segunda-feira, março 19, 2007

Bolg aberto aos responsáveis pelo ensino médio

A Secretaria de Educação do Estado do Acre, mais uma vez, manifestou seu interesse de haver "prova diagnóstica" no ensino médio.
Elaborei uma prova simples, sozinho. A área de Língua Portuguesa não definiu um propósito comum. Cada um criou como quis.
Assim, na prova de Redação, professor cobrou cinco linhas; outro, nenhuma. Em minha prova, a do segundo ano, escrevi:
"Vamos supor que, neste momento, você dependa desta redação para fazer a sua faculdade na Universidade Federal do Acre. Ela é, portanto, decisiva. Sendo assim, escolha um dos temas abaixo para elaborar seu texto dissertativo."
O resultado não poderia ter sido pior. Dos 141 alunos, 34 não escreveram (21.11%). Foram 45 alunos (31.91%) que escreveram um texto com um só parágrafo. Outros 18 (12.76) tentaram dissertar com dois parágrafos. Com três parágrafos, foram 27 alunos (19.14%). Somente 5 (3.54%) escreveram com quatro parágrafos.
Ora, se estamos habituados a ler bons livros sobre redação escolar, sabemos que quatro parágrafos deveriam ser a norma na escola, mas nem isso, o mais simples, aprende-se.
O Enem pede quinze linhas, a UniNorte pede cinco e a Universidade Federal do Acre, 20 linhas. A escola, diante desses três exemplos, fica perdida. Não deveria se fosse organizada.
Como melhorar a produção textual no ensino médio? Se não houver reunião pedagógica, se não houver um plano político pedagógico por disciplina, não sairemos do lugar. Tudo começa pela organização escolar.
Se os alunos ignoram o processo de paragrafação, o mais simples, só poderia haver isto e muito mais:
1. Muitos jovens só pensam em divertir, más quando se fala em camisinha";
2. Jovens que não querão engravidar;
3. A te de 11 era pra dá camisinha por que os jovens estão tudo em gravidando. Elas tem medo de pegar piula camisinha púriso",
4. Eu acho que a violência tem que acabar porque o mundo está muito violento;
5. Hoje em dia se vê falar muito sobre casos de estrupamentos.
Poderia ofertar aos seus olhos inúmeros casos, mas conto até cinco. Se não houver médicos na cidade, corpos amontoam-se e o mau cheiro alastra-se. A ausência de saúde cria um caos bem visível.
Alunos concluem o ensino médio sem saber escrever, mas, como não há corpos putrefatos na disciplina de Língua Portuguesa, o sistema, sem qualidade, funciona. O odor que a ignorância exala é muito pior.
Sem uma educação que dê altivez à palavra escrita, ao pensamento elaborado em uma folha, o espírito não pulsa. Por isso, sem educação, sem a formação do espírito, mentes grosseiras emanam a fedentina da vulgaridade, da violência, da miséria. Um criança, de um ano e meio, é estuprada e seu corpo, deixado em uma pia-batismal. Outra, arrastada pelas ruas de minha "Cidade Maravilhosa".
Hoje, o jornalista Jairo Barbosa escreveu uma matéria na TRIBUNA que exemplifica. A escola, longe de ser exemplo para alunos, não dita comportamento, postura, mas, no lugar dela, a boate. Menores embriagados nunca poderão escrever bem.
O Enem já mostrou que somos ruins quando pensamos por meio da escrita. O que fazer, então, depois da prova diagnóstica... e da boate?

sábado, março 17, 2007

Mulheres no Sindicato

Os dois sindicatos da educação, Sinteac e APL, administrados por duas mulheres, já disseram que poderá, em abril, haver greve nas escolas públicas do Estado.
Serei direto.
Se mulher ocupa espaço sindical para ser incompetente igual a homem, melhor cuidar do lar e dos filhos. Primeiro, meninas, é que não existe greve na educação, porque, depois, o professor é obrigado a repor aula.
Que greve é essa?
Eu paro de lecionar e, uma vez terminada, tenho que repor o tempo parado. Fala sério, meu, digo, minha!!! Isso não é greve.
Convenhamos, no mínimo, descanso antecipado.
As mulheres no sindicato precisam, com urgência, rever o conceito de greve, prática de luta dos operários criada pelo anarquismo. Martin Luther King e Gandhi usaram muito bem esse conceito há muitos anos.
"O tempo não pára", cantou Cazuza, e o atual modelo de greve, congelado no tempo e ineficiente, porque a história mostra isso, não pode ser o mesmo, principalmente, para a educação.
A desobediência civil deve ser outra.
Quem já leu um pouco sobre isso deveria saber que Luther King e Gandhi causaram um colapso na economia, o que a educação não causa.
Além disso, sabemos que a educação não se reduz a interesse econômico dos professores.
As mulheres no sindicato repetem o que homens já faziam, e faziam errado. Se é para fazer igual, se é para reproduzir o modelo patriarcal de sindicato, vai lavar a louça, porque eu faço muito bem isso em minha casa.

quinta-feira, março 15, 2007

Prova diagnóstica, da Secretaria de Educação do Estado

Amanhã, encerrar-se-á a prova diagnóstica na escola Heloísa Mourão Marques. A iniciativa da secretaria merece elogios, mas penso que um procedimento deve ser alterado, qual seja: a elaboração das provas.
As provas, quando escritas, não apresentam uma consequência da área, por exemplo, de Língua Portuguesa, mas de um indivíduo. Serei específico.
Em Língua Portuguesa, um professor elaborou uma prova que pede a construção de um texto, mas esse texto deve ser escrito, no máximo, em cinco linhas. Ora, não há texto com cinco linhas no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, e nem na Universidade Federal do Acre.
Isso não passou pela área. Trata-se de um erro grave, porque, antes da prova diagnóstica, as áreas não definem o que desejam. Isso tem nome: desordem.
Eu, que não conversei com o meu colega do primeiro ano do ensino médio, devo escrever que prova diagnóstica para os alunos do segundo ano?
Sem que tenhamos conselhos de disciplina nas escolas, fica difícil definir o que é Língua Portuguesa na rede pública. Educação implica ação de um conjunto, o corpo docente, e não ação isolada de professores.

EducAÇÃO

País está entre os "piores do mundo" em educação,
diz Lula, que promete "revolucionar"

Da redação
Em São Paulo

Agência Brasil

Haddad ouve o presidente Lula na apresentação do PDE

Ao apresentar nesta quinta-feira (15) em Brasília, junto com o ministro da Educação Fernando Haddad, as linhas gerais do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação) para educadores de todo o país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu que o acesso à educação cresceu no Brasil, mas que o ensino continua com baixa qualidade."Nós estamos entre os piores do mundo", afirmou o presidente, na cerimônia realizada no Palácio do Planalto.

"A experiência acumulada mostra que o Estado brasileiro, ao longo das últimas décadas, não deu respostas (aos problemas da educação). Houve a universalização do ensino, mas não houve um acompanhamento pela melhoria da qualidade da educação. Então, estamos entre os piores do mundo", declarou o presidente, falando a professores, reitores, pedagogos e ex-secretários de educação.

Entre as medidas que fazem parte do PDE estão a realização de uma olimpíada de língua portuguesa, semelhante à de matemática, já existente; a criação do piso salarial nacional do magistério, que é uma reivindicação antiga da categoria; investimento na formação continuada de professores, fazendo com que todos estejam ligados a uma universidade; universalização dos laboratórios de informática, inclusive na área rural; melhoria do transporte escolar e qualificação da saúde escolar.

O ministro Haddad anunciou também a possibilidade de o aluno aderir a um financiamento estudantil de seu curso superior e pagá-lo depois de formado, com desconto em folha e prestações de cerca de R$ 100.

"Revolução"

De acordo com o presidente Lula, o PDE proporcionará uma "grande revolução" na educação brasileira. "Existe uma dívida de educação nacional e estadual, e isso deve ser sanado", afirmou.

O número de jovens que se encontram em cadeias foi apontado pelo presidente como uma evidência das falhas na educação brasileira. "São todos da década de 80 para cá. São resultados de um milagre brasileiro que não distribuiu renda, de políticas elitistas que não pensavam numa educação de qualidade para todos".

O presidente afirmou que diversas pessoas foram chamadas para colaborar na elaboração do PED, como os ex-ministros Cristovam Buarque (PDT-DF) e Paulo Renato (PSDB-SP). Segundo Lula, o governo quer ouvir quem pode contribuir, independentemente de partido.Buarque, primeiro titular do MEC (Ministério da Educação) sob Lula, foi demitido pelo presidente por telefone, e o enfrentou na eleição presidencial de 2006.

No segundo turno, apoiou o rival de Lula, o tucano Geraldo Alckmin. Já Paulo Renato é um político ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.Avaliação mais freqüenteO presidente Lula defendeu ainda que o Prova Brasil seja aplicado antes da 4ª serie do ensino fundamental, como forma de mapear as condições dessa etapa da educação.

"Não temos como esperar quatro anos para fazer uma prova. Ou medimos essas crianças mensalmente, quinzenalmente, semanalmente, diariamente, ou não tem jeito", criticou.O Prova Brasil, citado por Lula, é desenvolvido e realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao MEC.

Sua primeira edição ocorreu em novembro de 2005, em parceria com as secretarias estaduais e municipais de educação, que mobilizaram mais de 20 mil colaboradores para atuarem na execução dos trabalhos.

O exame foi realizado em 5.398 municípios, avaliando 3,3 milhões de alunos de 4ª e 8ª séries do ensino fundamental (ou seja, com intervalo de quatro anos). Foram aplicadas provas de língua portuguesa (com foco em leitura) e matemática, com questões elaboradas a partir do que está previsto para as séries avaliadas nos currículos de todos os Estados e, ainda, nas recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Com informações da Agência Brasil

quarta-feira, março 14, 2007

pOesiA - a voz do Eu-Lírico


Sobre poesia, a Literatura na escola padece de inocência, beira a uma compreensão bobinha de alguns professores, porque se acomodaram com seus livros didáticos.

Há um texto da Escola de Frankfurt, no entanto, que retira a poesia de sua infantilização em sala, é Lírica e Sociedade, de Adorno.
A voz lírica, para esse pensador, não é a mera expressão de emoções e de experiências individuais; o eu-lírico, a linguagem poética, manifesta-se quando adquire participação no universal. "Da mais irrestrita individuação, a formação lírica tem esperança de extrair o universal", escreveu Adorno.

Com essa compreensão, individuação e universal, o eu-lírico é uma voz que reage à influência de agentes exteriores "contra a prepotência das coisas", é uma forma de reação "à coisificação do mundo".

Coisificação no sentido de que, desde a Revolução Industrial, no século 18, as mercadorias dominam os homens. O amor, por exemplo, adquire a condição de coisa quando se reduz ao "orgânico", à funcionalidade, por meio de músicas que submetem o amor à regressão auditiva.
"Lapada na rachada" nunca foi música, mas ruído que "preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pela docilidade de escravos sem exigências". O eu-lírico se opõe a esse coletivo.
Oposto a essa "lapada", oferto a teus olhos, então, Castro Alves, que hoje faz 160 anos de nascido.
Amar e ser amado

Amar e ser amado! com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz... que pensamento!?





terça-feira, março 13, 2007

Alunos, os meus

























Novos rostos. Mais um ano letivo escreve-se na lousa de uma escola pública.
São quase 20 anos lecionando e ainda entro em sala como se eu pudesse mudar não o mundo, mas a vida de alguns. São poucos, nunca gostei das multidões.
Entro em sala para ofertar aos meus alunos o melhor de mim, e esse melhor é afeto e exigência; disciplina e desobediência; ordem e caos. Entro em sala ainda com paixão e leciono por um único motivo: não desejo morrer.
Sim, se eu não lecionasse, já não estaria mais aqui, porque, entre quatro paredes, vivo o que a realidade me retira: sonhos, outras possibilidades, por exemplo, ele: o amor, e seu gesto pulsa na narrativa que lerei para os meus alunos às segundas-feiras, entregue ao silêncio em um teatro de escola.
Por mim e por eles, um livro lido para que a vida seja outra em nossas particularidades, em nossas intimidades. Assim, nossos olhos irão se debruçar sobre Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para que, por meio da leitura - eu sei, ler cansa -, possamos renomear o amor, a paixão, a noção de ordem - valores que a realidade da rua desconhece.
Buscarei, tal qual um sacerdote, teatralizar o texto sagrado da ficção para que percebam a vida relida, mais vida entendida, sempre vida contada, muita vida acima da vulgaridade e da pobreza que nos cercam.
Quando o ano letivo chegar ao fim, só desejo que esses rostos nunca mais se esqueçam de mim, porque para isso também fomos feitos: ofertar a recordação de um homem apaixonado por sua profissão.

segunda-feira, março 12, 2007

Baudrillard


"Brasil é o império das ilusões"
Em entrevista inédita feita durante a Eco 92, filósofo diz que o país não é hiper-real

Flávio Florido - 25.abr.2002/Folha Imagem
O filósofo francês Jean Baudrillard durante palestra na Bienal Internacional do Livro de 2002

KATIA MACIEL
ESPECIAL PARA A FOLHA

E m 1992, se realizou na cidade do Rio de Janeiro a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92. Jean Baudrillard havia sido convidado para uma conferência, e a enorme mobilização da cidade em torno do evento provocou esta entrevista, que aconteceu no Jardim Botânico. Esta não foi a nossa primeira conversa e nem seria a última.
Durante muitos anos foram muitas conversas, mas só tenho o registro desta, que trata da relação entre a natureza e a alteridade, o ciclo da metamorfose, da vida e da morte. As idéias de hiper-realidade e de simulacro são experimentadas no cenário brasileiro a partir de uma análise que considera os processos comunicacionais como aceleradores do consenso. A forma de confrontação escolhida pelo autor é a da teoria fatal, a teoria no meio das coisas, uma teoria que não considera mais a separação entre sujeito e objeto e que acolhe em seu centro os gestos da indiferença como estratégia. Para o Brasil as palavras são de encantamento.
Baudrillard sempre acreditou neste país confuso e generoso e nunca pensou no Brasil como o país do futuro; ele sempre preferiu o presente.

PERGUNTA - Você acredita que esta conferência terá resultados mesmo sendo um tipo de simulacro?
JEAN BAUDRILLARD - Parece-me que tudo isso faz parte de uma nova ordem mundial. No sentido político, a ecologia faz parte de um novo establishment mundial, fundado sobre uma extensão formal da democracia, dos direitos humanos, fundado sobre um consenso. É mais um pacto simbólico com a natureza. Não é exatamente um contrato natural, não é um contrato em termos racionais. [...]

PERGUNTA - Não há mudança de toda forma.
BAUDRILLARD - Neste momento de consenso, só há mudanças mecânicas ou eletrônicas. A rede funciona, o processo é de rede, de circuito. Estabelecemos o consenso pela circulação acelerada das coisas. Se você está dentro de uma rede, você está em consenso. Não é uma questão de ideologia.

PERGUNTA - A aceleração é produzida pela mídia, por exemplo? O que promove toda a aceleração?
BAUDRILLARD - Na verdade, parece uma espécie de imensa maquinaria em forma de circularidade indefinida. Tudo comunica e tudo se torna comunicação. Nada muda verdadeiramente, não há uma forma de alteridade, de antagonismo, de relação dual. Não. Tudo circula. Tudo se torna comunicação, seja a sexualidade, as imagens ou até mesmo os processos científicos. Temos a impressão de que somos reconhecidos no mercado da pesquisa científica por descobertas e hipóteses que possam comunicar. O universo da comunicação é monofuncional. Existe uma mobilidade e é preciso que tudo seja dito. É preciso que tudo circule. De onde vem esse imperativo? Eu não sei... um mecanismo de dissuasão, de desqualificação. Tudo que é substancial, que tem valor, é perigoso. Então é preciso reduzi-lo, é preciso consensualizar fazendo circular.

PERGUNTA - Você vê a questão da hiper-realidade no Brasil?
BAUDRILLARD - Eu não vejo o Brasil como um país hiper-real. Não é como a Califórnia, a América do Norte. Talvez porque o Brasil ainda não tenha passado pelo princípio de realidade, não pode se tornar hiper-real, porque o hiper-real é mais que o real, um tipo de confusão entre o real e o imaginário. Tem-se a impressão de que não existe um princípio de definição da realidade. É bem uma espécie de país de ficção, mas não de ficção de transparência. Não é o país da semiologia ou da semiótica. Tenho a impressão de que o Brasil está mais próximo do jogo da ilusão, da sedução, dessa relação dual, mas confusa, e que não há essa forma de abstração que é a hiper-realidade... Enfim, essa forma de transmutação no vazio, de perda de substância, de referência. Aqui, é claro, há televisão por todo lado, há imagens, isso tudo. Temos a impressão de que é uma matéria muito mais bruta, imediata, primitiva, é uma matéria da relação coletiva. Não é a mesma definição que podemos ter na Europa entre o meio e a mensagem. Toda a teoria da comunicação não funciona assim porque são as funções de um modelo abstrato, uma realidade abstrata. Justamente por meio das novas imagens há uma espécie de confusão entre o emissor e o receptor. A hiper-realidade é uma espécie de roteiro transparente da modernidade, mesmo na Europa. Aqui eu tenho a impressão de que é uma confusão não primitiva -porque seria uma expressão pejorativa-, mas original. Uma confusão que é ainda uma forma anterior à da discriminação das coisas, da distinção das coisas. A hiper-realidade é quase tardia porque veio depois da divisão das coisas.

PERGUNTA - Mas nos EUA também não houve uma realidade anterior.
BAUDRILLARD - Sim, certamente. Não exatamente um princípio de realidade, na medida em que não houve uma acumulação primitiva de realidade por dois séculos, como na Europa. Não há um histórico de realidade, mas um princípio tecnológico, operacional, pragmático. Isso é um problema de infra-estrutura própria, não é uma infra-estrutura de princípios metafísicos, de princípios do sujeito. Há um princípio de operacionalidade muito forte nos EUA . Aqui eu não tenho a impressão de que ele funcione realmente, e não é ele que governa as formas simbólicas da relação. Portanto, é uma situação original, mas, evidentemente, quando fazemos a análise da hiper-realidade, ela é universal. Todo mundo é submetido a esse regime de potencialização de signos. Mas talvez o Brasil escape do universal. É preciso saber se a cultura brasileira passou pela modernidade, se os elementos de modernização, de abstração, de mediatização se tornaram os mais fortes. Se foi engolida e absolvida por isso, não estou muito certo. Não há julgamento estatístico ou metafísico. Talvez no Brasil haja uma certa tradição, talvez haja muito mais de surrealismo que de hiper-realismo.

PERGUNTA - Então seriam principalmente efeitos do inconsciente ?
BAUDRILLARD - O hiper-realismo é, na verdade, uma zona da desencarnação dos corpos. Não é o caso, aqui os corpos não são de forma alguma desencarnados. Os gestos, o movimento aqui são verdadeiramente sensuais. A hiper-realidade é um tipo de desencarnação, de desilusão, um pragmatismo das coisas. Aqui ainda é o império das ilusões, mas no sentido positivo do termo, ou seja, o jogo de aparências, incluídos no gestual, na dança, na música, no jogo, no culto. Esse tipo de coisa não demonstra absolutamente uma alternativa política, apenas mostra que ainda existe uma forma de ilusão, isto é, de gestão simbólica das coisas.


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KATIA MACIEL é professora de comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

sábado, março 10, 2007

Sentais-vos, vereadores!!!

O empresário de ônibus retira os bancos para dar mais espaço em pé. Isso tem nome: lucro.
Não existe lei no município para proibir isso. Como não usam ônibus, vereadores não criam uma lei para proibir isso.
O mesmo se dá com os ciclistas. Como não usam bicicleta, eles não criam leis para regulamentar o tráfego de duas rodas.

Diretora Lúcia

Gilson Albuquerque denuncia autoritarismo da diretora
Matéria de Jairo Barbosa

A comunidade do bairro Preventório está revoltada com as medidas adotadas pela diretora da escola Heloísa Mourão Marques, professora Lúcia. Segundo os moradores, a administradora da escola proibiu, desde o ano passado, que os estudantes jovens utilizem a quadra de esportes, que antes era liberada nos finais de semana.
Segundo Gílson Albuquerque, presidente da Ummarb e representantes da comunidade, a professora Lúcia simplesmente impediu a entrada dos moradores na área de lazer da escola sem aviso prévio. Albuquerque prepara um documento para entregá-lo à Secretaria de Educação, solicitando que a medida seja cancelada.
“Há mais de dez anos, esse espaço era usado pela comunidade, e a diretora, de forma arbitrária, proibiu os moradores de utilizar um espaço que sempre foi usado e preservado pela comunidade”, denunciou Albuquerque.
A liderança sindical também disse que os alunos da escola reclamam de outra medida adotada pela direção. Segundo Gílson, a diretora mudou o uniforme dos alunos sem consultar o Conselho Escolar.
“A gente quer a escola em sintonia com a comunidade. Estamos dispostos a colaborar com o que for possível, mas não iremos admitir autoritarismo aqui”, avisou Albuquerque.
Apesar das tentativas da reportagem, a professora Lúcia não foi localizada nem na escola nem por meio do seu celular.

quarta-feira, março 07, 2007

No dia das mulheres, eu quero a minha mãe


Texto completo, publicarei no domingo por meio da TRIBUNA

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Mulheres do lar lutam por seus direitos,
de Aldo Nascimento

Mulheres americanas que trabalham em casa reivindicam o que feministas acreanas rejeitam: o serviço familiar. Elas querem que os anos dedicados aos filhos, aos maridos e aos pais idosos sejam contabilizados na hora da aposentadoria. Um pouco atrasadas, isso ocorre há anos na Europa.
O sistema de previdência do governo dos Estados Unidos não reconhece o trabalho de donas-de-casa para fins de aposentadoria. Elas só podem contar com poupanças privadas e com parte dos benefícios de seus maridos.
Mulheres que tenham permanecido casadas por mais de dez anos têm direito à metade da quantia paga pelo sistema de seguridade social a seus ex-maridos. Mas, se não fizerem um acordo na hora da separação, perdem o direito às poupanças e aos planos empresariais.
Muitas, então, acabam tendo de entrar no mercado de trabalho para viver. Mesmo assim, por elas começarem a trabalhar tarde, várias jamais atingem o tempo mínimo necessário para recolher a aposentadoria empresarial.
Confirma-se, assim, uma desigualdade entre homens e mulheres. O Instituto de Pesquisa de Políticas para as Mulheres reconhece isso e uma de suas propostas para diminuir a desigualdade entre maridos e esposas, entre os trabalhadores e as trabalhadoras, é a criação de um “crédito de serviço familiar”, igual ao modelo europeu.
Esse crédito poderá ser oferecido a mulheres que deixam a força de trabalho para tomar conta das crianças, para cuidar dos maridos e para tratar dos parentes idosos.

Cuidar da casa
No Brasil, as donas-de-casa têm direito à aposentadoria desde a Constituição de 1988, porém o benefício ainda é muito pouco usado, menos de 1%. Mas, assim como as americanas, as brasileiras não recebem nenhum crédito extra pelos anos dedicados à criação dos filhos ou a pais idosos.
Essa remuneração às mulheres que se dedicam ao lar na condição de mães e de esposas deu seus primeiros sinais no final do século 19, na Europa. É o chamado “maternalismo feminista” ou “feminismo maternal”.
Esse pensamento, porém, recebeu a indiferença de mulheres que lutavam pelos direitos iguais aos dos homens. As falas da feminista alemã Käthe Schirmacher não ecoaram no Brasil, no Acre. Para essa mulher, o trabalho doméstico representa um trabalho que “cria valores”.
“Não existe trabalho mais ‘produtivo’ do que o da mãe, que, sozinha, cria o valor dos valores, que se chama um ser humano”, disse Käthe em 1905, na Liga das Associações Femininas Progressistas.
Para Gisela Bock, ex-professora no Instituto Universitário Europeu (Florença), Käthe Schirmacher “protestou contra essa exploração da dona-de-casa e da mãe, argumentando que as mulheres, em nome de sua emancipação, não deveriam ter ainda de suportar a exploração acrescida de um emprego mal pago, mas que a sociedade lhes devia o reconhecimento social, político e econômico do seu trabalho doméstico”.
Por ter vivido na França, Käthe encontrou essas idéias na década de 1890. Mas antes, em 1878, em Paris, no Congresso Internacional dos Direitos das Mulheres, foi exigido que os municípios apoiassem as mães pobres durante um período de 18 meses.
“Em 1892, a primeira conferência de mulheres a autodenominar-se ‘feminista’ sublinhou a necessidade da proteção social para todas as mães”, escreveu Gisela Bock em História das Mulheres, volume 5.

Nega-se a família
Nos finais dos anos 20, mulheres, uma minoria, rejeita o feminismo maternal em nome dos direitos iguais entre homens e mulheres. A família passa, com isso, a ter menos importância.
Na segunda metade do século 20, esse feminismo ausentou-se praticamente, porque as mulheres consideraram mais fácil conseguir a emancipação pelo trabalho assalariado e pela redistribuição de responsabilidade no seio do casal.

A identidade materna
N
o início do século 21, estudos e pesquisas, elaborados por feministas, retomam as idéias de Käthe Schirmacher. O feminismo maternal voltou à luz.
Professora emérita da Universidade de Provence, Yvonne Knibiehler publicou Quem cuidará das Crianças? Se Simone de Beauvoir (1908-1986) estivesse viva, jamais leria o livro. A companheira de Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi útil a mulheres que desejavam direitos iguais entre elas e os homens; Yvonne, no entanto, discordou de Beauvoir.
“Em seu livro, O Segundo Sexo, ela definiu a maternidade como obstáculo à vocação humana de transcendência”, e conclui Yvonne. “A minha relação com as crianças que ponho no mundo é feita também de inteligência, e é precisamente isso que abre a possibilidade de uma superação, de uma transcendência.”
Para essa historiadora, o feminismo precisa, antes de mais nada, repensar a maternidade, a família, a importância da mulher no lar. A violência contra mulheres de classes sociais mais pobres deve-se também a uma concepção de feminismo que destruiu a representação simbólica da casa. A mãe é menos que uma trabalhadora. O escritório da secretária, menos importante que o lar.
Assim, ocupando funções que antes pertenciam somente ao sexo masculino, a mulher pensou que tivesse tirando o poder do homem. Para a autora de Quem cuidará das crianças?, sair de casa para trabalhar no escritório nunca foi suprimir a dominação masculina nem mesmo a atenuou. “As feministas apenas obrigaram que a dominação mudasse de lugar”, provoca Yvonne Knibiehler.
A mulher na política não eliminou ou enfraqueceu a dominação masculina, porque tamanha dominação fecunda-se na representação simbólica. Mulheres podem jogar futebol, mas o jogo, criado por homens, mantém-se o mesmo. A estrutura, a mesma. Ela pode ocupar os sindicatos, porém a estrutura sindical permanece patriarcal ou “machista”. A questão, portanto, não é ocupar os espaços dos homens, mas transformar o conceito de estrutura.
Como escreveu Françoise Thébaud no livro História das Mulheres, o século 20, “a mulher necessita de uma evolução da simbólica do poder e bem poderia vir a modificar o modo como este poder se exerce”.

Retorno ao lar
O clichê “as mulheres estão ocupando seus espaços na sociedade”, proferido por feministas acreanas, caducou. Oriana White, psicóloga e pesquisadora do comportamento humano da Universidade de São Paulo (USP), constatou em sua pesquisa que as mulheres estão voltando seus desejos para a vida em família. “Elas querem uma rotina mais simples, com maridos e filhos por perto”, diz Oriana.

Uma breve entrevista

Publicado em 1997 e editado no Brasil três depois, o livro A Terceira Mulher – permanência e revolução do feminino -, de Gilles Lipovetsky, emudece as banalidades de muitas feministas. Essa obra, portanto, leitura obrigatória para que saiamos do óbvio. Pensando nisso, esta breve entrevista com o autor mostrará um pouco de seu pensamento nesse provocante livro.

Em seu livro, constata-se que a mulher ocupou o espaço na sociedade pós-industrial?
A resposta em uma entrevista é insuficiente. Busco responder a isso em 305 páginas e aqui é impossível em poucas linhas. Entretanto, o que posso afirmar é que o homem permanece prioritariamente associado aos papéis públicos e “instrumentais”, a mulher, aos papéis privados, estéticos e afetivos. Quero dizer com isso que, longe de operar uma ruptura absoluta com o passado histórico, a modernidade trabalha em reciclá-lo continuamente.

Quando o sr. diz “reciclar”, isso significa a tradição revista pelo moderno?
Sim, a terceira mulher conseguiu reconciliar a mulher radicalmente outra e a mulher sempre recomeçada.

A mulher não deixou o lar?
Elas continuam mantendo relações privilegiadas com a ordem doméstica, sentimental ou estética, e não é por simples peso social, mas porque essas relações se ordenam de tal sorte que já não entravam o princípio de livre posse de si e funcionam como vetores de identidade, de sentido e de poderes privados.

O que o sr. pensa sobre o feminismo?
O feminismo como movimento social está marcando passo.

Por quê?
Nesse caso, melhor ler o livro.







terça-feira, março 06, 2007

Matéria da Secretaria de Educação e Eu

Acredito que, por causa da matéria que publiquei na TRIBUNA e no blog, a Secretaria de Educação elaborou um texto para mostrar sua versão. ____________________________________________
Indicadores do MEC mostram que educação do Acre
evoluiu muito nos últimos anos

Matéria de Edmilson Ferreira

Apesar das dificuldades, o Acre consegue reestruturar a educação pública. Todos os indicadores confirmam tendência de melhoria em todos os níveis, mas principalmente no ensino fundamental.
De acordo com o Ministério da Educação, em 2005 o Acre obteve a melhor variação absoluta no Prova Brasil, do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, que mediu o rendimento dos alunos das quartas e oitavas séries de todas as escolas do país. O Estado registrou crescimento de 12,4 pontos na avaliação atual em comparação ao Saeb 2003. Os estudantes acreanos tiveram média de 158,3 pontos em português, no Saeb 2003, e, na última avaliação, alcançaram média de 170,7 pontos na disciplina.
A média nacional é negativa, o Norte tem índices ruins, o pior do país. No entanto, a Frente Popular conseguiu melhorar a educação pública, mas estamos distantes e novos caminhos não foram apontados para o ensino médio.

Em 1999, no início do Governo da Floresta, o Acre ocupava as últimas colocações em todas as avaliações oficiais – era a pior educação do País. Em 2003, superou vários Estados e foi para 16ª posição e atualmente ocupa a 11ª colocação na avaliação de língua portuguesa, desempenho melhor que o obtido por Tocantins, Rondônia, Amazonas - e até mesmo por regiões ricas, como o Rio Grande do Sul.
No Enem, a colocação é 23ª e 24ª. O 11º refere-se ao ensino fundamental.
De acordo com a Secretaria de Educação, os avanços foram obtidos a partir de um grande esforço do Estado e dos professores. Os estudantes acreanos receberam nota média 158,7 no Saeb 2003 e conseguiram 171,9 pontos ou 13,2 pontos a mais no Prova Brasil. Em todo o Estado, no ano avaliado, 14.132 alunos de 179 escolas de 22 municípios participaram da Prova Brasil. Foram 10.474 alunos de 122 escolas estaduais, 3.570 de 56 escolas municipais e 88 do Colégio de Aplicação.
Os números remontam aos investimentos realizados desde 1999 na educação: construção e reforma de escolas, melhorias salariais a professores e pessoal de apoio, plano de carreira profissional, repasse de dinheiro diretamente às escolas, autonomia escolar, capacitação e formação em nível superior, integração do sistema municipal com o estadual. A descentralização da gestão, com o repasse de dinheiro diretamente às escolas, é uma das ferramentas para o Acre ter conquistado melhores posições no ranking nacional de ensino.
Quando o Governo da Floresta começou, somente oito municípios tinham o segundo grau. Hoje, o ensino médio está presente mesmo em comunidades distantes como a Foz do Breu, no extremo oeste do Acre. A qualificação dos professores tem sido fundamental no processo. Apenas em alguns programas de formação de professores em nível superior, o Estado já investiu mais de R$ 50 milhões com a ajuda do Governo Federal.
Questão não se reduz à qualificação do professor somente, é preciso haver uma nova forma de administrar a escola e isso passa também pelo encontro entre áreas.
Municípios – O Ensino Fundamental melhorou muito nos últimos anos e o ensino fundamental caminha a passos largos para um salto de qualidade. Existem problemas no Ensino Fundamental e Médio que já foram identificados pela Secretaria de Educação. Em alguns municípios, há um esforço adicional para que o segundo grau acompanhe o desempenho dos demais níveis de ensino. “Os resultados virão porque há pouco tempo deu-se início na formação de professores em alguns municípios”, esclareceu Josenir Calixto, gerente de Gestão e Planejamento de Ensino Médio da Secretaria de Educação.
Falo do Estado, porque leciono em uma escola pública estadual.
Até 99, ensino médio sequer tinha rede

Ao assumir o Estado em 1999, o Governo da Floresta encontrou a educação em situação crítica. “O sistema não tinha nem a rede de ensino médio”, lembra Josenir Calixto, gerente de Gestão e Planejamento do Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação. No ano de 1996, os paradigmas do ensino médio voltavam-se aos vestibulares e à profissão. Depois, passou a preparar os alunos para o exercício do trabalho e da cidadania – o que no Acre foi incurtido exatamente com o advento do Governo da Floresta ao implantar uma ampla e abrangente rede de escolas com ensino de segundo grau.
Sim, não havia rede, mas não podemos comparar a Frente Popular a um descaso sempre, porque não dá para comparar. Precisamos comparar com o que é melhor para melhorar ainda mais.
A avaliação feita pelo Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) envolve o ensino regular e o supletivo, situação que, na opinião de Calixto, torna a metodologia complexa e gera disparidades entre resultados.
Sou professor de Língua Portuguesa do Estado há dez anos e conheço a realidade dessa disciplina na escola pública.
Qualidade do ensino não é só escola
O fator “escola” não é o único para se construir uma educação de qualidade. “É preciso dar suporte às famílias”, observa Calixto. “E nós estamos fazendo isso”, assegura, citando como exemplo as reuniões de pais e professores no Cerb, escola localizada no Centro de Rio Branco. A participação era fraca, não mais que vinte ou trinta pais freqüentavam as reuniões. “Ultimamente chegamos a reunir cerca de 600 pais”, comemora Calixto.
Não há relação direta entre participações de pais e qualidade de ensino. Trata-se de um mito. Escrever bem, por exemplo, não depende de pais na escola. Se depende, esxplique.
“Nosso desafio é fazer investimentos na sala de aula para que o professor possa planejar corretamente, de acordo com as necessidades dos alunos”, diz.
Como assim "investimentos"? Especifique! Como asssim "planejar"? Especifique!
Além disso, a gestão escolar é instrumento importante nesse contexto. A eleição de diretores comprometidos com as diretrizes básicas vem trazendo bons resultados.
Bons resultados? Onde? Como? Que resultados são esses em termos de qualidade de ensino na Língua Portuguesa? Especifique-os!
Por essa política, a eleição é um dos passos para a boa gestão. Primeiro, o candidato a diretor passa por um curso de capacitação para gerir a escola;
Por causa disso, temos ótimas administrações? O processo de escolha é antes, e ele é um equívoco democrático.
em seguida se submete à certificação e depois é avaliado em processo eleitoral em que participam professores, pais e alunos. “Problemas existem, mas eles estão sendo sanados com a participação da comunidade”, afirmou o gerente da SEE.
Especifique essa participação. Não há verdade e qualidade por meio de generalizações.

Diretores têm acompanhamento constante:
32 afastados por descumprimento do trabalho


Todos os diretores escolares têm acompanhamento constante da Secretaria de Educação. Ainda segundo Josenir Calixto, reuniões periódicas promovem debates entre diretores e técnicos da SEE na busca de soluções para os mais diversos problemas e conflitos. Calixto lembrou que há punição para os diretores que não cumprem com as regras: “em oito anos, 32 diretores foram exonerados da função”, afirmou.
Se acompanhasse, escolas não estariam em péssima conservação. Há menos de dois anos, foram reformadas e muitas estão com janelas quebradas, com vidros arrancados. Há diretores que não cuidam da escola. Material some e eles não são punidos. Poderia dar exemplo, mas o tempo irá mostrar.
Os conselhos exercem papel positivo na gestão escolar porque são, segundo Calixto, instrumentos de controle social. Na busca de fazer uma boa educação, os professores têm carga horária que lhes possibilita fazer o planejamento pedagógico individual e coletivo,
Coletivo não, porque não há conselho de disciplina. A cobrança, quando há, é individual.
e atividades na escola e em suas casas. No Brasil, a formação de professores em nível superior atinge 30% do quadro do Governo Federal. No Acre, em poucos anos, esse número chegará a 100% dos docentes. A previsão é da Secretaria de Educação.
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A crítica ética e propositiva contribui para repensar procedimentos. Minha matéria não adulou o poder e muito menos caracterizou-se como um panfleto vulgar contra uma pessoa ou partido. Gosto de dialogar sobre idéias, algo carente em nosso jornalismo.
Em outro momento, escreverei um artigo sobre a Língua Portuguesa na sala de aula, um problema muito grave. Leciono há quase 20 anos, 1o dedicados ao Acre, e sei o que falo e como falo.
Lecionar tem sido a minha vida e, quando critico, é para que façamos sempre o melhor. Para mim, a esquerda deve sempre se sentir insatisfeita, nunca deve se acomodar e muito menos criar falas fáceis sobre problemas complexos.
Reconheço, repito, que a educação pública melhorou. Quero muito mais. E esse mais não se reduz a fazer da educação um ataque agressivo contra a Frente Popular ou contra o governador, porque a educação encontra-se, para mim, muito além da política partidária.



segunda-feira, março 05, 2007

Prefeitura de Rio Branco e a Língua Portuguesa

De Freud Antunes

Representantes da Prefeitura de Rio Branco e das 66 escolas de ensino fundamental estiveram reunidos no auditório da Secretaria Estadual de Educação (SEE) na manhã de ontem para discutir a aplicação de uma avaliação para os estudantes de 2a a 4a séries.
O objetivo do teste é verificar o nível de escrita e de leitura dos alunos de toda a zona urbana, identificando os jovens que ainda são analfabetos.
Segundo a técnica da equipe de ensino da Secretaria Municipal de Educação (Seme), Adelaide Costa, a avaliação deverá medir o grau de conhecimento dos estudantes, propondo a melhoria do ensino da Língua Portuguesa.
“Vamos verificar se os alunos aprenderam a ler e a escrever, identificando os problemas que causaram o analfabetismo. Com isso, poderemos traçar planos para uma melhor aprendizagem”, explicou.
Para isso, os técnicos e os professores terão que aplicar testes com perguntas básicas a todos os estudantes, podendo avaliar a capacidade de leitura, interpretação do texto e escrita.
“Assim, poderemos analisar caso a caso, podendo propor ações voltadas para cada escola, tudo de forma individual”, disse Adelaide.
As mudanças no ensino não representarão modificações no projeto pedagógico escolhido pelo sistema público de educação, mas pretende identificar os problemas de analfabetismo ainda no começo do ano.
“Não haverá mudanças nas formas pedagógicas. Queremos apenas tratar os casos no início do ano letivo, fazendo com que 100% desses alunos possam aprender a ler e a escrever até o final do ano”, detalhou a técnica.

Sobre o texto do universitário

Não me apego a nomes, mas, nesse caso, a instituições. Quando um aluno está no 7o período e escreve dessa forma, a única responsável é a instituição. Jornalista tem a obrigação de escrever muito bem e de ter uma cultura plural.
Quanto aos erros publicados na TRIBUNA, eles ocorrem, porém, ainda sim, consigo diminuir a margem de erro. Queria diminuir mais essa margem, mas, para isso, é preciso haver um trabalho de equipe na Redação.
Apresentei uma proposta ao proprietário do jornal, o senhor Assem: uma vez por semana, pela manhã, revisor e repórteres dialogarem sobre o que é escrito.
Para uma primeira etapa desse diálogo, registrei alguns erros mais comuns a fim de que sejam evitados. Precisamos padronizar o texto da TRIBUNA em alguns aspectos.
Busco dar minha contribuição, mas também é preciso haver a boa vontade de outras pessoas para que A TRIBUNA tenha o melhor texto entre os jornais acreanos.
É preciso haver trabalho de equipe. Por exemplo, penso que "foca" deveria estar ao lado do revisor para observar as correções em seu próprio texto.

sexta-feira, março 02, 2007

Não leia, por favor!!!

Houve um tempo em que eu publicava o nome em meu blog. Parei. Hoje, não publico os nomes dos repórteres e nem das instituições de ensino. Preservamos a identidade, mas não poderia deixar de publicar aqui parte de um texto escrito por um universitário.

No sétimo período, não sei o que seus professores lhe ensinaram para que ele produzisse o texto abaixo. É uma vergonha para o Estado colocar no mercado de trabalho profissionais que só contam de 1 até 5 e soletram de A até C.

Os alunos deveriam exigir de seus professores a absoluta qualidade, mas são os primeiros que rejeitam as cobranças. O resultado nos espanta aqui.

Um acadêmica observação:
antes de produzir matérias, o universitário, quando estagiasse, deveria, primeiro, corrigir textos dos jornalistas para, depois, somente depois, produzir seu próprio texto.
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"Circo Portugal trás também o fantástico Globo da morte com a apresentação de 5 motos simultaneamente os únicos em toda a América Latina a executar tal apresentação e os mesmos giram no Globo a uma velocidade de 80 a 100 Km por hora.

O circo tem hoje uma das Melhores estruturas para dar conforto e segurança ao publico as arquibancadas foram trocadas por cadeiras e camarotes.Existem também uma praça de alimentação diversificada na entrada do circo.
Circo Portugual nasceu em Portugual mais precisamente na cidade de Braga e tudo começou no cassino de Estoril e a Família Portugual já esta na sua sexta geração e a base da empresa é na cidade de Brasília e entre os artistas e funcionários tem um total de 120 pessoas sendo destes 30 artistas com 16 mulheres.
A ultima apresentação do circo Portugal antes de Rio Branco foi nas cidades de Campo Grande (MS),Rondonópolis (MT) , Cuiabá (MT) e por ultimo na Cidade de Porto Velho o circo deverá permanecer na cidade pelo menos uns 20 dias, por isso não percão."
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Se fosse um médico muito mal formado, cadáveres espalhariam-se pelas ruas. Como é educação, como o corpo é a palavra, não sentimos o odor desagradável.

Amazônia: de Galvez a Chico Mendes







Não conheço nenhum abismo ou penhasco na Floresta Amazônica, mas a Glória Perez colocou a audiência de sua minissérie em queda livre.

Os números são inferiores à minissérie JK. Sua audiência não se compara às cenas de Hoje é Dia de Maria.
Amazônia: de Galvez e Chico Mendes despenca na audiência como O Clone e América.
O que fazer? Uma microssérie estreará em julho, é A Pedra do Reino, dirigida pela inteligência sensível dele, o mesmo diretor de Lavoura Arcaica e Hoje é Dia de Maria, sim, ele: Luiz Fernando Carvalho. Luiz baseia-se no texto de Ariano Suassuna.
Muito oposto à proposta estética de Glória Perez e de Marcos Schechtman (foto à esquerda), Luiz Fernando é senhor de um trabalho artesanal, imaginário. É como ele mesmo diz.
"O desafio é manter o mistério, a ambigüidade, o diálogo entre o que você vê e o que não vê. O desafio é diminuir a alta definição."
Abaixo, um texto de
_Carla__Neves________
Apesar de contar de maneira interessante a pouco conhecida História do Acre, a trama de Glória Perez peca pelas cenas previsíveis e pela escassez de cenários. Não se nota ousadia na câmara e na edição. O diretor Marcos Schechtman sempre opta pelos enquadramentos mais óbvios.
Além disso, muitas vezes, nota-se uma falta de fidelidade histórica, principalmente no que diz respeito aos seringueiros. Eles defendem posições política e ecológica impensáveis para o período histórico retratado na trama.
Em contrapartida, Amazônia prende a atenção através da minuciosa produção de arte e da maneira detalhada de retratar os contrastes sociais nos áureos tempos da extração da borracha. Outro acerto da minissérie está em reunir um elenco experiente, lindas paisagens da Amazônia, um figurino impecável e uma dosagem perfeita de ficção e realidade.
A escalação de José de Abreu e José Wilker foi acertada. Ao lado de Christianne Torloni, que encarna a espanhola Maria Alonso, Wilker está primoroso como o engajado Galvez. José de Abreu, por sua vez, esbanja segurança como o autoritário coronel Firmino. São bem verossímeis as cenas em que o ácido dono de seringal maltrata os seus colonos.
Débora Bloch também constrói uma agradável Beatriz, que decide ir para Manaus morar com a irmã, dizendo a todos que ficou viúva. A atriz está tão bem na minissérie que, até sem falar, consegue se expressar melhor do que muitos dos seus colegas de elenco. O mais surpreendente, porém, tem sido o grande desempenho de Jackson Antunes como Bastião, que encarna um nordestino que migra para o Acre na tentativa de ganhar dinheiro com a extração do látex.
A atuação de Regina Casé é de idêntico acerto. Como a impagável parteira Maria Ninfa, a atriz consegue divertir o público. É impressionante a maneira como ela torna engraçadas as situações mais miseráveis da minissérie.
Assim como Regina Casé, Antônio Calloni tem feito bonito como o Padre José, inspirado em uma figura real e muito querida pelo povo acreano. O ator acertou em cheio ao abandonar o seu insosso Gustavo, de Páginas da Vida, para se dedicar à composição do padre que faz partos, distribui remédios e conselhos e adora contar histórias mirabolantes para os seringueiros.
Nem a mudança de horário, que tem aborrecido alguns admiradores da minissérie que odeiam o Big Brother, e tampouco uma certa idilização da saga da borracha, ofuscam o brilho da trama de Glória Perez, tão envolvente que vale a pena esperá-la. Mesmo que seja até tarde da noite.

Sobre violência

A razão distorcida
Crítico comenta artigo do filósofo Renato Janine Ribeiro
publicado no Mais! de 18/2, sobre a violência no Brasil

ANDREA LOMBARDI
ESPECIAL PARA A FOLHA

S ou estrangeiro. Há 25 anos resolvi morar no Brasil, por achar que aqui o convívio era decididamente mais tolerante, menos carrancudo e mais leve do que na velha Europa. Confesso que, nesse meio tempo, nunca tinha lido um acúmulo de idéias tão corriqueiras, brutais e potencialmente perigosas como as contidas no artigo do Renato Janine Ribeiro (Mais! de 18/2), com outros textos, escritos para debater o ínico e monstruoso crime, que levou a vida do menino João, no Rio.
Confesso que estava esperando uma reação irracional, daquele Brasil profundo e recalcado: uma defesa de medidas extremas. Confesso que imaginava (há um certo tempo) que alguém viria a ocupar o lugar de uma extrema direita, que no Brasil nunca teve a coagem de se apresentar de forma explícita, legítimos continuadores de uma tradição que havia antes do golpe de 64. Fiquei surpreso e, sinceramente indignado, pois o texto do Ribeiro nas entrelinhas pode levar à incitação ao crime ("Quando penso que desses infanticidas, os próprios colegas da prisão se livrarão, confesso sentir um consolo").
Sou professor numa universidade pública (fui e sou ainda colega de Ribeiro). Mas, se ser intelectual resultar em algo parecido ao que alega em seu texto, vou preferir abdicar de minha profissão. Pois o papel do intelectual, em minha opinião, é apontar para um caminho na literatura e na leitura, que é o contrário ao corriqueiro e ao banal. Existe uma ética na leitura, que defendo, pela qual os leitores (sejam docentes, recém-alfabetizados ou alunos, sejam amadores ou apaixonados) devem exercer sua responsabilidade sempre e novamente, tentando decifrar no texto o que está escrito e o que está nas entrelinhas, o que é evidente e o que é recôndito, o que é banal e o que é novo e criativo e o que, a partir do texto, em nova leitura se possa dizer.
O leitor deve ser sempre como um regente de uma partitura: criativo e atento, apaixonado e cuidadoso. A sensibilidade e a razão (distorcidas no artigo em questão) devem estar a serviço de uma leitura nova e original, que defenda e abra sempre mais novos espaços de liberdade (alguns o chamaram de livre-arbítrio, e essa definição parece ter vingado, pelo menos na letra). Considero-me um simples leitor, e a leitura que Ribeiro fez do episódio resulta numa acúmulo de banalidades e patentes inverdades, desmontando a aura de intelectual que reivindica, fornecendo suas munições a um movimento realmente reacionário, de justiceiros, de cegos vingadores (o que vai pensar dessas idéias um aluno de um curso de ética?).
Aponto três aspectos, dos tantos problemáticos, do texto. 1. No texto há um apelo a Deus, blasfemo para um crente, paradoxal e oportunista para um intelectual iluminista. 2. Reitera-se uma posição brutal e perigosa, que parte da defesa da pena de morte, para conclamar a fatos e iniciativas mais graves: "Se não defendo a pena de morte é apenas por que acho que é pouco". "(Eles) deveriam ter uma morte hedionda." "Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga." 3. Entre as inverdades brilha: "Não vejo diferença entre eles e os nazistas". Os nazistas optavam pelo mal, como esses assassinos. "Sei que os pobres são honestos, mais até que os ricos". "O que vivemos não é diferente do nazismo".
Revisão das idéias Eu, como muitos, respeitava e gostava de Ribeiro. Respeito também que possa ter revisto suas próprias idéias, mas julgo prudente lembrar que um obscuro jornalista socialista na Itália resolveu inventar a mais modernas das ditaduras reacionárias. E que havia um banal pintor de paisagens, na Áustria, que se tornou o realizador de uma imensa arquitetura da destruição.
Respondo aqui à última das afirmações do texto, por sentir-me diretamente atingido, pois sou de origem judaica e acredito ser o dever de todos esclarecer as condições em que o nazismo e o fascismo nasceram e proliferaram. Uma dessas condições foi a queima dos livros, real e metafórica, o apelo a reações irracionais contra a tradição humanista e erudita da Alemanha e da Europa.
O nazismo foi uma ditadura (não uma iniciativa de um homem do mal), que cristalizou de forma monstruosa os sentimentos de medo contra o desemprego, contra a criatividade artísticas desenfreiada das vanguardas e de medo contra o apelo à oralidade e à liberdade do leitor, numa nova versão do antisemitismo. A violência crônica e brutal contra o pobre menino é provavelmente expressão de uma doença crônica, que convive com essa nossa sociedade contemporânea, em suas entrelinhas ou em suas entranhas.
É pensando na patologia desses casos que devem ser tratados que se justifica uma reação da sociedade, utilizando-se de instrumentos específicos e o bom senso, como o psicanalista Renato Mezan, sensatamente sugere, em seu artigo publicado na mesma edição do Mais!. Pois essa nossa sociedade proclama a felicidade e vive a neurose, almeja a paz dos sentidos e não consegue vencer o medo, a angústia e o pânico. Mas os cidadãos comuns trancados e queimados pelo tráfico no Rio no final de 2006, o índio queimado há alguns anos em Brasília e os linchamentos são um triste primado do Brasil e expressão de intolerância profunda.
São índices de uma violência que sempre existiu (leia-se "Totem e Tabu" [de Freud] ou qualquer estatística sobre estupros e violência doméstica para ter uma confirmação). Não há solução "final" para o problema da violência (nem para qualquer outro problema, mesmo social). Lutar para diminuir a idade penal e defender a instituição da pena de morte mostram unicamente a dependência do mais corriqueiro e brutal senso comum, o contrário do bom senso. Essa sociedade esconde a doença com toda a gama de antidepressivos liderados pelo Prozac e seus derivados.
As palavras de Ribeiro soam como o equivalente ao Viagra, feito para mostrar mais roxo do que é realmente e revelam que a idade e a preparação intelectual não necessariamente trazem sabedoria. Não me sinto mais tão estrangeiro, não tenho certeza de que quero ser considerado um intelectual ou um professor, mas sinto-me tão humanista e ligado à ética quanto quando cheguei. Escolhi o Brasil, há quase um quarto de século, por ser mais tolerante, mais aberto do que a velha Itália. Hoje quero defender essa escolha.
Penso que contra a violência, contra a pena de morte, contra a corrupção que autoriza descrença, desengajamento, hipocrisia e cinismo, é necessário retomar uma atitude inconformada. Ou melhor: rebelde. Fazendo, talvez, como fizeram, há alguns anos, os ambientalistas no Rio, que com um gesto simpático, abraçaram a Lagoa de Freitas. Declarando talvez como há 50 anos o fazia veementemente o fundador do situacionismo -Guy Debord- ou [o cineasta] Pasolini, seu inconformismo com a sociedade do bem-estar e da apatia. Protestando como em 1968, com milhões de jovens no mundo inteiro, para chegar a gritar hoje (talvez?): "O bom senso ao poder" que ecoa o "poder da imaginação" de então. Qualquer coisa, menos a indiferença pós-moderna, como escreveu um autêntico intelectual carioca.
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ANDREA LOMBARDI é professor de língua e literatura italianas na Universidade Federal do RJ e membro da pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Ronda Gramatical

“Trata-se de um projeto de lei que, apesar das polêmicas, está sendo defendido em nível nacional. Em Rio Branco, já apresentamos o anti-projeto que, certamente, neste ano, o prefeito Raimundo Angelim enviará para votação. Para isso, precisamos estar de posse de todas as informações sobre a real necessidade dessa prorrogação”, defendeu a vereadora.
  1. Fragmento de um texto de "açeçor de gabineti"; e
  2. As vírgulas não estavam assim.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Nudez Carioca





Para muito além da criminalidade de minha cidade, o Rio de Janeiro possui lugares lindos. Um deles, praia do Abricó (marcada). Aqui, andamos nus. Ela localiza-se depois do Recreio, depois da praia da Macumba.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Língua Portuguesa, um problema muito sério no ensino médio acreano

Foto da sala da José Rodrigues Leite, a primeira escola do Enem de 2006 entre as escolas públicas do Acre.
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De Aldo Nascimento

Propaga-se que o ensino público acreano escreve bem na lousa. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) apagou essa idéia. O Ministério da Educação, por meio de pesquisa, reconhece: o ensino de Língua Portuguesa no Brasil é insatisfatório em sala de aula.

Se os índices nacionais não são bons nem para o Ministério da Educação, como poderiam propagar no Acre que as escolas do ensino médio escrevem bem no quadro-negro? Ainda que a Frente Popular tenha iniciado um processo de transformação na rede pública, não estamos nos céus. Há imperfeições nesta terra avaliada pelo Enem.

Enem – 0 a 100 pontos
Em 2005, os alunos brasileiros conseguiram 39.41 na prova objetiva e 55.96 na prova de redação. No Acre, os estudantes pontuaram 31.96 na prova objetiva e 50.21 na redação.
Em 2006, a média diminuiu. O país recebeu 34.94 na prova objetiva e 51.23 na prova de redação. As escolas estaduais acreanas ficaram com 30.27 na objetiva e com 47.10 pontos na redação.
Por causa desses números, o ensino estadual acreano no Enem de 2005 obteve entre os Estados a 24ª posição na prova objetiva e a 26ª em redação. Em 2006, o Acre não saiu do 24º lugar, mas subiu para o 23º na prova de redação.
Comparada às outras regiões, o Norte tem a menor média do Enem tanto em 2005 quanto em 2006, sendo, portanto, a região que puxa para baixo a média nacional.

Prova-Brasil
Em outra pesquisa do Ministério da Educação, o Prova-Brasil, o Estado do Acre deixou a Língua Portuguesa da 4ª série do ensino fundamental em uma boa posição, a 11ª. No entanto, na 8ª série, na mesma disciplina, o Estado caiu para o 16º lugar.
Entre as capitais, a Língua Portuguesa da 4ª série em Rio Branco está no 8ª lugar e, na 8ª série do ensino fundamental, ocupa o 15º lugar.

Saeb
No Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb), os números favorecem o Estado quando os alunos escrevem na 4ª série (9ª lugar) e na 8ª série (9º lugar). Entretanto, a Língua Portuguesa escreve e lê muito mal no 3º ano do ensino médio, deixando a terra da escritora Glória Perez na 17ª posição.
Mesmo assim, o Acre puxa para cima, segundo o Saeb, os números da região Norte embora o Ministério da Educação reconheça, por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que cerca de 59% de estudantes de todo o Brasil em Língua Portuguesa distribuam-se entre os estágios muito crítico e crítico na 4ª série. Na 8ª série, a situação do Brasil torna-se pior: apenas 10% dos estudantes estão no estágio considerado adequado.

Ensino médio
O ponto crítico encontra-se no ensino médio. Nessa fase escolar, o Enem e o Saeb reprovaram não só Acre em Língua Portuguesa, mas a própria média nacional. Nas escolas públicas do Estado, os alunos não lêem sequer um livro em sala de aula durante os três anos do ensino médio, e as aulas de Redação dependem da vontade do professor.
Para a Saeb, a situação crítica de Língua Portuguesa é quando o aluno ainda não é bom leitor. Apresenta algumas habilidades de leitura, mas aquém das exigidas para a série - lê apenas textos narrativos e informativos simples. É o caso do Acre.

Qualidade de ensino
Acreditava-se que, pagando melhor ao professor, haveria qualidade de ensino. Com especialização e há dez anos no Estado, um professor recebe por mês, lecionando 20 horas semanais, R$ 1.570, líquido. O salário não chega a ser ruim, mas não representa a grandeza de educar e muito menos qualidade de ensino. Não há relação direta entre bons salários e boas aulas.
Nos cursos de pré-vestibular, poucos desejam ser professor, o salário não compensa. “Os políticos falam tanto sobre valorizar o professor, mas eles continuam a receber pouco pelo que a educação vale para uma nação”, disse Simony, estudante do pré- vestibular Ideal e deseja cursar medicina na Universidade Federal do Acre.
E se um professor recebesse igual a um médico? A Simony poderia mudar até sua opção no vestibular, mas seus alunos do ensino médio teriam um ótimo desempenho no Enem?
Qualidade de ensino significa um conjunto de ações. Uma delas, administração escolar. Quem conhece a gestão escolar pública sabe que há falhas e uma dessas falhas inicia-se pelo processo democrático, que tem sido incapaz de votar em ótimos candidatos para que eles administrem muito bem as escolas.
Ainda se vota em candidato a gestor de escola como ato nocivo ao bem público, por exemplo, troca de favores, simpatia, cor partidária. Alguns defendem que, para ser gestor, a pessoa deveria ser formada em administração. E mais. Uma vez formada, deveria se submeter a um concurso público.
“Eu já presenciei várias eleições na minha escola e sei o quanto a democracia escolar é corrupta, os alunos votam sem saber o que é escola, votam porque esse é simpático, aquele é antipático, votam porque esse tem as cores partidárias”, observa a professora Fátima (o nome é fictício a fim de não comprometer a educadora).

Ainda a qualidade
Daniele, de 24 anos, estudou na escola Heloísa Mourão Marques há alguns anos. Ela revela que, quando estava no 3º ano do ensino médio, uma professora de História pediu para que os alunos desenhassem e pintassem um índio.
“Não é mentira, é um absurdo, mas uma professora fez isso em sala, porque era o Dia do Índio”, e conclui. “Professor fazia o que queria e o que não queria em sala. Para você ter uma idéia, certa vez, um colega meu faltou muito, mais de 75% de falta, mas, mesmo assim, passou de ano com 9 e 10.”
A Lei 1.513, de 11 de novembro de 2003, apresenta equívocos, e um deles lê-se em seu capítulo 3, sobre a organização da gestão escolar. Esse capítulo admite somente os conselhos escolares como estrutura, mas essa estrutura tem sido insuficiente para qualificar o ensino. Não pode haver qualidade se, também, não houver uma nova estrutura escolar. Na escola Heloísa Mourão Marques, criaram-se os conselhos de disciplina e de turma.
“No ano passado, minha área se reuniu aos sábados e delimitou algumas idéias em conjunto. Como não são possíveis encontros de áreas na semana, porque a chamada folga não contempla todos os professores, nós trabalhamos no sábado enquanto área a fim de refletir sobre problemas e soluções na disciplina de Matemática”, argumenta o professor Gleidson.
Como pode haver qualidade de ensino se os próprios professores de área não se encontram para definir critérios que exigem qualidade, por exemplo, no processo avaliativo?
Hoje, com a atual estrutura escolar, cobra-se, e mal, individualmente do professor, o que é um erro. A cobrança não deve ser sobre o indivíduo, mas sobre as áreas, as disciplinas, mas, para tanto, a Lei 1.513 precisa ser alterada.

José Rodrigues Alves. - Presente, professora!
Uma escola pública tem contribuído para que o Acre obtenha uma pontuação melhor no ensino médio. No Enem de 2006, ela tirou 33.60 pontos na prova objetiva e 43.94 na prova de redação, ficando na quarta posição, atrás somente das particulares: Meta (53.37), Lato Sensu (52.73) e Instituto Imaculada Conceição (50.46). Essa escola, a Prof. José Rodrigues Leite, conhecida como Etca, mantém-se, mais uma vez, acima das escolas estaduais.
Na entrada da escola, uma faixa informa que 42 alunos do José Rodrigues Alves passaram no vestibular da Universidade Federal do Acre (Ufac). “Somos a escola que mais coloca alunos na Ufac”, observa o gestor da escola, prof. João de Souza Lima. No corredor, um painel expõe as fotos dos alunos que chegaram às suas respectivas faculdades. Faixa e painel: isso mostra que essa instituição pública reconhece o mérito de seus alunos.
Pode haver uma escola sem cobrança, sem ordem, sem disciplina? Para obter bons resultados, a José Rodrigues Leite exige dos professores e dos alunos e quem não consegue se adequar sai automaticamente. Há professores que não suportam e vão embora.
Alunos de outras escolas públicas também saem muito não da escola, mas da sala de aula para ficar pelos corredores, isso quando não pulam os muros.
“Menos em minha escola, ninguém aqui fica pelos corredores”, compara. “Sou um gestor muito presente, cobro muito de mim para, depois, cobrar do corpo docente e do corpo discente, além de cobrar dos funcionários de apoio.”

Conselhos
Mas a escola José Rodrigues Leite não se difere quando o assunto é Coordenação de Ensino. Como outras, a coordenação cobra individualmente do professor o conteúdo da disciplina. Não há reuniões de área. Cada um faz seu trabalho. “O planejamento pedagógico em nossa escola se realiza duas vezes por ano, uma vez em cada semestre”.
Não há encontros semanais entre os professores de Língua Portuguesa ou de Matemática para que eles possam criar um trabalho conjunto. O tempo para planejamento pedagógico, tão reivindicado no passado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sinteac), transformou-se em dia de “folga”. Argumenta-se que durante a semana não há condições de marcar encontro entre professores da mesma área.
Também não há conselhos de turma. Professores e representantes dos alunos não se reúnem para solucionar problemas da classe. Tudo se concentra em torno da coordenação.

O ensino médio melhorou?
Para o diretor João Lima, a política educacional da Frente Popular não conseguiu qualificar o ensino médio em oito anos.
“O que há são pontos isolados. Se o diretor está na escola, a escola funciona; se não está, a escola não funciona”, e o professor João ressalta. “Educação não é para oito anos, mas para 30 anos”.
E os diretores não são cobrados? João Lima responde que não são.
Na Lei 1.513, de 11 de novembro de 2003, o artigo 33º obriga o diretor a prestar contas semestralmente para a comunidade escolar, mas, como afirma o professor João, não há fiscalização.
“Para você ter uma idéia, há escolas que estão sendo reformadas novamente em pouco tempo, porque o diretor não preserva o patrimônio público e muito menos é cobrado a preservá-lo”, e ele continua. “Se um DVD some na escola, se uma TV é furtada, é preciso que alguém faça uma queixa-crime na delegacia, porque, como não existe lei para punir esse diretor irresponsável e muito menos existe fiscalização da Secretaria de Educação, o DVD ou a TV só retornarão à escola se um novo diretor agir”.
Em muitas escolas públicas, objetos “somem” e os diretores não são obrigados a pagar o que foi “retirado” em sua gestão, deixando para o próximo diretor, se esse assim quiser, a responsabilidade de recuperar TVs, DVDs, aparelhos de som. Na José Rodrigues Leite, não há uma carteira rabiscada. O patrimônio público, preservado.
Mas o maior furto que ocorre nas escolas públicas do ensino médio, como mostrou o Enem, é “meter a mão” na qualidade de ensino. Para o diretor do José Rodrigues Leite, enquanto o interesse político se mantiver soberbo acima do interesse educacional, as escolas públicas de ensino médio não apresentarão índices satisfatórios de qualidade. “Cobrou-se muito de quem não era do grupo político, e isso, creio, não poderá mais haver”, finaliza. “O poder público tem que pagar melhor a quem trabalha melhor, porque há funcionários públicos que, mesmo pagando para trabalhar, dão prejuízos à sociedade, ao Estado”.