sexta-feira, outubro 23, 2009

Estou...

Poderiam ter roubado só seu carro. Mas não. Inocente, o professor Marcos foi assassinado.

Professor foi enterrado vivo no terreno da própria casa
De Nayanne Santana

O sequestro do professor universitário de biologia Marcos Afonso Soares, de 46 anos, teve um final bárbaro. Os envolvidos no assalto seguido de morte confessaram à polícia que Marcos foi furado com um facão e enterrado ainda vivo no quintal da própria casa, em um buraco onde uma palheira seria plantada.

Segundo a polícia, Marcos foi enterrado vivo no quintal da residência que construía na rua Margarida, bairro Nova Esperança. Peritos do Instituto Médico Legal (IML) foram deslocados para a residência do professor universitário na noite de ontem para remover o corpo de Marcos do local.

Os envolvidos
De acordo com informações preliminares da polícia, entre os envolvidos, um menor de idade.

O mistério sobre o sequestro começou a ser desvendado no início da noite desta sexta-feira, dia 23, quando dois homens foram presos em Xapuri.

Depois das investigações, a polícia chegou aos irmãos Jéferson da Silva Gomes e Cláudio Sérgio da Silva Gomes. Eles seriam comparsas de Valtemir Soares da Silva, que foi contratado para fazer as grades da residência que Marcos estava reformando no bairro Nova Esperança.

A polícia prendeu os três no ramal da Alcoobrás. A prisão foi feita pelos delegados das cidades de Xapuri e de Capixaba e pelos agentes da Polícia Civil de Rio Branco.

De acordo com a polícia, os assaltantes venderam o veículo do professor na cidade de Cobija, na Bolívia. (Nayanne Santana)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Comprador de palavras

Você compra papel higiênico para limpar a bunda. Você compra roupa para esconder tua vergonha. Você compra feijão para não passar fome. Mas você não compra palavras para (des)cobrir a vida.










Há anos, sou um comprador de palavras. Tinha 17 anos quando meus olhos conferiram o valor que elas tinham. Eram estranhas como os estrangeiros, diferentes dos ruídos da rua e das superficialidades das novelas. Eram opostas ao meu pai e à minha mãe. Eu não as entendia. Guardei-as como começo de minha biblioteca.

Comprei o que não entendi. Leva tempo para que o comprador amadureça para perceber que palavra não é coisa, produto ou objeto. O proprietário da livraria, sabemos, é comerciante, porém palavra não é mercadoria. Vida, eis o que ela é.

Eu, um mero comprador de palavras aos 17 anos, tive de amadurecer para compreender o meu primeiro livro, onde as palavras, em estado pleno de silêncio, só emitiram vozes com sentido quando meus olhos souberam ler para muito além da aparência.

Até hoje, debruço meus olhos sobre o parapeito de páginas para abrir as palavras e assim dar sentido às paisagens. Abro livros para (des)cobrir por meio de palavras o que a vulgaridade espessa da rua oculta.

Ler Drummond. Neruda. Ler Pessoa. Leminski. Ouvir Caetano. Cazuza. Ler poesia, porque, atrás da aparência, o verso, o outro lado, o que se esconde, revela. O verso desperta e reconvoca por inteiro o nosso puro poder de expressão para além das coisas já ditas ou já vistas.

Assista a "O Carteiro e o Poeta".


quarta-feira, outubro 21, 2009

Greve

Servidores da Justiça e da Ufac realizam paralisação
De Freud Antunes

Os servidores administrativos da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Tribunal de Justiça (TJ) do Estado realizaram uma paralisação de 24 horas ontem para reivindicar melhorias trabalhistas.

Os técnicos da Universidade até bloquearam a entrada de carros na instituição, exigindo o cumprimento de todos os acordos firmados em 2007.

Os funcionários da Justiça abandonaram as repartições e aglomeraram-se na frente do Fórum Barão do Rio Branco para protestar contra a determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que aumentou em duas horas a jornada de trabalho, passando de 6 horas para 8 horas diárias.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Terceiro Grau (Sintect), José Alberto Lotte, o governo federal tem cumprido parte do acordo acertado que oferece um reajuste progressivo até 2010, mas deixou de realizar concurso público, o reposicionamento funcional, a progressão para o aposentado, a liberação do sindicalista para ficar à disposição da entidade e o vale-alimentação.

“As exigências fizeram parte do acordo, mas, agora, os técnicos do governo federal afirmam que não estão autorizando, porque a arrecadação caiu, o que não admitimos”, afirmou Lotte.
A presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário (Sispjac), Rosane Ferraz, disse que 75% da categoria aderiu ao movimento.

“Eles querem que um servidor trabalhe mais horas sem aumentar o seu salário. Isso não é justo, pois teremos maiores gastos. Um trabalhador contratado para exercer sua função em seis horas não pode ter sua carga horária alterada assim”, protestou a sindicalista.

O representante do Sintest afirmou que os técnicos administrativos estão dispostos a entrar em greve por tempo indeterminado caso não haja um acordo.

As mobilizações seguem determinações das federações que organizaram uma paralisação em 45 universidades e em todas as repartições da Justiça.

sábado, outubro 17, 2009

Alunos, avaliem seus professores

Hoje, se alunos interessados desejarem, eles avaliam seus professores por meio de um blogue. Eu gosto muito dessa clareza para perder ou para ganhar.

Neste ano, disse às turmas que deveriam criar um blogue para criticar minhas aulas com equilíbrio. Eles poderiam filmar, fotografar. Algumas criaram. Mas devo repensar melhor a função do blogue de aluno para as minhas aulas. O blogue deve fazer parte de um processo avaliativo também para o aluno. Preciso pensar melhor isso.

Alunos avaliam de forma positiva seus professores.

1. Aldo (Português) 22 votos (73%)
2. Vanessa (Espanhol) 15 votos (50%)
3. Sezimária (História) 12 votos (40%)
3. Valdir (Física) 12 votos (40%)
4. Deiz (Geografia) 10 votos (33%)
4. Maria Célia (Arte) 10 votos (33%)
5. Gleide (Biologia) 8 votos (26%)
6. Roselva (Filosofia) 6 votos (20%)
7. Edinelson (Edu.Física) 4 votos (13%)
8. Ivo (Matemática) 3 votos (10%)

À professora-gestora Osmarina

Querida Osmarina, sempre defendi na nossa escola a clareza, a retidão, o diálogo, ideias que promovessem um ensino melhor. Uma dessas ideias, a avaliação. Não podemos recriar uma escola pública sem que alunos avaliem seus professores.

Avaliar, por que não?
No primeiro semestre, houve essa avaliação e nós concordamos que houve falha, qual seja: nem todos os alunos podem avaliar. O professor bricalhão, aquele que passa todo mundo, sabemos, obtém boas notas, e muitas notas.

Antes de o aluno avaliar, é preciso haver uma seleção para sabermos quais alunos avaliarão. Alunos responsáveis, jovens dedicados ao estudo, ao respeito; alunos que desejam um escola pública melhor para que suas vidas sejam transformadas.

Eu, por exemplo, quando sei que serei avaliado, procuro ainda mais fazer o melhor para meus alunos. Como servidor do Estado do Acre, devo saber por meio de uma pesquisa estudantil o que sou como professor em uma sala de aula. E mais: tal pesquisa deve se tornar pública por meio do sítio (site) da escola.

Sua gestão está entrando no terceiro ano e penso que deveríamos proporcionar essa avaliação ainda no segundo semestre de 2009.

O lúdico
Outra proposta, Osmarina, atividades lúdicas. Elas deveriam ocorrer duas vezes por mês. A competição entre turmas motiva quem até não gosta de estudar. Pela primeira vez, realizaremos um gincana só de conhecimento na escola, mas, para o próximo ano, poderíamo realizar duas por mês, combinando aulas tradicionais com aulas "desorganizadas" pela brincadeira.

Pense nisso, menina!


sexta-feira, outubro 16, 2009

Salário dos professores

Salário médio dos professores da Educação Básica brasileira
Fonte: MEC

1. Distrito Federal R$ 3.360
2. Rio de Janeiro R$ 2.004
3. São Paulo R$ 1.845
4. Mato Grosso do Sul R$ 1.759
5. Roraima R$ 1.751
6. Rio Grande do Sul R$ 1.658
7. Paraná R$ 1.633
8. Acre R$ 1.623
9. Amapá R$ 1.615
10. Sergipe R$ 1.611
11. Amazonas R$ 1.598
12. Tocantins R$ 1.483
13. Minas Gerais R$ 1.443
14. Mato Grosso R$ 1.422
15. Pará R$ 1.417
16. Espírito Santo R$ 1.401
17. Rondônia R$ 1.371
18. Santa Catarina R$ 1.366
19. Goiás R$ 1.364
20. Maranhão R$ 1.313
21. Alagoas R$ 1.298
22. Rio Grande do Norte R$ 1.232
23. Ceará R$ 1.146
24. Bahia R$ 1.136
25. Piauí R$ 1.105
26. Paraíba R$ 1.057
27. Pernambuco R$ 982

Pré-Conferência Estadual de Comunicação

Infelizmente, não pude comparecer à pré-Conferência Estadual de Comunicação por causa do trabalho. Pela TV, assisti ao final. No palco, Aníbal Diniz, Marcos Afonso, Carlos Alberto e Toinho Alves. O organizador, Jorge Henrique.

Na plateia, duas pessoas ficaram em minha memória. Uma questionou o governo sobre a possibilidade de um jornalista formado trabalhar na imprensa oficial. Em sua resposta, Aníbal, representando a comunicação pública, disse que o governo não pode dar emprego a todos os jornalistas. Concordo. Ele só respondeu sem responder. Fugiu à pergunta.

Ausência de Espírito Republicano

A questão é que o governo só dá emprego a quem quer. É o governo quem escolhe o jornalista que trabalhará na imprensa para reproduzir os clichês oficiais. Nesse aspecto, o governo não tem "espírito republicano", ou seja, não oferece oportunidade igual a todos os jornalistas por meio de concurso público.

Quem trabalha na TV Aldeia? A escolha é pessoal, partidária, e isso se opõe ao espírito republicano. Isso, além de ser desigual, não seleciona os melhores. Repito: Aníbal não respondeu.

Toinho Alves foi muito feliz em suas colocações. Como pessoa pública, só gosto dele quando provoca, polemiza. "Sou a favor de o governo não dar mais dinheiro aos jornais e nem às TVs", ele disse. "A imprensa oficial está matando o talento de jovens que trabalham na imprensa oficial".

O Edinei Muniz tentou fincar na pré-conferência o maniqueísmo oposição x situação, o que é um erro. Deveria haver mais encontros sobre outros temas, sindicatos deveriam promover reflexões para guiar novas práticas sociais.

Faltou à esse breve encontro, entretanto, uma temática definida, reflexões sobre um tema específico. Na verdade, até houve, mas faltou comunicação.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Professor. Ausente.

Hoje, dia do professor. Se realizarmos uma pesquisa em um pré-vestibular, constataremos que poucos, muito poucos, desejam ser professores. Nem precisamos de pesquisa. Na Universidade Federal do Acre, a relação aluno-vaga não é maior nas faculdades que formam professores.

Como consequência, a Ufac coloca tão poucos profissionais na rede pública de ensino que falta professor em certas disciplinas, por exemplo, em física.

Esse não querer ser professor justifica-se por vários motivos, um deles: o salário. Após quatro anos na Faculdade de Letras, esse profissional, se passar no concurso da Secretaria Estadual de Educação, receberá por mês R$ 1.520, lecionando 30 horas. Esse salário é líquido.

Até que apareça um segundo contrato, ele irá esperar anos e anos. Até lá, deverá lecionar na rede privada, isto é, salário menor e mais turmas, umas dez.

Leciono há quase vinte anos, 12 dedicados ao Acre. Hoje, por causa da Frente Popular, ou seja, do PT e do PC do B, as condições do professor melhoram, porque, se compararmos à política educacional dos ex-governadores Romildo Magalhães e Orleir Cameli, o pouco já seria muito.

O fato é: houve melhoras. Repito: melhoras - eu não disse revolução. E existe revolução?

Não creio que exista revolução, pelo menos, no sentido clássico. Deveria haver uma nova ordem escolar, uma ordem que soubesse entrelaçar tradição & modernidade.

domingo, outubro 11, 2009

Perigos da obediência

Livro e filme retratam como a sociedade administrada e a manipulação da linguagem desenvolvem no indivíduo o ódio pelo outro

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" -e haveria outras a lembrar.

Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.

O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".

Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.

Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.

Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.

Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.

Forças destrutivas
À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...

Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".

Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".

Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.

Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.

Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.

Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".

Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.

(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.

Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.

O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).

Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.

O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.

Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.

Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".

Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.

Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.

A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Binho Marques, o governador

Quando um médico negligencia, o problema é visível, concreto, palpável, porque transforma ser humano em cadáver. No Acre, um homem da medicina, segundo informações, aplicou uma dose forte de indiferença em uma criança.

Ela morreu na noite de quinta-feira, na Fundação Hospitalar. Com convulsão, a enfermeira avisou ao médico que a criança encontrava-se na sala de descanso, e ele disse que somente a internaria na sexta pela manhã. Mas não houve manhã para um inocente.

A mãe denunciou o médico no Ministério Público, e o governador o demitiu sumariamente. A equipe do hospital também sofreu sanção disciplinar.

No hospital, a morte evidencia-se. E na escola? Em uma sala de aula, o corpo não morre, mas vaga sem espírito na Nação por causa da negligência de um professor, de outro professor. Por causa de uma escola pública.

Nesse caso, o que um governador pode fazer?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Qualidade de ensino

Quando meus olhos debruçaram-se sobre as redações de meus alunos do segundo ano do ensino médio, percebi com muita clareza que nas séries anteriores seus textos jamais foram refeitos em sala de aula. "Professor, eu nunca estudei dessa maneira redação", compara um aluno.

Neste semestre, apresentei a eles a proposta de redação do Enem de 2005. Não comentei, só entreguei. Não houve uma só redação que usasse os dados da proposta.

Em um segundo momento, retirei com eles as ideias principais e a relação entre essas ideias. Além disso, por estar submersa no texto, coloquei uma informação na superfície. Depois disso, iniciaram-se escrita e reescrita.

A princípio, colocar números, uma região brasileira, o jornal "O Globo" e o IBGE na introdução deveria ter sido tarefa simples mas não foi. Para colocar na ordem, precisei de quase 16 aulas, e alguns não conseguiram.

Rayana Souza conseguiu após ter reescrito várias vezes. Em 4 de setembro, ela escreveu:

"O trabalho infantil hoje em nossa sociedade é cada dia mais comum. Famílias que não tem uma estabilidade financeira acabam colocando as crianças para trabalharem nos sinais vendendo bala, limpando vidros de carros e algumas chegam até à prostituição."

Escreveu e reescreveu. Escreveu e reescreveu. Após as minhas tantas observações, o seu texto ficou assim:

"Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados pelo jornal 'O Globo' em 11 de maio de 2004, 5.438 milhões de crianças e de adolescentes submetem-se ao trabalho escravo nesta 'Pátria amada'. O Nordeste, região mais religiosa do país, possui o maior índice de exploração, 2.296 milhões (42.2%). O poder público, por sua vez, não atua como deveria."

Quando leio um texto desse após muitas tentativas de uma aluna, peço a Deus sabedoria e esforço incansável para transformar a vida (textual) de meus alunos.

Não tenho tempo para reclamar de meus alunos. Professor que reclama de aluno assemelha-se a um médico que reclama de um paciente por estar enfermo.

domingo, outubro 04, 2009

Uma noite com Saramago

No sábado, dia 3, fui ao teatro assistir ao texto "Levantado do Chão", de José Saramago. Quatro turmas do ensino médio foram convidadas, um total de 120 alunos. Uns 20, entretanto, compareceram.

Se fosse Expo-Acre, comprariam até botas e calças para ficar na moda.












Saudável e equilibrada a socieadade que mais teatro tem do que igrejas neopentecostais.












Final do espetáculo. Os responsáveis pelo teatro no Acre precisam retirar o ato estético dos lugares fechados para interromper o espaço urbano. Imagino textos teatrais manfestando-se ao mesmo tempo em várias partes de Rio Branco.

O teatro popular entrando em ônibus, personagens surpreendendo com falas e com gestos a mecânica do urbano.

sexta-feira, outubro 02, 2009

O mundo do revisor

Nesses anos trabalhando como revisor em redações, cometi o grave erro de não registrar momentos que comovem a língua portuguesa, por exemplo, este:

"Policiais evitaram que o cachaceiro Raimundo Silvestre Dias colocasse fim em sua própria vida através do suicídio."

quinta-feira, outubro 01, 2009

"Sopão enche o bucho"

Hildebrando perde patente, e
direitos políticos de Romildo Magalhães são cassados

De Nayanne Santana

O juiz substituto Luís Gustavo Alcade Pinto, responsável pela 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Rio Branco, julgou como procedente uma ação civil pública na qual os réus são ex-deputado federal Hildebrando Pascoal e o ex-governador Romildo Magalhães.

A ação, impetrada pelo Ministério Público Estadual (MPE), pedia a perda da patente de coronel de Hildebrando e punição para ex-governador Romildo, que beneficiou o ex-deputado com a elevação de patente.

“As condenações que envolvem Hildebrando são a nulidade do Decreto 754/94, que promoveu o réu de tenente-coronel para coronel, determinado a perda da patente. A segunda condenação é a nulidade do Decreto 784/94, que o transferiu para reserva remunerada, e a terceira condenação é perda dos valores acrescidos ilegalmente nos valores dele. Ele também fica com os diretos políticos cassados por dez anos”, explicou.

Segundo o documento, o ex-deputado Hildebrando Pascoal deve perder a patente de coronel da Polícia Militar, e Romildo Magalhães deve ser punido, porque promoveu Hildebrando de tenente-coronel para a patente de coronel sem respeitar os requisitos legais. O juiz explica que Hildebrando é réu, porque ele se beneficiou dos decretos, porque houve aumento salarial e, por conseqüência, aumento de bens ao mudar de patente.

“Logo após a promoção ilegal, que foi feita por meio do Decreto 754/94, o ex-governador editou um novo decreto [Decreto 784/94] e transferiu o então coronel Hildebrando para a reserva remunerada, porque ele havia sido eleito em dezembro [de 1994] a deputado estadual, então ele não poderia acumular duas funções”, detalhou o juiz Luís Gustavo.

De acordo com o magistrado, o processo que pede a perda da patente de Hildebrando e a punição ao ex-governador Romildo Magalhães foi pedido pelo MPE em 4 de julho de 2000.

Punições a Romildo

A sentença do juiz Luís Gustavo Alcade poderá causar transtornos ao ex-governador Romildo Magalhães, que tinha pretensões de ser candidato em 2010. Entre as punições aplicadas, consta na sentença que Romildo ficará com os direitos eleitorais cassados por oito anos.

Ele também fica impedido de participar de licitações públicas e, caso exercesse função pública, teria de deixar o cargo. O ex-gestor estadual também poderá fazer parte do pagamento da dívida que Hildebrando adquiriu com o Estado ao ser beneficiado por decretos ilegais de Romildo. O ex-governador poderá efetuar pagamento solidário caso o ex-deputado encontre dificuldades para quitar a dívida.

O juiz substituto Luís Gustavo ressalta que os réus podem recorrer da decisão.

Alcilene, e agora?

A professora Alcilene foi escolhida como presidenta do Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac). Os jornais não deram uma nota. Eleita, espero que agora ela cumpra ideias essenciais ao sindicato.

Novo Jornalismo
Um delas - e tenho falado disso muitas vezes - é o jornalismo sindical. Da forma como se encontra hoje, é ratificar uma asnice. Que os informativos permaneçam, mas um jornal que ultrapasse os limites dos clichês sindicais, caso chegue agora, hoje, já chega atrasado.

Não há no Acre informação séria e profunda sobre educação pública. O governo, sem dúvida, melhorou o ensino, porém criou mitos e, o que é pior, monopoliza uma informação superficial e narcísica sobre essa educação.

O jornalismo sindical, se for reimpresso pelo Sinplac, não deve ser criado para ser opor ao governo, mas para expor matérias bem trabalhadas e imparciais à sociedade acriana. Um jornal não para professores. Um jornal não contra o governo. Um jornal para a sociedade. Um jornal para a educação pública - esse bem muito acima de partidos, de pessoas, de grupos, de ideologias.

O Sinplac, caso a professora Alcilene cumpra, deverá possibilitar um jornalismo sindical independente do próprio sindicato. Livre e absurdamente ético e responsável, criado por profissionais que saibam escrever bem, que sejam inquietos e atrevidos. Gente inteligente.

Alcilene, irei cobrar!!! sempre!!!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Em época de Enem, eis as pérolas

1) "o problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta." (percussão e estalos. Vai ficar animado o negócio)

2) "A amazônia é explorada de forma piedosa." (boa)

3) "Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar planeta."
(tamo junto nessa, companheiro. Mais juntos, impossível)

4) "A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu."
(e na velocidade 5!)

5) "Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta."
(pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

6) "O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação."
(pleonasmo é a lei)

7) "Espero que o desmatamento seja instinto." (selvagem)

8) "A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo." (o verdadeiro milagre da vida)

9) "A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta."
(também fiquei emocionado com essa)

10) "Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis."
(todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro, e realizar uma árvore renovável)

11) "Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas."
(esqueceu que também ficam sem o home theater e os dvd's da coleção do Chaves)

12) "Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna."
(amém)

13) "Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza."
(e as renováveis?)

14) "A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica."
(deve ser culpa da morte ecológica)

15) "A amazônia tem valor ambiental ilastimável."
(ignorem, por favor)

16) "Explorar sem atingir árvores sedentárias."
(peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões)

17) "Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia."
(o quê?)

18) "Paremos e reflitemos."
(beleza)

19) "A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas."
(onde está o Guarda Belo nessas horas?)

20) "Retirada claudestina de árvores."
(caraulio)

21) "Temos que criar leis legais contra isso."
(bacana)

22) "A camada de ozonel."
(Chris O'Zonnell?)

23) "a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor."
(a solução é colocar lá o pessoal da Zorra Total pra cortar árvores)

24) "A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração."
(para fabricar o papel que ele fica escrevendo asneiras)

25) "A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo dsmatamento devastador, intenso e imperdoável."
(campeão da categoria "maior enchedor de lingüiça")

26) "Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação."
(NÃO!)

27) "Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises."
(gênio da matemática)

28) "A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes."
(red bull neles - dizem as árvores)

29) "O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório"
(ótima)

30) "O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando."
(subindo!)

31) "Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc."
(deve ser a globalização)

32) "Convivemos com a merchendagem e a politicagem."
(gzus)

33) "Na cama dos deputados foram votadas muitas leis."
(imaginem as que foram votadas no banheiro deles)

34) "Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia."
(oh god)

35) "O que vamos deixar para nossos antecedentes?"
(dicionários)

terça-feira, setembro 29, 2009

Partidarização, Osmarina e um Prêmio

Nos jornais acrianos, carros batem em postes todo dia, policiais prendem marginais e drogas são apreendidas, porém não sabemos o que ocorre na escola pública. Só sabemos dela quando o governo a propaga por meio dos veículos de comunicação de massa.

Mas a propaganda de governo não emite uma imagem reflexiva sobre educação pública. Por meio dos jornais, da TV e do rádio, o governo da Frente Popular se elogia, confinando a escola à condição de um objeto superficial.

Antes, propagava-se que tínhamos o melhor salário do país. São Paulo, governo do PSDB, paga o melhor salário hoje. Quando os resultados são negativos, os dados do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, não servem. Quando são positivos, servem.

No Acre, a escola pública é objeto da partidarização. Os sindicatos da educação poderiam transformar a rede pública de ensino em discurso reflexivo; suas lideranças, porém, sempre foram incapazes disso.

Partidarização da escola pública

Desde 2003, quando comecei a lecionar na escola Heloísa Mourão Marques, vi a presença cancerígena de partidos políticos com a finalidade única de colocar na gestão escolar pessoas de seus interesses.

Por ser um erro, o atual processo eleitoral permite essa partidarização na escola. Quem padeceu com a presença de partidos de esquerda foi a professora Osmarina. Difamaram-na e, por causa disso, perdeu muitas eleições.

Porque o partido escolheu, submeteram o corpo docente a aceitar depois pessoas incapacitadas para coordenar o ensino. Entretanto, com muito jeito, com muita articulação, a professora Osmarina foi escolhida após tantas derrotas. Colocar o professor Gleidson como coordenador de ensino também não foi fácil.

Os vícios do setor público

Hoje, a escola não deixou antigos problemas. Funcionário, por exemplo, quebra um cabo de DVD, mas acha que não deve pagar. Professor acha que não deve ser cobrado. Mesmo assim, a escola apresenta outra imagem por causa da gestora-professora Osmarina.

Embora trabalhe para melhorar a escola, dois professores a processaram. Quando a antiga gestora (?) deixava a escola por um mês, esses dois professores calaram-se.

Algo simples. Para muitos, sem importância. A escola Heloísa Mourão Marques recebeu um prêmio por causa de um projeto interdisciplinar (foto). Nem todos lutam para que a escola pública seja premiada. Osmarina luta. Gleidson luta.