domingo, maio 01, 2016

A luta dos professores do Paraná não é exemplo



            Em 29 de abril deste ano, o confronto entre policias e professores da rede estadual de ensino do Paraná completou um ano. Na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico, em Curitiba, Língua Portuguesa, Filosofia, História, Física, Química, Sociologia, enfim, as disciplinas escolares fecharam seus livros para lutar na rua contra o governo de Beto Richa, do PSDB.
  
            Livros foram lidos na faculdade durante anos para que, uma vez formado, o professor enfrentasse policiais muito bem armados em um campo de batalha. O professor que se formou em Sociologia, por exemplo, paralisou a escola para dizer na rua que “a luta continua”.


  
            Médicos jamais saíram às ruas para gritar palavras de ordem e muito menos para apanhar de policiais militares, mesmo porque o conceito de greve se encaixa perfeito no hospital. Se uma unidade hospitalar para de funcionar, o sofrimento se materializa rapidamente, causando colapso na sociedade. Esse colapso ocorre porque o médico, bem diferente do professor, não vive da palavra, ou seja, não vive da abstração. Sendo assim, o conceito de greve é muito adequado, visto que a natureza do trabalho em hospital materializa-se no corpo, não em ideias. E mais: caso pare sua atividade profissional, o médico não precisará repor suas consultas.

            Uma pergunta: será que o professor pode chamar de “greve da educação” sabendo que suas aulas serão repostas? Não seria mais lógico chamar de “férias antecipadas”? Mais uma pergunta: se o ato de falar em sala de aula se distingue do ato de agir em um consultório médico, pode a palavra de um professor parar a cidade? Ora, quando o médico para de examinar seus pacientes, ele consegue parar a cidade; no entanto, quando o professor para a escola, sua palavra não causa nenhum colapso na cidade. E nós sabemos que a origem do conceito de greve, que é anarquista, tem como finalidade última parar a cidade.


  
            Dois representantes do pensamento anarquista que executaram muito bem o conceito de greve foram Mahatma Gandhi (1869-1948) e Martin Luther King (1929-1968). Com esses dois exemplos históricos, um nos Estados Unidos e outro na Índia, o professor, antes de paralisar suas atividades escolares, deveria abrir livros sobre a história do pensamento anarquista para aprender que paralisar uma escola não é fazer greve. Paralisar uma escola é, antes e acima de tudo, antecipar as férias para depois ainda ter de repor o tempo das férias antecipadas.


  
            No caso dos professores do Paraná, houve ainda um adicional: apanharam feio de policiais. O que houve há um ano com esses profissionais não representa nenhum exemplo de luta pelo motivo de essa luta estar completamente errada como luta da educação. O corpo docente encontra-se muito doente por causa do “parasita sindical”. Esse corpo precisa se curar primeiro dele; precisa recuperar sua força original de pensar a natureza de seu trabalho.  Assim, uma vez curado desse parasita, o corpo docente deve se levantar para que seus movimentos criem formas apaixonantes de intervenções inteligentes e sensíveis no espaço urbano.               
      
Aldo Bourdieu (língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.

sábado, abril 23, 2016

ORGASMO APÓS OS 60 ANOS



Ângela Vieira

Lembro-me ainda de minha avó aos 60 anos. Senhora de idade sem o aroma do erótico, ela era a imagem de quem não sentia mais desejo por nenhum homem - a não ser pelos netos -, mesmo porque não despertava mais nenhum.  Aparentando ter saído de algum conto de fadas de Charles Perroult (1628-1703), a minha Esther representava o modelo clássico da vovó: o da censura, o da moral rígida. Inimaginável ela falar de prazer, de sexo, de gozo. Depois dela, outras vovós vieram para ler contos clássicos de fadas; porém, diferentes de minha avó, elas agora encantam homens mais novos. Essas vovós ainda podem até cuidar dos netos; mas, na intimidade, são os homens os seus bebês. 


Se Esther representou para uma época o final de uma vida, a vovó do século 21 deseja intensamente viver o corpo e a mente por meio de encontros que a potencializem ou, como diria o filósofo Espinosa (1632-1677), deseja “encontros alegres”, porque, embora não possa evitar a morte, ela pode chegar aos 60 anos com uma vida para ser amada para além do quartinho do neto. Vovó quer ser devorada pelo lobo bom, e digo bom porque uma mulher sexagenária, uma vez bem madura, não vê só a boa aparência da “fruta”, mas deseja uma suculenta alma a fim de provar a essência. Uma mulher madura, quando madura mesmo, não quer o corpo pelo corpo, pois ela viveu muito para saber que inteligência, bondade, compreensão, ternura, preliminares, verdade, por exemplo, são ótimos para temperar a carne. Seu paladar é apuradíssimo. O sabor do gozo após os 60 anos assemelha-se ao divino, pois, afinal, ela, a vovó, é divã – deusa que deixa as mortais de 20 aninhos insossas.

Por isso e por muito mais, o orgasmo pós-60 anos jamais é vulgar, visto que o vulgar é fácil como é fácil destruir objetos, e a vovó soube muito bem preservar a idade-corpo e a idade-mente, não se deixando competir com uma adolescente. A vovó se reconhece como não adolescente, não engana sua idade; ela só preserva, na justa medida do tempo, o charme, a elegância, como se fosse brisa que preserva o sutil movimento. Mais: ela seduz porque também pulsa nela, em sua alma, o vigoroso tempo vivido das perdas, das alegrias, das derrotas, dos que se foram antes dela. Por causa disso, ela tem muito a dizer com a calma que o tempo exigiu dela. Nada em sua idade é apressado: chegar ao orgasmo e levar o outro a ele é movimento suave de que quem adquiriu sabedoria, mas também é explosão sexogenária de quem grita pela vida por causa de alegres encontros. Sexagenária era a minha avó. 


Os rígidos sentenciarão que essas vovós são imorais, mas eu pergunto, pergunto e pergunto: a rigidez é valor supremo para a vida? será a vida, a vida em si, rígida? se for rígida como declara a rigidez dos moralistas, por que a vida se renova? o que é rígido ou inflexível renova-se? a beleza da vida não será por causa de ela ser divino movimento, divina inconstância?     


As atrizes Eliane Glardini (64), Ângela Vieira (62) e Bruna Lombardi (62) - só para ofertar três sensuais exemplos -, caso sejam avós, devem contar estórias à noite para seus netos, mas essas vovós, que não são rígidas, vivem mais e mais quando seus “bebês” sorriem ao embalo de sussurros ou de gemidos ao pé do ouvido, à sombra daqueles que secam a vida com rigidez.

Aldo Bourdieu (língua.portuguesa@uol.com.br) é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.         


                   

domingo, março 20, 2016

À luz ou à sombra?


A palavra, sabemos, é instável; não é senhora de um só significado, de um só sentido, por isso que ela “é” e “não é”. Por ter a natureza da inconstância. a palavra não pode dizer a verdade, porque, para haver verdade, é preciso existir a constância de A = A.

Para o político, a verdade sempre deve ser dita, pois, como trabalha para o bem dos cidadãos, sua palavra não pode ser ambígua, sua palavra não pode ter duas caras. Mas em que espaço a palavra do político comporta-se como verdade fosse? Pergunto porque a palavra do político precisa de um ambiente que acomode a verdade, que a acolha com segurança. A verdade transmite estabilidade.



Mas que ambiente é esse onde se acomoda a verdade a fim de o político transmitir com segurança a palavra? Ora, esse espaço é o espaço público, mas o entendamos como lugar onde a palavra fica às claras. Diante das câmeras de televisão, perante a multidão sem rosto, o político promete com a face toda exposta à luz do dia ou exposta à luz dos holofotes da TV. Como poderia ser sua palavra mentirosa se o político encontra-se tão exposto? O senso comum acredita que a verdade se manifesta porque, ao estar a palavra às claras, a luz retira da palavra do político toda ambiguidade, ou seja, retira dela toda  inconstância. À luz do dia, a palavra é firme. A verdade, dizem, é luz.

Entretanto, diferente da crença bobinha do senso comum, a verdade jamais poderia se manifestar às claras, porque a verdade não é fácil de ser encontrada, não é valor disponível à luz do dia ou à luz dos holofotes de TV. O que é fácil só é fácil por estar exposto à luz. A verdade, concordemos, não é fácil, como é fácil encontrar objetos à luz do dia. A verdade é difícil na vida, trajetória de uma vida inteira. A verdade, portanto, é busca.

Mas por que buscamos a verdade? É busca porque ela precisa ser encontrada e, para encontrá-la, precisamos saber onde ela está. Ora, se não sabemos onde ela está, e por isso a buscamos, é porque a verdade, que não é fácil encontrar, encontra-se ocultada. Buscamos a verdade para des-cobrir. A verdade não é fácil como são fáceis de ver os objetos à luz do dia. A verdade é segredo à sombra do espaço público, à sombra dos holofotes de TV, à sombra do que o político diz à multidão.

Para o senso comum, a palavra no espaço público é palavra verdadeira, pois ela é dita às claras. Mas é no espaço privado, oculto, à sombra das multidões, onde a palavra não é fácil ser encontrada. À sombra do que é fácil ser encontrado, a verdade é ouvida por poucos, por exemplo, pelo juiz Sérgio Moro. Em latim, “sigilo” significa “marca pequena”, e a “marca pequena” foi quebrada pelo juiz. O que é pequeno, sabemos, não é fácil de ver; porém, uma vez quebrado o sigilo, o que estava oculto, escondido, à sombra da multidão, sai de seu pequeno lugar (conversa pessoal ao telefone) para “assombrar” a luz do dia.

domingo, março 06, 2016

Alétheia

A 24ª fase da Lava Jato é chamada pela Polícia Federal de Operação Alétheia, que na escrita grega é άλήθεια. Os romanos a traduziram como veritas, que se transformou para nós, falantes da língua portuguesa, em verdade. Por causa da tradução,  alétheia perdeu seu sentido original. Isso, entretanto, não exclui a busca de entender um pouco a diferença entre a verdade grega e a verdade latina.


No jornal impresso, no telejornalismo e nas redes sociais, logo se propagou a ideia de que alétheia é “busca da verdade”; porém, se é “busca da verdade”, giramos em círculo ou substituímos seis por meia dúzia, porque o sentido de alétheia se prende ao que nossa cultura entende como verdade. Herdamos dos romanos o entendimento de verdade, entendimento esse que tem como estrutura o direito romano, isto é, a verdade que herdamos do Império Romano vincula-se ao “fato objetivo”, “ao real em si”, “ao que está exposto às claras”. O direito precisa de provas, e as provas são o fato. A verdade do senso comum, que tem como estrutura o mundo jurídico romano, é o fato. Outra compreensão de verdade segundo a língua latina é a qualidade daquele que faz o que diz e que diz o que faz, isto é, a palavra dita só é verdadeira se a palavra se materializa enquanto fato, enquanto realização.


Para os gregos, contudo, verdade não é isso, por isso alétheia, que significa “não esquecimento”. Ora, se alétheia é “não esquecer”, é porque um dia a alma esqueceu e esqueceu porque algo está coberto, velado (lethe). Alétheia é também “des-cobrir, não ocultar”, mas a verdade grega é o momento em que o des-coberto emerge do encoberto. Essa é verdade originária: junção desveladora do encoberto com o seu aparecer, alétheia ou des-cobrimento que irrompe desde o velamento, junção do aparecer com o encoberto. 


Bem diferente da verdade romana, a verdade grega não é o fato, mas a interseção entre o claro e o escuro, quer dizer, para o grego, a verdade não é a luz solar em si e nem a luz lunar em si, mas a junção entre as duas, podendo ser representada pela luz do pôr do sol. Há um belo livro de Guy Van de Beuque que pensa essa questão, Experiência do nada como princípio do mundo.



Até aqui, eu disse que alétheia é a verdade segundo os gregos. Incorreto. O filósofo Gilles Deleuze tem a ideia de “consistência de conceito”, isso significa que o conceito de verdade, por exemplo, depende de cada filósofo. Sendo assim, a verdade pensada por Aristóteles não está na ideia de alétheia. Quem a pensa é Platão na bela obra Fédon.



A Polícia Federal, por meio da Operação Alétheia, trouxe Platão a nós, caindo perfeito para Luís Inácio Lula da Silva e para o PT. E por que perfeito? Porque ambos se esqueceram de suas origens. Mais: eles se esqueceram de que uma das causas de Lula ter sido obrigado a depor na Polícia Federal encontra-se em um dos nomes do próprio partido: Delcídio do Amaral, cuja voz foi gravada pelo filho de Nestor Cerveró em uma reunião onde Delcídio busca comprar o silêncio de Nestor. E quem colocou Delcídio no governo de Dilma Rousseff? Quem ordenou Delcídio comprar Nestor Cerveró? Lula e os militantes do PT se esqueceram, mas Delcídio não se esqueceu. Será que o senador petista leu Platão?







Aldo Bourdieu é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.  

terça-feira, fevereiro 23, 2016

História, Deus e a Filosofia

Por causa da ditadura militar, a Lei 5.692, de 1971, ordenou a retirada da Filosofia das escolas brasileiras. Após 25 anos, ela retorna; porém sem ser obrigatória conforme a Lei 9.394, de 1996. A Lei 11.684, de 2008, determina que o pensar filosófico é obrigatório no ensino médio. Entretanto, como não existe professor de Filosofia formado em número suficiente para lecionar nas escolas, o estado brasileiro encontrou uma saída - o professor de história pode lecionar Filosofia.

Se o professor de história fala Filosofia a jovens do ensino médio, a Filosofia, óbvio, não fala de si mesma, sendo, portanto, um estranho que fala Filosofia. Por ser um estranho que fala, ele deforma a Filosofia, e tamanha desfiguração ocorre quando a história fala a Filosofia na Idade Média, a ponto de dizer que a Filosofia, por estar na Idade Média, não é Filosofia.

Mas Deus deve estar na grade curricular de Filosofia a fim de que seja pensado por meio de filósofos medievais que possibilitaram a riqueza de diálogo entre a fé e a razão. Muito diferente do professor de história que fala Filosofia, pertence à Idade Média uma Filosofia plural, farta de tensões, cuja linguagem exercita a mais autêntica Filosofia que pensa profundamente Deus. 

Para que Deus seja pensado na escola por meio de uma linguagem profundamente reflexiva, que é a linguagem filosófica, o professor de história precisa sair de cena com suas aulas que não compreendem a Filosofia, mesmo porque a história não pensa conceitos e não pensa porque não cabe a ela pensá-los.

O destino da Filosofia, por outro lado, é pensar conceitos ou se pensar na própria linguagem. Se Deus é evocado, se Deus é pronunciado, a vastidão do divino na alma humana, além de ser fé, também é razão que compreende a fé enquanto conceito vital para o ser humano. Não é da natureza da fé se pensar, mas sim é da natureza da razão reflexiva se pensar e pensar a fé na vida humana. Para tanto, o professor de Filosofia precisa estar muito bem formado a fim de reparar o erro ainda cometido pelo professor de história, o de falar o que não sabe.

Existe um deus menor propagado por homens menores, aqueles que se julgam pregadores da “verdade” desse mesmo deus, limitado pela densa ignorância, pela espessa arrogância da intolerância. Por outro lado, pulsa um Deus pensado por cristãos da Idade Média que engrandecessem o pensamento.

Esse Deus precisa ser lido na escola, precisa ser entendido pela razão. O deus falado de qualquer maneira por cristãos em qualquer igrejinha de esquina, erguida ao lado de qualquer boteco como se ela mesma fosse o próprio boteco de deus, tem prevalecido como inconsequência delirante de uma fé insana e autoritária de pastorzinhos e de padrecos. Por falarem muita merda em nome do Senhor,

Deus precisa ser pensado na escola por meio da Filosofia; no entanto, ao ter sido desfigurada pelo professor de história, falta Filosofia até hoje na escola. Porque o pensamento filosófico não fala o pensamento filosófico, visto ser falado pelo professor de história, a Filosofia está ausente no ensino médio desde 1971, ou seja, são 37 anos sem que a palavra seja pensada na escola.

sábado, fevereiro 20, 2016

Mosquito ou carapanã?

            
Por mais de 20 anos, do ensino fundamental ao universitário, lecionei no Acre e, como professor de Língua Portuguesa e de Literatura, conheci de perto a escrita de meus alunos. Conheço seus erros mais comuns, conheço muito bem a estrutura educacional da escola pública acriana para afirmar que os índices muito ruins de Língua Portuguesa, segundo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), não poderiam ser outros. A escola pública do Acre ensina muito mal a Língua Portuguesa.
            
A Academia Acreana de Letras e a Secretaria da Educação do Acre, entretanto, põem a público um plebiscito para que, por exemplo, alunos escolham entre “acreano” e “acriano”. Escrever bem nas escolas se reduz a isso, à escolha de um fonema, ou seja, à escolha de uma unidade mínima não significativa, porque, nessa unidade, segundo alguns, encontra-se a identidade de um povo. Escrever “acriano”, portanto, é perder a identidade do povo “acreano”.

Não quero aqui pensar, segundo a Filosofia, o conceito de identidade e, segundo a gramática clássica, pensar o fenômeno na própria palavra para que seja “acriano”; não quero também entrar na questão justa de, fora da natureza da própria palavra, escrevermos “acreano”. Sou defensor das duas formas, tal como existiam antes da atual reforma ortográfica, visto que a Lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971, permitia escrever “acreano” (forma popular) e “acriano” (forma clássica). No entanto, afirmar que “acreano” mantém a identidade histórica de um povo por causa de um fonema, convenhamos, é afirmar, por analogia, que a população brasileense perde sua identidade por ter de escrever, conforme a lei ortográfica atual, “Brasileia” e não “Brasiléia”. Tanto o fonema quanto o acento são “traços”. A identidade encontra-se, nesse caso, no traço? 

Se um “acreano” ou um “acriano” visitar o Rio de Janeiro, sua identidade regional será identificada por causa do som ou do fonema “e” em “acreano”? Penso que não. Entretanto, se esse mesmo “acriano” ou “acreano” falar “carapanã da dengue” e não “mosquito da dengue”, a sua identidade regional marcará diferença na cultura linguística do Rio de Janeiro? Penso que sim. Igual a “mosquito”, “carapanã” é gênero, devendo a espécie ser “carapanã Aedes Aegypti” no Acre e “mosquito Aedes Aegypti no Rio de Janeiro”. Todavia, a Academia Acreana de Letras e a Secretaria Estadual de Educação do Acre incomodam-se com o “acriano”, permanecendo indiferentes ao “mosquito da dengue”. 

Ora, a memória habita na palavra, não no fonema de “acreano”, não no acento agudo de “Brasiléia”. Nós pensamos a beleza identitária do Acre não por causa de “e” ou de “i”, mas porque “e” e “i” deixam de ser unidades mínimas não significativas NA PALAVRA, quer dizer, por estarem NA PALAVRA, deixam de ser unidades mínimas não significativas porque os fonemas “e” ou “i” se relacionam com outros fonemas NA PALAVRA. É a palavra, portanto, guardiã da memória; pois, nela, NA PALAVRA, as relações fonêmicas possibilitam o fonema ser unidade mínima significativa ou, mais ainda, possibilita NA PALAVRA o sentido de um povo ou perda dele.

Sou pai de uma filha acriana ou acreana, Lara Valentina, e ela chegará ao Rio de Janeiro ainda neste mês para conviver comigo, com a minha esposa acreana ou acriana e com a cultura carioca. Quando pequena, creio uns 9 anos, ela me perguntou o que ela deveria fazer para também ser carioca. Pensei um pouco e disse-lhe “diga sempre pernilongo ou mosquito, jamais carapanã”. Quando ela pisar em solo carioca, a primeira coisa que direi a ela será “minha acriana filha, diga sempre nesta parte do Brasil 'carapanã', porque essa palavra marca a sua identidade regional”.               
           

Aldo Bourdieu é professor de Filosofia, de Sociologia, de Literatura, de Religião e de Língua Portuguesa.

sábado, fevereiro 06, 2016

A ESSÊNCIA segundo MARX e ENGELS

A editora Boitempo publicou em 2007 "A Ideologia Alemã", de Karl Marx e de Friedrich Engels. Em hipótese alguma, trata-se de uma obra filosófica, isso é evidente, porque os autores não pensam os conceitos; eles os jogam nas folhas.



Dois desses conceitos, "ser" e "essência". Nas páginas 46 e 47, escreve-se no rodapé que "a 'essência do peixe é o seu 'ser', a água - (...). A 'essência' do peixe de rio é a água de um rio. Mas esta última deixa de ser a 'essência' do peixe quando deixa de ser um meio de existência adequado ao peixe, tão logo o rio seja usado para servir à indústria, (...)".


Não são pensados no livro os conceitos "ser" e "essência", e o leitor que ignora leituras clássicas sobre o "ser" e a "essência" limita-se aos autores de "A Ideologia Alemã", que não pensam os conceitos, joga-os.



Quando Aristóteles pensou o "ser" e a "essência", ele não excluiu a vida (do peixe no rio), ele não excluiu uma vida melhor (para o peixe no rio).



Porque não visitam o pensamento clássico, porque não pensam conceitos no livro, Engels e Marx mutilam "ser" e "essência". E nem poderiam pensar, porque, segundo eles, "filosofia é lixo".

sábado, janeiro 23, 2016

A MONARQUIA DE MOMO


De Aldo Tavares

Momo, sabemos, é rei, quer dizer, porque governa, ele representa a política de um reino que possui a força da transfiguração, no sentido de que a transfiguração recusa as restrições do que é funcional; nega os limites do que é ocupado pelas horas determinadas do trabalho. Ser súdito de Momo é perder, portanto, função determinada, é não estar ocupado. Uma vez em seu reino, todos se desocupam por causa da transfiguração da fantasia. Mas, para que a névoa da fantasia se disperse, a fechadura da porta ou da passagem entre realidade objetiva e máscara deve ser aberta com a chave. Para isso, com a mãe direita, o prefeito da cidade a entrega à mão esquerda de Momo. Mão direita e mão esquerda: se “a direita” é o lugar onde nasce o Sol (a Leste) e se “a esquerda” é onde ele se põe (a Oeste), o prefeito simboliza o governo diurno que, por meio da lei, cobra retidão e pune desvios; e Momo, o governo noturno que cobra alegria e não pune quem brinca.

Ao dizermos fantasia - palavra da mesma origem de fantasma -, a ideia refere-se à projeção de uma sombra, isto é, a sombra imita o modelo: se o braço direito é erguido, a sombra também o ergue, mas só que ergue o esquerdo, ou seja, aquele que imita é aquele que inverte. Como a palavra momo origina-se de mimesis, de imitação, pergunta-se: quem o rei Momo imita? Ora, se ele recebeu com a mão esquerda a chave do prefeito, se ele governa depois de o Sol se pôr, se Momo é um ser político (“o que deve ser comum a todos”) -, o reinado momesco imita o poder sério, imita o poder oficial, e, porque imita, Momo inverte o que é sério, coloca do avesso o que é oficial. O rei imita o prefeito. Seu reinado imita a política da cidade.

Mas o que é o avesso? Ora, o avesso da folha é “a parte de trás”, a parte ocultada; é também o verso da folha, o que, para ser visto, precisa ser virado, pois está coberto pela superfície visível da parte frontal da folha, o anverso. Não vemos o verso da folha, óbvio, por ela estar coberta, ocultada ou ainda por estar sombreada pela superfície. Sendo assim, por ser Momo, por ser aquele que imita, seu reino não só inverte como também des-cobre o que a superfície do dia oculta, sabendo que oculta pelo fato de o dia, que é ocupação, conter ou inibir o excesso. No entanto, por ser filho da deusa Nix (Noite) ou de uma mãe que possibilita sonhos, fantasias, fantasmas, Momo, um desocupado divino, é demasiadamente gordo, porque seu corpo representa o excesso ofertado pela alegria, pela máscara, pela loucura (folião), pelo brincar, pelo riso. Momo é a fartura do encontro. Momo destrona o que a luz do dia represa.



Opondo-se ao discurso oficial do prefeito ou à linguagem que regula as desigualdades sociais, Momo promove a ascensão do avesso, porque faz emergir a força subversiva da fantasia, que, após ter recebido a chave do prefeito, estimula a circulação do riso, da brincadeira, da paródia, do escárnio, da máscara, do louco, da festa – palavras que foram excluídas pela disciplina do trabalho, pelo poder sério, pelo poder oficial.
Se o trabalho arranca o suor do rosto, se é sacrifício e exploração, a festa de Momo rebaixa quem domina e explora, visto que, por ser festa,  iguala todos por meio do ato estético de brincar, e, por causa do brincar, a diferença entre ricos e pobres cede a uma louca confraternização. “A loucura tem uma força maior do que a razão, porque, muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma chacota”, nos ensina Erasmo de Rotterdam em O Elogio da Loucura. “Que é, afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco. O mesmo ator aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência”.                                                                       .

E quem mais vive nesse reino da transfiguração? Nessa monarquia fantasiosa, sentado à esquerda de Momo, encontra-se a figura do Bobo, palavra que vem
provavelmente do latim balbus (“aquele que pronuncia mal, gagueja”), porque o Bobo sabe que a razão “é erro ou pobreza, porquanto, ante o mistério do mundo, não sabemos senão balbuciar”, escreveu Régis Jolivet em Tratado de Filosofiai, volume 3.

Houve época em que o Bobo sentava-se à esquerda do rei, ao lado de quem rege, de quem governa, organiza; o Bobo sentava-se ao lado do centro, do eixo, da linha reta; sentava-se ao lado esquerdo do cardo. O Bobo, portanto, imposturava no (seu) ponto cardeal, à esquerda do ponto fixo, isto é, ele transbordava o lugar a oeste do rei, onde fica o poente ou onde se declinam as metáforas do Sol. Após um dia de cansaço, dia de trabalho injusto a serviço de quem im-põe, o Sol se declina para que a noite acolha e cubra os corpos de descanso, de sono, de sonho, de fantasia, de sombra. A palavra oeste (à esquerda) significa “noite”.

Já sabemos que estar à esquerda é estar no poente, o que ainda não sabíamos é que esquerda vem do grego aristera, etimologicamente “excelente, ótimo”, uma vez que aristera se prende ao superlativo aristos, “o melhor, o mais nobre, o exímio, o magnífico”. Ora, se o Bobo eleva-se à medida que o Sol se põe, ao cair da luz, justifica-se então o porquê de o bobo ser excelente, pois, à proporção que o dia se retira de cena, o que se encontrava retido em si mesmo por causa da luz, aos poucos, excede-se. Quando dizemos que ele é excelente, reconhecemos que não só se excedeu como se excedeu, no caso do Bobo, com “graça”. Por não estar à direita da ordem fixa do rei, o Bobo é aquele que, não agindo por conveniência, não estando de acordo com a aparência do dia, senta-se à esquerda de quem governa para se exceder e, excedendo-se, ouve aqueles que se excederam à noite em suas fantasias, delírios oníricos em desacordo com a ordem do dia.


                                                                               .

A palavra direita em latim é dextera ou dextra, podendo se aproximar de decet por etimologia popular, que significa “o que é conveniente”. Dextra tem a mesma raiz em grego, deksiá, cuja ideia é “de bom augúrio, favorável”. Enfim, se o bobo não se posiciona à direita, é porque não representa, por não se exceder, a segurança do leste - do grego eós, “aurora, alvor do dia”; e do latim oriens, “o que nasce”. Por isso, ele se encontra à esquerda, porque o Bobo representa, ao se exceder, perigo que se manifesta por vir do ocidente - do latim occidens e do grego disi, “onde morre o Sol”. Mas por que perigo? Sendo rebento da mãe Noite que atravessou a fronteira entre a escuridão e a luz para se sentar à esquerda de quem im-põe, o Bobo é o noturno que se fan-tasiou de Bobo a fim de, ocultando-se, des-cobrir, à luz do dia, o que o Sol oculta. O Bobo, sombra que impostura a fim de que a clarificada “verdade” das coisas diurnas, encobertas pela própria luz do dia, ponha-se do avesso.

Por causa desse perigo, em 389 d. C, Teodósio e Velentiano II eliminam as festas do calendário. Em 395, Arcadius proíbe no feriado nos dias de festas pagãs. Em 425, Teodósio e Velentiano II proscrevem divertimentos, comédia e circo no domingo e nos dias de festas religiosas. O Concílio de Cartago, em 398, excomunga aqueles que deixam a igreja para ir a espetáculos em dias de festa. O Concílio de Tours, em 567, condena as torpezas pagãs que acompanham as festas de fim de ano, que substituíram as saturnais e passaram a ser chamadas de festas dos loucos; o de Toledo, em 633, reitera a condenação. Tantos interditos só denunciam o quanto perigoso foi nesses anos o excesso político da fantasia, não conseguindo a Igreja, mesmo com tais proibições, subtrair a Festa do Bobo. Isso, porém, não indica que o riso tenha recebido licença dos sacerdotes para manifestar sua liberdade. O que ocorreu é que, não podendo conter a Festa do Bobo por meio de interditos, a Igreja, ainda que neoplatônica, acolheu a força híbrida do Bobo a fim de debilitá-lo ao se fundir com a seriedade do sagrado. A alegria do Bobo, entretanto, cruza os séculos por não ter se fundido ao sagrado.

M
as o que é essa alegria? Por se recusar ao que é ajustado, a alegria do reino de Momo é o desajuste do excesso, da fartura, do inexato, da ilusão, do falso, do irreal. Eis, portanto, para ser alegre, ele: o ato desnecessário, sem função, por isso, desinteressado, opondo-se, pois, ao “ocupar posição, matar de cansaço”; e mata-se de cansaço porque existe na ocupação o sentido do “trabalho de assentar”. A alegria do Bobo, que tanto ri do “trabalho de assentar”, é desinteressada por saber que “trabalho” origina-se do latim trĭpālĭs, termo que significa “instrumento de tortura, de torção”. Por isso, para ser alegre, ela: palavra que, expressada pelo Bobo e por Momo, é a ilusão desinteressada, qual seja: im-postura. Por não desejar pôr, o bobo é im-postor; por não desejar (se) ajustar, o rei Momo é im-postor. Eles, que não se matam de cansaço para ocupar posição porque não trabalham para ajustar e muito menos para se ajustarem, não usam o instrumento que torce para ocupar o espaço. Para ser alegrar – esse afeto que nos expande, sentimento que nos alarga por ser encontro -, é preciso estar (des)ocupado. Bobo e Momo são dois desocupados. Nesse sentido, como não ocupa nenhuma posição na sociedade, a fantasia, que é livre, oferta-nos a nobre ilusão de nos sentirmos também desocupados. Fingir é fugir da ocupação. A alegria não quer, não pode e nem deve se ajustar ao instrumento de torcer para assentar, para ajustar, para acomodar, para fixar - por isso a monarquia de Momo é impostora e, para tanto haver a impostura, os súditos brincam... com a livre seriedade da alegria.


quinta-feira, janeiro 07, 2016

O ESTADO FAZ GREVE MELHOR DO QUE SINDICATO


Nunca conheci um sindicalista que abrisse a boca com o bom hálito da inteligência. A única forma de luta que conhece é a greve, mas, no Rio de Janeiro, por exemplo, o estado realiza uma greve na saúde muito "melhor" do que o sindicato.

Quando a saúde entra em greve como agora, visíveis são seus resultados imediatos. Corpos e mais corpos com suas dores são expostos, a greve da saúde é material, corpórea.

Porém, a "greve" da educação se estende por anos e anos porque não é visível; ela não para a cidade, pois, por não ser material a greve da educação, ela não pode ser chamada de greve.



A greve da saúde paralisa a cidade porque o médico e o enfermeiro não vivem da palavra, porque, se vivessem, não parariam a cidade, visto que a palavra é uma abstração, uma ideia, e ideias ou palavras não morrem visivelmente à porta de escolas. Palavra não é corpo material.

Por causa disso, a "greve" da educação, realizada pelo estado, ocorre de forma tão sutil que, mesmo a escola funcionando, a educação encontra-se em "greve".

Entretanto, como sindicalista é animal irracional que rumina capim ideológico, seu cérebro, em estado vegetativo - e digo vegetativo pelo fato de que é o aparelho partidário que o mantém vivo -, não difere a natureza do hospital da natureza da escola, por isso que, para esse cérebro, o trabalhador médico iguala-se ao trabalhador professor.

Para esse morto-vivo de inteligência, zumbi de ideologias, a escola é o seu cemitério, lugar onde se enterrou para ser candidato pelo aparelho partidário.

O estado apresenta greves bem "melhores".


quarta-feira, janeiro 06, 2016

Um belo autor

A PALAVRA

Reli dois livros de Giorgio Agamben ("Profanações" e "O homem sem conteúdo") e comecei a ler "A potência do pensamento".

Heidegger afirma que "filosofar é recomeçar" e, para isso, seu pensamento vai à raiz da palavra. O recomeço mora na palavra - Heidegger dominava, como homem do século XX, o latim e o grego.

Seguidor das trilhas do alemão, Agamben filosofa porque sabe que a palavra é recomeço. Em "O homem sem conteúdo", ele desorganiza um dos  conceitos de Marx, PRÁXIS.

Para isso, Agamben, que domina o grego, visita quem, primeiro, pensou a PRÁXIS, Aristóteles. Pensar relaciona-se à palavra e, se ela está doente, só a filosofia para recomeçar, isto é, só a filosofia para ir à palavra antes de ela ter ficado enferma por ideologia, por ignorância, por vulgaridade.

Em "A potência do pensamento", Agamben costura conceitos para pensar a linguagem, por exemplo, na parte "Língua e história", onde, além de Agostinho, de Benjamin, ele dialoga com Varrão. Eis um trecho (pág. 35):

"Uma vez que o homem só pode receber os nomes, que sempre o precedem, através da transmissão, o acesso a essa esfera fundamental da linguagem é mediada e condicionada pela história. O homem falante não inventa os nomes nem estes emanam dele como uma voz animal: pelo contrário, eles lhe chegam - diz Varrão - descendendo, isto é, através de uma transmissão histórica. Os nomes só podem nos ser dados, traídos."

A origem do nome nos escapa e, sem a origem, sem a fonte, não conhecemos a causa das coisas, o que os gregos chamavam de "arké".

FANÁ-TICO e POLÍ-TICO

Sem in(stru)ção, não existe escolha, a pessoa não sabe que não sabe escolher. Embora tenha in(stru)ção, a pessoa pode até escolher o erro, mas ele, por ter in(stru)ção, sabe o que escolheu.

Fanático tem "tico". Político tem "tico". Em grego, "tico" significa "derreter". Mas qual a relação de "derreter" com (FANÁ)tico e com (POLÍ)tico?

Se ignoramos a origem, não sabemos o que falamos no presente.


sábado, janeiro 02, 2016

Bobos e palhaços, origem religiosa

Quando muitos olham a alegria do bobo e do palhaço, não fazem a ideia de que ambos pertencem à manifestação de cultos religiosos.

Havia, portanto, na cultura religiosa, o brincar. Hoje, moderninhos que somos, perdemos a memória do religioso como jogo.

Ainda hoje. 

O religioso encarna o peso do sério, adquirindo a força da separação, da distância. Voltar às origens do religioso é entender o brincar.


  

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Marxismo e Criança

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Iniciei um artigo científico a ser publicado em uma revista. Aqui, publico seus dois primeiros parágrafos.

Ei-los:

Em qual livro de história lemos a luta de classe como luta da “estética do falso”? Tais páginas jamais foram escritas na história do marxismo, porque, entre o patrão e o empregado, as lutas nas ruas da Europa e do Brasil sempre se marcaram por sua natureza orgânica, isto é, a práxis do corpo sempre se reduziu a ser meio ou a ser  instrumento da violência ou instrumento da força do corpo enquanto corpo reduzido ao orgânico.



Em qual pensador lemos o marxismo brincando com as crianças? Nas entrelinhas ou de forma invisível, elas podem estar em certos filósofos; porém, de maneira tão visível, não há outro senão ele: quem, nos últimos dias da frágil República de Weimar, em 1933, aproximou marxismo e criança no livro Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação; não há outro senão este filósofo: quem afirma nessa obra que “a encenação contrapõe-se ao treinamento pedagógico como libertação radical do jogo” (pág. 87) - enfim, eis o nome: Walter Benedix Schönflies Benjamin ou tão somente Walter Benjamin (1892-1940). 


segunda-feira, dezembro 14, 2015

Bela obra

Termino 2015 lendo a bela obra de Feuerbach. Muitos nunca leram estas páginas e repetem o que o senso comum repete quando se trata das palavras deste pensador.

O Deus de Feuerbach é antropológico. Não é bem isso. Não é bem assim.

Há uma beleza nesta obra de 1841 que não lemos em "A ideologia alemã", de Marx.  


segunda-feira, novembro 02, 2015

O BRINCAR COMO ATO POLÍTICO


No filme "Tempo Modernos", de 1936, o capital industrial divide o mesmo espaço com Carlitos, o homo ludens, aquele que, por brincar, é antioperário.


Embora estejam no mesmo espaço, capital e a arte de brincar não se identificam. Nesse filme, brincar ainda é estranho ao capital.

Hoje, além de estarem no mesmo lugar, o capitalismo e o brincar se identificam. O capital cada vez mais se infiltra no mundo infantil. O capitalismo também brinca.
O que é Brincar?

Quem brinca se (vinc)ula a; brincar é laçar(-se) com, é unir(-se) a. Quem brinca apoda, isto é, não corta as relações internas do conjunto a fim de isolar as partes cortadas.

Cada parte pensa ser agora autossuficiente.

Mas brincar é apodar, porque cortar, sabemos, separa, impondo, à parte separada, nenhuma alteração, visto que a parte separada não se relaciona mais com. Repousada então em si mesma, ela agora é pura, limpa, estável.

Não quero ser chato, por isso termino.


Quem “poda” tem o “poder de cortar” a fim de tomar posse da parte cortada.

Posse e poder derivam de "pos", da raiz "pot", cujo significado é “senhor, assentar como dono ou como proprietário”, enfim, é aquele que exerce (“não dá folga”) o domínio sobre algum limite do que foi cortado, quer dizer, ao cortar, excesso ou extensão é interrompido, pois aquele que se assenta como dono delimita ou define a fim de que o excesso ou a extensão não escape, afinal, ninguém é senhor sobre o que escapa e, com efeito, por ser incapaz, não domina.

Brincar, portanto, é apodar.


sábado, outubro 24, 2015

A BANDEIRA DO ACRE




Quando existem espetáculos no Rio ou em Sampa, não raro ver uma bandeira acriana. Nunca vi bandeira do Amapá. Jamais vi bandeira de Roraima.

Para estarem no show, não são acrianos que moram à margem dos rios, os ribeirinhos; não são pessoas pobres, classe social com pouco poder aquisitivo.

Pagar passagem de avião. Pagar ingresso. Pagar hospedagem No mínimo, uma classe média acriana vai aos espetáculos.

Por que essa classe social leva bandeira para ser vista por todo país?

Querem mostrar que o Acre precisa existir para o Brasil?

Tolos, escondam a bandeira, o Acre não existe, ou melhor, o Acre não precisa existir para o Rio de Janeiro, para São Paulo, para o Paraná.

Preservem o Acre como segredo; não o exponham aos que ignoram o que seja a brisa verde e molhada de um igarapé. Escondam o Acre dos que pensam - se é que pensam - que progresso é só consumir marcas, carros, bebidas.

O Acre não existe porque o tempo parou nele.

Parou entre um tambaqui em folha de bananeira e um cupuaçu à beira do rio vazante ou à beira de rios onde borboletas voam sobre melancias fartas.

Parou entre suas mulheres que desobedecem o excesso de igrejas para doarem seus corpos em forma de alegria nortista. Parou entre sexos que gozam sob um céu que cariocas e paulistas jamais gozarão.

O tempo no Acre parou entre amigos acrianos que, por não serem baixos, não apunhalam pelas costas, uma gente boa que não tem vergonha de comer o simples prato "Baixaria".

O tempo no Acre parou entre pobres que não passam fome caso queiram plantar em terras fartas de abacaxi maior do que cérebro de políticos atrofiados.

Escondam a bandeira do Acre, ele não existe.

Rio e Sampa são cidades devassadas pela miséria do tumulto e pela selvageria da civilização inútil.

O Acre não é civilizado. O Rio é civilizado. Sampa é civilizado. O Acre ri da civilização com seus índios, com suas adolescentes de pernas grossas de Cruzeiro do Sul que correm seminuas ao sabor da chuva do norte.



O Acre não existe. Ele só existe para quem viveu no Acre e saiu mais humano dele.

O Acre só existe (deformado) para que nunca o viu de dentro e só fala de longe entre as fezes da Baía da Guanabara e os arrastões em Ipanema.

O Acre só existe (atrasado) para quem nunca se banhou no rio de Mâncio Lima e só fala de longe entre três horas para retornar à sua casa depois do trabalho e o estupro em uma van aos pés do Cristo Redentor.

Não, o Acre não existe. Ele é um segredo inefável para muito além das horas pesadas e cansadas das metrópoles.


Escondam a bandeira, o Acre não precisa estar à mostra. Que somente os acrianos e os que viveram nesta farta terra saibam de coração que o Acre existe.

Para o resto que nunca viu as estrelas do céu, o Acre não existe.