terça-feira, junho 24, 2014

Uma resenha sobre um livro de Umberto Eco

As pinceladas da fé nos quadros da arte medieval

Resenhado por Aldo Antônio Tavares do Nascimento

ECO, Umberto.  Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Record, 2010.

            Observe este mural na igreja de São Clemente, Quatro apóstolos, do século XII; repare os corpos estáticos, suas expressões invariáveis, volumes e dimensões uniformes, figuras chapadas que anulam toda ilusão de movimento. Com suas imagens que desconsideram tamanho, forma, proporções, volume, cor, nossos olhos contemplam a arte mais típica da cultura medieval, a românica, que prevaleceu por toda a Alta Idade Média (476-1000).
            Movimento. Ele virá pelo norte europeu, assim como o espaço, a luz, a cor, enfim, a composição extensiva da cultura popular e da natureza. No sul, permanecia a influência da arte bizantina, presa ainda às formas fixas, com o seu hieratismo (invariável), a frontalidade, tricromatismo (normalmente o azul, o dourado e o ocre), isocefalia, isodactilia e hierarquia dos espaços (figuras mais sagradas para as menos sagradas). Mais do que arte, a pintura bizantina é dogma.
            Romper com o imóvel. O nome que pincelou profundas rupturas foi Giotto di Bondone (1266-1337), sendo seu maior trabalho na Capella degli Scrovegni, onde retrata cenas da Virgem Maria e da Paixão de Cristo, entre 1303 e 1310. Até conceber a impressão do movimento em sua pintura, um longo período de agonia conceitual atravessou décadas da Idade Média, podendo ser lido tamanho enfrentamento na obra que motiva este artigo, Arte e beleza na estética medieval, publicada em 1987. Entretanto, para que suas páginas fossem lidas no Brasil, elas só foram ancoradas em nossa língua em 2010, após 23 anos.
            Nascido em Alexandria, em 1932, Umberto Eco escreveu esse livro como quem caminha por trilhas conceituais, isto é, por serem estreitas as trilhas, os detalhes de seus passos ampliam nossa visão do que seja a estética do pensamento cristão medieval, por exemplo, não podemos separar a moral da arte porque nesse período a natureza refletia a transcendência de Deus. A consciência da beleza, portanto, é dado metafísico.
            Entretanto, para além dos conceitos pensados por sacerdotes, havia o gosto do homem comum, do artista e do amante das coisas de arte, voltados, vigorosamente, para aspectos sensíveis. Por isso, os sistemas doutrinais da Igreja justificavam e dirigiam esse gosto a fim de que o sensível não ultrapassasse o espiritual. Ao cruzar dois conceitos (metafísico e sensível), a filosofia cristã admite um saber-deleite com a finalidade de melhor amar a Deus, podendo o cristão, portanto, ajoelhar-se diante do amor ornamental. Nessa interseção conceitual, que é reação ao mundano (sensível) e a tensão para o sobrenatural (metafísico) para que os olhos serenos contemplem as coisas do mundo, repousa-se, nesse contraste, nesse ponto de encontro, ela: a paz dos sentidos.
            Duas correntes místicas (a Ordem de Cister, os cistercienses, e a Ordem dos Cartuxos), sobretudo no século XII, opõem-se ao luxo e às figuras na decoração das igrejas: seda, ouro, prata, vitrais coloridos, esculturas, pinturas, tapetes. São Bernardo de Claraval (1090-1153), monge cisterciense, lança-se contra esses supérfluos ou percepções porque eles desviam os fiéis da piedade e da concentração da prece. Patrono da Ordem dos Templários, São Bernardo escreveu as regras dos cavaleiros; pensou a cristandade como força militar, mesma rigidez conceitual concebida na arte.
            Embora houvesse o rigorismo místico de São Bernardo, havia também uma mística que se voltava para o mundo sensível, a do agostiniano Hugo de São Vítor (1096-1141), teólogo mais famoso antes de Santo Tomás de Aquino. Por meio de seu pensamento, o deleite estético provém, efetivamente, do fato de que o ânimo, a alma, reconhece na matéria a harmonia de sua própria estrutura. (ECO, pág. 31). Mas até chegar ao subjetivo de um gosto estético foi um longo percurso. Antes dessa consciência, entretanto, o belo, para o homem medieval, deveria coincidir com o bom. Suger (1081-1151), abade de Saint Denis, concebe a casa de Deus como espaço acolhedor da beleza, encontrando em Salomão e em Pseudo-Dionisio sua justificativa. Suger quem permite a arte gótica no cristianismo. Segundo Erwin Panofsky (1892-1968), o abade concebia a arte como obra teológica, ou seja, o belo associava-se ao que é útil, porque, transmitida pela antiguidade e passada de Cícero a Agostinho e de Agostinho a toda Escolástica, essa ideia afirma que aquilo que é belo é belo em função de algo. No sínodo de Arras, em 1025, havia iniciada uma campanha para permitir aquilo que os simples não pudessem entender por meio da escritura deveria ser aprendido pelas figuras. A pintura deve, pois, embelezar a casa de Deus, revocar a vida dos santos e o deleite dos incultos; um dos problemas da estética escolástica, todavia, foi precisamente o da integração da metafísica do belo com os valores, por exemplo, da unidade, da verdade, da bondade. (ECO, pág. 42).
            Manifestado na visão estética do cosmo, o belo pertence à ordem e, por isso, é propriedade estável e não sentimento poético de admiração. Sistematizado pela filosofia Escolástica conforme a tríade sapiencial (numerus, pondus e mensura; ou modus, forma e ordo; ou substantia, species e virtus; ou ainda constat, congruit e discernit), a Escolástica pensará o belo como noção de propriedades transcendentais, quais sejam, unidade, verdade e bondade, todas retiradas do pensamento grego. Podendo ser pensado como um transcendental, o belo cristão, nos séculos XII e XIII, revive a kalokagathia grega ou a unidade kalos kai agathos (belo e bom), possibilitando a harmônica conjunção de beleza física e virtude.
            Além da arte gótica (segundo parágrafo), que permitiu uma ruptura com a arte bizantina, a espiritualidade franciscana, envolvida com grupos populares, com a realidade material do mundo, com a contemplação da natureza, com o otimismo da vida e com a beleza dos elementos, também influenciou para que fosse percebida na arte a presença do sensível. Não por outro motivo que Giotto expressa o naturalismo da sensibilidade franciscana, podendo ser apreciado na obra A morte de São Francisco.  A presença do sensível, conforme a Ordem Franciscana, veio à luz em 1245, na forma de Summa theologica, obra dos frades Jean de la Rochelle, Frater Considerans e Alexandre de Hales, mas dita Summa fratris Alexandri. Nela, belo refere-se à causa formal, entendendo como forma o princípio substancial de vida, sendo, portanto, ideia aristotélica. “Chamo forma a essência de cada coisa e a substância primeira”, afirma o pensador em sua Metafísica. Assim sendo, a beleza é a disposição da forma em relação ao exterior. Na Summa, bem e belo fundam-se na forma concreta das coisas. Mas, por prudência dos franciscanos, o belo ainda não pertence à série dos transcendentais. Somente após cinco anos, em 1250, São Boaventura escreve em um opúsculo as quatro condições do ser: uno, que concerne à causa eficiente; verdadeiro, à formal; bom, à final; e belo, que abraça todas as causas e é comum a elas. Sendo o belo uno, verdadeiro e bom, o belo atravessa todos os transcendentais.

            Alberto Magno influencia Tomás de Aquino
            Mestre de Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno (1193/1206-1280) retoma dos franciscanos “o belo fundado na forma de uma coisa” por meio de um comentário que, sob o título de De pulchro et bono, figurou por longo tempo entre os Opuscula de Santo Tomás. Para Alberto Magno, “a essência universal do belo consiste no esplendor da forma sobre as partes proporcionais da matéria ou sobre as diversas forças ou ações”. Com isso, permite-se que o belo passe a pertencer verdadeiramente a todo ente a título metafísico. Ao dizer forma e partes proporcionais da matéria, vê-se uma Idade Média inspirada no hilemorfismo aristotélico, isto é, a forma (morfe) compõe-se com a matéria (hyle) para dar vida à substância concreta e individual (ECO, pág. 60). Segundo Alberto, há no hilemorfismo várias tríades de origem sapiencial ou intelectual, quais sejam, modus, species e ordo; numerus, pondus e mensura. Essa “matemática do belo”, todavia, não considera a referência ao ato humano conhecedor como constitutivo do belo em sua própria ratio, sendo, portanto, uma estética marcada por um rigoroso objetivismo. A percepção do outro ainda não existe. Há outro objetivismo: o de que o belo, embora seja propriedade transcendental do ser, revela-se em uma relação em que o homem focaliza o objeto, e esse é pensado por ele - Santo Tomás de Aquino.
            Para chegar à matemática, à lei dos números, Umberto Eco conduz o leitor ao capítulo 3. Depois, amplia essa concepção de estrutura, cuja gênese é Pitágoras. Na condição de causa, princípio, ninguém pode compreender o belo sem antes atravessar o caminho reto dos geômetras, qualquer semelhança com Platão em Timeu, obra onde as formas matemáticas estruturam a Ordem (Cosmo), não é mera coincidência. 
            A arte sensível de um santo
            No capítulo 7 (parte 7.4), Eco escreve que, ao retomar as noções estéticas propostas por Alberto Magno, Tomás de Aquino ocupa-se da visão subjetiva do belo, o que seu professor desconsiderou. Para confirmar essa divisão entre mestre e discípulo, Umberto Eco retira um exemplo da Suma Teológica I, onde bem e belo amalgamam-se na forma, na substância, no que sustenta, isto é, na estrutura. O subjetivo emerge em Tomás porque belas são chamadas as coisas que despertam prazer quando vistas e, se despertam, é porque nossos sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas. Em Tratados das Enéadas, Plotino (205 d. C.-270 d.C.) concebe o belo como simetria das partes para haver a harmonia do conjunto. Tanto proporção quanto simetria são conceitos que alinham o belo à matemática, ou matematismo e belo formam um só cálculo. Os sentidos então são uma espécie de proporção, uma espécie de simetria.
            Foi dito antes que bem e belo fundam-se na forma, sendo que o bem faz com que a forma seja objeto de apetite porque todo ente deseja o bem; o belo, ao contrário, coloca a forma em relação com o puro conhecimento, por ser ele, o belo, aquilo cujo conhecimento causa prazer. Sendo assim, olhar é conhecer, e o deleite estético não passa de uma consequência desse conhecimento, visto que esse ato de adesão deleitosa é determinado pelo belo ou pelas formas matemáticas. A ideia de Tomás traz o subjetivo; ele, porém, é determinado pelo belo ou por conceitos matemáticos, cujo propósito implica apaziguar os sentidos, os apetites. Diferente de Tomás de Aquino, o ato de adesão deleitosa pode ser muito bem um livre ato de efusão concedida à coisa e não determinada por ela, e quem pensa assim é João Duns Escoto (1265-1308), para quem a visão estética é uma faculdade livre, pois seus atos sujeitam-se ao império da vontade. Longe de ser coincidência, essa faculdade livre - subentendam-se as experiências -, Escoto pertence à ordem franciscana, a mesma ordem de Roger Bacon (1214-1294) e de Robert Grosseteste (1168-1253). Todos estudaram na Universidade de Oxford e, entre eles, existe esta linha mestra de conhecimento, qual seja, a experimentação ou a vontade do sujeito.
            Penso ter ofertado uma ideia do que seja este significativo livro de Umberto Ecos. No capítulo 8, Santo Tomás e a Estética do Organismo, o autor detalha mais ainda o que esse pensador conceitua o belo; porém, como início, apresentei uma linha de raciocínio em que pontos importantes foram relacionados.           
             
                 

segunda-feira, junho 23, 2014

Antes do jogo Brasil e Camarão


Hoje, em muitas escolas, não se estuda gramática - erro que deixará um débito enorme para o futuro.

Estou estudando Immanuel Kant, mas pararei a leitura pouco antes do jogo entre Brasil e Camarões, depois retornarei.

Suas orações e seus períodos são longos, um tipo de estrutura sintática que não facilita a compreensão. Sem compreensão de gramática, torna-se mais difícil.

Por exemplo, repare nessas relações entre orações:

Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim nelas enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos  apenas a título de tentativa.

Sem gramática, porque ela estuda estruturas, não se entende Kant. Depois de saber a estrutura, estudam-se os conceitos kantianos e a relação entre eles, mas sabendo que a relação entre eles depende da estrutura, porque a estrutura já é relação.   
  



Por falar em jogo...
 

domingo, junho 08, 2014

A Culpa é das Estrelas


Hoje, fui ter com a Mony um dos prazeres de nosso encontro de 9 anos: assistir a mais um filme. Amo sair com ela para ficar diante da película ou diante de um palco de teatro.

Já foram tantos os filmes e muitas as peças que sinto saudade de tudo e, estranho, saudade do que virá. 

As imagens dessa vez vieram de "A Culpa das Estrelas". Ótimo filme!




sábado, junho 07, 2014

A Pessoa em Santo Tomás de Aquino

A fé e a razão de Santo Tomás de Aquino leram textos ficcionais da Grécia Antiga. No livro “Por trás das palavras - manual de etimologia do português”, de Mário Eduardo Viaro, o sentido original de ficção é “formação”. Do teatro grego, que nos remete à personagem, Tomás retirou o sentido de pessoa (persona), que significava “máscara”. Assim, por ser máscara, a pessoa é a guardiã de algo e, dessa forma, por trás da máscara, guarda-se o mistério da pessoa. Os estudos de Tomás o desvelam.
  
Seguindo os passos de Aristóteles, Tomás de Aquino afirma que pertence à natureza do homem ser ajudado por outros homens, porque não é possível um homem só abarcar todo conhecimento pela razão, por isso ser necessário viver em multidão a fim de que “a mão lave a outra mão”. Para o autor da “Suma Teológica”, é natural, portanto, que o homem viva em sociedade. Dito isso, emerge, entre tantos homens, isto é, a multidão, a definição de pessoa. Sabemos que todos os seres possuem a totalidade em si, mas também possuem a individuação própria que os distingue dos demais seres. O ser humano é definido como pessoa, segundo Tomás, não apenas pela alma, mas pela alma e pelo corpo. Ora, é por meio destes compostos que a pessoa subsiste. O homem não é uma pessoa simplesmente porque tem uma alma, mas é uma pessoa pela alma e pelo corpo, já que é por meio de ambos que subsiste. Entendida como substância primeira ou hipóstase, eis a pessoa.

Entretanto, a natureza humana não corresponde à pessoa tomasiana, porque, como a singularidade humana subsiste em corpo e em alma, isto é, subsiste na pessoa, o humano singular é mais do que a natureza humana porque em si a singularidade possui elementos e características que não se encontram na natureza humana. O que faz com que Santo Tomás de Aquino seja Santo Tomás de Aquino não se encontra em todos os homens, mas tão somente em Santo Tomás de Aquino, sendo, pois, o singular de sua existência à sua pessoa. O existir tomasiano é constitutivo da pessoa, isto é, a pessoa é que tem a existência ou, se quiser, o indivíduo tem a sua existência por intermédio da pessoa. É a pessoa que existe e não a natureza humana individualizada. Mas, quando se fala em existir, não se fala de um existir qualquer, mas de um existir racional, de um existir que busca conhecer e se conhecido, que busca pensar e ser pensado, por isso, entre outras substâncias, Santo Tomás de Aquino diz que os indivíduos de natureza racional têm o nome especial de pessoa, que aqui se define conforme Boécio: “uma substância individual de natureza racional”. E livre. Entendamos aqui como racional que a pessoa não está fadada a agir somente por causalidade natural, mas podendo desencadear uma causalidade própria.

 Se por um lado podemos interpretar que a pessoa existe sob a máscara, também podemos por outro admitir que a própria máscara é a pessoa. Assim sendo, nas comédias e nas tragédias gregas, representavam-se personagens célebres, e o termo pessoa veio a designar aqueles que estavam constituídos em dignidade. Personalidades são aqueles, portanto, que detêm alguma dignidade, ou seja, aqueles que detêm o merecer.

Pelo que já foi escrito até aqui, é correto então afirmar que o tema da pessoa em São Tomás une sua filosofia à teologia? Penso que a teoria da pessoa é um ponto de interseção entre filosofia e teologia no pensamento escolástico de Santo Tomás de Aquino. Sendo a pessoa amálgama entre corpo e alma, isto é, entre o sensível e o suprassensível, Santo Tomás, oposto ao platonismo, concebe o corpo não como túmulo, mas como meio inevitável para se chegar a uma dignidade para além do próprio corpo. Ao pensar a experiência do corpo por meio da filosofia de Aristóteles, que inclui o sensível, Tomás, por meio da teologia, oferta ao sensível a sua transfiguração, pois a pessoa também é alma, conceito que permite ao humano a transcendência.

sábado, maio 24, 2014

Paralisação dos professores

Em um ano, os professores do Rio de Janeiro pararam suas atividades - isso não é igual ao conceito de greve - quatro vezes, mas esse número não indica soma ou multiplicação do clichê "luta sindical", e sim uma subtração.

Ou seja, o sindicato só tem perdido com seu modelito cafona ou brega de luta sindical.

Hoje, tempo frio e chuvoso de outono, acordei cedo como sempre para comprar meus jornais. Em O Dia, a manchete "Professor grevista vai fazer 'rolezinho' em shoppings".

Além da falta de qualidade de ensino, também existe a falta de qualidade da luta sindical.

Os caras perderam a noção do ridículo.



       

terça-feira, maio 13, 2014

Estamos com inveja do governador acriano


Claudio Ezequiel Passamani, meu amigo, vc afirma que a entrevista do governador causou inveja. A entrevista causou inveja!?!? 

Quer dizer que um homem de estado causa inveja a quem critica. A critica é consequência de inveja, ou seja, quem critica queria ser governador ou queria ter sido entrevistado no Roda Viva.

A crítica, por exemplo, ao governador por ele ter dito "asfaltar todas as ruas do Acre" existe por causa da inveja.

Então, a minha proposta é seguinte: que anônimos - e não invejosos - criem um Face para mostrar "todas as ruas asfaltadas" no final de mandato de Tião Viana.

Inveja. Quer dizer que ao DETALHARMOS a relação entre perguntas dos jornalistas e respostas do governador no Roda Viva para tecer críticas é INVEJA. Eu, por exemplo, tenho inveja do governador por criticá-lo.

Ora, não se critica por causa de "inveja"; critica-se porque a palavra significa "julgar", ou seja, ao criticar, separa-se, seleciona-se, por exemplo, eu separei "todas as ruas asfaltadas" da realidade urbana de Rio Branco. Crítica não possui outro significado, é como 2 + 2 = 4.

Dito isso, a questão é a seguinte: "todas as ruas serão asfaltadas"? A estrutura frasal é esta, e a resposta não pode se desviar dessa estrutura.

Inveja. Sim, eu tenho inveja, muita inveja dos homens cultos, dos políticos inteligentes, por exemplo, quando o senador Cristovam Buarque pensa a educação pública. Ele pensa a palavra educação, o que não ocorre com o governador do Acre quando fala de educação. E, por isso, eu tenho inveja.

Quando Buarque fala da "federalização do ensino fundamental", ele, que é leitor de Anísio Teixeira, refere-se à questão "estrutural". Quem fala de do conceito de "estrutura educacional" no governo do Acre?

Ora, a crítica não é consequência de inveja, mas consequência de quem seleciona conteúdo de um discurso para comparar com. Esse é o ÚNICO sentido da crítica, único porque esse é o seu sentido etimológico.

Depois de ouvir Tião Viana

Não busco falar mal do PT por falar, mas, se falo bem, é porque existe uma história que você vê em Rio Branco, por exemplo.

O Acre melhorou muito com a administração do Partido dos Trabalhadores. Melhorou muito.

Discordo do governador do Acre, Tião Viana, ao dizer que o Acre é pobre. Pobre são os seus políticos, tão pobre é a sua elite econômica.

Em sua entrevista no Roda Viva, disse que seu governo está asfaltando "todas as ruas". 

Todas as ruas. Não é preciso dizer mais nada sobre essa entrevista. Todas as ruas. 

O sabonete é um produto que escorrega


Longe da imprensa acriana

Em alguns momentos, quando os jornalistas (não acrianos) o deixam com perguntas incômodas, o governador do Acre, Tião Viana, responde com outra pergunta, desviando-se do tema em questão.

Por muitas vezes, diz que o Acre é um estado pobre, mas, até onde sabemos, a folha de pagamento dos beneficiados pelo poder é altíssima. Esses não são pobres.

Governador, crie com a sociedade civil uma Roda Viva acriana, sem a mão de interesse partidário.




sábado, maio 03, 2014

Jorge Viana e Cristovam Buarque

Em uma dessas comissões do Congresso, ouvir Jorge Viana e ouvir Cristovam Buarque a respeito de educação, minha nossa!!!, não é só diferente, mas brutalmente desigual.

Cristovam eleva o debate; Jorge abaixa-o.

Aos sábados e aos domingos, comprar jornal é um ato de muitos e muitos anos. Quando existe em alguma banca no Rio, compro A Folha, mas garantido mesmo é O Globo, onde posso ler sempre os bons textos do senador Cristovam Buarque.

Esse senador, diferente de Jorge Viana, sabe muito quando o assunte é este: educação.

Hoje, o título de seu artigo é "Adoção federal" e começa assim:

Quando um banco entra em crise, o Banco Central intervém para evitar a falência; quando a segurança de uma cidade entra em crise, o governo federal aciona a Guarda Nacional; quando a saúde fica catastrófica, importam-se médicos; quando uma estrada é destruída por chuva, o governo federal auxilia o estado; mas, quando um município não tem condições de oferecer boa escola a suas crianças, o governo federal fecha os olhos, porque isso não é responsabilidade da União. Limita-se a distribuir, por meio do Fundeb, R$ 10,3 bilhões por ano, equivalente a R$ 205 por criança ou R$ 2 a cada dia letivo.

Por causa da história das séries iniciais terem sido condenadas aos municípios, o caminho dessas séries hoje tem de ser o governo federal.

Os municípios não têm condições para qualificar.

O Jorge nem coloca isso em pauta.        

domingo, abril 27, 2014

A importância de ler Orígenes


Um ex-aluno cita a Bíblia para justificar o erro de ser gay. Orígenes já falava de interpretação há muito tempo.   

Elaborado por mim, deixo aqui parte de meu texto sobre a primeira patrística.

Pensador da Primeira Escolástica, Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesareia existiu entre 185 e 254, tendo como mestres Clemente de Alexandria (150-215) e Amônio Sacas (175-240/42). Considerando que “conhecer” é “nomear”, a razão, segundo Erígena, deve descobrir o significado profundo que se oculta sob as palavras da Escritura.

No livro “Arte e beleza na estética medieval”, Umberto Eco afirma que, com Orígenes, nasce o “discurso teologal”, o qual não é mais discurso sobre Deus, mas sobre sua Escritura. Assim , quanto à interpretação, Orígenes, que parte do texto bíblico, admite três sentidos para a leitura do sagrado: o corporal (literal), o moral (psíquico) e o místico (pneumatológico), sendo que os dois últimos relacionam-se ao sentido alegórico, cujo método herdou-se de Fílon, o judeu.

O sentido corporal, que é o imediato, o superficial, o histórico, também se chama de primeiro significado por ser o sentido literal, e ele se destina às pessoas comuns, a uma multidão que só compreende o mais simples. Quanto ao sentido moral ou psicológico (anima), a palavra destina-se ao leitor avançado; e o sentido místico é o mais profundo, destinado ao cristão perfeito. O alegórico, como se dá pela imagem por meio de conceito, é onde o saber o espírito surge, porque esse sentido não se limita à aparência literal da palavra.


Orígenes (185-254)

Uma bandeira é mais do que uma bandeira


Do blogue do Altino Machado, peguei esta imagem. Repare, só a estrela permanece, a mesma estrela que se encontra no Partido dos Trabalhadores.

Os símbolos são importantes, porque eles mostram que um lugar não se reduz a prédios, a pontes, a viadutos, a estradas, enfim, ao concreto, ao físico.

Abstrair é retirar da realidade objetiva valores espirituais, valores que os animais não possuem.

Ruim um estado e um município ficar nas mãos de um só partido, é poder demais ou permanência do que não se transforma.

A bandeira acriana... ela está acima de partidos. 

Sofistas, palavra tão incompreendida

A visão de mundo, para ser refeita, não possui outro caminho senão atravessar o espectro das palavras.

Ver a vida é saber pensar a palavra. 

Uma palavra que precisa ser revisitada é "sofismo". Quando a reproduzimos como um objeto de uso que recebemos da vida presente, sem que a lancemos ao passado, seu significado está comprometido e, consequentemente, nosso juízo.

Se a palavra está estreitada por condições sociais, nosso juízo também está.

Nossos últimos anos, os sofistas estão sendo repensados de maneira muito diferente de Platão, de Aristóteles.

"Sofistas, Sócrates e socráticos menores", de Giovanni Reale, é ótimo para começar a entender esse mundo.

Aqui, deixo minhas inúteis palavras sobre:
Para os sofistas, o ponto de partida é o próprio mundo fenomenológico, e esse mundo sensível é oposto ao de Platão, que busca a verdade na palavra. Para os sofistas, no entanto, inexiste, na palavra, a verdade ou, se ainda quiser, o absoluto. Assim sendo, a palavra é engano por ela possuir duplicidade, ambiguidade. Não poderia ser diferente porque, tendo como partida o mundo fenomenológico, os sofistas não se fixam em o modelo, em a unidade; porém, a partir do particular, que é também o fenomenológico, admitem as diferenças, as variações, os contrastes. No mundo sofista, portanto, a instabilidade é mestra, visto ser tal instabilidade o sinônimo da “doxa”.
    

sábado, abril 19, 2014

A uma mãe



Hoje, no Face, um ex-aluno me contou sua tristeza, que é de amar uma jovem, mas, por causa da mãe da moça, o amor do dois está ameaçado pelo diabo, pelas trevas.
Na mente dela, fiel ao Senhor Deus, ela disse à filha que não quer ver a Luz (sua família) misturada com as Trevas (família dela).
Eis o poder bíblico daqueles que, por arrebatada ignorância, fazem de Deus um Mal no mundo. Como podem pessoas afirmarem que são a Luz se elas são imperfeitas?
Ensina-se que o mundo é preto (Trevas) ou branco (Luz), como se Deus, o Criador, o que não pode ser adjetivado, só tivesse criado um só atributo: o branco.
Penso que no jardim de Deus há muitas flores, várias cores, tantas formas, que é impossível a mim pensar em um Criador monocromático e maniqueísta.
São os mais ignorantes que pregam a verdade acima do jardim de Deus; verdade essa que mata as múltiplas cores, muitas formas do Criador.
A mãe desse bom rapaz deveria saber que quando Luz e Trevas unem-se elas formam belos quadros cheios de vida, como os quadros de Rembrandt ou de Monet.
Essa senhora precisa, urgente, apreciar as pinturas barroca e impressionista, além, é claro, de ler o bom e velho Heráclito.

O Haiti no Acre


Em 26 de abril de 2013, o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão, afirmou que a entrada de haitianos no Acre tinha sido se estabilizada.

"Todos estão regularizados e documentados e com carteira de trabalho emitida. Portanto, aptos ao trabalho. São quase 1350 [haitianos]. A situação está normalizada", resumiu o secretário na época.

Aptos? Entrevistado no jornal O Globo de hoje, Fades Ribiss, de 29 anos, conseguiu regulariza sua situação documental no abrigo de Brasileia, Acre. "Eu só não sei como conseguirei emprego".   

Quem deseja ler essa passado é só clicar em 

Depois de ter dito que a situação estava normalizada, o secretário de Justiça surpreende São Paulo e Brasília.

Paulo Illes, coordenador de políticas para imigrantes da prefeitura de São Paulo disse ao jornal O Globo que "não sabíamos que os haitianos viriam para São Paulo de forma desorganizada. A gente tinha muito interesse em participar de uma discussão com o governo do Acre, mas isso não aconteceu".

Nilson Mourão argumentou que o governo do estado do Acre não fez contato com São Paulo porque "há três anos e meio que os haitianos vão para lá".

Mas em 2013 o secretário disse que a situação estava "normalizada"?

Após fechadas as portas do abrigo em Brasileia, Acre, o Ministério da Justiça se diz surpreso com a decisão do governo do Acre.

Desde 2102, ocorreram 10 mil vistos humanitário segundo o Conselho Nacional de Imigração.    

   


terça-feira, abril 15, 2014

Para os que ainda dormem como inocentes

De Aldo Tavares

A realidade efetiva das coisas destina-se a não ter mais como referência o ideal de uma ação na “polis”, mas agir politicamente conforme a necessidade da situação. 

Após séculos de a ética ser pensada na política, esta se separa daquela no século XVI, com “O Príncipe”. Nesta obra, Capítulo XV, escreve-se que a verdade deve ser procurada pelo efeito das coisas, e não pelo que se possa imaginar dessas mesmas coisas, havendo aqui, portanto, uma crítica ao idealismo de Platão e à ética política de Aristóteles, porque “vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver”. 

Na antiguidade grega, como se ignorou a realidade efetiva das coisas, colocaram no lugar dessa realidade repúblicas que nunca se viram reconhecidas como verdadeiras. Idealizaram a vida coletiva por meio da ética, mas a política, depois de Maquiavel, longe de partir de um ideal, fundamenta-se no chão fértil das contradições, no chão fecundo dos interesses segundo a necessidade da raposa e do leão. 

Aqui, o animal político não busca o ideal aristotélico de animal político, porque o homem ou o animal de Maquiavel transita em uma identidade ambígua. A instabilidade política não se motiva mais por falta de ética, de equilíbrio, mas por falta das duas faces do governante, devendo então a estabilidade tirar da ambiguidade as qualidades da raposa e as qualidades do leão. 

Depois de Maquiavel, a política perde sua essência aristotélica para contrair aquilo que o vulgo aprecia, qual seja, ela: a não essência, isto é, a aparência, essa superfície da experiência sensível. Estamos, por fim, no mundo tão recusado por Platão, mas que em Maquiavel ressurge com toda sua sedução: o mundo dos sofistas.


Para muito distante do vulgar

Há o engano de achar que o que se ouve em certas igrejas é canto a Deus. É, isso sim, ruídos do feio, do mau gosto, excrescência sonora de quem já perdeu o bom paladar.

A música ofertada a Deus deve ser Bela. 

Ouça o que certa audição religiosa desconhece. 




segunda-feira, abril 14, 2014

Resenha sobre o Belo

As pinceladas da fé nos quadros da arte medieval

         Resenhado por Aldo Antônio Tavares do Nascimento

ECO, Umberto.  Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Record, 2010.

       Observe este mural na igreja de São Clemente, Quatro apóstolos, do século XII; repare os corpos estáticos, suas expressões invariáveis, volumes e dimensões uniformes, figuras chapadas que anulam toda ilusão de movimento. Com suas imagens que desconsideram tamanho, forma, proporções, volume, cor, nossos olhos contemplam a arte mais típica da cultura medieval, a românica, que prevaleceu por toda a Alta Idade Média (476-1000).
            Movimento. Ele virá pelo norte europeu, assim como o espaço, a luz, a cor, enfim, a composição extensiva da cultura popular e da natureza. No sul, permanecia a influência da arte bizantina, presa ainda às formas fixas, com o seu hieratismo (invariável), a frontalidade, tricromatismo (normalmente o azul, o dourado e o acre), isocefalia, isodactilia e hierarquia dos espaços (figuras mais sagradas para as menos sagradas). Mais do que arte, a pintura bizantina é dogma.
            Romper com o imóvel. O nome que pincelou profundas rupturas foi Giotto di Bondone (1266-1337), sendo seu maior trabalho na Capella degli Scrovegni, onde retrata cenas da Virgem Maria e da Paixão de Cristo, entre 1303 e 1310. Até conceber a impressão do movimento em sua pintura, um longo período de agonia conceitual atravessou décadas da Idade Média, podendo ser lido tamanho enfrentamento na obra que motiva este artigo, Arte e beleza na estética medieval, publicada em 1987. Entretanto, para que suas páginas fossem lidas no Brasil, elas só foram ancoradas em nossa língua em 2010, após 23 anos.
            Nascido em Alexandria, em 1932, Umberto Eco escreveu esse livro como quem caminha por trilhas conceituais, isto é, por serem estreitas as trilhas, os detalhes de seus passos ampliam nossa visão do que seja a estética do pensamento cristão medieval, por exemplo, não podemos separar a moral da arte porque nesse período a natureza refletia a transcendência de Deus. A consciência da beleza, portanto, é dado metafísico.
            Entretanto, para além dos conceitos pensados por sacerdotes, havia o gosto do homem comum, do artista e do amante das coisas de arte, voltados, vigorosamente, para aspectos sensíveis. Por isso, os sistemas doutrinais da Igreja justificavam e dirigiam esse gosto a fim de que o sensível não ultrapassasse o espiritual. Ao cruzar dois conceitos (metafísico e sensível), a filosofia cristã admite um saber-deleite com a finalidade de melhor amar a Deus, podendo o cristão, portanto, ajoelhar-se diante do amor ornamental. Nessa interseção conceitual, que é reação ao mundano (sensível) e a tensão para o sobrenatural (metafísico) para que os olhos serenos contemplem as coisas do mundo, repousa-se, nesse contraste, nesse ponto de encontro, ela: a paz dos sentidos.
            Duas correntes místicas (a Ordem de Cister, os cistercienses, e a Ordem dos Cartuxos), sobretudo no século XII, opõem-se ao luxo e às figuras na decoração das igrejas: seda, ouro, prata, vitrais coloridos, esculturas, pinturas, tapetes. São Bernardo de Claraval (1090-1153), monge cisterciense, lança-se contra esses supérfluos ou percepções porque eles desviam os fiéis da piedade e da concentração da prece. Patrono da Ordem dos Templários, São Bernardo escreveu as regras dos cavaleiros; pensou a cristandade como força militar, mesma rigidez conceitual concebida na arte.
            Embora houvesse o rigorismo místico de São Bernardo, havia também uma mística que se voltava para o mundo sensível, a do agostiniano Hugo de São Vítor (1096-1141), teólogo mais famoso antes de Santo Tomás de Aquino. Por meio de seu pensamento, o deleite estético provém, efetivamente, do fato de que o ânimo, a alma, reconhece na matéria a harmonia de sua própria estrutura. (ECO, pág. 31). Mas até chegar ao subjetivo de um gosto estético foi um longo percurso. Antes dessa consciência, entretanto, o belo, para o homem medieval, deveria coincidir com o bom. Suger (1081-1151), abade de Saint Denis, concebe a casa de Deus como espaço acolhedor da beleza, encontrando em Salomão e em Pseudo-Dionisio sua justificativa. Suger quem permite a arte gótica no cristianismo. Segundo Erwin Panofsky (1892-1968), o abade concebia a arte como obra teológica, ou seja, o belo associava-se ao que é útil, porque, transmitida pela antiguidade e passada de Cícero a Agostinho e de Agostinho a toda Escolástica, essa ideia afirma que aquilo que é belo é belo em função de algo. No sínodo de Arras, em 1025, havia iniciada uma campanha para permitir aquilo que os simples não pudessem entender por meio da escritura deveria ser aprendido pelas figuras. A pintura deve, pois, embelezar a casa de Deus, revocar a vida dos santos e o deleite dos incultos; um dos problemas da estética escolástica, todavia, foi precisamente o da integração da metafísica do belo com os valores, por exemplo, da unidade, da verdade, da bondade. (ECO, pág. 42).
            Manifestado na visão estética do cosmo, o belo pertence à ordem e, por isso, é propriedade estável e não sentimento poético de admiração. Sistematizado pela filosofia Escolástica conforme a tríade sapiencial (numerus, pondus e mensura; ou modus, forma e ordo; ou substantia, species e virtus; ou ainda constat, congruit e discernit), a Escolástica pensará o belo como noção de propriedades transcendentais, quais sejam, unidade, verdade e bondade, todas retiradas do pensamento grego. Podendo ser pensado como um transcendental, o belo cristão, nos séculos XII e XIII, revive a kalokagathia grega ou a unidade kalos kai agathos (belo e bom), possibilitando a harmônica conjunção de beleza física e virtude.
            Além da arte gótica (segundo parágrafo), que permitiu uma ruptura com a arte bizantina, a espiritualidade franciscana, envolvida com grupos populares, com a realidade material do mundo, com a contemplação da natureza, com o otimismo da vida e com a beleza dos elementos, também influenciou para que fosse percebida na arte a presença do sensível. Não por outro motivo que Giotto expressa o naturalismo da sensibilidade franciscana, podendo ser apreciado na obra A morte de São Francisco.  A presença do sensível, conforme a Ordem Franciscana, veio à luz em 1245, na forma de Summa theologica, obra dos frades Jean de la Rochelle, Frater Considerans e Alexandre de Hales, mas dita Summa fratris Alexandri. Nela, belo refere-se à causa formal, entendendo como forma o princípio substancial de vida, sendo, portanto, ideia aristotélica. “Chamo forma a essência de cada coisa e a substância primeira”, afirma o pensador em sua Metafísica. Assim sendo, a beleza é a disposição da forma em relação ao exterior. Na Summa, bem e belo fundam-se na forma concreta das coisas. Mas, por prudência dos franciscanos, o belo ainda não pertence à série dos transcendentais. Somente após cinco anos, em 1250, São Boaventura escreve em um opúsculo as quatro condições do ser: uno, que concerne à causa eficiente; verdadeiro, à formal; bom, à final; e belo, que abraça todas as causas e é comum a elas. Sendo o belo uno, verdadeiro e bom, o belo atravessa todos os transcendentais.

            Alberto Magno influencia Tomás de Aquino
            Mestre de Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno (1193/1206-1280) retoma dos franciscanos “o belo fundado na forma de uma coisa” por meio de um comentário que, sob o título de De pulchro et bono, figurou por longo tempo entre os Opuscula de Santo Tomás. Para Alberto Magno, “a essência universal do belo consiste no esplendor da forma sobre as partes proporcionais da matéria ou sobre as diversas forças ou ações”. Com isso, permite-se que o belo passe a pertencer verdadeiramente a todo ente a título metafísico. Ao dizer forma e partes proporcionais da matéria, vê-se uma Idade Média inspirada no hilemorfismo aristotélico, isto é, a forma (morfe) compõe-se com a matéria (hyle) para dar vida à substância concreta e individual (ECO, pág. 60). Segundo Alberto, há no hilemorfismo várias tríades de origem sapiencial ou intelectual, quais sejam, modus, species e ordo; numerus, pondus e mensura. Essa “matemática do belo”, todavia, não considera a referência ao ato humano conhecedor como constitutivo do belo em sua própria ratio, sendo, portanto, uma estética marcada por um rigoroso objetivismo. A percepção do outro ainda não existe. Há outro objetivismo: o de que o belo, embora seja propriedade transcendental do ser, revela-se em uma relação em que o homem focaliza o objeto, e esse é pensado por ele - Santo Tomás de Aquino.
            Para chegar à matemática, à lei dos números, Umberto Eco conduz o leitor ao capítulo 3. Depois, amplia essa concepção de estrutura, cuja gênese é Pitágoras. Na condição de causa, princípio, ninguém pode compreender o belo sem antes atravessar o caminho reto dos geômetras, qualquer semelhança com Platão em Timeu, obra onde as formas matemáticas estruturam a Ordem (Cosmo), não é mera coincidência. 
            A arte sensível de um santo
            No capítulo 7 (parte 7.4), Eco escreve que, ao retomar as noções estéticas propostas por Alberto Magno, Tomás de Aquino ocupa-se da visão subjetiva do belo, o que seu professor desconsiderou. Para confirmar essa divisão entre mestre e discípulo, Umberto Eco retira um exemplo da Suma Teológica I, onde bem e belo amalgamam-se na forma, na substância, no que sustenta, isto é, na estrutura. O subjetivo emerge em Tomás porque belas são chamadas as coisas que despertam prazer quando vistas e, se despertam, é porque nossos sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas. Em Tratados das Enéadas, Plotino (205 d. C.-270 d.C.) concebe o belo como simetria das partes para haver a harmonia do conjunto. Tanto proporção quanto simetria são conceitos que alinham o belo à matemática, ou matematismo e belo formam um só cálculo. Os sentidos então são uma espécie de proporção, uma espécie de simetria.
            Foi dito antes que bem e belo fundam-se na forma, sendo que o bem faz com que a forma seja objeto de apetite porque todo ente deseja o bem; o belo, ao contrário, coloca a forma em relação com o puro conhecimento, por ser ele, o belo, aquilo cujo conhecimento causa prazer. Sendo assim, olhar é conhecer, e o deleite estético não passa de uma consequência desse conhecimento, visto que esse ato de adesão deleitosa é determinado pelo belo ou pelas formas matemáticas. A ideia de Tomás traz o subjetivo; ele, porém, é determinado pelo belo ou por conceitos matemáticos, cujo propósito implica apaziguar os sentidos, os apetites. Diferente de Tomás de Aquino, o ato de adesão deleitosa pode ser muito bem um livre ato de efusão concedida à coisa e não determinada por ela, e quem pensa assim é João Duns Escoto (1265-1308), para quem a visão estética é uma faculdade livre, pois seus atos sujeitam-se ao império da vontade. Longe de ser coincidência, essa faculdade livre - subentendam-se as experiências -, Escoto pertence à ordem franciscana, a mesma ordem de Roger Bacon (1214-1294) e de Robert Grosseteste (1168-1253). Todos estudaram na Universidade de Oxford e, entre eles, existe esta linha mestra de conhecimento, qual seja, a experimentação ou a vontade do sujeito.
            Penso ter ofertado uma ideia do que seja este significativo livro de Umberto Ecos. No capítulo 8, Santo Tomás e a Estética do Organismo, o autor detalha mais ainda o que esse pensador conceitua o belo; porém, como início, apresentei uma linha de raciocínio em que pontos importantes foram relacionados.                    
                 

sábado, abril 12, 2014

Eu li muito em...


Ser, eu disse ser, professor é caminho longo, nunca se é professor no começo de profissão. Até descobrirmos que não ensinamos, até descobrirmos que nunca sabemos, levamos um tempo nos enganando como professorais.

Encarnar a leveza de falar a alunos leva muito tempo; um certo bom hálito de alegria em sala, uma certa resistência do afeto, segundo Espinosa, só as horas vagarosas do tempo ofertam à alma e à carne.

Lecionar é para poucos, porque exige de nós uma certa estética da desobediência ordenada, e poucos conhecem a beleza do que ser barroco.

Ser professor é profissão que exige a reinvenção de nós mesmos por formas contraditórias. Quem deseja ser certinho em sala com sua fixa didática jamais será professor.

Lecionei em escolas onde havia todo motivo para eu não ler um bom livro em sala de aula ou no pátio, mas eu lia; eu me alegrava com a leitura; eu exigia atenção com a minha admiração de ler palavras.

Li onde não havia sala de leitura. Li onde não havia quem tivesse interesse por leitura. Li onde barulho incomodava. Li onde me diziam para não ler. Li para alunos que não tinham condições de comprar livro.

Li. Li. Li. E muitos alunos leram comigo. Muitos. Li a vida em páginas. Li muitos filmes também com eles. Quantas vezes fomos ao teatro, ao cinema e aos livros.

Li porque me fiz professor. Li para não ser esquecido por meus alunos como leitor. Enquanto leitor. Leitor.

quinta-feira, abril 10, 2014

Belas e eróticas senhoras (1)

O mito de Eros corresponde à intensidade da vida. Esta senhora de idade possui beleza. 

Não se trata, no sentido depreciativo, de uma velha, mas de uma senhora que ainda deseja ser desejada pela maturidade masculina.

A vovó ainda deseja viver para além das bênçãos dos netinhos.