domingo, outubro 11, 2009

Perigos da obediência

Livro e filme retratam como a sociedade administrada e a manipulação da linguagem desenvolvem no indivíduo o ódio pelo outro

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" -e haveria outras a lembrar.

Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.

O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".

Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.

Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.

Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.

Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.

Forças destrutivas
À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...

Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".

Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".

Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.

Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.

Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.

Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".

Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.

(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.

Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.

O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).

Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.

O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.

Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.

Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".

Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.

Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.

A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Binho Marques, o governador

Quando um médico negligencia, o problema é visível, concreto, palpável, porque transforma ser humano em cadáver. No Acre, um homem da medicina, segundo informações, aplicou uma dose forte de indiferença em uma criança.

Ela morreu na noite de quinta-feira, na Fundação Hospitalar. Com convulsão, a enfermeira avisou ao médico que a criança encontrava-se na sala de descanso, e ele disse que somente a internaria na sexta pela manhã. Mas não houve manhã para um inocente.

A mãe denunciou o médico no Ministério Público, e o governador o demitiu sumariamente. A equipe do hospital também sofreu sanção disciplinar.

No hospital, a morte evidencia-se. E na escola? Em uma sala de aula, o corpo não morre, mas vaga sem espírito na Nação por causa da negligência de um professor, de outro professor. Por causa de uma escola pública.

Nesse caso, o que um governador pode fazer?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Qualidade de ensino

Quando meus olhos debruçaram-se sobre as redações de meus alunos do segundo ano do ensino médio, percebi com muita clareza que nas séries anteriores seus textos jamais foram refeitos em sala de aula. "Professor, eu nunca estudei dessa maneira redação", compara um aluno.

Neste semestre, apresentei a eles a proposta de redação do Enem de 2005. Não comentei, só entreguei. Não houve uma só redação que usasse os dados da proposta.

Em um segundo momento, retirei com eles as ideias principais e a relação entre essas ideias. Além disso, por estar submersa no texto, coloquei uma informação na superfície. Depois disso, iniciaram-se escrita e reescrita.

A princípio, colocar números, uma região brasileira, o jornal "O Globo" e o IBGE na introdução deveria ter sido tarefa simples mas não foi. Para colocar na ordem, precisei de quase 16 aulas, e alguns não conseguiram.

Rayana Souza conseguiu após ter reescrito várias vezes. Em 4 de setembro, ela escreveu:

"O trabalho infantil hoje em nossa sociedade é cada dia mais comum. Famílias que não tem uma estabilidade financeira acabam colocando as crianças para trabalharem nos sinais vendendo bala, limpando vidros de carros e algumas chegam até à prostituição."

Escreveu e reescreveu. Escreveu e reescreveu. Após as minhas tantas observações, o seu texto ficou assim:

"Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados pelo jornal 'O Globo' em 11 de maio de 2004, 5.438 milhões de crianças e de adolescentes submetem-se ao trabalho escravo nesta 'Pátria amada'. O Nordeste, região mais religiosa do país, possui o maior índice de exploração, 2.296 milhões (42.2%). O poder público, por sua vez, não atua como deveria."

Quando leio um texto desse após muitas tentativas de uma aluna, peço a Deus sabedoria e esforço incansável para transformar a vida (textual) de meus alunos.

Não tenho tempo para reclamar de meus alunos. Professor que reclama de aluno assemelha-se a um médico que reclama de um paciente por estar enfermo.

domingo, outubro 04, 2009

Uma noite com Saramago

No sábado, dia 3, fui ao teatro assistir ao texto "Levantado do Chão", de José Saramago. Quatro turmas do ensino médio foram convidadas, um total de 120 alunos. Uns 20, entretanto, compareceram.

Se fosse Expo-Acre, comprariam até botas e calças para ficar na moda.












Saudável e equilibrada a socieadade que mais teatro tem do que igrejas neopentecostais.












Final do espetáculo. Os responsáveis pelo teatro no Acre precisam retirar o ato estético dos lugares fechados para interromper o espaço urbano. Imagino textos teatrais manfestando-se ao mesmo tempo em várias partes de Rio Branco.

O teatro popular entrando em ônibus, personagens surpreendendo com falas e com gestos a mecânica do urbano.

sexta-feira, outubro 02, 2009

O mundo do revisor

Nesses anos trabalhando como revisor em redações, cometi o grave erro de não registrar momentos que comovem a língua portuguesa, por exemplo, este:

"Policiais evitaram que o cachaceiro Raimundo Silvestre Dias colocasse fim em sua própria vida através do suicídio."

quinta-feira, outubro 01, 2009

"Sopão enche o bucho"

Hildebrando perde patente, e
direitos políticos de Romildo Magalhães são cassados

De Nayanne Santana

O juiz substituto Luís Gustavo Alcade Pinto, responsável pela 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Rio Branco, julgou como procedente uma ação civil pública na qual os réus são ex-deputado federal Hildebrando Pascoal e o ex-governador Romildo Magalhães.

A ação, impetrada pelo Ministério Público Estadual (MPE), pedia a perda da patente de coronel de Hildebrando e punição para ex-governador Romildo, que beneficiou o ex-deputado com a elevação de patente.

“As condenações que envolvem Hildebrando são a nulidade do Decreto 754/94, que promoveu o réu de tenente-coronel para coronel, determinado a perda da patente. A segunda condenação é a nulidade do Decreto 784/94, que o transferiu para reserva remunerada, e a terceira condenação é perda dos valores acrescidos ilegalmente nos valores dele. Ele também fica com os diretos políticos cassados por dez anos”, explicou.

Segundo o documento, o ex-deputado Hildebrando Pascoal deve perder a patente de coronel da Polícia Militar, e Romildo Magalhães deve ser punido, porque promoveu Hildebrando de tenente-coronel para a patente de coronel sem respeitar os requisitos legais. O juiz explica que Hildebrando é réu, porque ele se beneficiou dos decretos, porque houve aumento salarial e, por conseqüência, aumento de bens ao mudar de patente.

“Logo após a promoção ilegal, que foi feita por meio do Decreto 754/94, o ex-governador editou um novo decreto [Decreto 784/94] e transferiu o então coronel Hildebrando para a reserva remunerada, porque ele havia sido eleito em dezembro [de 1994] a deputado estadual, então ele não poderia acumular duas funções”, detalhou o juiz Luís Gustavo.

De acordo com o magistrado, o processo que pede a perda da patente de Hildebrando e a punição ao ex-governador Romildo Magalhães foi pedido pelo MPE em 4 de julho de 2000.

Punições a Romildo

A sentença do juiz Luís Gustavo Alcade poderá causar transtornos ao ex-governador Romildo Magalhães, que tinha pretensões de ser candidato em 2010. Entre as punições aplicadas, consta na sentença que Romildo ficará com os direitos eleitorais cassados por oito anos.

Ele também fica impedido de participar de licitações públicas e, caso exercesse função pública, teria de deixar o cargo. O ex-gestor estadual também poderá fazer parte do pagamento da dívida que Hildebrando adquiriu com o Estado ao ser beneficiado por decretos ilegais de Romildo. O ex-governador poderá efetuar pagamento solidário caso o ex-deputado encontre dificuldades para quitar a dívida.

O juiz substituto Luís Gustavo ressalta que os réus podem recorrer da decisão.

Alcilene, e agora?

A professora Alcilene foi escolhida como presidenta do Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac). Os jornais não deram uma nota. Eleita, espero que agora ela cumpra ideias essenciais ao sindicato.

Novo Jornalismo
Um delas - e tenho falado disso muitas vezes - é o jornalismo sindical. Da forma como se encontra hoje, é ratificar uma asnice. Que os informativos permaneçam, mas um jornal que ultrapasse os limites dos clichês sindicais, caso chegue agora, hoje, já chega atrasado.

Não há no Acre informação séria e profunda sobre educação pública. O governo, sem dúvida, melhorou o ensino, porém criou mitos e, o que é pior, monopoliza uma informação superficial e narcísica sobre essa educação.

O jornalismo sindical, se for reimpresso pelo Sinplac, não deve ser criado para ser opor ao governo, mas para expor matérias bem trabalhadas e imparciais à sociedade acriana. Um jornal não para professores. Um jornal não contra o governo. Um jornal para a sociedade. Um jornal para a educação pública - esse bem muito acima de partidos, de pessoas, de grupos, de ideologias.

O Sinplac, caso a professora Alcilene cumpra, deverá possibilitar um jornalismo sindical independente do próprio sindicato. Livre e absurdamente ético e responsável, criado por profissionais que saibam escrever bem, que sejam inquietos e atrevidos. Gente inteligente.

Alcilene, irei cobrar!!! sempre!!!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Em época de Enem, eis as pérolas

1) "o problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta." (percussão e estalos. Vai ficar animado o negócio)

2) "A amazônia é explorada de forma piedosa." (boa)

3) "Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar planeta."
(tamo junto nessa, companheiro. Mais juntos, impossível)

4) "A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu."
(e na velocidade 5!)

5) "Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta."
(pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

6) "O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação."
(pleonasmo é a lei)

7) "Espero que o desmatamento seja instinto." (selvagem)

8) "A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo." (o verdadeiro milagre da vida)

9) "A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta."
(também fiquei emocionado com essa)

10) "Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis."
(todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro, e realizar uma árvore renovável)

11) "Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas."
(esqueceu que também ficam sem o home theater e os dvd's da coleção do Chaves)

12) "Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna."
(amém)

13) "Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza."
(e as renováveis?)

14) "A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica."
(deve ser culpa da morte ecológica)

15) "A amazônia tem valor ambiental ilastimável."
(ignorem, por favor)

16) "Explorar sem atingir árvores sedentárias."
(peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões)

17) "Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia."
(o quê?)

18) "Paremos e reflitemos."
(beleza)

19) "A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas."
(onde está o Guarda Belo nessas horas?)

20) "Retirada claudestina de árvores."
(caraulio)

21) "Temos que criar leis legais contra isso."
(bacana)

22) "A camada de ozonel."
(Chris O'Zonnell?)

23) "a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor."
(a solução é colocar lá o pessoal da Zorra Total pra cortar árvores)

24) "A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração."
(para fabricar o papel que ele fica escrevendo asneiras)

25) "A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo dsmatamento devastador, intenso e imperdoável."
(campeão da categoria "maior enchedor de lingüiça")

26) "Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação."
(NÃO!)

27) "Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises."
(gênio da matemática)

28) "A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes."
(red bull neles - dizem as árvores)

29) "O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório"
(ótima)

30) "O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando."
(subindo!)

31) "Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc."
(deve ser a globalização)

32) "Convivemos com a merchendagem e a politicagem."
(gzus)

33) "Na cama dos deputados foram votadas muitas leis."
(imaginem as que foram votadas no banheiro deles)

34) "Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia."
(oh god)

35) "O que vamos deixar para nossos antecedentes?"
(dicionários)

terça-feira, setembro 29, 2009

Partidarização, Osmarina e um Prêmio

Nos jornais acrianos, carros batem em postes todo dia, policiais prendem marginais e drogas são apreendidas, porém não sabemos o que ocorre na escola pública. Só sabemos dela quando o governo a propaga por meio dos veículos de comunicação de massa.

Mas a propaganda de governo não emite uma imagem reflexiva sobre educação pública. Por meio dos jornais, da TV e do rádio, o governo da Frente Popular se elogia, confinando a escola à condição de um objeto superficial.

Antes, propagava-se que tínhamos o melhor salário do país. São Paulo, governo do PSDB, paga o melhor salário hoje. Quando os resultados são negativos, os dados do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, não servem. Quando são positivos, servem.

No Acre, a escola pública é objeto da partidarização. Os sindicatos da educação poderiam transformar a rede pública de ensino em discurso reflexivo; suas lideranças, porém, sempre foram incapazes disso.

Partidarização da escola pública

Desde 2003, quando comecei a lecionar na escola Heloísa Mourão Marques, vi a presença cancerígena de partidos políticos com a finalidade única de colocar na gestão escolar pessoas de seus interesses.

Por ser um erro, o atual processo eleitoral permite essa partidarização na escola. Quem padeceu com a presença de partidos de esquerda foi a professora Osmarina. Difamaram-na e, por causa disso, perdeu muitas eleições.

Porque o partido escolheu, submeteram o corpo docente a aceitar depois pessoas incapacitadas para coordenar o ensino. Entretanto, com muito jeito, com muita articulação, a professora Osmarina foi escolhida após tantas derrotas. Colocar o professor Gleidson como coordenador de ensino também não foi fácil.

Os vícios do setor público

Hoje, a escola não deixou antigos problemas. Funcionário, por exemplo, quebra um cabo de DVD, mas acha que não deve pagar. Professor acha que não deve ser cobrado. Mesmo assim, a escola apresenta outra imagem por causa da gestora-professora Osmarina.

Embora trabalhe para melhorar a escola, dois professores a processaram. Quando a antiga gestora (?) deixava a escola por um mês, esses dois professores calaram-se.

Algo simples. Para muitos, sem importância. A escola Heloísa Mourão Marques recebeu um prêmio por causa de um projeto interdisciplinar (foto). Nem todos lutam para que a escola pública seja premiada. Osmarina luta. Gleidson luta.

domingo, setembro 27, 2009

Os comunistas











Soldados chineses formam o desenho da foice e do martelo

Aos domingos, quando há um ótimo texto no caderno Mais!, do jornal a Folha de São Paulo, eu publico neste blogue. Achei pertinente esta publicação porque ontem o Partido Comunista do Brasil, o PC do B acriano, realizou um encontro estadual.

Boa leitura!

RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM

Dos nove homens mais poderosos da China, membros do Politburo do Partido Comunista, oito são engenheiros. Apenas um é advogado. O debate político parece mínimo, mas a execução das obras e o planejamento estão em todo lugar na transformação da China dos últimos anos.

Os dois membros mais jovens do Politburo têm doutorado -eles devem se tornar os próximos presidente e primeiro-ministro. Um deles, o atual vice-presidente, Xi Jinping, 56, deve ser o próximo presidente, ainda que não seja o preferido de quem hoje ocupa o cargo, Hu Jintao, prova da tímida democracia interna que começou a crescer na última década.

"Antes de morrer, Deng Xiaoping escolheu Jiang Zemin e Hu Jintao como seus sucessores e ninguém ousou desrespeitar seus planos, mesmo quando já estava no túmulo", diz o cientista político Victor Shih, chinês de Hong Kong, que fez doutorado em Harvard sobre política chinesa.

"Não há mais Mao Tse-tung ou Deng Xiaoping, que decidiam tudo. Cada geração tem menos poder que a anterior, e as diferentes facções se monitoram entre si", afirma Shih.

Ainda não se fala em democracia ou em múltiplos partidos, mas o Partido Comunista chinês passa por uma discreta transformação. Dos 371 membros do Comitê Central, 92% têm diploma universitário.

A partir de 1978, depois de três décadas de revolucionários que souberam derrotar japoneses e nacionalistas, mas que afundaram a economia chinesa, o partido só quis saber de crescimento econômico e "estabilidade" social.

Hoje, quem promove maiores altas no PIB em suas cidades e Províncias e reprime ou previne protestos sobe mais rapidamente na hierarquia.

Jiang Zemin é considerado responsável pela transformação econômica de Xangai e esteve entre os responsáveis pela repressão aos estudantes na praça da Paz Celestial. Hu Jintao era secretário-geral do partido no Tibete em 1989 e, diz-se, reprimiu protestos de monges budistas de "forma exemplar". De ditadores poderosos, o PCC passou a uma liderança coletiva com prazo de validade. A aposentadoria é compulsória para quem chega aos 65 anos no Comitê Central e 70 anos no Politburo.

Principezinhos
Meritocracia e bons contatos às vezes se misturam ou competem na ascensão no partido, que tem 76 milhões de afiliados. Um dos grupos em alta no PCC é o dos "principezinhos", filhos de lideranças partidárias que subiram rapidamente na hierarquia pelos contatos herdados. Xi Jinping é um principezinho.

Outro é Bo Xilai, 60, secretário-geral do partido para a região metropolitana mais populosa da China, Chongqing. Bo foi prefeito de Dalian, porto importante do norte do país. Transformou a cidade em modelo ambiental, com programas de transporte público, despoluição e reciclagem de lixo elogiados e um crescimento econômico recorde. De lá, virou ministro do Comércio.

"Parece prêmio ao mérito, mas, por ser filho de pai influente, ele conseguiu atrair investimentos de Pequim, mais créditos nos bancos estatais, investimentos estrangeiros foram dirigidos para lá, então o "quem indica" precedeu o mérito", diz o professor Shih.

Dali foi enviado para chefiar o partido em Chongqing, 31 milhões de habitantes e barril de pólvora político -8 milhões de pessoas desalojadas para a construção da hidrelétrica de Três Gargantas foram para lá. Chongqing vive periódicos protestos sociais e inúmeros casos de corrupção.

No mês passado, Bo colocou na prisão 1.500 pessoas acusadas de participar de tríades, a máfia chinesa. O feito, divulgado amplamente pela mídia estatal, já colocou Bo como outro candidato a suceder Hu -e como adversário de Xi Jinping.

As punições no partido obedecem à mesma dualidade entre performance e padrinhos. Casos de corrupção podem ser punidos com prisão perpétua ou até pena de morte por servirem de "exemplo" a outros milhares de corruptos que estejam fazendo o mesmo -ou como revanche de alguma facção que quer exibir seu poder.

Mudança limitada
A corrupção se espalha de empreiteiras e venda de terras até a educação, a saúde e o interior do partido. Nas Províncias, há esquemas de propina para promoções, cargos bem remunerados ou para aqueles em que é mais fácil fazer dinheiro -como administração de terras ou estatais.

Na reunião anual do Comitê Central do PCC, ocorrida há dez dias, uma das prioridades divulgadas pela imprensa estatal foi o combate à corrupção.

"Um burocrata provincial pode ganhar 5.000 yuans por mês (R$ 1.300), enquanto um diretor de banco estatal pode ganhar 20 vezes isso", diz Shih.

Centenas de casos de corrupção nas Províncias e suas punições, que servem de advertência aos demais, são divulgados diariamente pela imprensa oficial. Não é o que acontece quando os escândalos chegam ao topo da hierarquia comunista.

O "New York Times" noticiou um esquema de propinas na África da empresa chinesa Nuctech, que produz scanners e outros equipamentos de inspeção. Hu Haifeng, filho do presidente Hu Jintao, dirigia a empresa, que até participou de concorrência internacional da Receita Federal no Brasil.

O filho do presidente virou secretário-geral do Partido na holding das empresas criadas pela Universidade Tsinghua, onde pai e filho estudaram. Todas as reportagens sobre a Nuctech são bloqueadas na internet chinesa e o assunto é ignorado pela mídia estatal.

"As políticas anticorrupção não estão funcionando e o próprio governo reconhece", diz Shih. "Apesar da modernização do partido, a inexistência de imprensa livre e de Judiciário autônomo limita a mudança."

sexta-feira, setembro 25, 2009

Blogue aberto a Moisés Diniz

Deputado,

Li com muita atenção a matéria sobre seu projeto, publicada neste blogue (abaixo). Trata-se de um atraso, deputado, quando evangélicos submetem o Estado à vontade de dogmas.

Sou professor da rede pública estadual e, em minhas salas, há alunos homossexuais. Na semana passada, no canto de um corredor, deparei-me com um aluno chorando. Estudioso, educado, bom ser humano, sua homossexualidade não se esfrega na vulgaridade.

Parei para ouvi-lo. Disse-me que seu pai bateu nele durante um bom tempo com galho fino de goiabeira e, agora, aos 16 anos, esse mesmo pai disse à esposa que não tolera mais ver o filho ser protegido pela mãe. "Minha casa não é lugar de viado."

"Por causa de mim, meu pai vai sair de casa, ele vai deixar a minha mãe", disse-me.

Sua avô é evangélica e não aceita o neto como ele é. Um dia que você tiver maturidade para amar alguém e ser amado, realize essa união com dignidade, com respeito. Mas, antes desse amor, estude, dedique-se ao saber para conseguir no futuro um bom emprego e assim não depender de pessoas, por exemplo, de sua família.

Disse isso e mais, mas sei que foi pouco. A injustiça das igrejas evangélicas sobrepõe-se ao equilíbrio da educação. Penso que a escola onde leciono deveria criar a temática homossexual de forma interdisciplinar, um saber entre história, literatura, biologia.

Deputado, a questão é seríssima, lamentável seu caráter recuar perante o fanatismo.

E agora, deputado?

Deputado diz que pode rever projeto contra a homofobia
Texto não é meu

O deputado estadual Moisés Diniz (PC do B), líder do governo na Assembleia Legislativa, vem sofrendo uma campanha implacável e desumana liderada por alguns pastores de Rio Branco, pelo fato de ter apresentado projeto de lei contra a homofobia.

Devido a campanha pesada dos pastores, o deputado está disposto a rever o seu projeto contra a homofobia. Diniz tinha apresentado projeto na Aleac, aprovado por 15 votos a 6, que cria o Dia Estadual de Combate a Homofobia.

“A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil. O nosso projeto era contra isso, a favor da vida. Eu não pensava que fosse possível ter ódio onde se prega o amor ao próximo”, desabafou o deputado.

O que mais estranha nesse episódio é que o bombardeio e o ódio contra o projeto do parlamentar comunista esteja partindo de um grupo de pastores que deveria ter na essência de suas pregações a defesa da vida e o amor ao próximo, regra e essência dos ensinamentos de Jesus que esses pastores afirmam defender no palco de seus templos.

Esses pastores chegaram ao absurdo de se reunir com o governador Binho Marques, ontem pela manhã, e pedir a ele que vete o projeto.

O parlamentar disse que ficou surpreso com a repercussão do projeto. Ontem à tarde Diniz telefonou para alguns pastores e informou que está disposto a rever o projeto. Detalhe: um outro grupo desses religiosos já se manifestou contrário a campanha que os colegas vêm pregando contra o deputado.

“Eu estou disposto a pedir ao governador que vete o meu projeto. É triste isso, mas eu não recebi nenhum apoio, apenas oposição”, afirmou o líder. A Tribuna apurou que essa campanha contra o projeto do deputado teve apenas um lado: pastores contra. E que nenhum sindicato ou associação da sociedade civil, por exemplo, se manifestou. O recuo de Diniz é exatamente porque apenas um lado está tomando partido.

Os pastores estão na contramão da sociedade moderna, já que o projeto nasceu para combater uma discriminação que gera morte. O deputado não apresentou nada ligado a religião e não propôs nenhum debate religioso, apenas um dia de combate a homofobia, um dia para a defesa da vida.

O projeto de Diniz, ao qual A Tribuna teve acesso, não defende que o cidadão seja homossexual, mas prega a luta contra a perseguição, contra o preconceito que produz a morte.

O deputado disse que há 25 anos já filiava pastores evangélicos no PCdoB em Tarauacá, demonstrando ser um profundo defensor da liberdade religiosa. Disse ainda que não vai constranger os deputados que votaram a favor e nem o governador.

“Eu continuo acreditando que Deus ama a todos os homens, principalmente os pecadores. Não vou entrar em debate religioso e nem insuflar ânimos. Deus vai julgar o que nós estamos fazendo agora”, concluiu.

De alunos e aos alunos

Em minha casa, guardo com muito carinho processos que pessoas moveram contra mim. Para rir delas - e rio muito -, já fui processado por não lecionar gramática em sala de aula, por lecionar produção textual. Até ler Monteiro Lobato para alunos do ensino fundamental foi motivo de processo.

Na Universidade Federal do Acre, consta em um processo que eu lecionava "A República", de Platão, em Literatura Infanto-Juvenil, e isso, acredite, repito, foi motivo para eu ser processado .

O tempo... é preciso paciência para que o rosto das horas e dos dias revele seus traços serenos de verdade. É preciso esperar. No passado dessas folhas processuais até hoje, coleciono em meu álbum minutos, horas, dias, semanas, meses, anos.

À sombra das folhas mortas de outono, é preciso esperar sem jamais deixar de acolher na memória de minha história nomes que me traíram em páginas desses processos.

Como me esquecer de João de Carvalho? como me esquecer de Milton Chamarelli? esquecer-me de Vicente Serqueira, como? Não me esqueço desses nomes - há mais - como quem não se esquece do Deus, o do Velho Testamento.

Ainda permaneço muito vivo em sala de aula, e meus alunos, os mais dedicados, os mais interessados, os inquietos, os que incomodam a mediocridade, reconhecem a voracidade carinhosa de minhas aulas e a desobediência de minha paixão por lecionar. Deles, recebo o mais sincero respeito e admiração após 10 anos, após 15 anos.

Recentemente, a turma A, segundo ano do ensino médio da escola Heloísa Mourão Marques, criou uma festa para o corpo docente, e eu, em minha condição humana, não pude deixar de me emocionar diante de alunos inteligentes, esforçados, amorosos, inquietos. Mesmo os que não passaram, mesmo eles, creia-me, não deixaram de reconhecer a minha vontade de transformar suas vidas por meio da educação, da cultura, do saber.

Deus sabe o quanto desejo revê-los no futuro como adultos vitoriosos em suas profissões, e isso significa dizer servir suas profissões com paixão aos seus semelhantes, porque a essência do trabalho não se reduz a receber o salário no final do mês, porém transformar, para melhor, a vida do semelhante.

Fui teu professor para que tu nunca te esqueças de mim como obstáculo ultrapassado por seu esforço e por sua inteligência. Quem não me transpos, paciência, ainda não era a tua hora, o teu tempo.

Dois alunos passaram pelo obstáculo e deixaram estas palavras neste blogue.

"Professor, como aluna, posso dizer que suas aulas são excelentes!!!. Outros professores de outras disciplinas até se questionam se o senhor, um homem tão rígido, tem um 'mel' que conquista os alunos! Bom seria se todos os professores utilizassem métodos assim, que, além de descontraírem, estimulam o aprendizado! Abraços!"

"Por isso que eu o admiro como professor, como pessoa. Sinto falta das tuas aulas. Um abraço!"

quinta-feira, setembro 24, 2009

Bagunça Escolar









Aldoro uma bagunça em minha sala de aula. Gosto da ordem, sei o quanto ela é importante por vários motivos. A desordem (outra forma de ordem) me seduz. Os poetas árcades desprezavam a estética barroca por achar que ela pertencia à impureza da desordem.











O barroco, entretanto, representa uma outra ordem que a ordem árcade não quer entender, por exemplo, a ordem lúdica. Brincar em sala. Gritar. Bagunçar. Desordem sob controle.

Hoje, mais uma vez, permiti que meus alunos brincassem, e eu também, claro. Divididos em grupos de três, uma disputa entre rapazes e moças para colocar em ordem parágrafos fora da ordem lógica de raciocínio. Muito bom.

Leciono há quase 20 anos e ainda me oponho a uma sala SOMENTE séria, formal, inflexível. Até hoje, não me deixo ser possuído pelo condicionamento monótono das escolas. Não consigo imaginar o ato de lecionar sem a presença prazerosa do lúdico.

Senhores, brinquemos!

Da Ufac ao Gazeta Alerta

Diante do poder comunicativo da televisão, este blogue não passa de um indigente, um corpo verbal sepultado pelo esquecimento da indiferença. Quem é Aldo Nascimento perante a audiência de um Edvaldo Sousa, do programa Gazeta Alerta?

Mas, por eu não ser senso comum - e nem gostaria -, motivo-me a manter uma crítica sóbria não à pessoa de Edvaldo Sousa, por sinal, homem honrado, idôneo, mas à sua condição de comunicador de massa. Sua imagem pública, portanto, incomoda-me como fenômeno social. Repito: como fenômeno social. Quando a opinião é sobre violência, ele influencia telespectadores de classes sociais.

Sobre isso, o silêncio espesso de professores das faculdades de jornalismo. São intelectuais que lecionam entre quatro paredes teorias da comunicação; porém, além dessas paredes, noticiam mudez na imprensa escrita. Não se lê no jornais locais um artigo sequer sobre comunicação de massa do Acre.

Na tela
Não tenho hábito de assistir ao progrma Gazeta Alerta, gostaria se o tempo estivesse a meu favor. Às vezes, quando está, assito.

Ontem, após a condenação de Hildebrando Pascoal, vi o comunicador em seu programa sem o mesmo tom de voz de outras vezs. Para falar da sentença, do caso Baiano, o âncora foi comedido, prudente, limitando-se ao fato em si, isto é, à sua superfície.

Não ouvi "sua subjetividade" em ação, sua dramaticidade, porque falar da violência dos marginalizados pelo Estado ao londo de décadas não se equipara à violência de uma classe social que transformou o poder institucional em esquadrão da morte.

Neste ano, por falta de tempo, não apresentarei ensaio a um concurso da Prefeitura de Rio Branco, droga. Quando o tempo estiver a meu favor, escreverei um ensaio, quem sabe, sobre Gazeta Alerta.

quarta-feira, setembro 23, 2009

A caneta









Foto de Debora Mangrich,
a gorda

Conforme acordo, a TV Justiça passaria às TVs acrianas as imagens do caso Baiano. O Sindicato dos Jornalistas do Acre assinou.

O chefe de jornalismo da TV Acre, Jefson Dourado, resolveu registrar as imagens por meio de uma caneta-filmadora. Foi detido.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Quinta Parada GLBT de Rio Branco

Íris é a deusa do arco-íris. Ela é descrita como uma figura feminina alada e muito bonita, na maioria das vezes, ela parece vestida com uma longa túnica, e suas asas possuem coloração dourada. Seus símbolos são o arco-íris e um cálice dourado.

Deusa mensageira, como Hermes, era venerada pelos gregos que acreditavam que Íris tinha como função manter a ligação entre o céu e a terra, entre os deuses e os homens, transmitindo ordens, pedidos e conselhos.

No Olimpo, Íris atendia aos deuses, principalmente, a Zeus, mas se dedicava mais à deusa Hera. Segundo a lenda, as asas adquiriam as cores do arco-íris quando a jovem partia para suas tarefas. Foto de Debora Mangrich.















Foto de Debora Mangrich. Quando fanáticos neopentecostais buscam a verdade absoluta, a ambivalência do homossexual desorganiza, relativiza.




















Foto de Debora Mangrich. Os gays reverenciam o excesso, são muitas cores, muitas formas. Há neles o culto à vida intensa, mas há também um culto ao mito de Narciso. Esse mito grego é homossexual porque, por meio de seu reflexo na água, o outro, a imagem, é seu próprio sexo.










Foto de Debora Mangrich. Fui à Parada Gay (letras maiúsculas). A liberdade de se fantasiar, e o desejo por outro homem. O gay da foto não matou seu semelhante como o Deus de Israel mata até hoje na Faixa de Gaza palestinos. Penso ser inumano matar homossexuais ou chamá-los de sujos.


sexta-feira, setembro 18, 2009

Xonarlismo

"Eu não posso está fora do cenário político. Eu vou está presente onde eu possa expressar ao mundo os meus valores."

Comum entre nossos jornalistas. Buscar o correto nesse caso depende de colocar outro verbo no lugar de "está". Nós não falamos "posso morre", mas "posso morrer". Feita a troca, nós falamos "posso estar" e não "posso está".

Meninos Livres












Debora Mangrich é atenta aos movimentos da cidade. Nessa foto, ela, muito mais do que fotografar, sacaneou dois alunos que pularam os limites do colégio Meta.

Livres dos cálculos, das ligações covalentes, dos versos de Oswald de Andrade, libertos da Revolução Russa, esses dois jovens foram buscar o sentido da vida exercendo a desobediência.

Como é doce e boba a (falsa) liberdade.

quinta-feira, setembro 17, 2009

O que sobrará do PT?

Com muita tristeza, li a matéria da jornalista Nayanne Santana. Antes, o Partido dos Trabalhadores orgulhava-se de ser uma legenda que admitia a pluralidade de ideias. O PT, entretanto, depois de seus anos iniciais, transformou-se em um grupo fechado que não ouve a fala diferente do outro, no caso, a do deputado federal Henrique Afonso.

A Comissão de Ética do PT puniu-o por ele inaceitar o aborto. Não há outra saída para Afonso. Por ser evangélico, ele não rasgará a Bíblia para ler ajoealhado a cartilha do partido. É uma questão de tempo sua saída.

O que sobrará do PT depois do poder?

PT pune Henrique Afonso
DeNayanne Santana

O deputado federal Henrique Afonso (PT) foi punido pelo Partido dos Trabalhadores por ser contrário ao aborto. Desde junho de 2010, o deputado aguardava o resultado do julgamento que decidiria se ele seria expulso da legenda de que ele faz parte há décadas. O resultado foi anunciado na quinta-feira, dia 17, por volta das 18 horas.

O diretório nacional do Partido dos Trabalhadores decidiu que Henrique será punido com suspensão por três meses das atividades partidárias e está proibido de participar, pelo período de dois anos, como representante do partido na qualidade de membro titular ou suplente da Comissão de Seguridade Social Saúde e Família da Câmara dos Deputados.

Por meio de sua assessoria, o parlamentar informou que se manifestará sobre a decisão na próxima semana “depois de ouvir atentamente sua família, lideranças ligadas ao mandato e os companheiros do PT do Acre”, informou a assessoria parlamentar.

Entenda o caso

O pedido de expulsão do parlamentar acriano foi feito pela Secretaria Nacional de Mulheres do PT em junho de 2008 durante um encontro realizado em Brasília.

A secretaria pediu que o partido entrasse com processo contra o parlamentar acriano e contra o deputado federal Luiz Bassuma (PT-BA), que também é contra o aborto. Na época, foi divulgada uma nota em que Afonso explicava como foi formalizado o pedido de expulsão ou de punição.

Segundo a nota, a Secretaria Nacional de Mulheres, que faz parte da Executiva Nacional do PT, entrou com uma representação que solicita a instalação ‘imediata de Comissão de Ética’ para os deputados federais Luiz Bassuma (PT-BA) e Henrique Afonso (PT-AC), porque ambos tinham posições públicas contra a legalização do aborto no Brasil.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Estudante de Jornalismo

No último período da Uninorte, uma estudante de Xonarlismo evacuou a seguinte pergunta: "Que porra é essa de Aleac?".

Para quem não sabe, Aleac é Assembleia Legislativa do Acre.

terça-feira, setembro 15, 2009

Nem tudo é perfeito












Sempre votei em Jorge Viana. Nele, porém, incomoda-me sua pensão vitalícia de ex-governador e o peso de sua mão na imprensa acriana.

Quando foi governador, os chargistas deixaram de existir nos jornais do Estado, não podíamos rir de sua imagem, brincar com o representande do poder.

As fotos tinham de ser perfeitas. Na de acima, o fotógrafo congelou seu gesto inadequado, imperfeito. Jorge Viana é humano.

domingo, setembro 13, 2009

Nesta semana, Deus também é gay

De Aldo Nascimento

Nesses meus anos no Acre, ouvi muitas vezes de evangélicos desqualificados que homossexuais não são criaturas de Deus. Sujos, essas anomalias disseminam promiscuidade, devassidão, luxúria, pecados aos olhos de seres humanos normais. “O Senhor criou o homem e a mulher no Paraíso, não o homossexual”, disse-me um pastor.

Respondi-lhe que também não havia prostituta no Paraíso, porém Jesus, mesmo assim, impediu que Madalena fosse apedrejada. Há muito tempo, esses fanáticos atiram pedras em homossexuais porque a Madalena de ontem é o gay, é o travesti, é a lésbica de hoje.

Atire a primeira pedra quem não pecou.” Os homófobos cristãos, entretanto, por acharem que não pecam, por acharem que são puros, atiram suas pedras imensas e pesadas como a verdade. O Deus desses evangélicos é másculo e, em sua divina masculinidade, ergue sua viril homofobia.

Mas quem pensa que eles entregam tudo à lei de Moisés comete um judaico engano. O Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) questionava uma lei paulista que pune administrativamente quem discriminar alguém devido à orientação sexual.

Por causa dessa lei, a 10.948/01, o Cimeb afirmava que a Constituição estava sendo “rasgada e aviltada” pela criação de uma lei estadual que protege um grupo específico da sociedade. Os pastores evangélicos ligados ao conselho lembraram que outros grupos - mulheres, idosos, negros, nordestinos, divorciados, casais que não têm filhos, evangélicos, religiosos africanos, católicos e judeus - também sofrem discriminação sem ter uma lei semelhante.

Os homófobos da fé definiram a lei como uma “mordaça” que viola o direito constitucional de liberdade do pensamento. “A manifestação pública sob o ponto de vista moral, filosófico ou psicológico contrário aos homossexuais é passível de punição”, afirmam os “puros”. Contrariando as pedras desses evangélicos, o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou na semana passada a ação judicial do Cimeb, graças a Deus.

Poderia exemplificar outros casos, mas esse do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil deixa bem claro que evangélicos - os únicos representantes, segundo eles, de Deus na Terra - ambicionam um Poder Legislativo que seja a extensão da lei judaica, patriarcal e máscula.

Em Êxodo (32 :25-29), esse mesmo Deus-homem, criador da lei, ordena que Moisés retire a vida dos seus: “(...) e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho (...).” Antes, ainda em Êxodo (11:5-7), esse Deus ordena que “todo primogênito na terra do Egito morrerá (...).” O Deus de Israel mata crianças, seres inocentes e puros, para que o Faraó liberte o povo hebreu. Ainda hoje, esse Deus de evangélicos mata crianças palestinas, sufocando-as lentamente em um campo de concentração chamado Faixa de Gaza.

Certa vez, abrindo suas páginas, Carlos Drummond de Andrade disse aos meus olhos... “quando digo ‘meu Deus’/afirmo a propriedade./Há mil deuses pessoais/em nichos da cidade.” Se é assim, eu não creio em um Deus que mata ou em um Deus que chama homossexuais de sujos. O meu Deus não segura na mão da intolerância a pedra imensa e pesada da verdade.

Assim como no jardim há várias cores, várias formas e vários aromas, o meu Deus criou verdades. Nele, cabem os povos com suas línguas e com seus livros: Bíblia, Alcorão. Que triste seria a vida se houvesse arco-íris com uma só cor. Se há beleza na vida, é porque nela pulsa a diversidade das cores. O meu Deus é mulher. O meu Deus é homem. O meu Deus também é gay.

Na Semana da Diversidade, homossexuais não matarão seu semelhante, porque, do semelhante, eles desejam o corpo para o gozo, para o beijo, para o amor. Que homens beijem seus homens e que mulheres beijem suas mulheres sem perder na intimidade a dignidade humana, e essa dignidade não se encontra no orifício. Conheço muitos homossexuais mais dignos que heterossexuais.

Tanta fome neste país. Tanta miséria nesta pátria. Por entre os dedos de políticos, sai tanta injustiça social. O meu Deus tem mais o que fazer, não fica olhando para o rabo dos outros.

terça-feira, setembro 08, 2009

Entre a folia e a violência

Sena-Folia registra uma morte, uma tentativa de homicídio e 29 prisões

O Carnaval fora de época, o já tradicional Sena-Folia, realizado na noite de sábado em Sena Madureira, não foi dos mais tranquilos. Mais de cinco mil pessoas lotaram as dependências da praça 25 de Setembro.

As Polícias Civil e Militar prenderam 29 foliões. A grande maioria por excesso de bebida, desordem ou pequenas desavenças, nada de muito grave. O saldo negativo ficou por conta de um homicídio e uma tentativa de homicídio.

TRÊS TIROS
Era madrugada de domingo, o jovem Francisco Rodrigues da Silva, o Barrão (22), retornava para casa quando dois homens encapuzados dispararam contra ele. Atingido nas costas, no abdome e no braço, o rapaz correu para pedir ajuda.

Depois de passar pelo hospital, foi transferido para o hospital de Rio Branco e submetido a cirurgias de emergências. Um acerto de contas seria a causa do atentado.

ASSASSINATO
Na madrugada de domingo, policiais souberam que um homem havia sido assassinado nas proximidades da área da folia. No local, eles se depararam com um jovem de uns 22 anos morto a pauladas. Ele estava com o rosto desfigurado.

Como não tinha documento, foi encaminhado ao Instituto Médico Legal de Rio Branco, onde permanecia até ontem à espera de parentes.

Os dois crimes estão sendo investigadores pelo delegado Jarlen Alexandre.

Um bom livro



O poeta da filosofia, Nietzsche, diz que
não existe verdade, mas interpretações.







Sete de Setembro, o desfile, mereceu uma caprichosa interpretação de Roberto DaMatta no livro Carnavais, malandros e heróis. Assim como Raízes do Brasil e Casa-Grande e Senzala, a obra de DaMatta é um clássico para o brasileiro entender melhor sua pátria.

No Acre, o desfile iniciou-se à noite, o que é um erro simbólico. A parada militar emerge ao amanhecer. O carnaval é que pertence à noite. Para o antropólogo, o Dia da Pátria representa o reforço; o carnaval, a inversão; e a procissão, a neutralização.

Conforme Roberto DaMatta escreve, a parada militar e a procissão assemelham-se porque elas fazem uma trajetória familiar. Ele chama a parada militar de uma segunda procissão.

Mas os soldados não reverenciam a população, e sim as autoridades. A continência, que é com a mão direita - por que a direita? -, representa uma obediência à ordem, a uma organização social fixa. A parada militar é moralizadora.

Nesse sentido, 7 de Setembro se mantém organizado como há anos, diferente do carnaval. No Acre, a Frente Popular organiza o carnaval para também ser familiar, perdendo assim sua força de subversão da ordem social. Não são assimilados os signos da festa de Momo, mas os signos do Dia da Pátria, a população os assimila. Como escreve DaMatta na página 52, "o Dia sa Pátria é um rito formal e que celebra a estrutura", no caso, a divisão social, a divisão de classe.

O carnaval, informal que é, não celebra essa divisão, mas a inverte, por isso a Secretaria de Cultura do Estado do Acre, sem compreender a importância cultural do carnaval, deforma-o.

Leia essa dica que oferto a teus olhos.

Banco Irreal

Em Rio Branco, Acre, o banco pode se chamar Real, mas a realidade do cliente é irreal. Blogueiro(a), repare nos minutos.

domingo, setembro 06, 2009

Ainda sobre Marina Silva

Jogo embaralhado

Como Collor e Jânio Quadros, Marina Silva encarna figura salvadora em um cenário político degradado, mas sua "doce" presença terá efeitos mais promissores, defende José Arthur Giannotti

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI
COLUNISTA DA FOLHA

A senadora Marina Silva abandona o PT, inscreve-se no Partido Verde e se prepara para lançar-se como candidata à Presidência da República. De repente, todo o jogo político anterior, que tendia a se polarizar entre dois candidatos, se embaralha e se torna mais imprevisível. O que está acontecendo?

Antes explico meu vocabulário. Em geral não uso o conceito de sistema político porque me parece muito abstrato, pois capta antes de tudo a estrutura das regras de um processo mais rico. Prefiro aquele de jogo, não no sentido da teoria dos jogos porque, assim fazendo, cairia nas mesmas armadilhas armadas pelo conceito de sistema. Mas tomo "jogo" para descrever um processo real, como se fosse uma partida de futebol. O sistema demarca as regras; a partida, o curso das interações sociais; os times e partidos, os grupos socializados.

Posso então dizer que o jogo político brasileiro endoideceu, deixando de cumprir as tarefas que lhe correspondem em uma sociedade moderna: representar interesses dos vários grupos sociais, encená-los em um palco a ser visto e corrigido pela opinião pública, sempre com o intuito de reforçar e projetar um ideal de nação.

Note-se que a implosão do jogo pode muito bem não corresponder à destruição do sistema. Desse último ponto de vista, as regras da política democrática continuam sendo seguidas e os partidos têm mantido os desempenhos esperados. Mas cada partida é um desastre, os atores comem bola, revelam-se fantoches a mando de caciques debochados. Qual é a qualidade de nossa democracia?

Seria longo demais fazer a análise e a história desse derretimento. Mas me parece evidente que uma das causas foi a vinda do PT para o centro político e o pragmatismo cada vez mais descarado do lulo-petismo. De modo nenhum estou isentando as oposições da responsabilidade pelo desastre, apenas lembro que a ponta de lança da confusão se formou quando o PT de Lula, nas pistas do PSDB, aderiu a uma social-democracia de cunho "neoliberal", bebeu até a última gota do cálice das alianças envenenadas -se a política é essa sujeira, então não há como não aderir a ela, dizem eles- e se entregou a tal ponto às práticas tradicionais que ressuscita os velhos coronéis da política brasileira.

Luta política
É de esperar que, numa situação de anomia, surja uma força nova, capaz de refazer o sentido das jogadas. A disputa eleitoral já está nas ruas e caminhava para um duelo entre situação e oposição, cada parte fazendo todo o possível para aparentar o que de fato não é.

De repente surge "santa" Marina. O que isso significa? Costuma-se dizer que o poder corrompe. Isso tem muito de verdade, pois reside na essência da ação política. Se no início esta é quase sempre estimulada por ideais moralmente impecáveis, ela se degrada ao longo de seu exercício. Isso sobretudo porque se faz por meio de alianças que tanto aglutinam vários atores em vista de certos ideais como estabelecem uma divisão entre aliados e adversários.

Pouco importa se ambas as partes formulam esses ideais pelas mesmas palavras, as práticas emprestam a elas sentidos diferentes, à medida que ações, manipulando os fundos públicos e orientando o exercício da violência legítima, constroem forças coletivas que sempre encobrem uma diferença larvar.

Procurando conciliar, a ação política separa aliados e adversários. A decisão por maioria apenas posterga, ou transfere para outro plano, diferenças que se mantêm conforme vão sendo reformuladas. A luta pelo poder junta e divide.

Ora, nos últimos tempos, essa luta tanto se embaralhou que as ações e os próprios atores políticos estão progressivamente perdendo suas identidades. O termômetro é o presidente Lula, cujas falas e práticas contraditórias se espalham por todas as direções.

Renovação possível
Nessa situação de derretimento das ações instituintes, se espera que se levante um novo ideário. Já tenho idade para ter assistido a várias dessas irrupções salvadoras e moralizadoras: Jânio, Collor... Qual seria o conselheiro da vez? Temia um novo ator truculento, feroz demagogo querendo nos curar a ferro e a fogo.

Mas veio a doce Marina Silva. Sua presença já promete uma renovação possível, pode tornar mais higiênico nosso jogo político. Não me parece, até agora, que possa vencer a eleição para a Presidência, mas simplesmente sua atuação mobiliza novos atores, eleva o debate político, tende a reduzir os golpes baixos e a demarcar regras e personagens.

Se fizer uma campanha de alto nível e inovadora, coloca de vez a problemática do desenvolvimento sustentável na agenda de qualquer governo que resulte da próxima eleição.

E pode levantar a pergunta básica: que desenvolvimento queremos ter? Mas que ela não caia no abismo que a espreita: uma campanha altamente centrada nos problemas da moralidade pública desemboca, como já sabemos, na politicalha da sujeira.
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JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais! .

Habilidade matemática de uma menina

Em 31 de agosto de 2009, a Globo emitiu, mais uma vez, a imagem de Marina Silva no Programa do Jô. Ao ícone ambientalista, Jô Soares concedeu dois blocos. Quanto custa um minuto na maior audiência do país? A senadora Marina falou por muito tempo, uns 15 minutos por bloco.

No primeiro, suas palavras passearam pela floresta. Outra vez, Marina ratificou sua imagem de “protetora do meio ambiente” e, em nenhum momento, a mulher que nasceu em uma classe social pobre mostrou-se indignada com a miséria, com a exploração. No meio ambiente de Marina Silva, as injustiças sociais calaram-se na entrevista.

Pedi a Deus para a senadora falar dos desenganados, por isso esperei pelo segundo bloco. Ela, entretanto, usou o tempo caríssimo da televisão para falar dela mesma, da menina pobre que ajudou o pai a calcular a péla quando pesada. A menina Marina era hábil com os números. A senadora só não falou das oligarquias que sempre foram mais hábeis para trapacear nos cálculos.

Uma entrevista amena para entreter o público. Se eu quisesse assistir a uma provocação, a senadora Mariana Silva deveria estar diante de outro gordo, Antônio Abujamra (foto).

Mas quem saberia das habilidades matemáticas de uma menina se a audiência da TV Cultura é tão pequena?

terça-feira, setembro 01, 2009

Dez sugestões para uma manchete de jornal

No Acre, o PMDB colocará Pinto como candidato a governador. A princípio, posso afirmar que a campanha do PMDB acriano será ambígua. Leiamo:)

1. Pinto surpreende e cresce;
2. Pinto dispara na frente;
3. Pinto cresce nas pesquisas de boca;
4. Pinto perde a cabeça na campanha;
5. Indeciso na reta final, Pinto não sabe se sai ou continua;
6. No debate da TV, Pinto goza de adversários;
7. Pinto já está na boca do povo;
8. Pinto conquista donas de casa;
9. Comunidade gay dá todo apoio a Pinto; e
10. Mesmo sem força para subir na boca de urna, Pinto ainda acredita na virada.

Deixando de lado essas anfibologias, não acredito que na campanha de 2010 Pinto irá endurecer contra a Frente Popular.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Quando se lê em sala de aula...

Confesso que as palavras do deputado estadual Moisés Diniz (PC do B) foram decisivas para eu escolher "cultura popular" em minhas aulas de Literatura.












Neste ano, poucos dias antes, o deputado declarou que a Expo-Acre é uma grande "festa popular".

Assim sendo, escolhi "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, para o aluno ler e identificar conceitos relacionados aos personagens Chicó e João Grilo, fiéis representantes da cultura popular. Além desse belo livro, os filmes "Jeca Tatu" e "Tapete Vermelho".

Até o momento, ficou claro para os alunos que um conceito da cultura popular é o Riso. No livro de Ariano e no filme "Jeca Tatu", o riso se opõe ao poder. Ofertei aos estudantes personagens caipiras, figuras rurais antagônicas à imagem do caubói.

Ora, na Expo-Acre, predomina o modelo de comportamento do caubói, representante fiel da cultura de massa. Meu esforço, portanto, é estender diante de olhos juvenis leituras que revelem o caipira como personagem desobediente e contestador. Como disse antes, o caipira ri do poder.

Sobre o riso, eles lerão um fragmento do livro "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, cujo narrador apresenta a função do Riso.

Deputado, a Expo-Acre nunca foi festa popular.

A um novo blogue

Conheci-o na Universidade Federal do Acre, foi meu aluno. Naqueles minutos passados, chegamos a dividir um texto em um jornal da capital. Era 1993. Pois bem, após anos e anos, eu o revejo, nome escrito em meu blogue.

Márcio Chocorosqui escreve bem quando blogues e sítios se proliferam com um português roto e violado pela ignorância. Em seu blogue, lemos como se escreve corretamente, porém esse jovem nem sempre é obediente a regras. Como conhece seu idioma, como conhece sua ordem sintática, por exemplo, ele desobedece à LÍNGUA. Isso é para quem sabe.

Ele se chama Blecaute (clique no nome), mas em seu blogue não veremos a Língua Portuguesa mergulhada na escuridão do não saber escrever.

Um abraço em seu destino, meu jovem amigo!

quinta-feira, agosto 27, 2009

Meu PT...

Desde que Heloísa Helena saiu do PT, iniciou-se em meu cérebro uma crise ideológica entre meus poucos neurônios. Passado o tempo no poder, o meu PT substituiu crise por trauma. Como ficou difícil ser de esquerda neste "Berço Esplêndido" de José Sarney.



Conselho de Turma

Neste blogue (os dicionários da língua-pátria registram assim), escrevi tantas vezes que a escola pública acriana precisa de outro modelo interno de organização. Melhorar o ensino passa, TAMBÉM, por uma administração eficiente e nova.

O PT, nesse sentido, não avançou, não apontou novos caminhos. Já vamos para 12 anos. Para mim, o discurso oficial chegou ao limite, por exemplo, reforma de escola e maior salário do país - em São Paulo, professor se aposentará com quase R$ 7 mil.

Eu soube que a Secretaria de Educação oficializará os conselhos de disciplina na rede pública estadual. Se isso for uma realidade educacional, professores de Língua Portuguesa, por exemplo, reunir-se-ão uma vez por semana para que esse profissionais apontem problemas e indiquem soluções para a produção de texto em sala de aula.

Enquanto isso não existe, a escola Heloísa Mourão Marques busca há tempo esse tipo de organização. Hoje, um outro conselho, o Conselho de Turma, reuniu-se no quinto tempo. Foram três turmas e, para cada uma, em tese, a reunião deveria ser dirigida pelo padrinho de turma.

Na condição de padrinho da turma 2C, tentei realizar uma reunião rápida, considerando estes três pontos: falta, comportamento e gincana de conhecimento. Sobre falta, há colega de trabalho que não percebe a importância de professores da mesma turma registrarem a quantidade de falta em grupo.

Há casos em que o baixo rendimento de aluno relaciona-se às faltas em várias disciplinas. Se isso for registrado no Conselho de Turma, saberemos que o aluno X faltou tantas vezes em cada disciplina. Com essa reunião mensal, o corpo docente da turma se antecipa ao total de falta, passando para o coordenador de ensino um relatório com as faltas dos alunos a cada mês.

Como obter bom rendimento se falta tanto? A coordenação de ensino encontrará uma solução bem antes do final do semestre.

Quanto ao comportamento de alunos, os professores separarão uns que conversam demais. Em todas as disciplinas, sentar-se-ão no mesmo lugar determinado pelo Conselho de Turma. Se é uma solução, ela é coletiva, pertence ao CORPO docente.

Por causa disso, justifica-se também o funcionamento do Conselho de Turma.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Xuxa e sua educação britânica

Sasha Meneghel, filha de Xuxa, escreveu um post com um erro gramatical no Twitter da mãe, e acabou gerando piadas dos fãs da apresentadora. Xuxa ficou brava ao ler os comentários e disse até um palavrão para defender sua herdeira.

"Sou eu Sasha. Estou aqui filmando e vai ser um ótimo filme. Tenho que ir... Vou fazer uma sena (sic) com a cobra", escreveu a garota de 11 anos.

Xuxa, ao ver as piadas e ironias com sua filha, decidiu responder e colocou até um palavrão.

"Para quem não sabe, minha filha foi alfabetizada em inglês. Vou pensar muito em colocá-la para falar com vocês, ela não merece ouvir certas m...", falou a apresentadora em seu microblog.

"Fui. Vocês não merecem falar comigo nem com meu anjo".

A resposta de Xuxa gerou um movimento de pessoas para que parem de seguir a mãe de Sasha no Twitter, a partir desta quarta-feira (26).

sábado, agosto 22, 2009

"Jeca Tatu", de Mazzaropi



Turmas do
segundo ano
C e D

No Acre, o governo reformou a Biblioteca Estadual, ofertando a alunos um ótimo lugar para assistir a bons filmes, a Filmoteca. Por ser ainda uma capital pequena, isto é, onde o deslocamento é rápido, onde ainda pulsa a calma, alunos de escolas públicas podem sair tranquilos de suas casas em um sábado para, em pouco tempo, aprecisar o filme "Jeca Tatu" em um lugar confortabilíssimo.

Há anos, meus olhos assistem a filmes aqui com os olhos de meus pupilos. Sempre achei esse lugar charmoso, próprio do Acre. Não se trata de uma grande sala de cinema, algo igual a São Paulo ou a Rio de Janeiro - que bom não ser igual -, mas de uma sala aconchegante, miúda, intimista. Em todas as escolas acrianas, deveria haver esse modelo de sala.

Da outra vez, por causa de um funcionário, esperamos uma hora. Hoje, tudo... tudo correu muito bem.

Mas por que assistir ao filme "Jeca Tatu", de Mazzaropi? No Acre, como sabemos, o espaço que predomina é o espaço rural. No entanto, a cultura desse espaço rural não se firma como identidade acriana. Nos programas locais de TV, por exemplo, não se ouve a maneira de falar do homem rural e, muito menos, suas outras formas culturais. Há um processo lento e sutil de sepultamento dessa cultura.

Por causa disso, revolvi estudar com eles a cultura rural, ou seja, o homem caipira para, em um segundo momento, haver o confronto de signos entre a cultura caipira e a cultura country ou entre o caipira e o caubói.

Depois desse filme, assistirão a outro: "Tapete Vermelho". Depois, ao último: "Auto da Compadecida". Neles, a cultura popular, representada pelo caipira. E um conceito cruza esses três filmes: o riso.

quarta-feira, agosto 19, 2009

E Tião Viana?

Tudo indica que mais um senador sairá do PT. Mercadantes também se sente incomodado com a permanência de Sarney. Depois das declarações do senador Flávio Arns, PT do Paraná, e da saída da senadora Marina Silva do PT, fico pensando na posição do senador Tião Viana, do PT acriano.

Na revista Veja, ele revelou as contradições do partido. Será que Tião aceitará um partido que, para se manter no poder, vende seus ideais no Senado? Tião permanecerá no PT para criar novos caminhos? Ficará calado? E se falar mais e mais? O que fará com Sarney na presidência do Senado?

Arns quer sair do PT

O senador Flávio Arns (PT-PR) disse estar envergonhado por ser filiado ao Partido dos Trabalhadores. O senador disse que o PT "rasgou a página fundamental de sua constituição, que é a ética", ao votar a favor do arquivamento, no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado Federal, das denúncias apresentadas contra o presidente da Casa, senador José Sarney (PMDB-AP).

“Eu me envergonho de estar no PT, com esse direcionamento que o partido está fazendo. Quero dizer isso de maneira muito clara para todos os meus eleitores. Houve um equívoco. Quando entrei no partido, achava que bandeiras eram pra valer, não eram de mentira - afirmou o senador, acrescentando que as bandeiras que hoje movem o PT "são bandeiras eleitorais, bandeiras visando à eleição do ano que vem".

Flávio Arns afirmou que Arthur Virgílio, seja como deputado ou como senador, "tem honrado o mandato que o povo lhe confiou". Mas disse não poder dizer o mesmo de seus companheiros de partido que votaram a favor do arquivamento das denúncias contra Sarney. Ele lembrou que esses senadores assinaram um documento pedindo que as denúncias fossem investigadas, mas acabaram por tomar outra posição.

Logo depois de falar durante a reunião do conselho, Arns deu entrevista à imprensa em que admitiu estar pensando em deixar o partido. Ele disse, no entanto, que espera fazer isso com o reconhecimento da Justiça, uma vez que, a seu ver, o PT teria se afastado de seus princípios. (Agência Senado)

A breguice de Xuxa












Rancorosa, Xuxa ofende Gramado: "Eles tiveram de me engolir"

Celso Sabadin,
enviado especial a Gramado

Noite de horror e indignação em Gramado. Alguma mente desprovida de qualquer senso cinematográfico decidiu coroar Xuxa Meneghel como a Rainha do Cinema. É inclusive a manchete do Diário do Festival, que circula aqui no evento: Gramado Reverencia sua Rainha. E, pior: Kikito especial homenageia a rainha do cinema, da música e da televisão. No país de Fernanda Montenegro, de Aneci Rocha, de Laura Cardoso, de Helena Ignez, de Tônia Carreiro, de sei lá... Hebe Camargo, caramba... O Festival de Gramado, pateticamente, tenta vender ao público a mentira que Xuxa é a rainha do cinema. Tudo por um punhado de mídia. Como se vendem barato os organizadores do Festival de Gramado que decidem quais serão os homenageados!

Ontem (13/8), a noite de entrega do tal Kikito especial para Maria da Graça Meneghel foi um show de breguice deslavada que os 37 anos de Gramado não mereciam ter visto. Antes de mais nada, desde o dia anterior, montavam-se esquemas de segurança para a chegada da "Rainha". Não pode isso, não pode aquilo, vai ser assim, vai ser assado, ninguém pode falar com ela, ela não vai responder a nenhuma pergunta, não pode chegar perto, bla, bla, bla... Nem Barack Obama, se a Gramado viesse, mereceria tanta distinção.

Claro que tudo começou com atraso. Xuxa chegou ao chamado Palácio dos Festivais (cada Rainha tem o Palácio que merece) cercada do gigantesco alvoroço dos fãs. Alvoroço, aliás, que é a finalidade básica dos organizadores do festival ao convidá-la. Flashes, corre-corre, gritinhos, aquela coisa toda que o mundo das celebridades conhece bem. Ao ser chamada para a homenagem, a Rainha elegantemente desfilou pelos corredores do Palácio e, a poucos metros do palco, foi gentilmente abordada por um jovem súdito, aparentando pouco mais de 20 anos, que lhe pediu um beijo. Xuxa, ainda elegantemente, deu um leve beijo no rosto do rapaz e seguiu rumo ao palco, sem problema nenhum. Imediatamente, dois enormes seguranças imobilizaram o jovem, que levou uma chave de braço, foi rapidamente imobilizado e truculentamente retirado do local sob os gritos de protestos de alguns poucos que viram a cena.

Gramado precisava disso? De um showzinho particular de truculência e ignorância?

Já no palco, Xuxa recebeu seu troféu das mãos da atriz mirim Ana Júlia, foi ovacionada por parte da plateia, e dirigiu-se ao microfone onde desferiu a primeira bobagem: "Eu sou povo", ela disse. Bom, eu não conheço ninguém do povo que ostente seguranças truculentos para dar chaves de braço nas pessoas. Em seguida, num discurso rancoroso e até agressivo, Xuxa afirmou que nunca imaginou receber uma homenagem como aquela. "Nem eu", pensei, calado. E foi além: disse que jamais poderia pensar que o Festival de Gramado fosse capaz de superar os preconceitos e premiar uma pessoa do povo e suburbana como ela. Ou seja, chamou abertamente o Festival de preconceituoso. Como se, em edições anteriores, o evento só tivesse premiado magnatas e intelectuais.

Gramado precisava disso? De uma ofensa gratuita vinda de um homenageado?

A Rainha terminou sua fala dizendo: "Eu não me arrependo de nada. Eu não tenho vergonha de ser povo, de ser loira e vencedora". Ao que parte da plateia completou: "...E gaúcha!". De onde a loira tirou esta frase? Que nonsense foi este? Se eu não estivesse presente, não teria acreditado.

Porém, o pior estava por vir: ao descer do palco e voltar para os corredores do Palácio, Xuxa percebeu a presença do jornalista Luiz Carlos Merten, que por sinal estava sentado praticamente ao meu lado. Deu-lhe um amplo sorriso, abraçou o jornalista e sussurrou ao ouvido dele: "Eles tiveram de me engolir". Fiquei pasmo. Eles quem? Os organizadores de Gramado? Os críticos de cinema? O povo? Teria o espírito de Mário Jorge Lobo Zagallo incorporado provisoriamente na Rainha?

E, depois, se ela diz não se arrepender de nada, por que sua filmografia "oficial", publicada pelo Catálogo também oficial do Festival de Gramado, omite seus longas Fuscão Preto, Gaúcho Negro e Amor Estranho Amor? Os dois primeiros seriam bregas demais para a realeza? E o polêmico Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khoury? Algo contra a nudez da rainha? A rainha está nua?!

Segundo informações do Jornal de Gramado, além de todas estas barbaridades (para usar um termo bem gaúcho), Xuxa ainda teria cobrado um cachê de R$ 60 mil para aceitar ser homenageada.

Sinceramente, Gramado precisava de tudo isso?

Num momento de lucidez e equilíbrio, o ator José Victor Cassiel, apresentador do evento ao lado de Renata Boldrin, anunciou o próximo filme concorrente e conclamou a todos: "Vamos voltar ao Cinema". Perfeito! Xuxa, com seus filmes de péssima categoria, conteúdo risível, produção tosca e nenhum objetivo cinematográfico, além do merchandising e da bilheteria, pode representar qualquer coisa. Menos o cinema. Se o Festival de Gramado é um templo do cinema brasileiro, este foi profanado na noite de ontem.

E, Xuxa, rainha do cinema? Só se for a Rainha Má da Branca de Neve.

terça-feira, agosto 18, 2009

"Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos"

Segundo a crítica, a estreia da carioca Ana Paula Maia na literatura não poderia ter sido melhor. Sua narrativa desenha personalidade. Muito atual, a temática violência me seduz, por isso comprarei suas palavras para entender o Brasil deste século 21.



Leia esta belíssima resenha.

Jovem escritora aborda violência com estilo e preocupação social
DANIEL BENEVIDES

Colaboração para o UOL

A carioca Ana Paula Maia aborda a violência de maneira impiedosa e sem concessões

LEIA TRECHO DE "ENTRE RINHAS DE CACHORROS..."
A violência assume várias formas, muitas delas moldadas pelo mesmo motivo: a desigualdade. Partindo desse princípio simples e universal, a carioca Ana Paula Maia compôs duas novelas complementares, com muito sangue, escatologia e estilo.

Lançadas em capítulos pela internet, nos moldes dos antigos folhetins, "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos" e "O Trabalho Sujo dos Outros" são habitadas por personagens sujos, feios e, na falta de melhores opções, malvados. São, como revela a escritora numa breve apresentação, "homens-bestas", que fazem "toda a imundície de trabalho que nenhum de nós quer fazer".

Na primeira história, "pulp" ao extremo, no sentido de polpa mesmo, de massa de carne misturada com sangue, tripas, excremento, Edgard Wilson e Gerson vivem de matar e destrinchar porcos (não à toa, símbolos da sujeira, que se alimentam de lixo). É um serviço que fazem sem emoção, inertes, indiferentes. A morte e o sofrimento parecem tão corriqueiros quanto o calor sufocante do subúrbio onde vivem, a rala comida no prato, o colchão esquelético onde dormem. Para completar o quadro, a maior diversão dos dois amigos - talvez a única -, é apostar em duelos mortais entre cachorros.

Diante disso, um assassinato com extrema crueldade é apenas mais um fato do cotidiano, um mero problema a resolver - o próprio termo "crueldade", por mais que a violência tenha chegado ao limite do impensável, nem faz sentido, pois na aridez estéril do cenário em que se movem os personagens, totalmente à margem da sociedade (que sociedade, cara-pálida?), os valores sequer existem.

O(a) leitor(a), à essa altura, já percebeu que a escrita de Ana Paula Maia é impiedosa, que não faz nenhuma concessão. Suas palavras surgem como elementos secos, pedaços de osso que vão montando o esqueleto de um monstro bastante familiar, que nada mais é do que a realidade da qual a gente se acostumou a desviar o rosto. "A minha principal inspiração é o mundo real e suas deformidades. Nas artes, a literatura de Campos de Carvalho, a música de Johnny Cash e os filmes de Sergio Leone", ela declarou numa entrevista recente. A Leone poderíamos acrescentar Tarantino e Takeshi Kitano, como lembra a crítica Beatriz Resende.

Na segunda história, é mais evidente o lado político da autora, que se manifesta na investigação crua da condição humana, da imposição do trabalho, da resignação sem saída: "A minha intenção com a literatura é fazer minha política e estabelecer através da ficção uma série de códigos de ética, de conduta e investigação. Acho que a literatura tem algumas funções importantes como o autoconhecimento e a especulação do espírito humano".

"O Trabalho Sujo dos Outros" acompanha o dia a dia de Erasmo Wagner (há alguma ironia na escolha dos nomes), lixeiro, morador da região contínua de miasmas azedos, verdadeiro soldado desconhecido. Seus amigos são Alandelon e Edivardes (não falei?), que trabalham com britadeira no asfalto, tremendo os miolos sob o sol cáustico, e na limpeza da gordura acumulada nas pias e esgotos de bares e restaurantes.

A simbologia é explícita, o que não torna a novela menos impactante. Nas entrelinhas brutais do relato surge um bode com poderes místicos, cujo cheiro contamina cada parágrafo. É, talvez, o "bode" da literatura bem comportada, feita de beletrismos e frases harmônicas, de falta de compromisso com a realidade, de sujeição à acomodação. Daí a marca forte de Ana Paula Maia, que veio para ficar.

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"ENTRE RINHAS DE CACHORROS E PORCOS ABATIDOS"
Autora: Ana Paula Maia
Editora: Record
Número de páginas: 160
Preço sugerido: R$ 29

Tua vulgaridade me assombra, menina

Não posso neste espaço incidir luz sobre o nome dela, por isso deixo sua identidade ocultada. Só posso afirmar que seu jeito de andar e de falar conduz 15 anos da mais grosseira e gosmenta vulgaridade.

Não, enganei-me, ela não nasceu há 15 anos, parece ter mais idade. Entranhada em sua roupa, em seu sapato alto, em seu rímel, a vulgaridade a envelheceu. Velha em um corpo que exibe as deformações de seus 15 anos.

Desde Vladimir Nabokov, Lolitas espalham-se; porém, no caso dessa menina-velha de 15 anos, não existe a inocência inicial da protagonista do autor russo. A malícia evidencia-se para agredir sua própria idade, para agredir sua mãe.

Sua origem a rejeita. Expulsa de casa, seu rosto pintado perambula entre programas e conselho tutelar. Não me refiro a programas educativos na TV, longe disso, mas a programas cujo canal é outro. Quanto ao conselho, ela, aos 15 anos, não aceita conselhos, muito menos ser tutelada. Velhas são independentes.

Essa velha vulgar de 15 anos, entretanto, não espera a morte como tantas outras velhas de 70 ou de 80 anos. Nela, algo já morreu: a juventude.