quarta-feira, julho 28, 2010

Cine-Escola: "Tristão e Isolda"

Como meu pai, de 78 anos, irá se submeter a uma cirurgia, viajarei no dia 17 de agosto e, se tudo ocorrer bem após a operação, retornarei depois de um mês; entretanto, se houver algum problema com ele, voltarei após quatro ou sete meses.

Espero estar aqui em 17 de setembro para dar continuidade ao cine-escola, uma ideia da professora-gestora Osmarina. Em 7 de agosto, sábado, às 17 horas, os alunos assistirão ao belo filme Tristão e Isolda, de Kevin Reynolds.

Essa narrativa romântica chegou ao Brasil em 23 de junho de 2006, mas, como nossos alunos não têm hábito de assistir a bons filmes, muitos não apreciaram Tristão e Isolda. Escolhi essa película por causa de seu romantismo - conceito em decadência desde o final do século 20.

Hoje, predomina entre jovens a atração física, não o sentimento. Eu e o professor Guilherme comentaremos o filme, sendo que cada um terá direito a 10 minutos de fala. Os outros 10 minutos serão para os alunos tirarem suas dúvidas.

A Heloísa Mourão Marques fará de seu espaço um encontro para a cultura do cinema. Temos um bom auditório e uma boa tela, por isso precisamos colocar o cinema no currículo, podendo haver um encontro entre as disciplinas de História, de Filosofia e de Literatura por meio do cinema. Alunos não assistirão a bons filme se esses filmes não passarem pela escola.

Que Deus permita eu retornar após um mês, porque, além de mais filmes, realizaremos o nosso evento musical.

domingo, julho 25, 2010

Salvando Vidas

Na foto abaixo, os outros alunos já tinham entrado no ônibus depois de eles assistirem a uma peça de teatro que apresentou a política brasileira de 1961 a 2010, de Jânio Quadros a Lula. Distante de salas desconfortáveis, a história foi prazerosa no teatro.

Por meio desses encontros culturais, alunos se relacionam com o professor de uma forma que me fascina, porque, longe da sala, longe daquele ambiente nocivo ao afeto, a relação torna-se leve, pessoal.


Em 24 de julho, às 19h25, quando o ônibus parou diante da escola, 61 alunos da Heloísa Mourão Marques entraram no veículo não para ir à Expo-Acre mas para ir à Usina de Arte.

No lugar de bois, de vacas e de fezes, a peça teatral 1961-2010, da ZAP 18. No lugar daquele ruído sertanejo, o espetáculo se abriu com a música O Pulso, dos Titãs.

Vejo como anormal ou como bizarra patologia coletiva pessoas passarem por um corredor para contemplar espécime de gado e bosta de animais. O deputado estadual Moisés Diniz, do PC do B, afirmou certa vez que a Expo-Acre é a maior festa popular acriana.

Vergonhoso um deputado neocomunista declarar isso. No entanto, vindo do PC do B, não é nenhuma surpresa, porque esse partido nunca assimilou em sua história o sentido do que seja popular.



Se depender de mim, sempre salvarei a vida de meus alunos da Expo-Acre. Levá-los-ei sempre à autêntica cultura popular: o teatro.


Triste a cidade que tem como "maior festa popular" um lugar onde pobres não podem comprar e andam em círculo à margem do consumo, onde pessoas passam por uma baia para admirar animais de ricos fazendeiros, onde o rico exibe uma identidade que o pobre deseja e inveja.

A isso, autoridades chamam de desenvolvimento. Ainda bem que, por meio do teatro, salvei algumas almas da mediocridade, pelo menos naquela noite.

sexta-feira, julho 23, 2010

Faltam 24 dias

Eu, esta individualidade contorcida, deformada por um grau saudável de anormalidade em sala de aula, leciono há 20 anos, talvez mais, porque, desde minhas 14 ou 15 primaveras, desejei pagar minhas contas com inquietude de lecionar.

Eu leciono para não morrer.

Em sala, quando o cansaço não me domestica, meus alunos percebem em mim a voracidade de lecionar. Minha palavra se rebela, ou seja, nela, pulsa o gesto livre de ler um livro ou de refazer textos. Não admito aula sem vida intensa. Meu palco, a sala.

Mas meu corpo já dá sinais de imperfeição. Um dor aqui. Uma dor ali. Há quase 14 anos na rede pública de ensino, não tirei sequer uma licença-prêmio. Preciso de mim para eu cuidar de mim. Partirei no dia 17 de agosto e, como a vida não é cálculo matemático, isto é, a vida é inexata como as nuvens, não sei quando retornarei.

Meus pais também precisam de mim. A imperfeição deles está bem exposta, muita mais do que a minha.

Já sinto saudade de meus alunos e de meus ex-alunos. Por causa disso, por causa de uma partida e de um retorno "não sei quando", tenho ficado nos corredores conversando com eles. Gosto de ouvi-los. Gosto de ouvir suas vidas.

Prometi a alguns deles que, pela manhã, antes de entrarem em sala, dedicarei poesias a cada. Sentados no banco do pátio, ouvirão Fernando Pessoa, Drummond, Chacal, Cazuza e outros tão desobedientes como a juventude.

No primeiro dia, dei a um deles estes versos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
.

Um abraço fraterno em seus destinos!







quarta-feira, julho 21, 2010

O Enem da escola HMM

Em 2008, com 53 unidades escolares do estado do Acre, a escola Heloísa Mourão Marques ficou na 4oº posição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Em 2009, com 48 escolas, Heloísa Mourão Marques subiu 22 posições, ou seja, 18º lugar.

sábado, julho 17, 2010

Matar Aula

Um dias desses, quando o tempo estiver cinzento e frio, quando uma aula não tiver nada a dizer e for mais fria, pularemos o muro da escola não por sermos moleques, mas por estarmos cansados daquele professor que não nos alegra com o saber. Negar quem não soube escolher ser professor.

Depois de deixarmos aquela triste sala de aula, não seguiremos os alunos do filme Sociedade dos Poetas Mortos. No lugar da caverna, uma praça com um campo de futebol. Jogaremos bola, cultivaremos a amizade.

Não serei professor; serei alguém com quem se brinca em um dia frio. Matem aulas, não sempre, às vezes, eu mesmo matei algumas, porque mereciam morrer ou aulas me matariam antes de tédio, de vazio. Só não matem a vida jovem que pulsa em vocês.

A teus olhos, entrego-lhes esta estrofe de Lamartine, poeta romântico.

Tempo! suspende o voo; em tantas alegrias,
Parai, horas propícias!
E dexai-nos gozar de nossos belos dias
As rápidas delícias!

sexta-feira, julho 16, 2010

Cine-HMM

Quando o professor deseja outra trilha, os alunos gostam. Começamos a possibilitar o bom cinema na escola, é o Cine-HMM. A primeira sessão está marcada para 7 de agosto, das 17h às 19h, com direito à pipoca e ao refrigerante.

Primeiro filme, ei-lo: Tristão e Isolda.

Tudo organizado para a venda de bilheteria antecipada, além da propaganda, da decoração. Voltarei a escrever sobre isso.

terça-feira, julho 13, 2010

Tua liberdade

Não vejo outro sentido da liberdade do que este: proporcionar bons encontros, por exemplo, com tua boca, com teu olhos, com teus seios, com teu ventre. Não concebo a palavra liberdade como forma sonora para criar o mal, isto é, para destruir o outro ou as coisas.

Hoje, após a traição de tua mãe, a indiferença de teu pai e a rejeição de tuas irmãs, restou tua sombra, mas saiba que, ao meio-dia, nem a sombra fará companhia a ti. Tu estás com teu nome. Aprenda a viver com teu nome após sua recusa de ser submissa à imagem sagrada e covarde da família embora nunca deixe de amá-la no fluxo intenso das contradições.













Teu corpo pertence a tua palavra, ninguém fala por ti agora. É hora de saber o que diz, de ouvir tuas fraquezas com ajuda de teus medos. Estás livre, ou seja, alegra-te, tu estás sozinha para fecundar encontros, derrotas, tentativas, recomeços, novas derrotas, sorrisos.

Livre para ter a certeza de que até a morte agora é só tua. Não é mais mãe e irmãs que dizem quem és, que a culpa é tua, porque, agora, tu estás livre para saber com sabor quem és. Mate o deus de tua família e recrie Um que está muito além da Bíblia mal lida e nem lida que tua família cultiva no jardim cínico da injustiça.

Se mãe e irmãs inventaram um deus para te crucificar, mate-o com a tua liberdade e assuma o milagre maior que o Criador, acima da religiões, guardou para teu destino: teu nome.

Assuma teu nome para alegrar a vida de quem te tocar.

sábado, julho 10, 2010

Gramática

Neste sábado, às 8h15, comecei a lecionar Redação para alunos do terceiro ano B.

Abri a aula com o DVD da banda Capital Inicial, a música foi Primeiros Erros. Escolhi essa letra por causa do termo "onde".

A maioria dos alunos não sabe empregar "onde", por isso Primeiros Erros.

Foram 35 questões. Aqui, deixo estes exemplos:

1. Esta é a sala onde estamos.
Se estamos, estamos "em algum lugar" (onde).

2. Este é o estádio aonde fui ontem.
Se fui, fui "a algum lugar" (aonde).

3. Não concordo com a ideia em que a teoria se baseia.
Se a teria se baseia, ela se baseia "na ideia"; mas, como "ideia" não é "lugar", não se usa "onde" mas "em que" ou "na qual".

sexta-feira, julho 09, 2010

O Milagre da Carne

Em um mundo onde ser vulgar é a regra até em igrejas, a poesia salva a palavra Corpo. Há dias, engravidei-me de poesia e, horas suadas depois, meus dedos pariram palavras que abençoam minha Carne e minha Alma. Ei-las:

Milagre

Em igrejas à espera de milagres,

eu, à margem do corpo de Cristo,
entre o fim da tarde e a chuva fina,

ajoelho-me e, por teu nome, rezo a finco.

Que teu corpo nu - sem espinho, sem prego e cruz -
traga, como novo messias, à minha esperançosa carne,
o milagre de tua luz:

chama, despido corpo, me chama, e eu, safado santo,
subo ao sagrado altar, tua cama, para ser pecador feliz.

Sinto pena das igrejas, sinto tanto.

Para teus fiéis, me eternizo surdo, e tua língua nem falo.
Mas, em tua boca litúrgica, batizo-me com tua saliva.

Teu gozo, abençoada prece. Teu corpo, como não amá-lo?

E, sem crer no pão e no vinho, molho minha semente em tua fissura para germinar vida.
Entre tuas pernas, minha reza, meu clímax: Deus, eis a oferta!!!

Olhe no meu olho, Amada, olhe, veja-nos e sinta!!!

domingo, julho 04, 2010

O filme "Educação"













Pouco mais de quatro meses depois, Educação, da dinamarquesa Lone Scherfig, encontra-se na locadora Tenny Vídeo, em Rio Branco. Sem apresentar uma narrativa surpreendente, o filme é morno; porém, mesmo assim, não se trata de uma película ruim.

Mais do que a relação entre uma adolescente culta de 16 anos e um homem sedutor de 40, o filme é um conflito entre a liberdade e a tradição escolar. Ponte para a estudante Janny chegar a Oxford, a escola é inútil diante da cultura que David oferece à jovem; entretanto, ainda sim, no final, prevalece a tradição da escola inglesa.

Após uma decepção, Janny se salva não por causa da liberdade, mas por causa da tradição que impõe o saber clássico. A ordem garante à estudante Janny a verdadeira liberdade.

sábado, julho 03, 2010

Ouvir e dançar na escola

"Por favor não exclua do repertório Nando Reis, Cássia Eller, Vange Leonel, Edson Cordeiro, Zélia Duncan, Ney Matogrosso e Zeca Baleiro. Gostei de sua idéia, aliás gosto de tudo que você expressa no seu sítio, custa crer que você é real e está acessível, mora bem aqui, no Acre! Incentive-os principalmente a serem tolerantes com tudo e todos sem rotular ninguém dentro de um gênero musical ou comportamental. Abraços."

Nielsen O. M. Braga, obrigado por sua palavras. Não sei se uma festa com boa música em uma escola pública dará certo, porém tentarei com meus alunos. Por que realizar isso?

Não sei se você conhece a escola José Ribamar Batista, localizada no bairro Aeroporto Velho; mas, se conhece, você sabe que não pulsa vida cultural ao redor da escola. Perto do Ginásio Coberto, existe um pálido lugar de lazer. Fora isso, bairros como o Aeroporto Velho, não passam de dormitórios, isto é, casa-trabalho-casa.

Além de igrejas e de bares, cultua-se televisão. Não há teatro, não há cinema. À Usina de Arte João Donato, quem não tem carro não vai. Diante disso, a escola, à noite, é vazia, é um espaço público inutilizado, a não ser quando um pastor ocupa-o para pregar uma enfadonha fé.

O governo petista, nestes 12 anos, nunca cogitou transformar a escola em espaço cultural, ou seja, um espaço para o cinema e para a boa música. Quando construiu auditórios nas escolas, a Secretaria Estadual de Educação teve a inteligência de não construir um lugar também para alunos assistirem a bons filmes.

A escola poderia ser um confortável lugar para projetar a cultura do cinema para os alunos.

Como eu não espero o messias para me salvar e nem o PT para fazer revolução educacional, eu e meus alunos ouviremos músicas de 1960, de 1970, de 1980 e de 1990, como Roling Stones, AC&DC, Capital Inicial, O Rappa, Marisa Monte, Cássia Eller e tantos outros, para a escola ter outra função social.

Em bairros distantes do cinema, do teatro, por exemplo, a escola deveria promover cultura. Não sei se dará certo, mas eu e os alunos tentaremos nos dar o que a inteligência petista de governar não pensa.

O futebol de um anão












Sempre achei Dunga do tamanho de anão. Como jogador, se comparado a outros de sua posição, sua bola foi pequena. Dunga representa a negação do futebol-arte, uma imagem de futebol que o mestre Telê Santana soube projetar em seus jogadores de 1982.

Telê não ganhou o título de campeão do mundo, mas seu futebol gingado e individualizado renasceu em 2002 com Felipão. Dunga só foi técnico para ser esquecido tal como Lazaroni em 1990.

Alemães agora fazem adversários sambarem, que ironia!

quinta-feira, julho 01, 2010

Vamos fazer festa

Não gosto da engrenagem escolar. Os seus hábitos me incomodam. O ato de entrar e de sair como se fosse uma procissão desacralizada me perturba.

Alunos sentem que não sou mecânico em sala, previsível, monótono. Quando o cansaço não me domina, teatralizo a aula. Mais do que professor, ator. Meu plano de curso, uma peça.

A escola anula o afeto. O filme O Sorriso de Mona Lisa expõe muito esse afeto por meio da professora. Outra película, Sociedade dos Poetas Mortos. Nesses, o afeto é visível.

Pensando nisso, eu e meus alunos criaremos uma festa com boa música das décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990. Realizar uma boa festa na escola HMM. Se conseguirem algo muito organizado, uma festa sem problema, receberão ponto extra e ainda criaremos outra no final de ano.

Não serei o mesmo professor, melhor, nem serei professor porque estarei em uma festa com músicas que irão dos Beatles a Skank. Quero O Rappa no lugar da gramática. A escola deveria promover encontros musicais.

A escola deveria ser referência para outras relações humanas. No HMM, por exemplo, a direção promove cicleata, festa junina, projetos sociais. Agora, uma festa com boas músicas.

segunda-feira, junho 28, 2010

Festival Chico Pop













Nos dias 26 e 27, meus olhos e ouvidos se encontraram com o Festival Chico Pop, realizado em Rio Branco, na concha acústica. Se o governo abre a boca para dizer que patrocina Chico Pop, alguns vocalistas deveriam fechá-la para que seus ruídos não incomodassem o bom gosto.

Só o bondoso incondicional dinheiro público para dar ouvidos a quem não tem talento.

Não é o caso, por exemplo, de Los Porongas. Além do som, os caras criam letras que emitem inteligência poética. No Acre, eu poderia falar de muitas imagens agradáveis, mas agora só desejo me referir a uma, ei-la: Los Porongas. Dinheiro público bem investido.

Só lamento que o tamanho da plateia tenha sido inadequado à grandeza dessa acriana banda. Pouca gente. Muito pouca. Sua origem pode ser acriana, mas Los Porongas não canta para os amiguinhos ou para a família ouvir; a banda canta para o Brasil.

Queria muito que a poesia musicalizada de Los Porongas incomodasse igrejas. Fico triste quando vejo muito mais gente na marcha para Jesus. Queria ver essa banda espalhada por bairros periféricos da capital e não estacionada na concha acústica, centro de Rio Branco, onde poucos não chegaram por meio de ônibus.

Chico Pop não pode se limitar a poucos e muito menos dinheiro público deve patrocinar alguns desqualificados. Chico Pop deve ir ao encontro do povão.

domingo, junho 27, 2010

Capital Inicial



Primeiros Erros
Capital Inicial
Composição: Kiko Zambianchi

Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde estou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão.

Se você não entende, não vê
Se não me vê, não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende.

Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas, só chove e chove
Chove e chove.

Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros.

O meu corpo viraria sol
Minha mente viraria
Mas, só chove e chove
Chove e chove.

sábado, junho 26, 2010

Vida

Quando alunos escrevem em sala, consultam o dicionário para encontrar o significado adequado. Mas, como buscam somente no dicionário, erram porque nesse lugar a palavra é despossuída de vida.

Quem já consultou o dicionário para encontrar o substantivo "vida"?

Não vamos a ele porque "vida" - o seu sentido - não se encontra no dicionário, mas encarnada em nós.

Para escrever, imagine a palavra na vida e para a vida. O dicionário é só cemitério.

terça-feira, junho 22, 2010

Somos campões!!!

Podemos até ser cinco vezes campeões de futebol, mas leia no texto abaixo quem nos dribla.

Por Kátia Ferraz

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) , do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontaram que o Brasil tem o grande desafio de combater o chamado analfabetismo funcional, que atinge 25% da população com mais de 15 anos, entre outras agravantes, constitui um problema silencioso e perverso que afeta o dia a dia nas empresas.

Neste universo não estamos incluindo pessoas que nunca foram à escola, mas sim aquelas que sabem ler, escrever e contar; chegam a ocupar cargos administrativos, porém não conseguem compreender a palavra escrita. Computadores provocam calafrios e manuais de procedimentos são ignorados; mesmo aqueles que ensinam uma nova tarefa ou a operar uma máquina. No entanto, este perfil de profissionais prefere ouvir explicações da boca de colegas.

Calcula-se que, no Brasil, os analfabetos funcionais somem 70% da população economicamente ativa. O resultado não é surpreendente, uma vez que apenas 20% da população brasileira possui escolaridade mínima obrigatória (ensino fundamental e ensino médio). Para 80% dos brasileiros, o ensino fundamental completo garante somente um nível básico de leitura e de escrita.

No mundo todo há entre 800 e 900 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, uma camada de pessoas com menos de quatro anos de escolarização; mas pode-se encontrar também neste meio, pessoas com formação universitária e exercendo funções-chave em empresas e instituições, tanto privadas quanto públicas. Entre suas características, não têm as habilidades de leitura compreensiva, escrita e cálculos para fazer frente às necessidades de profissionalização e tampouco, da vida sociocultural às necessidades de profissionalização e tampouco, da vida sociocultural.

Muito se tem que fazer para reverter esse quadro, mas algumas iniciativas como a criação de bibliotecas comunitárias pelo país tem tido resultados significativos e atraído um público cada vez maior para o mundo da leitura.

sábado, junho 19, 2010

Saramago sempre esteve morto na escola










A morte física de José Saramago não se assemelha à morte de um Airton Senna, porque as páginas abertas de um livro exigem um esforço que o controle remoto de uma tevê não exige.

Pelo simples fato de nunca ter nascido como livro para muitos, Saramago nem morreu.

A multidão televisiva encontra exemplo de vida em Fórmula 1 ou em futebol, não em estantes ou em bibliotecas. A burrice é uma generalidade pelo único motivo de ser bem mais barata, vulgar.

Em qual escola os alunos leram "Caim"?

Em nossas escolas públicas, ler um livro em sala de aula se equivale a encontrar um homem culto na Câmara de Vereadores de Rio Branco, ou seja, não se lê livro em salas desconfortáveis.

Na escola, em época de Copa do Mundo, professores e alunos se enfeitam, torcem. A diretora aparece na tevê. Se não existe sala de leitura na rede pública de ensino, onde se encontrar com José Saramago? A escola só soube do nome porque a tevê noticiou sua morte.

Em uma sociedade onde neopentecostais se alastram como capim, o livro "Caim" seria perseguido pela verdade absoluta dos incultos. Nessa obra, o irmão de Abel é a imagem do marginalizado que questiona as leis de Deus.

Na página 101, leio que "Caim mal podia acreditar no que os seus olhos viam. Não bastavam sodoma e gomorra arrasadas pelo fogo, aqui, no sopé do monte sinai, ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, a quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito."

Se existissem menos neopentecostais e mais ateus como Saramago, o Brasil seria melhor.

sexta-feira, junho 18, 2010

A fartura












Em Rio Branco, Acre, quem passa pela rua dos Engenheiros encontrará um barraco entregue à fé de se alegrar com o sexto título de campeão do mundo.

Neste "berço esplêndido", são 29,9 milhões de brasileiros que torcem, na pobreza, para a seleção brasileira.

Se em casa falta tudo, eles se fartam com títulos.


quinta-feira, junho 17, 2010

O Deus do povo judeu é intolerante

JERUSALÉM, 17 Jun 2010 (AFP) -Milhares de judeus ultraortodoxos furiosos realizaram manifestações nesta quinta-feira à tarde em Jerusalém e perto de Tel Aviv, em protesto contra uma decisão da Suprema Corte que proíbe a segregação entre crianças asquenazis e sefaraditas em uma escola de colonos.

"Há 30.000 manifestantes em Jerusalém e 20.000 em Bnei Brak", uma cidade de população judaica ortodoxa perto de Tel Aviv, declarou à AFP o porta-voz da polícia, Micky Rosenfeld.

As manifestações foram transmitidas diretamente pela emissora israelense e ofuscaram por completo o anúncio do governo sobre uma flexibilização do bloqueio à Faixa de Gaza.

"É a Torá que decreta!", "Não encostem nos redentores de Israel", eram algumas das frases escritas nos cartazes levantados pelos manifestantes.

A polícia israelense foi colocada em "estado de alerta avançado". Cerca 10.000 agentes foram mobilizados, principalmente em Jerusalém, em Bnei Brak e em Beit Shemesh, base ultraortodoxa localizada no meio do caminho entre as duas localidades.

Também foram mobilizadas unidades da guarda fronteiriça, apoiadas pela polícia montada e por helicópteros.

O presidente israelense, Shimon Peres, reuniu-se com o vice-ministro da Educação, o rabino Meir Porush, uma figura da comunidade ortodoxa asquenazi, numa última tentativa de conciliação destinada a acalmar os ânimos.

Dois partidos ortodoxos que têm 16 deputados (de um total de 120 no Knesset, o parlamento unicameral israelense) pertencem à coalizão do primeiro-ministro Benajamin Netanyahu.

Na quarta-feira, o chefe do governo pediu "moderação, respeito à lei" e que fosse encontrada uma fórmula de compromisso satisfatória para todos.

A efervescência dos homens vestidos de preto - de acordo com a vestimenta uultraortodoxa - em Israel foi desencadeada por uma decisão da Suprema Corte que obriga dezenas de judeus ortodoxos asquenazis (originários da Alemanha, Polônia, Rússia, do antigo Império Austro-Húngaro e da Europa central e oriental) da colônia Immanuel (Cisjordânia) a receber em sua escola religiosa crianças sefaraditas (em Israel, originárias da África do Norte e da Ásia, apesar de o termo designar as comunidades judaicas que viveram na Espanha e em Portugal até 1492).

Colonos asquenazis pertencentes ao grupo hassídico Slonim, de origem russa, que retiraram suas filhas da escola há um ano, afirmaram que preferiam ser presos a partir desta quinta-feira durante duas semanas, a obedecer à decisão da Suprema Corte.

Os pais acusados de discriminação racial - 86 pessoas - devem apresentar-se, segundo a emissora de rádio estatal, às 14h00 GMT (11h00 de Brasília) a uma prisão em Jerusalém ocidental a partir da qual deverão ser transferidos para prisões no centro do país.

Os intocáveis

Na história do riso, o poder sempre se protegeu. No Congresso, deputados querem evitar os "constrangimentos" expostos pelo CQC. Não podemos rir deles.

Leia o texto abaixo.

O presidente interino da Câmara, Marco Maia (PT-RS), recomendou à assessoria jurídica da Casa que defina normas para evitar o constrangimento de parlamentares por parte de jornalistas.

Maia manifestou solidariedade ao deputado Nelson Trad (PMDB-MS), que agrediu uma equipe do humorístico "CQC", da Band.

Ao ser abordado por equipe do programa, na semana passada, Trad se exaltou após saber que subscrevera um abaixo-assinado para incluir um litro de cachaça no Bolsa Família.

Uma contratada do "CQC" coletou assinaturas de apoio a uma proposta fictícia de emenda à Constituição.

Na confusão, um cinegrafista teve parte do equipamento danificado. A repórter Monica Iozzi chegou a ser empurrada. As imagens foram ao ar na segunda-feira.

"Ao não querer falar, o deputado é constrangido pelos veículos de comunicação. Há excesso por parte de alguns jornalistas. Temos de tomar algumas medidas institucionais", disse o presidente interino da Câmara.

Segundo Marco Maia, as ações devem preservar a liberdade de imprensa, mas assegurar o direito dos deputados de não autorizarem o uso de imagens pelos programas de humor.

A assessoria de imprensa da Câmara afirmou que sempre liberou a entrada de programas como "CQC", "Pânico na TV" (RedeTV) e "Legendários" (Record), mas que é necessário "mais diálogo" com essas equipes sobre as formas de abordagem dos deputados.

Em discurso no plenário, Nelson Trad reclamou da conduta do "CQC". "Não tem necessidade de eu pedir desculpas aos meus companheiros, porque eu reagi legitimamente em defesa da minha dignidade. Não defendo só a mim, mas a própria instituição a que pertenço há mais de 30 anos", afirmou.

Ele recebeu o apoio do colega José Genoino (PT-SP). "Também tenho passado por essas situações. Conto até 10 para não falar. E passo reto. A coisa está chegando a um ataque individual", disse.

Em suas páginas no Twitter, apresentadores do programa criticaram a decisão de Maia. "A Câmara quer proibir o CQC de 'constranger' os deputados. Pelo jeito, não querem concorrência", disse Rafinha Bastos. Para Marcelo Tas, o "CQC mostrou como ninguém lê o que assina no Congresso".

quinta-feira, junho 10, 2010

A bola rola e nos enrola

Grite gol!!!
Quando os deuses da futilidade derem o pontapé inicial entre Brasil e Coreia do Norte, os problemas sociais dos brasileiros serão jogados para escanteio. Somos cinco vezes campões do mundo; Estados Unidos, Finlândia, Espanha não são.

Até hoje, eu não sei para que cinco títulos de futebol servem, eu não sei. Recentemente, para marcar uma consulta em um hospital público, eu disse "sou cinco vezes campeão do mundo".

Na mão direita, eu segurava uma bandeirinha do Brasil e usava a camisa 10, o mesmo número com que Rivaldo se consagrou na Copa do Mundo de 2002.

Mas, mesmo assim, mesmo cantando "eu sou brasileiro/com muito orgulho/com muito amor", a servidora pública, sem adereço patriótico, falou que não havia cardiologista para me atender, e isso já faz três meses. Com meus cinco títulos, saí derrotado da saúde pública mais uma vez. Tantas vezes torcedor, tive de sair do hospital torcido pela injustiça.

Agora, na Copa do Mundo da África do Sul, após oito anos, o Brasil enfrentará a Coreia do Norte no dia 15 de junho. De lá para cá, tive cinco derrames. Nesse tempo, os homens públicos, que jogam um "bolão", me driblaram muitas vezes para deixar a Pátria sempre em impedimento.

Vejo carro com bandeiras do Brasil. Ruas enfeitadas. Um novo circo repetido nos alegra. Um patriotismo fútil nos envolve com uma bola que rola e nos enrola. Nesta festa, como todas as festas, a realidade social permanece suspensa, é hora de se esquecer do Brasil.

Estamos felizes com o pouco que temos, um gol. Gritemos!!! porque nossas bocas nunca souberam protestar contra a nossa miséria. Estamos felizes com o pouco que temos, o gol. Gritemos!!! porque, calados, engolimos sapos.

O que farei com seis títulos de campeão do mundo?

domingo, junho 06, 2010

Onde está a inteligência acriana?















De Aldo Nascimento

Se colocarmos um microscópio nas câmaras de vereadores e na Assembleia Legislativa, correremos o risco de não encontrar uma inteligência que saiba falar, por exemplo, de educação pública.

Ainda assim, a imprensa acriana, quando publica suas superficialidades sobre o ensino dos pobres, só ouve os políticos. Nos programas de entrevista, onde entrevistador e entrevistado cometem o milagre do monólogo, a presença desses homens públicos predomina como se a inteligência acriana estivesse encarnada neles.

Onde se encontra então nossa inteligência?

Evidente que os jornais Página 20, A Tribuna, O Rio Branco e A Gazeta pautam-se pela inteligência, por isso, por meio deles, tomamos ciência de que as datas mudam. A maior função social de nossos jornais é registrar datas.

Onde se encontra a inteligência acriana?

Se o tema de uma revista é educação pública, a inteligência pulsa nas universidades, nas escolas. Na Universidade Federal do Acre, a inteligência habita nos livros de uma Olinda Batista Assmar, de uma Maria de Nazaré Cavalcante, de um João Carlos de Carvalho, de um Carlos Alberto Alves de Sousa e de tantos outros.

Mas não só eles. É preciso registrar falas de nomes que vivem à margem do poder, do conhecimento institucional; pessoas que recebem salário mínimo e reinventam a vida em bairros esquecidos, em lugarejos isolados do conforto institucional. A inteligência acriana encontra-se em quem sofre.

Visões...

O governo edita uma felicidade coletiva que não existe na casa de Eunice Maria. O jornal, semelhante a papagaio de pirata, repete o que o dono manda. O entrevistador e o entrevistado monologam na TV. O político, o oráculo da imprensa, acredita pensar o Acre. Há anos, sinto o fedor de uma paralisia mental.

Acima de interesses partidários, de interesses pessoais, acima de verbas públicas, muito acima de políticos que falam bem de escola pública, mas matriculam seus filhos em escolas particulares, precisamos (pro)vocar a felicidade coletiva, precisamos despenar o papagaio sem voz própria, precisamos promover o diálogo entre entrevistador e entrevistado, precisamos questionar o oráculo da imprensa, porque eu acredito, como outros acreditam, que nesta cegueira que nos confunde exista clareza de “Visões Amazônicas”.

Como aprecio a desobediência de um Altino Machado. Como entendo as contradições de um Antonio Stélio. Como me encanto com as palavras selvagens de Leila Jalul. Como aprecio o humanismo de um Guilherme da Silva Cunha. Como leio as inquietudes de um Cláudio Porfiro. Como a simplicidade de uma Toinho Alves questiona.

Por causa deles e de outros, justifica-se a circulação de uma revista que reflita de maneira irônica, sarcástica, profunda, desobediente, lúcida. Existe um Acre que não é burro e muito menos adulador.

... Amazônicas

O professor-doutor Carlos Alberto chamou-me para pensar uma revista. “Visões Amazônicas”, Carlos deu o nome. O que penso sobre ela?

1. 52 páginas. Seu tamanho e sua imagem devem atrair o leitor. Diagramação deve ser absurdamente criativa e audaz. O texto deve estar a serviço da imagem. Tamanho de Caras e papel de CUT. Quero ver o texto dos doutores Carlos Alberto e de Olinda Batista em um salão de beleza, entre pédicure e manucure; em uma clínica de estética, entre limpeza de pele e drenagem linfática; em uma biblioteca pública ou no terminal urbano;

2. Fotos simétricas e assimétricas. Misturar regularidade com irregularidade. Harmonia de cores. Brincar com imagens;

3. Textos acadêmicos (populares) convergem com textos jornalísticos. Dados, números, gráficos. Matérias trabalhadas, pesquisadas. Textos objetivos com traços subjetivos. Textos com jornalismo literário, quem souber escrever. Ensaios. Artigos. Misturar gêneros textuais em um único texto. Entrevistas que não sejam monólogos. Resenhas. Poesia.;

4. Sem ser situação ou oposição, entrevistar homens públicos para provocá-los com inteligência, com ética, nada de insultá-los. PC do B e DEM, o mesmo peso. Tratá-los com respeito, provocá-los com respeito. (Des)cobrir vereadores, deputados. (Des)cobrir as câmaras e a Assembleia. Os homens públicos não importam, o que importa são suas ideias, se existirem;

5. Ouvir os que vivem à margem do poder. Ouvir os nativos. Ouvir os marginais. Ouvir os homens rurais, a vida acriana legítima das matas. Ouvir o interior do Acre. Ramais dizem mais que viadutos;

6. Refazer matérias de jornais, expondo precariedade, superficialidade. Matérias com breves artigos. Ouvir os que pensam nas universidades e nas escolas. Ouvir o poder para questioná-lo sempre. Sempre;

7. Uma revista autocrítica e, depois, crítica. Uma revista insatisfeita com o rebanho. Uma revista que não pasta. Inquieta como a insolência. Solene, só o inconformismo. Nada nos conforta, a não ser desobedecer ao conformismo de ideias prontas.

Passos iniciais foram dados. A temática, educação pública. Quando virá a revista? Antes de o messias chegar e antes de o governo da Frente Popular transformar o Acre no melhor lugar para você e eu morarmos, porque esperar muito cansa.

sábado, maio 29, 2010

De amantes a casados

Só os amantes sabem aproveitar o tempo, só eles sabem o valor ímpar de um breve instante.

E se, nesse breve momento, alegram-se, é porque o tempo dos amantes é "às vezes".

É esse "nem sempre" que extrai deles o cansaço das horas contínuas, a monotonia do previsível.

"Quando?"
"Não sei, talvez amanhã, quem sabe".

Entre eles, sempre a lacuna, sempre o espaço sem as horas contínuas. Assim, sem saberem quando será o próximo encontro, o próximo instante, eles sentem a presença intensa da ausência do outro.

Na falta, sente-se no peito a dor, a saudade, é como se a morte espreitasse os amantes. Nessa ausência, momento de solidão, (des)cobre-se então que o breve tempo vivido com o ser amado não pode ser desperdiçado, por exemplo, com brigas.

Só os casados perdem tempo com discussões, com desencontros, não os amantes. De tanto viverem a monotonia dos dias, de tanto o tempo ser saturado pela rotina, os casados não mais se surpreendem nas horas. No casamento, a saudade não pulsa.

É preciso que um morra para que o outro sinta falta. É preciso que um vá embora para que o outro sinta falta. Mas aí pode ser tarde demais.

quinta-feira, maio 27, 2010

O Estúpido

Nesta semana, entre restos de alienação e migalhas de destino, conversei com um cara estranho. Seu nome, Estúpido de Nascimento. Sua miséria mental não me comoveu.

Disse-me que a paralisação dos professores da rede estadual foi um sucesso. Sugeri a ele procurar um psiquiatra, porque sua mente confunde realidade com fantasia, mas Estúpido, sempre alegre com sua ideologia sindical, não entendeu.

Contente como um inocente inútil, disse-me que votará para eleger o novo presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre, o Sinteac. Por falar nisso, o atual presidente poderá deixar o cargo sem antes submeter sua direção a uma auditoria fiscal.

Estúpido não entende isso, não assimila a ideia de que dinheiro alheio deve ser administrado com clareza, com imparcialidade, com ética, por isso nada mais justo do que uma auditoria fiscal.

Estúpido riu e virou as costas.

sábado, maio 22, 2010

Um pouquinho de Macunaíma

Na foto, ator Grande Otelo representa o personagem Macunaíma. A locadora Tenny Vídeo tem o filme.



De Aldo Nascimento

No Acre, depois que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B) ocuparam o Executivo e o Legislativo, entronizou-se a imagem de Plácido de Castro como herói do povo acriano.

Entretanto, quando percebemos a realidade sociocultural desta terra, não vemos uma gente pisando o chão com os ideais militarizados desse mito, ou seja, entre o herói forjado por burocratas do Estado e o imaginário popular, desalinha-se o laço.

A cultura popular, sabemos, não se encontra em quartel, não usa farda, não tem patente, isto é, a força da imaginação popular não é obediente à hierarquia inventada pela classe dominante. Da marginalidade do negro, a ginga do samba germina para se opor à elite nacional, que dança minueto com indumentária à francesa em 1920.

Por meio do marginal Macunaíma, o homossexual Mário de Andrade materializou a força invisível de nossa brasilidade. Se Plácido de Castro é sério, Macunaíma quer rir; se o herói do Estado é “revolucionário”, Macunaíma quer brincar, desorganizar, carnavalizar.

O estrangeiro

Mas de quem Macunaíma ri? Ora, como encarnação da cultura popular, nosso anti-herói ri do colonizador, representado pelo gigante Venceslau Pietro-Pietra, industrial estrangeiro que explora a terra brasileira.

O gigante tem espírito prático, segundo Jorge de Lima. Começou como mascate, regatão nas águas amazônicas, e termina ricaço, com palacete na rua Maranhão e com influência política. Casado com uma Caapora nacional, esse estrangeiro tem duas filhas brasileiras.

Por isso, quando o mandavam trabalhar, Macunaíma, índio da tribo tapanhuma, que significa negro, exclamava: - “Ah! que preguiça!”. Negro-índio, cafuzo, Macunaíma, porque não se submete ao capital estrangeiro, desmascara, por meio de seu riso sarcástico, quem domina.

Por isso, esse herói do avesso quer de volta a muiraquitã, pedra roubada pelo gigante Venceslau. Uma vez com esse objeto sagrado, ela tem o poder de tornar respeitado quem a traz consigo.

São Paulo

Na narrativa de Mário de Andrade, Macunaíma, para chegar a São Paulo, cidade de padre José de Anchieta, do racionalismo cristão, transforma-se em homem branco com olhos azuis.

Assim, se as caravelas europeias aportaram em terras primitivas, agora o primitivo chega à civilização quatro séculos depois. Na cidade, longe da natureza, o negro-índio fica enfermo. A civilização adoece. Modelada pela esperança messiânica e pelo aparelhamento colonial político-religioso, a cidade de Anchieta é doente.

Macunaíma é personagem-mito contra a cristandade, “contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema”, porque esse anti-herói sabe que, “antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”, escreveu Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropofágico.

domingo, maio 16, 2010

Os Amantes. Diamantes













Em sua insana consciência, o Amante jamais pensa como beijará o ser Amado porque o que é vital no beijo é o não pensar. Uma vez nele, uma vez entre lábios e língua, entre a saliva e o céu da boca, já não queremos ver mais nada, por isso fechamos os olhos.

Desejamos tão somente sentir o movimento incerto da carne para partir... e, fechados os olhos, a Alma se sente cair no abismo de uma breve viagem. Deixar ir.

Nada no beijo é exato, preciso ou calculado. Quanto mais errado, quanto mais a língua escapa, foge, escorre, quanto mais os lábios se jogam, a boca só deseja se perder, mais ainda, na boca Amada.

Mas quem disse que o beijo são só os movimentos da carne? Antes de eu ter minha boca de volta, antes de eu ir embora, pouco antes de minha partida, deixei na tua não só o pecado molhado da saliva, mas meu sopro...

meu sopro de vida.

sexta-feira, maio 14, 2010

Alvorada do Amor

Homem que é homem recita poesia à mulher amada. Na cama, diante de sua bela nudez, li os desobedientes versos de Olavo Bilac.

Aprisionaram Bilac como poeta parnasiano, mas o que não importa é classificar poesia.

Ninguém lê poesia para a mulher amada para depois classificar versos. "Meu amor, essa poesia é romântica porque", que coisa horrível. Poesia se sente, não se classifica. E foi pensando assim que abracei com minha língua os versos de Alvorada do Amor.

Na poesia, o Amor, esse signo profano, rebela-se contra Deus, mito inventado pelos homens ocidentais, para edificar um novo sagrado, um outro gesto divino que se ergue entre a carne e a alma.

Delicie-se!

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

"Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!".

Cara malvado

Quando deixei as férias de 2009-2010 atrás de meu destino, fotografei meu pai com o temor de nunca mais revê-lo.

"Olha só para a minha cara de malvado", disse seu Aldo.

Quando acabou de dizer isso, lembrei-me de nós em um passado sem afeto, sem diálogo, sem compreensão.

Se o Brasil era marcado pela intolerância da ditadura militar, eu, em minha própria casa, conhecia a opressão na figura "malvada" de meu pai.


Se tanques de guerra, fuzis, soldados e generais ocupavam as ruas desta Pátria, eu, por duas horas, permanecia de joelhos no canto da parede depois de receber dez palmatórias em cada mão. Lá fora, os militares; em minha casa, armas da incompreensão.

Minha mãe e minha avó mostraram a meu corpo o que a masculinidade de meu pai se recusou a questionar, no caso, que o macho domina, fere, centraliza, submete o outro a. Com Dilma e Esther, aprendi feminilizar minha carne e minha alma. Sem elas, eu teria morrido por dentro.

Mas o tempo é absoluto. Ele ensinou a meu pai brincar, por isso ele disse "cara de malvado". O tempo me ensinou a amá-lo por causa de sua condição humana, que é também a minha. Com quase 80 anos, sua idade me comove porque seu corpo revela a mais profunda despedida em forma de rugas.

Eu o amo por sua condição humana e, por causa dessa condição, olho para o passado como aprendizado. Meu pai teve outro derrame. Sua fala não é mais a mesma. Penso em voltar para casa para abraçá-lo, conversar sobre o que a incompreensão não permitiu.

Se for possível, se tenho de ir, darei a esse "cara malvado" o meu mais tenro Amor de filho, sua vida está muito acima do que houve no passado.

Quando amamos, compreendemos a hora de uma separação e a hora de recomeçar o que ainda existe para ser recomeçado.

A paralisação parou

Na segunda-feira, dia 17, os professores estaduais do Acre retornarão às salas de aula com mais 10% no salário após um mês de paralisação. No lugar do autoritarismo, o governo não se cansou de buscar o diálogo ou, como disse Carioca, "a força da argumentação".

Mais: a proposta partiu do governo. Sem comprometer a Lei de Responsabilidade Fiscal, os professores mudarão de letra para receber o aumento. Em época de eleições, o governo da Frente Popular se saiu muito bem. Muito bem.

O sindicato, por sua vez, reforça a ideia de que o atual modelo sindical pressiona o poder, ou seja, o sindicato permanece o mesmo, quem sabe, até a eternidade.

Ironia
Com 10% no bolso, o professor retornará à sala motivado para qualificar o ensino público. Seremos agora melhores no Enem do que as escolas particulares.

Nossas reuniões serão sempre a favor da qualidade de ensino. Não nos reuniremos para prolongar feriados, mas para apresentar propostas pedagógicas que exigem do aluno o melhor.

quinta-feira, maio 06, 2010

Retornaremos às aulas com...

Paulo Leminski (1944-1989)
O governo, por meio do assessor Carioca, não vê mais sentido se sentar à mesa para negociar com o Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac).

Como o sindicato rejeitou a proposta de 3% do patrão e estendeu a paralisação até 5 de julho, isso significa que os professores estaduais retornarão às aulas com nada no bolso e com uma reposição de aula para, no mínimo, fevereiro.

Pela tevê, a secretária de Educação, Maria Correa, afirmou que, se o professor tiver de repor em janeiro ou em fevereiro as aulas, ele irá repor sem aulas no sábado, no feriado e no contraturno.

HMM

Professores que votaram a favor da "greve" (reposição de aula) terão de sustentar essa paralisação até 5 de julho. Não podem recuar! Deverão sustentar suas palavras até as últimas (in)consequências.

Se acreditam nesse modelo de sindicato, se acreditam que "reposição de aula" pressiona o governo, deverão provar, agora, na prática.

Por causa disso, dedico este hai-cai a colegas de profissão do HMM que votaram a favor da reposição de aula, mas chamam de "greve", tão inocentes. Os versos são de Paulo Leminski.

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

E o que pintou foi o fracasso de uma reposição de aula. Assinem.

Vaia
Comenta-se que alunos se articulam por meio da internete uma orquestra de vaia aos professores da escola Heloísa Mourão Marques. Se isso acontecer, professores retornarão sem reposição salarial, com bolso vazio, com vaias nos ouvidos, derrotados, acreditando no atual modelo sindical e ainda confundindo greve com reposição de aula.

A essa monotonia sindical, a essa luta vã, a esses sindicalistas infecundos, eu repito aqui os versos de Leminski:

vazio agudo

ando meio

cheio de tudo

desse sindicalismo

feio

e

burro.

quarta-feira, maio 05, 2010

Minoria vota na continuidade do erro

Depois de não comparecer a três assembleias, sentei-me em um banco de praça para ouvir sindicalistas e professores ao microfone.

A presidente do Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), professora Alcilene, informou que o governo ofereceu 3% de reposição salarial, porcentagem referente à inflação de janeiro a maio.

Depois disso, governo e Sinplac não se sentarão mais à mesa de negociação. Chegou-se ao limite. Na assembleia de hoje, professores (minoria) votaram a favor da paralisação até 5 de junho (ou será 5 de julho?). Digo minoria porque, em relação ao número de filiados, não havia 20% de professores na assembleia.

Clichês

O sindicato permanece com suas falas tão previsíveis, linguagem fechada em si mesma. A representante da CUT acriana ainda concebe "movimento de massa". Em seu discurso, ela reproduz as palavras "luta", "enfrentamento".

Trata-se de um sindicalismo que, por meio de discursos padronizados e dramáticos, ainda defende o confronto e a força para que se mantenha a unidade da luta. O mais triste é que mulheres usam palavras que reforçam o gênero masculino no sindicato.

Escolas retornam

Aos poucos, professores retornam às aulas. Na escola Armando Nogueira, por exemplo, alunos estão em sala. Outra, Rodrigues Leite. O governo conta com o tempo como seu aliado, o desgaste agora é gradual.

Greve ou férias antecipadas?

Como as férias foram antecipadas, preparei minhas malas, estou com viagem marcada para a Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Antes de as aulas começarem, passarei meus dias lendo sobre os anarquistas e sobre a falência do atual modelo sindical.

domingo, maio 02, 2010

Onde Deus não se encontra


O caderno Mais!, da Folha de São Paulo, está ótimo neste domingo. Aqui, deixo uma pequena parte sobre a Igreja Universal do Reino de Deus. Na foto, o bispo Edir Macedo em Portugal.

O pastor que não leu a Bíblia
De Genebra

Deus levou Antonio, 26, do arquipélago africano de Cabo Verde à suíça Genebra, no meio da Europa. Ou ao menos é o que ele diz. Pastor recém-chegado, prega altivo no altar sem se importar que nos bancos da igreja sentem-se somente quatro fiéis nesta quinta-feira à noite.

"Sempre tem gente nova", comentara antes da chegada de seu rebanho. "Muitos vêm e não ficam, mas os que ficam acabam voltando e trazendo mais. É o Espírito Santo se manifestando na pessoa."

Esguio, de um olhar direto que encara o interlocutor sem fugir nem piscar, o pastor Antonio Tony -ele jura que é sobrenome e não apelido- ainda está se adaptando.

Chamado
Conta que recebeu um chamado da igreja ordenando que viesse à Suíça pregar. Antonio não confirmou à reportagem durante a conversa no fim do ano passado, mas uma das fiéis disse que ele acabara de chegar.

Está aprendendo francês. Já era pastor em Cabo Verde, mas está reaprendendo a pregar na Suíça. Seu exemplo é o pastor Felipe, o número um do centro, de quem tenta mimetizar a retórica. Antonio é diferente, domina menos as palavras, mas se conecta rapidamente com sua audiência de mulheres de meia-idade, à qual narra pedaços de sua história e faz pequenas encenações numa espécie de terapia de grupo.

Como foi parar na Universal? "Foi coisa de ainda muito jovem", diz, sem explicar, justificando que, se começar a falar sobre a manifestação do Espírito Santo em sua vida, nem a repórter nem ninguém será capaz de compreendê-lo. Passou por outras religiões, mas sentiu-se bem só ao achar a atual.

Dali a virar pastor ele não revela quanto tempo levou. Conta só que largou o emprego num hospital para assumir o posto, pelo qual recebe, afirma, uma "ajuda para viver". Mas que pode, arregala os olhos, levá-lo ainda a qualquer outro lugar do mundo.

Na sua África mesmo, a presença da igreja avança voraz, o que ele descreve com alegria no sotaque nativo. "Estão muito, muito grandes já lá. Aqui na Europa também."
Aprendizado para o púlpito não houve, admite, apenas uma vontade de "entender melhor as coisas".

"Nunca li a Bíblia toda. É porque, se você sabe algumas coisas, já dá para entender tudo", conclui para si. Ele minimiza a falta de estudo e treino para exercer sua atividade e diz compensá-la com devoção. "É como na escola. A maioria das pessoas decora tudo e não entende nada. Estudar assim não serve, sim ou não?" (LC)

sábado, maio 01, 2010

Outra assembleia do Sinplac

Na segunda-feira, dia 3, os professores estaduais se reunirão em assembleia, às 8 horas, no Colégio Barão do Rio Branco, para aprovar ou não a proposta do governo petista. Segundo informações, essa proposta de reposição das perdas limita-se a menos de 2% porque se refere à inflação dos últimos três meses.

Se realmente for isso, estamos muito longe dos 10.96%, ou seja, a paralisação continua.

sexta-feira, abril 30, 2010

Entre o governo e o Sinplac...

Diante de seu próprio espelho, o governo do Partido dos Trabalhadores do Acre repete há 12 anos que a educação pública é uma das melhores do país. O senador Tião Viana chegou a afirmar que é "revolucionária". Não há na fala de quem governa a ponderação.

Se fosse revolucionária, se fosse exemplo, os professores não estariam paralisados. O governo narcísico do PT não pode negar que, entre as quatro paredes de uma sala de aula, leciona-se uma educada insatisfação. A educação pública acriana não é o que o governo propaga.

No entanto, o Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), sem falar dos probelmas na rede pública de ensino, aprovou uma paralisação por tempo indeterminado por causa somente de uma reposição salarial de 10.96%. O nosso problema não é só esse.

Um novo jornalismo sindical

De um lado, um governo que se acha lindo de vermelho; de outro, um Sinplac, que não sabendo quebrar o espelho de Narciso, reduz sua luta à reposição salarial, é quando os professores surgem para a sociedade em forma de passeatas enfadonhas, mórbidas, sem vida.

Depois dessa paralisação, eles retornarão às salas de aula, e a sociedade não os verá, a menos que haja outra paralisação. Não é o "corpo docente" que deve ser visto pela sociedade, mas a sua palavra pensada sobre a atual situação (não só salarial) da educação pública.

A palavra dos professores deve circular diariamente no Acre e, para isso, o Sinplac precisa profissionalizar a imprensa sindical. A atual direção tem a obrigação de criar uma estrutura de comunicação independente, ética, imparcial, inteligente, provocadora.

Nada de imprensa escrita por sindicalistas, mas por pessoas da área que ouvirão os problemas das escolas acrianas, as contradições do governo, os avanços do governo, os atrasos do governo. A sociedade precisa ler o que professores pensam sobre a educação pública por meio de um jornalismo sindical sério, antipanfletário.

O Sinplac, até hoje, não percebeu que a luta contra governos se trava também na arena da comunicação, e isso não quer dizer informativos, panfletos.

quarta-feira, abril 28, 2010

Agora, não pode recuar 1%

O Sindicato dos Professores Licenciados do Acre escolheu seu destino, o de prolongar a paralisação por tempo indeterminado.

Uma vez proferida a palavra, não há mais recuo, ou seja, se a porcentagem é 10.96%, o Sinplac não poderá terminar a paralisação com 10.95%, 10.94% ou 5%.

A palavra do Sinplac não pode ser dobrada, não pode ser inclinada; deve ser firme até o final. O governo é que deve ceder, só ele, só.

Quem tem mais força? Lanço uma resposta, ele: o poder.

Paixão


Aprecio livros que recriam a vida, e vida, para mim, significa palavras e gestos que afetam as relações humanas. Recriar, entenda, sempre nos perturba, desestabiliza nossas vidas tão previsíveis pelas horas da rotina.

Aprecio livros que me deslocam deste tempo-rotina para o que ainda não existe e, por ainda não existir, minha alma já sente a ausência, saudade. Do que não existe no tempo previsível, disso, eu sinto falta em mim e nas relações humanas.

Por isso, por meio da força imaginativa da palavra escrita, arte que lateja em ótimos livros, recrio minha vida no meu eu para ir ao encontro teu com o que há de mais belo em nós: o nome. Ouça, chamo-me André, e minha vida encarna-se na obra inquietante de Lavoura Arcaica, esculpida por Raduan Nassar.

Só vou aos bons livros para retornar mais vivo aos teus olhos e afirmar que belas palavras escritas despertam em mim a importância de viver na forma de gestos intensos e suaves da paixão.

Aprendo com André que o ser apaixonado assenta as fundações de sua individualidade no verbo, na palavra laboriosa, imaginativa, incomum, intensa. Sem a força do dizer ao ser amado, não há paixão.

Quando emerge essa força laboriosa, imaginativa, incomum, intensa, a palavra rompe com a estabilidade das horas previsíveis quando André, em uma casa abandonada, igreja fundada por ele porque André é profeta de seu próprio destino, agradece a Deus o corpo não de Cristo, mas a carne-hóstia de Ana.

“Meu Deus, eu pedia, um milagre e eu na minha descrença Te devolvo a existência, me concede viver esta paixão singular (...).”

terça-feira, abril 27, 2010

O governo não irá repor perdas

Assisto agora, às 12h30, à entrevista com a secretária de Educação do Estado do Acre, professora Maria Correa. Ela foi firme ao dizer que o governo não irá repor as perdas salariais.

"Não iremos apontar para reposição salarial quando o governo não tem condições de manter essa proposta", disse ao entrevistador Jorge Henrique, da TV Aldeia.

Do outro lado, hoje, em uma assembleia geral, o Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac) aprovou uma "greve" (reposição de aula) por tempo indeterminado.

A comunicação do governo

Os técnicos do governo colocaram Jorge Henrique, o entrevistador, e a entrevistada, secretária de Educação do Acre, professora Maria Correa, em um stúdio. O telespectador desatento afirmaria que na entrevista havia duas pessoas; mas, em verdade, a presença física menos importa.

Jorge Henrique pergunta o que secretária Maria Correa quer responder. Entrevistador e entrevistada, portanto, monologam. Embora a câmera filme duas pessoas, há tão somente uma só e única fala.

A TV Aldeia, a serviço do governo, poderia criar um espaço-fala para haver debate entre governo, sindicato, professores e alunos, porém o governo, por meio do poder da comunicação, propaga sua imagem.

Enquanto isso, o Sinplac, sem poder de comunicação, é pautado pelo governo.

domingo, abril 25, 2010

"O Arco", de Kim Ki-Duk

Há anos, cultivo belos filmes, por exemplo, O Arco. Quando pensamos que tudo sobre o amor já foi revelado, eis que surge a arte de Kim Ki-Duk. Sua película é a força belíssima do sensível, do lírico.

Por ser um filme autoral, mentes domesticadas pela gosma da vulgaridade estão impedidas de assimilar o lirismo de O Arco. O vulgar não é profundo; obtuso como um animal que pasta, eis o vulgar. Os estúpidos jamais entenderão as imagens dessa obra.

Não irei aqui tecer interpretações, agora não. Esse filme, eu passarei para as retinas de meus alunos.

Amanhã, reunião definitiva

Às 16 horas, na Secretaria de Articulação Política, Carioca, sua equipe de governo e professores do Sindicato do Professores Licenciados do Acre dialogarão à mesa sobre reposição de perdas salariais, usando o prêmio de valorização do magistério.

O Sinplac não vê o todo

Se dependesse somente do orçamento do Estado, a reposição de 10.96% seria impossível porque a Lei de Responsabilidade Fiscal impede. O Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), ignorando ou não se importando com o orçamento estatal, exige 10.96% de reposição sem pensar nas reais condições de sua exigência.

O Sinplac vai às ruas sem conhecer os cofres do Estado. Quero dizer com isso que o sindicato olha só para sua porcentagem e não para a real situação orçamentária do Estado. O sindicato não vê o todo porque exige só sua parte, o que é um erro.

Antes de ir às ruas, o Sinplac deveria ter visto o que há nos cofres do Estado para saber o verdadeiro valor da folha de pagamento e sua relação com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Se depender dessa lei, a reposição, como declarou Carioca a mim, seria "irrisória", isto é, menos de 1%. Mas essa porcentagem não se limitaria aos professores, outras categorias receberiam, o que poderia ser possível ou não para o Estado. Se o Sinplac pensa só nos professores, a equipe de governo pensa nas outras categorias, pensa no todo, o Estado.

Reposição é possível

Não havendo, portanto, saída por meio da Lei de Responsabilidade Fiscal, o Sinplac propôs de forma inteligente o prêmio de valorização do magistério para repor as perdas salariais. Quando entrevistei Carioca, a Secretaria da Fazenda ainda não estava com os números.

Eu acredito que na segunda-feira, dia 26, a reposição será possível por meio do prêmio de valorização. No entanto, não acredito em 10.96%. O lado negativo será acreditar que o Sinplac venceu esse duelo porque o seu modelo de luta é o correto.

Os tolos vivem da aparência.

sexta-feira, abril 23, 2010

Carioca, o Entrevistado (1)


Às 12h10, entrei no gabinete do assessor da articulação política do governo do Acre, o petista Carioca. Há 16 anos como homem que não foge ao diálogo, ele enfrenta a paralisação também dos professores estaduais.

"Minha equipe negocia há 16 anos, nós estamos com o couro curtido", enfatiza Carioca. "Se você acompanhar as negociações, você irá perceber que há respeito entre as partes, nunca me senti insultado à mesa pelos servidores públicos."

Segundo ele, no passado, professores conversavam com gente do terceiro escalão do governo; mas, hoje, professor nem precisa parar para exigir do governo negociação com o primeiro escalão.

"O nosso ativo é que nós conhecemos o lado de lá tanto quanto quem está do lado de lá."

LÍNGUAO governo irá repor as perdas para os professores estaduais?

Eu coloquei duas coisas para o sindicato.”

Eu conversei com o Sinplac, eu e a equipe de negociação, que a Lei Eleitoral, que é modificada em cada eleição, preceitua uma série de regras e normas que devem ser levadas a termo pelo governo.

Eu coloquei duas coisas para o sindicato, o que precede uma decisão política do governo são dois pareceres que devem nos orientar porque nós não podemos nos abdicar de proceder assim, pois nós somos regulados pelo Estado de Direito.

Primeiro parecer.”

Um deles é o que preceitua a Lei de Responsabilidade Fiscal, qual a nossa margem de manobra em relação ao comprometimento com o pessoal, considerando que nós estamos vivendo ainda o desdobramento da crise de 2008.

Com essa crise, o Estado brasileiro arrecadou menos, o nosso Estado do Acre é um Estado dependente, portanto, com os repasses diminuindo para municípios e estados, nós tivemos uma espécie de comprometimento cada vez maior com a folha de pagamento, dada a queda da receita.

Era fundamental um parecer da Secretaria de Fazenda, colocando a nossa margem de manobra ser muito pequena.

Segundo parecer.”

Nós trabalhávamos com o que preceitua a Lei Eleitoral e o que nós recebemos foi o seguinte: “Lei Eleitoral, Procuradoria-Geral do Estado tem o seguinte entendimento, os governos estaduais, em ano de eleição, podem recuperar perdas salariais no ano em curso, do dia 1º de janeiro ao 5 de julho.”

Só que há um problema. Ao fazer dessa maneira, você tem de fazer um reajuste linear, eu não posso repor perdas diferenciadas para as categorias, eu não posso dar aumento só para professor. Se o governo repor para professores, ele tem de repor para todos, ou seja, para os 40 mil servidores públicos.

Esse é um problema que cria obstáculos para cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ainda que a inflação nesse período chegasse a uns 2.5%, isso projetado para 40 mil servidores é um valor bem significativo.

Mas nós estamos fazendo alguns cálculos sem ferir as duas leis.”

Nós podemos discutir o prêmio de valorização que existe no magistério. Nós estamos fazendo um estudo com a Secretaria de Fazenda para dialogarmos com os trabalhadores da educação.

Na segunda-feira, dia 26, às 16 horas, haverá uma reunião conclusiva sobre isso.

O Sinplac está pedindo que o valor do prêmio, ao invés de ser pago duas vezes no ano, parte dele seja pago mensalmente. Esse é um pedido do Sinplac. Nós estamos dando atenção a todas as possibilidades, a todas as saídas, desde que de forma democrática, respeitosa, sem violar a lei.

LÍNGUAVocê diz “respeitosa”, mas tem sindicalista propagando que Carioca mandou as mulheres lavarem roupa.

Vou processar esse professor.”

Vou colocar em alto e em bom som: não tem como eu não processar esse professor, impossível. Ou eu processo esse professor ou a irresponsabilidade de ele dizer isso ao microfone para centenas pessoas, sobretudo de mulheres, ficará sendo a verdade. Por isso, em juízo, ele terá de provar o que disse.

À mesa de negociação, eu interpelei a própria presidente do Sinplac, que disse, na frente de todo mundo, que o professor sugeriu isso a ela, porque a massa ficaria muito mais exaltada, com a temperatura elevada.

A professora Alcilene, sabendo que isso não era verdade, não colocou isso ao microfone, mas o professor que sugeriu disse. Eu vou processá-lo senão passará a ideia de que eu disse isso contra as professoras, contra as mulheres. Não se trata de ameaça, mas compromisso com a minha honra.

Quer debater comigo?

Vamos debater. O que prevalece à mesa de negociação é sempre a autoridade do argumento e não o argumento da autoridade; é a força do argumento e não o argumento da força. Se for assim, a gente vai.

LÍNGUACarioca, para evitar esse disse me disse, por que sua equipe não filma as reuniões para depois serem colocadas no sítio do governo?

É uma boa ideia.

quinta-feira, abril 22, 2010

Alunos, eu lecionarei na segunda


Hoje, distante, ouvi pessoas ao microfone do carro de som do Sinplac. Às 16 horas, Carioca se reunirá com os professores. Amanhã, haverá churrasco pela manhã.

Eu não sou a maioria. Eu sou a minha individualidade, entenda, isso não significa individualismo. Não sou o que a maioria pensa e nem o que penso. Sou a favor do bem senso, da boa ideia, do novo, de novas possibilidades. O que é ultrapassado pelo tempo não merece minhas horas de atenção.

Eu não sou a maioria. Eu sou a minha liberdade de escolher o que não é burro. Esse atual modelo sindical é tolo, amador, infecundo. Uma maioria não me representa quando não pensa no novo, quando não sabe o que diz, quando acredita que sindicalismo é carro de som na rua, quando diz que greve de professor não é reposição de aula.

Eu não sou a
maioria. Eu sou a minha palavra contra uns professores que nunca se reúnem rápido na escola HMM para qualificar o ensino público, mas se reúnem em segundos para prolongar feriados, para votar a favor de reposição de aula ("greve").

Eu não sou a maioria, porque a maioria não sabe o que eu penso e não está nem aí para o que eu penso, eu sou a minha inquietude, valor oposto ao rebanho sindical que pasta no campo árido das mesmas ideias, das mesmas práticas.

Eu não sou a maioria quando essa mesma maioria defende um sindicalismo de século 19. Estou no século 21. A maioria perdeu o mouse da história.

Minoria

Em verdade, não foi a maioria que votou a favor da "reposição de aula", foi uma minoria que decidiu por uma maioria. Na minha escola, em uma sexta-feira, um grupo votou quando nem todos os professores estavam na Heloísa Mourão Marques, por exemplo, eu não leciono na sexta.

Professor vota em paralisação do corpo docente da escola HMM, mas se prepara para sair do magistério, quer receber melhor no Poder Judiciário. Luta (?) tanto pela escola pública que deseja sair logo da sala de aula para atrevessar as portas do Tribunal Regional Eleitoral.
Liberdade de um só

Eu não sou uma minoria que decide pela maioria. Eu sou um eu, a minoria absoluta, que decide retornar às aulas na segunda-feira, dia 26 de abril de 2010, porque a liberdade de um só deve ser respeitada em um país livre e democrático.

Quando vocês forem um dia melhores do que são, aí, quem sabe, poderá haver diálogo entre nós.

quarta-feira, abril 21, 2010

O Sinplac não quer olhar para si mesmo










Votei na atual direção; entretanto, independente disso, minhas críticas destinam-se ao Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), à sua forma de se organizar, de escrever na lousa sua maneira de se opor ao governo, ao poder.

Quando o Sinplac surgiu como APL, alegrei-me muito porque acreditei que novas trilhas seriam criadas por mulheres na direção sindical. Na época, trabalhando como repórter do Página 20, publiquei a matéria Fim do monopólio sindical.

Desde aquele dia, mulheres estiveram à frente do Sinplac, no entanto elas nunca deixaram marcas diferentes das marcas masculinas, isto é, mulheres ocupam espaços sindicais como os homens ocupariam. Se é para fazer o mesmo que os homens, melhor ficar em casa cuidando dos maridos e do filhos.

Descentralização

Só existe esta atual forma de organização sindical? só há esta maneira de votar em um dirigente? A atual democracia do Sinplac, cópia do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Acre (Sinteac), representa o gênero masculino por ser esse gênero centralizador e por não haver critério qualitativo para escolher o candidato.

Pertence ao gênero feminino descentralização e qualidade [democrática], mas isso não existe no Sinplac.

Imprensa

Não me refiro ao nome Alcilene, atual presidente, mas ao Sinplac de antes e de hoje. O sindicato está acima das direções, muito acima de nomes. O Sinplac permanece, e direções passam.

Trata-se de uma vergonha como se encontra a comunicação do Sinplac. Quando existe, apequena-se com seus panfletos. O Sinplac deve formar uma imprensa autônoma, criada por bons profissionais, jornalistas sem vínculo com a pouca inteligência de obreiros sindicais.

O atual assessor de comunicação do Sinplac, Josafá Batista, está para apresentar uma proposta de um novo jornalismo sindical. Espero que vingue.

Sindicato-empresa

O Sinplac não pode mais se reduzir a receber dinheiro dos filiados. Esse dinheiro precisa criar, por exemplo, bens culturais. O dinheiro sindical precisa criar riqueza e precisa todo ano passar por uma auditoria.

E não é só isso.

terça-feira, abril 20, 2010

Documento, interior e Osmarina

Hoje, cheguei à paralisação dos professores por voltas das 10 horas. O Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), até 12h20, esperou por um documento do governo, mas as palavras escritas do patrão não chegaram.

Por causa de o governo não ter entregado o documento à categoria, sindicalistas falaram ao microfone do descaso do PT pelos professores. Não digo descaso; porém, por não se sentir pressionado, o governo permaneceu indiferente, não entregou o documento.

Se a reposição de aula, que chamam de "greve", pressionasse o governo, ele teria entregado o documento.

Na quinta-feira, nova concentração no Centro, diante da Assembleia Legislativa do Acre. Acredita-se que o documento chegará nesse dia.

Uma TV local usou meu blogue para apontar a fragilidade do Sinplac, publicando que o sindicato não tem representatividade no interior. Isso é fato, mas a questão não se reduz só a isso. O Sinplac, antes de criar núcleos no interior, precisa debater a forma como o sindicato deve ser organizar para escolher seus representantes.

A gestora Osmarina, da escola Heloísa Mourão Marques, afirmou que professor não reporá aulas aos sábados. O ano letivo irá até janeiro, e o vestibular do terceiro ano poderá ficar comprometido.