sábado, fevereiro 27, 2010

Muita dengue e confusão

Segundo informações, ontem, por volta das 20 horas, o centro de saúde Barral y Barral, bairro Estação Experimental, em Rio Branco, a irmã do ex-governador Jorge Viana, sem ficar na fila, pediu que um enfermo saísse do lugar para ela pôr um doente que estava com ela.

A funcionária pública Sílvia disse-lhe que, se quisesse ser atendida, que ficasse na fila. Em época de dengue, iniciou-se uma confusão.

"Você sabe com quem está falando?", perguntou Sílvia, a irmã do ex-governador. "Não me interessa com quem estou falando, a senhora deve ficar na fila como outra pessoa", respondeu a funcionária.

Depois, comentarei.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A imprensa e Clarice Lispector












Houve uma época em que os jornais editavam inteligência e pautavam cultura. O Jornal do Brasil, por exemplo, publicava as entrevistas de Clarice Lispector [1920-1977], além de seus artigos.

Textos muito bem escritos, linhas que faziam o leitor se sentir humano, eu disse humano, não burro.

A editora Rocco publicou essas entrevistas em um charmoso livro, Clarice Lispector, entrevistas. Entre tantos entrevistados, Emerson Fittipaldi, Paulo Autran, Pablo Neruda, Zagallo, João Saldanha, Tarcísio Meira, Jardel Filho, Elis Regina.

Neste blogue, separo: Nelson Rodrigues. Escreve Clarice.

"Avisei a Nelson Rodrigues que desejava uma entrevista diferente. É um homem tão cheio de facetas que lhe pedi apenas uma: a da verdade. Ele aceitou e cumpriu.

- Você é da esquerda ou da direita?
-
Eu me recuso absolutamente a ser de esquerda ou de direita. Eu sou um sujeito que defende ferozmente a sua solidão. Cheguei a essa atitude diante de duas coisas, lendo dois volumes sobre a guerra civil na História. Verifiquei então o óbvio ululante: de parte a parte todos eram canalhas. Rigorosamente todos. Eu não quero ser nem canalha da esquerda nem canalha da direita.

- Nelson, você se referiu à solidão. Você se sente um homem só?
-
Do ponto de vista amoroso eu encontrei Lúcia. E é preciso especificar: a grande, a perfeita solidão exige uma companhia ideal."

Outro estrevistado: Hélio Pellegrino.

"- Que é o amor?
-
Amor é surpresa, susto esplêndido - descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado."

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No Acre, vivemos o período mais pobre de seu jornalismo. Triste.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Nota de Esclarecimento

Presidente da FEM explica investimentos no carnaval 2010

Em correção à informação publicada no Diário Oficial do Estado que leva à interpretação de que o valor contratado tenha sido pago apenas à banda baiana que animou as últimas três noites de carnaval na Arena da Floresta, a Fundação Elias Mansour esclarece que:

Com as três noites animadas pela banda baiana a FEM teve uma despesa de R$ 106 mil.

Com as cinco noites animadas pelas bandas locais a FEM teve uma despesa de R$ 127.5 mil.

As despesas operacionais de passagens, transporte de equipamentos, hospedagem, alimentação, taxa de administração e outras ficaram em R$ 67 mil, somando ao todo o valor de R$ 300.5 mil do contrato, cujo extrato foi incorretamente publicado.

Atenciosamente,
Daniel Sant'Ana
Presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour
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Como Altino Machado é o responsável pela publicação em seu blogue desses R$ 300 mil, termino com seu comentário sobre a nota do presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour.

"Meu comentário: existem dois contratos assinados pela FEM com a empresa Kampa Viagens, Serviços e Eventos Ltda., relativos à organização do "Carnaval na Floresta Digital". Eles somam R$ 608 mil. O governo do Acre menciona existência de erro após a divulgação neste blog do extrato do contrato de R$ 300 mil, portanto onze dias após a assinatura do mesmo. A soma de seis contratos já publicados no Diário Oficial totaliza mais de R$ 2 milhões. Como outros extratos de contratos terão que ser publicados, estima-se que o valor total da festa ultrapasse os R$ 2,5 milhões. O blog sempre serve, convenhamos. Desde julho do ano passado, quando começou a versão digital do Diário Oficial do Estado, existem 45 ocorrências da relação do governo com a empresa Kampa, que negocia, entre outros, passagens aéreas, eventos e locação de carros."

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Dinheiro Público


Se você deseja conhecer Fernanda Farani, acesse nela. Em seu blogue, você irá entender o porquê de o governo do Estado do Acre pagar R$ 300 mil a essa jovem que representou o autêntico Carnaval .

E viva a cultura axé acriana!

"A Partida"

Quando entro em uma locadora, minha mão sempre busca um filme que ponha diante de meus cansados olhos esta palavra: sensibilidade. O mundo da rua - lugar deste objeto chamado multidão - não tem sabor. Assistir a um bom filme, no entanto, é oferecer aos olhos

o gosto,
o sabor,
as delícias

da sensibilidade. "A Partida" é um filme sobre a morte, digo, sobre a beleza da morte. No passado, o Japão sepultava seus filhos com beleza; porém, no Japão moderno, o corpo não passa de objeto, de coisa.

Músico irrealizado, um jovem retorna às suas origens para, com a sensibilidade de dedos que tocaram Beethoven, Bach, sepultar o pai. Antes, porém, a arte.

Para o primeiro semestre, escolhi um livro de Clarice Lispectos para ler em sala. No segundo semestre, penso em ler um sobre a morte, "O Deserto dos Tártaros", talvez.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Literatura e Vídeo

Você quer lecionar ?

Desmoralizaram os professores
Texto de Giberto Dimenstein

Apenas 2% dos estudantes do ensino médio querem ser professores - esse índice se aproxima de zero quando computados os alunos de maior aquisitivo, que estudam em escolas privadas. Esse fato mostra que a profissão de professor está em baixa, diria até desmoralizada.

Há dados ainda piores no relatório sobre a atratividade da carreira de professor que a Fundação Victor Civita encomendou à Fundação Carlos Chagas.

O pior dos dados: os futuros professores são recrutados entre os alunos com as piores notas, sendo que quase 90% são de escolas públicas. Portanto, o curso de licenciatura e pedagogia é, para muitos, a opção de quem não tem opção. O resto é apenas consequência.

Considero a profissão de professor a mais nobre que existe. Mais nobre, por exemplo, do que a medicina --afinal, sem professor ninguém chegaria a uma faculdade de medicina. Não é compatível, portanto, um projeto de nação civilizada com a categoria de professor desmoralizada.

__________________________
Gilberto Dimenstein, 52, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

As pérolas e a ostra













1. Poriço. 2. Achão. 3. Intender. 4. Insina. 5. Piquenos. 6. Dependençia. 7. Salvalos. 8. Ajudalos. 9. Paçam fome. 10. Começão. 11. Mizeria. 12. Imdependente. 13. Isnobis. 14. Eses. 15. Enfrente. 16. Condinções. 17. Precissam. 18. Intrar. 19. Encinar. 20. Precosseito. 21. Entrão. 22. Trájico. 23. Porisso. 24. Conserteza.

No Carnaval, diante de meus olhos, 96 redações de alunos do segundo ano do ensino médio. Erros e mais erros, limitei 24. Batizaram-nos (de) "pérolas". No Programa do Jô, o apresentador os exibe e ri deles.

Não vejo graça. Não são motivos de riso.

Quando um corpo estranho penetra na ostra, esta libera uma substância chamada madrepérola. A função dessa substância é cristalizar o corpo estranho, impedindo sua reprodução. Após três anos, esse corpo transforma-se em pérola.

Vindo de escolas públicas, alunos, se escrevem assim, é porque uma ostra os cristalizou, impedindo o crescimento deles. Cristalizar, isto é, paralisar, estacionar. Muitos jamais refizeram dissertações em sala de aula. Jamais.

Desde a antiga quinta série, a ostra nunca pediu para que procurassem no dicionário a palavra "ensino" e, depois, corrigissem o erro. Cristalizar.

Aos meus alunos, entreguei o calendário escolar de Escrita (redação e gramática) e de Leitura (filmes, poesias, ensaios, charges). Com isso, eles sabem antecipadamente que estudarão dissertação na próxima semana, partindo do enunciado do Enem de 2000, um dos mais difíceis.

Antes, porém, corrigirão seus erros ortográficos após o dicionário ser consultado. Só reorganizarão suas ideias depois de cada um corrigir seu erro - "encino", "precosseito", "poriço", "começão".

Se as ostras são as únicas responsáveis por isso, por que rimos das pérolas?

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Minha escola, campeã

A escola de samba São Clemente foi a campeã do Grupo de Acesso no Carnaval de 2010 do Rio de Janeiro e, com isso, voltará ao Grupo Especial em 2011. A apuração dos votos aconteceu às 15h desta terça-feira (16), no Terreirão do Samba.

Com o enredo Choque de ordem na Folia, a agremiação, cores amarelo e preto, ficou sob a responsabilidade do carnavalesco Mauro Quintaes.

Fundada em 1961, a São Clemente tem como principais características a irreverência e enredos com temática social, preocupados com a qualidade de vida do povo brasileiro.

Como exemplo, temos o Carnaval de 1984, que levou para a avenida o enredo Não Corra, Não Mate, Não Morra: O Diabo Está Solto no Asfalto, sobre o caos e a violência no trânsito.

No ano seguinte, a escola apresentou o tema Quem Casa, Quer Casa, uma sátira ao sério problema do défice habitacional no Brasil.

Em 1987, inovou ao levar para a Sapucaí uma comissão de frente formada por meninos de rua de verdade, no enredo Capitães do Asfalto, que falava sobre menores que moravam nas ruas do Rio.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Carnaval, Pátria e a morte de Momo






O governo do Acre usou os dias de Momo para propagar sua política de comunicação. "Viva o Carnaval na Floresta Digital" é propaganda de governo em uma festa que deveria ser popular. Os secretários de Cultura, se têm algum conhecimento sobre rei Momo, são figuras apagadas porque nunca colocaram o Carnaval rio-branquense em seu devido lugar simbólico.

No Dia da Pátria, 7 de Setembro, que é a festa do poder, tudo permanece em seu devido lugar. Nessa festa, o governo não faz a propaganda "7 de Setembro na Floresta Digital". Os signos do Dia da Pátria são fixos e preservados, isto é, a tradição do poder é mantida.

No Carnaval, entretanto, os signos linguísticos não são preservados, por exemplo, Momo. Os secretários de Cultura deveriam existir para preservar esses signos do Carnaval, porém Marcos Vinícius, da Prefeitura de Rio Brannco, não ocupa a Secretaria de Cultura para manter o sentido original do reino momesco.

Marcos - um carioca muito bem domesticado pelo poder - matou rei Momo e permanece impune em fevereiro todo ano. Em dias de Carnaval, esse secretário de Cultura deveria ser preso para não falar tanta besteira contra Momo.

TV Aldeia

Não conhecço comunicação como Aníbal Diniz, secretário do governo petista acriano, mas não sou estúpido o bastante para afirmar que a TV Aldeia emite qualidade, por exemplo, no Carnaval.

Seus repórteres, uniformizados, nunca colocaram roupas adequadas à festa, isto é, jamais se fantasiaram para entrevistar com alegria, com deboche, com riso. Para um Carnaval caricaturesco, nada mmelhor do que uma TV que não sabe o que é Carnaval, nada melhor do que repórteres sem graça e uniformizados a serviço do poder.

Mais um ano e não vi em Rio Branco o rei Momo escarnecendo ex-governadores com seus salários eternos. Não vi foliões com fantasias que desmascarassem os políticos. Não vi blocos que rissem do fanatismo de neopentecostais. Momo está morto.

Pior é saber que no próximo ano a enfadonha mesmice continuará.

Alterando os versos de Affonso Romano de Sant'Anna, termino:

Uma coisa é um Carnaval,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um Carnaval,
outra um alheamento.

Uma coisa é um Carnaval,
Outra um gerenciamento.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

EntreVista

Em época de Carnaval, a inteligência, tão raríssima na TV, desaparece quando, por exemplo, aquele repórter pergunta ao folião se o Carnaval está alegre ou quando aquele folião diz que o Carnaval está alegre. Detalhe: repórter e folião concluíram o ensino superior.

Se isso é superior, estive com Georges Minois em Rio Branco para entrevistá-lo sobre o reino de Momo. Minois não é repórter e nem trabalha na TV Aldeia. Historiador francês, ele publicou História do riso e do escárnio, um belíssimo livro sobre o Carnaval.

EntreVista

Minois, há três dias você assiste ao Carnaval de Rio Branco, qual sua observação?
Georges Minois - Diferente do que o russo Bakhtin escreveu, o riso na Idade Média é usado a serviço dos poderes, ou seja, ele é mais conservador do que destruidor. Em Rio Branco, o riso de Momo é domesticado, não zomba dos que exercem o poder em Rio Branco. Aqui, o poder público organiza o Carnaval conforme seu entendimento. Organiza para dominar sua subversão simbólica.

Subversão simbólica?
Georges Minois - Sim, Momo é um mito que subverte a ordem dos deuses, ou seja, ele coloca em seu reino o poder do avesso. No Acre, o governo do Estado organiza o Carnaval para alterar o sentido dessa festa e, nesse sentido, o poder não aparece do avesso por meio do riso, do sarcasmo.

O poder sempre buscou domesticar Momo?
Georges Minois - Eu digo em meu livro que o Carnaval muda de tom no século XVI. Eu poderia lhe dar vários exemplos, mas fico com o que ocorreu nas cidades flamengas. Nelas, o imperador interdita a festa do Rei dos Bobos. Nessa época, o cômico é substituído pelo didatismo, como ocorre em Rio Branco. Aqui, a interdição existe, ela é sutil.

Suas últimas palavras.
Georges Minois - Isso que está aí não é Carnaval, o poder público matou o sentido original do reindo de Momo, e o que restou ao povo foi brincar sobre seu cadáver.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

A TV Aldeia desconhece rei Momo



Imagem de Nêmesis, deusa da Vingança, irmã de Momo.











O Estado

Antes de deixar a prefeitura do Rio de Janeiro, César Maia (DEM ou ex-PFL, ou ex-PDS) propôs à escola de samba São Clemente uma verba pública para desfilar na Marquês de Sapucaí. Mas, para justificar tamanha generosidade, o prefeito impôs esta condição – a escola de Botafogo deveria se apresentar como as outras escolas de samba.

Entrave para o poder público carioca, a São Clemente sempre exibiu na avenida o “avesso” do Rio de Janeiro e do Brasil, o que Portela, Salgueiro, Mangueira, por exemplo, não exibem. A proposta de César Maia tentou colocar na ordem uma escola que representava a autenticidade da festa de Momo. A escola de Botafogo recusou a proposta.

Em Rio Branco, como o reino momesco não é organizado pela irreverência ou pela desobediência popular, o governo do Estado fala por rei Momo. Não apenas diz onde Momo deve estar; mas propaga, segundo seus interesses, quem ele é.

Aqui, o Carnaval, submetido à ordem do Estado, que define seu espaço público e sua simbologia, não manifesta uma de suas características históricas: o “avesso”.

A TV Aldeia


O Carnaval é muito sério para ser deixado para a TV Aldeia. As suas verborréias carnavalescas emitem uma ignorância bem comportada contra o significado original do reinado de Momo. Nesse aspecto, a TV Aldeia não se diferencia das outras emissoras.

Igual às outras, ela cumpre a função social de deformar essa festa porque deconhece, por exemplo, sua rede semântica. A TV Aldeia não sabe dizer quem é Momo.

Meu dedo desliga a TV, meus olhos leem Georges Minois. “Filho da noite, censor dos costumes divinos, Momo termina por tornar-se tão insuportável que é expulso do Olimpo e refugia-se perto de Baco. Ele zomba, caçoa, escarnece, faz graça, mas não é desprovido de aspectos inquietantes: ele tem na mão um bastão, símbolo da loucura, e sua máscara. O que quer dizer isso?”, pergunta o autor de História do riso e do escárnio, editora Unesp.

O que quer dizer isso?, eu pergunto à TV Aldeia.

O português do www.ac24horas.com



"Os poucos minutos de chuva que caiu (...)."

Defendo a ideia tradicional de que o verbo "caiu" deve concordar com o núcleo do sujeito, no caso, "poucos minutos".

Alguém poderia dizer que é a "chuva" que caiu, não "poucos minutos". No entanto, os termos "poucos minutos" prendem-se ao termo "chuva" por meio da preposição "de".

Não está errado, portanto, escrever "os poucos minutos de chuva que caíram".

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

A TV Aldeia não sabe o que é Carnaval


Nesses anos de TV Aldeia, nunca assisti a uma programação que soubesse falar do Carnaval porque sua direção ignora a história de Momo e a representação simbólica dessa festa. A TV Aldeia contribui para o vazio semântico do Carnaval. Isso é admissível para uma TV comercial, mas não para uma TV educativa, que deveria promover a cultura original dessa festa popular.

Nesses anos de política da Frente Popular, a TV Aldeia nunca se corrigiu e, por causa disso, neste ano, mais uma vez, não tenho esperança de assistir a algo inteligente ou de ouvir palavras que revelem o sentido autêntico dessa folia (loucura).

No Acre, o poder público, em tudo, organiza o espaço do Carnaval; porém, por meio da TV, esse poder não organiza o sentido histórico do reino de Momo.

Diante da TV, a sala de aula pode muito pouco ou quase nada; entretanto, mesmo assim, apresentei a meus alunos uma rede (simbólica) de palavras relacionadas ao Carnaval, partindo de rei Momo, que é gordo, que recebe a chave do prefeito.

O que significa a palavra "Momo"? O que representa sua condição de "gordo"? Qual o sentido de receber uma "chave" de um "prefeito"? A isso, a TV Aldeia não responde e, se não responde, não pode saber o que é Carnaval.

Não sabe.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Quando a TV Aldeia deseduca


Escrevi em jornais acrianos muitos textos sobre o Carnaval, breves ensaios sobre Momo, o rei da festa. Escrevi para registrar (em vão) o sentido original do Carnaval diante da deformação imposta por evangélicos.

Não só fiéis, mas até o governo da Frente Popular, por meio da TV Aldeia, propaga uma ideia deformada de Momo. Na condição de TV que se diz "cultura", ela presta um péssimo serviço quando repórteres e âncoras abrem suas bocas para falar dessa festa popular.

A TV Aldeia deveria saber falar do Carnaval, da sua importância simbólica, da sua história, do seu sentido mais original. Mas, neste ano, mais uma vez, não será diferente. Aníbal, um dos responsáveis pela TV Aldeia, contribui para desfigurar essa festa.

Sugiro a leitura do livro História do Riso e do Escárnio para compreendermos o sentido do Carnaval.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

O português da imprensa oficial

Lembra aquelas placas com erros de português? Escritas por pessoas humildes, brasileiros com baixa escolaridade, elas sempre são motivos de galhofa. E quando pessoas ilustradas não escrevem bem? E quando um representante da imprensa oficial erra?

O texto entre aspas, retirado do blogue de Altino Machado, foi escrito pelo secretário Aníbal Diniz. Só quero me referir ao "junto à".

Na condição de homem da imprensa oficial, o erro é um péssimo exemplo. "Junto à" é o mesmo de "perto da", o que não tem sentido no texto. Comprou-se o helicóptero em algum lugar (na Helibrás) e não "perto da" Heliobrás.

Há outros probleminhas, mas esse basta como exemplo a meus alunos.

"A compra de um helicóptero Esquilo AS 350 feita pelo governo do Acre junto à Helibras se deu como resultado de uma licitação em que concorreram as empresas TAM e Helibras, que venceu pelo critério de menor preço e cumpriu o contrato de entrega do aparelho, além de um pacote de treinamento de pilotos e mecânico, assistência técnica e seguro. Todas as informações e documentos alusivos à licitação foram disponibilizados para o Ministério Público Federal. O contrato para a aquisição do helicóptero ocorreu de forma lícita e transparente. Entendemos que o MPF tem todo o direito de investigá-lo para que a União não venha a ser responsabilizada por atos abusivos de autoridades que a representam. O ex-governador Jorge Viana, que responde pela presidência do conselho administrativo da Helibras, e não pelo seu departamento de vendas, não teve participação no processo que resultou na compra do helicóptero."

Aníbal Diniz
Secretário de Comunicação do governo do Acre
Por e-mail

sábado, fevereiro 06, 2010

PMDB é um exemplo

Flaviano Melo, campeão de gastos com verba indenizatória
De Freud Antunes

Em pleno recesso parlamentar, em janeiro, os deputados continuaram realizando gastos por conta do dinheiro público, utilizando a antiga verba indenizatória que atualmente é chamada de Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap).

De acordo com o levantamento realizado no prório site do Congresso Nacional, Flaviano Melo (PMDB) foi o campeão do disperdício, chegando a R$ 26.206,13. A maior parte, ou seja, R$ 12 mil foi usada para financiar viagens entre Rio Branco, Santa Rosa, Tarauacá e Feijó.

A manutenção do escritório que deve ficar aberto mesmo quando não há sessões consumiu R$ 6.657,97, custo que incluiu o pagamento de quatro assessores, cerca de R$ 400 em Sky (tv via satélite), gasto com energia elétrica e telefonia.

O segundo colocado foi Ilderlei Cordeiro (PPS) que utilizou R$ 25.330,38 do dinheiro público, apresentando também R$ 12 mil em viagens com escalas em Cruzeiro do Sul, Feijó e Jordão.

O Ceap financiou ainda o aluguel de carros em uma empresa chamada Center Comércio e Consultoria LTDA que cobrou do parlamentar de oposição R$ 6 mil.

O terceiro colocado foi Gladson Cameli (PP) que usou R$ 19.608,10, sendo R$ 9,4 mil apenas com passagens de avião para Cruzeiro do Sul, Foz do Breu, Marechal Thaumaturgo e Porto Valter. A locação de veículos também chegou a R$ 5,4 mil.

O deputado que menos gastou em janeiro foi Nilson Mourão (PT) que utilizou R$ 296,67 da antiga verba indenizatória.

O segundo menor gasto ficou com Sérgio Petecão (PMN) que utilizou R$ 618,26 do Ceap depois de ter registrado em novembro e dezembro os maiores gastos do dinheiro público.

Todos os parlamentares acrianos utilizaram em janeiro R$ 82.438,17, um valor que poderia ser aproveitado para suatentar quase 162 assalariados, levando por base o novo mínimo que é de R$ 510.

O Ceap foi criado em 2001 com o nome de verba indenizatória para financiar as atividades parlamentares. Para ter acesso ao benefício, o deputado precisa apenas apresentar as notas fiscais, informando o que foi gasto.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Avaliar e ser avaliado

Ainda defendo a ideia de que bons alunos devem avaliar professores nas escolas públicas acrianas. Em 2004, alunos começaram a me avaliar na escola Heloísa Mourão Marques. Só não me avaliaram em 2009 porque o questinário precisava ser outro.

Com outro questionário, meus alunos me avaliarão no primeiro e no segundo semestres de 2010. Não me exponho a esse procedimento para eu me punir, mas para buscar saídas segundo as críticas de bons estudantes.

Eu tinha dito "alunos", não serão todos. Os que se dedicam mais aos estudos me avaliarão, os mais interessados. Serão escolhidos dez jovens em cada turma, ou seja, 40. Assim como eu os avalio, eles também dirão se estou ou não reprovado como professor.

Se for reprovado, "farei recuperação".

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Mais! escola pública

No Acre, quando estamos em período de eleições, o debate entre homens públicos sobre educação pública é sofrível, e isso quando debatem. Na última campanha, até mãe de candidato tentou dar audiência a políticos chulos, pacóvios.

Longe disso, o caderno Mais!, do jornal A Folha de São Paulo, publicou textos sobre a escola pública. Um pouco a teus olhos.

Governo irá aperfeiçoar gestão, diz secretária
DA SUCURSAL DO RIO

A secretária estadual de Educação do Rio, Tereza Porto, diz que um de seus maiores desafios é melhorar a gestão das escolas estaduais, dando aos diretores e professores mais ferramentas para agilizar processos e tomar decisões.

Ela aposta que o investimento em tecnologia facilitará o trabalho, embora reconheça que ainda há muito a ser feito.

Uma das mudanças esperadas já para este ano é a diminuição do tempo em que alunos ficam sem aulas por causa de pedidos de licença médica.

"Quando assumimos [há dois anos], esse processo era ainda mais demorado. Mas, com o novo sistema funcionando plenamente, o aviso de que há uma vaga a ser preenchida será feito automaticamente pelo diretor, que visualizará on-line quais são os professores disponíveis."

Esse controle maior é essencial, em sua avaliação, não apenas para agilizar a reposição das aulas, mas também para evitar gastos desnecessários com professores temporários em escolas onde há profissionais com tempo vago para lecionar na disciplina em falta.

Tereza Porto diz, entretanto, que existem alguns entraves que dependem de mudanças na legislação, como a autonomia do diretor para montar sua própria equipe. É o próprio professor, com base em sua pontuação, que escolhe onde trabalhará.

Dentro do que é possível legalmente, ela diz que, no Rio, a secretaria tenta alocar o professor numa escola perto de sua residência e, de preferência, com dedicação exclusiva.

Sobre a valorização do magistério, a secretária reconhece que ainda há uma séria defasagem salarial a ser corrigida, mas diz que o esforço do governo tem sido "gigantesco".

"O salário na rede estadual ainda é baixo, mas evoluímos bastante. Em 2008, o aumento [de 8%] foi superior à inflação e, no ano passado, fizemos um esforço absurdo para incorporar ao salário de todos, inclusive aposentados, gratificações que eram pagas somente a alguns. Isso teve um impacto de R$ 7 bilhões na nossa folha de pagamento. Não é pouca coisa, e temos uma lei de responsabilidade fiscal para cumprir."

Outro investimento que ela espera trazer resultados é a implementação, neste ano, de um novo sistema de acompanhamento da frequência dos alunos, totalmente informatizado, em todas as 1.437 escolas.

Todo estudante terá um cartão eletrônico, que irá garantir a passagem gratuita em transportes públicos e que também irá controlar sua utilização da merenda e a presença.

Cada uma das salas terá um computador, onde o professor abre uma pauta eletrônica e pode fazer anotações sobre os alunos para serem compartilhadas com outros docentes.

No Centro Interescolar Estadual Miécimo da Silva, o sistema já funciona desde o ano passado. (AG)

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Como Deus, o salário é eterno

O que escrever na primeira postagem de 2010? Poderia falar das férias. Coisa ridícula é essa de promoção pessoal. Poderia falar da reunião de professores da escola pública. Não somos notícias. Uma observação gramatical? Creio que não, porque, em época de eleições, uma crase ou uma colocação pronominal não são mais importantes do que o salário eterno dos que foram governadores acrianos.

Segundo Altino Machado, um ex-governador recebe R$ 23 mil por mês.

Lembro-me quando a inquieta Naluh Gouveia, com útero e dentes, manifestou-se contra esse privilégio de casta política. Hoje, querendo ou não, Naluh pertence à casta. Do berreiro indignado no passado, o silêncio privilegiado no presente. Os extremos se tocam. Não só ela, o PT silencia-se.

Como Deus, o salário de ex-governadores é eterno. O movimento parado sindical é indiferente. A sociedade civil organizada permite. Após quatro anos ou oito anos no Poder Executivo, ex-governadores receberão por toda a vida um salário de governador.

Fora da ordem, Romildo. Nabor. Cameli. Flaviano. Yolanda. Jorge. Deus os abençoou, e o povo diz amém. Só os imortais merecem tamanha graça.

O ano começou neste blogue. Voltei.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Acabou

As férias chegaram ao final. Chegarei ao Acre no domingo, dia 31 de janeiro, se Deus assim permitir. Afirmo Deus por não ser eu o senhor de meu próprio destino. No primeiro dia de fevereiro, as postagens neste blogue voltarão ao normal.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Os voos do senador Geraldinho


A verba indenizatória, regulamentada em ato secreto de 2003 e republicado no ano passado, segundo o texto, é destinada “ao pagamento de despesas mensais realizadas pelo Senador com aluguel de imóvel, de veículos ou de equipamentos, com material de expediente para escritório, com locomoção e com outras despesas diretas e exclusivamente relacionadas ao exercício da função parlamentar.”

No Senado, polemizaram quando o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) usou parte de sua cota de passagens áreas para fretar jatinhos. Outros 13 senadores têm destinado verba indenizatória dos gabinetes para voar pelo país em aviões particulares.

Depois de Arthur Virgílio (PSDB-AM), que gastou R$ 76.300, e de João Pedro (PT-AM), R$ 51.400, Geraldo Mesquita (PMDB-AC) aparece na terceira colocação, R$ 17.150.

Como disse o saudoso Bezerra da Silva, morto há cinco anos, "este país só vai melhorar quando morcego doar sangue e saci cruzar as pernas".

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Hai(de)ti!!!


Um livro retorna

Eu soube que “O Reino deste Mundo”, do cubano Alejo Carpentier, foi relançado. Antes de retornar ao Acre, comprarei suas palavras para compreender melhor meu continente.

O livro foi lançado em 1948, no México; mas, antes de sua publicação, Carpentier conheceu o Haiti em um jipe, em 1943. Fatos históricos e imaginados entrelaçam-se após os conflitos da independência haitiana, entre 1794 e 1808.

A narrativa situa o leitor nos anos de 1811 a 1820, época da monarquia de Henri Cristophe. O negro Ti Nöel, protagonista, luta contra as formas de poder.

Por falar em poder...

da França
Até início do século 19, a França metia a mão grande em 25% da agricultura haitiana, onde a terra não é tão fértil como na República Dominicana. Em 1804, derrotados por uma rebelião negra, os franceses foram embora do Haiti.

A França exigiu e recebeu reparação pela colônia perdida, deixando a economia da nova república debilitada por muitos anos.

Dos Estados Unidos
De 1957 a 1986, o Haiti viveu conforme as regras do governo de François Duvalier, o Papa Doc, apoiado pelos Estados Unidos da América.

Antes de Duvalier, a Estátua da Liberdade ocupou esse lugarejo de 1915 a 1934. Tio Sam tomou conta das finanças do Haiti até 1941, realizando obras de infraestrutura e pondo ordem na economia. Ordem.

Com Papa Doc e com seu filho, Baby Doc Duvalier, os Estados Unidos realizaram grandes negócios com a ordem econômica dos ditadores. Ordem.

Hoje, após a presença de norte-americanos, cerca de 55% da população vive com menos 1 dólar ou menos R$ 1,75 por dia. Ao lado, na República Dominicana, a renda diária de um dominicano está em média 7,4 dólares. Por mês, um haitiano recebe em média R$ 2.275, e um dominicano, R$ 12.950.

Hoje, após a presença dos norte-americanos, a população mais rica (?) fica com mais de 70% da renda. Os 20% mais pobres, com 1,4%.

Essa distribuição injusta de renda é uma das piores do planeta, semelhante à do Brasil nos anos de 1990.

Na época da ditadura militar, estudantes brasileiros escreveram esta frase muito criativa: “EE.UU sei quem me U.S.A.”. Durante décadas, a Estátua da Liberdade usou o Haiti.

A Águia

Segundo texto de Sérgio Dávila, os Estados Unidos enviaram vários navios da Guarda Costeira com helicópteros, o porta-aviões Carl Vinson, com 19 helicópteros, 51 leitos hospitalares, três centros cirúrgicos e capacidade de tornar potáveis centenas de milhares de litros de água por dia.

Nos próximos dias, chegarão mais dois navios com helicópteros e uma força-anfíbia com 2.200 fuzileiros e um navio-hospital. Além disso. isto: os Estados Unidos doaram 100 milhões de dólares.

A Águia ajuda o Haiti.

Fontes: Eduardo Fellipe, Elio Gaspari, Veríssimo e Cony

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Entre dois Rios: Branco e de Janeiro

Não temos shopping

Certa vez, lecionando na faculdade, um aluno disse-me não entender o motivo de eu estar no Acre. Perguntei-lhe o porquê de não entender. Sua resposta causou-me espanto. “No Acre, professor, não há shopping.”

Mais tarde, na escola, outro jovem acriano respondeu da mesma forma.

Sair do Rio de Janeiro, onde há shopping, para morar no Acre, onde não há shopping, significa para esses jovens um atraso. Sem esse templo do consumo, o Acre, segundo eles, é tão inferior que esses jovens não entendem o motivo de eu morar entre açudes, árvores, rios, igarapés; não entendem o motivo de eu morar em uma cidade que cresce na floresta.

Aqui há shopping

Férias no Rio de Janeiro e, aqui, entre o Corcovado e a igreja da Penha, não há um só shopping, mas muitos, tantos. Estou aqui para consumir marcas de calça, de camisa, de sapato, não é verdade?

Não é verdade.

Quando plantarem um shopping na floresta acriana, um aluno ou parte da elite dirão que somos agora iguais aos grandes centros.

Se a elite acriana entrar no templo do consumo só para comprar marcas ou só para assistir a Avatar ou a 2012, nosso atraso mental será cinematográfico.

Acredito que no shopping verde, caso tenha quatro salas de cinema, predominará a cultura de massa. Por que Hanani - cerejeiras em flor? Nossa culta elite prefere Avatar.

Associa-se a ideia de progresso a viaduto, a shopping, O governo do PT, nesses anos, jamais associou progresso e desenvolvimento a filmes autorais, a teatro, à cultura.

Por meio de sua propaganda oficial, o governo deseduca meus alunos. "Professor, aqui é atrasado porque não tem shopping."

terça-feira, dezembro 08, 2009

Até quando eu retornar


A partir de hoje - a não ser em caso extraordinário -, não atualizarei este blogue até 30 de janeiro de 2010. As férias só permitem descanso, curtição, deixar rolar, preguiça, mãe, pai, amigos, primos, primas, mar, montanha. Mony.

Assim sendo, nesta última atualização deste ano, dedico meu texto a meus alunos, a esse pessoal que me suportou, que não teve preguiça em sala de aula, que teve preguiça, que se dedicou até o último momento, que não se dedicou ao último instante.

Estudar, sabemos, é árduo, porém também transformamos os estudos em uma brincadeira de gincana do conhecimento.

Muitos aceitaram o desafio de eu ser um (risível) obstáculo. Esses não desistem. Quanto mais dificuldades, mais se superaram. Outros, acarinhados pela preguiça, pelo desinteresse, pela falta de vontade, entregaram-se ao descaso, à derrota, esperando de minha parte o relaxamento, a facilitação ou um tipo de corrupção silenciosa que permitisse a aprovação de todos.

Enganaram-se. Há 20 anos, eu leciono e, até hoje, sou um tarado pela sala de aula. Podem falar tudo de mim, tudo, menos que eu não tenho a paixão indomável de lecionar. Já disse: leciono para não morrer. A sala, você viram, foi o espaço onde eu encenei a ordem e a desordem, a lucidez e a loucura, o sério e o cômico; foi o lugar onde sou mais humano, onde rio de mim, de ti, de nós. Mais tarde, após anos lecionando, eu descobri: a sala é o lugar sagrado e profano onde sou quem aprende primeiro.

Assistimos a "Jeca Tatu" para depois anotar três cenas e interpretá-las. Apreciamos "Tapete Vermelho". Refizemos textos. Lemos, mais e mais, interpretamos "O Navio Negreiro". Debruçamos nossos olhos sobre os versos de Cruz e Sousa. Entendemos a letra do Rappa e, no segundo momento, nós relacionamos à poesia de Castro Alves. A gramática só surgiu por causa da produção textual. Lemos "Auto da Compadecida".

Antes, lemos "Auto de São Sebastião" e, entendida a peça de José Anchieta, soubemos que no século 16 o poder da Igreja deformaca a cultura indígena. Lemos poesias. Aprendemos o poder da metáfora por meio do sensível filme "O carteiro e o poeta".

Busquei mostrar a vocês a beleza da cultura popular por meio do caipira, nossa identidade nacional. Lemos sobre o riso em um fragmento de texto do romance "O Nome da Rosa".

Faltei pouco. Falei muito. Repeti mais ainda: anote, anote, anote.

E quantos ótimos alunos o destino apresentou a meus olhos. Jovens humildes, problemas em suas casas, discriminados, mas com um espírito à altura da superação. Diante deles, preciso melhorar sempre. Sempre. São nomes que desejam mais saber. Alunos que sabem contestar. Inquietos.

Se eu pudesse ofertar a cada um de vocês um livro, ofertaria "Fernão Capelo Gaivota", de Richard Bach. Que o voo seja alto para que, quando você mergulhar, busque o peixe no fundo do mar, o melhor. Não se limite a comer o peixe que o pescador lança à superfície das águas. Não comam o que o bando come, porque a beleza da vida não está na superfície e muito menos no que os vulgares fazem. O melhor alimento habita no fundo, lugar onde poucos tocam.

Mas saiba que voar mais alto para chegar ao fundo exige esforço, erros, tentativas, porém é isso que nos eleva à condição de humanos. Supere-se! Seja melhor que seus pais e permita que seus filhos sejam melhores que você.

Navegamos melhores em mares revoltos. Em lagos, onde a água é calma, nada é exigido de nós, a não ser acomodação. Leia narradores que inquietam teus olhos, que perturbem a tua estabilidade. Proust. Lispector. Virgínia. Leminski. Raduan Nassar.

Leia bons livros. Releia-os. Assista a ótimos filmes. Ame as boas amizades, as que exigem de você o melhor de ti. Deixem a TV também no canal Cultura. Namorem para que possam ser melhores do que são. Amem!!! Aprendam que a Paixão não é algo passageiro - há 20 anos, sou apaixonado pelo ato inquietante de lecionar.

Leia Fernando Pessoa. Drummond. Mário Sá-Carneiro. Seja um leitor assíduo da vida. Afaste-se das palavras doentes das ruas. Leia o que eu não li. Obedeçam na hora certa. Desobedeçam na hora incerta. "A desobediência também tem seus direitos", grita André, protagonista de "Lavoura Arcaica".

Um beijo em seus destinos. Um abraço fraterno em suas vidas.

Sou apaixonado por vocês!!!

Os referenciais da Secretaria de Educação

No dia 7, participei do encontro entre professores de Literatura (Língua Portuguesa) e não assinei o documento que aprova os referenciais porque eles não foram dicutidos no encontro. Há uma questão sobre historicismo, apresentada pelos professores da escola Glória Perez, que não entrou em questão.

Em uma próxima reunião, se houver esse debate, se houver certas considerações, o documento poderá ser assinado.

Semestralidade

No Acre, alguns jornalistas e o senso comum acreditam que o poder concentra-se em assmbleias legislativas ou em câmaras de vereadores, ou seja, acredita-se que o poder é físico, é matéria; manifesta-se em prédios ou encarna-se em deputados ou em vereadores.

Ainda pensamos o poder como se fosse a imagem visível de O Príncipe, de Maquiavel, pensamento de 1513. Longe dessa concepção de poder, a escola surge em Vigiar e Punir, de Michel Foucault, pensador que nos fala de outro poder que nos modela.

Hoje, conversando colegas de profissão, afirmei que a escola pública se põe acima de interesses corporativistas. Opondo-se à minha fala, uma professora afirmou com tom irônico que busco tanto o melhor para o aluno que defendi a semestralidade. Não entendi a relação; porém, ainda assim, esforçar-me-ei para explicar.

Semestralidade
Hoje, leciono em duas turmas na escola Heloísa Mourão Marques. Em uma, há 33 alunos; na outra, 30. No diário, há, entretanto, 50 nomes. Ao todo, corrijo 63 redações em sala por meio da refacção ou da reconstrução textual. Caso opte por duplas, são 31 redações.

Como eu reconstruo os textos de meus alunos (com eles) em sala de aula, melhor essa cansativa refacção com 31 redações. No entanto, sem semestralidade, seriam quatro turmas, isto é, 126 redações.

Sem semestralidade ou com semestralidade, a carga de Literatura (Língua Portuguesa) limita-se a 160 horas-aulas e, desde que saibamos colocá-la na semestralidade, a quantidade de aula é a mesma se fosse anual, se não houvesse semestralidade.

Defender a semestralidade é, portanto, qualificar o ensino-aprendizagem de produção textual para quem reconstrói texto em sala de aula com os alunos. Em 2010, com o fim da semestralidade, lecionarei para 126 alunos, não mais para 63. Uma solução, talvez, seja criar duplas para que produzam e reconstruam seus textos.

Sinceramente, professora, não entendi a sua colocação de tentar, talvez, me constranger diante de colegas de profissão. Penso que o caminho para melhorar o ensino público não seja jogar palavras inconsequentes e direcionadas a uma pessoa em momento inadequado.

Defenda ideias, professora, com raiva, com choro, com gestos intensos, gritando, socando a mesa, não importa a aparência, a forma, a maneira de defendê-las, mas defenda ideias. Defenda-as!!! para qualificarmos o ensino público e não para prolongarmos o feriado.

Tenho defendido ideias, eis algumas:

1. Conselho de disciplina;
2. Conselho de turma;
3. Atividades lúdicas na escola (gincana do conhecimento);
4. Alunos exemplares avaliarem os professores;
5. Coordenador assistir às aulas de professor;
6. Não é o professor que deve escolher a turma para lecionar, mas o aluno é quem deve escolher o professor com quem deseja estudar;
7. Se o professor lecionou para o primeiro ano do ensino médio, ele deve acompanhar essa turma até o terceiro ano;
8. Por mérito profissional reconhecido, as coordenações deveriam ter um professor de Língua Portuguesa e um de Matemática.

De forma clara, em uma reunião de professores, diante de todos, defenda ideias.

Professora, o que a senhora defende?

domingo, dezembro 06, 2009

Feijoada modernista














Em "Macunaíma", Mário de Andrade
pintou a iguaria como síntese das identidades nacionais

CARLOS ALBERTO DÓRIA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Feijoada acaba com a gente. Por isso o dia é sábado, quando se pode jiboiar. Mas, dizem, foi inventada por escravos. O paradoxo: escravos trabalhavam de sol a sol, como criariam coisa indigesta por vontade própria?

Comiam mesmo o pão que o diabo amassou; não podiam contribuir para a dieta nacional. "Contribuição" supõe liberdade; sem ela não há criação literária ou culinária.

A feijoada deriva do "feijão gordo" enriquecido ao extremo, a ponto de se tornar prato único. Ela só é compreendida dentro do seu ritual: feijão preto e pertences, a caipirinha de cachaça (moeda líquida do tráfico negreiro) e a evocação histórica da nacionalidade. A minifeijoada de boteco na quarta-feira retroage, volta a ser feijão gordo.

No final do século 18 carioca, a alimentação dos escravos estava lastreada em feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas; além das carnes secas ou toucinhos que os próprios negros podiam comprar com o produto da venda das suas hortaliças. A origem deve ter sido essa.

Mas, um século depois, ela ainda não era um "prato completo", segundo o folclorista Câmara Cascudo [1898-1986], que sugere que ela se difundiu como tal em hotéis e pensões.

Foram os modernistas que projetaram a feijoada como prato nacional. Eles tinham necessidade enorme de novos signos para a brasilidade.

A questão estética e política era "acharmos a nossa expressão" em vários planos, e nada melhor do que o popular feijão, a evocação do cozido português, dos embutidos e pedaços de porco, além da couve.

Mário de Andrade, em "Macunaíma" (1928), desenhou uma cena imorredoura: a feijoada na casa do fazendeiro Venceslau Pietro Pietra. Uma alegoria da cozinha nacional e daqueles seres étnicos que o Brasil colocou em contato.

O festim é presidido por Venceslau (peruano, italiano, Piaimã), um demônio devorador de gente ou "comedor de identidades", conforme interpreta a crítica literária.

O tema da antropofagia, da deglutição cultural, esteve presente em toda a produção modernista, e a feijoada é um caso particular seu.

Esse festim de "Macunaíma" foi magnificamente carnavalizado no filme homônimo (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

E a graça da evocação continuou com Vinicius de Moraes ("Feijoada à Minha Moda"), que ensinou, em versos engordurados, como fazer uma feijoada sabática.

Ingredientes
O feijão é coisa quase universal. Mas, enquanto o preto e o rajado "igualam" as classes sociais, o fradinho e o jalo diferenciam preferências de ricos e pobres. Feijão preto é dominante somente no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O tempero relevante da feijoada é a propriedade metonímica de reter o passado de escravidão na cor do feijão, subvertendo o seu sentido.

Dentro e no entorno, a feijoada congraça índios, negros e brancos, esquecendo que se comiam: uns foram dizimados, outros feitos escravos; outros, sempre colonizadores cruéis.

A feijoada, como alegoria, é o substrato alimentar da irmandade mística dos contrários -a nação mestiça-, desejada e vista como original do Brasil desde "Casa-Grande e Senzala" (1933), de Gilberto Freyre.

Coisa de intelectuais, estamos entendidos.

E nada mais "cabeça" do que a "Dialética da Feijoada" (1986), de Renato Pompeu, com o prato feito metáfora das relações de classe e da dependência diante do imperialismo.

Como ele escreveu, "consagrada pela intelectualidade influenciada pela industrialização, [ela] tem de enfrentar outros pratos simbólicos, e a sua afirmação como prato nacional-popular tem de ser considerada ainda um processo em andamento".

Joãosinho Trinta, o carnavalesco, poderia reformular sua frase célebre: "Quem gosta de pobreza, e da riqueza da feijoada, é intelectual".

Porque pobre celebra mesmo com churrasco de boi, a carne dos ricos, e cerveja. Assim, as classes sociais se devoram, de modo cruzado, à mesa. Da deglutição restam, incólumes, só os ossos do ofício e os do rabo do porco.

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CARLOS ALBERTO DÓRIA é sociólogo,
autor de "A Formação da Culinária Brasileira" (Publifolha), entre outros livros.

sábado, dezembro 05, 2009

A política de um âncora

Nada contra sua pessoa. Nada. Incomoda-me por ser uma questão pública. Vereador de Rio Branco, Astério Moreira desde 21 de setembro aparece como âncora do programa "Boa Tarde Rio Branco, da TV Rio Branco, transmitindo um misto de cenas policiais com encenações políticas.

Um âncora-vereador que surge todo dia nas casas de milhares de tele-eleitores. Trata-se de uma sutilíssima campanha politica. Nesse caso, o que importa é projetar a imagem diária, massificá-la, porque, depois, nas eleições, a imagem ressurge como candidata a deputado estadual. Urnas e audiência confundem-se.

Contra a lei? Não assisto a isso como sendo ético. Meu Brasil...

Mony, uma Viagem

Mony, 22 anos, uma jovem que o senhor Destino colocou em minha pele. Belíssimo ser humano que tem ofertado à minha idade a paz.

Quase cinco unidos e, entre nós, uma amizade amorosa que permite a mim viver. Sem ela, não haveria férias, tudo seria cansaço.

Começamos a preparar as malas. Viajar, mal sabe ela que a viagem é ela.

Mais uma vez, nossos corpos pousarão no Rio de Janeiro, cidade das balas perdidas, da favelização, das praias poluídas (menos Barra, Recreio e Grumari), a minha Cidade Maravilhosa.

Mas ficaremos do outro lado, Niterói, praias limpas (menos as que ficam na Baía da Guanabara), por exemplo, praia de Itacoatiara. Para ser mais exato, ficaremos em Maricá, perto de Saquarema. Neste ano, conduzirei minha amada a outros ares, Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Búzios; em outro momento, Parati e Petrópolis.

Viajar com quem amamos... bem-estar, hummmm!!! Mas o Rio de Janeiro não se reduz a montanhas ou a praias. Mony assistirá a ótimos filmes e a peças de teatro,

e eu assistirei à Mony.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Mala para a Viagem














Começo a preparar as malas. Nela, levarei Cinzas do Norte, de Milton Hatoum; Caim, de Saramago; e um ensaio que ainda não escolhi. Também colocarei roupas.

Abraçarei minhas férias como se abraça um amigo.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Blogue ao Márcio Chocorosqui

"Bem, caro Aldo, tenho lido o seu blogue. Belas palavras são ditas aqui. Mas não deixo de fazer uma ressalva a essa postagem, quando você cita a Profª. Laélia. Não a vejo tão defensora da história da literatura. Com ela conversei mais sobre estética da recepção, entre outras coisas. Outra ressalva: José Guilherme Merquior, que você também cita, escreveu o livro “De Anchieta a Euclides — Breve história da literatura brasileira”, de 1977. Talvez ele tenha mudado de ideia."

Márcio, antes de mais nada, quebrei todos os espelhos de minha casa. Todos. Não preservo nem a minha imagem. Neste espaço virtual, onde minha liberdade é lida, defendo ideias, e elas não são refletidas em espelhos.

Citei a professora-doutora Laélia por ser parte de uma elite que deveria problematizar a literatura na educação pública por meio de inquietantes artigos publicados, por exemplo, em um blogue. Assim como outros, ela formou professores segundo uma concepção de literatura, no caso, Márcio, historicismo literário.

Digo-lhe isso com toda propriedade, porque, antes de "ser exilado" da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Acre, recolhi todos os planos de curso do corpo docente de Literatura. Todos. A professora-doutora Laélia deixou as marcas do historicismo literário em seus planos. Estão lá.

"Com ela conversei mais sobre estética da recepção", você escreveu. Se você conversou, bem, estética da recepção, eu li em minha graduação, 1986, mas a Teoria Literária segue outros passos em 2009. O relógio biológico da professora atrasou-se.

Não digo que a estética da recepção encontra-se superada, longe disso, mesmo porque a Nova Crítica ou o Formalismo Russo podem orientar o professor de Literatura em uma escola pública; digo-lhe que, se a professora-doutora Laélia conversou sobre estética da recepção com você, mais uma vez, na condição de intelectual, ela não se antecipou ao tempo. Hoje, em 2009, a Teoria Literária se pensa de outra forma.

Quanto a José Guilherme Merquior, Márcio, esse pensador brasileiro publicou em 1977 De Anchieta a Euclides - breve história da literatura brasileira - para se contrapor aos livros didáticos da época embora tenha mantido uma história linear em suas páginas, mas o livro é profundo, problematiza. Ainda que submeta a literatura à história linear, Merquior supera o historicismo.

No Rio de Janeiro, no lugar do livro didático tradicional, já se lia no final dos anos 70 esse livro de Merquior. Acredito que você ironizou sem conhecimento de causa. Merquior, diferente de nós, foi precoce, um gênio. Em 1975, ele escreveu em Os Cadernos da PUC-RJ (primeiro encontro nacional de professores de literatura) um ensaio com o título "Comentário a 'Considerações sobre o Estudo e o Ensino de Literatura Brasileira''', onde critica o historicismo literário.

Sabe, Márcio, a tese de doutorado da professora Laélia encontra-se sepultada em uma biblioteca. Lê-la depende de uma exumação. Não digo isso para depreciar sua tese, entenda, não é isso, se fosse, eu escreveria, digo isso para afirmar que Altino Machado, que não é doutor, sem nível superior, intervém mais na realidade social do que certos doutores. Seu blogue incomoda. A palavra em seu blogue vive, circula. A tese de um professor de Literatura representa um título, às vezes, indiferente à realidade da escola pública.

Precisamos incomodar o poder (se é que isso é possível). Precisamos apresentar outras falas, outros textos. Como diz Marcelo D2, "vamos fazer barulho, porra". Certos doutores não fazem. As teses não circulam entre nós. Quem fará a exumação?

Conflito de ideias em águas rasas

Na segunda-feira, a Secretaria de Educação do Estado do Acre proporcionará um encontro entre professores de Literatura e de Língua Portuguesa para que os referenciais curriculares sejam refeitos, legitimados e aprovados.

Nas escolas públicas, o corpo docente reuniu-se para concordar e/ou discordar a respeito. Com dois colegas de profissão, um professor discrepou quando escreveu que “o texto deixa margem para uma interpretação de ensino historicista de literatura, não deixando claro que a ênfase deve ser na produção de sentido, ao invés da simples listagem das características dos estilos literários”.

Para sua justificativa, retirou este trecho dos Cadernos de Orientação Curricular da Secretaria de Educação: “Leitura, análise e comparação de textos com função literária, considerando contextos de produção em espaços e épocas distintos (Idade Média, Humanismo e Classicismo / Barroco, Modernismo e Contemporaneidade):”

Retirar um pedaço de um todo textual para afirmar que “o texto deixa margem para uma interpretação de ensino historicista de literatura, não deixando claro que a ênfase deve ser na produção de sentido, ao invés da simples listagem das características dos estilos literários” é, repito, mutilar o todo.

O trecho retirado dos cadernos não se encontra isolado, ou seja, o trecho retirado não “deixa margem para uma interpretação de ensino historicista” porque não se trata de “texto”, mas de um fragmento do texto. Retalham o texto e, a parte retalhada, os senhores a chamam de “texto que deixa margem”. Ora, não se trata de “texto”, mas de um pedaço do texto.

A coisa em-si disse pelo todo textual. Um trecho isolado passou-se como todo. A parte é o todo. Ora, senhores, quem leu o todo, o texto, não a parte como o todo, sabe que os Cadernos de Orientação Curricular da Secretaria de Educação sepultaram o historicismo literário. As partes entrelaçadas, ou seja, o todo, explicitam isso. Texto não é parte isolada, mas partes que se combinam, formando, aí então, o todo.

Não leram o texto, por isso a parte lida arvora-se de todo. A folha fala como se fosse árvore.

Sou apaixonado pela estética Barroca. Belos versos estes de Gregório de Matos e Guerra:

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte.
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo
.

A maioria, o todo, concorda com o “texto deixa margem”. Eu, a parte, discordo. A gestora diz que a parte deve se submeter ao todo no dia 7 de dezembro.

Antes, lerei Nelson Rodrigues.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O Haiti é aqui















Presos do pavilhão J dizem que foram torturados

De Nayanne Santana

Os detentos que cumprem pena no pavilhão J enviaram aos jornais uma carta que denuncia maus-tratos no presídio Francisco D’Oliveira Conde

Segundo a carta, enviada à reportagem da TRIBUNA digitada, os detentos estão reivindicando a visita do diretor do presídio e de representantes dos direitos humanos para contarem o que passam no local.

“Constantemente, somos vítimas das mais variadas agressões de alguns agentes penitenciários. Alguns deles veem trabalhar embriagados e até drogados. Chegando aqui, eles nos espancam, sendo fato diário e ainda se apossam de pertences deixados por nossas famílias. Há médico e dentista, mas não há medicamentos”, relatam os detentos.

Os detentos revelam na carta que vivem momentos de terror e que, depois de serem aconselhados por um policial militar, decidiram constituir uma comissão formada por 20 detentos que estão no pavilhão J para conversar com o diretor, mas, antes de chegarem à sala, eles passaram por maus-tratos.

“Ao nos apresentarmos como membros da comissão, fomos levados para um corredor (corredor polonês) onde nos aguardavam vários agentes penitenciários. Neste lugar, passamos por uma sessão de tortura por mais de uma hora. Socos, chutes, cassetetes, cuspe na cara, pancadas na cabeça e nos testículos e choque elétrico. Alguns estão gravemente feridos com costela quebrada e o corpo tomado por hematomas”, contam os presos.

Na carta, eles revelam que a informação de que teriam cometido um motim na segunda-feira, dia 30, foi forjada para justificar as marcas de torturas que sofreram no “corredor polonês”.

“Aqui, têm pessoas gravemente feridas devido à sessão de tortura e de espancamento a que foram submetidas. Para evitar que nossos familiares e a sociedade tomem conhecimento de tal fato, nos proibiram de receber visitas e ainda nos acusam mentirosamente de motim e de tentativa de fuga para, quando o fato se tornasse público, ter um argumento para justificar a tortura e o espancamento, os hematomas e os ossos quebrados em nossos corpos”, denunciam.
Por fim, eles pedem que as autoridades locais tomem providências em relação ao caso.

“Pedimos socorro às autoridades, Ministério Público, Direitos Humanos. Somos seres humanos e, como qualquer pessoa, cometemos erros e, por isso, estamos aqui. Queremos cumprir a nossa pena de acordo com a lei. Pedimos socorro às autoridades para que medidas sejam tomadas, para que possamos ter um tratamento, se não for digno, pelo menos mais humano. Nos ajudem!”, clamam os detentos do pavilhão J.

O outro lado
A reportagem da TRIBUNA entrou em contato ontem, à noite, com o diretor do Instituto Penitenciário do Acre (Iapen), Leonardo Carvalho, que disse desconhecer as denúncias.

“Estou sabendo dessas informações agora, mas posso garantir que, se houver algum tipo de tortura dentro do complexo, nós vamos averiguar”, certificou Carvalho.

Para ouvir as denúncias sobre as torturas de agentes penitenciários, a reportagem tentou entrar em contato com o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Acre (Sindap), Adriano Marques, mas o telefone do representante da categoria não foi encontrado. A informação que a reportagem recebeu foi que o presidente do Sindap estaria de plantão na penitenciária, por isso não era possível contato.

A Finlândia não é aqui

"Não!", interrompeu Alfons Tallgreen, 13 anos, ao ouvir que o finlandês, sua língua materna, tinha raízes semelhantes às da língua russa.

"O estoniano, o húngaro e o finlandês são línguas correlatas. Aconteceu assim: primeiro, o finlandês começou a ser usado no sul da Finlândia e, aos poucos, foi ganhando o norte do país", conta o menino ruivo, aluno da 7ª série da Itäkeskus, em Helsinque, capital da Finlândia.

Apesar de já conhecer a história de sua língua, Alfons quer, no futuro, estudar as propriedades de plantas e micro-organismos. Pausadamente, explica que sua vontade inicial era ser dentista - a mãe o demoveu da ideia. Porém, já estava interessado em biologia nessa época.

"Estava pesquisando a floresta aqui do lado da escola. Mas infelizmente as árvores serão cortadas para a construção de casas de madeira no lugar", diz.

A escola em que Alfons estuda tem o foco específico em línguas. Ali, os alunos têm a opção de estudar diversos idiomas. É o caso de seu colega, Muaad Hussein, cuja família tem ascendência libanesa. Com a mesma idade de seu colega, o menino já conhece cinco línguas: árabe, sueco, italiano, francês e finlandês, além de entender também um pouco de espanhol.

"É claro que nem todos os alunos se interessam assim. Alguns não querem nem ouvir os professores. Não pensam no futuro", desabafa.

Muaad tem razão. Ali, na Finlândia, os meninos e meninas são iguais a todos os outros no mundo: não gostam de escola, adoram o videogame, o computador, andam de skate em praças e passeiam em grupos pelos shoppings. O que leva, então, o país a ser sucessivamente o primeiro colocado nas avaliações do Pisa? Na última edição, que avaliou ciências, a média finlandesa foi de 563 - o Brasil alcançou 390 (52º de 56 países).

Um documento do próprio Ministério da Educação, criado para apresentar o sistema educacional finlandês a estrangeiros, começa a responder à pergunta. Logo no começo, há uma advertência: o sucesso só pode ser explicado em função de uma conjugação de fatores, e não por uma única ação.

A primeira razão, diz, é que a sociedade finlandesa valoriza a educação e, portanto, tem uma atitude muito favorável à área. Os números dão subsídio à frase que, aparentemente, não diz muito: aproximadamente 75% dos adultos entre 25 e 64 anos têm diploma de ensino superior. Na Finlândia, o ensino é obrigatório dos 7 aos 16 anos - em outras palavras, cursa o ensino médio quem quer. Mas apenas 1% dos estudantes da chamada escola "compreensiva" (equivalente ao nosso ensino fundamental) não continua os estudos.

Ser professor
Muito dessa atitude favorável à educação provém de uma cultura desconhecida em terras brasileiras. Na Finlândia, o professor é visto com respeito - profissionalismo e responsabilidade envolvem a profissão. Há um componente histórico nessa valorização: há cem anos, quando o país ainda se configurava como nação, a pobreza reinava, principalmente no interior.

Ali, quem tinha um diploma de professor era tratado como se fosse rei. Foi esse o relato de um membro do Conselho Nacional de Educação Finlandês, Reijo Laukkanen, em entrevista à Educação na edição 150.

Hoje, é menos reverenciado, pois divide o conhecimento com profissionais de outras áreas. Mas nas ruas de Helsinque é possível perceber a atmosfera positiva que o envolve. Enquanto espera em frente à famosa loja de departamento Stockmann, Sari Nummila, 41, mãe de dois filhos, é categórica: "o que posso dizer? Nós precisamos deles. Ficaria feliz se um dos meus filhos se tornasse professor", diz.

Lea Itoonen, 56, mãe de três filhos e voluntária da Cruz Vermelha Internacional, diz estar satisfeita com a educação que recebem na escola. Só tem uma reclamação: antigamente, os professores tinham personalidade mais forte. "Gostaria que eles não apenas fossem um agrupamento excelente, mas tivessem mais atitude, enfrentassem os pais e o governo por melhores salários", relata. Mas, de qualquer maneira, diz: "é uma profissão bonita para se ter aqui".

Mesmo entre os mais jovens, a percepção não se altera. Annette Backman, 21 anos, tem inclusive uma amiga que quer ser professora. "Eles são competentes e ela gosta da profissão", relata.

O fato de o professor ter autonomia para trabalhar em sua sala de aula também colabora com a visão social tão positiva. Há um currículo nacional básico, que dita as linhas gerais do que deve ser ensinado, mas o docente pode escolher os métodos, os livros, o tipo de didática e inclusive optar ou não pelo uso da tecnologia.

"O currículo não é sobre o que se ensina. É sobre o que os alunos devem aprender. Ele define as capacidades e habilidades que os estudantes devem ter quando terminarem seus estudos", explica Heljä Misukka, secretária de Estado da Educação. Na Finlândia, antes de aprenderem os conteúdos, os alunos têm experiências práticas que auxiliarão no seu entendimento futuro. Um exemplo: na escola Itäkeskus, estudantes de 10 anos têm aulas de culinária. Mas, ao assistir a uma aula, percebe-se o motivo da intervenção dos professores quando eles explicam a reação do fermento em água quente e em água fria. Além disso, os alunos aprendem a economizar energia e água. É através dos saberes cotidianos, como fazer uma receita, que os pequenos estudantes já apreendem conceitos para, mais tarde, aprenderem o conteúdo. Tudo é muito bem amarrado.

Formação
Heljä lembra outro aspecto da profissão docente: os professores são altamente qualificados. Para começar, a concorrência nas universidades de pedagogia é enorme. Dados do Ministério da Educação dão conta de que, na última primavera, havia 6 mil candidatos para 800 vagas. Após ser aceito, o aluno deve completar o mestrado para poder lecionar em qualquer nível educacional (veja mais sobre formação de professores na próxima edição de Educação). "Nós realmente podemos escolher os melhores", coloca.

Não é difícil encontrar pelas escolas docentes cujo sonho de ser professor foi realizado. É o caso de Lejeune Hannele, 42 anos, que leciona apenas para alunos com dificuldade de aprendizagem na escola Itäkeskus.

"Queria ser professora desde os 8 anos. Estudei seis anos para conseguir. Sempre gostei de estar com crianças", conta.

Lejeune passou seis anos no curso superior porque estudou letras durante quatro anos e teve um ano extra para ser docente e outro para ser professora de crianças com necessidades especiais. É importante notar que há um facilitador para a qualidade docente: os alunos já vêm com repertório e formação consolidada para a universidade, adquiridos durante o ensino fundamental e médio.

Aliás, eis outro aspecto digno de nota: os ensinos fundamental é obrigatório e de graça para todos os alunos. Isso inclui materiais escolares, merenda, atendimento médico, atendimento dentário e transporte. No ensino médio, só fica a cargo do aluno o material escolar.

Liberdade e liberdade
O modelo de gestão educacional na Finlândia também é diferenciado. O Ministério da Educação não tem as mesmas funções que o MEC brasileiro. Responsável pela elaboração de políticas públicas e de legislação, ele as propõe ao Parlamento, que pode aprová-las ou não. É um órgão de caráter menos executivo.

O Conselho Nacional de Educação age mais efetivamente na implementação das leis. Um exemplo: o Ministério opta pela existência de um currículo mínimo nacional. O Conselho, então, fica responsável pelo desenho desse currículo. Abaixo dele, estão os chamados escritórios estaduais, cuja função na prática é a elaboração de estatísticas sobre determinadas regiões. Quem realmente executa são os municípios.

O material didático usado por eles não é inspecionado pelo Ministério desde 1990, quando o processo de autonomia se consolidou (ver texto na página 62). Os municípios e as escolas têm liberdade para escolher o material didático mais adequado às suas realidades. Geralmente, os municípios que estão localizados no interior do país e têm menos condição financeira recebem um repasse de verba do governo central - algo em torno de 42% do orçamento municipal.

Helsinque não recebe nenhum tipo de ajuda do gênero. Todo orçamento provém dos impostos municipais. "As pessoas dizem que gostariam de pagar mais impostos, já que consideram a escola um serviço muito importante. Eles são altos, mas eles têm retorno do governo", aponta Heljä.

O documento do Ministério da Educação ressalta a existência de um sistema educacional que oferece oportunidades iguais a todos, independente mente da região em que moram, do sexo, da situação econômica, da língua ou das origens culturais. A maioria dos imigrantes que residem na Finlândia é composta por russos, estonianos, chilenos e chineses. Eles vão para as escolas regulares, onde aprendem o finlandês e a sua língua materna. Por trás dessa iniciativa está a intenção de que as raízes culturais não se esvaiam.

"Se você não sabe sua própria língua, é muito difícil aprender outras", coloca Heljä Misukka. A secretária de Estado enxerga alguns grandes desafios pela frente. Um deles é a discussão do número de alunos por sala. Quando assumiu o cargo, fez um mapeamento desse número em todos os municípios - o que não foi bem recebido nas cidades. Como as escolas são autônomas, há salas de 8 alunos e de 36, o máximo registrado. "Demos 16 milhões a eles neste ano e daremos mais 30 milhões no próximo ano para que deixem suas salas menores", diz.

Outra questão, a formação continuada dos professores, toca num ponto importante: tecnologia. Mais uma vez, a rede autônoma cria sistemas paralelos. Algumas escolas, como a Itäkeskus, usam lousa digital. Mas os municípios que sofrem com problemas financeiros não podem arcar com esse custo.

Heljä diz que ter medo da tecnologia não é uma atitude correta. Lembrando que a Nokia é finlandesa, afirma que grande parte dos alunos do 1º ano já tem celular. "Se vão à escola e lá não há nenhum tipo de tecnologia, a escola vira um museu. Se o professor quer ensinar como um aluno deve se comportar no universo on-line e a escola não puder lidar com isso, temos um problema", levanta.

Há um projeto-piloto no país que usa a tecnologia com crianças que têm necessidades especiais. Elas aprendem a ler e a escrever primeiro no computador, e depois vão para o papel. "É mais fácil para eles e não há nada errado com isso. Há diferentes tipos de aprendizes e diferentes soluções pedagógicas para eles", afirma.

*A jornalista Beatriz Rey viajou a Helsinque a convite da Embaixada da Finlândia no Brasil e do Ministério das Relações Exteriores da Finlândia

o Estado e a Literatura

Ontem, como em outros tantos dias, jornalistas, a maioria, escrevinharam sobre assassinato em um bairro qualquer, sobre drogas apreendidas, sobre alguma superficialidade do que é insignificante.









No Acre, por causa de governo e de proprietários de jornais, as pautas, além de iguais, enfadonhas, agridem a inteligência de um cão sem raça.

Escrever sobre referenciais curriculares não se nivela a informar que a Polícia Militar prendeu mais um traficante; porém, como dono de jornal e repórteres não têm boas referências, os traficantes nos pautam. Que importância existe em um encontro na Secretaria de Educação sobre referenciais curriculares? Traficantes, repito-me, sempre nos pautam, menos a educação pública.

No dia 7 de dezembro, estarei para reconhecer avanços e criticar atrasos nesse encontro. Os referenciais de Literatura e de Língua Poortuguesa da Secretaria de Educação do Acre alegraram-me. Gostei muito. Pensei em publicar um artigo na TRIBUNA sobre isso; porém, por falta de um tempo largo, estou impossibilitado. Ainda sim, destaco uma breve consideração.

Historicismo
Finalmente, após anos e anos, a secretaria apresenta o fim do historicismo literário, essa maldição defendida, por exemplo, pela professora Laélia, da Universidade Federal do Acre. A Faculdade de Letras, até ontem, concebia esse historicismo na graduação.

Em 1975, nos cadernos da PUC-RJ, professores como José Guilherme Merquior já criticavam os estudos de literatura segundo uma concepção de história. Registra-se no referencial da secretaria:

"É importante ressaltar ainda outro ponto importante: o ensino de literatura, que efetivamente deve acontecer no Ensino Médio, deve dar-se de modo articulado às práticas de leitura (PCNEM, 2000) e contemplar a experiência literária do aluno através de propostas que permitam não apenas verificar sua capacidade geral de leitura, mas também avaliar as particularidades do texto literário, sem com isso exigir um domínio de conteúdos específicos (datas, autores, Escolas Literárias, entre outros) trabalhados de forma descontextualizada."

Essa Literatura tornou-se mais complexa, menos tola ou menos fácil para o professor lecionar e, por causa disso, esse professor deverá ser outro, também menos tolo. Somente em 2009, o Estado do Acre aponta um caminho desalienado para a Literatura. Chegou muito atrasado mas chegou.

No entanto, sair de uma tradição congelada no tempo para, em um segundo momento, de repente, quebrar esse gelo com o novo, convenhamos, representa uma transição, os percalços são inevitáveis. A confusão instalou-se entre nós. As incertezas nos desorientam.

Aprecio o novo, a sua natureza me seduz; mas, mesmo assim, não viro as costas para a tradição. Nesse momento, sou prudente - opto pelos dois caminhos para a literatura na escola pública até que a transição passe.

domingo, novembro 29, 2009

Jesus Cristo não paga imposto










Leia este texto sobre as facilidades de abrir uma igreja neste país. A lei protege Jesus para que o Senhor, por meio de seus fiéis, não pague, por exemplo, IPTU. A lei dos homens permite que Jesus sonegue impostos.

Boa leitura!
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Bastam R$ 418 para criar igreja e se livrar de imposto
Após fundar igreja, reportagem da Folha
abre conta bancária e faz aplicação isenta de IR

Além de vantagens fiscais, ministros religiosos
têm direito a prisão especial e estão dispensados de prestar serviço militar

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Bastaram dois dias úteis e R$ 218,42 em despesas de cartório para a reportagem da Folha criar uma igreja. Com mais três dias e R$ 200, a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio já tinha CNPJ, o que permitiu aos seus três fundadores abrir uma conta bancária e realizar aplicações financeiras livres de IR (Imposto de Renda) e de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

Seria um crime perfeito, se a prática não estivesse totalmente dentro da lei. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para a constituição de uma igreja. Tampouco se exige um número mínimo de fiéis.

Basta o registro de sua assembleia de fundação e estatuto social num cartório. Melhor ainda, o Estado está legalmente impedido de negar-lhes fé. Como reza o parágrafo 1º do artigo 44 do Código Civil: "São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento".

A autonomia de cada instituição religiosa é quase total. Desde que seus estatutos não afrontem nenhuma lei do país e sigam uma estrutura jurídica assemelhada à das associações civis, os templos podem tudo.

A Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio, por exemplo, pode sem muito exagero ser descrita como uma monarquia absolutista e hereditária. Nesse quesito, ela segue os passos da Igreja da Inglaterra (anglicana), que tem como "supremo governador" o monarca britânico.

Livrar-se de tributos é a principal vantagem material da abertura de uma igreja. Nos termos do artigo 150, VI, b da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com suas finalidades essenciais.

Isso significa que, além de IR e IOF, igrejas estão dispensadas de IPTU (imóveis urbanos), ITR (imóveis rurais), IPVA (veículos), ISS (serviços), para citar só alguns dos vários "Is" que assombram a vida dos contribuintes brasileiros. A única condição é que todos os bens estejam em nome do templo e que se relacionem a suas finalidades essenciais -as quais são definidas pela própria igreja.

O caso do ICMS é um pouco mais polêmico. A doutrina e a jurisprudência não são uniformes. Em alguns Estados, como São Paulo, o imposto é cobrado, mas em outros, como o Rio de Janeiro e Paraná, por força de legislação estadual, igrejas não recolhem o ICMS nem sobre as contas de água, luz, gás e telefone que pagam.

Certos autores entendem que associações religiosas, por analogia com o disposto para outras associações civis, estão legalmente proibidas de distribuir patrimônio ou renda a seus controladores. Mas nada impede -aliás é quase uma praxe- que seus diretores sejam também sacerdotes, hipótese em que podem perfeitamente receber proventos.

A questão fiscal não é o único benefício da empreitada. Cada culto determina livremente quem são seus ministros religiosos e, uma vez escolhidos, eles gozam de privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (CF, art. 143) e o direito a prisão especial (Código de Processo Penal, art. 295).

Na dúvida, os filhos varões dos sócios-fundadores da Igreja Heliocêntrica foram sagrados minissacerdotes. Neste caso, o modelo inspirador foi o budismo tibetano, cujos Dalai Lamas (a reencarnação do lama anterior) são escolhidos ainda na infância.

Voltando ao Brasil, há até o caso de cultos religiosos que obtiveram licença especial do poder público para consumir ritualisticamente drogas alucinógenas.

Desde os anos 80, integrantes de igrejas como Santo Daime, União do Vegetal, A Barquinha estão autorizados pelo Ministério da Justiça a cultivar, transportar e ingerir os vegetais utilizados na preparação do chá ayahuasca -proibido para quem não é membro de uma dessas igrejas.

Se a Lei Geral das Religiões, já aprovada pela Câmara e aguardando votação no Senado, se materializar, mais vantagens serão incorporadas. Templos de qualquer culto poderão, por exemplo, reivindicar apoio do Estado na preservação de seus bens, que gozarão de proteção especial contra desapropriação e penhora.

O diploma também reforça disposições relativas ao ensino religioso. Em princípio, a Igreja Heliocêntrica poderá exigir igualdade de representação, ou seja, que o Estado contrate professores de heliocentrismo.
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Colaboraram os bispos CLAUDIO ANGELO, editor de Ciência,
e RAFAEL GARCIA, da Reportagem Local

sexta-feira, novembro 27, 2009

O 14º salário e o planejamento

O processo é gradual, lento, consequência de uma mistura entre críticas e resitências. A Secretaria de Educação, administrada pela Frente Popular, vem alterando aos poucos o cotidiano escolar. Escrevi neste blogue que a secretaria comete erros há anos, porém eu prefiro esses erros àqueles antes de a Frente Popular chegar ao poder.

Voltemos. Uma alteração recente diz respeito ao planejamento pedagógico do corpo docente, não de indivíduos isolados. Se um membro não se mexe, não faz o que tem de fazer, o corpo fica comprometido. Até 30 de novembro, o corpo docente deveria apresentar ao coordenador pedagógico um parecer. O único dia para reunir os professores, 28 de novembro, dia do pagamento. Não houve reunião.

Há reunião para alongar feriado, entretanto não há reunião para planejamento. Como o corpo docente ausentou-se, como o todo não planejou, o meu 14º salário não cairá em minha conta. Dependo de outros para receber mais um pouco. Meu trabalho depende de outros, da boa vontade de outros.

A secretaria, nesse ponto, está correta.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Paixão

Os clássicos são sábios quando pensam sobre a paixão. Em A República, de Platão, sinônimo de paixão é cólera, isto é, doença. E, dessa forma, como toda doença, a razão não domina o que o corpo sente. O corpo sofre por ter sido afetado, eis o afeto por alguém.

Já não somos senhores, mas objetos e, como tais, manipulados pelo capricho do tempo, pela ausência absoluta de autodomínio. Por causa disso, em versos árcades, os amantes, curados da doença, não se apaixonam. O arcadismo é frio porque a emoção foi exilada por ordem da razão.

Cessada a chama, sobram as cinzas, a quietude. Inicia-se o Amor.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Boa música com boa letra

Ponty

Há pensadores que me seduzem. Um deles é Nietzsche, um dos maiores escritores do século 19. Em Assim falou Zaratustra, sua filosofia lírica empobrece o Evangelho de Cristo. Não é o conteúdo do pensar que me seduz, mas a forma como o conteúdo se apresenta.

Em 2003, quem me seduziu foi Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção. Semelhante a Nietzsche, Ponty é poético, lírico. Sob teus olhos, eis alguma palavras desse fascinante escritor.

Na parte sobre O Corpo...

"Aquilo que procuramos possuir não é portanto um corpo, mas um corpo animado por uma consciência e, como o diz Alain, não se ama uma louca, exceto se já a amássemos antes de sua loucura."