shopping, o Acre já é desenvolvido.
Esse, portanto, um primeiro ponto: o shopping.
E o segundo?
Nesses anos, uma classe social, representada por pessoas cujos nomes não posso revelar, sempre negou a sua origem. Passando dias no Rio de Janeiro, um acriano diz: "Sou de Brasília". Em São Paulo, afirma: "Sou do Pará".
Ouvi muitas histórias de acrianos que, passando pela "Cidade Maravilhosa" ou estudando em São Paulo, negavam suas origens.
Ora, não precisa alguém de o Rio Grande do Sul dizer por meio da internete que o Acre não existe, porque, para muitos acrianos da classe média, média-alta ou alta, o Acre não existe: "Sou de Brasília", "Sou do Pará".
Muitos acrianos dessas classes sociais têm vergonha de ser acriano. Mas por que a vergonha?
Não educo minha filha para ser carioca; educo-a para ser acriana. Mas o que é ser acriano? Em um blogue, não cabe a resposta. É preciso um artigo, uma dissertação ou uma tese; é preciso uma ideia escrita com o olhar de estrangeiro.
Mas, a ela, eu digo oralmente; eu a educo oralmente. No entanto, não sei se ela ficará convencida de ser acriana ao longo dos anos, o que lamento.
Esse, portanto, o segundo ponto: trair sua própria origem.
Não existe em nossa bibliografia um trabalho escrito e profundo sobre nossas vergonhas, sobre nossos rostos, sobre nossas identidades. Ainda existe um vácuo sobre nós, acrianos.
No Rio de Janeiro, talvez um primo babaca de minha filha ria dela por ela ser acriana, essa terra que não existe para ele e para o pai dele.
Minha filha, se responder à altura do cupuaçu, do açaí ou do suco de maracujá com pó de guaraná, não dirá que na terra dela tem viaduto, tem Expo-Acre, tem shopping, tem estádio de futebol, porque não serão construções que irão diferenciá-la do primo do Rio de Janeiro.
Para se defender, para não ser motivo de riso, Lara precisa de conhecimento, de cultura, de educação, de livros e de percepção apurada da vida.
O Acre só existe segundo a tua palavra, a tua defesa e, se ele, o Acre, é o final do mundo para alguns, diga-lhe, filha, que é o final, por isso estamos tão longe do "desenvolvimento" do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde a miséria dessas metrópoles não se compara à simplicidade de quem é pobre em Feijó, em Tarauacá.
Lecionei em Feijó durante duas semanas em 1994 e, nesses dias, conversando em uma praça, um homem me disse que não retornou ao Ceará porque em Feijó ele nunca passou fome.
Até hoje e durante muitos anos, em Feijó não haverá shopping. Mas não passar fome, convenhamos, minha filha, é muito mais humano. Sim, aqui é, graças a Deus, o fim do mundo.
E deixe São Paulo ser o começo com seus engarrafamentos de 100 quilômetros à margem de um rio que é só esgoto a céu aberto.
Prefiro o rio Moa.
sexta-feira, dezembro 09, 2011
Deveria haver mais arte nos muros da cidade
Na rua Pernambuco, esquina com Nações Unidas, no muro da escola Neutel Maia, encontramos o passado acriano por meio dos olhos de Dalmir.
Primeiro, o óbvio: a floresta não é verde. Mais: não há beleza nela. Nenhum apelo ufanista.
E poderia haver beleza onde predomina a exploração? Poderia haver beleza quando o seringueiro pagava para ser escravo?
Em fileira, seringueiros caminham ao batelão. No lugar das cabeças, eles carregam a riqueza do seringalista, as pelas. Suas cabeças são bolas de borracha.
Homens submetidos à solidão. A imagem é sombria; e o trabalho, fúnebre. Eles não percebem, mas tudo é morte.
Primeiro, o óbvio: a floresta não é verde. Mais: não há beleza nela. Nenhum apelo ufanista.
E poderia haver beleza onde predomina a exploração? Poderia haver beleza quando o seringueiro pagava para ser escravo?
Em fileira, seringueiros caminham ao batelão. No lugar das cabeças, eles carregam a riqueza do seringalista, as pelas. Suas cabeças são bolas de borracha.
Homens submetidos à solidão. A imagem é sombria; e o trabalho, fúnebre. Eles não percebem, mas tudo é morte.
A forma como Dalmir olha o Acre me fascina, ele deveria estar por toda Rio Branco.
Que belo artista!
Que belo artista!
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