segunda-feira, março 12, 2012

Leitura em sala de Cruz e Sousa



Nesta semana, iniciei análise da poesia "Grande amor", de Cruz e Sousa. Poderia ter ofertado outros versos desse  poeta negro, mas permaneci com esses versos.

"Grande amor", tratando-se de leitura, é um texto dificílimo. Hoje, começamos com os dois primeiros versos da primeira estrofe.

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...

Para compreender, é preciso colocar na ordem sintática direta (sujeito + verbo + complemento) porque, além de compreender a leitura, o aluno saberá que a sintaxe dele na redação precisa de organização.

Para colocar na ordem, ele deve encontrar o verbo, no caso, "enlaça". Quais termos recebem ação do verbo? Grande mistério.

Alunos disseram que o sujeito é "as nossas almas". Expliquei então que o verbo está no singular, ou seja, não concorda com "as nossas almas", plural.

Dito isso, a ordem ficou "grande mistério enlaça as nossas almas trêmulas". Esse exercício de colocar na ordem sintática direta é uma forma de o aluno perceber a relação interna entre os termos sintáticos.

Colocado o verso na ordem, é preciso refletir sobre a palavra. Mais: sobre conceito. Qual o sentido do "mistério"? O aluno pode ir ao dicionário, mas o dicionário não basta, é preciso situar a palavra na vida, na realidade social. Onde "mistério" surge mais na sociedade?

Qual o sentido do verbo "enlaça"? Qual o sentido de "alma"? Qual a relação de "trêmulas" com outros termos em outros versos?  Qual o sentido de 
"trêmulas"?

domingo, março 11, 2012

Prova diagnóstica

Todo ano, a Secretaria de Educação do Acre exige que as escolas submetam seus alunos a uma prova diagnóstica para que o professor saiba a real situação do corpo discente em cada disciplina.

A ideia é boa.

Neste ano, a minha prova diagnóstica seguiu o caminho dos "descritores". Confesso que exige muito mais tempo para o professor corrigir e lançar os dados, mas a ideia dos descritores deve ser mantida.

De minas quatro turmas do 2º ano do ensino médio, todas, sem exceção, apresentaram menor porcentagem de acerto no "descritor 15".

Turma A (37 alunos): 3% de acerto;
Turma B (33 alunos): 6% de acerto;
Turma C (37 alunos): 8% de acerto; e
Turma D (25 alunos) 12% de acerto.

O descritor 15 indica que nossos alunos ignoram
 COERÊNCIA E COESÃO NO PROCESSAMENTO DO TEXTO, ou seja, eles não sabem estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios etc.

Um jeito de melhorar a habilidade ligada a esse descritor é propor exercícios de articulação das orações no período. Nessa situação, muitas vezes, é possível estabelecer relações lógico-discursivas unindo as mesmas orações com conjunções de diferentes significados. Assim, há a reflexão sobre a relação entre as orações e os sentidos que podem ser construídos com cada conectivo.

Identificar o descritor sem propor solução é o mesmo que identificar a doença sem propor um remédio.

Esse problema do descritor 15 é predominante porque na escola acriana não há leitura de narrativas complexas, não há refacção textual em sala de aula e não há o estudo gramatical.

As construções sintáticas de nossos alunos do ensino médio são péssimas, assemelhando-se a uma 5ª série. Eles, por exemplo, saem do ensino médio sem dominar estruturas sintáticas das subordinadas adverbiais, ignorando, com efeito, a relação entre causa e efeito, entre oração principal e oração concessiva.

Haver prova diagnóstica sem propor solução é ineficaz.
    

quinta-feira, março 08, 2012

Uma mulher esquecida


Hoje, 8 de março, um nome foi esquecido. No dia da mulher, ela jamais esteve na memória dessa data.

Jamais.

Preterida pelo feminismo de caráter marxista, suas ideias nunca estiveram nas palavras das feministas acrianas.

Nunca.

Essa mulher esquecida afirmou em 1905 que o verdadeiro trabalho é o trabalho doméstico, porque essa trabalho cria valores.

Um desses valores, ser mãe.

Alemã, ela discordava do feminismo que defendia o trabalho das mulheres nas fábricas.

Hoje, por causa dela, países desenvolvidos pagam a mulheres cujo trabalho é doméstico, para que elas eduquem seus filhos, para que deem afeto a eles.

O pensamento de Käte Schirmacher[1865-1930] fascina por estar além de seu tempo, trancafiado pelo feminismo marxista.

"História das Mulheres - O Século XX", de Georges Duby e de Michelle Perrot. As feministas acrianas deveriam lê-lo. Mais: as mulheres deveriam compreender essa mulher.

Ela está em minha memória. Não está esquecida.

    

quarta-feira, março 07, 2012

Leitura em sala de aula


Amanhã, concluirei com os alunos a leitura de "A força das palavras", da escritora e articulista Lya Luft. 

Esse texto encontra-se em um material da Secretaria de Educação do Acre.    

Ao todo, foram oito aulas. Consegui chegar à metade do texto, porque a ideia de leitura em sala de aula não significa encontrar as características do "gênero textual"; mas, segundo bons professores e bons autores de livros, desconstrução.

Em maio de 2011, a Secretaria de Educação do Acre distribuiu o "Caderno 4", um bom material para o curso de capacitação, onde está escrito na página 5:

"A informação detalhada sobre as características específicas dos gêneros é imprescindível somente para o professor. Esse tipo de conhecimento não deve se converter em aulas específicas porque não é dele que depende a possibilidade de ler e de escrever bem."

Ler na sala de aula, portanto, não é falar de gênero mas de desconstrução, sabendo que essa desconstrução relaciona-se a problemas redacionais dos alunos.

Não é a leitura em si, mas sua relação com problemas redacionais.   

Desconstrução"A Força das Palavras", de Lya Luft 

1º parágrafo
Palavras assustam mais do que fatos: às vezes é assim.

1. A aula inicia-se com essa frase-oracional. Nela, o aluno precisa retirar as palavras principais. Alguns não sabem. Eles, entretanto, devem saber que as palavras em uma frase-oracional não estão isoladas, havendo, pois, relação entre elas, ou seja, uma relação entre sujeito e predicado. Qual termo recebe informação do predicado? Quais os termos principais do predicado? Tais perguntam implicam "desmontar" a estrutura sintática. A leitura em sala é, também, gramática;
       
2. Depois da sintaxe, saber o porquê de "palavras" assustarem mais do que fatos. Para isso, esta pergunta: o que significa "fatos"? O aluno irá ao dicionário; porém, em minhas aulas, o dicionário não basta, porque é preciso criar uma imagem para a palavra, uma cena, uma relação com a vida. Dada as respostas para "fatos", o significado oposto de "palavras". E assustar?;

3. Após isso, explico o uso de dois pontos.   

2º parágrafo
Descobri isso quando as pessoas discutiam e lançavam palavras como dardos sobre a mesa de jantar. Nessa época, meus olhos mal alcançavam o tampo da mesa e o mundo dos adultos me parecia fascinante. O meu era demais limitado por horários que tinham de ser obedecidos (por que criança tinha de dormir tão cedo?), regras chatas (por que não correr descalça na chuva, por que não botar os pés em cima do sofá, por quê, por quê, por quê...?), e a escola era um fardo (seria tão mais divertido ficar lendo debaixo das árvores no jardim de casa...).

1. Parágrafo longo, mas só compreendo o todo por meio das partes, quais sejam, os pontos contínuos. Ponto contínuo por ponto contínuo; 

2. Nesse parágrafo, uma constância em minhas aulas: a retomada de ideias. Para tanto, o uso de "isso" indica a retomada de que ideia? Os alunos devem responder. Caso não haja resposta, eu explico;

3. Outra vez, descobrir o significado dos termos, nesse caso, discutir e lançar. Depois, entender o porquê de colocar na sequência "discutiam" e "lançavam";

4. Por que a escritora escreveu "mesa de jantar" e não "de almoço". O que a "mesa de jantar" representa? É um objeto? No ambiente da casa, ela é simbólica? Mas o que é o simbólico? Professor, onde nós nos alimentamos é "sagrado". Mas qual o sentido de sagrado? Dê-me um exemplo de a palavra ocorrendo na vida.     

4. Palavras são dardos. O que são "dardos"? Sim, mas qual o sentido de "dardos" no texto? Dadas as respostas, tarefa para casa: assistam ao filme "O carteiro e o poeta" para que me expliquem o que é linguagem figurada. Por que o filme? Porque a palavra não está em estado de dicionário; a palavra está criando ações, imagens, vida. Qual a importância da figura de linguagem na vida humana?   


Isso é desmontar o texto. Ler em sala é significado da palavra no dicionário; é o sentido da palavra na imagem, na vida; é estrutura sintática; é a relação entre as partes; é encontrar as especificações, é retomar as ideias. Isso demora.

Por causa disso, não concluí a leitura em oito aulas, e nem deveria, porque o aluno precisa realizar a sua leitura sozinho para depois submeter-se a uma prova.

O professor, primeiro, deve ser o exemplo de leitor, e o aluno deve perceber como o professor lê.

Após essa desmontagem, o aluno saberá sobre "gênero textual", no caso, "a força das palavras". Para quem escreve? Qual a característica desse gênero?      

domingo, março 04, 2012

Quando "o rio desce"

Um apresentador de tevê disse que "rio não desce", por isso é errado dizer. O correto, "o nível das águas desce".

Um programa para o povão que tenta corrigir a maneira como o povão fala, no entanto o apresentador desconhece a fala popular, que é marcada pelo desvio, pela desobediência. "O rio desce" é fala desviada. A fala popular não afirma "o nível do rio desce".


Há profissionais que só existem por causa da palavra; mas, mesmo assim, não sabem se servir da palavra. Pior: ignoram-na.

Não está errado dizer "o rio desce" porque se trata de uma figura de linguagem, porém o jornalista ignora figura de linguagem. A Língua, para esse profissional, limita-se a ser denotativa, literal, reta.

O que me causa antipatia é a mais absoluta falta de humildade para afirmar, diante de sua audiência, uma ideia errada da língua portuguesa, contribuindo para que telespectadores permaneçam na ignorância.

Figuras de Palavras

Há metáfora, catacrese, sinestesia, metonímia, sinédoque e antonomásia.

Muitas dessas figuras são metáforas, por exemplo, quando digo "a melodia de Debussy é azul", trata-se de uma sinestesia, que é um tipo de metáfora, porque relaciona elementos de universos diferentes, quais sejam: melodia e azul.

Vejamos "rio" e "nível das águas". Nível é também "altura", "a altura das águas"; nível é também "linha", "a linha das águas"; nível também é "superfície", "a superfície das águas".

Se meu raciocínio não estiver errado, entre "rio" e "nível das águas", há uma relação, mas não relação entre elementos de universos distantes, o que ocorre quando há metáfora ou símile.

Há, isso sim, uma ideia menor em uma ideia maior, isto é, "nível das águas" (parte) está em "rio" (todo). Ora, não estamos substituindo o todo pela parte? "Rio" fica no lugar de "nível".

Se uma ideia está contida na outra, estamos diante de uma sinédoque, tipo de metonímia. Segundo meu entendimento, esse caso assemelha-se a "não dá para ficar sem um teto", sabendo que "sem teto" (parte) substitui "casa" (todo).

Em um país onde salas de jantar não convivem com bibliotecas, a audiência de um Gazeta Alerta deseduca telespectadores.

"O rio desce" está correto. A maré subiu. O mar desceu (baixa-mar). O mar subiu (preamar).   

     

sexta-feira, março 02, 2012

Deixar uma lembrança

Ao mestre com carinho

Bom dia, Aldo Nascimento! 

Não sei se lembra de mim, sou uma ex-aluna sua Mirela Gomes Pinheiro-HMM, ano de 2003 e de 2004. Estou formada em Engenharia Florestal, mas não exerço a profissão. Me apaixonei pela escrita, hoje curso o último ano de jornalismo na Ufac e escrevo para o Portal Amazonia/Acre. Descobri esta paixão graças aos livros "Lavoura Arcaica" e "Cyrano" e a você.

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Que a tua escrita (des)cubra o que a aparência da realidade oculta.

Um abraço em teu destino.

Oração ao tempo, de Caetano

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

A inútil literatura


Para a Secretaria de Educação do Acre, é Deus no céu e o Enem nas escolas. Tudo agora é gênero textual, menos o texto literário.

Com questões do Enem muito mais relacionadas aos  quadrinhos e muito menos a Machado de Assis, certos professores que trabalham no setor de Língua Portuguesa da secretaria divulgaram tanto gênero textual que a Literatura passou a ser ignorada por professores.

O Enem será modificado e, até onde estou informado, haverá um currículo nacional que exigirá leitura de obras literárias.

A secretaria, até hoje, mostra-se indiferente à leitura dessas obras, mas ela, se quisesse, poderia se antecipar, determinando que alunos dos ensinos fundamental e médio lessem uma quantidade de obras literárias durante o ano.

Seriam oito obras literárias clássicas e hodiernas - quatro nacionais e quatro estrangeiras -, sendo que quatro seriam escolhidas pela secretaria e quatros, pela escola.

Dessas oito, duas, além de lidas, seriam vistas em filmes, por exemplo, "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Quatro livros por semestre: textos mais simples seriam lidos em casa e textos mais complexos, lidos pelo professor na escola.

Um problema é que nas escolas não há sala de leitura, um lugar silencioso e confortável. Ler na sala de aula não seria o mais desejado por elas serem desconfortabilíssimas.

No entanto, como a Literatura não aquece a economia, não contribui para o progresso e o desenvolvimento do estado e muito menos nos faz dançar como "sertanejo universitário", tudo fica como está.  

       
 

quinta-feira, março 01, 2012

Escola atrativa é aluno teclando computador e professor pesquisando no Google


"Escolas têm que ficar mais atrativas como alternativa à evasão escolar", diz Mercadante



Paula Laboissière
Da Agência Brasil, em Brasília

Ao comentar a decisão de distribuir tablets para professores do ensino médio na rede pública, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse hoje (1º) que as escolas precisam ficar mais atrativas para os alunos e que investir nesse tipo de tecnologia pode ser uma alternativa à evasão escolar.


“A escola tem que ficar mais interessante”, ressaltou, explicando que o mercado de trabalho aquecido do país se torna grande atrativo para que os jovens deixem a escola. “A geração nova quer essas informações. Não dá para a gente ficar só com o quadro-negro do século 17”, completou.



Ao participar do programa Bom Dia, Ministro, produzido pela EBC Serviços em parceria com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Mercadante lembrou que 320 mil professores já foram qualificados por meio de cursos de formação para utilizar o tablet. O próximo curso, segundo ele, deve ter  carga horária de 350 horas.



“Essa luta eu já comprei – vamos ter computadores na escola. O professor vai ter todas as chances de se modernizar se quiser”, disse. “Impensável, no século 21, é ter um professor que não pode entrar no Google”, concluiu.
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Para o ministro, escola atrativa é escola com tablete
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E os "netebuques" para os alunos do terceiro ano das escolas acrianas? O então ministro da Ciência e Tecnologia esteve no Acre para presenciar a entrega das máquinas.

Elas nem funcionam em sala de aula porque não havia tomada suficiente e, além disso, a bateria não passava de três horas. Genial. É o modo petista de governar. 

Você acha que existe qualidade de língua portuguesa só por causa de computador em sala de aula?

Para a escola pública ficar atrativa, ministro, é preciso construir parque de diversão.

Mercadante é uma piada educacional de mau gosto.

Escrever e reescrever


Aluno do segundo ano do ensino médio,
ele escreveu o seu desenvolvimento 2 desta forma.


Desenvolvimento 2
Nos dias atuais a internet vem sendo usada para todos os fins, afinal apenas uma mínima percentagem de pessoas ainda não possuem esse benefício, com as redes de wi-fi fica bem mais fácil que pessoas com baixa renda possam acessar, afinal, basta eles irém em um posto governamental que lá terão o acesso a internet gratuitamente.


Antes da Reconstrução, duas breves observações óbvias


1. Antes de qualquer refacção textual, primeiro: se o professor leciona para 10 turmas e se existem 39 alunos em cada turma, forme grupos com três alunos. Assim, no lugar de 390 redações, o professor corrigirá 130. Se os políticos não reduzem o número de alunos na sala de uma escola pública, não será o professor que, recebendo bem menos do que um deputado vagabundo, tipo de parasita que nunca apresentou um projeto de lei para qualificar o ensino, dedicará seu tempo a cada aluno que produziu um texto, porque é humanamente impossível; e


2. Não corrija em casa, porque você não recebe para levar trabalho para o seu lar. Não se esqueça: você não passa de um professor, um elemento desvalorizado por governador, por deputados estaduais, por prefeito, por vereadores e por sindicatos. Até uma puta cobra pela hora extra. Que o método de correção seja em sala de aula.


Reconstrução 1:


1. Antes de mais nada, colocar na ordem sintática o texto e, para tanto, ensinar o aluno do ensino médio a colocar o ponto contínuo, ou seja, ele deve saber onde começa e onde se conclui uma ideia;


2. Para saber onde começa e onde termina a ideia, o aluno precisa estabelecer uma relação entre sujeito (recebe a informação do predicado) e o predicado (dá informação ao sujeito). Para isso, o aluno precisa aprender a encontrar o verbo.


3. Ponto contínuo 1:


Nos dias atuais a internet vem sendo usada para todos os fins. (1) Afinal apenas uma mínima percentagem de pessoas ainda não possuem esse benefício. (2) 


Obs. 1: Penso que o aluno deve colocar o ponto contínuo em cada frase-oracional, isto é, havendo um verbo com ou sem o seu complemento, havendo uma ideia terminada, coloca-se o ponto contínuo;


Obs. 2: Qual relação entre "internet usada para todos os fins" e "pessoas não possuem internet"? O uso de "afinal" não é o adequado. Mostra-se ao aluno então o uso correto de "afinal";


Obs. 3: Se a internete é usada para todos os fins, subentende-se que ela é boa e, se é boa, deveria ser usada por todos mas não é.  Há, portanto, uma contradição, devendo ser usado o "porém" e seus correlatos;


Reconstrução 2:
1. Nos dias atuais a internet vem sendo usada para todos os fins, porém apenas uma mínima percentagem de pessoas ainda não possuem esse benefício;
2. Nos dias atuais a internet vem sendo usada para todos os fins, entretanto apenas uma mínima percentagem de pessoas ainda não possuem esse benefício;
3. Nos dias atuais a internet vem sendo usada para todos os fins; apenas uma mínima percentagem de pessoas, todavia, ainda não possuem esse benefício.


Obs. 1: O aluno deve ter acesso a várias formas de escrever o mesmo conteúdo porque a forma é tão importante quanto o recheio.   Como sabemos, predomina o uso do "mas" entre os alunos, quer dizer, predomina uma forma fixa na relação entre duas frases-oracionais;


Obs. 2: Como o uso da vírgula é fundamental e foi logo colocada na Reconstrução 2, o aluno deve entendê-la, por exemplo, depois de "nos dias atuais" e antes de "a internet".


Obs. 3: Além disso, como é muito comum o aluno escrever "vem sendo usada", pede-se uma construção com uma só palavra, exigindo dele uma escrita com menos palavras, ficando assim a


Reconstrução 3:


Nos dias atuais, usa-se a internet para todos os fins; apenas uma mínima percentagem de pessoas, no entanto, ainda não possuem esse benefício.  

Obs. 1: Ainda somente na primeira frase-oracional, o aluno deve escrever "internete" porque o professor Celso Pedro Luft registra e explica o porquê;


Obs. 2: A frase "apenas uma mínima percentagem de pessoas" pode ser substituída por "uma minoria". Isso deve ser muito bem explicado;


Obs. 3: O verbo "possuir" deve estar no singular porque ele concorda com a palavra principal do sujeito, o núcleo, no caso, "percentagem". Entendido isso, escreve-se "uma minoria". Depois disso, eis a


Reconstrução 4:


Nos dias atuais, usa-se a internete para todos os fins; uma minoria, no entanto, não possui esse benefício.

Obs. 1: Por ser muito usado, retira-se "nos dias atuais". Você  tem alguma sugestão?

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O nível das águas. O nível de ensino

 Com o nível das águas retornando ao

normal, a Rio Branco que mora à margem do rio Acre emerge aos poucos; dois problemas, entretanto, permanecem submersos na falta de solução: leitura e escrita na escola pública.

Na alagação, diferente das chuvas de Petrópolis, Rio de Janeiro, onde morreram mais de mil pessoas, a natureza no Acre causa danos materiais.

E qual dano causa não saber ler e nem escrever bem para alunos de uma classe social?

Leitura
Ler em sala significa desconstruir o texto, apresentando ao aluno sua organização interna e seu sentido. Após corrigir as redações de duas turmas do segundo ano do ensino médio, constata-se que nenhum aluno entendeu a proposta do Enem de 2011.  Eles não souberam ler.

Escrita
Refazer texto em sala é tarefa árdua, devendo começar pelo parágrafo e, uma vez no parágrafo, analisar frase-oracional por frase-oracional para colocar o devido ponto contínuo. Durante um longo período, a escola pública não soube ensinar o aluno a colocar pontos contínuos e vírgulas.

E ainda propagou-se nas escolas que professor de Língua Portuguesa não precisa ensinar gramática de forma isolada, mas ensiná-la só no texto. Trata-se de um engano, porque é preciso ensinar no texto e também de forma tradicional por motivos óbvios.

O nível das águas estão baixando. O nível da qualidade de escrita e leitura nas escolas públicas acrianas continua muito baixo.



 

                     

         

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Seja professor




1.451

O Ministério da Educação 
divulgou na tarde desta segunda-feira (27) que o piso salarial nacional dos professores será reajustado em 22,22% e seu valor passa a ser de R$ 1.451,00 como remuneração mínima do professor de nível médio e jornada de 40 horas semanais. A decisão é retroativa para 1º de janeiro deste ano.Segundo o MEC, a correção reflete a variação ocorrida no valor anual mínimo por aluno definido nacionalmente no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) de 2011, em relação ao valor de 2010. O piso aplicado em 2011 foi de R$ 1.187, e em 2010, de R$ 1.024.

A aplicação do piso é obrigatória para estados e municípios de acordo com a lei federal número 11.738, de 16 de junho de 2008. Estados e municípios podem alegar não ter verba para o pagamento deste valor e, com isso, acessar recursos federais para complementar a folha de pagamento. No entanto, desde 2008, nenhum estado ou município recebeu os recursos porque, segundo o MEC, não conseguiu comprovar a falta de verbas para esse fim.

domingo, fevereiro 26, 2012

A solidariedade dos ex-governadores



Ex-governador Orleir Messias Cameli


            Ex-governador Romildo Magalhães


Ex-governador Jorge Viana


Ex-governador Arnóbio Marques


Diante de tantas pessoas em situação difícil por causa da alagação, os ex-governadores acrianos reuniram-se para um gesto inédito no Brasil - suas pensões agora só serão destinadas a políticas públicas para os mais necessitados.

Na última sexta, dia 24, todos os ex-governadores depositaram integralmente suas pensões na conta corrente do Banco do Brasil. Depois desse gesto solidário, eles se recusaram a receber as pensões, porque, segundo eles, todos foram eleitos para melhorar as condições sociais dos mais pobres, e não eleitos para receber uma verba pública até a morte.

"Depois dessa alagação, seria vergonhoso receber uma pensão vitalícia por ter sido governador, não fomos eleitos para ficar aposentados após quatro anos de mandato. Fomos eleitos para servir e não para nós nos servirmos do dinheiro público sem trabalhar", observou um ex-governador - ele pediu para não ser identificado.

Sem exceção, todos os ex-governadores concordaram. Quando eu soube disso, confesso que me emocionei, porque nunca pensei que homens públicos fossem ser tão sensíveis e éticos.



    

sábado, fevereiro 25, 2012

Jogo de um só erro


Se você conhece o jogo dos sete erros, não será difícil acertar no jogo de um só erro.

Foto 1



                                                                                                                                              Foto 2





Professor, profissão perigo


Quando o PSDB paga mais do que o PT

O jornal "Globo" publicou uma matéria sobre a falta de professor na rede pública do Rio de Janeiro.

Em São Paulo, o salário inicial de um professor chega ao limite de R$ 1.989,00. No Acre, lecionar para cinco turmas vale menos do que R$ 1.800,00. O custo de vida acriano é maior do que em São Paulo.



sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Governantes não me comovem



Governantes tentam me comover, propagando a imagem de que muitos desabrigados sofrem por causa da alagação. O poder busca extrair de mim solidariedade. 

Mais: me faz sentir responsável. Preciso agir. Preciso sair de meu mundo para doar um pouco de meu tempo a outros que precisam mais do que eu. Devo ser cristão.

Mas quem disse que eu preciso dos apelos dos governantes? E quem disse aos governantes - esses políticos - que eles me comovem? Telefono:

"Meu amigo, minha humilde casa está aberta para você".

"Obrigado, Aldo, se a coisa piorar, vou precisar de ti", disse meu amigo.

Eu escolho a quem entregarei minha doação. Uma velha senhora?... Uma avó muito idosa sem marido e com três netos?... Sem foto, sem propaganda, eu escolho.

Meu dinheiro é solidário. Mas e o nosso dinheiro público? O que governantes fazem com ele? Para que serve o dinheiro público? Ora, serve, por exemplo, para REGULAR O ESPAÇO PÚBLICO À MARGEM DO RIO ACRE.

Eu não posso regular espaço público, só os políticos, só eles, nem Deus pode regular o espaço público à margem do rio Acre, porque o Senhor não põe mão em dinheiro.

Eu penso que Deus deveria pôr a mão em verba pública, pois o Senhor é justo, não os políticos. Mas isso é outro assunto.

Por que não construíram em 13 anos casas populares longe das margens, longe das regiões mais alagadas de Rio Branco?

Por que não aparelharam em 13 anos muito bem a Defesa Civil? Por que não colocaram a Defesa Civil em locais críticos e estratégicos muito antes da alagação?

Em âmbito federal, não há lei que regulamente verba destinada à Defesa Civil. Em âmbito estadual, existe lei? Quantos barcos há na Defesa Civil acriana? Quanto remos? Quantos salva-vidas existem na Defesa Civil? Em momento de alagação, pobre usa salva-vida? Alagado recebe par de bota?

Por que as pessoas não são avisadas e retiradas com antecedências de suas casas e colocadas em ABRIGOS CONFORTÁVEIS ou, PELO MENOS, DIGNOS AO QUE É HUMANO?

O Mercado Velho, dizem, agora está novo. O dinheiro público agiu rápido para construir uma imagem bonita da capital. Por que esse mesmo dinheiro não agiu rápido também para áreas alagadiças?

A capital, concordo, deve ficar atraente. Mas radicalizar o uso do dinheiro público para os mais necessitados não é atraente para os governantes?

Construir estrada cortando o Acre recebe o batismo-clichê de progresso e de desenvolvimento. Regular as margens por meio de leis e por meio de verba pública para evitar pessoas desabrigadas não é progresso e desenvolvimento?

Quanto de dinheiro público grupos políticos gastam para pagar suas propagandas de governo?

O dinheiro público constrói rápido um estádio de futebol. Por que esse dinheiro também não destruiu em 13 anos casebres erguidos em áreas impróprias?    

Governantes não precisam dizer a mim o que fazer nesta hora, porque políticos não me dão conta do que gastam, com que gastam, como gastam, para quem gastam.

Quando os pobres dirão a eles o que de justo fazer com o dinheiro público? Ou será que tudo ficará na mão de Deus na próxima alagação, outra vez?


Se eu estivesse com minha família em algum abrigo público, eu não aceitaria solidariedade de político, porque, deles, desses homens públicos que recebem muito bem todo mês, eu exijo esta justiça social - moradias e bairros melhores para todos.    

    

Águas profundas. Matérias superficiais

  
Lecionado Literatura, perguntei aos alunos a diferença entre realidade e ficção, e os que responderam disseram que a realidade mostra a verdade.

O Carnaval, que é uma festa da ficção, não tem nenhuma relação com a verdade, porque, segundo eles, Carnaval é desordem, ilusão.

Na linha desse raciocínio, o texto jornalístico, só ele e não o texto ficcional, revela a verdade porque o jornalista apresenta a realidade "como ela é".

Mas como pode a realidade mostrar a verdade se a realidade só é a superfície? A verdade está na e é a superfície? O que se apresenta a meus olhos é a verdade?

Não me alongarei sobre isso. Apenas afirmo que o texto jornalístico limita-se a registrar o que todos veem... todos veem o rio subindo (sim, "rio subindo" não está errado por se tratar de uma figura de linguagem).

Imagens e mais imagens, e o repórter escreve e fala daquilo que todos ouvem e veem, a palavra presa à realidade, à imagem. A palavra é literal, denotativa, isto é, "estado bruto". A palavra é matéria. A palavra é "ob-jetiva".

Nesse sentido, a imprensa escrita acriana, sem fazer uso da conotação, do jornalismo literário, nega o "sub-jetivo". Mas qual o sentido de "sub-jetivo"?

A palavra, em si mesma, em sua história e em sua relação com estéticas específicas (por exemplo, o Barroco, o Romantismo, o Simbolismo) é senhora de um sentido original. "Sub-jetivo" não é "dar a opinião particular". Se ignoramos o sentido primeiro, original, autêntico da palavra, não podemos pensar o pensamento.

Vejamos o seu oposto: "ob-jetivo". Em sua raiz, "aquilo que se põe à nossa frente, impedindo-nos a passagem, é o objeto", nos ensina Mário Eduardo Viaro.

"Ob-" significa "oposição"; e "-jetivo", "lançar". "Objetivo" tem o sentido de "lançamento obstruído, impedido". Mas o que foi "impedido de ser lançado"? O "sub-jetivo" não impede o lançamento, o movimento, o ir ao encontro.

Para responder, a palavra "objetivo" encontra-se na narrativa naturalista, realista; está trancada no quartel militar; marcha na parada do  Dia 7 de Setembro; estende-se no texto jornalístico.

"Ob-jetivo" não se encontra no Barroco, no Romantismo, no Simbolismo; não se encontra no Carnaval.

Se "algo" não foi lançado, não se "pro-jetou", não houve movimento, encontro, ou seja, prevalece o "distanciamento" em relação ao que se vê, por isso o jornalista não se envolve com a matéria, com a realidade.

Ele se envolveria se seu texto fosse "sub-jetivo". Por meio da tevê, podemos apreciar a "sub-jetividade" da jornalista Neide Duarte ou do jornalista esportivo Régis Roising , oposto ao texto objetivo de Léo Batista.

Mas o que é "sub-jetivo"? Essa palavra, mais, esse conceito, reside no Romantismo e, mais ainda, no Simbolismo. Vive em "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, narrativa oposta à objetividade de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.

Sim, mas o que é "sub-jetivo"?

"Sub-", para muitos, é "abaixo", mas o que está abaixo não significa "menor", "inferior"; o que está abaixo é "profundo", palavra que se encontra no dicionário latino. Dessa forma, uma vez profundo, nega-se a "superfície" do texto objetivo, a "superfície" da realidade. O "sub-jetivo" (des)cobre o que a realidade oculta, e oculta porque "obstrui" por meio da aparência. O narrador em Clarice é profundo; o de Graciliano, superfície.

No Acre, o jornalista limita-se a acompanhar a aferição do nível do rio. Tudo muito "objetivo". Tudo muito na superfície das águas.

Onde está a verdade dessa alagação?


segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Momo e o desserviço da TV Aldeia


Há um bom tempo - acredito que lá pelos anos da década de 1990 -, deixei um bom texto no jornal Página 20 sobre o sentido original de Momo, o rei do império carnavalesco.

Infelizmente, em meu computador, esse texto não se encontra. Perdi-o. Se eu quiser revê-lo, deverei ir ao jornal onde o publiquei.




No Acre, o Carnaval é uma festa estranha ao espírito de Momo, por isso escrevi sobre o regedor dessa festa popular, com a finalidade de mostrar que o que se fala no Acre de Carnaval não há nenhuma relação com o mito de Momo.  

Como em outros lugares, assistimos aqui à morte desse reino porque seus súditos, sem a devida irreverência da criatividade, perambulam sobre o cadáver do rei. O Carnaval acriano assemelha-se mais à procissão dos mortos.

Na capital acriana, não vemos a cidade ornamentada, desenhada, coberta pela fantasia, enfeitada, fato oposto ao que ocorre com o Natal, que acontece no centro da capital. Outra festa  manifesta-se no centro, 7 de Setembro.

Nessas festas, as pessoas, segundo ouço, sabem o que significa o sagrado (Natal) e a ordem (Dia da Pátria), porque os significados encontram-se estabilizados nos significantes. Entretanto, o mesmo não ocorre com a festa momesca: qual o sentido da palavra Momo? o que significa a palavra fantasia? o que quer dizer diversão?

Agora, pergunte a um cidadão que assiste à parada militar o que é ordem. O senhor gosta da ordem? Possivelmente, ele dirá "sim". Mas pergunte a ele se ele gosta da "desordem" do Carnaval? Ele dirá que "não" porque a festa de Momo recebeu outra significação dos jornalistas, das igrejas, dos políticos, da tevê. 

Cercadinho

Quem já leu sobre cultura popular e sobre o Carnaval sabe muito bem que o reino de Momo no Acre pode ser tudo, menos popular. Aqui, as mãos dos governantes oficiais colocam Momo em um cercadinho sob o olhar da polícia, dos bombeiros, dos médicos e do comércio, porque o Carnaval acriano já tem o estigma da violência, porque a desordem, segundo eles, deve estar sob controle.

“É melhor concentrar a festa num único local e garantir a segurança neste espaço. A Polícia Militar não teria condições de manter o policiamento necessário em todos os bairros e nos abrigos ao mesmo tempo, porque, em cada bar, em cada esquina, haveria uma festa. As pessoas sairiam às ruas para brincar de qualquer jeito e seria muito difícil lidar com a situação, mantendo a segurança de toda a população”,
explicou o governador Tião Viana.
 


"Brincar de qualquer jeito". No Carnaval acriano, portanto, a brincadeira é desorganizada. Entretanto, a "brincadeira", segundo o livro "Homo ludens", de Johan Huizinga, tem a sua razão, a sua ordem, sendo oposta à ideia de "qualquer jeito". Mas o Carnaval acriano é isto: "brincar de qualquer jeito", por isso o cercadinho.

Pela Tevê

Todo ano, jornalistas da TV Acre, por exemplo, ecoando a voz das autoridades, entrevistam, entrevistam e entrevista patentes militares. A população precisa se sentir segura. A TV Aldeia, por sua vez (pasmem!), sem cumprir sua missão cultural, reproduz a fala das emissoras comerciais, ou seja, não sabe o que fala do Carnaval, transmitindo um desserviço ao reinado de Momo.

A TV Aldeia, primeiro, deveria saber o real sentido da felicidade do Carnaval, porque, se soubesse, os jornalistas que estão na pista apareceriam fantasiados, digo, muito bem fantasiados. Reafirmo "muito bem" porque o conceito de fantasia pede bom gosto  pelo simples motivo de fantasia se opor à matéria, ao objeto, à coisa.

Não só. A TV Aldeia, por emitir, em tese, cultura, deveria apresentar aos telespectadores livros sobre o Carnaval. Faustão em seu programa apresenta livros, Regina Casé em seu programa apresenta livros, Jô Soares apresenta livros, mas a TV Aldeia não apresenta.

Pelos Livros

Lemos bons livros para buscar também o sentido original das palavras, sentido que não encontramos na rua, na TV Aldeia, nas reportagens de tevê.

"Elogio da Loucura" é um desses livros. Nele, (des)cobrimos o senhor do Carnaval, Momo, cujo significado que dizer "aquele que imita".

Quem esse rei imita?

Ele segura o cetro, usa a coroa e senta-se no trono. Na condição de rei, portanto, ele tem o poder, mas seu poder não só se opõe ao poder dos governantes oficiais como também o deforma, porque quem "imita" altera a forma copiada.

Momo imita o poder oficial, isto é, por ser mímico, deforma aqueles que exercem o poder, desorganiza-o. Como rege a prudência de o governante oficial ser sério, austero, Momo é o avesso, ou seja, ele é o bobo - "(...), o privilégio que têm os bobos de poder falar com a toda a sinceridade e franqueza", escreveu Erasmo de Rotterdam no século XVI.

O bobo ri de quem governa, mas no Carnaval acriano sempre respeitamos o poder.

Momo é a Loucura de quem fala Erasmo em seu belíssimo livro.

Outros livros sobre o Carnaval fascinam, entre eles, estes: "História da Feiúra", organizado por Umberto Eco; "História do Riso e do Escárnio", de Georges Monois; "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento", de Mikhail Bakhtin; "Homo Ludens", de Johan Huizinga.

Poderia escrever mais sobre Momo, mas prefiro me repetir, afirmando que lemos bons livros para buscar também o sentido original das palavras, sentido que não encontramos na rua, na TV Aldeia, nas reportagens de tevê, porque nesses locais Momo não passa de um impostor chulo.

TV Acre desatualizada e o vice

Hoje, por volta das 11h20min, liguei a televisão para saber sobre o nível do rio Acre.

A TV Acre apresentou imagens de sábado, dia 18. Eu querendo saber sobre a situação de hoje, dia 20, e ela me apresenta uma reportagem repetida.

Se for para ser assim, fico sabendo da enchente acriana por meio do UOL.

Em outro momento, aparece o vice-governador, passando a imagem de que tudo está sob controle em Rio Branco. A tevê cede espaço para a autoridade falar. Repito: falar, não para ser questionada.

O vice poderia ter sido questionado se a tevê apresentasse, antes da entrevista, uma reportagem da real situação dos alojados, por exemplo, no Parque de Exposição Castelo Branco.

Confrontar a realidade dos abrigos com as palavras das autoridades, mas isso seria pedir demais.

Se desejam tanto ocupar o poder, se dizem em campanha que farão melhor do que os adversários, eles têm o dever e a obrigação de erguer, com o dinheiro público, o melhor para os desabrigados.

domingo, fevereiro 19, 2012

Ronda Gramatical


Senador acriano encontra-se no "chadrez" 



Enquanto as águas do rio Acre sobem, o senador Petecão, do PSD, baixou o nível da ortografia ao deixar escrevinhado em seu miniblogue "Chapuri".

A população de Xapuri quis linchá-lo com os dicionários Houaiss e Aurélio, mas Petecão conseguiu fugir, 
passando a ser caçado pela Polícia Ortográfica como meliante gramatical.

"Não podemos admitir que um senador da República continue a falar e a escrever errado. Petecão tem um currículo extenso de crimes contra a Língua Portuguesa", observou o capitão Evanildo Bechara. "Ele é um péssimo exemplo para o jardim de infância, a creche,  para a escola primária, o Poronga e as bibliotecas."

Ontem, em Rio Branco, às 23h55min, quando pulava no bloco "Chapuri, Princezinha do Mar" , ele foi rapidamente identificado. 
Petecão não resistiu à prisão.

"Mas o senador resiste a falar e a escrever corretamente aqui no presídio", disse o seu único colega de cela, "Xapolim".